terça-feira, 29 de abril de 2008

O universalismo soufi

" Meu lugar é em nenhum lugar, meu sinal é o não-sinal "


Gratificado pelo dom imenso de ter recebido a verdade das verdades, e revelado mistérios e arcanos da religião verdadeira dos soufis, [Dârâ Shokûh] decidiu fazer a mesma coisa com a doutrina dos monistas da India. Ele discutiu e conversou vàrias vezes com alguns Doutores e Perfeitos dessa comunidade que haviam alcançado o apogeu da ascese, da Intuição espiritual e da compreensão, assim que o extremo limite da gnose e da teosofia; mas, com exceção de algumas divergências verbais, ele não encontrou nenhuma diferença quanto a maneira deles de compreender e de conhecer Deus. Em seguida, ele começou a comparar os argumentos das duas tradições e a reunir àquelas de quais o conhecimento era ùtil e absolutamente necessàrio aos aspirantes da verdade. Depois ele fez um ensaio, e como este era uma coleção das verdades e das ciências esotéricas pertecendo às duas comunidades, ele o intitulou O Encontro dos dois Oceanos. Segundo a palavra dos grandes (entre os soufis), "o sufismo, é a justiça e o abandono dos deveres, [apenas exotéricos]". È por isso que qualquer pessoa - possuindo alguma justiça - pertencendo às Pessoas da Intuição espiritual saberà a que ponto foi preciso que nòs aprofundassemos essas matérias antes de revela-las. È uma certeza que aqueles que compreendem e são Pessoas da Intuição espiritual terão amplas satisfações com a leitura dessa obra; mas aqueles de quem a inteligência é opaca não terão nenhuma participação nesses benefìcios.
Empreendidos na fé de minha descoberta intuitiva e de meu sabor (espiritual), eu escrevi essa revelação das verdades para os membros de minha familia, não ligando para os homens ordinàrios de uma ou outra comunidade.

Dârâ Shokûh, La Rencontre des Deux Océans, D'après Daryush Shayeqan, Hindouisme et Soufisme, Albin Michel, 1997.




O que fazer, ô muçulmano ? Pois eu mesmo não me reconheço. Eu não sou nem cristão, nem judeu, nem mazdéen, nem muçulmano. Eu não sou nem do Oriente, nem do Ocidente, eu não venho nem da natureza, nem dos céus em revolução, eu não sou nem da terra, nem do ar, nem do fogo, nem do reino do Irak, nem do paìs do Khorâssan. Eu não sou nem desse mundo nem do outro, nem do paraìso, nem do inferno. Eu não sou nem de Adão nem de Eva. Meu lugar é lugar nenhum, meu sinal é o não-sinal; eu não sou nem corpo nem alma pois eu pertenço à Alma do Bem amado.

Rûmi, Divân - È Shams - È Tabriz, Trad. Èmile Dermenghem, L'Èloge du Vin, Véga, 1931.




Existem vàrios caminhos de pesquisa, mas a pesquisa é sempre a mesma. Você não vê que os caminhos que conduzem à Mecque são diversos, um que vem de Byzance, outro da Sìria, e outros ainda passando pela terra ou pelo mar ? A distância desses caminhos a percorrer é cada vez diferente, mas quando eles se concretizam, as controvérsias, as discussões e as divergências de pontos de vista desaparecem, pois os corações se unem....Esse impulso do coração não é nem a fé, nem a infidelidade, mas o amor.

Rûmi, Le Livre Du Dedans, Actes Sud, 1975.




Aquele que se apega a uma adoração particular nega por conseguinte necessariamente outras formas de crenças. Se ele conhecesse o senso da palavra de Junayd: " A cor da àgua, é a cor do seu recipiente", ele admitiria a validade de toda crença, e ele reconheceria Deus em toda forma e em todo objeto de fé. È que ele não tem o conhecimento de Deus mas ilustra apenas essa palavra divina; "Eu me conformo à opinião que Meu servidor se faz de Mim", o que quer dizer: "Eu sò me manifesto a Meu adorador sob a forma de sua crença [....]. " A divindade como ela se apresenta na crença é necessariamente definida pois Deus sò pode ser contido pelo coração humano em uma forma particular, segundo a palavra divina: "Nem meus céus, nem Minha terra podem me conter, mas o coração de Meu servidor fiel Me contem." Ao contràrio, a divindade absoluta não pode ser contida por nada, porque Ela é a essência mesmo das coisas e Sua pròpria essência.

Ibn Arabi, La Sagesse Des Prophètes, Albin Michel, 1974.





O universalismo soufi.


Do ponto de vista exterior, o sufismo foi vàrias vezes qualificado de "estrangeiro" ao islam, verdadeiramente "marginal", "herético" ou "syncrétique" por causa de seus encontros com a kabbale judia, a mìstica cristã, o neoplatonismo, o hinduismo, até mesmo o budismo.....verdadeiros e fecundos, esses encontros permanecem perceptìveis através vàrios poemas soufis, semelhantes aos de Rûmi, o fundador dos derviches tourneurs. Ùnico até o século XX por sua afirmação inter-religiosa e o rigor de sua demonstração, o livro surpreendente o Encontro dos dois Oceanos do prìncipe moghol Dârâ Shokûr (India, 1615-1659) leva ainda mais longe essa abertura.




O islam, religião aberta ?


Mas esse universalismo é islâmico ? Complexo e polêmico, a questão leva à questão das relações do islam com a alteridade, em particular religiosa. Mas nòs somos obrigados de constatar que o sufismo é "intimamente ligado ao Corão e ao modelo de Mohammed". Como repetiu o Bagdadi Junayd (morto mais ou menos em 911), um de seus representantes mas respeitados. Aos olhos de seus partidàrios, o esoterismo islâmico constitue mesmo o "coração do islam", de qual ele contribuiu com certeza a fazer desabrochar suas flores mais belas. Ao lado de outros argumentos mais ambìguos e até violentos, o Corão não é o ùnico Livro santo monoteìsta que afirma claramente e vàrias vezes o valor das outras religiões do Deus ùnico ? Dizendo de outra maneira, o sufismo parece ser o fruto de um universalismo consubstantiel à revelação muçulmana, mas ignorado ou rejeitado por outras leituras mais fechadas do islam. Contradição interna ? Não, complémentarité entre os pontos de vista esotérico - a abertura soufi - e exotérico - o fechamento da Sharia - que formam uma tradição religiosa completa.




A unidade transcendente das tradições


O universalismo transcendente soufi não é o resultado de uma vaga tolerância humanista ou de uma atenuação sentimental da validade do islam mas o resultado da compreensão ùltima da "doutrina da Unidade do Ser", seu pinàculo. Se a Verdade é uma, ela não saberia ser dividida: é então sempre ela que funda e coroa os diferentes caminhos espirituais autênticos.
De uma maneira filosòfica ou poética, esses textos expõem todos essa idéia de uma "unidade trancendente" das tradições religiosas verdadeiras, diferentes na superfìcie mas unidas pelo "centro" metafìsico delas, como explicarà no século XX o Francês René Guénon, que tornou-se ele mesmo soufi.
Se existem "vàrios caminhos de pesquisa, a pesquisa sendo sempre a mesma", como canta Rûmi, porquê então uma tal diversidade ? Para adaptar a revelação da Verdade às particularidades de diversos grupos e caràteres humanos, afim de melhor fazê-la compreender. Pois o Absoluto sò pode se manifestar no mundo relativo através os limites especìficos das lìnguas, històrias ou culturas que fazem o homem concreto. Dessa maneira, as diferentes religiões constituem a base "pedagògica" - parcial mas necessària - a partir da qual se desenha um caminho progressivo em direção da Verdade plena. Quando os soufis aproximam as mùltiplas tradições espirituais ou pretendem ter ultrapassado elas, é então para ressaltar essa irredutibilidade do Absoluto divino às crenças particulares. Uma compreensão inacessìvel - até mesmo revoltante - para o "homem comum". Reservada pelas circunstâncias às "Pessoas da Intuição espiritual", segundo as palavras de Dârâ Shokûh, ela é com efeito de essência esotérica e depende da mais alta realização espiritual. Contrariamente à opinião confortàvel de muitos admiradores modernos do sufismo, a ultrapassagem das formas religiosas constitue para ele o termo da Via, e não seu começo....

Réza Moghaddassi et Èric Vinson.

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