segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os Quatro Elementos

O estudo das forças ocultas da natureza, presentes nos quatro elementos e seus elementais são comuns a todas as culturas por tratar-se de uma necessidade latente do ser humano. A Iniciação Hermética quase sempre tem início com base nos quatro elementos grosseiros da natureza: ar, terra, fogo e água. A partir de uma evolução interior o iniciado passa a estudar os quatro elementos em sua forma mais sutil por meio de uma analogia entre o material tangível e o abstrato, psíquico ou espiritual.


Vejamos uma breve análise sobre cada um dos elementos, elaborada por mim, tendo por base os estudos sobre Hermetismo ao longo dos últimos anos. Tal síntese será apresentada em uma seqüência ordenada de tal forma que possa sintetizar da melhor maneira possível a natureza dos elementos de acordo com a ideologia espiritualista proposta pelo nosso site. Assim, poderemos obter uma visão mais ampla e maior compreensão acerca dos nossos processos criativos interiores em suas diversas fases:


Ar

O ar representa o meio pelo qual todas as ações e realizações humanas têm seu início: o nosso mundo das idéias. Espiritualmente falando, representa o éter ou plano astral, que, em linguagem mais moderna, pode muito bem ser chamado de psique ou inconsciente. É também o elemento representante da mente com suas freqüentes transformações. O elemento ar está dessa forma diretamente associado ao pensamento, e, segundo diversas correntes herméticas, é governado por elementais denominadas Fadas.


Fogo

O fogo representa o desejo, a vontade, a mudança, a purificação, a transformação, a energia da ativação, que em termos estritamente espirituais, pode ser representado pelo poder da fé. Segundo o hermetismo tradicional, esse elemento é governado pelas Salamandras e tem um significado espiritual muito forte por representar a Energia Divina. Em quase todas as religiões que se utilizam de rituais, o fogo é utilizado como forma de representação da Luz Divina. As velas, as fogueiras, são objetos que representam a força desse elemento.


Água

A água, segundo a maioria das correntes herméticas, está relacionada às emoções do inconsciente. Emoções que nutrem os nossos sonhos e ideais na vida. Pode muito bem representar, no processo espiritual construtivo, a energia da esperança que alimenta e mantém ativa a fé ou a crença do iniciado. Elemento governado pelas Undinas e de caráter feminino em sua essência. Ativa a intuição e a emoção. Os espelhos mágicos dos ocultistas podem ser objetos que muito bem representam esse elemento.


Terra

A terra representa, hermeticamente falando, o lado visível da vida ou a manifestação concreta de todas as sementes que germinam no mundo das idéias mediante a ação concreta do Iniciado. Esse elemento ativa nossa energia interna para a realização e para a ação de coisas concretas. Representa, ainda, o nosso próprio organismo e tudo o mais relacionado ao mundo material. Geralmente, em hermetismo, esse elemento pode ser representado pelo símbolo da cruz que alegoriza a materialização da essência divina. Os Gnomos são elementais que governam o elemento terra, segundo os ocultistas.


Simplificando:

Tudo começa com o elemento ar no mundo das idéias, onde predomina o caos de pensamentos e crenças variadas que desprendem energia aleatoriamente e sem foco. A partir de uma introspecção do Iniciado pelos recônditos misteriosos do Ser, predomina o elemento fogo, representando aqui a energia da vontade direcionada (a fé). Em seguida, deve predominar o elemento água, representativo do sentimento de convicção que deve nascer do fogo secreto da fé transformando essa crença inicial em uma esperança constante, vital para a concretização do processo criativo. Finalmente surge a predominância do elemento terra representando a materialização da vontade que surgiu dos recônditos interiores do ser. Essa é a forma que escolhi para representar o simbolismo dos quatro
elementos em nosso processo de criação de coisas psíquicas, espirituais e até físicas. Quem puder compreender; compreenda.

Para finalizar esta análise, vejamos a seguir um trecho extraído do meu livro Alquimista por Acaso, que tão bem exemplifica a natureza espiritual dos quatro elementos:
“Naquela noite, ao cair na cama, simplesmente me apaguei em um sono profundo. Não sei se devido à ansiedade latente da minha busca frustrada, pouco antes do alvorecer, tive uma série de sonhos, todos relacionados ao tesouro perdido. Um deles, porém, chamou muito minha atenção. Aconteceu um pouco antes do despertar. No sonho eu estava a escavar o solo em um imenso buraco que já havia feito sob a árvore, quando, de repente, ouço uma voz ressonante de um homem que estava à beira do buraco e que, nesse momento, já havia se transformado em um túnel escuro no qual eu estava imerso.

- Paulo – dizia o homem misterioso. Desista.
O tesouro que estás buscando é verdadeiramente encantado e só conseguirás teu intento quando estiverdes apto a quebrar tal encanto.
- Como posso fazer isso? Perguntei.
-Poderás quebrá-lo somente de duas maneiras: pelo sofrimento ou pelo conhecimento. Escolhendo o sofrimento escavarás sem parar por toda a extensão dessa mata. Através desse sacrifício desesperado poderás por sorte encontrar o tesouro em alguns anos. Se por outro lado, escolherdes o caminho do conhecimento, deverás seguir fielmente as instruções, e com sorte, no tempo prometido, encontrarás o que buscas.
- Qual das opções devo seguir? – perguntei já sabendo qual seria a resposta.
- O caminho do conhecimento é mais suave e menos doloroso - respondeu-me a voz. Pelo sofrimento levará anos para encontrar o seu tesouro. Seguindo a senda do conhecimento revelado pelas forças da natureza, ainda poderás atingir o objetivo no prazo estipulado.
- Como posso fazer isso? – perguntei gritando a ele do fundo do imenso buraco.
- Deves buscar a mistura dos quatro elementos na sua forma sutil e não na forma grosseira – respondeu-me o homem.
- Como assim? – Insisti. Não entendo o que quer dizer.
- O ar, a terra, a água e o fogo, portanto, elementos superiores; não os ordinários, respondeu-me ele.
- Continuo não entendendo o que significa isso – Insisti.
- Deves buscar os quatro elementos dentro de você – respondeu.
- Como conseguir tal intento?
- Não posso dar mais detalhes porque você deve ser digno do tesouro por seu próprio esforço. Apenas posso falar a respeito do significado dos quatro elementos no homem: o fogo representa um forte desejo, a água representa o sentimento que o nutre e a terra representa a manifestação desse desejo mediante a lei universal irrevogável de causa e efeito.
- E o elemento ar? – Perguntei-lhe.
- O ar representa o éter. Meio onde tudo se manifesta. Buscai e encontrareis a mistura dos elementos dentro de si. Esse é o segredo para o seu tesouro. Agora saia desse buraco porque o tesouro não está aí no escuro. Ele está na luz. Estas foram as últimas palavras ditas pelo homem misterioso em meu sonho antes do despertar.
Quando pensei em fazer mais algumas perguntas acordei assustado com a incrível lucidez vivida naquele sonho. Parecia um fato real. O buraco escuro do sonho mostrou um relevante contraste mediante a luz que agredia meus olhos pelo vidro da janela. Eram os primeiros raios do sol anunciando o nascer de mais um dia”.

sábado, 3 de outubro de 2009

Erzsébet Báthory

Erzsébet Báthory (7 de agosto de 156021 de agosto de 1614), em português Elisabete ou Isabel Báthory, foi uma condessa húngarada renomada família Báthory que entrou para a História por uma suposta série de crimes hediondos e cruéis que teria cometido, vinculados com sua obsessão pela beleza. Como conseqüência, ela ficou conhecida como "A condessa sangrenta" e "A condessa Drácula".

Nascimento e família

Erzsébet Báthory nasceu em Nyírbátor, que então fazia parte do Reino da Hungria, território hoje pertencente à República Eslovaca. A maior parte de sua vida adulta foi passada no Castelo Čachtice, perto da cidade de Vishine, a nordeste do que é hoje Bratislava, onde aÁustria, a Hungria e a Eslováquia se juntam.

Era filha do nascido plebeu barão Báthory, George e de sua esposa, Anna de Somlyó. Tinha um irmão, Stephan Báthory. Anna era filha de Istvan Báthory I de Somlyó e Katalin Telegdi. Anna era irmã do rei István Batory.

Erzsébet cresceu em uma época em que os turcos conquistaram a maior parte do território húngaro, que servia de campo de batalha entre os exércitos do Império Otomano e a Áustriados Habsburgo. A área era também dividida por diferenças religiosas. A família Báthory se juntou à nova onda de protestantismo que fazia oposição ao catolicismo romano tradicional.

Foi criada na propriedade de sua família em Ecsed, na Transilvânia. Quando criança, ela sofreu doenças repentinas, acompanhadas de intenso rancor e comportamento incontrolável. Em1571, seu tio István Báthory tornou-se príncipe da Transilvânia e, mais tarde na mesma década, ascendeu ao trono da Polônia. Foi um dos regentes mais competentes de sua época, embora seus planos para a unificação da Europa contra os turcos tivessem fracassado em virtude dos esforços necessários para combater Ivan, o Terrível, que cobiçava seu território.


Casamento e sadismo

Vaidosa e bela, Erzsébet ficou noiva do conde Ferenc Nadasdy aos onze anos de idade, passando a viver, no castelo dos Nádasdy, em Sárvár. Em 1574, ela engravidou de um camponês. Quando sua condição se tornou visível, escondeu-se até a chegada do bebê. O casamento ocorreu em maio de 1575. O conde Nadasdy era militar e, freqüentemente, ficava fora de casa por longos períodos. Nesse meio tempo, Erzsébet assumia os deveres de cuidar dos assuntos do castelo da família Nadasdy. Foi a partir daí que suas tendências sádicas começaram a revelar-se - com o disciplinamento de um grande contingente de empregados, principalmente mulheres jovens.

À época, o comportamento cruel e arbitrário dos detentores do poder para com os criados era comum; o nível de crueldade de Erzsébet era notório. Ela não apenas punia os que infringiam seus regulamentos, como também encontrava todas as desculpas para infligir castigos, deleitando-se na tortura e na morte de suas vítimas. Espetava alfinetes em vários pontos sensíveis do corpo das suas vítimas, como, por exemplo, sob as unhas. No inverno, executava suas vítimas fazendo-as se despir e andar pela neve, despejando água gelada nelas até morrerem congeladas.

O marido de Báthory juntava-se a ela nesse tipo de comportamento sádico e até lhe ensinou algumas modalidades de punição: o despimento de uma mulher e o cobrimento do corpo commel, deixando-o à mercê de insetos.


Viuvez e mais crimes

O conde Nadasdy morreu em 1604, e Erzsébet mudou-se para Viena após o seu enterro. Passou também algum tempo em sua propriedade de Beckov e no solar de Čachtice, ambos localizados onde é hoje a Eslováquia. Esses foram os cenários de seus atos mais famosos e depravados.

Nos anos que se seguiram à morte do marido, a companheira de Erzsébet no crime foi uma mulher de nome Anna Darvulia, de quem pouco se sabe a respeito. Quando Darvulia adoeceu, Erzsébet se voltou para Erzsi Majorova, viúva de um fazendeiro local, seu inquilino. Majorova parece ter sido responsável pelo declínio mental final de Erzsébet, ao encorajá-la a incluir algumas mulheres de estirpe nobre entre suas vítimas. Em virtude de estar tendo dificuldade para arregimentar mais jovens como servas à medida que os rumores sobre suas atividades se espalhavam pelas redondezas, Erzsébet seguiu os conselhos de Majorova. Em 1609, ela matou uma jovem nobre e encobriu o fato dizendo que fora suicídio.


Prisão e morte

No início do verão de 1610, tiveram início as primeiras investigações sobre os crimes de Erzsébet Báthory. Todavia, o verdadeiro objetivo das investigações não era conseguir umacondenação, mas sim confiscar-lhe os bens e suspender o pagamento da dívida contraída ao seu marido pelo rei.

Erzsébet foi presa no dia 26 de dezembro de 1610. O julgamento teve início alguns dias depois, conduzido pelo Conde Thurzo. Uma semana após a primeira sessão, foi realizada uma segunda, em 7 de janeiro de 1611. Nesta, foi apresentada como prova uma agenda encontrada nos aposentos de Erzsébet, a qual continha os nomes de 650 vítimas, todos registrados com a sua própria letra.

Seus cúmplices foram condenados à morte, sendo a forma de execução determinada por seus papéis nas torturas. Erzsébet foi condenada à prisão perpétua, em solitária. Foi encarcerada em um aposento do castelo de Čachtice, sem portas ou janelas. A única comunicação com o exterior era uma pequena abertura para a passagem de ar e de alimentos. A condessa permaneceu aí os seus três últimos anos de vida, tendo falecido em 21 de agosto de 1614. Foi sepultada nas terras dos Báthory, em Ecsed.


Julgamento e documentos

No julgamento de Erzsébet, não foram apresentadas provas sobre as torturas e mortes, baseando-se toda a acusação no relato de testemunhas. Após sua morte, os registros de seus julgamentos foram lacrados, porque a revelação de suas atividades constituiriam um escândalo para a comunidade húngara reinante. O rei húngaro Matias II proibiu que se mencionasse seu nome nos círculos sociais.

Não foi senão cem anos mais tarde que um padre jesuíta, Laszlo Turoczy, localizou alguns documentos originais do julgamento e recolheu histórias que circulavam entre os habitantes de Čachtice. Turoczy incluiu um relato de sua vida no livro que escreveu sobre a história da Hungria. Seu livro sugeria a possibilidade de Erzsébet ter-se banhado em sangue. Publicado no ano de 1720, o livro surgiu durante uma onda de interesse pelo vampirismo na Europa oriental.


Lendas posteriores

Escritores posteriores retomariam a história, acrescentando alguns detalhes. Duas histórias ilustram as lendas que se formaram em torno de Erzsébet Báthory, apesar da ausência de registros jurídicos sobre sua vida e das tentativas de remover qualquer menção a ela na história da Hungria:

  • Diz-se que certo dia a condessa, já sem a frescura da juventude, estava sendo penteada por uma jovem criada, quando esta puxou seus cabelos acidentalmente. Erzsébet virou-se para ela e a espancou. O sangue espirrou e algumas gotas caíram em sua mão. Ao esfregar o sangue, pareceu-lhe que estas a rejuvenesciam. Foi após esse incidente que passou a banhar-se no sangue de humanos.
  • Uma segunda história refere-se ao comportamento de Erzsébet após a morte do marido, quando se dizia que ela se envolvia com homens mais jovens. Numa ocasião, quando estava em companhia de um desses homens, viu uma mulher de idade avançada e perguntou a ele: "O que você faria se tivesse de beijar aquela bruxa velha?". O homem respondeu com palavras de desprezo. A velha, entretanto, ao ouvir o diálogo, acusou Erzsébet de excessiva vaidade e acrescentou que a decadência física era inevitável, mesmo para uma condessa. Diversos historiadores têm relacionado a morte do marido de Erzsébet e esse episódio com seu receio de envelhecer.


Descendência

  • Pal, casado com a plebeia Judith Revay;
  • András;
  • Anna, casada com Miklós VI, conde Zrinyi;
  • Orsolya;
  • Katalin, casada com Gyorgy, conde Drugeth de Omona;

domingo, 27 de setembro de 2009

Castelo de Montségur

O Castelo de Montségur localiza-se na comuna de Montségur, no Departamento do Ariège, na região do Midi-Pyrénées.naFrança.

Situa-se no topo da montanha, a 1.207 metros acima do nível do mar, em posição dominante sobre a vila. Atualmente é considerado como um dos Castelos cátaros.

Com efeito, este castelo foi implantado no local arrasado da antiga aldeia fortificada que constituía, até ao cerco de 1244, o local de resistência dos cátaros. As cotas arquitecturais demonstram que o atual castelo foi construído com base na antiga medida davara inglesa que apenas foi introduzida ulteriormente, o que demonstra que este foi parcialmente reconstruído pela família do novo senhor de seus domínios, o Marechal da Fé Guy II de Lévis, após a sujeição dos cátaros em 16 de março de 1244.


História

O sítio do atual castelo conheceu três grandes épocas construtivas, ao longo das quais a fortificação evoluiu:

Uma primitiva estrutura foi erigida no cume da montanha (denominado em língua francesa como "pog"[1]) da qual não se sabe muito a não ser que se encontrava em ruínas por volta de1204, data na qual aquela vila foi fortificada sob a direção de Raymond de Péreille. A esta vila fortificada, ou "castrum", os arqueólogos denominaram de Montségur II.


A fortificação cátara

O dispositivo defensivo desta fortificação era diferente daquele que observamos atualmente. O "castrum", em si mesmo, compreendia a residência fortificada do senhor dos domínios, o "castellum" (que foi, sem dúvida, restaurado pela casa de Lévis obtendo a sua conformação atual) e a vila cátara da época, envolvidas por uma cintura fortificada. Do lado da atual via, sobressaem três muros de defesa, onde o primeiro se situa ao nível da atual bilheteria onde se adquirem as entradas para as visitas pagas ao castelo. Em uma outra face do "pog", a cerca de oitocentos metros, se ergue uma torre de vigia, (sobre a rocha de "La Tour") dominando uma falésia de oitenta metros de altura. A entrada do "castrum" sob esta torre é defendida por uma barbacã. No interior do recinto da fortificação se erguia uma vila da qual nada mais resta do que alguns terraços a Noroeste do atual castelo. Sobre estes últimos, encontram-se as fundações de muitas habitações, de escadas para comunicação entre os terraços, uma cisterna e um silo.

Montségur abrigou uma importante comunidade cátara. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão denunciou a fortificação como um reduto de heréticos. Em 1229, o papel de Montségur como um abrigo para a Igreja Cátara foi reafirmado pelo Tratado de Meaux-Paris de 1229. A partir de 1232 este papel não cessou de se reafirmar. Paralelamente, o castelo acolheu igualmente os cavaleiros faiditas[2], que haviam perdido as suas terras pelo Tratado de 1229. Entre estes últimos destacam-se os nomes de Pierre-Roger de Mirepoix, primo de Raymond de Péreille, que veio a ser o comandante militar de Montségur.



O cerco do castrum

Na primeira metade do século XIII, a fortificação de Montségur sofreu nada menos do que quatro assédios, dos quais apenas um logrou sucesso:

Este último foi desencadeado pelo massacre de alguns inquisidores em Avignonet (1242) por um grupo de cerca de sessenta homens procedentes da guarnição de Montségur. O senescalde Carcassonne e o arcebispo de Narbonne (Pierre Amiel) foram incumbidos de assediar a fortificação, por ordens de Branca de Castela e Luís IX. Em maio de 1243, os cruzados, em número que ascendia a seis mil homens, cercaram Montségur.

O equilíbrio de forças durou até ao Natal de 1243, quando um punhado de "alpinistas" logrou, após uma audaciosa escalada noturna, assenhorear-se da torre de vigia. A partir deste momento, um "trébuchet" foi içado e ali instalado, passando a atirar, sem descanso, sobre a posição cercada, conforme o testemunham as inúmeras bolas de pedra cortada encontradas no sítio. Cerca de um mês mais tarde, talvez após uma traição local, a barbacã caiu nas mãos dos assaltantes. Um último assalto, lançado em fevereiro foi rechaçado, mas deixando os defensores extremamente enfraquecidos.


A rendição da praça-forte

Castelo de Montségur, França: vista interior.

A 1 de março de 1244, Pierre-Roger de Mirepoix se viu forçado a negociar a rendição da praça-forte. Os termos foram os seguintes:

  • a vida dos soldados e dos leigos seria poupada;
  • os "perfeitos" que negassem a sua fé seriam salvos;
  • uma trégua de quinze dias foi acordada, para que os cátaros que desejassem se preparar e receber os últimos sacramentos.

A 16 de março, a fortificação se abriu novamente. Todos os cátaros que não abjuraram da sua fé, pereceram sobre a fogueira, que engoliu assim, um pouco mais de duzentos supliciados (o número varia ligeiramente de acordo com as fontes) incluindo a esposa, a filha e a sogra de Raymond de Péreille.

A tradição sustenta que a fogueira foi montada a cerca de duzentos metros do "castrum" no chamado "Prat dels Cremats" (campo dos queimados) onde uma estela contemporânea foi erigida pela Société du souvenir et des études cathares. Sobre esta última figura a inscrição: "Als cathars, als martirs del pur amor crestian. 16 mars 1244" (Aos cátaros, aos mártires do puro amor cristão. 16 de março de 1244). Entretanto, parece que o verdadeiro local da fogueira está situado sobre a colina acima do estacionamento à direita do desfiladeiro voltado sobre Montferrier[3].


Montségur sob o domínio da família de Lévis

Após a tomada do castelo em 1244, os domínios do "pog" retornam a Guy II de Lévis, Marechal da Fé, senhor oficial de Mirepoix desde o Tratado de Paris de 1229. Os restos da aldeia cátara foram arrasados assim como o recinto fortificado externo. O "castellum" foi restaurado e redimensionado para abrigar uma guarnição de cerca de trinta homens que ali se conservará até à assinatura do Tratado dos Pirinéus (1659). Um documento de 1510 refere o castelo como "defensável". Após o século XVII, perdida a sua função estratégica, o castelo foi abandonado, mergulhando em ruínas.


A reabilitação do castelo

O castelo foi classificado como monumento histórico em 1875 e o "pog", sobre o qual está situado, acrescentado a esta classificação em 1883.

Desde então, o sítio não parou de incendiar a imaginação popular a tal ponto que muitos não hesitaram em escavar o "pog" a título pessoal, em busca de um tesouro supostamente ali oculto.

A campanha de restauração do castelo, iniciada paradoxalmente apenas em 1947 sustou estas degradações mas apagou, ao mesmo tempo, alguns testemunhos arqueológicos. Esta restauração motivou uma prospecção espeleológica da montanha, promovida pela Société spéléologique de l'Ariège. Esta última conduziu, em 1964, à exumação de uma sepultura no local denominado "aven du trébuchet".

Em 1968 foi fundado o Groupe de Recherche Archéologique de Montségur et Environs (GRAME), que desde então vem conduzindo várias campanhas de prospecção arqueológica no sítio.


Os mitos em torno de Montségur

Deve-se ao pesquisador do Ariège, Napoléon Peyrat, a partir de 1870, a redescoberta entusiástica de Montségur, e à inspiração de sua pena a atmosfera romântica que desde então cerca o local, a tal ponto que ainda hoje é difícil para um determinado público admitir que o templo do Paráclito seja apenas um pequeno castelo francês reconstruído no século XIV.


O fenômeno solar em Montségur

A cada ano, no solstício de Inverno, o primeiro raio de sol no horizonte atravessa o castelo no sentido do seu comprimento, e o solstício de Verão, atravessa os quatro arcos da torre de menagem a Noroeste, com uma precisão milimétrica.

Certos autores vêem neste fenômeno uma ligação entre o culto solar e a religião dos Cátaros.


O tesouro dos cátaros

Acredita-se que Montségur tenha abrigado o rico tesouro atribuído aos Cátaros. Deste suposto tesouro, entretanto, não dispomos de muitos subsídios. Dois fatos alimentam as especulações em torno do mesmo:

  • o primeiro é a fuga, a cavalo, do "Perfeito" Mathieu e do diácono Bonnet, em torno do Natal de 1243, portando "ouro e prata e uma ínfima quantidade de moeda". Acredita-se que este tesouro tenha chegado a Cremona, na Itália, onde uma outra importante comunidade Cátara viveu à época. Esta suposição é reforçada pela comprovada correspondência epistolar entre as duas comunidades.
  • um segundo tesouro teria sido salvo durante a trégua de março de 1244, uma vez que é referido que quatro indivíduos evadiram-se de Montségur com um carregamento. Os historiadores conjecturam que este tesouro reuniria numerosos textos heréticos conservados pelos "Perfeitos" na fortificação.


O graal pirenáico

Montségur foi considerado como sendo o castelo depositário do Santo Graal. Este teria se constituído em uma das peças do suposto tesouro dos Cátaros: o cálice no qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Jesus Cristo sobre o monte Gólgota para alguns, ou a esmeralda caída da coroa de Lúcifer quando da queda dos Anjos, para outros. O Alemão Otto Rahn foi o artífice deste mito, que lhe foi inspirado por um erudito de Ussat-les-Bains, Antonin Gadal.

Otto Rahn havia estudado a história dos Cátaros e apaixonou-se por esta área do Languedoc, rica em lendas. Desse modo, desde 1932, havia se instalado na pequena estação termal de Ussat-les-Bains, no Hotel Marronniers do qual assumiu a gestão. Graças às teorias poéticas de Antonin Gadal, escreveu a "Croisade contre le Graal" que contribuiu ativamente, após a publicação do primeiro ensaio sobre Montségur de Napoléon Peyrat, para a renovação do interesse pela Occitania.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Montségur

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sendivogius, Michael.

1. Dates
Born: Skorsko or Lukawica, Poland, 2 Feb 1566
Died: Cravar, Silesia, Jun [?] 1636
Dateinfo: Both Dates Uncertain
Lifespan: 70 Note that Pollak indicates that the year of birth is uncertain--either 1556 or 1566. Pollak and Brückner claim he died in 1646. The generally accepted dates, however, are 1566-1636.
2. Father
Occupation: Aristocrat
His parents, Jacob Sedizimir and Catherine Pelsz Rogowska, were both of noble families and had a small estate near Nowy Sacz, in the Cracow district.
They are said to have been wealthy.
3. Nationality
Birth: Skorsko or Lukawica, Poland
Career: Prague, Czechoslovakia, Poland, and Germany
Death: Cravar, Silesia
4. Education
Schooling: Leipzig, Vienna
No confirmed primary or secondary education; probably stuied in a monastic school in Krakow.
1590, entered the University of Leipzig. In this year he met Alexander Seton in Germany.
1591, moved to the University of Vienna.
No mention of a B.A.
5. Religion
Affiliation: Catholic (assumed).
6. Scientific Disciplines
Primary: Alchemy
7. Means of Support
Primary: Patronage, Government, Personal Means
Secondary: Merchant
1593, entered the service of Emperor Rudolf II in Prague as a courier and later served simultaneuosly as secretary to the Polish King Sigismund III.
1594, he married Veronica Stieber, a wealthy widow.
In 1595 his name appears on the rolls of the University of Altdorf, probably as an imperial official rather than as a student. He may also have visited Rostock, Ingolstadt, and Cambridge.
Toward the end of the 1590s Sendivogius became increasingly influential at court. In 1597, he bought the Fumberg estate from the widow of the English Alchemist Edward Kelley. He also owned two other estates (Lukawic and Lhota). In 1598, he was named privy councillor and was granted such large sums of money that he soon became one of Bohemia's most significant landowners.
1597-8, on order from Rudolph II, he travelled to the East, visiting Greece et al.
In 1599, he left Prague after having been imprisoned for swindling his patron, the rich Merchant Koralek. He returned to Poland, where Wolski introduced him to King Sigismund III. He was recalled to Prague in 1602 and named privy councillor.
In 1605, while on a diplomatic mission to France, to act as an intercessor for the release of Seton from a Saxon prison, he was lured to the court of Duke Friedrich of Wuerttemberg at Stuttgart. He was imprisoned, but released.
After a visit to Cologne (1607), he returned to Poland, where he became a courtier to Queen Constantia, the second wife of Sigismund III. With crown marshall Mikolaj Wolski he established many smithies and iron and brass foundries in Krzepice, which later became a leading industrial center. This was undoubtedly lucrative, for he soon became the owner of several houses in Cracow. (I list this under Merchant.)
Around 1619, he transferred allegiance to Emperor Ferdinand II, for whom he established lead foundries in Silesia. In 1626 he was appointed privy councillor at a salary of 500 Fl. (later 1000 Fl.), and in 1631, as compensation for long-unpaid salaries, he received the estates of Cravar and Kounty in Crnow county, Moravia.
8. Patronage
Types: Merchant, Court Official, Aristrocrat, Government Official
Upon his arrival in Prague Sendivogius stayed with the physician Nikolaus Loew von Loewenstein, through whom he met the patrician merchant Ludwig Koralek von Teschin, who was an early patron. Sendivogius began his alchemical work in Koralek's own laboratory. Koralek lent Sendivogius 5600 "Schock meissnisch" (which I presume was some form of currency from Meissen) around 1595. Sendivogius still owed 2000 Schock in 1599. Sendivogius was accused of involvement in Koralek's death in 1599.
He served Emperor Rudolf II and Sigismund III simultaneously in the 1590s. He became a favorite and trusted friend of Rudolf II through his alchemical work. In 1599, he was accused before the municipal court of Prague of being responsible for the death of a friend and fellow alchemist, Koralek, and sentenced to prison. After intervention from Sigismund III and/or Herrn von Hasenberg, a patron of alchemists, he was released. Rudolf's inaction in getting him out of prison soured him, and he left Prague.
He was lured to the court of Duke Friedrich of Wuerttemberg at Stuttgart in 1605, who had noticed Sendivogius' claim in De lapide philosophorum (1604) to possess the secret of the philosopher's stone. The Duke put Sendivogius in prison. Sigismund III, Rudolf II, and several German princes intervened and Friedrich grew alarmed. He arranged for Sendivogius to escape and put the blame on his court alchemist, Heinrich Muehlenfells, who was condemned to die.
Also related to his patronage by the Polish King Sigismund III: he was courtier to Queen Constantia, Sigismund III's second wife.
Already in 1575, in Poland, he had the support of Mikolaj Wolski, then Starost (a kind of royal sheriff, often in charge of district courts) of Krzepice (near Czestochowa), and later Crown Marshall.
In 1603, Sendivogius resumed alchemical work at Krzepice with continued support from Wolski and Jerzy Mniszek, the Wojewod (Palatine) of Skandomeirz. (Mniszek was famous for his role in sponsoring the false Dmitri's efforts to claim the throne of Muscovy.)
1619, he transferred allegiance back to the court of the Holy Roman Emperor, now Ferdinand II, to whom he was appointed privy councillor (1626) and from whom he received two estates (1631).
According to the D.S.B., "He was undoubtedly a political double agent."
9. Technological Involvement
Type: Metallurgy
Sendivogius was responsible for establishing foundries in Krzepice and Silesia, and he evidently made a fair amount of money out of it. He also established lead foundries in Silesia.
10. Scientific Societies
Memberships: None
Connections: His friends included the alchemists Alexander Seton, Joachim Tancke, Oswald Croll, J. Orthel, J. Kapr von Kaprstein, V. Lavinus, R. Egli, Martin Ruland, Michael Maier, and Ludwig Koralek. In 1615-16 he visited Johannes Hartmann's laboratory at Marburg.
Sources
  1. J. Svatek, Culturhistorischen Bilder aus Boehmen (Vienna, 1879), pp. 78-84. [DB200.5.S88]
  2. Aledsander Brückner, Dzieje Kultury Polskiej, vol. II Polska u Szczytu Potegi. 2nd ed. (Wydawnictwo J. Przeworskiego: Warszawa, 1939), p. 230. Roman Pollack, Bibliografia literatury polskiej. Pismiennictwo staropolskie. Warsaw: Panstwowy Instytut Wydawn., 1963-5, III: 229-31.
  3. Bogdan Suchodolski, gen. ed., Historia Nauki Polskiej, 3 vols. Wroclaw: Zaklad Narodowy imienia ossolinskich wydawnictwo Polskiej Akademii Nauk, 1970. Vol. 1: Sredniowiecze, by Pawel Czartoryski and Odrodzenie by Pawel Rybicki. Vol. 2 Barok: by Henryk Barycz and Oswiecenie by Kazimierz Opalek.
Not Available and Not Consulted
  1. H. Barycz, "Rozwoj nauki w Polsce w dobie Odrodzenie," Odrodzenie w Polsce. Materialy Sesji Nauk. PAN 25-30 Pazdziernika 1953 r. T. 2: Historia Nauki. Cz. 1 w-wa 1956 pp. 61-2; 135-6. Osob. pt. Dzieje nauki w Polsce w epoce Odrodzenia.
  2. R. Bugaj, W poszukiwaniu kamienia filozoficznego. O Michale Sedziwojo, najslnniejszym alchemiku polskim. (Warsaw, 1957).
  3. T. Estreicher, "Z dziejow alchemii," Przeg. Powszechny, 1927 t.
  4. 174 s. 178-83.
  5. C. Lechicki, Mecenat Zyg. III, (Warsaw, 1932).
  6. W. Hubicki, "The True Life of Michael Sendivogius," Actes du XI Congres international d'histoire des sciences, 4 (Warsaw, 1965), 31-5.) A.Z. Szydlo, The Life and Work of Michael Sendivogius, Ph.D. thesis University College, London Univ., 1992.

Eliphas Levi Zahed

A Origem Religiosa

O abade francês Alphonse Louis Constant, conhecido nos meios ocultistas como Eliphas Levi Zahed (tradução hebraica de seu nome), é considerado por muitos, o mais importante ocultista do século XIX. Eliphas nasceu no dia 8 de fevereiro de 1810 em Paris, filho do sapateiro Jean Joseph Constant e da dona de casa Jeanne-Agnès Beaupurt. Possuía uma irmã, Paulina-Louise, quatro anos mais velha.

Quando pequeno, Levi possuía grande aptidão para o desenho. Mesmo assim, seus pais o encaminharam para o ensinamento religioso aos 10 anos, quando ingressou no presbitério da Igreja de Saint-Louis em L'Île, onde aprendeu catecismo com o abade Hubault. Aos 15 anos, devido ao seu brilhantismo e dedicação ao sacerdócio, foi encaminhado ao seminário de Saint-Nicolas du Chardonnet, e começou a se aprofundar nos estudos lingüísticos de forma tão notável que logo lia a Bíblia em sua versão original. Em 1830, foi cursar filosofia no seminário de Issy. Mais tarde, ingressou em Saint-Sulpice para estudar teologia.

Após terminar o curso de teologia, Eliphas ascendeu na hierarquia da Igreja e foi aceito nas ordens maiores, ordenando-se subdiácono. Começou a lecionar em um colégio para moças e, seguindo com dedicação a carreira eclesiástica e seus estudos religiosos, escreveu uma peça bíblica chamada Nimrod, e vários poemas religiosos que projetaram sua imagem dentro da Igreja.

Entretanto, o jovem Alphonse sentiu o peso de tantos anos de reclusão e ascetismo. Conheceu uma jovem, pobre, tímida e retraída que os outros padres haviam se recusado a atender e preparar para a comunhão. Eliphas não só aceitou a tarefa, como prometeu tratá-la como filha. A menina, que se chamava Adele Allenbach, de uma beleza pura e cândida, pareceu a Eliphas ser a imagem da própria Virgem Maria. Essa beleza juvenil correspondeu para ele a uma "iniciação à vida", pois amou-a ternamente como se fosse uma deusa, marcando para sempre em sua vida.

Eliphas foi ordenado diácono, em 1835, mas no ano seguinte, quando estava para atingir o cargo de sacerdote, confessou ao seu superior o que havia sentido com relação à jovem, anos antes. Desse momento em diante, as portas da carreira eclesiástica se fecharam brutalmente para ele, o que lhe causou uma grande consternação e abalou sua visão de Deus e do mundo religioso.

Aos 26 anos, Eliphas saiu do seminário e começou uma nova jornada em sua vida. Sua mãe, ao saber de sua saída, suicidou-se. E isso, somado ao fato de que muitos boatos que começaram a circular, diziam que havia sido expulso do seminário pelo seu envolvimento com uma jovem, o deixou muito abalado.

A Descoberta do Ocultismo

Sem experiência do mundo, Eliphas teve muitas dificuldades para encontrar um emprego, principalmente pelos boatos que denegriam sua imagem. Assim, percorreu grande parte da França, trabalhando algum tempo num circo e, em Paris, como pintor e jornalista, atividades que o levaram a conhecer um grande número de intelectuais e estudiosos. Com seu amigo Henri-Alphonse Esquirros, fundou uma revista denominada As Belas Mulheres de Paris, na qual aplicava-se como desenhista e pintor e Esquirros como redator.

Em 1839, Eliphas dirige-se a um local no qual entraria em contato com o oculto e as leituras consideradas proibidas e perigosas para os cristãos, descobrindo que não havia perdido a inclinação para a vida mística e religiosa. Na cidade de Solesmes, havia um convento dirigido por um abade que não seguia as regras oficiais da Igreja e que tinha em seu acervo de documentos, grande quantidade de livros e textos gnósticos, muitos deles ligados à magia e aos seres de outros planos. Assim, Eliphas, estimulado pelos acontecimentos em sua vida, mergulha nessas leituras, procurando entender as relações entre Deus, o homem, o pecado e o Inferno. Lia os mais diversos autores em busca das respostas e, lendo livros da Senhora Guyon, chega à conclusões que mudariam a sua maneira de pensar dali em diante, como ele próprio chegou a descrever: "A vida e os escritos dessa mulher sublime, abriram-me as portas de inúmeros mistérios que ainda não tinha podido penetrar; a doutrina do puro amor e da obediência passiva de Deus desgostaram-me inteiramente da idéia do inferno e do livre arbítrio; vi Deus como o ser único, no qual deveria absorver-se toda personalidade humana. Vi desvanecer o fantasma do mal e bradei: um crime não pode ser punido eternamente; o mal seria Deus se fosse infinito!".

Partiu, então, de Solesmes com uma profunda paz no coração. Não acreditava mais no inferno! Já sem se fixar em emprego algum, Levi começou a escrever e divulgar suas descobertas místicas, que iam diretamente contra as idéias oficiais da Igreja. Também entrou em contato com os escritos do místico sueco Emmanuel Swedenborg (1688 - 1772), que Levi dizia serem capazes de conduzir o neófito pelo "Caminho Real", embora não contivessem a "Verdadeira Verdade".

Após publicar sua Bíblia da Liberdade, Levi foi preso, acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contra as bases da sociedade, de propagar o ódio e a insubordinação, e teve de pagar uma multa considerável para a época.

Em 1845, já influenciado por grandes magos da Idade Média, como Guillaume Postel, Raymond Lulle e Henry Cornelius Agrippa, Levi escreve sua primeira obra ocultista, chamada O livro das Lágrimas ou O Cristo Consolador.

No ano seguinte Eliphas se casa com Marie-Noémie Cadiot. Matrimônio esse, que acabou sendo um verdadeiro suplício para ele. Influenciado pela esposa, Levi chegou a escrever panfletos políticos incitando o povo contra o governo e a ordem vigente. Foi condenado a um ano de prisão e ao pagamento de mil francos de multa, acusado de estimular o povo ao ódio e ao desprezo do governo imperial; cumpriu seis meses da pena, graças à interferência de Noémie junto ao governo.

No ano de 1847, nasce a filha de Levi. Menina de saúde frágil que por várias vezes, esteve próxima da morte. Numa dessas ocasiões, Eliphas usou seu conhecimento dos sacramentos e das artes mágicas e reviveu a menina, numa cerimônia semelhante ao batismo cristão. Mas, em 1854, a menina não mais resiste às constantes debilitações e falece, para desespero do pai. Essa perda o marcou profundamente e influenciou para que seu casamento não durasse muito.

Eliphas chegou a fundar um clube político, em 1848, mas no ano seguinte abandonou-o, para dedicar-se exclusivamente ao Ocultismo.

A Consolidação do Grande Mestre

Embora saibamos que os estudos ocultistas de Eliphas começaram no mosteiro, a data de sua iniciação, propriamente dita, ainda é duvidosa. Sabe-se que ele colaborou e foi amigo do iniciador do famoso mago Papus. No entanto, tudo indica que o ocultista polonês Hoene Wronski, tenha sido o introdutor de Eliphas no "Caminho". Inclusive, Wronski ao falecer em 1853, em Paris, deixou setenta manuscritos catalogados por sua esposa, à Eliphas Levi, havendo outros que foram doados à Biblioteca Nacional de Paris.

No ano seguinte a morte de Wronski, Levi foi para Londres, onde teve contato com vários ocultistas que queriam ver os prodígios e milagres que ele era capaz de realizar. Ao que parece, esses praticantes viam na magia mais um objeto de curiosidade, do que um caminho de auto-realização. Isso fez com que Eliphas rapidamente se afastasse deles, isolando-se no estudo da Alta Cabala, fato que acabou abrindo ainda mais sua percepção mágica.

Eliphas encontrou, nesse período, um Grande Adepto (uma pessoa que atingiu um dos Grandes Graus dentro das Ordens da Senda Real e da realização divina), que se tornaria seu grande amigo: Edward Bulwer Lytton. Os dois Mestres teriam trocado informações iniciáticas sobre as sociedades ocultistas, das quais certamente eram os grandes expoentes. Inclusive, consta que teriam realizado trabalhos espirituais em conjunto, indo desde invocações a contatos com seres de outras esferas de realidade. As anotações desses trabalhos foram parar nas mãos de Papus, e publicadas posteriormente. Nesse material, existem registros sobre três visões de Levi e Lytton: de São João, de Jesus e de Apolônio de Tiana (na qual Apolônio é descrito como um velho). Nessas invocações e visões, teriam entrado em contato com forças que lhes revelaram os mistérios dos Sete Selos do Apocalipse, possibilitando a compreensão da Cabala Mágica; conheceram eventos futuros sobre a vida de ambos e sobre a humanidade; conheceram a Magia Celeste; também fora-lhes dito sobre as chaves dos milagres e de todos os prodígios mágicos; e, parte mais difícil da busca mágica, como manter e honrar os saberes conquistados na Senda e na Busca pelo Real Caminho.

Em 1855, Eliphas começou a publicar a Revista Filosófica e Religiosa, sendo que vários artigos da mesma, seriam posteriormente utilizados em seu livro A Chave dos Grandes Mistérios. Nesse mesmo ano, publica sua obra mais conhecida: Dogma e Ritual da Alta Magia, desvendando as várias faces do saber mágico. Publica também, o poema Calígula, retratando na personagem, o imperador Napoleão. Desse modo, é preso imediatamente, sendo solto após algum tempo.

Em 1859, publicou História da Magia, em que relata o desenvolvimento mágico ao longo da história, e que compõe, com os dois livros anteriores, o conjunto de livros ocultistas tidos como uma "bíblia", por todos os que vieram a estudá-los.

Eliphas estava sempre cercado por grande número de amigos e discípulos, todos eles com conhecimentos profundos; muitos estavam ligados às várias linhas mágicas e sociedades esotéricas que existiam na Europa do século 19, a maioria deles, compondo a elite cultural parisiense da época. Mesmo assim, ainda que tendo acesso a todo o luxo que desejasse, Eliphas manteve uma vida bem simples, mantendo sempre o seu espírito em um estado de paz e quietude. Sempre tomava cuidado com o que comia e bebia, evitando os extremos de calor e frio, e vivia numa casa fresca e arejada. Também se dedicava a exercícios moderados para manter o corpo forte. Aos que adoeciam e o procuravam, sempre recomendava remédios naturais e um estilo de vida como o que levava: simples e dedicado.

Em 1862, publicou aquela que, segundo ele próprio, era sua obra mais elaborada: Fábulas e Símbolos. Consta que o livro não contou apenas com a erudição de Levi, mas que ele estava inspirado por forças maiores, como se as idéias simplesmente nascessem, e a própria Vontade Divina agisse, movendo suas mãos. Ele se sentia em extrema comunhão com a Luz que envolvia seu trabalho.

O Destino Selado

Seu trabalho ficou cada vez mais conhecido e não havia quem não quisesse conhecer Eliphas. Entretanto, quando tudo transcorria calmamente, uma visita mudou sua a pacata vida.

Era um rapaz bem vestido, com um sorriso sarcástico e que, em tom jocoso, cumprimentou Eliphas formalmente, entrando na casa como se fosse sua própria. Assustado, Eliphas procurou descobrir quem era aquele rapaz. O jovem disse que, embora não o conhecesse, ele sabia tudo sobre sua vida, tanto seu passado quanto seu futuro, e continuou, dizendo: "Sua vida está regulada pela lei inexorável dos números. Sois o homem do Pentagrama e os anos terminados pelo número cinco sempre vos foram fatais. Olhai para traz e julgai: em 1815 vossa vida moral começou, pois vossas recordações não vão além, em 1825 ingressastes no seminário e entrastes na liberdade de consciência; em 1845 publicastes A Mãe de Deus, vosso primeiro ensaio de síntese religiosa, e rompestes com o clero; em 1855 vós vos tornastes livre, abandonado que fostes por uma mulher que vos absorvia e vos submetia ao binário. Notais que se houvésseis continuado juntos, ela vos teria anulado completamente ou teríeis perdido a razão. Partistes em seguida para a Inglaterra; ora, o que é a Inglaterra? Ela é o Iod da Europa atual; fostes temperar-vos no princípio viril e ativo. Lá vistes Apolônio, triste, barbeado e atormentado como estavas naquele período. Mas esse Apolônio, que vistes era vós mesmo; ele saiu de vós, entrou em vós e em vós permanece. Vós o revereis neste ano de 1865, mais bonito, radioso e triunfante. O fim natural de vossa vida está marcado (salvo acidente) para o ano de 1875; mas se não morrerdes neste ano, vivereis até 1885".

Após isso, riu-se e incitou Levi com ambições e alusões à sua grande capacidade mágica e erudição. Além disso, durante todo o tempo, mostrou desprezo pela figura de Cristo e ainda disse:"Vós negastes minha existência, chamo-me Deus. Os imbecis denominam-me Satã. Para o vulgo chamo-me Juliano Capella. Meu envelope humano tem vinte e um anos; ele nasceu em Bordéus; tem pais italianos".

O estranho visitante, então partiu, e jamais os biógrafos de Eliphas Levi encontraram qualquer traço do mesmo. O ano de 1865, como ele tinha predito, foi triunfal para Eliphas, pois a publicação de sua Ciência dos Espíritos trouxe-lhe enorme reputação entre os ocultistas de seu tempo.

Da vida para a História

Em 31 de maio de 1875, como o visitante daquele dia havia profetizado, Eliphas Levi falece. Sua morte transcorreu sem agitações. Com coragem e resignação, ele se manteve calmo, pois sabia que sua missão havia sido realizada, tanto no que diz respeito a realizações externas como espirituais. Deixou poucos bens materiais, já que sempre viveu humildemente. Em seu testamento, deixou apenas manuscritos e algumas obras de arte em nome de pessoas próximas, e também algo para a caridade.

Eliphas Levi não foi só um grande ocultista, mas um grande homem. Não se dedicou apenas a descobrir e desenvolver suas habilidades mágicas; seus feitos não eram o objetivo do caminho verdadeiro, mas uma conseqüência; o efeito das experiências de contato com o Deus que sempre habitou em seu coração. Eliphas procurava a conexão com o saber maior; queria desenvolver seu espírito para que ele rompesse a prisão do dualismo e superasse o universo das ilusões e das aparências. Seus livros são chaves que ajudam os iniciados a abrir portas, descobrindo a sabedoria dos mais diversos planos de existências. Através de seus estudos pode-se compreender a verdadeira Kabbalah, a qual permite entender o mecanismo da vida e da criação nos mais diversos planos de existência.

Acima de tudo, Eliphas demostrou ser um exemplo, de como se devem portar os grandes mestres ocultistas, agindo com humildade, calma e sabedoria; permitindo que sua aura permeie o ambiente e transmita a Luz em todas as direções. Deixando para a humanidade, como sua grande e maior obra, a própria vida.



http://www.spectrumgothic.com.br/ocultismo/personagens/eliphas.htm

domingo, 2 de agosto de 2009

O LIVRE ARBÍTRIO

Platão, chamado a ensinar a arte de conhecer os homens, assim se expressou: “os homens e os vasos de terracota se conhecem do mesmo modo: os vasos, quando tocados, têm sons diferentes; os homens se distinguem facilmente pelo seu modo de falar”.
O pensamento do filósofo Iniciado nos oferece excelente oportunidade para uma profunda reflexão, principalmente para os que integram a Fraterrnidade. Nem sempre nos damos conta de como nos tornamos prisioneiros das palavras que proferimos. Por serem a expressão do nosso pensamento, por traduzirem as idéias e os sentimentos, as palavras se tornam um centro emissor de vibrações, tanto positivas quanto negativas.
A palavra é o elemento que identifica o Homem e é a síntese de todas as forças vitais; é o elemento que interliga todos os planos, do mais denso ao mais sutil. A palavra está intimamente ligada ao silêncio, outra sublime expressão da psique humana.
No mundo profano a palavra - falada ou escrita - é usada indiscriminadamente. A sociedade humana está cheia de palavras que ofendem, que humilham, que magoam e que denigrem a honra do próximo. Se se trabalhasse mais e se falasse menos, com certeza que a humanidade seria mais evoluída e mais civilizada. Infelizmente existem palavras em excesso, não só no mundo profano como também nos Templos Martinistas. Tal situação é inconcebível em um adepto, pois no estudo dos símbolos ele aprende a refletir sobre o conteúdo oculto das palavras que, em última análise, refletem a essência interior do ser humano.
Não por acaso a doutrina Martinistas assim como de outras Fratrernidades reserva o silêncio aos seus membros, de acordo, aliás, com a Tradição Pitagórica. A Escola Iniciática de Pitágoras tinha um sistema de três graus: o de Preparação, o de Purificação e o de Perfeição.
Os neófitos do graus de Preparação, eram proibidos de falar; eram só ouvintes e cumpriam um período de observação de três anos, durante o qual a regra era calar e pensar no que ouviam. No grau de Purificação, o silêncio se estendia por mais dois anos, adquirindo estes Irmãos o direito de ouvir as palestras do Mestre Pitágoras. Assim, para atingir o grau de Perfeição, quando então os Irmãos podiam fazer uso da palavra, era necessário praticar o silêncio durante cinco anos.
Nas reuniões martinistas, sem dúvida, constitui uma prova de sabedoria saber ouvir e manter o silêncio. Chílon, um dos sete sábios da Grécia Antiga, quando perguntado sobre qual a virtude mais difícil de praticar, respondia: “calar”. No Zend Avesta, que contém toda a sabedoria da antiga Pérsia, encontramos normas e regras sobre o uso e o controle da palavra, cuja universalidade desafia os séculos. No mundo martinista, a dimensão da palavra falada e escrita não é diferente.
Ao entrar em nossa Sublime Instituição encontramos, na ritualística, referências à sacralidade da palavra que, como meio de expressão dos pensamentos e dos sentimentos, deve ser sempre dosada, moderada, e deve espelhar o equilíbrio interno do orador. Em nossa fraternidade, a palavra deve ser usada no mesmo sentido em que Dante Alighieri exortava o seu personagem Metelo, na Divina Comédia: “usa a tua palavra como um ornamento”.
À primeira vista, o silêncio poderia parecer um condicionamento e um castigo. Na realidade, o silêncio, a meditação e o raciocínio, são a única via que leva à libertação das paixões e dos maus pensamentos. Além de exercitar a autodisciplina, em seu silêncio o adepto apreende com muito maior intensidade tudo o que ouve e tudo o que vê.
Assim, a voz do Irmão que se mantém em silêncio é a sua voz interior, quando ele dialoga consigo mesmo e, neste diálogo, analisa, critica, tira suas próprias conclusões e aprimora o seu caráter. Em suma, pelo silêncio, a Maçonaria estimula os Irmãos a desenvolver a arte de pensar, a verdadeira e nobre filosofia. Deste modo, o silêncio não é meramente simbólico e não é também um meio de castrar a iniciativa dos Irmãos. O silêncio é indispensável e decisivo no processo de lapidação da Pedra Bruta e no aperfeiçoamento interno dos Irmãos.
Ao cruzar as portas de uma Loja , trazendo consigo a liberdade total de expressão, um direito natural que lhe é garantido pela Declaração dos Direitos Humanos, sem as restrições que lhe impõem a moral e a razão, o novo adepto aprende a controlar os seus impulsos, pela prática espartana do silêncio. Assim ele aprimora o seu caráter e prepara-se para ser um líder, numa sociedade na qual prevaleçam a Liberdade responsável, a Igualdade de oportunidades e a Fraternidade solidária.
Se tiver de falar, que o maçom siga o conselho de Dante e use a sua palavra como um ornamento. Tudo se resume na prática da Lei do Amor e da Tolerância. Certamente que o Grande Arquiteto do Universo ilumina e abençoa a todos os que pensam mais do que falam, pois estes espiritualizam a sua matéria, e são os Seus filhos mais diletos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009


terça-feira, 30 de junho de 2009

A Natureza Extraordinária da Vida

A Vida como nós a vemos em cada criatura viva apresenta um aspecto que pode ser considerado como ordinário ou até mesmo lugar comum, porque estamos muito familiarizados com ele. Mas ela também possui um aspecto que, mesmo que caia dentro de nossas percepções limitadas, bem pode excitar nosso espanto e ser verdadeiramente considerado como extraordinário. Em que repousa esta distinção entre ordinário e extraordinário? Talvez possamos melhor indicar a natureza deste último aspecto, como também colocá-lo numa base bem definida, usando o termo “Espírito”, muito embora esta seja uma palavra na maior parte das vezes usada livremente e com conotações vagas. O que é Espírito?

Em As Cartas dos Mahatmas é afirmado muito definidamente que Espírito é Vida indivisa. Se isto é assim, então o que é chamado Espírito não é uma abstração mas uma realidade, cuja natureza pode ser experimentada dentro de nós mesmos. O relacionamento entre Matéria e Espírito, os quais se afirma naquelas mesmas Cartas serem apenas dois lados da mesma coisa, a saber, o Elemento ou Substância una da qual tudo mais no universo é derivado, é um relacionamento de vida e contém em si mesmo todas as qualidades que a vida pode exibir. A vida é uma energia que polariza-se em Espírito e Matéria. A matéria nós percebemos, mas a natureza do Espírito é compreendida e experimentada somente em nossa própria consciência.

Pode-se dizer que em todo o universo manifestado a vida é a única coisa primária, uma energia que está em toda à parte e latente ou ativa em graus variados. Num pólo, esta energia manifesta uma natureza de unidade e então ela é a vida indivisa; no outro pólo há divisão e diversidade e a vida manifesta-se como uma diversidade de processos. Em seu aspecto objetivo, quer seja numa planta, num animal ou num corpo humano, ela é uma síntese de forças e é por isso que o cientista fala da vida sintetizante. Mas em sua natureza profundamente subjetiva ela é uma unidade absoluta e sua natureza somente pode ser conhecida pela experiência direta.

Em cada forma viva, em cada organismo individual, há uma unidade e há uma diversidade. Isto é reconhecido pelos cientistas, mas suas observações estão no nível da diversidade, os vários processos químicos e biológicos; são somente estes que podem ser observados. Na maior parte eles pensam que a unidade é criada pela diversidade, que reunião das partes, as quais desenvolvem várias reações entre elas próprias, cria uma certa unidade ou totalidade. Mas como a conseqüência, que possui uma natureza tão diferente, surge de um padrão material?

A reunião das partes é de acordo com um padrão específico em cada caso e é mantida e reproduzida com várias modificações. Será que tudo isso é uma questão de química, geração espontânea, não no sentido da vida surgindo da lama, mas do encontro acidental de certos elementos e da sobrevivência do mais apto para um ambiente particular, o que é chamado de seleção natural? Ou a vida possui uma natureza que em muito transcende o que é visto no nível biológico, com uma inteligência inerente à sua natureza, que organiza e usa o material disponível e, ao assim fazer, manifesta apenas um fragmento de sua potencialidade? Esta última é a visão antiga e oculta por que não podemos observar com sentidos físicos a ação da natureza que é atribuída a ela.

Se Espírito e Matéria são os dois pólos, uma visão remonta a vida, com toda sua potencialidade, àquilo que chamamos de Espírito, e a outra visão baseia-se completamente na atividade que é vista ocorrer no campo da matéria. Entre os antigos, aqueles que reivindicavam falar com autoridade do conhecimento direto – e suas afirmações foram aceitas por muitos, até mesmo dentre aqueles que investigaram muito minuciosamente toda hipótese possível – consideravam a vida como uma efusão divina. Isto é, ela descende de alturas muito grandes, ou surge de profundezas muito grandes – duas maneiras de dizer a mesma coisa. A altura ou a profundidade são abrangidas na relação entre Espírito e Matéria, a distância entre os dois pólos eternos não sendo espacial, mas representando uma enorme faixa em gradações de expressão, ação e qualidade. A Matéria, que é capaz de divisão, diferenciação e combinações, provendo a forma, e o Espírito, que é Vida indivisa, possuindo qualidades que ele confere à energia que atua através da forma e expressa em cada caso aquele aspecto de sua natureza que pode aparecer através da forma. Podemos ver que enormes possibilidades abrem-se a partir desta visão.

Todas as qualidades incluídas na profundidade podem ser manifestadas na consciência desenvolvida. Elas pertencem àquela consciência ou, mais categoricamente, à consciência como manifestada no homem. Quando examinamos muito cuidadosamente a natureza da vida, podemos ver que ela não é separada da consciência. Viver é ser cônscio em algum grau. No nível puramente físico é “senciência”; você sente a picada de uma agulha ou uma sensação agradável, excitante. Mas há muitos outros níveis, a natureza dos quais é expressa na ação que ocorre no campo de nossa própria consciência, não apenas pensamento e todas as qualidades que podem caracterizá-lo, mas também imaginação, resposta à beleza, amor, o sentimento de absoluta liberdade e a experiência de um estado de “absoluteidade” em nosso próprio ser. Tudo isto surge da vida, sendo parte de sua natureza e ação. Atribuir tudo isto a combinações moleculares, por mais que a vida possa parecer surgir delas, é uma explicação que não pode ser chamada de razoável ou convincente.

O cientista estuda e especula, na medida em que ele especula, sobre a vida em sua natureza ordinária, a natureza da vestimenta material que ela usa, não sua natureza extraordinária que não pode ser medida por sua régua e compasso ou pelos instrumentos mais sofisticados que ele inventou. A vida, restrita por uma organização material, a natureza que exibe nessa organização, é uma coisa: mas a vida fora dos limites dessa organização, o que ela pode manifestar de sua natureza à parte das limitações às quais torna-se sujeita, pode ser alguma coisa muito diferente. O que é extraordinário é completamente omitido quando o cientista confina sua atenção àquilo que ele pode observar na matéria física. Ele não pode conhecer dessa forma a outra dimensão que está compreendida no Espírito, uma palavra com significados desconhecidos, que pode ser compreendido somente através da auto-experiência. Mesmo no nível físico há vários processos para os quais não há explicação adequada. Como as partes se ajustam num todo progressivamente significativo, como um desenho específico variando de uma família ou ordem para outra, e o que mantém a unidade deste desenho enquanto o reproduz e o modifica todo o tempo, com adaptações de uma natureza muito complicada e engenhosa, tudo isso é um mistério. É difícil imaginar que um tal resultado inteligente possa advir de um processo de mero ajuste sem um padrão anterior ao qual as partes são atraídas.

A Teosofia em seu aspecto central é essencialmente a ciência da Vida, sua natureza, potencialidade e ação. Ela também tem sido designada como a ciência do Eu. Mas quando o eu no sentido ordinário desaparece então há Vida aparecendo em seu lugar, em toda sua extraordinariedade, sua beleza, sua profundidade, sua inteligência e todas as outras características de sua natureza e poder. Podemos usar a palavra “Espírito” quando nos referimos a tudo isto. Assim, o Espírito é vida em sua fonte, onde ela existe em sua pureza, sua plenitude, sua plena potência e superlatividade, e não como ela aparece um qualquer forma condicionada. Talvez possamos chamá-la então de o elixir da vida.

Alguns anos atrás, Sir John Eccles, o célebre pesquisador e professor de fisiologia, particularmente do cérebro, ministrou uma série de conferências que foram transmitidas pelo rádio para toda a Austrália, no curso das quais ele disse:

Demasiado freqüentemente temos afirmações de que o homem é apenas um animal esperto e inteiramente explicável materialmente. E novamente, nos é freqüentemente dito que o homem não é nada mais do que uma máquina extremamente complexa e que os computadores logo estarão competindo com ele pela supremacia como as máquinas mais complexas em existência e que eles terão desempenhos que o sobrepujarão em tudo o que importa.
Quero duvidar de tais afirmações dogmáticas e fazer com que vocês percebam quão tremendo é o mistério da existência de cada um de nós... Minha aproximação da experiência consciente é, em primeiro lugar, baseada em minha experiência direta de minha própria autoconsciência. Acredito ser esta a única maneira válida na qual falar a vocês...


“A única maneira válida”, da qual Sir John fala, pode ser considerada como especulativa, não estando aberta à demonstração, mas é o caminho para o conhecimento direto e certo. Em outro lugar ele diz: “Nós (os cientistas) não podemos dizer-lhes como os presumidos padrões na rede neuronal num dado momento dão surgimento à consciência”.

Mas os antigos resolveram esta dificuldade.
À medida que a vida, em seu aspecto de consciência, desenvolve-se num ser humano, o amor aparece e manifesta-se e da mesma forma que a vida possui um aspecto que é ordinário e outro que é extraordinário, o amor também tem dois aspectos similares. O amor que é ordinário é o tipo que encontramos muito comumente no mundo e é basicamente uma questão de gostar ou de gozo e posse. Mas há também amor que é extraordinário. A diferença realmente repousa entre as qualidades que são baseadas na matéria e aquelas que são puramente espirituais.

Aquele princípio no homem que é chamado Manas, grosseiramente traduzido por mente, pode ser baseado na matéria bom como espiritual. Imagine um cone, cuja base está na terra e seu vértice acima da base estando conectado com cada ponto na base. Isto pode simbolizar o relacionamento entre Manas e as coisas particulares no campo da matéria com as quais está relacionado, para as quais sua atenção é atraída, nas quais ela desenvolve um interesse. Todas as linhas que conectam o vértice com os pontos inumeráveis na base representariam as reações da mente, seus apegos e medos. Mas podemos imaginar o prolongamento deste cone, fazendo um outro cone com seu vértice no mesmo ponto e a base em algum lugar lá em cima. Este outro cone abrindo-se ao espaço representaria Manas expandindo-se no mundo do Espírito, isto é, um mundo de verdade e beleza, uma expansão que pode ocorrer somente quando a mente está livre das modificações às quais entrega-se no cone inferior baseado na matéria.

Manas, sendo o princípio central no homem, não o mais elevado, mas o que realmente constitui o homem, o pensador, pode associar-se quer ao mais elevado ponto em sua constituição ou ao mais inferior. A Dra. Annie Besant descreveu o homem como uma entidade que une em si mesma o supremo Espírito com a matéria mais inferior. A palavra “mais inferior” não significa neste contexto alguma coisa desprezível, vil ou má, mas significa que nas gradações que separam o Espírito da matéria estamos nos referindo ao grau mais inferior da matéria, da mesma forma que o ponto mais elevado refere-se à suprema qualidade no Espírito. É possível se viver em condições de matéria, como todos nós vivemos, sem tornar-se sujeito às suas pressões e influências insidiosas, sem passar por um processo de materialização ou degradação em si mesmo. Portanto, não necessitamos concluir que a matéria é necessariamente má ou grosseira em qualquer sentido depreciativo.

Certas qualidades e faculdades vêm à manifestação somente num mundo de distinções. No mundo da Natureza física, cada coisa é distinta e diferente das outras de uma maneira ou de outra e mantém sua diferença com uma medida de estabilidade. Há muitas tonalidades e matizes de cor e a capacidade de percebê-los é desenvolvida somente quando se dá atenção a eles. Similarmente, há diferenças em tons e formas, movimentos, idéias e qualidades. O artista nota alguma delas mas nós não. Também no reino da mente pode haver movimentos extraordinariamente sutis, cada um com sua qualidade, como uma nota musical, distinto de outros, distinções entre uma idéia e outra e distintas gradações em sentimentos e emoções. Processos mentais tais como razão, julgamento, rapidez em pensamento, são evocados ao se tratar com distinções. Estas qualidades, incluindo a capacidade de agir com precisão, presteza e habilidade surgem do relacionamento entre a mente à matéria.

A natureza de Manas, que é um aspecto da consciência ou um modo de sua ação, é ver o particular, à parte. Ele nota as diferenças entre uma coisa e outra em suas propriedades, movimentos, ação, relacionamentos e assim por diante. O cientista faz isso de uma maneira notável. Mas quando ele quer compreender a natureza de alguma coisa que é um todo, ele a julga a partir do que ele conhece das partes.

É um aspecto diferente da consciência que abarca o todo de uma só vez e experimenta a natureza da unidade que aquele todo corporifica. O todo, se ele não é uma mera reunião, possui uma qualidade, uma beleza, que não está nas partes. Uma construção nobre, tal como o Taj Mahal ou uma bela catedral, possui uma dignidade, um caráter próprio, que as partes, embora belas em si mesmas, não manifestam separadamente. Este outro aspecto da consciência, que é espiritual e que podemos chamar de Buddhi, sempre funciona em termos de um todo perfeito e em suas criações expressa a natureza ou a beleza do Espírito.

Se identificamos Espírito com consciência em sua pureza, podemos ver como ele pode atuar em um número infinito de maneiras. Se a afirmação é feita “A beleza do Espírito é infinita”, talvez muitos a aceitarão porque é um pensamento que tem sido expresso muito freqüentemente. Mas em que modos ela pode ser infinita, como sua beleza é manifestada? É somente quando compreendemos a natureza da consciência é que vemos de sua substância e movimentos pode surgir uma forma bela após a outra e que seu poder de criação pode ser infinito. Tal ação ocorre com uma facilidade sem esforço quando não há nela nenhuma partícula de um impedimento: então ela pode mostrar a cada vez uma criação singularmente bela. Sua ação é muito semelhante ao florescimento de uma planta na Natureza física. Podemos chamá-la a ação do Espírito ou da Consciência. É este florescimento desde o interior, cada vez com uma nova beleza, que constitui o lado extraordinário da vida, de seu aspecto espiritual ou divino, que é muito mais uma realidade ou mais próximo da realidade do que a ação no campo da matéria.

Mesmo no nível da matéria a vida sempre assume uma forma individual. Ela não é apenas uma quantidade de energia num reservatório. No corpo material vivo há perfeita coordenação de partes e processos e o corpo manifesta em seu nível uma certa unidade correspondente à individualidade da vida que nele habita. Assim, há uma reflexão no caráter e nos processos da vida na matéria, de uma unidade inata que é a unidade do Espírito. Mas a unidade que é espiritual não é uma unidade morta ou de uma natureza mecânica, mas é a unidade de uma “absoluteidade” tal como é experimentada numa exaltada condição da consciência, no amor ou numa total resposta à beleza. Cada estado desses possui uma qualidade singularmente sua, como a unidade de uma qualidade que permeia e satura uma criação artística ou a unidade de uma expressão maravilhosa na face de alguém.

De acordo com o ensinamento oculto, em cada ponto no espaço há matéria e em cada ponto há também Espírito. Uma partícula de poeira é matéria mas há também Espírito nela. Eles coexistem, ambos são eternos, unos e auto-existentes, mas em cada ponto o significado, a beleza, a maravilha que é manifestada pertence ao Espírito. Ele é o Logos, no velho sentido grego, presente em cada ponto no fluxo da vida, que dá direção àquele ponto para o processo evolutivo posterior. A matéria existe como um meio de expressão.

Hoje em dia freqüentemente a pergunta é feita: “Qual é o significado da vida?” Nesta pergunta a palavra “vida” é usada num sentido altamente generalizado, incluindo todos os incidentes que afetam a vida interior. A palavra “significado” é difícil de traduzir. O que uma flor significa para nós, ou ela nada significa afinal? Quando há uma resposta extraordinariamente vital de nosso coração à flor ou ao movimento de uma nuvem ou a uma personalidade humana ou a alguma ação de sua parte, como esse fenômeno nos afeta, seu impacto sobre nós, é o significado sentido e experimentado. Se sentimos sua beleza, seu encanto, se somos realmente cativados por ela, a coisa é significativa num grau extraordinário. Este é o ápice de significado que uma coisa pode possuir. Você apenas olha para ela e ela mostra sua beleza a você e isto é o suficiente, ela não necessita fazer mais nada. O fato que ela existe e que você a conhece é o bastante. O “significado”, então, está na natureza inata de um fenômeno ou objeto. Não é uma questão de construção pela mente. Cada fenômeno, cada pessoa e coisa possuem uma qualidade que é comunicada à mente que está realmente aberta. Cada pintura ou gravura, se ela é uma real obra de arte, possui uma beleza que ela irradia. O artista conhece isto como um fato, embora possa haver pessoas que pensem que a gravura é meramente uma mistura de cores. Quando falamos da verdade com relação a alguma coisa objetiva, esta verdade inclui todo o que pertence à sua forma, sua substância e propriedades, bem como o significado daquela forma para uma mente e coração receptivos, a qualidade que permeia a forma, quando ela é uma forma perfeita.

No processo da evolução, que é um processo universal, há uma sucessão de formas. Há também uma manifestação ou liberação de significado. Uma qualidade mais elevada, uma inteligência superior, uma beleza que não estava presente antes, aparece no mapa da existência. A essência de uma forma que é perfeita e significativa, isto é, se ela é verdadeiramente evoluída, está naquilo que ela expressa e esta essência pertence à vida, ao Espírito-na-matéria. A natureza do Espírito deve ser percebida no significado que a coisa viva torna manifesto. Se em toda a parte há vida latente ou ativa, tudo que podemos ver ou tocar deve ter esta qualidade-vida, mesmo que tenuemente.Um cachorro cheira o que não podemos cheirar e os instrumentos registram variações magnéticas que afetam nossos corpos, mas dos quais somos totalmente inconscientes. Similarmente, pode haver radiações presentes, presenças sutis, às quais não somos sensíveis. A forma é sempre pretendida ser uma expressão da vida. Há esta expressão quando ela incorpora um padrão específico sobre o qual a expressão pode ser baseada. No curso da evolução, na medida em que o padrão é elaborado, a expressão torna-se mais definida, mais modulada, carregada com nuanças. Há uma infinidade de significado, de amor, de beleza no Espírito e a natureza na qual esta infinidade está armazenada pode ser conhecida em nosso coração quando ele for puro o suficiente e humilde o suficiente para conhecê-la.


sexta-feira, 19 de junho de 2009

JORNADA MÍSTICA - CAPITULO R+C TERESINA-PI


Saudações em Luz, Vida e Amor!

É com muita satisfação que convidamos à todos para nossa 1ª Jornada Mística de 2009. Abaixo, data, programação e horários. Esta é uma excelente oportunidade para conhecermos mais sobre a Ordem Rosacruz, sua filosofia e forma de atuação. Também é uma ótima oportunidade para trocarmos experiências.



Data: 28/06 (Domingo)
Horário: a partir de 8:00h da manhã
Local: Capítulo Rosacruz Teresina, AMORC

08:00h – Abertura

08:15h - Saudação ao Sol – Leitura do “Hino à Aton” – Fr. Henrique Moretz-Sohn

09:00h - Palestra: “A Ontologia dos Rosacruzes” – Fr. Eduardo Neves

10:00h – Lanche

10:30h - Palestra: “Inteligência Kabbalística: Transformando Obstáculos em Oportunidades” – Fr. Cícero Vasques

11:30h - Meditação para a Paz – Fr. José do Amparo

12:30h – Encerramento

Contatos:

Endereço:

Rua Básilio Bezerra, 2470
Planalto Ininga
Teresina – PI

Telefone para contato (Frater Eduardo Neves, Mestre do Capítulo): (86) 8849-7947
E-Mail: amorcteresina@gmail.com

segunda-feira, 25 de maio de 2009



"Combater a infâmia".

sábado, 23 de maio de 2009



"Cavar masmorras ao vício, e erigir castelo às virtudes".







Me aguardem... Eu estou voltando...

quinta-feira, 19 de março de 2009

HENRIQUE CORNÉLIO AGRIPPA VON NETTESHEIM AGRIPPA


Nasceu em 1486, em Colônia, Alemanha e morreu em Grenoble no dia 18 de fevereiro de 1535. Filho de antiga família nobre, estudou na Universidade de Colônia, foi mé-dico, jurista, filósofo, cabalista e estudou também a alquimia. Aos vinte anos de idade já havia estudado a magia e a cabala; sabia oito línguas, dentre as quais, o hebreu, foi um grande re-belde da Renascença.

Sua vida acidentada foi uma sucessão de honras e de infortúnios, durante muito tempo atuou em missões diplomáticas e militares a serviço de diversos soberanos.
Como erudito, correspondeu-se com os grandes humanistas da época tais como: Melâncton, Erasmo, Cardeal Lourenço Campegi e Tritemo que foi seu amigo e mestre e que o influenciou a escrever sobre seus conhecimentos do oculto.

Do Humanismo e do Aristotelismo da Idade Média, sucedeu-se o Pitagorismo e o neoplatonismo, que na época começara a florescer, em seus estudos estavam: Plotino, Jâm-blico, Porfírio e Pitágoras. Agrippa mergulhou no sobrenatural e no oculto a tal ponto, que o seu entusiasmo por tais filósofos, suplantou o seu sentido crítico de erudito.

Por seu espírito aberto à todas as correntes do pensamento oculto, Agrippa tentou conciliar as diversas doutrinas ocultas e unir a filosofia à cabala. Em 1507, Agrippa desloca-se à Paris numa missão a serviço do imperador Ma-ximiliano, aproveita para avistar-se com alguns jovens aristocratas com os quais forma uma sociedade secreta chamada Sodalitium (Comunidade), em conjunto elaboraram um plano místico para um mundo reformado e também um compromisso parta uma ajuda mútua.

Em 1509, Agrippa chega a Dole, cidade em que Margarida da Áustria, filha de Maximiliano, era a soberana, através de um amigo, obteve autorização para lecionar literatura sagrada (Cabala) na Universidade. Iniciou pelo estudo do tratado cabalístico de Reuchlin: A Palavra Mirífica, também fez um estudo comparado das religiões.
Embora afirma-se que a religião católica era a melhor, dizia que era necessário guardar em relação a ela, a liberdade de analise.

Desejando agradar Margarida, escreveu: A Nobreza do sexo feminino e a supe-rioridade das mulheres, com argumentos extraídos da Bíblia, de padres e da filosofia; ele elogia o sexo feminino em termos exaltados, dedica a obra à "divina Margarida, augusta e clemente princesa". Por tudo isso, seus inimigos não tardaram a aparecer, especialmente do clero que viam na sua simpatia pela cabala judaica, uma perigosa heresia.

Em Ghent, na Holanda, onde Margarida residia, o franciscano Catilenet, profe-riu um sermão perante a princesa contra esse cabalista ímpio, Agrippa foi impedido pelos seus adversários de publicar a sua obra de elogio às mulheres e teve de abandonar a cidade.

Em 1510 vai a Londres onde também formou um grupo da Sodalitium, em razão disso, tornou-se suspeito de ser um organizador da Fraternidade Rosa Cruz. Em Londres escreveu seus comentários às Epístolas de São Paulo. No ano seguinte foi para Colônia lecionar.

Em 1515, Agrippa integra-se ao exército de Maximiliano que ia para a Itália, segue como cavaleiro dourado no campo de batalha. Pouco depois, o Cardeal de Santa Cruz envia-o a Pisa como representante junto ao Concílio, esta foi a sua última oportunidade de justificar a sua posição perante a Igreja e de agradar ao Papa Leão X,, porém, o Concílio foi dissolvido e as assembléias interrompidas.
Deixando sua carreira militar, Agrippa foi lecionar na Universidade de Pavia e depois na de Turim onde divulgou ensinamentos de Hermes Trismegistos, lá ficou até que a guerra o obrigou a partir, esteve sete anos na Itália.

Graças ao apoio do marquês de Montferrat, Agrippa torna-se em 1518, síndico, advogado e orador da cidade de Metz, neste cargo ficou mais ou menos dois anos quando se demitiu após uma disputa com o inquisidor dominicano: Nicolas Savini. Mais uma vez atrai a cólera dos monges, por salvar da fogueira uma inocente camponesa de Woippy, injustamente acusada de bruxaria com base no testemunho de oito camponeses ébrios. Agrippa introduz uma petição junto ao bispo de Metz, faz libertar a mulher e pune com pesada multa os seus difamadores.Este acontecimento torna em breve, a situação de Agrippa insustentável e obriga-o a abandonar a região com sua mulher e filho.

Volta a lecionar em Colônia e também em Genebra, em 1523 vai para Friburgo onde exerce a medicina, sua fama incita o bispo de Bazas: Synphorieu Bullioud a fazê-lo regressar à França e apresenta-o à corte. Em 1524 Agrippa é nomeado médico da duquesa Luíza de Sabóia, mãe do soberano Francisco I e passa a receber uma pensão.

A duquesa pretendia que Agrippa também fosse seu astrólogo, o que ele recusa, pois acha que seus talentos mereciam ocupação mais importante. Quando a duquesa vai embora de Lyon, Agrippa ficou e seu nome foi excluído da lista de pensões. Sua sorte voltou em 1528 quando foi convocado por quatro protetores: Henri-que VIII, da Inglaterra, o chanceler do imperador alemão, um marquês Italiano e Margarida de Áustria, governadora dos Países Baixos, eles o nomearam historiador imperial.

Nesta época escreveu: Da Incerteza e da Vaidade das Ciências e das Artes, onde afirma, antes de Rousseau, que as ciências e as Artes são prejudiciais ao homem, denuncia os abusos das profissões liberais do seu tempo em 103 capítulos, nas quais ataca ao mesmo tempo, os gramáticos, os músicos, os médicos e outros.
Esta obra que teve duas edições em três meses, foi apreendida e queimada por ordem da Faculdade de Teologia de Paris, em janeiro de 1531. Agrippa estava em Anvers como conselheiro e historiador, a serviço do imperador Carlos V, seus amigos: o legado apostólico, cardeal Campegi e o bispo de Liege, cardeal de La Mark, tentaram defende-lo de seus inimigos, mas Agrippa perdeu seu cargo de historiador imperial e como ficasse impossibilitado de pagar suas dívidas, foi preso em Bruxelas, mas foi posto em liberdade um ano mais tarde.

Dirigiu-se em 1532 para Bona onde tentou publicar a sua obra: Da Filosofia Oculta, verdadeira enciclopédia sobre magia, escrita em 1510 e que a havia submetido à crítica do seu mestre Tritemo, que após examiná-la, disse-lhe: "Tenho apenas mais uma advertência a fazer-vos, nunca esqueceis: ao vulgo falai somente coisas vulgares, reservai para vossos amigos todos os segredos de categoria superior, dai feno aos bois e açúcar ao papagaio. Compreendei o que quero dizer para que não sejais espezinhado pelos bois, o que freqüentemente acontece. "Os trabalhos de impressão desta obra em três volumes foram interrompidos em 1533 por um pedido da inquisição ao Senado de Colônia mas Agrippa protesta por carta aos magistrados e consegue publicá-la em julho do mesmo ano, em Antuérpia.

Agrippa declarava que para ocupar-se da Magia, era necessário conhecer perfeitamente a física, a matemática e a teologia, para ele, a magia é uma faculdade poderosa, plena de mistério e que encerra um conhecimento profundo das coisas mais secretas da natureza, substâncias e efeitos, também suas relações e antagonismos.

A física é terrestre, através dela conhecemos a natureza das coisas, a matemática é celeste, através dela aprendemos as dimensões e tamanho e podemos calcular o movimento dos corpos celestes; a teologia reporta-se ao mundo dos arquétipos, por ela atingimos o conhecimento de Deus, anjos, demônios, alma, inteligência e pensamento.

No primeiro volume, sobre a Magia Natural, desenvolve a teoria dos três mundos: o elementar, o intelectual e o celeste; cada um sendo governado pelo seu superior e recebendo as suas influências. Analisa as virtudes ocultas das coisas, o modo como elas provêm das idéias, da alma, do cosmos e dos influxos planetários; quais as atrações e que repulsas suscitam nas espécies animais, vegetais e minerais. No 2º volume sobre os números, pesos e medidas, os segredos da harmonia universal, signos. No 3º volume ele trata o efeito dos nomes divinos, da hierarquia angélica, dos espíritos planetários, das nove classes de espíritos maus, dos ritos, conjurações, pontículos sagrados, dos hieróglifos cabalísticos; tudo isso no intuito de instruir o mago; dizia: "Embora o homem não seja um ser imortal como o é o Universo, ele não deixa de ser dotado de razão e com sua inteligência, sua imaginação e a sua alma, é capaz de influenciar e transformar o mundo inteiro".

Agrippa defende a necessidade de religião em todo o cerimonial mágico, ele diz: "A religião é a coisa mais misteriosa e sobre ela devemos guardar segredo, pois é Trismegistro que afirma que constituiria ofensa à religião, divulgá-la à turba profana". Na sua concepção, a religião é uma mescla de cristianismo, neoplatonismo e cabala.
O seu tratado é uma síntese dos ensinamentos de Moisés, de Cristo, de Orfeu, de Demócrito de Pitágoras e de Plotino.

Agrippa leu e tentou conciliar as Escrituras com os textos sagrados das outras religiões, sobre as citações extraídas de autores estrangeiros, diz: "Eu não dou-as como verdade, é preciso ter a perspicácia para extrair o bem de todo o mal e reduzir a uma linha direita todas as coisas oblíquas. Concebeu a natureza como um conjunto vivificado em todas as suas partes por uma alma universal ou espírito do mundo que governa os elementos (Quintaessência) das leituras que lhes eram proibidas.

Cimentou a idéia da magia primitiva sobre bases novas fazendo evoluir seu conceito em direção à ciência experimental com o estabelecimento da chamada magia natural, da qual foi o mais alto expoente juntamente com Paracelso.
Alguns padres leram com entusiasmo "Da Filosofia Oculta", outros evitaram-na com horror, porque viam nela a quintaessência das leituras que lhes eram proibidas.

Em 1535 deixou Bona e regressa a Lyon, imediatamente Francisco I manda prendê-lo por ter usado afirmações satíricas: contra sua mãe, mas amigos seus conseguiram libertá-lo e ele buscou refúgio em Grenoble, na casa de François de Vachon, que era presidente no Parlamento do Delfin. Agrippa Morreu no dia 18/02/1535, enterraram-no na Igreja dos Irmãos da Oração. Foi sem dúvida, o ocultista mais importante da sua época, fundador da filosofia oculta, deixou a fama de "príncipe dos mágicos" que demorou muito tempo para desaparecer.

Sobre uma de suas singularidades, conta Paul Jove: Agrippa estava sempre acompanhado por um grande cão negro, o qual chamava-se : Monsieur, era certamente o diabo..." esqueceu-se que Agrippa tinha também uma cadela com o nome de Mademoiselle. Assim as pequenas coisas de um autor anticonformista são viradas contra ele.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A ALQUIMIA ESPIRITUAL DOS ROSACRUZES TRANSMUTAÇÃO MENTAL, TRANSMUTAÇÃO CORDIAL E A THEMIS AUREA

Summary

The Rosicrucian Alchemy is essentially spiritual, although some Rosicrucians have dedicated themselves to the Practice of the Art. This lecture makes an approach to the book Themis Aurea (1618), by the Count Michael Maier, where we can find important informations on the “Verum Inventum”.

Maier makes the firm statement that the Brothers of R.C. actually exist to advance inspired Arts and Sciences, including Alchemy. He was a scholar very prized by Rudolph II, Emperor and King of Hungary, and King of Bohemia, who was an amateur alchemist, too.

Maier was also a practical chemist and associated with many researches in this field. Emperor Rudolph II ennobled Maier with the title Pfalzgraf (Count Palatine), and appointed him Private Secretary to His Royal Person.

* * *

Quando, pela Alquimia Espiritual, nos tornarmos como Cristo, o Senhor da Vida, seremos imortais, libertar-nos-emos do nosso pai Samael e da nossa mãe Eva e a morte não mais terá poder sobre nós.

Max Heindel, Freemasonry and Catholicism, 1919

Em 1614, 1615 e 1616 foram publicados na Alemanha, por esta ordem, três tratados ou manifestos que desencadearam o movimento Rosacruciano — ou o Iluminismo Rosacruz, como também tem sido chamado: Fama Fraternitatis («Ecos da Fraternidade, ou da Confraria»), Confessio Fraternitatis («Confissão da Fraternidade») e Chymische Hochzeit Christiani Rosencreuz Anno 1459 («Núpcias Químicas de Christian Rosenkreuz no ano de 1459»).

Publicados anonimamente na Alemanha, os dois primeiros em Kassel e o último em Estrasburgo, a sua autoria tem sido atribuida a Johann Valentin Andreae (1586-1654), pastor protestante originário da Suábia e influente figura da ortodoxia luterana dos princípios do século xvii, e um dos homems mais sábios do seu tempo.

No frontispício do primeiro lê-se a seguinte dedicatória: «Nós, Irmãos da Fraternidade da Rosacruz, oferecemos a nossa saudação, o nosso amor e as nossas orações a todos os que lerem a nossa Fama com inspiração cristã». Nele se conta a história do Fr. R. C. — Frater Rosencreuz[1], ou Irmão Rosacruz —, um «homem iluminado» que viajou por muitos países, incluso no Oriente, onde aprendeu a Magia e a Cabala com os Mestres. Ao regressar à Alemanha decidiu empreender a reforma que haveria de corrigir as imperfeições do mundo, e fundou a misteriosa Ordem Rosacruz juntamente com alguns outros Irmãos.

O segundo, Confessio, é um breviário em catorze capítulos contendo «a mais Secreta Filosofia»; completa o anterior e de certa maneira vem justificá-lo, defendendo-o das vozes e acusações de que os misteriosos Irmãos da Rosacruz já começavam a ser alvo, pois não faltava quem os suspeitasse «de heresia, de ardis e de culposas maquinações contra a autoridade civil» (cap. I). Aqui se esclarece que Christian Rosenkreuz nasceu em 1378 e viveu 106 anos (cap. VI), e que as suas investigações e pesquisas «suplantam tudo o que, desde os primeiros dias do mundo, a inteligência humana inventou, produziu, melhorou, propagou e perpetuou até à época actual, tanto por intermédio da revelação e da iluminação divinas quanto graças aos ofícios dos anjos e dos espíritos» (cap. IV); já o papa, em contrapartida, é considerado, pelo luterano autor do texto, um «sedutor romano que transborda de blasfémias contra Deus e contra o Cristo» (cap. XI).

Finalmente o terceiro, Núpcias Químicas, é um fantástico romance alegórico, dividido em sete Dias, ou sete Jornadas, tal como o Génesis, e conta o modo como Christian Rosenkreuz foi convidado a ir a um maravilhoso castelo, ou palácio, repleto de prodígios para assistir ao Casamento Alquímico do rei e da rainha, ou melhor, do Noivo e da Noiva, interessando-nos este terceiro livro, particularmente, pelas óbvias conotações herméticas que comporta.

Estes três manifestos obtiveram um sucesso considerável e deram origem a inúmeras controvérsias e a imensas obras de inspiração rosacruciana, de que se destacam autores tão marcantes como Michael Maier na Alemanha ou Robert Fludd e Elias Ashmole na Inglaterra, além de Theophilus Schweighardt, Gotthardus Arthusius, Julius Sperber, Henricus Madathanus, Gabriel Naudé, Thomas Vaughan, etc.

Sobre o primeiro destes autores atrás citados, Michael Maier, me irei deter um pouco mais, chamando entretanto a atenção para a importância de certos precursores, como o misterioso filósofo e alquimista isabelino John Dee, autor da não menos misteriosa Monas Hieroglyphica (1564), que influenciou o conceituado filósofo hermético Heinrich Khunrath, de Hamburgo, autor do Amphitheatrum Sapientiae Aeternae (1609), que por sua vez terá influenciado, e não pouco, o primeiro manifesto rosacrucisno, a Fama Fraternitatis. A filosofia alquímica está sempre presente em todos estes autores; com efeito, o surto rosacruciano deu-se em plena florescência hermética do Renascimento e do Barroco, portanto não é de surpreender o pendor alquímico das principais obras rosacrucianas; ou melhor: uma das mais elevadas aspirações dos Irmãos da Rosacruz seria o renovo da Arte alquímica, já então degradada pelos «assopradores», como claramente se diz num dos parágrafos iniciais da Fama, em referência à «época feliz em que vivemos» (início do século xvii): «Deus […] favoreceu o nascimento de espíritos altamente esclarecidos que tiveram por missão restabelecer nos seus direitos a Arte, em parte maculada e imperfeita».

Este permanente renovo da «Arte» (alquímica, entenda-se), e o seu desenvolvimento, sobretudo espiritual e simbólico, foram uma constante dentro do Rosacrucianismo, desde então até aos nossos dias.

O próprio Isaac Newton (1642-1727), um dos maiores génios da matemática, não foi insensível ao fascínio da Alquimia, como é sabido; além de possuir exemplares dos mais notórios tratados alquímicos, tanto do seu tempo como anteriores, que hoje fazem parte do espólio existente na Biblioteca da Universidade de Yale, deu-se ao trabalho de fazer muitas cópias manuscritas de obras alquimistas. Uma dessas obras, que ele possuía na sua colecção, era precisamente a Themis Aurea de Michael Maier, à qual faz referências e tece comentários numa das suas muitas notas manuscritas sobre a filosofia hermética, conservadas na dita Biblioteca.

Michael Maier (1568-1622), um dos grandes eruditos da sua época, nasceu em Rindsberg, Holstein, e foi doutor em medicina, filósofo e alquimista. Embora nunca tivesse afirmado pertencer à misteriosa Fraternidade Rosacruciana, foi um dos seus mais acérrimos apologetas, possuindo informações sobre os Irmãos da Rosacruz — claramente transmitidas nos seus livros — que deixam supor um conhecimento directo do «círculo interno» da Ordem. Viveu alguns anos em Praga, onde foi médico do imperador Rudolfo II que lhe concedeu o título nobiliárquico de Pfalzgraf — Conde palatino — e o nomeou Secretário Privado Real. Os estudiosos de Maier, após exame atento dos seus escritos, observam que ele nunca afirmou objectivamente ter fabricado ouro; tão-pouco o afirmaram, de si próprios, Heinrich Khunrath e outros Rosacrucianos. Os tratados destes autores apontam para uma Alquimia altamente simbólica e espiritual, sem dúvida, mais do que para uma Espagíria operativa. Neles detectamos, velada ou desveladamente, quer os nove estágios da transmutação involutiva-evolutiva do tríplice corpo do ser humano, da tríplice alma e do tríplice espírito, quer os nove passos ou nove graus da Iniciação dos Mistérios menores da Escola de Mistérios Rosacruzes, equipolentes aos nove passos fulcrais do ministério de três anos de Cristo Jesus na Terra:

1. Baptismo; 2. Tentação; 3. Transfiguração; 4. Última Ceia e Lavapés; 5. Agonia no Horto; 6. Flagelação e Coroa de Espinhos; 7. Crucificação e Estigmas; 8. Morte e Ressurreição; 9. Ascensão.

A principal obra alquímica de Maier é o famoso tratado Atalanta Fugiens, hoc est Emblemata Nova de Secretis Naturae Chymica (1617), que é

… um livro de emblemas e notáveis gravuras, com comentários filosóficos.

Atalanta[2], logo no frontispício, é submetida à tentação de abandonar a corrida em busca da verdade espiritual, moral e científica, dando uma lição de perseverança e de pureza de intenções ao alquimista espiritual.

Maier ensina subtilmente uma filosofia mística, religiosa e alquímica, por meio dos símbolos e dos emblemas do seu livro, cada um dos quais apresenta um modo de expressão poético, pictórico e musical (Frances A. Yates, The Rosicrucian Enlightenment, Londres 1972).

Nesse livro se desvenda o significado de vários mitos da Antiguidade clássica, mitos esses que, segundo Maier e outros alquimistas rosacrucianos, teriam um fundo químico oculto: por exemplo, o conhecido enigma de Édipo — qual é o animal com quatro pernas de manhã, duas ao meio-dia e três ao fim da tarde, e uma só voz —, não tem como resposta «o homem», mas sim a «pedra filosofal». Numa das gravuras da Atatlanta Fugiens vê-se em primeiro plano um grupo de três seres: um bebé gatinhando com um rectângulo na testa, ou seja, o princípio da força quadrática fundamental da «pedra» (nigredo), um adulto com uma meia-lua, também na testa, formada por duas linhas com duas pontas, figurando a pedra lunar branca (albedo), e um velho encurvado com um triângulo na testa e apoiando-se a uma bengala — o triângulo do corpo-alma-espírito, ou seja, a pedra filosofal solar, dotada do poder de tingir e curar (rubedo).

Fundamentalmente, tal como já enunciava Paracelso, os hermetistas rosacrucianos defendiam a tese de que a Alquimia, mais do que tentar a transmutação dos metais, deveria antes contribuir para a erradicação das doenças e a mitigação das dores físicas (panaceia universal). Synesius, um alquimista bizantino do século iv, foi um verdadeiro precursor: já definia a Alquimia como uma operação mental, independente da ciência da matéria, cujo objectivo deveria ser a transmutação espiritual e a salvação do ser humano, afirmando, em consequência, que a constituição do elixir (xêrion, «o pó») é menos importante do que as incantações que acompanham a sua produção. Esta teoria deu origem a uma nova escola que minimizou a pesquisa experimental, passando a buscar, no interior do ser humano, os segredos e os fins últimos da filosofia alquímica.

Assim, o Fogo alquímico, ou melhor, o Fogo Solar, sendo um princípio cósmico e um elemento básico da Criação, é na verdade um princípio espiritual, e portanto um dos princípios herméticos fundamentais do Rosacrucianismo. O teósofo e investigador Franz Hartmann (1838-1912) define o Fogo alquímico rosacruciano da seguinte maneira:

O Fogo é uma actividade interna cujas manifestações externas são calor e luz. Esta actividade difere em carácter consoante o plano em que se manifesta. No plano espiritual representa o Amor ou o Ódio; no plano astral, o Desejo e a Paixão; no plano físico, a Combustão. O Fogo é o elemento purificador, que no limite se identifica com a essência da Vida.

É porém no livro Themis Aurea, hoc est de legibus Fraternitatis R. C., publicado em Frankfurt, em latim, em 1618[3] — apenas dois anos após a publicação das Núpcias Químicas de Christian Rosenkreuz — que Michael Maier investiga sobretudo as grandes leis[4] que regem a transmutação espiritual, enunciadas sob a forma de seis sinais de adesão, ou «compromissos», a que se obrigavam as Irmãos da Rosacruz. «Antes de mais nada — observa Maier na Themis — é mais do que razoável supor que qualquer sociedade, para ser boa, deverá ser governada por leis boas […] Por outro lado, é importante que alguma coisa se diga acerca do seu número, seis, que muito de perfeição contém em si» (Cap. II). Com efeito, o número seis associa-se de imediato ao hexahemeron bíblico, os seis dias da criação, o número mediador entre o Princípio e a sua Manifestação, além de simbolizar, em quanto hexagrama, a misteriosa síntese do fogo [∆] e da água [Ñ]. Estes dois triângulos, entrecruzados, formam o conhecido signo — ou selo — de Salomão, uma estrela de seis pontas que inclui, além do fogo e da água, o ar (triângulo do fogo ∆ truncado pela base do triângulo da água), e a terra (triângulo da água Ñ truncado pela base do triângulo do fogo). O todo é uma verdadeira suma do pensamento hermético, representando o conjunto dos elementos do Universo.

Maier reproduz textualmente aquelas seis leis, tal como vêm listadas no primeiro manifesto Rosacruz de 1614, a Fama Fraternitatis:

1. Curar os doentes ou cuidar deles gratuitamente; 2. Não usar hábito próprio à Fraternidade, mas sim e apenas os trajes locais; 3. Apresentar-se todos os anos no dia C. na morada do Sanctus Spiritus, ou comunicar o motivo da ausência; 4. Designar um digno sucessor em previsão de morte; 5. As letras R. C. serão o seu selo, insígnia e sigla; 6. A Fraternidade deve permanecer oculta durante um século.

É interessante notar que a primeira, ou seja, a cura dos enfermos gratuitamente («De graça recebestes, de graça dai» — Mateus 10, 8) adquire tanto relevo no espírito de Maier, que este lhe dedica nada menos de nove capítulos de comentários na Themis Aurea (capítulos IV a XII), ao passo que as restantes merecem apenas um capítulo cada uma.

Assim como os Dez Mandamentos da Antiga Aliança foram sumarizados em dois pelo Cristo do Novo Testamento («Amarás ao teu Deus com todo o teu coração, alma e mente […], e amarás ao teu próximo como a ti mesmo» — Mateus 22, 37-39), também aquelas seis antigas leis foram sumarizadas em duas pela Nova Escola de Mistérios Rosacruzes: «Curar os enfermos e pregar o Reino de Deus», tal como Cristo ordenou aos Seus apóstolos.

O alquimista rosacruciano dispõe do Oratório e do Laboratório, no seu Templo do Espírito, para levar a cabo as operações de transmutação. Por isso se diz, na lei n.º 3, que deve apresentar-se todos os anos no dia C. na morada do Sanctus Spiritus; ou seja: no dia do seu Cristo interno, ou do seu íntimo Natal [5], deve estar perfeitamente consciente do seu verdadeiro estar no templo do Espírito Santo, que é o seu próprio corpo mortificado, acrisolado, e por fim purificado e transfigurado («Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que está em vós?» — 1 Coríntios 6, 19).

Do lado do Oratório deve ter a biblioteca, isto é, a teoria e o alimento mental, a oração oculta, ou a palavra de razão: — o noûs e o logos; do lado do Laboratório deve ter os instrumentos da prática, o alambique, as retortas, os cadinhos, que é como quem diz, as obras do coração e do serviço desinteressado, inegoísta e amoroso, ou cordial. E é nesta dupla vertente, mental e cordial, que a transmutação alquímica do ser humano, no seu todo, se deve processar.

Como referi há pouco, essa transmutação abrange os nove estágios do percurso involutivo-evolutivo do tríplice corpo do ser humano, da tríplice alma e do tríplice espírito. No mundo moderno, cava-se uma distância abissal entre a mente e o coração: a mente prepondera, altamente evoluída pela ciência, e só se satisfaz com explicações materialmente demonstráveis, ao passo que o coração nem sempre encontra meios para manifestar o seu poder: as suas intuições são muitas vezes inseguras e erram ao aventurar-se nos mistérios do ser, que a mente esquadrinha de forma tão redutora quão aparentemente sólida e exacta.

Tanto vale dizer que a «pedra filosofal» do Conhecimento e da Verdade será alcançada quando a mente e o coração se unirem harmoniosamente, aperfeiçoando-se e cooperando mutuamente até que o ser humano atinja a mais elevada Gnosis e a mais elevada Sophia, isto é, até que esteja em condições de viver a Vida Religiosa em plenitude. Esta operação é descrita pelo rosacruciano Max Heindel (1865-1919) no seu livro clássico The Rosicrucian Cosmo-Conception [6]:, e a ênfase que Michael Maier coloca, na Themis Aurea, na eficácia alquímica das energias «curativas» trabalhadas discreta mas sabiamente «no oculto»[7], ensina-nos que a «panaceia»[8], mais do que um bálsamo físico, ainda que envolto numa teia de simbolismos, é um Mistério sagrado que o Adepto deverá saber buscar no mais completo despojamento de si:

Embora os Irmãos [da Rosacruz] possuam as medicinas mais eficazes do mundo, não se vangloriam disso, antes o escondem; talvez os seus pós contenham cinábrio ou alguma outra matéria ligeirísima, mas produzem seguramente mais efeito do que se pode imaginar. Possuem a Phalaia bem como a Asa de Basílio, o Nepenthes que afasta as mágoas e pesares de Homero e do Trimegisto, o unguento de ouro, a fonte de Júpiter Hammon, que é quente de noite, fria ao meio-dia, e tépida ao nascer e ao pôr do Sol. Desdenham lucros e proveitos e não são seduzidos por altos cargos nem por honrarias; nem desejam de nenhum modo evidenciar-se […]; submetem-se tranquilamente à protecção divina, não se exibem nem se escondem, mas exercem a sua actividade em silêncio (Michael Maier, Themis Aurea, cap. VI).

Com efeito,

… é pela Alquimia Espiritual que construiremos o templo do Espírito e conquistaremos o pó donde viemos, qualificando-nos como verdadeiros Mestres Maçons preparados para trabalhar em esferas mais elevadas (Max Heindel, Occult Principles of Health and Healing, Oceanside 1938).

Em suma, há-de ser dentro de nós próprios que teremos de descobrir, desbravar e percorrer o Caminho da Salvação, e não apenas nesta ou naquela prática, neste ou naquele ritual, neste ou naquele livro por muito sublime e englobante que seja, ainda que se trate do livro dos livros, porque a letra só brilha para quem já preparou os olhos capazes de suportar o brilho da Luz «que já existe e que é tão bela».

Como dizia Florentinus de Valentia: «O livro que contém todos os outros está em ti, e em todos os homens». António de Macedo

NOTAS

[1] A grafia actual é «Rosenkreuz», com k e não com c.

[2] Segundo a lenda, a virgem Atalanta era muito veloz a correr e, por fidelidade à deusa Ártemis, decidira casar-se apenas com o homem que conseguisse vencê-la na corrida, jurando que mataria os pretendentes a quem vencesse, o que foi o caso de muitos. Graças ao ardil de lhe ir lançando à frente uns frutos de ouro que trouxera do Jardim das Hespérides, Hipómenes venceu-a porque ela se atrasava a apanhá-los. Atalanta submeteu-se ao prometido, e aceitou casar com Hipómenes.

[3] Existe uma edição moderna da Philosophical Research Society, Los Angeles 1976 que reproduz, em fac-simile integral, a primeira tradução editada em língua inglesa: Michael Maier, Themis Aurea — Laws of the Fraternity of the Rosie Crosse, N. Brooke, Cornhill 1656 (tradutor anónimo).

[4] Segundo Hesíodo (Teogonia, v. 135 e vv. 901-906), Témis, filha de Urano e de Gaia, é a deusa das Leis Eternas, sendo, por sua vez, mãe das Horas, da Boa-Lei (Eunomia), da Justiça, da Paz e das três Moiras.

[5] O «nascimento do Cristo interno» é a aspiração maior do cristão místico. Os primitivos cristãos saudavam-se: «Que o Cristo nasça em ti!». É o equivalente, de certo modo, ao samâdhi do Hinduísmo ou o satori do Budismo Zen.

[6] Cf. Max Heindel, The Rosicrucian Cosmo-Conception (1909), The Rosicrucian Fellowship, 28ª edição Oceanside 1977: «Alchemy and Soul-Growth», pp. 421-425.

[7] «Tu porém quando rezares, entra no teu quarto, e, de porta fechada, reza a teu Pai que está no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, te corresponderá» (Mateus 6, 6).

[8] Este termo deriva do nome da deusa da cura universal por meio de plantas, Panaceia, filha de Asclépios, o deus da Medicina.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Phoenix

Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei.

Ir.: Frater Magister

“ABRAHADABRA Ele toca o sino Onze vezes Agora começo a Orar: Vós, Criança Sacro e imaculado é vosso nome Vosso reino é vindo, Vossa vontade foi feita Aqui está o Pão, Aqui está o SangueTrazei-me através da meia-noite ao Sol Livrai-me do Bem e do Mal!” - Fragmento da Missa da Phoenix de Aleister Crowley

Olhai as coisas da vida do ponto de vista do Sol – disse Crowley ao seu discípulo. Essa identificação com o Astro Rei nos fará ser a fonte de luz, que brilha, aquece e abrasa os corações, tornando o verdadeiro sentido do Amor, num amor puro e desinteressado, o Amor de ágape.

Tal concepção só é conseguida pela depuração interior, no momento que o Iniciado morre para o mundo mundano e assim como a lenda da Phoenix que após uma existência secular com o acúmulo de sabedoria, inflama-se para ressurgir de suas próprias cinzas.

Este é um aspecto elementar na maioria das escolas de pensamento. Aprendi por todos esses anos de estudo do Oculto, que devemos ser sempre originalmente abertos para abraçar o infinito, e a cada passo dado fomentarmos a pesquisa e finalmente partirmos para a prática pura. Essa experiência pessoal é que nos faz deslumbrarmos a possibilidade de crescimento interior. Ora, imaginem dois artistas pintores contemplando uma mesma paisagem, esboçando e pintando um quadro artístico sobre ela, ao final da obra, veremos duas concepções que representam em síntese a mesma coisa, só que com formas diferentes de serem vislumbradas. É isso que nos faz sermos de fato estrelas com órbitas diferentes, pequenos universos ou microcosmos, cada um com sua diretriz, mesmo que alinhados num só objetivo e fundamento, o crescimento interior. Entretanto o sentido de crescimento só poderá ser atingido, quando compreendemos o sentido de liberdade.

Quando libertamos nossos sentidos da teia ilusória do plano físico. Este é um trajeto para a verdadeira busca de nossa vontade Interior. A Magia da vida está em aprendermos com todos os Ordálias de crescimento e de conhecimento que a vida nos impõe.

Certa vez numa palestra disse que aspectos da vida diária se mesclam sempre com os caminhos Iniciáticos, pois a própria aventura da vida é o maior aprendizado do ser humano. Neste aspecto é importante ser dito que aqueles que seguem seus próprios instintos e inspirações, seguem a sua vontade num trajeto original de compromisso consigo mesmo.

O incentivo a idiossincrasia gera um sentido amplo mais apropriado para o crescimento pois não limita a ação particular do pensamento.

A somatória das experiências que todos passam de suas próprias percepções de suas linhas de ação e pensamento trazem o crescimento para todos.

Na A.:A.: (Astrum Argentum) escola de pensamento criada por Crowley, a introspecção direta do Aspirante em seu sistema filosófico, gerará as introspecções mágickas que engendrarão entendimentos plenos e profundos de muitos aspectos do cotidiano, por uma simples análise dos planos da existência, através do sentir pleno com suas forças e energias, e principalmente pelo respeito a todas as formas de existência.

Com isso, o desvendar desses véus ou neblinas que encobrem a mente, é que geram a originalidade de novos pontos de vista para muitos aspectos da vida, ou seja, é um incentivo pleno a criatividade.

Como Templário reivindico o direito do homem criar o seu próprio templo dentro de si; como Thelemita reivindico o direito inalienável do homem seguir a sua vontade, sua e de nenhum outro; como Universalista reivindico o direito do ser humano de compreender abertamente todos os mistérios que envolvem a sua criação com total consonância com o Universo; como Rosacruz reivindico finalmente a Liberdade plena para a dedicação e a realização da Grande Obra.

Tais reivindicações nada representam para os escravos dos sentidos. Agora, nós estamos nos aproximando do centésimo ano do Aeon de Hórus, isso nos faz meditar sobre a grande diversificação e variedade de pensamentos que surgiram nesse período, mas ao mesmo tempo perceber claramente a grande massa de ceticismo, vítimas em sua maioria das influências de uma outra grande massa subversiva do pensamento humano representado por uma infinidade de seitas sem fundamento ou por outras vezes dogmatizadas ao extremo.

Surpreendem-nos a incapacidade de tais céticos e escravos incapazes de buscar uma compreensão para os ensinamentos daqueles verdadeiros mestres que muitas vezes entregaram-se de corpo e alma para trazer a liberdade plena aos sentidos humanos. A humanidade pouco mudou apesar da meditação desses mais diversos mestres que passaram por aqui deixando suas marcas e ensinamentos. Se somos críticos de alguns deles, deveríamos antes ter a capacidade de mudar algo em nós mesmos.

A humanidade, agora mais uma vez encontrar-se a beira de um novo conflito, é fácil compreender que nada poderá ser mudado se continuarmos a fazer as mesmas coisas que fazemos todos os dias, se não mudarmos nossas atitudes, se não revermos nossos valores, e formas de enxergar o mundo.

Quando se defronta com estes aspectos, existe sempre o medo da pessoa no que tal mudança possa representar ou prejudicar em sua vida. Assim só me resta proclamar e incentivar através da escrita, a pesquisa e introspecção inovativa, que com certeza faria muitos adicionar a nossa causa um material mais novo, mais emocionante, num mundo esplêndido e magnífico da pesquisa iniciática.

Uma introspecção ou conceito podem eventualmente conduzir à equação de um ou mais pontos da vista, apesar de que quando o resultado dessa tal introspecção é revelado a outrem o resultado quase sempre é uma mescla de surpresa e às vezes confusão.

Assim poderia dizer que meu ponto pessoal de vista vem da fidelidade a meus juramentos, minhas aspirações e a minha vontade inflamada para mais e mais buscar a realização plena de meus ideais rumo a Grande Obra. A metodologia para a introspecção deverá ser sempre a Ciência e a experimentação. Amor é a lei. Amor sobre vontade.

sábado, 3 de janeiro de 2009

MAIS DO QUE SIMPLES VEGETARIANISMO

"Comer é o mais universal de todos os rituais humanos. Em qualquer parte do mundo, planejam-se as refeições de acordo com o que é disponível, saboroso, nutritivo, econômico ou apenas porque é fácil de preparar.

Porém, o Bhagavad-gita enfatiza outra consideração - " somos o que comemos ". Ele explica as diversas modalidades de alimentos e como o consumo desses alimentos produz diferentes resultados físicos, psicológicos e espirituais.

Produtos lácteos, cereais, frutas e vegetais aumentam a duração de vida e proporcionam força, saúde, felicidade e satisfação. Carne, peixe e aves são descritos como "alimentos pútridos, decompostos e sujos."

Numerosos estudos científicos provam que o consumo de carne de animais pode ser muitíssimo perigoso para a sua saúde. Ao estudarmos a disciplina Química por exemplo em Termo-química onde se analisam os alimentos, é comprovado que um pedaço de carne demora em média 48 horas para fazer a digestação no organismo, até lá ele realmente apodrece dentro do estômago e neste processo liberam-se substâncias altamente nocivas. Uma pessoa carnívora acaba armazenando no seu organismo substâncias que poderão desencadear uma doença séria como um cancêr no estômago ou intestino.

Também já foi comprovado que os animais pressentem que irão morrer, isto gera uma descarga de adrenalina no seu organismo, a qual contamina automaticamente toda a carne do animal.

Além disso, por envolver a matança de animais inocentes, o consumo de carne levanta sérias questões éticas e psicológicas, pois ao matar os animais para a obtenção de alimento, o homem deixa de ter compaixão para com as criaturas vivas que são como ele mesmo, tornando-se cruel.

Nossa posição no mundo é singular, porque como seres humanos podemos compreender a existência de um supremo criador e proprietário que provê o sustento para todas as formas de vida.

Ao entendermos quanto somos dependentes de Deus para nos alimentarmos, podemos expressar nossa compreensão e gratidão oferecendo ao Senhor o alimento antes de o comer, sendo este ato um componente vital para a auto-realização.

Ao tirarmos a vida de qualquer entidade viva, ficamos sujeitos a uma reação do karma, a lei sutil de ação e reação. Mas Krishna, Deus nos liberta desta reação ao aceitar os alimentos vegetarianos oferecidos a Ele com amor e devoção.

Os membros da Iskcon combinam com grande habilidade ingredientes como arroz, verduras, queijo, iogurte, frutas ,nozes e temperos naturais para criar pratos nutritivos e saborosos, estando livre de karma, este alimento espiritualizado (prasadam) é delicioso e gratificante."


Anadi Devi Dasi no Krishna-Katha http://br.groups.yahoo.com/group/krishna-katha/ http://harekrishna.org.br/modules/smartsection/item.php?itemid=12

DA MORALIDADE À ESPIRITUALIDADE

Não faltam notícias falando sobre corrupção, nepotismo ou infidelidade. Os políticos dizem, “Uma educação ética e moral é a solução”. Mas a maior parte das pessoas já não têm o errado como certo? Eu diria que sim. Elas acham que vão se dar melhor na vida se não seguirem códigos morais. E exortações por parte dos moralistas, ou legislações por parte dos políticos, não parecem inspirar essas pessoas a pensarem diferente.

Viver sob princípios morais é como seguir as leis de trânsito para se ter uma viagem segura e tranqüila. Não se viaja, todavia, com o propósito de se seguir as leis, mas com o propósito de alcançar um destino. Se uma pessoa que está viajando sente que as leis de trânsito atrapalham-no a alcançar seu destino, ela talvez quebre essas leis se acredita que pode ficar impune.

Assim como as leis de trânsito, princípios morais promovem ordem, especialmente no âmbito das relações sociais. Mas a educação moderna não nos ensina sobre o objetivo das transações sociais ou sobre o objetivo da vida em si. Assim, as pessoas talvez sigam valores morais motivadas pela cultura ou tradição, mas abandonam estes valores quando seduzidas por algo ou quando as circunstâncias não forem muito favoráveis. Ainda pior, para se obter as incessantemente glorificadas metas da sociedade moderna de consumo – fama, riqueza, luxo, poder, prazer, prestígio – encoraja-se, e às vezes até mesmo se exige, um comportamento imoral. O Bhagavad-gita (16.8-15) explica que uma visão de mundo baseado no materialismo conduz a pessoa à luxúria insaciável e à cobiça, que, por sua vez, conduzem à execução de atos corruptos. Sendo constantemente bombardeadas com os valores materialistas, as pessoas talvez sintam que, se forem morais, perderão muito e não ganharão nada tangível. Além do mais, nossa educação sem valores religiosos não nos dá nenhum conhecimento acerca de qualquer lei superior a do homem. E a incapacidade de reformação de nosso sistema penal também é bem famosa. O resultado? A moralidade parece ser totalmente dispensável, especialmente para os espertos e poderosos. Em tal contexto, como podemos esperar que um simples conselho inspire as pessoas a serem morais?



Amor: A Base da Moralidade

“Moralidade significa falta de oportunidade”. Este ditado americano expressa bem a abordagem utilitária da moralidade. Os textos Védicos da antiga Índia afirmam que moralidade sem espiritualidade é algo infundado e, portanto, impermanente. Se nós realmente aspiramos por moralidade em nossa sociedade, precisamos introduzir uma educação sistemática centrada em uma meta de vida positiva. Os textos Védicos nos informam de uma meta de vida espiritual que é universal e não-sectária: desenvolver amor puro por Deus. Somos todos seres espirituais destinados a desfrutar de nossa eterna relação amorosa com o supremo ser espiritual todo-atrativo, Deus. Sendo espirituais por natureza, não podemos encontrar verdadeira felicidade em aquisições materiais, mas unicamente em nosso inato amor por Deus. Quanto mais amamos Deus, mais felizes nos tornamos.

O amor por Deus tem por conseqüência o amor por todas as entidades vivas, sendo essas nossos irmãos e irmãs na grande família universal de Deus. Quando realmente amarmos todos os seres, não iremos querer explorá-los ou manipulá-los para a satisfação de nossos desejos egoístas. Ao contrário, nosso amor por Deus irá nos inspirar a nos amarmos e a nos servirmos mutuamente: criando uma cultura de amor e confiança, que traz o comportamento moral consigo. Já a cultura moderna de alienação e desconfiança, em grande contraste, traz a imoralidade consigo.

Práticas espirituais genuínas, mesmo nos primeiros dias de prática, despertam nosso inato sistema de valores. Nós intuitivamente realizamos que Deus é nosso maior bem-querente. Por conseqüência, de forma voluntária e amorosa, escolhemos seguir os princípios morais da vida espiritual, como sugeridos por Deus, sabendo que são o melhor para nós. E à medida que redescobrimos a felicidade de se amar a Deus, tornamo-nos livres da luxúria, da cobiça e das motivações egoístas. Já não mais achamos faltar algo porque somos morais. A moralidade deixa de ser a escolha “difícil mas necessária”, e passa a ser a escolha fácil e natural no nosso caminho de amadurecimento espiritual.



Não se Trata de uma Utopia

Alguns talvez digam, “Isso soa muito bonito, mas não é científico, é utópico”. Em outras palavras, vivemos em uma era em que apenas a visão de mundo prática e científica é considerada lógica e aceitável. Mas seria a visão de mundo Védica realmente ilógica e impraticável?

Nós temos sempre que lembrar que a ciência nunca provou a não-existência de Deus ou da alma; mesmo que muitos cientistas escolham a reducionista abordagem do universo como algo destituído de qualquer realidade espiritual. Mas de uma forma um tanto impressionante, mesmo dentro dessa priori reducionista, alguns cientistas aceitam que há fortes evidências que sugerem a existência de um criador supra-inteligente (Deus) e uma fonte de consciência não-material dentro do corpo (alma).

O amor por Deus só pode parecer utópico até o momento em que não conhecemos a coerente filosofia que traça o caminho para sua aquisição. Através de práticas espirituais genuínas, como orações, meditação e o cantar dos nomes de Deus, qualquer um pode experimentar um grande crescimento espiritual. Uma vez que tenhamos experimentado amor imortal, realizaremos que o amor é definitivamente a meta última da vida.



Moral Superior

Alguém que conheça alguns episódios da vida de Krsna e de Seus devotos talvez levante a objeção: “Mas o próprio Krsna, algumas vezes, age de forma imoral. E igualmente agem seus devotos. Como é possível que a adoração a um Deus imoral ajude-nos a nos tornamos morais?”.

Para entender isso, precisamos, primeiramente, tecer algumas considerações acerca do propósito último de todos os valores morais. Estamos perdidos na escuridão da ignorância do mundo material, sem saber o que devemos fazer e o que não devemos fazer. Como um archote, os valores morais iluminam nosso caminho. Eles nos protegem de nos perdermos pelo caminho, e nos mantêm na direção de nosso objetivo maior – amar a Krsna e retornar a Ele. Mas Krsna é a fonte de toda a moralidade, assim como o sol é a fonte de toda a luz. Porque Ele é plenamente auto-satisfeito, Ele age unicamente por amor a nós, sem nenhuma mácula de egoísmo. Ele age ou para reciprocar nosso amor ou para ajudar-nos a não nos desviarmos de nosso caminho religioso. Ele não precisa de códigos morais porque não tem sequer o menor vestígio de desejos egoístas. Somos nós quem precisamos de códigos morais, exatamente porque estamos cheios de desejos egoístas. Mas se nos tornamos orgulhosos de nossa moralidade e tentamos examinar Krsna a partir dela, isso é como tentar iluminar o sol usando uma tocha. Isto não só é tolice, mas também perda de tempo.

Quando o sol nasce por seu próprio arranjo, sua refulgência revela toda a sua glória. Similarmente, quando Krsna decide se revelar espontaneamente, podemos entender como são imaculadas Suas glórias e moral. Até lá, o melhor a fazermos é seguirmos escrupulosamente os códigos morais para darmos prazer a Ele, até que, estando satisfeito, Ele se revele a nós. E devemos, também, tomar cuidado para não nos tornarmos orgulhosos de nosso comportamento adequado.

Se aceitarmos a posição de Krsna como o Senhor Supremo, podemos entender um pouco sobre como Suas atividade são morais. Krsna, por exemplo, rouba manteiga das casas das vaqueiras de Vrndavana. Mas como se pode considerá-lO um ladrão quando foi Ele quem criou tudo e portanto é o proprietário de tudo? Ele assume o papel de uma criança para reciprocar o amor maternal de Seus devotos. Seus furtos, executados como a diversão de uma criança travessa, aumentam o apego e afeto de Seus devotos amorosos. Como isso pode ser comparado aos nossos furtos, que têm por conseqüência o sofrimento, a dor e a punição?

De forma similar, Krsna aceita o papel de um belo jovem para reciprocar o amor dos devotos que anseiam por uma relação conjugal com Ele. Seu amor pelas gopis, as jovens vaqueirinhas, não é baseado na beleza de seus corpos, mas na devoção de seus corações. Algumas pessoas alegam que os passatempos de Krsna com as gopis são como as relações luxuriosas entre garotos e garotas comuns. Mas, então, por que grandes santos que renunciaram completamente o amor sexual deste mundo, aceitando-o como insípido e grosseiro, iriam adorar os passatempos de Krsna com as gopis. Mesmo hoje, milhares de pessoas ao redor de todo o mundo estão se livrando dos desejos luxuriosos por cantarem os nomes de Krsna e por adorá-lO. Se Krsna fosse controlado pela luxúria, como seria possível para Ele livrar Seus devotos da mesma?

Na batalha contra os Kauravas, Krsna insta os Pandavas a agirem imoralmente. Mas isso é como uma autoridade instar um policial a exceder o limite de velocidade para que ele prenda bandidos que estão dirigindo acima do limite de velocidade. O policial está (aparentemente) infringindo a lei para servir ao verdadeiro objetivo da lei. Similarmente, os Pandavas quebram valores morais para servirem ao objetivo superior de Krsna: estabelecer leis morais tirando os imorais Kauravas do poder.

Em circunstâncias excepcionais, os devotos de Krsna talvez tenham que agir de forma aparentemente imoral para cumprirem seu dever, que visa o benefício último de todas as entidades vivas. Mas, de forma geral, os devotos seguem códigos morais como uma oferenda devocional a Krsna. De fato, sem devoção, nós não teríamos a força interior necessária para manter por toda a vida os valores morais que aceitamos.

Nós temos que ser cautelosos ao tentarmos entender as ações de Krsna, que estão acima da moralidade. De outra forma, nós podemos entendê-lO errado e rejeitar Seu amor, condenando-nos, assim, a ficarmos longe da verdadeira moral e a sofrermos as reações karmicas provenientes de nossas compreensões equivocadas.

Se queremos ser morais de forma constante, exortações vazias e uma legislação ineficaz não bastam. Enquanto se incentivar às pessoas a conquistarem metas materiais, elas verão a moralidade como algo imprático ou até mesmo indesejável. Apenas quando tomarem o amor por Deus como a meta da vida é que a moralidade se tornará desejável e coerente. Portanto, em um nível sociológico, temos que introduzir a prática e a educação espiritual genuína, que conduzirá as pessoas ao amor por Deus e a objetivos interiores. E, em um nível individual, reconhecer a base espiritual da moralidade é algo muito motivador. Essa consciência permite-nos agir livre da necessidade de aprovação de outros, da apatia ou da indignação por ser o único a agir corretamente. Em um tecido cancerígeno, uma célula saudável pode ativar o processo de cura das demais. Similarmente, quando o câncer da imoralidade aflige a sociedade moderna, cada um de nós pode, por conduzir sua própria vida de forma espiritual e íntegra, ativar o processo de cura da sociedade.

Por Chaitanya Charana Dasa

http://harekrishna.org.br

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Da Biblioteca para a Fogueira

Razões políticas, religiosas e morais têm levado os livros à destruição desde sua origem, na Mesopotâmia, até os dias atuais, como no saque à Biblioteca de Bagdá

Por José Castello


Livros são potencialmente perigosos e, por isso, devem ser destruídos. A repulsiva idéia, que o escritor italiano Umberto Eco desenvolveu, de forma impecável, em seu popular romance O nome da rosa, de 1981, é na verdade muito antiga. Surgiu com os próprios livros, que aparecem pela primeira vez, feitos em argila, na Suméria, Mesopotâmia, onde é hoje o sul do Iraque. Guerras sucessivas os destruíram - perto de 100 mil deles, estimam os historiadores. Ainda assim, expedições arqueológicas desenterraram tabletas de argila que datam dessa época. Desde esses tempos remotos, o livro – em suas primeiras formas, tabletas, depois papiros, pergaminhos – está, sempre, sob ameaça.

A saga dessas agressões é relatada em História universal da destruição dos livros, do escritor venezuelano Fernando Báez. “Os que queimam livros acabam queimando homens”, escreveu o poeta Heinrich Heine. A história prova que sim. Báez participou da comissão da Unesco que, em março de 2003, visitou o Iraque depois da invasão americana, para investigar a devastação da Biblioteca Nacional de Bagdá. Ela sofreu dois ataques com bombas e mísseis, seguidos de dois violentos saques. Todo o acervo desapareceu. Tabletas de argila dos sumérios, de 5.300 anos, foram roubadas das vitrines.

“Mas a destruição da Biblioteca Nacional não teve a repercussão mundial da pilhagem do Museu Arqueológico de Bagdá”, Báez lamenta. Em um café da capital, a poucas quadras da biblioteca, ele ouviu o desabafo de um professor iraquiano. “Nossa memória já não existe.” A destruição de livros vem de muito longe. Em 1975, arqueólogos escavaram, a 55 km a sudoeste de Alepo, na Síria, os restos de um antigo palácio. O que encontraram? Uma biblioteca enterrada, com um acervo de 15 mil tabletas. A destruição foi conseqüência de um ataque militar inimigo, a respeito do qual os historiadores, ainda hoje, se encontram divididos; uns o atribuem ao rei acadiano Naramsin, outros ao rei Sargão. Três mil anos antes de Cristo, livros já eram dizimados pela guerra.

A devastação continuou, por volta de 2000 a.C., em uma região governada pelo rei Hamurabi, que é, hoje, o sul de Bagdá. Em 689 a.C., as tropas de Senaquerib arrasaram a Babiblônia. Seu neto, o soberano assírio Assurbanipal, o primeiro grande colecionador de livros do mundo antigo, fundou, em Ninive, outra esplêndida biblioteca, arrasada ela também décadas depois. De seus restos, no século XIX, arqueólogos desencavaram mais de 20 mil tabletas, hoje guardadas no Museu Britânico. No início do século XX, arqueólogos desenterraram na antiga Hattusa, a capital dos hititas, mais de 10 mil tabletas escritas, em pelo menos oito línguas diferentes. Também a biblioteca do Ramesseum, o templo que Ramsés II construiu em Tebas para lhe servir de túmulo, desapareceu com seus rolos de papiros esotéricos.

Depois de Ramsés II, o faraó monoteísta Akhnatón mandou queimar milhares de papiros, porque eles falavam de espectros e demiurgos. A destruição de livros continuou na Grécia Antiga. Estima-se que 75de toda a literatura, filosofia e ciência antiga se perderam. Das 120 obras incluídas no catálogo de Sófocles, hoje só temos a versão integral de sete, e um monte de fragmentos. “O horror é ainda maior”, lembra Báez. “Todos os pré-socráticos e todos os sofistas estão em fragmentos.” É a história em pedaços. Um dos momentos mais brutais foi o da destruição da Biblioteca de Alexandria, com um acervo que se aproximava do milhão de livros. Durante a metade de um ano, papiros contendo textos de Hesíodo, Platão, Górgias e Safo, entre tantos outros autores, foram usados para acender o fogo dos banhos públicos da cidade.

Centenas de obras da biblioteca de Aristóteles desapareceram quando da morte repentina de Alexandre Magno, de quem ele foi tutor. O fato mais grave é a perda do segundo livro de sua Poética, dedicado ao estudo da comédia. Em O nome da rosa, Umberto Eco propõe a versão de que ele foi destruído progressivamente pela Igreja Católica, para conter a influência do humor. Báez suspeita que a Poética tenha sido, na verdade, destruída pelo desleixo. Um dos momentos maiores da história de Israel é a destruição das Tábuas da Lei. O Êxodo diz que foi o próprio Moisés quem, em um acesso de cólera, as destruiu. A descoberta, em 1947, por jovens beduínos, dos célebres Manuscritos do Mar Morto, revelou a primeira coleção conhecida de livros do Antigo Testamento.

Até hoje eles provocam a polêmica, o que leva Báez a concluir que “os teólogos não parecem preparados para admitir a existência de Cristo para além da fé”. Um Cristo nos livros. A perseguição religiosa é universal. Na China, houve a caça aos textos budistas. Em 1900, em grutas em meio ao deserto de Gobi, foram encontrados milhares de textos sagrados do budismo, muitos em bom estado, mas outros em fragmentos, que lá estiveram adormecidos ao longo de 1500 anos. São Paulo lutou contra o que considerava “livros mágicos”. Em uma visita a Éfeso, levou os magos da cidade a queimarem voluntariamente seus livros, para que não caíssem nas mãos dos cristãos. “O desaparecimento dos escritos dos gnósticos, causado, em grande parte, pela feroz perseguição da Igreja Católica, merece um livro só para si”, Báez comenta.

Vínculo mais direto com a cultura grega clássica, o Império Bizantino preservou os escritos de Platão, Aristóteles, Heródoto e Arquimedes. Lá, nos século II e III, surgiu um novo formato de livro, o códice, mais resistente, feito de pele de cabra, ou de ovelha. Ainda assim, em 1204, quando a Quarta Cruzada chegou a Constantinopla, milhares de manuscritos foram destroçados. O feroz ataque das tropas turcas em 1453 também levou à destruição de milhares de livros. “Houve um momento em que todo o continente europeu ficou literalmente sem bibliotecas”, Báez recorda. Nos séculos V e VI, copiar e ler eram atividades pouco usuais, quase secretas. Se os clássicos gregos sobreviveram em Bizâncio, os clássicos latinos e celtas foram salvos, em grande parte, pelos monges da Irlanda.

Foi Carlos Magno, o rei dos francos, quem, no século VIII, estimulou os bispos a fundar escolas e bibliotecas. Nada disso conteve a destruição. Abelardo – que foi castrado por seu amor proibido por Heloisa – teve a obra queimada pelo papa Inocêncio III. Dante viu o seu Sobre a monarquia virar um monte de cinzas na Lombardia, em 1318. Savonarola queimou também os livros de Dante, mas, um ano depois, a Igreja lançou no fogo todos os seus escritos, sermões, ensaios e panfletos. Um dos momentos mais célebres da história da destruição dos livros envolve a Bíblia de Gutenberg, concluída em 1455.

Dos 180 exemplares impressos, só restam 48 cópias. O descaso a destruiu, mas o próprio Gutenberg, segundo algumas fontes, arruinou alguns exemplares, na esperança de lhes aprimorar a beleza. O horror se disseminou com a perseguição promovida pelo Santo Ofício. Com a excomunhão de Martim Lutero, em 1520, a difusão de seus escritos foi proibida pela Igreja. Em 1542, o papa Paulo III constituiu a Congregação da Inquisição. Seu sucessor, Paulo IV, criou o temido Index, lista de livros proibidos. Na Espanha, a ascensão de Felipe II fortaleceu a censura católica. Também na França, Carlos IX passou a destruir, pelo fogo, livros perigosos. A perseguição a astrólogos, alquimistas e poetas atingiu o profeta Nostradamus. Seu livro mais importante, as Centúrias, de 1555, “tem sido sistematicamente destruído desde seu aparecimento”, lembra Báez. Da primeira edição, só restam hoje dois exemplares.

A guerra sempre foi inimiga dos livros. No século XV, uma guerra civil no Japão acabou com todas as bibliotecas de Kioto. Em 1527, o exército de Carlo V, ao conquistar Roma, destruiu muitas bibliotecas. Na Guerra de Secessão dos Estados Unidos, muitos livros desapareceram. Quando tomaram o Canadá em 1813, os soldados americanos queimaram a Biblioteca Legislativa. Como vingança, os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso Americano. A destruição de livros é, em grande parte, fruto da hostilidade contra o pensamento. “A França foi o berço da liberdade européia porque também foi o berço da censura”, lembra Báez. As Cartas filosóficas, de Voltaire, provocaram a ira da Igreja; Voltaire foi preso e seu livro queimado.

Do mesmo modo, a publicação da Enciclopédia, em 1759, provocou tanto escândalo que o próprio editor, Le Breton, temendo as retaliações, destruiu vários exemplares. Também os Pensamentos filosóficos, de Diderot, foram incinerados por ordem do Parlamento. Na Revolução Francesa, a lei do terror estimulou o ataque a bibliotecas. Só em Paris, mais de 8 mil livros foram queimados. Também durante a Comuna de Paris, em 1871, bibliotecas foram destruídas. A emancipação da América Latina também foi marcada por saques e destruições. Na Venezuela, o Santo Ofício mandou queimar uma coleção que Simon Bolívar conseguiu reunir para o acervo de uma biblioteca pública. Durante a Guerra Civil Espanhola, a Biblioteca Nacional, em Madri, foi bombardeada. “Somente graças à abnegação dos bibliotecários, centenas de livros e manuscritos se salvaram”, observa Báez.

Com a chegada de Franco ao poder, iniciou-se um movimento de “depuração” das bibliotecas, perseguindo “idéias que possam resultar nocivas à sociedade”, de acordo com um decreto oficial. A ascensão dos nazistas gerou um verdadeiro “bibliocausto”, Báez define. Ao ser designado chanceler em 1933, Hitler, que era um pintor frustrado, iniciou uma feroz perseguição à cultura. Leitor voraz, ele, ao morrer, num exemplar dos ensaios de Ernst Schertel, deixou uma frase sublinhada: “Quem não carrega dentro de si as sementes do demoníaco nunca fará nascer um novo mundo”. A expansão soviética destruiu muitas bibliotecas. Em 1944, dezenas delas foram arrasadas em Budapeste, na Hungria. No ano seguinte, na Romênia, trezentos mil livros desapareceram.

Também quando o regime do Khmer Vermelho triunfou no Camboja, em 1975, um estranho letreiro foi dependurado na porta da Biblioteca Nacional: “Não há livros. O governo do povo triunfou”. Mas a destruição não tem ideologia. Quando subiu ao poder, no Chile, o ditador Augusto Pinochet atacou a sede da Editora Quimantú, destroçando milhares de livros. A Revolução Cultural chinesa, Báez acrescenta, foi uma máquina de destruir livros. Na Universidade de Pequim, todos os livros considerados ofensivos à consciência do povo eram queimados. Mais tarde, o escritor Pa Kin assim descreveu o clima de histeria que dominou o país e pelo qual ele mesmo se deixou arrastar: “Destruí livros que armazenei durante anos. (...) Eu negava completamente a mim mesmo”.

Em todo o planeta, a destruição se alastrou. No dia 30 de agosto de 1980, a mando da ditadura a Argentina, vários caminhões descarregaram 1,5 milhão de volumes em um terreno abandonado. Eles foram borrifados com gasolina e queimados. Mais recentemente, os talibãs destruíram na capital Cabul todos os livros contrários à sua fé. No conflito entre judeus e palestinos, milhares de livros, de ambos os lados, já foram perdidos. Em Cuba, em dezembro de 1999, em um estacionamento de uma colina de Havana, centenas de livros doados pelo governo espanhol foram destruídos. O motivo: entre eles, havia 8 mil exemplares da Declaração dos Direitos Humanos.

Em março de 1997, os bibliotecários da Escola Hertford mandaram destruir 30 mil livros sobre temas homossexuais, que haviam sido doados. Durante oito horas de trabalho, 35 voluntários enterraram os livros. Mas não é só o conservadorismo que promove queima de livros, o pensamento progressista também. Em 1998, na Virginia Ocidental, um grupo chamado Coletivo de Mulheres queimou, em uma imensa fogueira, livros considerados degradantes à condição feminina, entre eles obras de Schopenhauer. No ano de 1994, as tropas russas entraram na Chechênia e arrasaram Grosny. O bombardeio sobre a cidade destruiu uma coleção de dois milhões e setecentos mil livros. Salvaram-se apenas 20 mil livros, guardados nos subterrâneos de um estádio de futebol. Calcula-se que em toda a Chechênia mais de mil bibliotecas e mais de 11 milhões de livros foram dizimados. As ameaças mais atrozes vêm, hoje, do terrorismo.

Recentemente, grupos diversos já manifestaram a intenção de destruir a Biblioteca do Congresso americano e a Biblioteca do Vaticano. O ataque ao World Trade Center, em Nova York, aniquilou arquivos e bibliotecas de economia. Mas, com a criação dos livros-bomba, os livros se tornaram, eles também, efetivamente perigosos. Em dezembro de 2003, Romano Prodi, presidente da Comissão Européia, quase morreu quando abriu um livro-bomba recheado de pólvora. Ainda assim, consola-se Báez, a cada livro destruído, mais aumenta o nosso horror. “Cada livro queimado ilumina o mundo”, sintetizou Ralph W. Emerson. Essa constatação não recupera as bibliotecas perdidas, mas acalenta a esperança de um futuro melhor.

Escritores perseguidos no Brasil e no exterior

Todos conhecem o caso do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, autor do famoso – e perseguido – Os versos satânicos. Em 1989, o líder iraniano, aiatolá Khomeini, condenou Rushdie com uma fatwa. Ofereceu-se um milhão de dólares a quem o matasse. Seus livros passaram a ser queimados em diversos pontos do planeta. A literatura sempre foi alvo de perseguição. Em 1912, o impressor irlandês John Falconer queimou 999 dos mil exemplares da primeira edição de Dublinenses, de James Joyce, porque a linguagem forte dos relatos não o agradou. O mais famoso romance de D. H. Lawrence, O amante de lady Chatterley, teve a primeira edição inteiramente destruída. A acusação de pornografia levou o Departamento de Estado americano a queimar livros do psicanalista Wilhelm Reich.

A primeira edição de A cidade e os cachorros, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 1962, não só foi confiscada pelos militares, mas totalmente queimada. Não é preciso longe. Báez recorda também que Getúlio Vargas mandou queimar 1700 exemplares de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Muitas vezes, no entanto, são os próprios escritores que perseguem seus livros. É célebre a história do tcheco Franz Kafka que, antes de morrer, pediu ao amigo, Max Brod, que queimasse seus manuscritos. Brod o desobedeceu. Ao morrer, também o filósofo romeno E. M. Cioran deixou 34 cadernos de mil páginas com uma indicação precisa: “Destruir”. Sarcástico, Borges lembrou, um dia, que, quando um escritor quer dar sumiço em seus livros, faz o serviço pessoalmente.

Quando se refugiou em Charleville, o poeta Arthur Rimbaud, por exemplo, queimou ele mesmo muitos de seus manuscritos. Até Platão queimou livros, Báez nos lembra. Na juventude, quando conheceu Sócrates, Platão destruiu todos os seus poemas. Muito mais tarde, queimou os tratados do filósofo Demócrito para esconder semelhanças entre as idéias do inimigo e as suas. “É possível que Platão queimasse obras? Pois bem, ele queimou”, Báez afirma, perplexo com sua própria afirmação. Ele recorda ainda que, em 1910, os futuristas escreveram um manifesto em que pregavam o fim de todas as bibliotecas. Um escritor genial como Vladimir Nabokov queimou um exemplar do Quixote em pleno Memorial Hall, diante de seiscentos alunos, com o argumento de que o livro não prestava.

E Martin Heidegger entregou livros de seu maior inimigo, o filósofo Edmund Husserl, para que estudantes de filosofia os levassem ao fogo. E os amigos? Quando Gustave Flaubert leu para amigos, pela primeira vez, seu estranho As tentações de Santo Antão, eles sugeriram que ele o queimasse imediatamente e o esquecesse. Por sorte, dessa vez foi Flaubert quem não os atendeu. Em Crônica pessoal, Joseph Conrad conta que seu próprio pai queimou alguns de seus manuscritos. Isaac Newton dedicou sua vida a censurar e perseguir os trabalhos do astrônomo John Flamsteed. Newton plagiou as idéias de Flamsteed sobre as estrelas – e depois, temendo ser descoberto, conseguiu o confisco dos trezentos exemplares de livro que continha esse plágio e os queimou.

A busca da pureza e a luta contra a imoralidade têm sido fortes argumentos para a destruição de livros. Em 1749, Fanny Hill, romance de John Cleland, que relata as aventuras de uma prostituta, foi proibido antes de ser editado. Já no século XX, a corte de Westminster, na Inglaterra, decretou a eliminação de todos os exemplares do Satyricon, de Petrônio, obra-prima da literatura latina, porque o livro trata da liberdade sexual. No século XIX, a grande obra de Charles Darwin, A origem das espécies, de 1859, teve muitos de seus exemplares queimados. Até hoje, nas regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o livro é perseguido como perigoso.

Livros censurados

DA MONARQUIA Dante Alighieri

CENTÚRIAS Michel Nostradamus

CARTAS FILOSÓFICAS Voltaire

PENSAMENTOS FILOSÓFICOS Denis Diderot

OS VERSOS SATÂNICOS Salman Rushdie

DUBLINENSES James Joyce

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY D. H. Lawrence

A CIDADE E OS CACHORROS Mario Vargas Llosa

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS Jorge Amado

SATYRICON Petrônio

A ORIGEM DAS ESPÉCIES Charles Darwin

Jean Theophile Desaguliers

Visa-se aqui dar uma idéia acerca da vida e da obra de Jean Théophile Desaguliers, mais conhecido na Inglaterra como John Theophilus. Desaguliers ocupa uma posição impar quando da fundação da Grande Loja de Londres, por não se identificar com alguns nobres empoados de então nem com os supersticiosos maçons plebeus dos primórdios que confundiam superstição com esoterismo e misticismo, fato tão comum no Brasil de hoje.

Desaguliers, além de possuir uma sólida formação científica, como se verá a seguir, era um homem também pragmático, preocupado em resolver os problemas concretos de seu tempo, extrapolando na preocupação com questões metafísicas. Homem de escol, é considerado um dos Pais Fundadores da moderna maçonaria.

II A Saga Huguenote de La Rochelle

O nosso personagem é proveniente de uma família huguenote. Como se sabe, huguenotes são protestantes franceses que se desenvolveram durante a Reforma do século XVI. Sofreram penosas perseguições já que a fé que os guiava, durante muitos anos, esteve baseada nas idéias de Calvino. Esses protestantes fundaram em 1559 uma igreja na França que grassou como um rastilho de pólvora. Emergiram vitoriosos sobre as forças católicas durante as Guerras Religiosas (1562-98) e, pelo Edito de Nantes, receberam uma certa liberdade religiosa e política.

Desaguliers nasceu em 12 de março de 1683 em Aytré, um subúrbio de La Rochelle na França. Era filho do pastor huguenote Jean Desaguliers da comunidade protestante de La Rochelle.

Os huguenotes franceses viviam por esta época momentos difíceis. Desde o começo do século XVI, La Rochelle era uma cidade muito próspera que lucrava com o comércio, principalmente com o da América. Tornou-se um centro calvinista extremamente ativo. Em 1571, houve um importante sínodo protestante que adotou, sobre a inspiração de Théodore de Bèze, a Confissão de La Rochelle. Em 1573, Henrique III, ainda como duque de Anjou, cercou a cidade por mais de seis meses. Os protestantes franceses formavam então um formidável grupo de pressão econômica, política e militar, sustentados pelos ingleses, alemães, holandeses e genebrinos. Não eram camponeses, mas sim citadinos nobres e burgueses.

Na segunda metade do século XVI, os ataques católicos aos protestantes fazem-se cada vez mais virulentos, culminando com o massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, no qual foram mortos mais de 30.000 pessoas. Os católicos franceses, reagrupados no partido da Santa Liga, entre 1576 e 1584, não cessaram de fustigar os protestantes e os reis considerados muito hesitantes. Na esperança de legalizar na França a existência de uma igreja reformada e de apaziguar os ânimos, o rei Henrique IV (1553-1610), soberano então protestante, convertido ao catolicismo uma semana antes do massacre de São Bartolomeu e reconvertido ao protestantismo em 1576, assina em 13 de abril o Edito de Nantes.

O Edito de Nanates concedia aos protestantes concessões consideráveis, notadamente a liberdade de consciência; a liberdade de culto nos domicílios senhoriais, em todas as cidades onde o culto reformado existisse de fato; uma anistia geral para todos os “crimes” cometidos no passado e a outorga de 150 lugares de refúgio, 66 cidades ou castelos onde a guarnição era mantida pelo rei. São exemplos significativos as cidades de Montauban e La Rochelle que pertenciam então aos protestantes desde a primeira guerra de religião de 1562. La Rochelle tornou-se a mais forte praça de guerra cedida aos protestantes pelo Edito de Nantes.

O Edito de Nantes era mais uma constituição que um edito, pois, efetivamente, era a constituição político-religiosa de uma minoria tornada independente dentro do país, ou seja, um Estado dentro do Estado. Tal situação não iria durar muito, já que os ódios represados logo explodiriam. Em 1627, o cardeal Richelieu, a propósito do pacto entre La Rochelle e a Inglaterra, que já declarara guerra à França, iniciou a destruição daquela praça de guerra protestante em solo francês. O cardeal conduziu pessoalmente o cerco à cidade rebelde, construindo em terra firme, 12 km de linhas contínuas de fortificações e, no mar, a construção de um dique destinado a impedir a chegada de suprimentos aos sitiados pela frota inglesa. Os rochelenses, comandados pelo almirante Jean Guitton, prefeito da cidade, resistiram durante quinze meses até que a fome forçou-os à rendição em 28 de outubro de 1628. As fortificações da cidade foram arrasadas e as franquias municipais suprimidas. A partir de então, La Rochelle entrou em declínio sensível.

Luiz XIV, persuadido pelo fato de que os protestantes, desde então, haviam desaparecido do solo francês, seja pela fuga, pela conversão ou pelo massacre, resolveu abolir o Edito de Nantes pela sua inutilidade e falta de objetivo. Pensou ter criado, assim, a ferro e fogo, a unidade religiosa do país. Em 18 de outubro de 1685, outorgou o edito de Fontainebleau que revogou o Edito de Nantes. Por tal edito, os protestantes perderam “ipso facto” toda liberdade de culto e toda garantia de segurança, ou seja, seriam extirpado, seu “status” legal. Tornaram-se, portanto, foras-da-lei; suas propriedades foram confiscadas e privados de todos os seus direitos pessoais. A guerra civil irrompeu como guerra clandestina, com a fuga para os países protestantes de centenas de clérigos, que se auto-exilaram, pois foi-lhes dado um prazo de 14 dias para deixar a França, caso contrário sofreriam a pena de morte. Suas igrejas destruídas, foram deixadas em ruínas. Tiveram, por conseguinte, que abandonar ex abrupto não somente seus bens, também de seus filhos, sendo-lhes proibido levá-los para fora da França, para que se se reeducassem na fé romana. Mais de 400.000 huguenotes se refugiaram, principalmente na Holanda e na Prússia, países que se gratificaram em receber tais recursos humanos estratégicos, em sua imensa maioria, comerciantes, empresários e letrados. A América inglesa recebeu também um contigente respeitável de tais quadros que desfalcaram a elite francesa.

III O Exílio Londrino e a Vida Acadêmica

O pai do nosso Desaguliers, o pastor Jean foge para Guernsey por causa da Revogação, levando consigo o pequeno Jean Théophile, com dois anos, escondido dentro de um tonel. Nove anos depois se estabeleceram em Londres. Convém aqui especular sobre como tais fatos trágicos, vividos pelos huguenotes e pela família Desaguliers em particular, marcaram a mente do nosso personagem, influenciando-o na busca da paz e da fraternidade e na sede por conhecimento científico e tecnológico que o perseguiram durante toda sua vida. Nunca confundiu esoterismo com superstição, como é tão comum no Brasil.

Instalado em Londres, Jean Desaguliers pai integrou-se rapidamente ao clero anglicano e tornou-se pastor numa igreja na Swallow Street (rua da Andorinha), templo favorito dos imigrados franceses. Criou, concomitantemente, uma escola em Islington, freqüentada pelos filhos de outros refugiados, dentre eles vários nobres. Seria aí, que o jovem Jean Théophile, educado pelo seu pai até os 16 anos, matriculou-se e recebeu um estudo de elite que o tornou apto a ingressar na mais prestigiosa universidade inglesa: o Christ Church de Oxford. Ali estudou com o Dr. John Keill, professor de astronomia já célebre pelas suas teorias de filosofia experimental, premissas das ciências modernas, e autor de duas obras: uma Introductio ad veram physicam seu lectiones physicae habitae in schola naturalis philosophiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à Filosofia Natural ou Conferências Filosóficas lidas na Universidade de Oxford) e uma Introductio ad veram astronomiam seu lectiones astronomicae habitae in schola astronomiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à verdadeira astronomia ou Conferências de Astronomia lidas na Escola de Astronomia da Universidade de Oxford).

Jean T. Desaguliers bacharelou-se em 1709 e recebeu o diaconado do bispo de Londres em 7 de junho de 1710. Neste mesmo ano, diplomou-se, tendo, em seguida, obtido um mestrado em filosofia e letras em 1712, sucedendo ao Dr. Keill na cadeira de filosofia experimental no Hert Hall de Oxford. Neste meio tempo, em Shadwell, casou-se com Joanna, a filha de William Pudsley e um ano mais tarde mudou-se para Westminster onde se tornou o primeiro mestre de conferências em ciências. Vem desta época a sua amizade com Sir Isaac Newton (1642-1727) que se tornou o padrinho de um de seus dois filhos. Em 16 de março de 1718 obtém o título de Doutor em Direito Civil por Oxford, tendo, antes, recebido as ordens sacerdotais em 8 de dezembro de 1717 do bispo de Ely, sendo presenteado, pelo Lorde Chanceler, com a cúria de Bridgeham no Norfolk, que dirigiu até março de 1726 quando a trocou para viver em Little Warley no Essex.

No século XVIII, não era usual para um clérigo operar em dois lugares simultâneamente. Assim, em 28 de agosto de 1719, tornou-se capelão do duque de Chandos que lhe ofereceu a paróquia de Whitchurch no Middlesex. Nesse ínterim, conservou sua residência em Londres onde deu aulas até a sua morte em 1744.

Paralelamente às suas pesquisas em física, traduziu para o inglês uma obra de Nicolas Gauger intitulada Mécanique du feu que trata da concepção e da construção das chaminés. Tal obra teve como título em inglês: Treatise on the Construction of Chimneys, publicada em 1716. Tornou-se também um especialista em ventilação, chegando mesmo a superintender a construção de um sistema de ventilação na Casa dos Comuns. Neste mesmo ano publica seus estudos de física experimental sob o título de Lectures of Experimental Philosophy (Lições de Filosofia Experimental) reeditadas posteriormente em 1719. Vêm, desta época, seus estudos sobre a máquina a vapor: aplicou a válvula de segurança, inventada pelo huguenote Dennis Papin, que tinha estudado em Paris com o holandês Christiann Huygens, à máquina inventada pelo mecânico inglês Thomas Savery que utilizava a tensão do vapor d’água como força motriz para bombear água nas minas de carvão. Tal máquina foi melhorada por James Watt tornando-se a primeira máquina a vapor, fator propulsor da Revolução Industrial. Releva-se aqui que Desaguliers não só participou ativamente da corrente científica do seu tempo mas também comungou da idéia de que a tecnologia deveria servir à humanidade, libertando-a do trabalho braçal escravizante.

Sua crescente reputação de sábio facultou-lhe o ingresso em diversas sociedades científicas. Em 29 de julho de 1714, ingressou como Membro, na Royal Society de Londres, fundada em 1660, chegando mesmo a se tornar Demonstrador e Curador da referida Sociedade. Participou também da Gentlemen’s Society em Spalding no Lincolnshire em 1724, uma sociedade literária e de antiquários. Era ainda Membro Correspondente da Academia Francesa de Ciências. Desaguliers consagrou-se, então com Newton, do qual se tornou assistente, a diversas pesquisas no terreno da física experimental, notadamente aquela que consistiu em se deixar cair do topo da Catedral de São Paulo, globos de vidro a uma altura de 105,72 m, fato que lhe permitiu escrever um artigo intitulado: “An Account of some experiments made in the 27th. Day of April, 1719, to find how much the resistence of the air retards falling bodies (Relatório sobre diversas experiências tentadas no dia 27 de abril de 1719 com o propósito de avaliar em que medida a resistência do ar retarda a queda dos corpos), publicado nos Philosophical Transactions da Royal Society. Desaguliers ajudou ainda Isaac Newton, na redação dos Corrigenda e dos Addenda, acrescida por ele ao Livro I de seus Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios matemáticos de filosofia natural) já editados em 1687.

De 1730 a 1732, viajou freqüentemente aos Países-Baixos, dando inúmeras conferências pagas a 30 shillings por cabeça, um preço alto para a época. Retornando à Inglaterra entre 1733-1734, uma controvérsia o opõe a Jacques Cassini, considerado o inventor da cartografia topográfica e diretor do Observatório de Paris, sobre o maior problema científico do século XVIII: a determinação da longitude. Como se sabe, a determinação da latitude nunca foi problema desde priscas eras, mas a longitude só foi resolvida no século XVIII por um relojoeiro, contra todos os pareceres dos cartógrafos e astrônomos da época, conforme bem elucidado no opúsculo sobre a matéria de Dava Sobel. O Brasil possui esta dimensão continental pela incapacidade dos nossos antepassados coloniais em determinar com precisão a longitude, fossem eles espanhóis ou portugueses. Cassini sustentava que a determinação do meridiano de Paris poderia ser encontrada, traçando-se uma perpendicular indo de Saint-Malo a Estrasburgo. Tudo isto estava no contexto da polêmica opositora entre os membros da Real Sociedade, conjuntamente aos integrantes do Observatório de Greenwich, fundado em 1675, contra os membros da Academia Real de Ciências de Paris, criada em 1666 e os do Observatório de Paris, fundado em 1667, sobre o melhor meio de determinar-se o exato comprimento e a localização dos arcos do meridiano, dados vitais para a navegação da época.

Desaguliers publicou em seguida, diversas obras: em 1734, A Course of Experimental Philosophy (Curso de Filosofia Experimental) em dois volumes e, em 1735, uma edição dos Elements of Catoptrics and Dioptrics (Elementos de Catóptrica e Dióptrica) de David Gregory. Por último, traduz do latim para o inglês, os Mathematical Elements of Natural Philosophy (Elementos Matemáticos de Filosofia Natural) de Gravesandes. Em 1742, recebeu a Medalha de Ouro Copley da Real Sociedade em reconhecimento pelos seus diversos experimentos científicos e tecnológicos, e sua Dissertation of Electricity, publicada no mesmo ano, ganhou o prêmio da Academia de Bordéus. Seu profundo conhecimento científico, apoiado numa intensa mente pragmática, tornou-o, também, um inventor e um consultor de engenharia em diversos projetos. Tanto assim, que deu consultoria em questões de engenharia na reconstrução da ponte de Westminster nos anos que se seguiram a 1738.

Em todos os debates, Desaguliers mostrou-se provido de um grande talento para a vulgarização científica, falando das coisas mais complexas em termos simples e compreensíveis, tanto para os especialistas como para os leigos.

Desaguliers tornou-se mais conhecido pela sua contribuição à evolução da ciência do que por suas obras religiosas como ministro do culto. Sua obra religiosa reduziu-se à publicação de um sermão sobre o arrependimento. Se sua obra religiosa era o ponto fraco de sua vida intelectual, o mesmo não se pode dizer de sua produção, tanto universitária onde mereceu, como vimos, o respeito e a amizade dos homens de ciências e dos grandes de seu tempo, como maçônica, onde se distinguiu de maneira ainda mais marcante.

IV A Vida Maçônica

A data de Iniciação de Desaguliers não pode ser precisada[1], mas deve-se situar antes da primeira assembléia da Grande Loja da Inglaterra em 24 de junho de 1717. Como é notório, este dia inicia o período obediencial, sendo um marco relevante na história da maçonaria universal. Pode-se afirmar, contudo, que Desaguliers foi, conjuntamente a Anderson, membro da Loja Nº 2 que se reunia na Taverna Horn. Existem registros de que teria sido também Venerável da French Lodge do Templo de Salomão em Hemmings Row. Aparece também como Venerável da Lodge of Antiquity, então Loja Nº 1, em 1723. Em 1731, na Lista das Lojas, aparece tanto como membro da Loja Bear & Harrow (atualmente Loja São Jorge & Corner Stone nº 5) quanto como integrante da Loja University nº 74 que abateu colunas em 1736.

Desaguliers apresentou sua candidatura ao grão-mestrado em 1717, mas somente foi eleito para este posto em 24 de junho de 1719 numa loja reunida na Taberna do Ganso e da Grelha, conforme foi descrito por Anderson na segunda edição (1738) de suas Constituições[2]. É o terceiro grão-mestre da ordem e o último plebeu a ocupar tal posição. Após a administração de Desaguliers, a função de Grão-Mestre torna-se apanágio de membros da família real inglesa ou da nobreza, apresentando-se, desde então, como essencialmente honorífica. Vale aqui recordar a cronologia da sucessão do grão-mestrado: i) Anthony Sayer (1717-1718), ii) George Payne (1718-1719), iii) o nosso Desaguliers (1719-1720), iv) a reeleição de George Payne (1720-1721), v) o primeiro nobre: John, duque de Montangu (1721-1722) e vi) Philip, duque de Wharton, um nobre lascivo cuja biografia os nossos Irmãos ingleses comentam pouco. Quando aqui chegarem informações acerca da sua notória participação no Hells Fire Club, escandalizar-se-ão 98% dos maçons brasileiros. Os ingleses morrem de vergonha da atuação do duque de Wharton e escondem com unhas e dentes as informações sobre o Hells Fire Club. Como o referido duque de Wharton era um doidivanas, seria tarefa do grão-mestre adjunto dirigir os trabalhos da ordem e o nosso Desaguliers, ainda bem, foi nomeado três vezes para tal posto: em 1722, pelo femeeiro Wharton; em 1724, pelo conde de Dalkeith; e em 1725, por Lorde Paisley.

Os maçons ingleses daquele tempo eram como os brasileiros de hoje: demonstravam pouco apreço para com os documentos e arquivos da ordem. Deve-se a Desaguliers a conservação, depois de 1723, da maior parte dos documentos históricos da obediência, notadamente as atas das reuniões dos primórdios da ordem. Ainda como campeão da ordem, da regularidade e do protocolo, introduziu inúmeras regras concernentes aos seguintes aspectos: traje maçônico, alfaias, jóias, festas na ordem, hierarquia dos brindes nos banquetes e outros costumes que vieram a fazer parte integrante da nova maçonaria especulativa que estava em gestação. Sob sua administração, numerosos antigos discípulos, que tinham negligenciado seus deveres maçônicos, retomaram seus trabalhos em loja e muitos nobres são iniciados. Importante é salientar que, no período em que Desaguliers exerceu o grão-mestrado, seja como titular ou adjunto, vários irmãos eram também membros da Real Sociedade, ou seja eram homens de escol não só pela sua posição social como também pela intelectual.

Desaguliers sentiu na própria pele o significado da intolerância, pautou, pois, a sua atuação na ordem então nascente para direcioná-la no sentido da tolerância e da fraternidade universais. Criou assim a caixa de auxílio mútuo maçônico e os fundos de beneficência da Grande Loja da Inglaterra. A idéia de tolerância, cuja primeira definição sistematizada se encontra no Tratado Teológico-político (1670) de Spinoza, funda a noção de igualdade entre indivíduos no seio de uma sociedade pluralista sobre o plano religioso. Foi, mais tarde, estendida por John Locke que, nas suas Cartas sobre a Tolerância e sobretudo no Segundo Tratado sobre o Governo, propõe o sistema parlamentar representativo de governo como meio de barrar o arbítrio do poder do Príncipe, outorgando direitos aos indivíduos, legitimando assim a consecução dos interesses individuais. Antes de Locke na Inglaterra, quando um grupo político-dinástico vencia outro, matava, exilava, confiscava os bens dos adversários, numa selvageria digna de uma cubata africana. A elite inglesa tomou consciência de que tal procedimento político gerava insegurança, transformando o mundo político numa arena hobbesiana (a luta de todos contra todos) extremamente instável e perigosa. Locke então propõe carrear todo o conflito político para um caldeirão, chamado parlamento, onde os que detivessem a maioria, formariam o governo e os minoritários cuidariam da oposição. Com o correr do tempo, o governo sofreria a erosão natural do poder, cabendo a vez à oposição formar o novo governo. Ao invés da morte e do confisco dos bens, haveria a queda do gabinete, favorecendo assim a rotação de elites no poder. Mecanismo institucional muito mais civilizado e inteligente do que resolver o conflito político na base da peixeira na barriga do oponente.

Após 1723, Desaguliers ajuda Anderson a redigir as famosas Constituições que se tornaram o farol básico da maçonaria simbólica. Anderson faz uma síntese dos antigos deveres misturando-os com outros tirados das diversas tradições, especialmente os documentos góticos, queimando o resto, fato que escandalizou as velhas lojas-mães de Londres, York e Westminster. As Constituições de Anderson de 1723 é o divisor de águas entre os maçons operativos e especulativos. No mesmo ano, sobre a inspiração de Desaguliers, a Bíblia, qualificada daí por diante, de Livro da Lei, substitui as Antigas Obrigações sobre as quais os juramentos eram prestados. É ainda atribuído a Desaguliers, a redação do livro Charges of a Free-Mason (Obrigações de um Maçom) e que tem permanecido substancialmente o mesmo desde a edição de 1723.

No ofício de grão-mestre adjunto, Desaguliers contribui ativamente para a redação dos primeiros rituais. Introduziu nestes a idéia de que os maçons operativos faziam do trabalho: como um ato nobre, um dom de Deus, e não, como se pensava até então, como uma maldição, um castigo devido à expulsão do paraíso, como está no Gêneses (4:17-19). Por falar em Deus, a expressão GADU, apesar de ter sido introduzida por Anderson, tem também o dedo de Desaguliers, pois o referido conceito – GADU – facilita a introdução do deísmo na maçonaria nascente, substituindo o teísmo católico, tão bem professado pelos maçons operativos, reforçando assim o anglicanismo que era um pouco mais aberto à tolerância do que a religião de Roma. Convém ainda salientar que o deísmo é mais professado entre os cientistas crentes do que o teísmo, o Deus de Leibniz, de Spinoza, de Einstein, dos cientistas enfim, não é o mesmo Deus de Abraão, Isaac e Jacó. E Desaguliers como cientista...

A partir de 1670, muitos rabinos de origem polonesa estabeleceram-se em Londres e Desaguliers manteve contato com eles ou com seus sucessores para que se juntassem à então maçonaria nascente. No dizer de Robert Ambelain[3], foi devido a esses rabinos que Desaguliers hauriu a história de um novo personagem maçônico: o mito de Hiram. Inspirados pela cabala prática, ou seja, pela magia, a história de um novo personagem - Hiram – arquiteto do templo de Salomão adentra ao ritual maçônico do terceiro grau[4]. Hiram acossado por três maus companheiros que desejavam roubar seus segredos, é morto, enterrado, encontrado e depois ressuscitado. A interpretação simbólica desta morte em loja, aplicada ao sentido moral e espiritual, enquanto o candidato toma o lugar de Hiram, faz definitivamente a ordem sair do domínio operativo e ingressar compulsoriamente no domínio especulativo. Este ritual, oposto ao ensino bíblico e à interdição de tocar os cadáveres, extremamente surpreendente para os maçons do século XVIII, encontra de fato sua justificação pela envergadura do espírito de Desaguliers, que desejava assim legar à maçonaria uma dimensão que ultrapassasse um cristianismo tacanho e etnocêntrico da sua época. É preciso ver aqui um símbolo: as profundas mudanças que Desaguliers aporta ao relato da cabala dão a este ritual uma profundidade que supera a tristeza e o macabro. Desde então, para os maçons, a morte não é mais um fim terrível, mas somente uma passagem, e a iniciação, que é de fato este ritual de passagem, termina necessariamente por uma regenerescência do indivíduo. Por este ritual, Desaguliers oferece aos maçons que se iniciam, uma mensagem de esperança: pela força do trabalho e da virtude, o maçom ganha sua própria purificação.

Desaguliers sempre foi um viajor contumaz. Convidado a ir à Escócia como homem de ciências e engenheiro, aproveita a ocasião para explicar o novo ritual simbólico aos membros da Loja St. Mary’s Chapel. Faz uma demonstração prática iniciando o lorde prefeito de Edimburgo e todos os membros do seu conselho. A maçonaria escocesa, então operativa, ansiava por tornar-se verdadeiramente especulativa nesta ocasião. De volta à Inglaterra em 1726, inicia a Lorde Kingsdale na loja que se reunia no Swan & Rummer, na presença do Grão-Mestre, conde de Inchquin. Em 1731, viajando pelos Países Baixos, preside, como Venerável Mestre de uma Loja de Ocasião, nos salões do embaixador inglês na Haia - Lorde Philip Chesterfield – uma sessão no curso da qual inicia Francisco, duque de Lorena, futuro duque de Toscana, imperador do Santo Império Germânico e esposo de Maria Teresa, imperatriz da Áustria. Pode-se afirmar que o nosso personagem introduziu a maçonaria nos Países Baixos. Voltando, em seguida à Inglaterra, é julgado o mais apto a iniciar o príncipe de Gales - Frederik Lewis[5] - tendo sido o primeiro de uma longa linhagem de príncipes da Casa Real de Hanover que se tornaram maçons - e o faz, no curso de uma sessão organizada no Palácio de Kew em 1732. Ainda sobre sua estreita relação com a realeza, foi nomeado Capelão para o mesmo príncipe de Gales, dava conferências para a família do rei George II e era um dos favoritos da rainha Carolina. Entre 1734 e 36, voltamos a encontrá-lo em Paris, onde pronunciou diversas conferências científicas, sempre ao lado de lorde Chesterfield. Inicia, na loja De Bussy, a Luiz Phélipeaux, conde de Saint-Florentin e duque de Lavrillière. Ajuda a fundar, ainda em Paris em 1735, a famosa loja Louis d’Argent. Em 1738 foi nomeado capelão do Regimento de Dragões Bowles.

Desaguliers, como muito outros homens, tinha uma dupla personalidade. Reservado e austero em público, ele se transformava no interior das reuniões maçônicas. No interior de uma loja, quando as portas ficavam bem guardadas, liberava seu espírito, tornava-se gozador, cantarolava com vivacidade os hinos maçônicos e, até mesmo, apreciava uma alegre libação que muitas vezes, acentuava a sua famosa gota, forçando-o a andar de bengala. Dizia-se mesmo que despendia bastante dinheiro nas suas mini-farras com os irmãos, o que provavelmente era verdadeiro, pois viajava muito, como vimos acima, e suas numerosas atividades deviam render-lhe somas apreciáveis.

As atas da Grande Loja demonstram cabalmente que até quase o final de sua vida participou ativamente das suas deliberações. Sua última presença em loja ocorreu em 8 de fevereiro de 1742. Faleceu em 29 de fevereiro de 1744, com 61 anos e está enterrado na Capela Real do célebre Hotel Savoy de Londres. Seu filho primogênito, Alexander, tornou-se, como ele, ministro do culto. Thomas, seu segundo filho, seguiu a carreira militar, chegando ao posto de coronel, além de ser escudeiro do rei George III da Inglaterra. Atualmente contam-se como seus descendentes os troncos dos Cartwrights e dos Shuttleworths.

Feller, autor de uma Biografia Universal, declara que os últimos dias de Desaguliers foram passados na tristeza e na miséria; teria perdido a razão e se fantasiava, algumas vezes, de arlequim e palhaço. Cawthorn, num poema intitulado The Vanity of Human Enjoyments (Vaidade das Humanas Alegrias), afirma que Desaguliers estava quase indigente no momento de seu passamento

Albert Mackey sustenta, pelo contrário, que estas descrições apócrifas da morte de Desaguliers são francamente exageradas. Nichols, autor das Literary Anecdotes (Anedotas Literárias), que conhecia Desaguliers pessoalmente, traça-lhe um retrato mais lisonjeiro, declarando, no volume nono de sua obra, que ele morreu no Bedford Coffee House e foi enterrado no Savoy.

V - Conclusão

Não importam tanto estes fatos finais. O que está gravado no mármore da história é que Jean Théophile Desaguliers, doutor em direito, cientista, tecnólogo, ministro do culto e membro da Sociedade Real, a par de seus conhecimentos, de sua situação social, de sua forte personalidade e de suas contribuições ao espírito e às estruturas da maçonaria, enriqueceu tanto esta instituição que carreou para ela um número crescente de pessoas de estatura intelectual e social semelhantes às suas. Apesar de sofrer de forte miopia foi um dos mais argutos maçons de sua época. Sob sua liderança intelectual, a então nascente Grande Loja da Inglaterra se espalhou para todo o mundo, tornando a maçonaria uma das maiores instituições universais e, no acertado dizer de Mackey, fez de Desaguliers o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna.

Por: Ven.·.Ir.·. William Almeida de Carvalho 33º


VI - Bibliografia

- ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 30 vols., University of Chicago, USA, 1982.

- Jean Théophile Desaguliers, trabalho da Loja Jean-Théophile-Desaguliers nº 138, filiada à Grande Loja do Quebec, Canadá.

- MACKEY, Albert G., Encyclopedia of Freemasonry, vols. I e II, Kessinger Reprints, Kessinger Publishing, LLC, Kila, MT, USA, s/d.

- NEWTON, Edward, Brethren Who Made Masonic History, The Prestonian Lecture for 1965, in The Collected Prestonian Lectures, vol. II, 1961-1974, Lewis Masonic, London, 1983, pg. 46.

- SINGH, Simon, O Último Teorema de Fermat (A História do Enigma que Confundiu as Maiores Mentes do Mundo Durante 358 Anos), ed. Record, Rio de Janeiro, 1998.

- SOBEL, Dava, Longitude – A Verdadeira História de um Gênio Solitário que Resolveu o Maior Problema Científico do Século XVIII, Ediouro, Rio de Janeiro, 1996.

- STOKES, John, Life of John Theophilus Desaguliers, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 38, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1925, p. 285.

[1] Alguns autores afirmam que teria sido iniciado em 1712, mas inexistem provas documentais.

[2] ASSEMBLY and Feast at the Said Place, 24 June 1719, Brother Payne having gather’d the Votes, after dinner proclaim’d aloud our Reverend Brother John Theophilus Desaguliers, LLD, FRS, Grand Master of Masons, and being duly invested, install’d, congratulated and homaged, forthwith reviv’d the old regular and peculiar Toasts or Healths of the Free Masons. Now several old Brothers, that had neglected the Craft, visited the Lodges; some Noblemen were made Brothers, and more new Lodges were constituted. In Lamoine, Georges, Les Constitutions d’Anderson, GLNF, Grande Loge de la Province d'Occitanie, ed. SNES, Toulouse, 1995, pg. 188.

[3] Ambelain, Roberto, La Franc-Maçonnerie Oubliée 1352-1688-1720, Ed. Robert Laffond, Paris, 1985, pp. 119-120.

[4] Desnecessário assinalar que na primeira edição das Constituições de Anderson em 1723 não se fazia menção ao grau de mestre, somente na segunda edição de 1738 é que se menciona explicitamente o terceiro grau.

[5] Pai de George III, rei da Inglaterra.

DRAGÕES: FATOS & LENDAS

Os dragões são animais fabulosos, geralmente representados como uma enorme serpente alada que expele fogo pelas ventas (narinas). Seu tipo biológico situa-se entre o réptil e o sáurio (dinossauros): cabeça ornada com uma grande crista, poderosos cifres, presas enormes, couro grosso e nodoso cobrindo todo o corpo até a cauda, não raro provida de esporas, possivelmente de tecido ósseo ou cartilaginoso. Dotado de poderes extraordinários, o hálito dos Dragões é considerado venenoso e seu sangue, quando derramado em batalha ou na hora da morte, é igualmente fatal para aquele que for atingido por respingos dos líquido.

Répteis por natureza, os dragões encontram conforto em lugares frios, escuros e úmidos; por isso, cavernas são as moradas ideais para dragões, além da penumbra e do frescor, são locais de fácil defesa e apropriados para guardar tesouros e reservas de alimento. As colinas próximas a grupamentos humanos ou rebanhos de mamíferos foram os lugares preferidos na hora de escolher a toca. Há dragões que habitam em águas: mares, lagos, rios mas, preferencialmente, pântanos, como os dragões Knuckers", ingleses. (www.kairell.donagh.nom.br - 2005)

No Ocidente, os primeiros relatos sobre dragões aparecem em escrituras Judaicas (da Bíblia) e gregas. Na Europa, as lendas sobre os monstros antropófagos e cuspidores de fogo ou "de respiração pestilenta", ganharam espaço na imaginação popular. As histórias falam de cidades e vilarejos ameaçados e raptos de donzelas cruelmente assassinadas, degoladas ou empaladas, salvo quando algum virtuoso cavaleiro intervém na situação devidamente guarnecido de uma espada mágica. O mais famoso herói a resgatar uma cidade e sua donzela é aprisionada São Jorge, cuja vitória é interpretada como uma vitória do Cristianismo sobre as forças do Mal.

No Leste Europeu, os Dragões estão ligados a tradições de Sociedades Secretas Ocultistas, que supostamente adoravam divindades descendentes dos antigos Nagas indianos cuja representação, a figura de um Dragão, significa a Sabedoria, seja usada para o bem ou para o mal. O famoso Vlad Tepes, ou onde Drácula, foi um membro da Sociedade Secreta dos Dragões em sua região e seu apelido "Drácula", significa, precisamente, Dragão. Nesta tradição há uma clara associação entre Dragões e Sabedoria, uma relação histórica com raízes plantadas na mais remota antiguidade.

Os Dragões aparecem nas tradições mitológicas de quase todos os povos do mundo. No Oriente, os Dragões não são necessariamente perversos. Na China, são figuras de grande destaque. Festas folclóricas são dedicadas a eles. Os dragões simbolizam o próprio povo chinês que se auto-proclamam "Long De Chuan Ren" (Filhos do Dragão). Para os chineses, o dragão é uma criatura mítica e divina relacionada à abundância, prosperidade e boa fortuna. Templos e pagodes são construídos em honra aos Dragões e para eles são queimados incensos e dirigidas orações.

Eles são os governantes dos rios, da chuva, lagos e mares. Habitam nas águas, voam nos céus e percorrem as entranhas da Terra e dos Oceanos; aos seus movimentos subterrâneos são atribuídos fenômenos tectônicos como tremores de terra, terremotos e maremotos. Os dragões chineses são classificados em nove categorias: o 1. Dragão com Chifres (Lung), 2. Dragão Celestial, que mantém e protege as moradas dos Deuses; 3. Dragão Espiritual, gerador de chuva; 4. Dragão dos Tesouros Escondidos, Guardião das Riquezas; 5. Dragão Serpente, habitante das águas; 6. Dragão Amarelo, também aquático,que teria presenteado o legendário imperador Fu Shi com os elementos da escrita. Os quatro últimos são os Dragões-Rei, regentes dos quatro mares dos quatro pontos cardeais.

"Junto com o Unicórnio, a Fênix e a Tartaruga, era considerado um dos quatro primeiros animais que ajudaram na criação do mundo. O dragão não tinha rivais em sabedoria e em poder para conceder bênção. O imperador da China era suposto ser descendente de um dragão e ter dragões à seu serviço. Estudantes chineses cuidadosamente categorizaram dragões por diversos critérios como na classificação por Tarefas Cósmicas:

Dragões Celestiais: Estes dragões protegiam os céus, suportavam os lares das divindades e os defendiam da decadência. Somente estes dragões tinham cinco garras e somente a insígnia Imperial era permitida a descrevê-los.

Dragões Espirituais: Estes controlavam o clima do qual a vida era dependente. Eles tinham que ser apaziguados pois se fossem tomados por raiva ou simples negligência, desastres iriam se seguir.

Dragões Terrestres: Estes lordes dos rios controlavam seus fluxos. Cada rio tinha seu próprio dragão que governava de um palácio bem abaixo das águas. Dragões Subterrâneos: Estes dragões eram guardiães dos preciosos metais e jóias enterrados na terra. Cada um possuía uma grande pérola que podia multiplicar qualquer coisa que tocasse.

Também foram classificados pela cor:

Azul: Augúrio do Verão

Vermelho e Negro: Dragões destas cores eram bestas ferozes cujas lutas causavam tempestades e outros desastres naturais.

Amarelo: Estes eram os mais afortunados e favoráveis dos dragões. Não podiam ser domados, capturados ou mesmo mortos. Apenas apareciam em tempos apropriados e somente se houvesse uma perfeição à ser encontrada.

Os Dragões chineses podiam tomar a forma humana ou de uma fera se desejassem e tinham uma bizarra coleção de fobias. Temiam o ferro, mas para criaturas que eram vistas como mestres de tais elementos e quase divinos, também temiam outras estranhas coisas como centopéias ou fios de seda tingidos em cinco cores. O Japão também tinha seus dragões. Chamados de Tatsu, eles eram bastante relacionados com os Dragões Chineses. Assim como eles, também tinham diferentes sub-tipos, entretanto geralmente tinham somente três garras e eram mais parecidos com cobras." (www.kairell.donagh.nom.br - 2005)

Na mitologia chinesa, muito mais antiga que a dos judeus, também há um Gênesis, relato da Criação, e um Éden. O Paraíso chinês, chamado Jardim da Sabedoria, era habitado pelos "Dragões da Sabedoria" (Iniciados, Magos). Localizava-se no Planalto de Pamir, entre os picos mais elevados da cordilheira dos Himalaias. Ali, no ponto culminante da Ásia Central, o Lago dos Dragões alimentava quatro grandes rios: Oxus, Induas, Ganges e Silo; por isso, o Lago é chamado de "Dragão de Quatro Bocas".

Pesquisadores de diferentes áreas, geólogos, arqueólogos ou teósofos, que defendem a hipótese de uma origem mais recuada para a espécie humana, admitem que pode ter ocorrido um período de transição no qual seres humanos conviveram com sáurios ou grandes répteis. A teósofa H. P. Blavatsky assinala em sua Doutrina Secreta (2003), citando o naturalista Curvier: "Se existe algo que possa justificar a existência de hidras e de outros monstros cujas figuras foram tantas vezes reproduzidas pelos historiadores da Idade Média, este algo é incontestavelmente o plesiossauro." Revolution du Globe. vol V - p 247

O Plesiossauro é um réptil marinho semelhante a um lagarto. Tinha grandes proporções, alguns chegando a 9 metros de comprimento; era dotado de poderosas nadadeiras. Blavatsky escreveu no final do século XIX, época em que houve um intenso movimento na área da pesquisa arqueológica e paleontológica. Muitos fósseis eram descobertos por pesquisadores independentes. Na Alemanha, foi descoberto um sáurio voador, o pterodátilo, com 78 pés de comprimento, asas membranosas com envergadura em torno de meio metro, vigorosas presas e corpo de réptil. Na Filadélfia, o Dr. Cope estudou o fóssil de um monossauro e concluiu que era uma serpente alada, da espécie do pterodátilo, cujas vértebras indicam mais aproximação com ofídios (cobras) do que com lacertídeos (lagartos) (BLAVATSKY, 2003 - p 223). Em 1886, o geólogo Charles Gould escreveu em seu antológico Mythical Monsters:

Muitos dos chamados animais míticos, que através dos séculos e em todas as nações serviram de tema para ficções e fábulas, entram legitimamente no campo da História Natural simples e positiva e podem ser considerados não como produto de uma imaginação exuberante, mas como criaturas que realmente existiram e das quais ...só chegaram até nós descrições imperfeitas e inexatas, provavelmente muito refrangidas pelas névoas do tempo; tradições de seres que, em outra era, coexistiram com o homem, alguns deles estranhos e horrendos ...é menos difícil admitir todas essas maravilhosas histórias de deuses e semideuses, de gigantes e anões, de dragões e monstros de toda espécie como transformações do que acreditar que sejam invenções. ...Se são invenções, devemos crer que selvagens incultos fossem dotados de um poder de imaginação e criação poética muito superior ao dos povos civilizados de nossos dias." In BLAVATSKY, 2003 - p 235

Em 1912, um aeronauta alemão acidentou-se na Ilha de de Komodo, Indonésia. Resgatado, relatou que tinha visto uma criatura monstruosa semelhante aos mitológicos dragões. Averiguações e filmagens revelaram a veracidade do fato: era um animal da família dos lacertídeos porém em tamanho gigante. O enorme lagarto, conhecido como dragão de Komodo, alcança 10 pés de comprimento, contando sua longa e vigorosa cauda, alimenta-se de carne putrefata e, eventualmente, pode atacar e matar pessoas. Há relatos não confirmados da existência de lagartos semelhantes na Nova Guiné.

Apesar destas descobertas e de muitas mais, a arqueologia oficial não admite a existência de seres como dragões em qualquer época, embora nos ladrilhos babilônicos, nos murais pré-colombianos, na mitologia nórdica, nos desenhos japoneses, pagodes e monumentos, na Biblioteca Imperial de Pequim e em muitos outros documentos históricos figurem reproduções perfeitas de plesiossauros e pterodátilos. Na Bíblia, além do Apocalíptico Dragão Leviathan, o profeta Isaías (XXX:6) relata sua visão de uma "serpente voadora", a Saraph Mehophep, palavras que todos os dicionários hebreus traduzem assim: Saraph= veneno inflamado ou ardente; e Mehophep= voador. (BLAVATSKY, 2003 - p 224).

A questão da veracidade ou não da existência remota de animais como os dragões assume maior importância quando relacionada com as dúvidas em torno da idade da raça humana sobre a Terra. Se as histórias e figuras de dragões são mais que fruto da imaginação dos povos, se forem vistos como registros de visões reais, como documentos históricos, por mais remota que seja a época a qual se refiram, isto seria uma prova da enorme antigüidade do homem sobre o planeta reforçando, inclusive, as teorias que falam de civilizações avançadas que desapareceram completamente, vitimadas por catástrofes. Os dragões seriam uma lembrança de tempos anteriores ao Dilúvio Bíblico; anteriores ao surgimento dos primeiros antropóides reconhecidos pela ciência atual, datados em 1 milhão e meio de anos atrás.

O movimento buddhista do Grande Veículo (sânsc. Mahayana) surgiu na Índia por volta do século II. Este movimento é baseado em diversos textos, que teriam sido registrados a partir de discursos (sânsc. sutra) proferidos pelo próprio Buddha Shakyamuni (século VI a.C.) e então preservados no reino dos nagas — dragões aquáticos com corpo de serpente e cabeça humana — até que os discípulos se tornassem aptos a recebê-los.

Uma dessas pessoas aptas a receber os ensinamentos Mahayana teria sido o monge indiano Nagarjuna (século II-III), cujos trabalhos deram origem à escola filosófica do Caminho do Meio (sânsc. Madhyamaka). Nagarjuna não tinha a intenção de criar uma filosofia, mas sim de elucidar os ensinamentos dos Discursos sobre a Perfeição da Sabedoria (sânsc. Prajnaparamita Sutra), um conjunto de textos Mahayana que ele teria recebido diretamente dos nagas. IN DHARMANET

"Os místicos vêem, por intuição, na serpente do Gênesis, um emblema animal e uma elevada essência espiritual; uma fonte cósmica de supra-inteligência, umagrande luz caída, um espírito sideral, aéreo e telúrico ao mesmo tempo, 'cuja influência circunda o globo' (qui circumambulat terram - De Mirville) ... e que somente se manifesta sob o aspecto físico que melhor se coaduna com suas sinuosidades morais e intelectuais, isto é, a forma de um ofídio. ...Em todas as línguas antigas, a palavra dragão tinha o mesmo significado que tem hoje a palavra chinesa long ou - 'o ser que sobressai em inteligência'. Em grego, drakon é Aquele que vê e vigia. " BLAVATSKY, 2003 - p 228

A FACE OCULTA DOS DRAGÕES

A existência dos Dragões, como animais pré-históricos, contemporâneos a uma raça humana arcaica, pode ainda ser contestada mas sua realidade como elemento cultural, seu caráter de poderoso símbolo presente no imaginário popular e nas alegorias religiosas de todo o mundo, isto é um fato inegável. Rico em conteúdos semióticos, o Dragão, ora representa o bem, ora representa o mal.

Uma visão geral do histórico dos Dragões mostra um ser paradoxal, que encarna, ao mesmo tempo, o bem e o mal. É o monstro que aterroriza os mortais, é a besta do Apocalipse, o aliado da Magia Negra, o raptor de donzelas medievais; mas também é um símbolo de sabedoria, força física, poder, proteção e boa fortuna. Este caráter, aparentemente multifacetado dos dragões é o resultado de milênios de sincretismos entre culturas de todo o mundo. O aspecto maligno do dragão é notavelmente acentuado no Ocidente, onde foi associado à figura do Diabo por conta de suas "aparições", quase sempre alegorias mal interpretadas, nas escrituras cristãs como no Apocalipse, onde é chamado Leviathan; nos evangelhos apócrifos: em Bartolomeu, surge submisso e, diante de Cristo e dos apóstolos, confessa suas maldades. Outras referências ao dragão diabólico são os embate com o Arcanjo Miguel e com São Jorge. No evangelho apócrifo de Bartolomeu, o "inimigo dos homens" é descrito assim:

Belial subiu aprisionado por 6 064 anjos e atado com correntes de fogo. O dragão tinha de altura mil e seiscentos côvados e de largura, quarenta. Seu rosto era como uma centelha e seus olhos, tenebrosos. Do seu nariz saía uma fumaça mal-cheirosa e sua boca era como a face de um precipício....Bartolomeu, pois, se foi e pisou-lhe a cerviz, que trazia oculta até as orelhas, dizendo-lhe: — Dizei-me quem és tu e qual é teu nome....Respondeu Belial: — A princípio me chamava Satanail, que quer dizer mensageiro de Deus, Mas, desde que não reconheci a imagem de Deus, meu nome foi mudado para Satanás, que quer dizer anjo guardião do tártaro. In www.sobrenatural.org - 2005

Todavia, a simbologia tradicional se mantém. Os dragões jamais perderam seus atributos positivos e somente pela via das deturpações podem ser identificados com o mal. Ao contrário, o folclore envolvendo Dragões em guarda de tesouros é uma adaptação popular para os Dragões Guardiães do Éden, Guardiães da Árvore da Vida e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Mesmo entre os judeus, são os Querubins designados pelo Criador para defender o Paraíso. Estes anjos, são descritos no Livro de Enoch com uma aparência zoomórfica, dotados de múltiplas asas, espadas flamejantes e face zoomórfica, entre o homem e o dragão. São, por isso, guardiães da Sabedoria e ainda abrigam outros significados: representam a energia cósmica criadora, a eternidade e o próprio Cosmos, que repousa enrodilhado sobre si mesmo, círculo de serenidade, e quando desperta em turbilhões, desdobrando suas espirais no infinito, manifestando-se em todas as coisas que existem no Universo.

A imagem do Dragão associada à sabedoria contém uma mensagem de profundo alcance. A imagem diz que a Sabedoria não se relaciona com qualquer tipo de fraqueza. Não há conflito entre força, poder e felicidade, boa fortuna, compaixão e bom senso. O signo original, concebido em épocas insuspeitadas da história humana, referia-se à Regeneração Psíquica e à Imortalidade. Hermes considerava a serpente o mais espiritual de todos os seres. "Jesus admitiu a Serpente como sinônimo de Sabedoria, e um de seus ensinamentos, disse: Sede sábios como a serpente." Todos os povos simbolizaram o "Espírito de Deus" sob a forma de uma serpente de fogo que repousa sobre as águas primordiais até o dia do despertar, quando se expande por meio do verbo tomando a forma do leminiscato, a serpente que morde a própria cauda, representação do Universo, da Eternidade, do Infinito e da forma esférica dos corpos celestes. BLAVATSKY, 2001 - p 131

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BIBLIOGRAFIA

BLAVATSKY, Helena Petrovna. Edéns, serpentes e dragões. In A doutrina secreta - vol. III, Antropogênese. _________________________________ O resplandecente dragão da sabedoria. _________________________________ O cisne, símbolo do raio divino. In A doutrina secreta - vol. I, Cosmogênese. São Paulo: Pensamento, 2001.
BARSA Enciclopédia. São Paulo: Britânica/Melhoramentos, 1961.
DOMÍNIOS FANTÁSTICOS. Misteriosas Américas.
ELFWOOD Ilustrações. Artes Plásticas em Realismo Fantástico.
KAIRELL In Kairell Donagh - Dragon.
OCCULTPEDIA In Dragon.
The chinese dragon. In York - UK.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

NEWTON'S DARK SECRETS - Isaac Newton by Albert Einstein

Editor's note: This article appeared in the Smithsonian Annual Report for 1927, the second centenary of Newton's death. It's somewhat dense, but then, what do you expect from the "greatest scientist who ever lived" talking about the accomplishments of the other "greatest scientist who ever lived?"

The 200th anniversary of the death of Newton falls at this time. One's thoughts cannot but turn to this shining spirit, who pointed out, as none before or after him did, the path of Western thought and research and practical construction. He was not only an inventor of genius in respect of particular guiding methods; he also showed a unique mastery of the empirical material known in his time, and he was marvelously inventive in special mathematical and physical demonstrations. For all these reasons he deserves our deep veneration. He is, however, a yet more significant figure than his own mastery makes him, since he was placed by fate at a turning point in the world's intellectual development. This is brought home vividly to us when we recall that before Newton there was no comprehensive system of physical causality which could in any way render the deeper characters of the world of concrete experience.

The great materialists of ancient Greek civilization had indeed postulated the reference of all material phenomena to a process of atomic movements controlled by rigid laws, without appealing to the will of living creatures as an independent cause. Descartes, in his own fashion, had revived this ultimate conception. But it remained a bold postulate, the problematic ideal of a school of philosophy. In the way of actual justification of our confidence in the existence of an entirely physical causality, virtually nothing had been achieved before Newton.

Newton's aim

Newton's aim was to find an answer to the question: Does there exist a simple rule by which the motion of the heavenly bodies of our planetary system can be completely calculated, if the state of motion of all these bodies at a single moment is known? Kepler's empirical laws of the motion of the planets, based on Tycho Brahe's observations, were already enunciated, and demanded an interpretation.* These laws gave a complete answer to the question of how the planets moved round the sun (elliptical orbit, equal areas described by the radius vector in equal periods, relation between semi-major axis and period of revolution). But these rules do not satisfy the requirement of causality. The three rules are logically independent of one another, and show no sign of any interconnection. The third law cannot be extended numerically as it stands, from the sun to another central body; there is, for instance, no relation between a planet's period of revolution round the sun and the period of revolution of a moon round its planet.

But the principal thing is that these laws have reference to motion as a whole, and not to the question of how there is developed from one condition of motion of a system that which immediately follows it in time. They are, in our phraseology of today, integral laws and not differential laws.

It was, no doubt, especially impressive to learn that the cause of the movements of the heavenly bodies is identical with the force of gravity so familiar to us from everyday experience.

The differential law is the form which alone entirely satisfies the modern physicist's requirement of causality. The clear conception of the differential law is one of the greatest of Newton's intellectual achievements. What was needed was not only the idea but a formal mathematical method which was, indeed, extant in rudiment but had still to gain a systemic shape. This also Newton found in the differential and integral calculus. It is unnecessary to consider whether Leibniz arrived at these same mathematical methods independently of Newton or not; in any case, their development was a necessity for Newton, as they were required in order to give Newton the means of expressing his thought.

From Galileo to Newton

Galileo had already made a significant first step in the r