Segunda-feira, 13 de Julho de 2009


Terça-feira, 30 de Junho de 2009

A Natureza Extraordinária da Vida

A Vida como nós a vemos em cada criatura viva apresenta um aspecto que pode ser considerado como ordinário ou até mesmo lugar comum, porque estamos muito familiarizados com ele. Mas ela também possui um aspecto que, mesmo que caia dentro de nossas percepções limitadas, bem pode excitar nosso espanto e ser verdadeiramente considerado como extraordinário. Em que repousa esta distinção entre ordinário e extraordinário? Talvez possamos melhor indicar a natureza deste último aspecto, como também colocá-lo numa base bem definida, usando o termo “Espírito”, muito embora esta seja uma palavra na maior parte das vezes usada livremente e com conotações vagas. O que é Espírito?

Em As Cartas dos Mahatmas é afirmado muito definidamente que Espírito é Vida indivisa. Se isto é assim, então o que é chamado Espírito não é uma abstração mas uma realidade, cuja natureza pode ser experimentada dentro de nós mesmos. O relacionamento entre Matéria e Espírito, os quais se afirma naquelas mesmas Cartas serem apenas dois lados da mesma coisa, a saber, o Elemento ou Substância una da qual tudo mais no universo é derivado, é um relacionamento de vida e contém em si mesmo todas as qualidades que a vida pode exibir. A vida é uma energia que polariza-se em Espírito e Matéria. A matéria nós percebemos, mas a natureza do Espírito é compreendida e experimentada somente em nossa própria consciência.

Pode-se dizer que em todo o universo manifestado a vida é a única coisa primária, uma energia que está em toda à parte e latente ou ativa em graus variados. Num pólo, esta energia manifesta uma natureza de unidade e então ela é a vida indivisa; no outro pólo há divisão e diversidade e a vida manifesta-se como uma diversidade de processos. Em seu aspecto objetivo, quer seja numa planta, num animal ou num corpo humano, ela é uma síntese de forças e é por isso que o cientista fala da vida sintetizante. Mas em sua natureza profundamente subjetiva ela é uma unidade absoluta e sua natureza somente pode ser conhecida pela experiência direta.

Em cada forma viva, em cada organismo individual, há uma unidade e há uma diversidade. Isto é reconhecido pelos cientistas, mas suas observações estão no nível da diversidade, os vários processos químicos e biológicos; são somente estes que podem ser observados. Na maior parte eles pensam que a unidade é criada pela diversidade, que reunião das partes, as quais desenvolvem várias reações entre elas próprias, cria uma certa unidade ou totalidade. Mas como a conseqüência, que possui uma natureza tão diferente, surge de um padrão material?

A reunião das partes é de acordo com um padrão específico em cada caso e é mantida e reproduzida com várias modificações. Será que tudo isso é uma questão de química, geração espontânea, não no sentido da vida surgindo da lama, mas do encontro acidental de certos elementos e da sobrevivência do mais apto para um ambiente particular, o que é chamado de seleção natural? Ou a vida possui uma natureza que em muito transcende o que é visto no nível biológico, com uma inteligência inerente à sua natureza, que organiza e usa o material disponível e, ao assim fazer, manifesta apenas um fragmento de sua potencialidade? Esta última é a visão antiga e oculta por que não podemos observar com sentidos físicos a ação da natureza que é atribuída a ela.

Se Espírito e Matéria são os dois pólos, uma visão remonta a vida, com toda sua potencialidade, àquilo que chamamos de Espírito, e a outra visão baseia-se completamente na atividade que é vista ocorrer no campo da matéria. Entre os antigos, aqueles que reivindicavam falar com autoridade do conhecimento direto – e suas afirmações foram aceitas por muitos, até mesmo dentre aqueles que investigaram muito minuciosamente toda hipótese possível – consideravam a vida como uma efusão divina. Isto é, ela descende de alturas muito grandes, ou surge de profundezas muito grandes – duas maneiras de dizer a mesma coisa. A altura ou a profundidade são abrangidas na relação entre Espírito e Matéria, a distância entre os dois pólos eternos não sendo espacial, mas representando uma enorme faixa em gradações de expressão, ação e qualidade. A Matéria, que é capaz de divisão, diferenciação e combinações, provendo a forma, e o Espírito, que é Vida indivisa, possuindo qualidades que ele confere à energia que atua através da forma e expressa em cada caso aquele aspecto de sua natureza que pode aparecer através da forma. Podemos ver que enormes possibilidades abrem-se a partir desta visão.

Todas as qualidades incluídas na profundidade podem ser manifestadas na consciência desenvolvida. Elas pertencem àquela consciência ou, mais categoricamente, à consciência como manifestada no homem. Quando examinamos muito cuidadosamente a natureza da vida, podemos ver que ela não é separada da consciência. Viver é ser cônscio em algum grau. No nível puramente físico é “senciência”; você sente a picada de uma agulha ou uma sensação agradável, excitante. Mas há muitos outros níveis, a natureza dos quais é expressa na ação que ocorre no campo de nossa própria consciência, não apenas pensamento e todas as qualidades que podem caracterizá-lo, mas também imaginação, resposta à beleza, amor, o sentimento de absoluta liberdade e a experiência de um estado de “absoluteidade” em nosso próprio ser. Tudo isto surge da vida, sendo parte de sua natureza e ação. Atribuir tudo isto a combinações moleculares, por mais que a vida possa parecer surgir delas, é uma explicação que não pode ser chamada de razoável ou convincente.

O cientista estuda e especula, na medida em que ele especula, sobre a vida em sua natureza ordinária, a natureza da vestimenta material que ela usa, não sua natureza extraordinária que não pode ser medida por sua régua e compasso ou pelos instrumentos mais sofisticados que ele inventou. A vida, restrita por uma organização material, a natureza que exibe nessa organização, é uma coisa: mas a vida fora dos limites dessa organização, o que ela pode manifestar de sua natureza à parte das limitações às quais torna-se sujeita, pode ser alguma coisa muito diferente. O que é extraordinário é completamente omitido quando o cientista confina sua atenção àquilo que ele pode observar na matéria física. Ele não pode conhecer dessa forma a outra dimensão que está compreendida no Espírito, uma palavra com significados desconhecidos, que pode ser compreendido somente através da auto-experiência. Mesmo no nível físico há vários processos para os quais não há explicação adequada. Como as partes se ajustam num todo progressivamente significativo, como um desenho específico variando de uma família ou ordem para outra, e o que mantém a unidade deste desenho enquanto o reproduz e o modifica todo o tempo, com adaptações de uma natureza muito complicada e engenhosa, tudo isso é um mistério. É difícil imaginar que um tal resultado inteligente possa advir de um processo de mero ajuste sem um padrão anterior ao qual as partes são atraídas.

A Teosofia em seu aspecto central é essencialmente a ciência da Vida, sua natureza, potencialidade e ação. Ela também tem sido designada como a ciência do Eu. Mas quando o eu no sentido ordinário desaparece então há Vida aparecendo em seu lugar, em toda sua extraordinariedade, sua beleza, sua profundidade, sua inteligência e todas as outras características de sua natureza e poder. Podemos usar a palavra “Espírito” quando nos referimos a tudo isto. Assim, o Espírito é vida em sua fonte, onde ela existe em sua pureza, sua plenitude, sua plena potência e superlatividade, e não como ela aparece um qualquer forma condicionada. Talvez possamos chamá-la então de o elixir da vida.

Alguns anos atrás, Sir John Eccles, o célebre pesquisador e professor de fisiologia, particularmente do cérebro, ministrou uma série de conferências que foram transmitidas pelo rádio para toda a Austrália, no curso das quais ele disse:

Demasiado freqüentemente temos afirmações de que o homem é apenas um animal esperto e inteiramente explicável materialmente. E novamente, nos é freqüentemente dito que o homem não é nada mais do que uma máquina extremamente complexa e que os computadores logo estarão competindo com ele pela supremacia como as máquinas mais complexas em existência e que eles terão desempenhos que o sobrepujarão em tudo o que importa.
Quero duvidar de tais afirmações dogmáticas e fazer com que vocês percebam quão tremendo é o mistério da existência de cada um de nós... Minha aproximação da experiência consciente é, em primeiro lugar, baseada em minha experiência direta de minha própria autoconsciência. Acredito ser esta a única maneira válida na qual falar a vocês...


“A única maneira válida”, da qual Sir John fala, pode ser considerada como especulativa, não estando aberta à demonstração, mas é o caminho para o conhecimento direto e certo. Em outro lugar ele diz: “Nós (os cientistas) não podemos dizer-lhes como os presumidos padrões na rede neuronal num dado momento dão surgimento à consciência”.

Mas os antigos resolveram esta dificuldade.
À medida que a vida, em seu aspecto de consciência, desenvolve-se num ser humano, o amor aparece e manifesta-se e da mesma forma que a vida possui um aspecto que é ordinário e outro que é extraordinário, o amor também tem dois aspectos similares. O amor que é ordinário é o tipo que encontramos muito comumente no mundo e é basicamente uma questão de gostar ou de gozo e posse. Mas há também amor que é extraordinário. A diferença realmente repousa entre as qualidades que são baseadas na matéria e aquelas que são puramente espirituais.

Aquele princípio no homem que é chamado Manas, grosseiramente traduzido por mente, pode ser baseado na matéria bom como espiritual. Imagine um cone, cuja base está na terra e seu vértice acima da base estando conectado com cada ponto na base. Isto pode simbolizar o relacionamento entre Manas e as coisas particulares no campo da matéria com as quais está relacionado, para as quais sua atenção é atraída, nas quais ela desenvolve um interesse. Todas as linhas que conectam o vértice com os pontos inumeráveis na base representariam as reações da mente, seus apegos e medos. Mas podemos imaginar o prolongamento deste cone, fazendo um outro cone com seu vértice no mesmo ponto e a base em algum lugar lá em cima. Este outro cone abrindo-se ao espaço representaria Manas expandindo-se no mundo do Espírito, isto é, um mundo de verdade e beleza, uma expansão que pode ocorrer somente quando a mente está livre das modificações às quais entrega-se no cone inferior baseado na matéria.

Manas, sendo o princípio central no homem, não o mais elevado, mas o que realmente constitui o homem, o pensador, pode associar-se quer ao mais elevado ponto em sua constituição ou ao mais inferior. A Dra. Annie Besant descreveu o homem como uma entidade que une em si mesma o supremo Espírito com a matéria mais inferior. A palavra “mais inferior” não significa neste contexto alguma coisa desprezível, vil ou má, mas significa que nas gradações que separam o Espírito da matéria estamos nos referindo ao grau mais inferior da matéria, da mesma forma que o ponto mais elevado refere-se à suprema qualidade no Espírito. É possível se viver em condições de matéria, como todos nós vivemos, sem tornar-se sujeito às suas pressões e influências insidiosas, sem passar por um processo de materialização ou degradação em si mesmo. Portanto, não necessitamos concluir que a matéria é necessariamente má ou grosseira em qualquer sentido depreciativo.

Certas qualidades e faculdades vêm à manifestação somente num mundo de distinções. No mundo da Natureza física, cada coisa é distinta e diferente das outras de uma maneira ou de outra e mantém sua diferença com uma medida de estabilidade. Há muitas tonalidades e matizes de cor e a capacidade de percebê-los é desenvolvida somente quando se dá atenção a eles. Similarmente, há diferenças em tons e formas, movimentos, idéias e qualidades. O artista nota alguma delas mas nós não. Também no reino da mente pode haver movimentos extraordinariamente sutis, cada um com sua qualidade, como uma nota musical, distinto de outros, distinções entre uma idéia e outra e distintas gradações em sentimentos e emoções. Processos mentais tais como razão, julgamento, rapidez em pensamento, são evocados ao se tratar com distinções. Estas qualidades, incluindo a capacidade de agir com precisão, presteza e habilidade surgem do relacionamento entre a mente à matéria.

A natureza de Manas, que é um aspecto da consciência ou um modo de sua ação, é ver o particular, à parte. Ele nota as diferenças entre uma coisa e outra em suas propriedades, movimentos, ação, relacionamentos e assim por diante. O cientista faz isso de uma maneira notável. Mas quando ele quer compreender a natureza de alguma coisa que é um todo, ele a julga a partir do que ele conhece das partes.

É um aspecto diferente da consciência que abarca o todo de uma só vez e experimenta a natureza da unidade que aquele todo corporifica. O todo, se ele não é uma mera reunião, possui uma qualidade, uma beleza, que não está nas partes. Uma construção nobre, tal como o Taj Mahal ou uma bela catedral, possui uma dignidade, um caráter próprio, que as partes, embora belas em si mesmas, não manifestam separadamente. Este outro aspecto da consciência, que é espiritual e que podemos chamar de Buddhi, sempre funciona em termos de um todo perfeito e em suas criações expressa a natureza ou a beleza do Espírito.

Se identificamos Espírito com consciência em sua pureza, podemos ver como ele pode atuar em um número infinito de maneiras. Se a afirmação é feita “A beleza do Espírito é infinita”, talvez muitos a aceitarão porque é um pensamento que tem sido expresso muito freqüentemente. Mas em que modos ela pode ser infinita, como sua beleza é manifestada? É somente quando compreendemos a natureza da consciência é que vemos de sua substância e movimentos pode surgir uma forma bela após a outra e que seu poder de criação pode ser infinito. Tal ação ocorre com uma facilidade sem esforço quando não há nela nenhuma partícula de um impedimento: então ela pode mostrar a cada vez uma criação singularmente bela. Sua ação é muito semelhante ao florescimento de uma planta na Natureza física. Podemos chamá-la a ação do Espírito ou da Consciência. É este florescimento desde o interior, cada vez com uma nova beleza, que constitui o lado extraordinário da vida, de seu aspecto espiritual ou divino, que é muito mais uma realidade ou mais próximo da realidade do que a ação no campo da matéria.

Mesmo no nível da matéria a vida sempre assume uma forma individual. Ela não é apenas uma quantidade de energia num reservatório. No corpo material vivo há perfeita coordenação de partes e processos e o corpo manifesta em seu nível uma certa unidade correspondente à individualidade da vida que nele habita. Assim, há uma reflexão no caráter e nos processos da vida na matéria, de uma unidade inata que é a unidade do Espírito. Mas a unidade que é espiritual não é uma unidade morta ou de uma natureza mecânica, mas é a unidade de uma “absoluteidade” tal como é experimentada numa exaltada condição da consciência, no amor ou numa total resposta à beleza. Cada estado desses possui uma qualidade singularmente sua, como a unidade de uma qualidade que permeia e satura uma criação artística ou a unidade de uma expressão maravilhosa na face de alguém.

De acordo com o ensinamento oculto, em cada ponto no espaço há matéria e em cada ponto há também Espírito. Uma partícula de poeira é matéria mas há também Espírito nela. Eles coexistem, ambos são eternos, unos e auto-existentes, mas em cada ponto o significado, a beleza, a maravilha que é manifestada pertence ao Espírito. Ele é o Logos, no velho sentido grego, presente em cada ponto no fluxo da vida, que dá direção àquele ponto para o processo evolutivo posterior. A matéria existe como um meio de expressão.

Hoje em dia freqüentemente a pergunta é feita: “Qual é o significado da vida?” Nesta pergunta a palavra “vida” é usada num sentido altamente generalizado, incluindo todos os incidentes que afetam a vida interior. A palavra “significado” é difícil de traduzir. O que uma flor significa para nós, ou ela nada significa afinal? Quando há uma resposta extraordinariamente vital de nosso coração à flor ou ao movimento de uma nuvem ou a uma personalidade humana ou a alguma ação de sua parte, como esse fenômeno nos afeta, seu impacto sobre nós, é o significado sentido e experimentado. Se sentimos sua beleza, seu encanto, se somos realmente cativados por ela, a coisa é significativa num grau extraordinário. Este é o ápice de significado que uma coisa pode possuir. Você apenas olha para ela e ela mostra sua beleza a você e isto é o suficiente, ela não necessita fazer mais nada. O fato que ela existe e que você a conhece é o bastante. O “significado”, então, está na natureza inata de um fenômeno ou objeto. Não é uma questão de construção pela mente. Cada fenômeno, cada pessoa e coisa possuem uma qualidade que é comunicada à mente que está realmente aberta. Cada pintura ou gravura, se ela é uma real obra de arte, possui uma beleza que ela irradia. O artista conhece isto como um fato, embora possa haver pessoas que pensem que a gravura é meramente uma mistura de cores. Quando falamos da verdade com relação a alguma coisa objetiva, esta verdade inclui todo o que pertence à sua forma, sua substância e propriedades, bem como o significado daquela forma para uma mente e coração receptivos, a qualidade que permeia a forma, quando ela é uma forma perfeita.

No processo da evolução, que é um processo universal, há uma sucessão de formas. Há também uma manifestação ou liberação de significado. Uma qualidade mais elevada, uma inteligência superior, uma beleza que não estava presente antes, aparece no mapa da existência. A essência de uma forma que é perfeita e significativa, isto é, se ela é verdadeiramente evoluída, está naquilo que ela expressa e esta essência pertence à vida, ao Espírito-na-matéria. A natureza do Espírito deve ser percebida no significado que a coisa viva torna manifesto. Se em toda a parte há vida latente ou ativa, tudo que podemos ver ou tocar deve ter esta qualidade-vida, mesmo que tenuemente.Um cachorro cheira o que não podemos cheirar e os instrumentos registram variações magnéticas que afetam nossos corpos, mas dos quais somos totalmente inconscientes. Similarmente, pode haver radiações presentes, presenças sutis, às quais não somos sensíveis. A forma é sempre pretendida ser uma expressão da vida. Há esta expressão quando ela incorpora um padrão específico sobre o qual a expressão pode ser baseada. No curso da evolução, na medida em que o padrão é elaborado, a expressão torna-se mais definida, mais modulada, carregada com nuanças. Há uma infinidade de significado, de amor, de beleza no Espírito e a natureza na qual esta infinidade está armazenada pode ser conhecida em nosso coração quando ele for puro o suficiente e humilde o suficiente para conhecê-la.


Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

JORNADA MÍSTICA - CAPITULO R+C TERESINA-PI


Saudações em Luz, Vida e Amor!

É com muita satisfação que convidamos à todos para nossa 1ª Jornada Mística de 2009. Abaixo, data, programação e horários. Esta é uma excelente oportunidade para conhecermos mais sobre a Ordem Rosacruz, sua filosofia e forma de atuação. Também é uma ótima oportunidade para trocarmos experiências.



Data: 28/06 (Domingo)
Horário: a partir de 8:00h da manhã
Local: Capítulo Rosacruz Teresina, AMORC

08:00h – Abertura

08:15h - Saudação ao Sol – Leitura do “Hino à Aton” – Fr. Henrique Moretz-Sohn

09:00h - Palestra: “A Ontologia dos Rosacruzes” – Fr. Eduardo Neves

10:00h – Lanche

10:30h - Palestra: “Inteligência Kabbalística: Transformando Obstáculos em Oportunidades” – Fr. Cícero Vasques

11:30h - Meditação para a Paz – Fr. José do Amparo

12:30h – Encerramento

Contatos:

Endereço:

Rua Básilio Bezerra, 2470
Planalto Ininga
Teresina – PI

Telefone para contato (Frater Eduardo Neves, Mestre do Capítulo): (86) 8849-7947
E-Mail: amorcteresina@gmail.com

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009



"Combater a infâmia".

Sábado, 23 de Maio de 2009



"Cavar masmorras ao vício, e erigir castelo às virtudes".







Me aguardem... Eu estou voltando...

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

HENRIQUE CORNÉLIO AGRIPPA VON NETTESHEIM AGRIPPA


Nasceu em 1486, em Colônia, Alemanha e morreu em Grenoble no dia 18 de fevereiro de 1535. Filho de antiga família nobre, estudou na Universidade de Colônia, foi mé-dico, jurista, filósofo, cabalista e estudou também a alquimia. Aos vinte anos de idade já havia estudado a magia e a cabala; sabia oito línguas, dentre as quais, o hebreu, foi um grande re-belde da Renascença.

Sua vida acidentada foi uma sucessão de honras e de infortúnios, durante muito tempo atuou em missões diplomáticas e militares a serviço de diversos soberanos.
Como erudito, correspondeu-se com os grandes humanistas da época tais como: Melâncton, Erasmo, Cardeal Lourenço Campegi e Tritemo que foi seu amigo e mestre e que o influenciou a escrever sobre seus conhecimentos do oculto.

Do Humanismo e do Aristotelismo da Idade Média, sucedeu-se o Pitagorismo e o neoplatonismo, que na época começara a florescer, em seus estudos estavam: Plotino, Jâm-blico, Porfírio e Pitágoras. Agrippa mergulhou no sobrenatural e no oculto a tal ponto, que o seu entusiasmo por tais filósofos, suplantou o seu sentido crítico de erudito.

Por seu espírito aberto à todas as correntes do pensamento oculto, Agrippa tentou conciliar as diversas doutrinas ocultas e unir a filosofia à cabala. Em 1507, Agrippa desloca-se à Paris numa missão a serviço do imperador Ma-ximiliano, aproveita para avistar-se com alguns jovens aristocratas com os quais forma uma sociedade secreta chamada Sodalitium (Comunidade), em conjunto elaboraram um plano místico para um mundo reformado e também um compromisso parta uma ajuda mútua.

Em 1509, Agrippa chega a Dole, cidade em que Margarida da Áustria, filha de Maximiliano, era a soberana, através de um amigo, obteve autorização para lecionar literatura sagrada (Cabala) na Universidade. Iniciou pelo estudo do tratado cabalístico de Reuchlin: A Palavra Mirífica, também fez um estudo comparado das religiões.
Embora afirma-se que a religião católica era a melhor, dizia que era necessário guardar em relação a ela, a liberdade de analise.

Desejando agradar Margarida, escreveu: A Nobreza do sexo feminino e a supe-rioridade das mulheres, com argumentos extraídos da Bíblia, de padres e da filosofia; ele elogia o sexo feminino em termos exaltados, dedica a obra à "divina Margarida, augusta e clemente princesa". Por tudo isso, seus inimigos não tardaram a aparecer, especialmente do clero que viam na sua simpatia pela cabala judaica, uma perigosa heresia.

Em Ghent, na Holanda, onde Margarida residia, o franciscano Catilenet, profe-riu um sermão perante a princesa contra esse cabalista ímpio, Agrippa foi impedido pelos seus adversários de publicar a sua obra de elogio às mulheres e teve de abandonar a cidade.

Em 1510 vai a Londres onde também formou um grupo da Sodalitium, em razão disso, tornou-se suspeito de ser um organizador da Fraternidade Rosa Cruz. Em Londres escreveu seus comentários às Epístolas de São Paulo. No ano seguinte foi para Colônia lecionar.

Em 1515, Agrippa integra-se ao exército de Maximiliano que ia para a Itália, segue como cavaleiro dourado no campo de batalha. Pouco depois, o Cardeal de Santa Cruz envia-o a Pisa como representante junto ao Concílio, esta foi a sua última oportunidade de justificar a sua posição perante a Igreja e de agradar ao Papa Leão X,, porém, o Concílio foi dissolvido e as assembléias interrompidas.
Deixando sua carreira militar, Agrippa foi lecionar na Universidade de Pavia e depois na de Turim onde divulgou ensinamentos de Hermes Trismegistos, lá ficou até que a guerra o obrigou a partir, esteve sete anos na Itália.

Graças ao apoio do marquês de Montferrat, Agrippa torna-se em 1518, síndico, advogado e orador da cidade de Metz, neste cargo ficou mais ou menos dois anos quando se demitiu após uma disputa com o inquisidor dominicano: Nicolas Savini. Mais uma vez atrai a cólera dos monges, por salvar da fogueira uma inocente camponesa de Woippy, injustamente acusada de bruxaria com base no testemunho de oito camponeses ébrios. Agrippa introduz uma petição junto ao bispo de Metz, faz libertar a mulher e pune com pesada multa os seus difamadores.Este acontecimento torna em breve, a situação de Agrippa insustentável e obriga-o a abandonar a região com sua mulher e filho.

Volta a lecionar em Colônia e também em Genebra, em 1523 vai para Friburgo onde exerce a medicina, sua fama incita o bispo de Bazas: Synphorieu Bullioud a fazê-lo regressar à França e apresenta-o à corte. Em 1524 Agrippa é nomeado médico da duquesa Luíza de Sabóia, mãe do soberano Francisco I e passa a receber uma pensão.

A duquesa pretendia que Agrippa também fosse seu astrólogo, o que ele recusa, pois acha que seus talentos mereciam ocupação mais importante. Quando a duquesa vai embora de Lyon, Agrippa ficou e seu nome foi excluído da lista de pensões. Sua sorte voltou em 1528 quando foi convocado por quatro protetores: Henri-que VIII, da Inglaterra, o chanceler do imperador alemão, um marquês Italiano e Margarida de Áustria, governadora dos Países Baixos, eles o nomearam historiador imperial.

Nesta época escreveu: Da Incerteza e da Vaidade das Ciências e das Artes, onde afirma, antes de Rousseau, que as ciências e as Artes são prejudiciais ao homem, denuncia os abusos das profissões liberais do seu tempo em 103 capítulos, nas quais ataca ao mesmo tempo, os gramáticos, os músicos, os médicos e outros.
Esta obra que teve duas edições em três meses, foi apreendida e queimada por ordem da Faculdade de Teologia de Paris, em janeiro de 1531. Agrippa estava em Anvers como conselheiro e historiador, a serviço do imperador Carlos V, seus amigos: o legado apostólico, cardeal Campegi e o bispo de Liege, cardeal de La Mark, tentaram defende-lo de seus inimigos, mas Agrippa perdeu seu cargo de historiador imperial e como ficasse impossibilitado de pagar suas dívidas, foi preso em Bruxelas, mas foi posto em liberdade um ano mais tarde.

Dirigiu-se em 1532 para Bona onde tentou publicar a sua obra: Da Filosofia Oculta, verdadeira enciclopédia sobre magia, escrita em 1510 e que a havia submetido à crítica do seu mestre Tritemo, que após examiná-la, disse-lhe: "Tenho apenas mais uma advertência a fazer-vos, nunca esqueceis: ao vulgo falai somente coisas vulgares, reservai para vossos amigos todos os segredos de categoria superior, dai feno aos bois e açúcar ao papagaio. Compreendei o que quero dizer para que não sejais espezinhado pelos bois, o que freqüentemente acontece. "Os trabalhos de impressão desta obra em três volumes foram interrompidos em 1533 por um pedido da inquisição ao Senado de Colônia mas Agrippa protesta por carta aos magistrados e consegue publicá-la em julho do mesmo ano, em Antuérpia.

Agrippa declarava que para ocupar-se da Magia, era necessário conhecer perfeitamente a física, a matemática e a teologia, para ele, a magia é uma faculdade poderosa, plena de mistério e que encerra um conhecimento profundo das coisas mais secretas da natureza, substâncias e efeitos, também suas relações e antagonismos.

A física é terrestre, através dela conhecemos a natureza das coisas, a matemática é celeste, através dela aprendemos as dimensões e tamanho e podemos calcular o movimento dos corpos celestes; a teologia reporta-se ao mundo dos arquétipos, por ela atingimos o conhecimento de Deus, anjos, demônios, alma, inteligência e pensamento.

No primeiro volume, sobre a Magia Natural, desenvolve a teoria dos três mundos: o elementar, o intelectual e o celeste; cada um sendo governado pelo seu superior e recebendo as suas influências. Analisa as virtudes ocultas das coisas, o modo como elas provêm das idéias, da alma, do cosmos e dos influxos planetários; quais as atrações e que repulsas suscitam nas espécies animais, vegetais e minerais. No 2º volume sobre os números, pesos e medidas, os segredos da harmonia universal, signos. No 3º volume ele trata o efeito dos nomes divinos, da hierarquia angélica, dos espíritos planetários, das nove classes de espíritos maus, dos ritos, conjurações, pontículos sagrados, dos hieróglifos cabalísticos; tudo isso no intuito de instruir o mago; dizia: "Embora o homem não seja um ser imortal como o é o Universo, ele não deixa de ser dotado de razão e com sua inteligência, sua imaginação e a sua alma, é capaz de influenciar e transformar o mundo inteiro".

Agrippa defende a necessidade de religião em todo o cerimonial mágico, ele diz: "A religião é a coisa mais misteriosa e sobre ela devemos guardar segredo, pois é Trismegistro que afirma que constituiria ofensa à religião, divulgá-la à turba profana". Na sua concepção, a religião é uma mescla de cristianismo, neoplatonismo e cabala.
O seu tratado é uma síntese dos ensinamentos de Moisés, de Cristo, de Orfeu, de Demócrito de Pitágoras e de Plotino.

Agrippa leu e tentou conciliar as Escrituras com os textos sagrados das outras religiões, sobre as citações extraídas de autores estrangeiros, diz: "Eu não dou-as como verdade, é preciso ter a perspicácia para extrair o bem de todo o mal e reduzir a uma linha direita todas as coisas oblíquas. Concebeu a natureza como um conjunto vivificado em todas as suas partes por uma alma universal ou espírito do mundo que governa os elementos (Quintaessência) das leituras que lhes eram proibidas.

Cimentou a idéia da magia primitiva sobre bases novas fazendo evoluir seu conceito em direção à ciência experimental com o estabelecimento da chamada magia natural, da qual foi o mais alto expoente juntamente com Paracelso.
Alguns padres leram com entusiasmo "Da Filosofia Oculta", outros evitaram-na com horror, porque viam nela a quintaessência das leituras que lhes eram proibidas.

Em 1535 deixou Bona e regressa a Lyon, imediatamente Francisco I manda prendê-lo por ter usado afirmações satíricas: contra sua mãe, mas amigos seus conseguiram libertá-lo e ele buscou refúgio em Grenoble, na casa de François de Vachon, que era presidente no Parlamento do Delfin. Agrippa Morreu no dia 18/02/1535, enterraram-no na Igreja dos Irmãos da Oração. Foi sem dúvida, o ocultista mais importante da sua época, fundador da filosofia oculta, deixou a fama de "príncipe dos mágicos" que demorou muito tempo para desaparecer.

Sobre uma de suas singularidades, conta Paul Jove: Agrippa estava sempre acompanhado por um grande cão negro, o qual chamava-se : Monsieur, era certamente o diabo..." esqueceu-se que Agrippa tinha também uma cadela com o nome de Mademoiselle. Assim as pequenas coisas de um autor anticonformista são viradas contra ele.

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

A ALQUIMIA ESPIRITUAL DOS ROSACRUZES TRANSMUTAÇÃO MENTAL, TRANSMUTAÇÃO CORDIAL E A THEMIS AUREA

Summary

The Rosicrucian Alchemy is essentially spiritual, although some Rosicrucians have dedicated themselves to the Practice of the Art. This lecture makes an approach to the book Themis Aurea (1618), by the Count Michael Maier, where we can find important informations on the “Verum Inventum”.

Maier makes the firm statement that the Brothers of R.C. actually exist to advance inspired Arts and Sciences, including Alchemy. He was a scholar very prized by Rudolph II, Emperor and King of Hungary, and King of Bohemia, who was an amateur alchemist, too.

Maier was also a practical chemist and associated with many researches in this field. Emperor Rudolph II ennobled Maier with the title Pfalzgraf (Count Palatine), and appointed him Private Secretary to His Royal Person.

* * *

Quando, pela Alquimia Espiritual, nos tornarmos como Cristo, o Senhor da Vida, seremos imortais, libertar-nos-emos do nosso pai Samael e da nossa mãe Eva e a morte não mais terá poder sobre nós.

Max Heindel, Freemasonry and Catholicism, 1919

Em 1614, 1615 e 1616 foram publicados na Alemanha, por esta ordem, três tratados ou manifestos que desencadearam o movimento Rosacruciano — ou o Iluminismo Rosacruz, como também tem sido chamado: Fama Fraternitatis («Ecos da Fraternidade, ou da Confraria»), Confessio Fraternitatis («Confissão da Fraternidade») e Chymische Hochzeit Christiani Rosencreuz Anno 1459 («Núpcias Químicas de Christian Rosenkreuz no ano de 1459»).

Publicados anonimamente na Alemanha, os dois primeiros em Kassel e o último em Estrasburgo, a sua autoria tem sido atribuida a Johann Valentin Andreae (1586-1654), pastor protestante originário da Suábia e influente figura da ortodoxia luterana dos princípios do século xvii, e um dos homems mais sábios do seu tempo.

No frontispício do primeiro lê-se a seguinte dedicatória: «Nós, Irmãos da Fraternidade da Rosacruz, oferecemos a nossa saudação, o nosso amor e as nossas orações a todos os que lerem a nossa Fama com inspiração cristã». Nele se conta a história do Fr. R. C. — Frater Rosencreuz[1], ou Irmão Rosacruz —, um «homem iluminado» que viajou por muitos países, incluso no Oriente, onde aprendeu a Magia e a Cabala com os Mestres. Ao regressar à Alemanha decidiu empreender a reforma que haveria de corrigir as imperfeições do mundo, e fundou a misteriosa Ordem Rosacruz juntamente com alguns outros Irmãos.

O segundo, Confessio, é um breviário em catorze capítulos contendo «a mais Secreta Filosofia»; completa o anterior e de certa maneira vem justificá-lo, defendendo-o das vozes e acusações de que os misteriosos Irmãos da Rosacruz já começavam a ser alvo, pois não faltava quem os suspeitasse «de heresia, de ardis e de culposas maquinações contra a autoridade civil» (cap. I). Aqui se esclarece que Christian Rosenkreuz nasceu em 1378 e viveu 106 anos (cap. VI), e que as suas investigações e pesquisas «suplantam tudo o que, desde os primeiros dias do mundo, a inteligência humana inventou, produziu, melhorou, propagou e perpetuou até à época actual, tanto por intermédio da revelação e da iluminação divinas quanto graças aos ofícios dos anjos e dos espíritos» (cap. IV); já o papa, em contrapartida, é considerado, pelo luterano autor do texto, um «sedutor romano que transborda de blasfémias contra Deus e contra o Cristo» (cap. XI).

Finalmente o terceiro, Núpcias Químicas, é um fantástico romance alegórico, dividido em sete Dias, ou sete Jornadas, tal como o Génesis, e conta o modo como Christian Rosenkreuz foi convidado a ir a um maravilhoso castelo, ou palácio, repleto de prodígios para assistir ao Casamento Alquímico do rei e da rainha, ou melhor, do Noivo e da Noiva, interessando-nos este terceiro livro, particularmente, pelas óbvias conotações herméticas que comporta.

Estes três manifestos obtiveram um sucesso considerável e deram origem a inúmeras controvérsias e a imensas obras de inspiração rosacruciana, de que se destacam autores tão marcantes como Michael Maier na Alemanha ou Robert Fludd e Elias Ashmole na Inglaterra, além de Theophilus Schweighardt, Gotthardus Arthusius, Julius Sperber, Henricus Madathanus, Gabriel Naudé, Thomas Vaughan, etc.

Sobre o primeiro destes autores atrás citados, Michael Maier, me irei deter um pouco mais, chamando entretanto a atenção para a importância de certos precursores, como o misterioso filósofo e alquimista isabelino John Dee, autor da não menos misteriosa Monas Hieroglyphica (1564), que influenciou o conceituado filósofo hermético Heinrich Khunrath, de Hamburgo, autor do Amphitheatrum Sapientiae Aeternae (1609), que por sua vez terá influenciado, e não pouco, o primeiro manifesto rosacrucisno, a Fama Fraternitatis. A filosofia alquímica está sempre presente em todos estes autores; com efeito, o surto rosacruciano deu-se em plena florescência hermética do Renascimento e do Barroco, portanto não é de surpreender o pendor alquímico das principais obras rosacrucianas; ou melhor: uma das mais elevadas aspirações dos Irmãos da Rosacruz seria o renovo da Arte alquímica, já então degradada pelos «assopradores», como claramente se diz num dos parágrafos iniciais da Fama, em referência à «época feliz em que vivemos» (início do século xvii): «Deus […] favoreceu o nascimento de espíritos altamente esclarecidos que tiveram por missão restabelecer nos seus direitos a Arte, em parte maculada e imperfeita».

Este permanente renovo da «Arte» (alquímica, entenda-se), e o seu desenvolvimento, sobretudo espiritual e simbólico, foram uma constante dentro do Rosacrucianismo, desde então até aos nossos dias.

O próprio Isaac Newton (1642-1727), um dos maiores génios da matemática, não foi insensível ao fascínio da Alquimia, como é sabido; além de possuir exemplares dos mais notórios tratados alquímicos, tanto do seu tempo como anteriores, que hoje fazem parte do espólio existente na Biblioteca da Universidade de Yale, deu-se ao trabalho de fazer muitas cópias manuscritas de obras alquimistas. Uma dessas obras, que ele possuía na sua colecção, era precisamente a Themis Aurea de Michael Maier, à qual faz referências e tece comentários numa das suas muitas notas manuscritas sobre a filosofia hermética, conservadas na dita Biblioteca.

Michael Maier (1568-1622), um dos grandes eruditos da sua época, nasceu em Rindsberg, Holstein, e foi doutor em medicina, filósofo e alquimista. Embora nunca tivesse afirmado pertencer à misteriosa Fraternidade Rosacruciana, foi um dos seus mais acérrimos apologetas, possuindo informações sobre os Irmãos da Rosacruz — claramente transmitidas nos seus livros — que deixam supor um conhecimento directo do «círculo interno» da Ordem. Viveu alguns anos em Praga, onde foi médico do imperador Rudolfo II que lhe concedeu o título nobiliárquico de Pfalzgraf — Conde palatino — e o nomeou Secretário Privado Real. Os estudiosos de Maier, após exame atento dos seus escritos, observam que ele nunca afirmou objectivamente ter fabricado ouro; tão-pouco o afirmaram, de si próprios, Heinrich Khunrath e outros Rosacrucianos. Os tratados destes autores apontam para uma Alquimia altamente simbólica e espiritual, sem dúvida, mais do que para uma Espagíria operativa. Neles detectamos, velada ou desveladamente, quer os nove estágios da transmutação involutiva-evolutiva do tríplice corpo do ser humano, da tríplice alma e do tríplice espírito, quer os nove passos ou nove graus da Iniciação dos Mistérios menores da Escola de Mistérios Rosacruzes, equipolentes aos nove passos fulcrais do ministério de três anos de Cristo Jesus na Terra:

1. Baptismo; 2. Tentação; 3. Transfiguração; 4. Última Ceia e Lavapés; 5. Agonia no Horto; 6. Flagelação e Coroa de Espinhos; 7. Crucificação e Estigmas; 8. Morte e Ressurreição; 9. Ascensão.

A principal obra alquímica de Maier é o famoso tratado Atalanta Fugiens, hoc est Emblemata Nova de Secretis Naturae Chymica (1617), que é

… um livro de emblemas e notáveis gravuras, com comentários filosóficos.

Atalanta[2], logo no frontispício, é submetida à tentação de abandonar a corrida em busca da verdade espiritual, moral e científica, dando uma lição de perseverança e de pureza de intenções ao alquimista espiritual.

Maier ensina subtilmente uma filosofia mística, religiosa e alquímica, por meio dos símbolos e dos emblemas do seu livro, cada um dos quais apresenta um modo de expressão poético, pictórico e musical (Frances A. Yates, The Rosicrucian Enlightenment, Londres 1972).

Nesse livro se desvenda o significado de vários mitos da Antiguidade clássica, mitos esses que, segundo Maier e outros alquimistas rosacrucianos, teriam um fundo químico oculto: por exemplo, o conhecido enigma de Édipo — qual é o animal com quatro pernas de manhã, duas ao meio-dia e três ao fim da tarde, e uma só voz —, não tem como resposta «o homem», mas sim a «pedra filosofal». Numa das gravuras da Atatlanta Fugiens vê-se em primeiro plano um grupo de três seres: um bebé gatinhando com um rectângulo na testa, ou seja, o princípio da força quadrática fundamental da «pedra» (nigredo), um adulto com uma meia-lua, também na testa, formada por duas linhas com duas pontas, figurando a pedra lunar branca (albedo), e um velho encurvado com um triângulo na testa e apoiando-se a uma bengala — o triângulo do corpo-alma-espírito, ou seja, a pedra filosofal solar, dotada do poder de tingir e curar (rubedo).

Fundamentalmente, tal como já enunciava Paracelso, os hermetistas rosacrucianos defendiam a tese de que a Alquimia, mais do que tentar a transmutação dos metais, deveria antes contribuir para a erradicação das doenças e a mitigação das dores físicas (panaceia universal). Synesius, um alquimista bizantino do século iv, foi um verdadeiro precursor: já definia a Alquimia como uma operação mental, independente da ciência da matéria, cujo objectivo deveria ser a transmutação espiritual e a salvação do ser humano, afirmando, em consequência, que a constituição do elixir (xêrion, «o pó») é menos importante do que as incantações que acompanham a sua produção. Esta teoria deu origem a uma nova escola que minimizou a pesquisa experimental, passando a buscar, no interior do ser humano, os segredos e os fins últimos da filosofia alquímica.

Assim, o Fogo alquímico, ou melhor, o Fogo Solar, sendo um princípio cósmico e um elemento básico da Criação, é na verdade um princípio espiritual, e portanto um dos princípios herméticos fundamentais do Rosacrucianismo. O teósofo e investigador Franz Hartmann (1838-1912) define o Fogo alquímico rosacruciano da seguinte maneira:

O Fogo é uma actividade interna cujas manifestações externas são calor e luz. Esta actividade difere em carácter consoante o plano em que se manifesta. No plano espiritual representa o Amor ou o Ódio; no plano astral, o Desejo e a Paixão; no plano físico, a Combustão. O Fogo é o elemento purificador, que no limite se identifica com a essência da Vida.

É porém no livro Themis Aurea, hoc est de legibus Fraternitatis R. C., publicado em Frankfurt, em latim, em 1618[3] — apenas dois anos após a publicação das Núpcias Químicas de Christian Rosenkreuz — que Michael Maier investiga sobretudo as grandes leis[4] que regem a transmutação espiritual, enunciadas sob a forma de seis sinais de adesão, ou «compromissos», a que se obrigavam as Irmãos da Rosacruz. «Antes de mais nada — observa Maier na Themis — é mais do que razoável supor que qualquer sociedade, para ser boa, deverá ser governada por leis boas […] Por outro lado, é importante que alguma coisa se diga acerca do seu número, seis, que muito de perfeição contém em si» (Cap. II). Com efeito, o número seis associa-se de imediato ao hexahemeron bíblico, os seis dias da criação, o número mediador entre o Princípio e a sua Manifestação, além de simbolizar, em quanto hexagrama, a misteriosa síntese do fogo [∆] e da água [Ñ]. Estes dois triângulos, entrecruzados, formam o conhecido signo — ou selo — de Salomão, uma estrela de seis pontas que inclui, além do fogo e da água, o ar (triângulo do fogo ∆ truncado pela base do triângulo da água), e a terra (triângulo da água Ñ truncado pela base do triângulo do fogo). O todo é uma verdadeira suma do pensamento hermético, representando o conjunto dos elementos do Universo.

Maier reproduz textualmente aquelas seis leis, tal como vêm listadas no primeiro manifesto Rosacruz de 1614, a Fama Fraternitatis:

1. Curar os doentes ou cuidar deles gratuitamente; 2. Não usar hábito próprio à Fraternidade, mas sim e apenas os trajes locais; 3. Apresentar-se todos os anos no dia C. na morada do Sanctus Spiritus, ou comunicar o motivo da ausência; 4. Designar um digno sucessor em previsão de morte; 5. As letras R. C. serão o seu selo, insígnia e sigla; 6. A Fraternidade deve permanecer oculta durante um século.

É interessante notar que a primeira, ou seja, a cura dos enfermos gratuitamente («De graça recebestes, de graça dai» — Mateus 10, 8) adquire tanto relevo no espírito de Maier, que este lhe dedica nada menos de nove capítulos de comentários na Themis Aurea (capítulos IV a XII), ao passo que as restantes merecem apenas um capítulo cada uma.

Assim como os Dez Mandamentos da Antiga Aliança foram sumarizados em dois pelo Cristo do Novo Testamento («Amarás ao teu Deus com todo o teu coração, alma e mente […], e amarás ao teu próximo como a ti mesmo» — Mateus 22, 37-39), também aquelas seis antigas leis foram sumarizadas em duas pela Nova Escola de Mistérios Rosacruzes: «Curar os enfermos e pregar o Reino de Deus», tal como Cristo ordenou aos Seus apóstolos.

O alquimista rosacruciano dispõe do Oratório e do Laboratório, no seu Templo do Espírito, para levar a cabo as operações de transmutação. Por isso se diz, na lei n.º 3, que deve apresentar-se todos os anos no dia C. na morada do Sanctus Spiritus; ou seja: no dia do seu Cristo interno, ou do seu íntimo Natal [5], deve estar perfeitamente consciente do seu verdadeiro estar no templo do Espírito Santo, que é o seu próprio corpo mortificado, acrisolado, e por fim purificado e transfigurado («Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que está em vós?» — 1 Coríntios 6, 19).

Do lado do Oratório deve ter a biblioteca, isto é, a teoria e o alimento mental, a oração oculta, ou a palavra de razão: — o noûs e o logos; do lado do Laboratório deve ter os instrumentos da prática, o alambique, as retortas, os cadinhos, que é como quem diz, as obras do coração e do serviço desinteressado, inegoísta e amoroso, ou cordial. E é nesta dupla vertente, mental e cordial, que a transmutação alquímica do ser humano, no seu todo, se deve processar.

Como referi há pouco, essa transmutação abrange os nove estágios do percurso involutivo-evolutivo do tríplice corpo do ser humano, da tríplice alma e do tríplice espírito. No mundo moderno, cava-se uma distância abissal entre a mente e o coração: a mente prepondera, altamente evoluída pela ciência, e só se satisfaz com explicações materialmente demonstráveis, ao passo que o coração nem sempre encontra meios para manifestar o seu poder: as suas intuições são muitas vezes inseguras e erram ao aventurar-se nos mistérios do ser, que a mente esquadrinha de forma tão redutora quão aparentemente sólida e exacta.

Tanto vale dizer que a «pedra filosofal» do Conhecimento e da Verdade será alcançada quando a mente e o coração se unirem harmoniosamente, aperfeiçoando-se e cooperando mutuamente até que o ser humano atinja a mais elevada Gnosis e a mais elevada Sophia, isto é, até que esteja em condições de viver a Vida Religiosa em plenitude. Esta operação é descrita pelo rosacruciano Max Heindel (1865-1919) no seu livro clássico The Rosicrucian Cosmo-Conception [6]:, e a ênfase que Michael Maier coloca, na Themis Aurea, na eficácia alquímica das energias «curativas» trabalhadas discreta mas sabiamente «no oculto»[7], ensina-nos que a «panaceia»[8], mais do que um bálsamo físico, ainda que envolto numa teia de simbolismos, é um Mistério sagrado que o Adepto deverá saber buscar no mais completo despojamento de si:

Embora os Irmãos [da Rosacruz] possuam as medicinas mais eficazes do mundo, não se vangloriam disso, antes o escondem; talvez os seus pós contenham cinábrio ou alguma outra matéria ligeirísima, mas produzem seguramente mais efeito do que se pode imaginar. Possuem a Phalaia bem como a Asa de Basílio, o Nepenthes que afasta as mágoas e pesares de Homero e do Trimegisto, o unguento de ouro, a fonte de Júpiter Hammon, que é quente de noite, fria ao meio-dia, e tépida ao nascer e ao pôr do Sol. Desdenham lucros e proveitos e não são seduzidos por altos cargos nem por honrarias; nem desejam de nenhum modo evidenciar-se […]; submetem-se tranquilamente à protecção divina, não se exibem nem se escondem, mas exercem a sua actividade em silêncio (Michael Maier, Themis Aurea, cap. VI).

Com efeito,

… é pela Alquimia Espiritual que construiremos o templo do Espírito e conquistaremos o pó donde viemos, qualificando-nos como verdadeiros Mestres Maçons preparados para trabalhar em esferas mais elevadas (Max Heindel, Occult Principles of Health and Healing, Oceanside 1938).

Em suma, há-de ser dentro de nós próprios que teremos de descobrir, desbravar e percorrer o Caminho da Salvação, e não apenas nesta ou naquela prática, neste ou naquele ritual, neste ou naquele livro por muito sublime e englobante que seja, ainda que se trate do livro dos livros, porque a letra só brilha para quem já preparou os olhos capazes de suportar o brilho da Luz «que já existe e que é tão bela».

Como dizia Florentinus de Valentia: «O livro que contém todos os outros está em ti, e em todos os homens». António de Macedo

NOTAS

[1] A grafia actual é «Rosenkreuz», com k e não com c.

[2] Segundo a lenda, a virgem Atalanta era muito veloz a correr e, por fidelidade à deusa Ártemis, decidira casar-se apenas com o homem que conseguisse vencê-la na corrida, jurando que mataria os pretendentes a quem vencesse, o que foi o caso de muitos. Graças ao ardil de lhe ir lançando à frente uns frutos de ouro que trouxera do Jardim das Hespérides, Hipómenes venceu-a porque ela se atrasava a apanhá-los. Atalanta submeteu-se ao prometido, e aceitou casar com Hipómenes.

[3] Existe uma edição moderna da Philosophical Research Society, Los Angeles 1976 que reproduz, em fac-simile integral, a primeira tradução editada em língua inglesa: Michael Maier, Themis Aurea — Laws of the Fraternity of the Rosie Crosse, N. Brooke, Cornhill 1656 (tradutor anónimo).

[4] Segundo Hesíodo (Teogonia, v. 135 e vv. 901-906), Témis, filha de Urano e de Gaia, é a deusa das Leis Eternas, sendo, por sua vez, mãe das Horas, da Boa-Lei (Eunomia), da Justiça, da Paz e das três Moiras.

[5] O «nascimento do Cristo interno» é a aspiração maior do cristão místico. Os primitivos cristãos saudavam-se: «Que o Cristo nasça em ti!». É o equivalente, de certo modo, ao samâdhi do Hinduísmo ou o satori do Budismo Zen.

[6] Cf. Max Heindel, The Rosicrucian Cosmo-Conception (1909), The Rosicrucian Fellowship, 28ª edição Oceanside 1977: «Alchemy and Soul-Growth», pp. 421-425.

[7] «Tu porém quando rezares, entra no teu quarto, e, de porta fechada, reza a teu Pai que está no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, te corresponderá» (Mateus 6, 6).

[8] Este termo deriva do nome da deusa da cura universal por meio de plantas, Panaceia, filha de Asclépios, o deus da Medicina.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Phoenix

Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei.

Ir.: Frater Magister

“ABRAHADABRA Ele toca o sino Onze vezes Agora começo a Orar: Vós, Criança Sacro e imaculado é vosso nome Vosso reino é vindo, Vossa vontade foi feita Aqui está o Pão, Aqui está o SangueTrazei-me através da meia-noite ao Sol Livrai-me do Bem e do Mal!” - Fragmento da Missa da Phoenix de Aleister Crowley

Olhai as coisas da vida do ponto de vista do Sol – disse Crowley ao seu discípulo. Essa identificação com o Astro Rei nos fará ser a fonte de luz, que brilha, aquece e abrasa os corações, tornando o verdadeiro sentido do Amor, num amor puro e desinteressado, o Amor de ágape.

Tal concepção só é conseguida pela depuração interior, no momento que o Iniciado morre para o mundo mundano e assim como a lenda da Phoenix que após uma existência secular com o acúmulo de sabedoria, inflama-se para ressurgir de suas próprias cinzas.

Este é um aspecto elementar na maioria das escolas de pensamento. Aprendi por todos esses anos de estudo do Oculto, que devemos ser sempre originalmente abertos para abraçar o infinito, e a cada passo dado fomentarmos a pesquisa e finalmente partirmos para a prática pura. Essa experiência pessoal é que nos faz deslumbrarmos a possibilidade de crescimento interior. Ora, imaginem dois artistas pintores contemplando uma mesma paisagem, esboçando e pintando um quadro artístico sobre ela, ao final da obra, veremos duas concepções que representam em síntese a mesma coisa, só que com formas diferentes de serem vislumbradas. É isso que nos faz sermos de fato estrelas com órbitas diferentes, pequenos universos ou microcosmos, cada um com sua diretriz, mesmo que alinhados num só objetivo e fundamento, o crescimento interior. Entretanto o sentido de crescimento só poderá ser atingido, quando compreendemos o sentido de liberdade.

Quando libertamos nossos sentidos da teia ilusória do plano físico. Este é um trajeto para a verdadeira busca de nossa vontade Interior. A Magia da vida está em aprendermos com todos os Ordálias de crescimento e de conhecimento que a vida nos impõe.

Certa vez numa palestra disse que aspectos da vida diária se mesclam sempre com os caminhos Iniciáticos, pois a própria aventura da vida é o maior aprendizado do ser humano. Neste aspecto é importante ser dito que aqueles que seguem seus próprios instintos e inspirações, seguem a sua vontade num trajeto original de compromisso consigo mesmo.

O incentivo a idiossincrasia gera um sentido amplo mais apropriado para o crescimento pois não limita a ação particular do pensamento.

A somatória das experiências que todos passam de suas próprias percepções de suas linhas de ação e pensamento trazem o crescimento para todos.

Na A.:A.: (Astrum Argentum) escola de pensamento criada por Crowley, a introspecção direta do Aspirante em seu sistema filosófico, gerará as introspecções mágickas que engendrarão entendimentos plenos e profundos de muitos aspectos do cotidiano, por uma simples análise dos planos da existência, através do sentir pleno com suas forças e energias, e principalmente pelo respeito a todas as formas de existência.

Com isso, o desvendar desses véus ou neblinas que encobrem a mente, é que geram a originalidade de novos pontos de vista para muitos aspectos da vida, ou seja, é um incentivo pleno a criatividade.

Como Templário reivindico o direito do homem criar o seu próprio templo dentro de si; como Thelemita reivindico o direito inalienável do homem seguir a sua vontade, sua e de nenhum outro; como Universalista reivindico o direito do ser humano de compreender abertamente todos os mistérios que envolvem a sua criação com total consonância com o Universo; como Rosacruz reivindico finalmente a Liberdade plena para a dedicação e a realização da Grande Obra.

Tais reivindicações nada representam para os escravos dos sentidos. Agora, nós estamos nos aproximando do centésimo ano do Aeon de Hórus, isso nos faz meditar sobre a grande diversificação e variedade de pensamentos que surgiram nesse período, mas ao mesmo tempo perceber claramente a grande massa de ceticismo, vítimas em sua maioria das influências de uma outra grande massa subversiva do pensamento humano representado por uma infinidade de seitas sem fundamento ou por outras vezes dogmatizadas ao extremo.

Surpreendem-nos a incapacidade de tais céticos e escravos incapazes de buscar uma compreensão para os ensinamentos daqueles verdadeiros mestres que muitas vezes entregaram-se de corpo e alma para trazer a liberdade plena aos sentidos humanos. A humanidade pouco mudou apesar da meditação desses mais diversos mestres que passaram por aqui deixando suas marcas e ensinamentos. Se somos críticos de alguns deles, deveríamos antes ter a capacidade de mudar algo em nós mesmos.

A humanidade, agora mais uma vez encontrar-se a beira de um novo conflito, é fácil compreender que nada poderá ser mudado se continuarmos a fazer as mesmas coisas que fazemos todos os dias, se não mudarmos nossas atitudes, se não revermos nossos valores, e formas de enxergar o mundo.

Quando se defronta com estes aspectos, existe sempre o medo da pessoa no que tal mudança possa representar ou prejudicar em sua vida. Assim só me resta proclamar e incentivar através da escrita, a pesquisa e introspecção inovativa, que com certeza faria muitos adicionar a nossa causa um material mais novo, mais emocionante, num mundo esplêndido e magnífico da pesquisa iniciática.

Uma introspecção ou conceito podem eventualmente conduzir à equação de um ou mais pontos da vista, apesar de que quando o resultado dessa tal introspecção é revelado a outrem o resultado quase sempre é uma mescla de surpresa e às vezes confusão.

Assim poderia dizer que meu ponto pessoal de vista vem da fidelidade a meus juramentos, minhas aspirações e a minha vontade inflamada para mais e mais buscar a realização plena de meus ideais rumo a Grande Obra. A metodologia para a introspecção deverá ser sempre a Ciência e a experimentação. Amor é a lei. Amor sobre vontade.

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

MAIS DO QUE SIMPLES VEGETARIANISMO

"Comer é o mais universal de todos os rituais humanos. Em qualquer parte do mundo, planejam-se as refeições de acordo com o que é disponível, saboroso, nutritivo, econômico ou apenas porque é fácil de preparar.

Porém, o Bhagavad-gita enfatiza outra consideração - " somos o que comemos ". Ele explica as diversas modalidades de alimentos e como o consumo desses alimentos produz diferentes resultados físicos, psicológicos e espirituais.

Produtos lácteos, cereais, frutas e vegetais aumentam a duração de vida e proporcionam força, saúde, felicidade e satisfação. Carne, peixe e aves são descritos como "alimentos pútridos, decompostos e sujos."

Numerosos estudos científicos provam que o consumo de carne de animais pode ser muitíssimo perigoso para a sua saúde. Ao estudarmos a disciplina Química por exemplo em Termo-química onde se analisam os alimentos, é comprovado que um pedaço de carne demora em média 48 horas para fazer a digestação no organismo, até lá ele realmente apodrece dentro do estômago e neste processo liberam-se substâncias altamente nocivas. Uma pessoa carnívora acaba armazenando no seu organismo substâncias que poderão desencadear uma doença séria como um cancêr no estômago ou intestino.

Também já foi comprovado que os animais pressentem que irão morrer, isto gera uma descarga de adrenalina no seu organismo, a qual contamina automaticamente toda a carne do animal.

Além disso, por envolver a matança de animais inocentes, o consumo de carne levanta sérias questões éticas e psicológicas, pois ao matar os animais para a obtenção de alimento, o homem deixa de ter compaixão para com as criaturas vivas que são como ele mesmo, tornando-se cruel.

Nossa posição no mundo é singular, porque como seres humanos podemos compreender a existência de um supremo criador e proprietário que provê o sustento para todas as formas de vida.

Ao entendermos quanto somos dependentes de Deus para nos alimentarmos, podemos expressar nossa compreensão e gratidão oferecendo ao Senhor o alimento antes de o comer, sendo este ato um componente vital para a auto-realização.

Ao tirarmos a vida de qualquer entidade viva, ficamos sujeitos a uma reação do karma, a lei sutil de ação e reação. Mas Krishna, Deus nos liberta desta reação ao aceitar os alimentos vegetarianos oferecidos a Ele com amor e devoção.

Os membros da Iskcon combinam com grande habilidade ingredientes como arroz, verduras, queijo, iogurte, frutas ,nozes e temperos naturais para criar pratos nutritivos e saborosos, estando livre de karma, este alimento espiritualizado (prasadam) é delicioso e gratificante."


Anadi Devi Dasi no Krishna-Katha http://br.groups.yahoo.com/group/krishna-katha/ http://harekrishna.org.br/modules/smartsection/item.php?itemid=12

DA MORALIDADE À ESPIRITUALIDADE

Não faltam notícias falando sobre corrupção, nepotismo ou infidelidade. Os políticos dizem, “Uma educação ética e moral é a solução”. Mas a maior parte das pessoas já não têm o errado como certo? Eu diria que sim. Elas acham que vão se dar melhor na vida se não seguirem códigos morais. E exortações por parte dos moralistas, ou legislações por parte dos políticos, não parecem inspirar essas pessoas a pensarem diferente.

Viver sob princípios morais é como seguir as leis de trânsito para se ter uma viagem segura e tranqüila. Não se viaja, todavia, com o propósito de se seguir as leis, mas com o propósito de alcançar um destino. Se uma pessoa que está viajando sente que as leis de trânsito atrapalham-no a alcançar seu destino, ela talvez quebre essas leis se acredita que pode ficar impune.

Assim como as leis de trânsito, princípios morais promovem ordem, especialmente no âmbito das relações sociais. Mas a educação moderna não nos ensina sobre o objetivo das transações sociais ou sobre o objetivo da vida em si. Assim, as pessoas talvez sigam valores morais motivadas pela cultura ou tradição, mas abandonam estes valores quando seduzidas por algo ou quando as circunstâncias não forem muito favoráveis. Ainda pior, para se obter as incessantemente glorificadas metas da sociedade moderna de consumo – fama, riqueza, luxo, poder, prazer, prestígio – encoraja-se, e às vezes até mesmo se exige, um comportamento imoral. O Bhagavad-gita (16.8-15) explica que uma visão de mundo baseado no materialismo conduz a pessoa à luxúria insaciável e à cobiça, que, por sua vez, conduzem à execução de atos corruptos. Sendo constantemente bombardeadas com os valores materialistas, as pessoas talvez sintam que, se forem morais, perderão muito e não ganharão nada tangível. Além do mais, nossa educação sem valores religiosos não nos dá nenhum conhecimento acerca de qualquer lei superior a do homem. E a incapacidade de reformação de nosso sistema penal também é bem famosa. O resultado? A moralidade parece ser totalmente dispensável, especialmente para os espertos e poderosos. Em tal contexto, como podemos esperar que um simples conselho inspire as pessoas a serem morais?



Amor: A Base da Moralidade

“Moralidade significa falta de oportunidade”. Este ditado americano expressa bem a abordagem utilitária da moralidade. Os textos Védicos da antiga Índia afirmam que moralidade sem espiritualidade é algo infundado e, portanto, impermanente. Se nós realmente aspiramos por moralidade em nossa sociedade, precisamos introduzir uma educação sistemática centrada em uma meta de vida positiva. Os textos Védicos nos informam de uma meta de vida espiritual que é universal e não-sectária: desenvolver amor puro por Deus. Somos todos seres espirituais destinados a desfrutar de nossa eterna relação amorosa com o supremo ser espiritual todo-atrativo, Deus. Sendo espirituais por natureza, não podemos encontrar verdadeira felicidade em aquisições materiais, mas unicamente em nosso inato amor por Deus. Quanto mais amamos Deus, mais felizes nos tornamos.

O amor por Deus tem por conseqüência o amor por todas as entidades vivas, sendo essas nossos irmãos e irmãs na grande família universal de Deus. Quando realmente amarmos todos os seres, não iremos querer explorá-los ou manipulá-los para a satisfação de nossos desejos egoístas. Ao contrário, nosso amor por Deus irá nos inspirar a nos amarmos e a nos servirmos mutuamente: criando uma cultura de amor e confiança, que traz o comportamento moral consigo. Já a cultura moderna de alienação e desconfiança, em grande contraste, traz a imoralidade consigo.

Práticas espirituais genuínas, mesmo nos primeiros dias de prática, despertam nosso inato sistema de valores. Nós intuitivamente realizamos que Deus é nosso maior bem-querente. Por conseqüência, de forma voluntária e amorosa, escolhemos seguir os princípios morais da vida espiritual, como sugeridos por Deus, sabendo que são o melhor para nós. E à medida que redescobrimos a felicidade de se amar a Deus, tornamo-nos livres da luxúria, da cobiça e das motivações egoístas. Já não mais achamos faltar algo porque somos morais. A moralidade deixa de ser a escolha “difícil mas necessária”, e passa a ser a escolha fácil e natural no nosso caminho de amadurecimento espiritual.



Não se Trata de uma Utopia

Alguns talvez digam, “Isso soa muito bonito, mas não é científico, é utópico”. Em outras palavras, vivemos em uma era em que apenas a visão de mundo prática e científica é considerada lógica e aceitável. Mas seria a visão de mundo Védica realmente ilógica e impraticável?

Nós temos sempre que lembrar que a ciência nunca provou a não-existência de Deus ou da alma; mesmo que muitos cientistas escolham a reducionista abordagem do universo como algo destituído de qualquer realidade espiritual. Mas de uma forma um tanto impressionante, mesmo dentro dessa priori reducionista, alguns cientistas aceitam que há fortes evidências que sugerem a existência de um criador supra-inteligente (Deus) e uma fonte de consciência não-material dentro do corpo (alma).

O amor por Deus só pode parecer utópico até o momento em que não conhecemos a coerente filosofia que traça o caminho para sua aquisição. Através de práticas espirituais genuínas, como orações, meditação e o cantar dos nomes de Deus, qualquer um pode experimentar um grande crescimento espiritual. Uma vez que tenhamos experimentado amor imortal, realizaremos que o amor é definitivamente a meta última da vida.



Moral Superior

Alguém que conheça alguns episódios da vida de Krsna e de Seus devotos talvez levante a objeção: “Mas o próprio Krsna, algumas vezes, age de forma imoral. E igualmente agem seus devotos. Como é possível que a adoração a um Deus imoral ajude-nos a nos tornamos morais?”.

Para entender isso, precisamos, primeiramente, tecer algumas considerações acerca do propósito último de todos os valores morais. Estamos perdidos na escuridão da ignorância do mundo material, sem saber o que devemos fazer e o que não devemos fazer. Como um archote, os valores morais iluminam nosso caminho. Eles nos protegem de nos perdermos pelo caminho, e nos mantêm na direção de nosso objetivo maior – amar a Krsna e retornar a Ele. Mas Krsna é a fonte de toda a moralidade, assim como o sol é a fonte de toda a luz. Porque Ele é plenamente auto-satisfeito, Ele age unicamente por amor a nós, sem nenhuma mácula de egoísmo. Ele age ou para reciprocar nosso amor ou para ajudar-nos a não nos desviarmos de nosso caminho religioso. Ele não precisa de códigos morais porque não tem sequer o menor vestígio de desejos egoístas. Somos nós quem precisamos de códigos morais, exatamente porque estamos cheios de desejos egoístas. Mas se nos tornamos orgulhosos de nossa moralidade e tentamos examinar Krsna a partir dela, isso é como tentar iluminar o sol usando uma tocha. Isto não só é tolice, mas também perda de tempo.

Quando o sol nasce por seu próprio arranjo, sua refulgência revela toda a sua glória. Similarmente, quando Krsna decide se revelar espontaneamente, podemos entender como são imaculadas Suas glórias e moral. Até lá, o melhor a fazermos é seguirmos escrupulosamente os códigos morais para darmos prazer a Ele, até que, estando satisfeito, Ele se revele a nós. E devemos, também, tomar cuidado para não nos tornarmos orgulhosos de nosso comportamento adequado.

Se aceitarmos a posição de Krsna como o Senhor Supremo, podemos entender um pouco sobre como Suas atividade são morais. Krsna, por exemplo, rouba manteiga das casas das vaqueiras de Vrndavana. Mas como se pode considerá-lO um ladrão quando foi Ele quem criou tudo e portanto é o proprietário de tudo? Ele assume o papel de uma criança para reciprocar o amor maternal de Seus devotos. Seus furtos, executados como a diversão de uma criança travessa, aumentam o apego e afeto de Seus devotos amorosos. Como isso pode ser comparado aos nossos furtos, que têm por conseqüência o sofrimento, a dor e a punição?

De forma similar, Krsna aceita o papel de um belo jovem para reciprocar o amor dos devotos que anseiam por uma relação conjugal com Ele. Seu amor pelas gopis, as jovens vaqueirinhas, não é baseado na beleza de seus corpos, mas na devoção de seus corações. Algumas pessoas alegam que os passatempos de Krsna com as gopis são como as relações luxuriosas entre garotos e garotas comuns. Mas, então, por que grandes santos que renunciaram completamente o amor sexual deste mundo, aceitando-o como insípido e grosseiro, iriam adorar os passatempos de Krsna com as gopis. Mesmo hoje, milhares de pessoas ao redor de todo o mundo estão se livrando dos desejos luxuriosos por cantarem os nomes de Krsna e por adorá-lO. Se Krsna fosse controlado pela luxúria, como seria possível para Ele livrar Seus devotos da mesma?

Na batalha contra os Kauravas, Krsna insta os Pandavas a agirem imoralmente. Mas isso é como uma autoridade instar um policial a exceder o limite de velocidade para que ele prenda bandidos que estão dirigindo acima do limite de velocidade. O policial está (aparentemente) infringindo a lei para servir ao verdadeiro objetivo da lei. Similarmente, os Pandavas quebram valores morais para servirem ao objetivo superior de Krsna: estabelecer leis morais tirando os imorais Kauravas do poder.

Em circunstâncias excepcionais, os devotos de Krsna talvez tenham que agir de forma aparentemente imoral para cumprirem seu dever, que visa o benefício último de todas as entidades vivas. Mas, de forma geral, os devotos seguem códigos morais como uma oferenda devocional a Krsna. De fato, sem devoção, nós não teríamos a força interior necessária para manter por toda a vida os valores morais que aceitamos.

Nós temos que ser cautelosos ao tentarmos entender as ações de Krsna, que estão acima da moralidade. De outra forma, nós podemos entendê-lO errado e rejeitar Seu amor, condenando-nos, assim, a ficarmos longe da verdadeira moral e a sofrermos as reações karmicas provenientes de nossas compreensões equivocadas.

Se queremos ser morais de forma constante, exortações vazias e uma legislação ineficaz não bastam. Enquanto se incentivar às pessoas a conquistarem metas materiais, elas verão a moralidade como algo imprático ou até mesmo indesejável. Apenas quando tomarem o amor por Deus como a meta da vida é que a moralidade se tornará desejável e coerente. Portanto, em um nível sociológico, temos que introduzir a prática e a educação espiritual genuína, que conduzirá as pessoas ao amor por Deus e a objetivos interiores. E, em um nível individual, reconhecer a base espiritual da moralidade é algo muito motivador. Essa consciência permite-nos agir livre da necessidade de aprovação de outros, da apatia ou da indignação por ser o único a agir corretamente. Em um tecido cancerígeno, uma célula saudável pode ativar o processo de cura das demais. Similarmente, quando o câncer da imoralidade aflige a sociedade moderna, cada um de nós pode, por conduzir sua própria vida de forma espiritual e íntegra, ativar o processo de cura da sociedade.

Por Chaitanya Charana Dasa

http://harekrishna.org.br

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Da Biblioteca para a Fogueira

Razões políticas, religiosas e morais têm levado os livros à destruição desde sua origem, na Mesopotâmia, até os dias atuais, como no saque à Biblioteca de Bagdá

Por José Castello


Livros são potencialmente perigosos e, por isso, devem ser destruídos. A repulsiva idéia, que o escritor italiano Umberto Eco desenvolveu, de forma impecável, em seu popular romance O nome da rosa, de 1981, é na verdade muito antiga. Surgiu com os próprios livros, que aparecem pela primeira vez, feitos em argila, na Suméria, Mesopotâmia, onde é hoje o sul do Iraque. Guerras sucessivas os destruíram - perto de 100 mil deles, estimam os historiadores. Ainda assim, expedições arqueológicas desenterraram tabletas de argila que datam dessa época. Desde esses tempos remotos, o livro – em suas primeiras formas, tabletas, depois papiros, pergaminhos – está, sempre, sob ameaça.

A saga dessas agressões é relatada em História universal da destruição dos livros, do escritor venezuelano Fernando Báez. “Os que queimam livros acabam queimando homens”, escreveu o poeta Heinrich Heine. A história prova que sim. Báez participou da comissão da Unesco que, em março de 2003, visitou o Iraque depois da invasão americana, para investigar a devastação da Biblioteca Nacional de Bagdá. Ela sofreu dois ataques com bombas e mísseis, seguidos de dois violentos saques. Todo o acervo desapareceu. Tabletas de argila dos sumérios, de 5.300 anos, foram roubadas das vitrines.

“Mas a destruição da Biblioteca Nacional não teve a repercussão mundial da pilhagem do Museu Arqueológico de Bagdá”, Báez lamenta. Em um café da capital, a poucas quadras da biblioteca, ele ouviu o desabafo de um professor iraquiano. “Nossa memória já não existe.” A destruição de livros vem de muito longe. Em 1975, arqueólogos escavaram, a 55 km a sudoeste de Alepo, na Síria, os restos de um antigo palácio. O que encontraram? Uma biblioteca enterrada, com um acervo de 15 mil tabletas. A destruição foi conseqüência de um ataque militar inimigo, a respeito do qual os historiadores, ainda hoje, se encontram divididos; uns o atribuem ao rei acadiano Naramsin, outros ao rei Sargão. Três mil anos antes de Cristo, livros já eram dizimados pela guerra.

A devastação continuou, por volta de 2000 a.C., em uma região governada pelo rei Hamurabi, que é, hoje, o sul de Bagdá. Em 689 a.C., as tropas de Senaquerib arrasaram a Babiblônia. Seu neto, o soberano assírio Assurbanipal, o primeiro grande colecionador de livros do mundo antigo, fundou, em Ninive, outra esplêndida biblioteca, arrasada ela também décadas depois. De seus restos, no século XIX, arqueólogos desencavaram mais de 20 mil tabletas, hoje guardadas no Museu Britânico. No início do século XX, arqueólogos desenterraram na antiga Hattusa, a capital dos hititas, mais de 10 mil tabletas escritas, em pelo menos oito línguas diferentes. Também a biblioteca do Ramesseum, o templo que Ramsés II construiu em Tebas para lhe servir de túmulo, desapareceu com seus rolos de papiros esotéricos.

Depois de Ramsés II, o faraó monoteísta Akhnatón mandou queimar milhares de papiros, porque eles falavam de espectros e demiurgos. A destruição de livros continuou na Grécia Antiga. Estima-se que 75de toda a literatura, filosofia e ciência antiga se perderam. Das 120 obras incluídas no catálogo de Sófocles, hoje só temos a versão integral de sete, e um monte de fragmentos. “O horror é ainda maior”, lembra Báez. “Todos os pré-socráticos e todos os sofistas estão em fragmentos.” É a história em pedaços. Um dos momentos mais brutais foi o da destruição da Biblioteca de Alexandria, com um acervo que se aproximava do milhão de livros. Durante a metade de um ano, papiros contendo textos de Hesíodo, Platão, Górgias e Safo, entre tantos outros autores, foram usados para acender o fogo dos banhos públicos da cidade.

Centenas de obras da biblioteca de Aristóteles desapareceram quando da morte repentina de Alexandre Magno, de quem ele foi tutor. O fato mais grave é a perda do segundo livro de sua Poética, dedicado ao estudo da comédia. Em O nome da rosa, Umberto Eco propõe a versão de que ele foi destruído progressivamente pela Igreja Católica, para conter a influência do humor. Báez suspeita que a Poética tenha sido, na verdade, destruída pelo desleixo. Um dos momentos maiores da história de Israel é a destruição das Tábuas da Lei. O Êxodo diz que foi o próprio Moisés quem, em um acesso de cólera, as destruiu. A descoberta, em 1947, por jovens beduínos, dos célebres Manuscritos do Mar Morto, revelou a primeira coleção conhecida de livros do Antigo Testamento.

Até hoje eles provocam a polêmica, o que leva Báez a concluir que “os teólogos não parecem preparados para admitir a existência de Cristo para além da fé”. Um Cristo nos livros. A perseguição religiosa é universal. Na China, houve a caça aos textos budistas. Em 1900, em grutas em meio ao deserto de Gobi, foram encontrados milhares de textos sagrados do budismo, muitos em bom estado, mas outros em fragmentos, que lá estiveram adormecidos ao longo de 1500 anos. São Paulo lutou contra o que considerava “livros mágicos”. Em uma visita a Éfeso, levou os magos da cidade a queimarem voluntariamente seus livros, para que não caíssem nas mãos dos cristãos. “O desaparecimento dos escritos dos gnósticos, causado, em grande parte, pela feroz perseguição da Igreja Católica, merece um livro só para si”, Báez comenta.

Vínculo mais direto com a cultura grega clássica, o Império Bizantino preservou os escritos de Platão, Aristóteles, Heródoto e Arquimedes. Lá, nos século II e III, surgiu um novo formato de livro, o códice, mais resistente, feito de pele de cabra, ou de ovelha. Ainda assim, em 1204, quando a Quarta Cruzada chegou a Constantinopla, milhares de manuscritos foram destroçados. O feroz ataque das tropas turcas em 1453 também levou à destruição de milhares de livros. “Houve um momento em que todo o continente europeu ficou literalmente sem bibliotecas”, Báez recorda. Nos séculos V e VI, copiar e ler eram atividades pouco usuais, quase secretas. Se os clássicos gregos sobreviveram em Bizâncio, os clássicos latinos e celtas foram salvos, em grande parte, pelos monges da Irlanda.

Foi Carlos Magno, o rei dos francos, quem, no século VIII, estimulou os bispos a fundar escolas e bibliotecas. Nada disso conteve a destruição. Abelardo – que foi castrado por seu amor proibido por Heloisa – teve a obra queimada pelo papa Inocêncio III. Dante viu o seu Sobre a monarquia virar um monte de cinzas na Lombardia, em 1318. Savonarola queimou também os livros de Dante, mas, um ano depois, a Igreja lançou no fogo todos os seus escritos, sermões, ensaios e panfletos. Um dos momentos mais célebres da história da destruição dos livros envolve a Bíblia de Gutenberg, concluída em 1455.

Dos 180 exemplares impressos, só restam 48 cópias. O descaso a destruiu, mas o próprio Gutenberg, segundo algumas fontes, arruinou alguns exemplares, na esperança de lhes aprimorar a beleza. O horror se disseminou com a perseguição promovida pelo Santo Ofício. Com a excomunhão de Martim Lutero, em 1520, a difusão de seus escritos foi proibida pela Igreja. Em 1542, o papa Paulo III constituiu a Congregação da Inquisição. Seu sucessor, Paulo IV, criou o temido Index, lista de livros proibidos. Na Espanha, a ascensão de Felipe II fortaleceu a censura católica. Também na França, Carlos IX passou a destruir, pelo fogo, livros perigosos. A perseguição a astrólogos, alquimistas e poetas atingiu o profeta Nostradamus. Seu livro mais importante, as Centúrias, de 1555, “tem sido sistematicamente destruído desde seu aparecimento”, lembra Báez. Da primeira edição, só restam hoje dois exemplares.

A guerra sempre foi inimiga dos livros. No século XV, uma guerra civil no Japão acabou com todas as bibliotecas de Kioto. Em 1527, o exército de Carlo V, ao conquistar Roma, destruiu muitas bibliotecas. Na Guerra de Secessão dos Estados Unidos, muitos livros desapareceram. Quando tomaram o Canadá em 1813, os soldados americanos queimaram a Biblioteca Legislativa. Como vingança, os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso Americano. A destruição de livros é, em grande parte, fruto da hostilidade contra o pensamento. “A França foi o berço da liberdade européia porque também foi o berço da censura”, lembra Báez. As Cartas filosóficas, de Voltaire, provocaram a ira da Igreja; Voltaire foi preso e seu livro queimado.

Do mesmo modo, a publicação da Enciclopédia, em 1759, provocou tanto escândalo que o próprio editor, Le Breton, temendo as retaliações, destruiu vários exemplares. Também os Pensamentos filosóficos, de Diderot, foram incinerados por ordem do Parlamento. Na Revolução Francesa, a lei do terror estimulou o ataque a bibliotecas. Só em Paris, mais de 8 mil livros foram queimados. Também durante a Comuna de Paris, em 1871, bibliotecas foram destruídas. A emancipação da América Latina também foi marcada por saques e destruições. Na Venezuela, o Santo Ofício mandou queimar uma coleção que Simon Bolívar conseguiu reunir para o acervo de uma biblioteca pública. Durante a Guerra Civil Espanhola, a Biblioteca Nacional, em Madri, foi bombardeada. “Somente graças à abnegação dos bibliotecários, centenas de livros e manuscritos se salvaram”, observa Báez.

Com a chegada de Franco ao poder, iniciou-se um movimento de “depuração” das bibliotecas, perseguindo “idéias que possam resultar nocivas à sociedade”, de acordo com um decreto oficial. A ascensão dos nazistas gerou um verdadeiro “bibliocausto”, Báez define. Ao ser designado chanceler em 1933, Hitler, que era um pintor frustrado, iniciou uma feroz perseguição à cultura. Leitor voraz, ele, ao morrer, num exemplar dos ensaios de Ernst Schertel, deixou uma frase sublinhada: “Quem não carrega dentro de si as sementes do demoníaco nunca fará nascer um novo mundo”. A expansão soviética destruiu muitas bibliotecas. Em 1944, dezenas delas foram arrasadas em Budapeste, na Hungria. No ano seguinte, na Romênia, trezentos mil livros desapareceram.

Também quando o regime do Khmer Vermelho triunfou no Camboja, em 1975, um estranho letreiro foi dependurado na porta da Biblioteca Nacional: “Não há livros. O governo do povo triunfou”. Mas a destruição não tem ideologia. Quando subiu ao poder, no Chile, o ditador Augusto Pinochet atacou a sede da Editora Quimantú, destroçando milhares de livros. A Revolução Cultural chinesa, Báez acrescenta, foi uma máquina de destruir livros. Na Universidade de Pequim, todos os livros considerados ofensivos à consciência do povo eram queimados. Mais tarde, o escritor Pa Kin assim descreveu o clima de histeria que dominou o país e pelo qual ele mesmo se deixou arrastar: “Destruí livros que armazenei durante anos. (...) Eu negava completamente a mim mesmo”.

Em todo o planeta, a destruição se alastrou. No dia 30 de agosto de 1980, a mando da ditadura a Argentina, vários caminhões descarregaram 1,5 milhão de volumes em um terreno abandonado. Eles foram borrifados com gasolina e queimados. Mais recentemente, os talibãs destruíram na capital Cabul todos os livros contrários à sua fé. No conflito entre judeus e palestinos, milhares de livros, de ambos os lados, já foram perdidos. Em Cuba, em dezembro de 1999, em um estacionamento de uma colina de Havana, centenas de livros doados pelo governo espanhol foram destruídos. O motivo: entre eles, havia 8 mil exemplares da Declaração dos Direitos Humanos.

Em março de 1997, os bibliotecários da Escola Hertford mandaram destruir 30 mil livros sobre temas homossexuais, que haviam sido doados. Durante oito horas de trabalho, 35 voluntários enterraram os livros. Mas não é só o conservadorismo que promove queima de livros, o pensamento progressista também. Em 1998, na Virginia Ocidental, um grupo chamado Coletivo de Mulheres queimou, em uma imensa fogueira, livros considerados degradantes à condição feminina, entre eles obras de Schopenhauer. No ano de 1994, as tropas russas entraram na Chechênia e arrasaram Grosny. O bombardeio sobre a cidade destruiu uma coleção de dois milhões e setecentos mil livros. Salvaram-se apenas 20 mil livros, guardados nos subterrâneos de um estádio de futebol. Calcula-se que em toda a Chechênia mais de mil bibliotecas e mais de 11 milhões de livros foram dizimados. As ameaças mais atrozes vêm, hoje, do terrorismo.

Recentemente, grupos diversos já manifestaram a intenção de destruir a Biblioteca do Congresso americano e a Biblioteca do Vaticano. O ataque ao World Trade Center, em Nova York, aniquilou arquivos e bibliotecas de economia. Mas, com a criação dos livros-bomba, os livros se tornaram, eles também, efetivamente perigosos. Em dezembro de 2003, Romano Prodi, presidente da Comissão Européia, quase morreu quando abriu um livro-bomba recheado de pólvora. Ainda assim, consola-se Báez, a cada livro destruído, mais aumenta o nosso horror. “Cada livro queimado ilumina o mundo”, sintetizou Ralph W. Emerson. Essa constatação não recupera as bibliotecas perdidas, mas acalenta a esperança de um futuro melhor.

Escritores perseguidos no Brasil e no exterior

Todos conhecem o caso do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, autor do famoso – e perseguido – Os versos satânicos. Em 1989, o líder iraniano, aiatolá Khomeini, condenou Rushdie com uma fatwa. Ofereceu-se um milhão de dólares a quem o matasse. Seus livros passaram a ser queimados em diversos pontos do planeta. A literatura sempre foi alvo de perseguição. Em 1912, o impressor irlandês John Falconer queimou 999 dos mil exemplares da primeira edição de Dublinenses, de James Joyce, porque a linguagem forte dos relatos não o agradou. O mais famoso romance de D. H. Lawrence, O amante de lady Chatterley, teve a primeira edição inteiramente destruída. A acusação de pornografia levou o Departamento de Estado americano a queimar livros do psicanalista Wilhelm Reich.

A primeira edição de A cidade e os cachorros, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 1962, não só foi confiscada pelos militares, mas totalmente queimada. Não é preciso longe. Báez recorda também que Getúlio Vargas mandou queimar 1700 exemplares de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Muitas vezes, no entanto, são os próprios escritores que perseguem seus livros. É célebre a história do tcheco Franz Kafka que, antes de morrer, pediu ao amigo, Max Brod, que queimasse seus manuscritos. Brod o desobedeceu. Ao morrer, também o filósofo romeno E. M. Cioran deixou 34 cadernos de mil páginas com uma indicação precisa: “Destruir”. Sarcástico, Borges lembrou, um dia, que, quando um escritor quer dar sumiço em seus livros, faz o serviço pessoalmente.

Quando se refugiou em Charleville, o poeta Arthur Rimbaud, por exemplo, queimou ele mesmo muitos de seus manuscritos. Até Platão queimou livros, Báez nos lembra. Na juventude, quando conheceu Sócrates, Platão destruiu todos os seus poemas. Muito mais tarde, queimou os tratados do filósofo Demócrito para esconder semelhanças entre as idéias do inimigo e as suas. “É possível que Platão queimasse obras? Pois bem, ele queimou”, Báez afirma, perplexo com sua própria afirmação. Ele recorda ainda que, em 1910, os futuristas escreveram um manifesto em que pregavam o fim de todas as bibliotecas. Um escritor genial como Vladimir Nabokov queimou um exemplar do Quixote em pleno Memorial Hall, diante de seiscentos alunos, com o argumento de que o livro não prestava.

E Martin Heidegger entregou livros de seu maior inimigo, o filósofo Edmund Husserl, para que estudantes de filosofia os levassem ao fogo. E os amigos? Quando Gustave Flaubert leu para amigos, pela primeira vez, seu estranho As tentações de Santo Antão, eles sugeriram que ele o queimasse imediatamente e o esquecesse. Por sorte, dessa vez foi Flaubert quem não os atendeu. Em Crônica pessoal, Joseph Conrad conta que seu próprio pai queimou alguns de seus manuscritos. Isaac Newton dedicou sua vida a censurar e perseguir os trabalhos do astrônomo John Flamsteed. Newton plagiou as idéias de Flamsteed sobre as estrelas – e depois, temendo ser descoberto, conseguiu o confisco dos trezentos exemplares de livro que continha esse plágio e os queimou.

A busca da pureza e a luta contra a imoralidade têm sido fortes argumentos para a destruição de livros. Em 1749, Fanny Hill, romance de John Cleland, que relata as aventuras de uma prostituta, foi proibido antes de ser editado. Já no século XX, a corte de Westminster, na Inglaterra, decretou a eliminação de todos os exemplares do Satyricon, de Petrônio, obra-prima da literatura latina, porque o livro trata da liberdade sexual. No século XIX, a grande obra de Charles Darwin, A origem das espécies, de 1859, teve muitos de seus exemplares queimados. Até hoje, nas regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o livro é perseguido como perigoso.

Livros censurados

DA MONARQUIA Dante Alighieri

CENTÚRIAS Michel Nostradamus

CARTAS FILOSÓFICAS Voltaire

PENSAMENTOS FILOSÓFICOS Denis Diderot

OS VERSOS SATÂNICOS Salman Rushdie

DUBLINENSES James Joyce

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY D. H. Lawrence

A CIDADE E OS CACHORROS Mario Vargas Llosa

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS Jorge Amado

SATYRICON Petrônio

A ORIGEM DAS ESPÉCIES Charles Darwin

Jean Theophile Desaguliers

Visa-se aqui dar uma idéia acerca da vida e da obra de Jean Théophile Desaguliers, mais conhecido na Inglaterra como John Theophilus. Desaguliers ocupa uma posição impar quando da fundação da Grande Loja de Londres, por não se identificar com alguns nobres empoados de então nem com os supersticiosos maçons plebeus dos primórdios que confundiam superstição com esoterismo e misticismo, fato tão comum no Brasil de hoje.

Desaguliers, além de possuir uma sólida formação científica, como se verá a seguir, era um homem também pragmático, preocupado em resolver os problemas concretos de seu tempo, extrapolando na preocupação com questões metafísicas. Homem de escol, é considerado um dos Pais Fundadores da moderna maçonaria.

II A Saga Huguenote de La Rochelle

O nosso personagem é proveniente de uma família huguenote. Como se sabe, huguenotes são protestantes franceses que se desenvolveram durante a Reforma do século XVI. Sofreram penosas perseguições já que a fé que os guiava, durante muitos anos, esteve baseada nas idéias de Calvino. Esses protestantes fundaram em 1559 uma igreja na França que grassou como um rastilho de pólvora. Emergiram vitoriosos sobre as forças católicas durante as Guerras Religiosas (1562-98) e, pelo Edito de Nantes, receberam uma certa liberdade religiosa e política.

Desaguliers nasceu em 12 de março de 1683 em Aytré, um subúrbio de La Rochelle na França. Era filho do pastor huguenote Jean Desaguliers da comunidade protestante de La Rochelle.

Os huguenotes franceses viviam por esta época momentos difíceis. Desde o começo do século XVI, La Rochelle era uma cidade muito próspera que lucrava com o comércio, principalmente com o da América. Tornou-se um centro calvinista extremamente ativo. Em 1571, houve um importante sínodo protestante que adotou, sobre a inspiração de Théodore de Bèze, a Confissão de La Rochelle. Em 1573, Henrique III, ainda como duque de Anjou, cercou a cidade por mais de seis meses. Os protestantes franceses formavam então um formidável grupo de pressão econômica, política e militar, sustentados pelos ingleses, alemães, holandeses e genebrinos. Não eram camponeses, mas sim citadinos nobres e burgueses.

Na segunda metade do século XVI, os ataques católicos aos protestantes fazem-se cada vez mais virulentos, culminando com o massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, no qual foram mortos mais de 30.000 pessoas. Os católicos franceses, reagrupados no partido da Santa Liga, entre 1576 e 1584, não cessaram de fustigar os protestantes e os reis considerados muito hesitantes. Na esperança de legalizar na França a existência de uma igreja reformada e de apaziguar os ânimos, o rei Henrique IV (1553-1610), soberano então protestante, convertido ao catolicismo uma semana antes do massacre de São Bartolomeu e reconvertido ao protestantismo em 1576, assina em 13 de abril o Edito de Nantes.

O Edito de Nanates concedia aos protestantes concessões consideráveis, notadamente a liberdade de consciência; a liberdade de culto nos domicílios senhoriais, em todas as cidades onde o culto reformado existisse de fato; uma anistia geral para todos os “crimes” cometidos no passado e a outorga de 150 lugares de refúgio, 66 cidades ou castelos onde a guarnição era mantida pelo rei. São exemplos significativos as cidades de Montauban e La Rochelle que pertenciam então aos protestantes desde a primeira guerra de religião de 1562. La Rochelle tornou-se a mais forte praça de guerra cedida aos protestantes pelo Edito de Nantes.

O Edito de Nantes era mais uma constituição que um edito, pois, efetivamente, era a constituição político-religiosa de uma minoria tornada independente dentro do país, ou seja, um Estado dentro do Estado. Tal situação não iria durar muito, já que os ódios represados logo explodiriam. Em 1627, o cardeal Richelieu, a propósito do pacto entre La Rochelle e a Inglaterra, que já declarara guerra à França, iniciou a destruição daquela praça de guerra protestante em solo francês. O cardeal conduziu pessoalmente o cerco à cidade rebelde, construindo em terra firme, 12 km de linhas contínuas de fortificações e, no mar, a construção de um dique destinado a impedir a chegada de suprimentos aos sitiados pela frota inglesa. Os rochelenses, comandados pelo almirante Jean Guitton, prefeito da cidade, resistiram durante quinze meses até que a fome forçou-os à rendição em 28 de outubro de 1628. As fortificações da cidade foram arrasadas e as franquias municipais suprimidas. A partir de então, La Rochelle entrou em declínio sensível.

Luiz XIV, persuadido pelo fato de que os protestantes, desde então, haviam desaparecido do solo francês, seja pela fuga, pela conversão ou pelo massacre, resolveu abolir o Edito de Nantes pela sua inutilidade e falta de objetivo. Pensou ter criado, assim, a ferro e fogo, a unidade religiosa do país. Em 18 de outubro de 1685, outorgou o edito de Fontainebleau que revogou o Edito de Nantes. Por tal edito, os protestantes perderam “ipso facto” toda liberdade de culto e toda garantia de segurança, ou seja, seriam extirpado, seu “status” legal. Tornaram-se, portanto, foras-da-lei; suas propriedades foram confiscadas e privados de todos os seus direitos pessoais. A guerra civil irrompeu como guerra clandestina, com a fuga para os países protestantes de centenas de clérigos, que se auto-exilaram, pois foi-lhes dado um prazo de 14 dias para deixar a França, caso contrário sofreriam a pena de morte. Suas igrejas destruídas, foram deixadas em ruínas. Tiveram, por conseguinte, que abandonar ex abrupto não somente seus bens, também de seus filhos, sendo-lhes proibido levá-los para fora da França, para que se se reeducassem na fé romana. Mais de 400.000 huguenotes se refugiaram, principalmente na Holanda e na Prússia, países que se gratificaram em receber tais recursos humanos estratégicos, em sua imensa maioria, comerciantes, empresários e letrados. A América inglesa recebeu também um contigente respeitável de tais quadros que desfalcaram a elite francesa.

III O Exílio Londrino e a Vida Acadêmica

O pai do nosso Desaguliers, o pastor Jean foge para Guernsey por causa da Revogação, levando consigo o pequeno Jean Théophile, com dois anos, escondido dentro de um tonel. Nove anos depois se estabeleceram em Londres. Convém aqui especular sobre como tais fatos trágicos, vividos pelos huguenotes e pela família Desaguliers em particular, marcaram a mente do nosso personagem, influenciando-o na busca da paz e da fraternidade e na sede por conhecimento científico e tecnológico que o perseguiram durante toda sua vida. Nunca confundiu esoterismo com superstição, como é tão comum no Brasil.

Instalado em Londres, Jean Desaguliers pai integrou-se rapidamente ao clero anglicano e tornou-se pastor numa igreja na Swallow Street (rua da Andorinha), templo favorito dos imigrados franceses. Criou, concomitantemente, uma escola em Islington, freqüentada pelos filhos de outros refugiados, dentre eles vários nobres. Seria aí, que o jovem Jean Théophile, educado pelo seu pai até os 16 anos, matriculou-se e recebeu um estudo de elite que o tornou apto a ingressar na mais prestigiosa universidade inglesa: o Christ Church de Oxford. Ali estudou com o Dr. John Keill, professor de astronomia já célebre pelas suas teorias de filosofia experimental, premissas das ciências modernas, e autor de duas obras: uma Introductio ad veram physicam seu lectiones physicae habitae in schola naturalis philosophiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à Filosofia Natural ou Conferências Filosóficas lidas na Universidade de Oxford) e uma Introductio ad veram astronomiam seu lectiones astronomicae habitae in schola astronomiae Academia Oxoniensis (Uma Introdução à verdadeira astronomia ou Conferências de Astronomia lidas na Escola de Astronomia da Universidade de Oxford).

Jean T. Desaguliers bacharelou-se em 1709 e recebeu o diaconado do bispo de Londres em 7 de junho de 1710. Neste mesmo ano, diplomou-se, tendo, em seguida, obtido um mestrado em filosofia e letras em 1712, sucedendo ao Dr. Keill na cadeira de filosofia experimental no Hert Hall de Oxford. Neste meio tempo, em Shadwell, casou-se com Joanna, a filha de William Pudsley e um ano mais tarde mudou-se para Westminster onde se tornou o primeiro mestre de conferências em ciências. Vem desta época a sua amizade com Sir Isaac Newton (1642-1727) que se tornou o padrinho de um de seus dois filhos. Em 16 de março de 1718 obtém o título de Doutor em Direito Civil por Oxford, tendo, antes, recebido as ordens sacerdotais em 8 de dezembro de 1717 do bispo de Ely, sendo presenteado, pelo Lorde Chanceler, com a cúria de Bridgeham no Norfolk, que dirigiu até março de 1726 quando a trocou para viver em Little Warley no Essex.

No século XVIII, não era usual para um clérigo operar em dois lugares simultâneamente. Assim, em 28 de agosto de 1719, tornou-se capelão do duque de Chandos que lhe ofereceu a paróquia de Whitchurch no Middlesex. Nesse ínterim, conservou sua residência em Londres onde deu aulas até a sua morte em 1744.

Paralelamente às suas pesquisas em física, traduziu para o inglês uma obra de Nicolas Gauger intitulada Mécanique du feu que trata da concepção e da construção das chaminés. Tal obra teve como título em inglês: Treatise on the Construction of Chimneys, publicada em 1716. Tornou-se também um especialista em ventilação, chegando mesmo a superintender a construção de um sistema de ventilação na Casa dos Comuns. Neste mesmo ano publica seus estudos de física experimental sob o título de Lectures of Experimental Philosophy (Lições de Filosofia Experimental) reeditadas posteriormente em 1719. Vêm, desta época, seus estudos sobre a máquina a vapor: aplicou a válvula de segurança, inventada pelo huguenote Dennis Papin, que tinha estudado em Paris com o holandês Christiann Huygens, à máquina inventada pelo mecânico inglês Thomas Savery que utilizava a tensão do vapor d’água como força motriz para bombear água nas minas de carvão. Tal máquina foi melhorada por James Watt tornando-se a primeira máquina a vapor, fator propulsor da Revolução Industrial. Releva-se aqui que Desaguliers não só participou ativamente da corrente científica do seu tempo mas também comungou da idéia de que a tecnologia deveria servir à humanidade, libertando-a do trabalho braçal escravizante.

Sua crescente reputação de sábio facultou-lhe o ingresso em diversas sociedades científicas. Em 29 de julho de 1714, ingressou como Membro, na Royal Society de Londres, fundada em 1660, chegando mesmo a se tornar Demonstrador e Curador da referida Sociedade. Participou também da Gentlemen’s Society em Spalding no Lincolnshire em 1724, uma sociedade literária e de antiquários. Era ainda Membro Correspondente da Academia Francesa de Ciências. Desaguliers consagrou-se, então com Newton, do qual se tornou assistente, a diversas pesquisas no terreno da física experimental, notadamente aquela que consistiu em se deixar cair do topo da Catedral de São Paulo, globos de vidro a uma altura de 105,72 m, fato que lhe permitiu escrever um artigo intitulado: “An Account of some experiments made in the 27th. Day of April, 1719, to find how much the resistence of the air retards falling bodies (Relatório sobre diversas experiências tentadas no dia 27 de abril de 1719 com o propósito de avaliar em que medida a resistência do ar retarda a queda dos corpos), publicado nos Philosophical Transactions da Royal Society. Desaguliers ajudou ainda Isaac Newton, na redação dos Corrigenda e dos Addenda, acrescida por ele ao Livro I de seus Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios matemáticos de filosofia natural) já editados em 1687.

De 1730 a 1732, viajou freqüentemente aos Países-Baixos, dando inúmeras conferências pagas a 30 shillings por cabeça, um preço alto para a época. Retornando à Inglaterra entre 1733-1734, uma controvérsia o opõe a Jacques Cassini, considerado o inventor da cartografia topográfica e diretor do Observatório de Paris, sobre o maior problema científico do século XVIII: a determinação da longitude. Como se sabe, a determinação da latitude nunca foi problema desde priscas eras, mas a longitude só foi resolvida no século XVIII por um relojoeiro, contra todos os pareceres dos cartógrafos e astrônomos da época, conforme bem elucidado no opúsculo sobre a matéria de Dava Sobel. O Brasil possui esta dimensão continental pela incapacidade dos nossos antepassados coloniais em determinar com precisão a longitude, fossem eles espanhóis ou portugueses. Cassini sustentava que a determinação do meridiano de Paris poderia ser encontrada, traçando-se uma perpendicular indo de Saint-Malo a Estrasburgo. Tudo isto estava no contexto da polêmica opositora entre os membros da Real Sociedade, conjuntamente aos integrantes do Observatório de Greenwich, fundado em 1675, contra os membros da Academia Real de Ciências de Paris, criada em 1666 e os do Observatório de Paris, fundado em 1667, sobre o melhor meio de determinar-se o exato comprimento e a localização dos arcos do meridiano, dados vitais para a navegação da época.

Desaguliers publicou em seguida, diversas obras: em 1734, A Course of Experimental Philosophy (Curso de Filosofia Experimental) em dois volumes e, em 1735, uma edição dos Elements of Catoptrics and Dioptrics (Elementos de Catóptrica e Dióptrica) de David Gregory. Por último, traduz do latim para o inglês, os Mathematical Elements of Natural Philosophy (Elementos Matemáticos de Filosofia Natural) de Gravesandes. Em 1742, recebeu a Medalha de Ouro Copley da Real Sociedade em reconhecimento pelos seus diversos experimentos científicos e tecnológicos, e sua Dissertation of Electricity, publicada no mesmo ano, ganhou o prêmio da Academia de Bordéus. Seu profundo conhecimento científico, apoiado numa intensa mente pragmática, tornou-o, também, um inventor e um consultor de engenharia em diversos projetos. Tanto assim, que deu consultoria em questões de engenharia na reconstrução da ponte de Westminster nos anos que se seguiram a 1738.

Em todos os debates, Desaguliers mostrou-se provido de um grande talento para a vulgarização científica, falando das coisas mais complexas em termos simples e compreensíveis, tanto para os especialistas como para os leigos.

Desaguliers tornou-se mais conhecido pela sua contribuição à evolução da ciência do que por suas obras religiosas como ministro do culto. Sua obra religiosa reduziu-se à publicação de um sermão sobre o arrependimento. Se sua obra religiosa era o ponto fraco de sua vida intelectual, o mesmo não se pode dizer de sua produção, tanto universitária onde mereceu, como vimos, o respeito e a amizade dos homens de ciências e dos grandes de seu tempo, como maçônica, onde se distinguiu de maneira ainda mais marcante.

IV A Vida Maçônica

A data de Iniciação de Desaguliers não pode ser precisada[1], mas deve-se situar antes da primeira assembléia da Grande Loja da Inglaterra em 24 de junho de 1717. Como é notório, este dia inicia o período obediencial, sendo um marco relevante na história da maçonaria universal. Pode-se afirmar, contudo, que Desaguliers foi, conjuntamente a Anderson, membro da Loja Nº 2 que se reunia na Taverna Horn. Existem registros de que teria sido também Venerável da French Lodge do Templo de Salomão em Hemmings Row. Aparece também como Venerável da Lodge of Antiquity, então Loja Nº 1, em 1723. Em 1731, na Lista das Lojas, aparece tanto como membro da Loja Bear & Harrow (atualmente Loja São Jorge & Corner Stone nº 5) quanto como integrante da Loja University nº 74 que abateu colunas em 1736.

Desaguliers apresentou sua candidatura ao grão-mestrado em 1717, mas somente foi eleito para este posto em 24 de junho de 1719 numa loja reunida na Taberna do Ganso e da Grelha, conforme foi descrito por Anderson na segunda edição (1738) de suas Constituições[2]. É o terceiro grão-mestre da ordem e o último plebeu a ocupar tal posição. Após a administração de Desaguliers, a função de Grão-Mestre torna-se apanágio de membros da família real inglesa ou da nobreza, apresentando-se, desde então, como essencialmente honorífica. Vale aqui recordar a cronologia da sucessão do grão-mestrado: i) Anthony Sayer (1717-1718), ii) George Payne (1718-1719), iii) o nosso Desaguliers (1719-1720), iv) a reeleição de George Payne (1720-1721), v) o primeiro nobre: John, duque de Montangu (1721-1722) e vi) Philip, duque de Wharton, um nobre lascivo cuja biografia os nossos Irmãos ingleses comentam pouco. Quando aqui chegarem informações acerca da sua notória participação no Hells Fire Club, escandalizar-se-ão 98% dos maçons brasileiros. Os ingleses morrem de vergonha da atuação do duque de Wharton e escondem com unhas e dentes as informações sobre o Hells Fire Club. Como o referido duque de Wharton era um doidivanas, seria tarefa do grão-mestre adjunto dirigir os trabalhos da ordem e o nosso Desaguliers, ainda bem, foi nomeado três vezes para tal posto: em 1722, pelo femeeiro Wharton; em 1724, pelo conde de Dalkeith; e em 1725, por Lorde Paisley.

Os maçons ingleses daquele tempo eram como os brasileiros de hoje: demonstravam pouco apreço para com os documentos e arquivos da ordem. Deve-se a Desaguliers a conservação, depois de 1723, da maior parte dos documentos históricos da obediência, notadamente as atas das reuniões dos primórdios da ordem. Ainda como campeão da ordem, da regularidade e do protocolo, introduziu inúmeras regras concernentes aos seguintes aspectos: traje maçônico, alfaias, jóias, festas na ordem, hierarquia dos brindes nos banquetes e outros costumes que vieram a fazer parte integrante da nova maçonaria especulativa que estava em gestação. Sob sua administração, numerosos antigos discípulos, que tinham negligenciado seus deveres maçônicos, retomaram seus trabalhos em loja e muitos nobres são iniciados. Importante é salientar que, no período em que Desaguliers exerceu o grão-mestrado, seja como titular ou adjunto, vários irmãos eram também membros da Real Sociedade, ou seja eram homens de escol não só pela sua posição social como também pela intelectual.

Desaguliers sentiu na própria pele o significado da intolerância, pautou, pois, a sua atuação na ordem então nascente para direcioná-la no sentido da tolerância e da fraternidade universais. Criou assim a caixa de auxílio mútuo maçônico e os fundos de beneficência da Grande Loja da Inglaterra. A idéia de tolerância, cuja primeira definição sistematizada se encontra no Tratado Teológico-político (1670) de Spinoza, funda a noção de igualdade entre indivíduos no seio de uma sociedade pluralista sobre o plano religioso. Foi, mais tarde, estendida por John Locke que, nas suas Cartas sobre a Tolerância e sobretudo no Segundo Tratado sobre o Governo, propõe o sistema parlamentar representativo de governo como meio de barrar o arbítrio do poder do Príncipe, outorgando direitos aos indivíduos, legitimando assim a consecução dos interesses individuais. Antes de Locke na Inglaterra, quando um grupo político-dinástico vencia outro, matava, exilava, confiscava os bens dos adversários, numa selvageria digna de uma cubata africana. A elite inglesa tomou consciência de que tal procedimento político gerava insegurança, transformando o mundo político numa arena hobbesiana (a luta de todos contra todos) extremamente instável e perigosa. Locke então propõe carrear todo o conflito político para um caldeirão, chamado parlamento, onde os que detivessem a maioria, formariam o governo e os minoritários cuidariam da oposição. Com o correr do tempo, o governo sofreria a erosão natural do poder, cabendo a vez à oposição formar o novo governo. Ao invés da morte e do confisco dos bens, haveria a queda do gabinete, favorecendo assim a rotação de elites no poder. Mecanismo institucional muito mais civilizado e inteligente do que resolver o conflito político na base da peixeira na barriga do oponente.

Após 1723, Desaguliers ajuda Anderson a redigir as famosas Constituições que se tornaram o farol básico da maçonaria simbólica. Anderson faz uma síntese dos antigos deveres misturando-os com outros tirados das diversas tradições, especialmente os documentos góticos, queimando o resto, fato que escandalizou as velhas lojas-mães de Londres, York e Westminster. As Constituições de Anderson de 1723 é o divisor de águas entre os maçons operativos e especulativos. No mesmo ano, sobre a inspiração de Desaguliers, a Bíblia, qualificada daí por diante, de Livro da Lei, substitui as Antigas Obrigações sobre as quais os juramentos eram prestados. É ainda atribuído a Desaguliers, a redação do livro Charges of a Free-Mason (Obrigações de um Maçom) e que tem permanecido substancialmente o mesmo desde a edição de 1723.

No ofício de grão-mestre adjunto, Desaguliers contribui ativamente para a redação dos primeiros rituais. Introduziu nestes a idéia de que os maçons operativos faziam do trabalho: como um ato nobre, um dom de Deus, e não, como se pensava até então, como uma maldição, um castigo devido à expulsão do paraíso, como está no Gêneses (4:17-19). Por falar em Deus, a expressão GADU, apesar de ter sido introduzida por Anderson, tem também o dedo de Desaguliers, pois o referido conceito – GADU – facilita a introdução do deísmo na maçonaria nascente, substituindo o teísmo católico, tão bem professado pelos maçons operativos, reforçando assim o anglicanismo que era um pouco mais aberto à tolerância do que a religião de Roma. Convém ainda salientar que o deísmo é mais professado entre os cientistas crentes do que o teísmo, o Deus de Leibniz, de Spinoza, de Einstein, dos cientistas enfim, não é o mesmo Deus de Abraão, Isaac e Jacó. E Desaguliers como cientista...

A partir de 1670, muitos rabinos de origem polonesa estabeleceram-se em Londres e Desaguliers manteve contato com eles ou com seus sucessores para que se juntassem à então maçonaria nascente. No dizer de Robert Ambelain[3], foi devido a esses rabinos que Desaguliers hauriu a história de um novo personagem maçônico: o mito de Hiram. Inspirados pela cabala prática, ou seja, pela magia, a história de um novo personagem - Hiram – arquiteto do templo de Salomão adentra ao ritual maçônico do terceiro grau[4]. Hiram acossado por três maus companheiros que desejavam roubar seus segredos, é morto, enterrado, encontrado e depois ressuscitado. A interpretação simbólica desta morte em loja, aplicada ao sentido moral e espiritual, enquanto o candidato toma o lugar de Hiram, faz definitivamente a ordem sair do domínio operativo e ingressar compulsoriamente no domínio especulativo. Este ritual, oposto ao ensino bíblico e à interdição de tocar os cadáveres, extremamente surpreendente para os maçons do século XVIII, encontra de fato sua justificação pela envergadura do espírito de Desaguliers, que desejava assim legar à maçonaria uma dimensão que ultrapassasse um cristianismo tacanho e etnocêntrico da sua época. É preciso ver aqui um símbolo: as profundas mudanças que Desaguliers aporta ao relato da cabala dão a este ritual uma profundidade que supera a tristeza e o macabro. Desde então, para os maçons, a morte não é mais um fim terrível, mas somente uma passagem, e a iniciação, que é de fato este ritual de passagem, termina necessariamente por uma regenerescência do indivíduo. Por este ritual, Desaguliers oferece aos maçons que se iniciam, uma mensagem de esperança: pela força do trabalho e da virtude, o maçom ganha sua própria purificação.

Desaguliers sempre foi um viajor contumaz. Convidado a ir à Escócia como homem de ciências e engenheiro, aproveita a ocasião para explicar o novo ritual simbólico aos membros da Loja St. Mary’s Chapel. Faz uma demonstração prática iniciando o lorde prefeito de Edimburgo e todos os membros do seu conselho. A maçonaria escocesa, então operativa, ansiava por tornar-se verdadeiramente especulativa nesta ocasião. De volta à Inglaterra em 1726, inicia a Lorde Kingsdale na loja que se reunia no Swan & Rummer, na presença do Grão-Mestre, conde de Inchquin. Em 1731, viajando pelos Países Baixos, preside, como Venerável Mestre de uma Loja de Ocasião, nos salões do embaixador inglês na Haia - Lorde Philip Chesterfield – uma sessão no curso da qual inicia Francisco, duque de Lorena, futuro duque de Toscana, imperador do Santo Império Germânico e esposo de Maria Teresa, imperatriz da Áustria. Pode-se afirmar que o nosso personagem introduziu a maçonaria nos Países Baixos. Voltando, em seguida à Inglaterra, é julgado o mais apto a iniciar o príncipe de Gales - Frederik Lewis[5] - tendo sido o primeiro de uma longa linhagem de príncipes da Casa Real de Hanover que se tornaram maçons - e o faz, no curso de uma sessão organizada no Palácio de Kew em 1732. Ainda sobre sua estreita relação com a realeza, foi nomeado Capelão para o mesmo príncipe de Gales, dava conferências para a família do rei George II e era um dos favoritos da rainha Carolina. Entre 1734 e 36, voltamos a encontrá-lo em Paris, onde pronunciou diversas conferências científicas, sempre ao lado de lorde Chesterfield. Inicia, na loja De Bussy, a Luiz Phélipeaux, conde de Saint-Florentin e duque de Lavrillière. Ajuda a fundar, ainda em Paris em 1735, a famosa loja Louis d’Argent. Em 1738 foi nomeado capelão do Regimento de Dragões Bowles.

Desaguliers, como muito outros homens, tinha uma dupla personalidade. Reservado e austero em público, ele se transformava no interior das reuniões maçônicas. No interior de uma loja, quando as portas ficavam bem guardadas, liberava seu espírito, tornava-se gozador, cantarolava com vivacidade os hinos maçônicos e, até mesmo, apreciava uma alegre libação que muitas vezes, acentuava a sua famosa gota, forçando-o a andar de bengala. Dizia-se mesmo que despendia bastante dinheiro nas suas mini-farras com os irmãos, o que provavelmente era verdadeiro, pois viajava muito, como vimos acima, e suas numerosas atividades deviam render-lhe somas apreciáveis.

As atas da Grande Loja demonstram cabalmente que até quase o final de sua vida participou ativamente das suas deliberações. Sua última presença em loja ocorreu em 8 de fevereiro de 1742. Faleceu em 29 de fevereiro de 1744, com 61 anos e está enterrado na Capela Real do célebre Hotel Savoy de Londres. Seu filho primogênito, Alexander, tornou-se, como ele, ministro do culto. Thomas, seu segundo filho, seguiu a carreira militar, chegando ao posto de coronel, além de ser escudeiro do rei George III da Inglaterra. Atualmente contam-se como seus descendentes os troncos dos Cartwrights e dos Shuttleworths.

Feller, autor de uma Biografia Universal, declara que os últimos dias de Desaguliers foram passados na tristeza e na miséria; teria perdido a razão e se fantasiava, algumas vezes, de arlequim e palhaço. Cawthorn, num poema intitulado The Vanity of Human Enjoyments (Vaidade das Humanas Alegrias), afirma que Desaguliers estava quase indigente no momento de seu passamento

Albert Mackey sustenta, pelo contrário, que estas descrições apócrifas da morte de Desaguliers são francamente exageradas. Nichols, autor das Literary Anecdotes (Anedotas Literárias), que conhecia Desaguliers pessoalmente, traça-lhe um retrato mais lisonjeiro, declarando, no volume nono de sua obra, que ele morreu no Bedford Coffee House e foi enterrado no Savoy.

V - Conclusão

Não importam tanto estes fatos finais. O que está gravado no mármore da história é que Jean Théophile Desaguliers, doutor em direito, cientista, tecnólogo, ministro do culto e membro da Sociedade Real, a par de seus conhecimentos, de sua situação social, de sua forte personalidade e de suas contribuições ao espírito e às estruturas da maçonaria, enriqueceu tanto esta instituição que carreou para ela um número crescente de pessoas de estatura intelectual e social semelhantes às suas. Apesar de sofrer de forte miopia foi um dos mais argutos maçons de sua época. Sob sua liderança intelectual, a então nascente Grande Loja da Inglaterra se espalhou para todo o mundo, tornando a maçonaria uma das maiores instituições universais e, no acertado dizer de Mackey, fez de Desaguliers o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna.

Por: Ven.·.Ir.·. William Almeida de Carvalho 33º


VI - Bibliografia

- ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 30 vols., University of Chicago, USA, 1982.

- Jean Théophile Desaguliers, trabalho da Loja Jean-Théophile-Desaguliers nº 138, filiada à Grande Loja do Quebec, Canadá.

- MACKEY, Albert G., Encyclopedia of Freemasonry, vols. I e II, Kessinger Reprints, Kessinger Publishing, LLC, Kila, MT, USA, s/d.

- NEWTON, Edward, Brethren Who Made Masonic History, The Prestonian Lecture for 1965, in The Collected Prestonian Lectures, vol. II, 1961-1974, Lewis Masonic, London, 1983, pg. 46.

- SINGH, Simon, O Último Teorema de Fermat (A História do Enigma que Confundiu as Maiores Mentes do Mundo Durante 358 Anos), ed. Record, Rio de Janeiro, 1998.

- SOBEL, Dava, Longitude – A Verdadeira História de um Gênio Solitário que Resolveu o Maior Problema Científico do Século XVIII, Ediouro, Rio de Janeiro, 1996.

- STOKES, John, Life of John Theophilus Desaguliers, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 38, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1925, p. 285.

[1] Alguns autores afirmam que teria sido iniciado em 1712, mas inexistem provas documentais.

[2] ASSEMBLY and Feast at the Said Place, 24 June 1719, Brother Payne having gather’d the Votes, after dinner proclaim’d aloud our Reverend Brother John Theophilus Desaguliers, LLD, FRS, Grand Master of Masons, and being duly invested, install’d, congratulated and homaged, forthwith reviv’d the old regular and peculiar Toasts or Healths of the Free Masons. Now several old Brothers, that had neglected the Craft, visited the Lodges; some Noblemen were made Brothers, and more new Lodges were constituted. In Lamoine, Georges, Les Constitutions d’Anderson, GLNF, Grande Loge de la Province d'Occitanie, ed. SNES, Toulouse, 1995, pg. 188.

[3] Ambelain, Roberto, La Franc-Maçonnerie Oubliée 1352-1688-1720, Ed. Robert Laffond, Paris, 1985, pp. 119-120.

[4] Desnecessário assinalar que na primeira edição das Constituições de Anderson em 1723 não se fazia menção ao grau de mestre, somente na segunda edição de 1738 é que se menciona explicitamente o terceiro grau.

[5] Pai de George III, rei da Inglaterra.

DRAGÕES: FATOS & LENDAS

Os dragões são animais fabulosos, geralmente representados como uma enorme serpente alada que expele fogo pelas ventas (narinas). Seu tipo biológico situa-se entre o réptil e o sáurio (dinossauros): cabeça ornada com uma grande crista, poderosos cifres, presas enormes, couro grosso e nodoso cobrindo todo o corpo até a cauda, não raro provida de esporas, possivelmente de tecido ósseo ou cartilaginoso. Dotado de poderes extraordinários, o hálito dos Dragões é considerado venenoso e seu sangue, quando derramado em batalha ou na hora da morte, é igualmente fatal para aquele que for atingido por respingos dos líquido.

Répteis por natureza, os dragões encontram conforto em lugares frios, escuros e úmidos; por isso, cavernas são as moradas ideais para dragões, além da penumbra e do frescor, são locais de fácil defesa e apropriados para guardar tesouros e reservas de alimento. As colinas próximas a grupamentos humanos ou rebanhos de mamíferos foram os lugares preferidos na hora de escolher a toca. Há dragões que habitam em águas: mares, lagos, rios mas, preferencialmente, pântanos, como os dragões Knuckers", ingleses. (www.kairell.donagh.nom.br - 2005)

No Ocidente, os primeiros relatos sobre dragões aparecem em escrituras Judaicas (da Bíblia) e gregas. Na Europa, as lendas sobre os monstros antropófagos e cuspidores de fogo ou "de respiração pestilenta", ganharam espaço na imaginação popular. As histórias falam de cidades e vilarejos ameaçados e raptos de donzelas cruelmente assassinadas, degoladas ou empaladas, salvo quando algum virtuoso cavaleiro intervém na situação devidamente guarnecido de uma espada mágica. O mais famoso herói a resgatar uma cidade e sua donzela é aprisionada São Jorge, cuja vitória é interpretada como uma vitória do Cristianismo sobre as forças do Mal.

No Leste Europeu, os Dragões estão ligados a tradições de Sociedades Secretas Ocultistas, que supostamente adoravam divindades descendentes dos antigos Nagas indianos cuja representação, a figura de um Dragão, significa a Sabedoria, seja usada para o bem ou para o mal. O famoso Vlad Tepes, ou onde Drácula, foi um membro da Sociedade Secreta dos Dragões em sua região e seu apelido "Drácula", significa, precisamente, Dragão. Nesta tradição há uma clara associação entre Dragões e Sabedoria, uma relação histórica com raízes plantadas na mais remota antiguidade.

Os Dragões aparecem nas tradições mitológicas de quase todos os povos do mundo. No Oriente, os Dragões não são necessariamente perversos. Na China, são figuras de grande destaque. Festas folclóricas são dedicadas a eles. Os dragões simbolizam o próprio povo chinês que se auto-proclamam "Long De Chuan Ren" (Filhos do Dragão). Para os chineses, o dragão é uma criatura mítica e divina relacionada à abundância, prosperidade e boa fortuna. Templos e pagodes são construídos em honra aos Dragões e para eles são queimados incensos e dirigidas orações.

Eles são os governantes dos rios, da chuva, lagos e mares. Habitam nas águas, voam nos céus e percorrem as entranhas da Terra e dos Oceanos; aos seus movimentos subterrâneos são atribuídos fenômenos tectônicos como tremores de terra, terremotos e maremotos. Os dragões chineses são classificados em nove categorias: o 1. Dragão com Chifres (Lung), 2. Dragão Celestial, que mantém e protege as moradas dos Deuses; 3. Dragão Espiritual, gerador de chuva; 4. Dragão dos Tesouros Escondidos, Guardião das Riquezas; 5. Dragão Serpente, habitante das águas; 6. Dragão Amarelo, também aquático,que teria presenteado o legendário imperador Fu Shi com os elementos da escrita. Os quatro últimos são os Dragões-Rei, regentes dos quatro mares dos quatro pontos cardeais.

"Junto com o Unicórnio, a Fênix e a Tartaruga, era considerado um dos quatro primeiros animais que ajudaram na criação do mundo. O dragão não tinha rivais em sabedoria e em poder para conceder bênção. O imperador da China era suposto ser descendente de um dragão e ter dragões à seu serviço. Estudantes chineses cuidadosamente categorizaram dragões por diversos critérios como na classificação por Tarefas Cósmicas:

Dragões Celestiais: Estes dragões protegiam os céus, suportavam os lares das divindades e os defendiam da decadência. Somente estes dragões tinham cinco garras e somente a insígnia Imperial era permitida a descrevê-los.

Dragões Espirituais: Estes controlavam o clima do qual a vida era dependente. Eles tinham que ser apaziguados pois se fossem tomados por raiva ou simples negligência, desastres iriam se seguir.

Dragões Terrestres: Estes lordes dos rios controlavam seus fluxos. Cada rio tinha seu próprio dragão que governava de um palácio bem abaixo das águas. Dragões Subterrâneos: Estes dragões eram guardiães dos preciosos metais e jóias enterrados na terra. Cada um possuía uma grande pérola que podia multiplicar qualquer coisa que tocasse.

Também foram classificados pela cor:

Azul: Augúrio do Verão

Vermelho e Negro: Dragões destas cores eram bestas ferozes cujas lutas causavam tempestades e outros desastres naturais.

Amarelo: Estes eram os mais afortunados e favoráveis dos dragões. Não podiam ser domados, capturados ou mesmo mortos. Apenas apareciam em tempos apropriados e somente se houvesse uma perfeição à ser encontrada.

Os Dragões chineses podiam tomar a forma humana ou de uma fera se desejassem e tinham uma bizarra coleção de fobias. Temiam o ferro, mas para criaturas que eram vistas como mestres de tais elementos e quase divinos, também temiam outras estranhas coisas como centopéias ou fios de seda tingidos em cinco cores. O Japão também tinha seus dragões. Chamados de Tatsu, eles eram bastante relacionados com os Dragões Chineses. Assim como eles, também tinham diferentes sub-tipos, entretanto geralmente tinham somente três garras e eram mais parecidos com cobras." (www.kairell.donagh.nom.br - 2005)

Na mitologia chinesa, muito mais antiga que a dos judeus, também há um Gênesis, relato da Criação, e um Éden. O Paraíso chinês, chamado Jardim da Sabedoria, era habitado pelos "Dragões da Sabedoria" (Iniciados, Magos). Localizava-se no Planalto de Pamir, entre os picos mais elevados da cordilheira dos Himalaias. Ali, no ponto culminante da Ásia Central, o Lago dos Dragões alimentava quatro grandes rios: Oxus, Induas, Ganges e Silo; por isso, o Lago é chamado de "Dragão de Quatro Bocas".

Pesquisadores de diferentes áreas, geólogos, arqueólogos ou teósofos, que defendem a hipótese de uma origem mais recuada para a espécie humana, admitem que pode ter ocorrido um período de transição no qual seres humanos conviveram com sáurios ou grandes répteis. A teósofa H. P. Blavatsky assinala em sua Doutrina Secreta (2003), citando o naturalista Curvier: "Se existe algo que possa justificar a existência de hidras e de outros monstros cujas figuras foram tantas vezes reproduzidas pelos historiadores da Idade Média, este algo é incontestavelmente o plesiossauro." Revolution du Globe. vol V - p 247

O Plesiossauro é um réptil marinho semelhante a um lagarto. Tinha grandes proporções, alguns chegando a 9 metros de comprimento; era dotado de poderosas nadadeiras. Blavatsky escreveu no final do século XIX, época em que houve um intenso movimento na área da pesquisa arqueológica e paleontológica. Muitos fósseis eram descobertos por pesquisadores independentes. Na Alemanha, foi descoberto um sáurio voador, o pterodátilo, com 78 pés de comprimento, asas membranosas com envergadura em torno de meio metro, vigorosas presas e corpo de réptil. Na Filadélfia, o Dr. Cope estudou o fóssil de um monossauro e concluiu que era uma serpente alada, da espécie do pterodátilo, cujas vértebras indicam mais aproximação com ofídios (cobras) do que com lacertídeos (lagartos) (BLAVATSKY, 2003 - p 223). Em 1886, o geólogo Charles Gould escreveu em seu antológico Mythical Monsters:

Muitos dos chamados animais míticos, que através dos séculos e em todas as nações serviram de tema para ficções e fábulas, entram legitimamente no campo da História Natural simples e positiva e podem ser considerados não como produto de uma imaginação exuberante, mas como criaturas que realmente existiram e das quais ...só chegaram até nós descrições imperfeitas e inexatas, provavelmente muito refrangidas pelas névoas do tempo; tradições de seres que, em outra era, coexistiram com o homem, alguns deles estranhos e horrendos ...é menos difícil admitir todas essas maravilhosas histórias de deuses e semideuses, de gigantes e anões, de dragões e monstros de toda espécie como transformações do que acreditar que sejam invenções. ...Se são invenções, devemos crer que selvagens incultos fossem dotados de um poder de imaginação e criação poética muito superior ao dos povos civilizados de nossos dias." In BLAVATSKY, 2003 - p 235

Em 1912, um aeronauta alemão acidentou-se na Ilha de de Komodo, Indonésia. Resgatado, relatou que tinha visto uma criatura monstruosa semelhante aos mitológicos dragões. Averiguações e filmagens revelaram a veracidade do fato: era um animal da família dos lacertídeos porém em tamanho gigante. O enorme lagarto, conhecido como dragão de Komodo, alcança 10 pés de comprimento, contando sua longa e vigorosa cauda, alimenta-se de carne putrefata e, eventualmente, pode atacar e matar pessoas. Há relatos não confirmados da existência de lagartos semelhantes na Nova Guiné.

Apesar destas descobertas e de muitas mais, a arqueologia oficial não admite a existência de seres como dragões em qualquer época, embora nos ladrilhos babilônicos, nos murais pré-colombianos, na mitologia nórdica, nos desenhos japoneses, pagodes e monumentos, na Biblioteca Imperial de Pequim e em muitos outros documentos históricos figurem reproduções perfeitas de plesiossauros e pterodátilos. Na Bíblia, além do Apocalíptico Dragão Leviathan, o profeta Isaías (XXX:6) relata sua visão de uma "serpente voadora", a Saraph Mehophep, palavras que todos os dicionários hebreus traduzem assim: Saraph= veneno inflamado ou ardente; e Mehophep= voador. (BLAVATSKY, 2003 - p 224).

A questão da veracidade ou não da existência remota de animais como os dragões assume maior importância quando relacionada com as dúvidas em torno da idade da raça humana sobre a Terra. Se as histórias e figuras de dragões são mais que fruto da imaginação dos povos, se forem vistos como registros de visões reais, como documentos históricos, por mais remota que seja a época a qual se refiram, isto seria uma prova da enorme antigüidade do homem sobre o planeta reforçando, inclusive, as teorias que falam de civilizações avançadas que desapareceram completamente, vitimadas por catástrofes. Os dragões seriam uma lembrança de tempos anteriores ao Dilúvio Bíblico; anteriores ao surgimento dos primeiros antropóides reconhecidos pela ciência atual, datados em 1 milhão e meio de anos atrás.

O movimento buddhista do Grande Veículo (sânsc. Mahayana) surgiu na Índia por volta do século II. Este movimento é baseado em diversos textos, que teriam sido registrados a partir de discursos (sânsc. sutra) proferidos pelo próprio Buddha Shakyamuni (século VI a.C.) e então preservados no reino dos nagas — dragões aquáticos com corpo de serpente e cabeça humana — até que os discípulos se tornassem aptos a recebê-los.

Uma dessas pessoas aptas a receber os ensinamentos Mahayana teria sido o monge indiano Nagarjuna (século II-III), cujos trabalhos deram origem à escola filosófica do Caminho do Meio (sânsc. Madhyamaka). Nagarjuna não tinha a intenção de criar uma filosofia, mas sim de elucidar os ensinamentos dos Discursos sobre a Perfeição da Sabedoria (sânsc. Prajnaparamita Sutra), um conjunto de textos Mahayana que ele teria recebido diretamente dos nagas. IN DHARMANET

"Os místicos vêem, por intuição, na serpente do Gênesis, um emblema animal e uma elevada essência espiritual; uma fonte cósmica de supra-inteligência, umagrande luz caída, um espírito sideral, aéreo e telúrico ao mesmo tempo, 'cuja influência circunda o globo' (qui circumambulat terram - De Mirville) ... e que somente se manifesta sob o aspecto físico que melhor se coaduna com suas sinuosidades morais e intelectuais, isto é, a forma de um ofídio. ...Em todas as línguas antigas, a palavra dragão tinha o mesmo significado que tem hoje a palavra chinesa long ou - 'o ser que sobressai em inteligência'. Em grego, drakon é Aquele que vê e vigia. " BLAVATSKY, 2003 - p 228

A FACE OCULTA DOS DRAGÕES

A existência dos Dragões, como animais pré-históricos, contemporâneos a uma raça humana arcaica, pode ainda ser contestada mas sua realidade como elemento cultural, seu caráter de poderoso símbolo presente no imaginário popular e nas alegorias religiosas de todo o mundo, isto é um fato inegável. Rico em conteúdos semióticos, o Dragão, ora representa o bem, ora representa o mal.

Uma visão geral do histórico dos Dragões mostra um ser paradoxal, que encarna, ao mesmo tempo, o bem e o mal. É o monstro que aterroriza os mortais, é a besta do Apocalipse, o aliado da Magia Negra, o raptor de donzelas medievais; mas também é um símbolo de sabedoria, força física, poder, proteção e boa fortuna. Este caráter, aparentemente multifacetado dos dragões é o resultado de milênios de sincretismos entre culturas de todo o mundo. O aspecto maligno do dragão é notavelmente acentuado no Ocidente, onde foi associado à figura do Diabo por conta de suas "aparições", quase sempre alegorias mal interpretadas, nas escrituras cristãs como no Apocalipse, onde é chamado Leviathan; nos evangelhos apócrifos: em Bartolomeu, surge submisso e, diante de Cristo e dos apóstolos, confessa suas maldades. Outras referências ao dragão diabólico são os embate com o Arcanjo Miguel e com São Jorge. No evangelho apócrifo de Bartolomeu, o "inimigo dos homens" é descrito assim:

Belial subiu aprisionado por 6 064 anjos e atado com correntes de fogo. O dragão tinha de altura mil e seiscentos côvados e de largura, quarenta. Seu rosto era como uma centelha e seus olhos, tenebrosos. Do seu nariz saía uma fumaça mal-cheirosa e sua boca era como a face de um precipício....Bartolomeu, pois, se foi e pisou-lhe a cerviz, que trazia oculta até as orelhas, dizendo-lhe: — Dizei-me quem és tu e qual é teu nome....Respondeu Belial: — A princípio me chamava Satanail, que quer dizer mensageiro de Deus, Mas, desde que não reconheci a imagem de Deus, meu nome foi mudado para Satanás, que quer dizer anjo guardião do tártaro. In www.sobrenatural.org - 2005

Todavia, a simbologia tradicional se mantém. Os dragões jamais perderam seus atributos positivos e somente pela via das deturpações podem ser identificados com o mal. Ao contrário, o folclore envolvendo Dragões em guarda de tesouros é uma adaptação popular para os Dragões Guardiães do Éden, Guardiães da Árvore da Vida e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Mesmo entre os judeus, são os Querubins designados pelo Criador para defender o Paraíso. Estes anjos, são descritos no Livro de Enoch com uma aparência zoomórfica, dotados de múltiplas asas, espadas flamejantes e face zoomórfica, entre o homem e o dragão. São, por isso, guardiães da Sabedoria e ainda abrigam outros significados: representam a energia cósmica criadora, a eternidade e o próprio Cosmos, que repousa enrodilhado sobre si mesmo, círculo de serenidade, e quando desperta em turbilhões, desdobrando suas espirais no infinito, manifestando-se em todas as coisas que existem no Universo.

A imagem do Dragão associada à sabedoria contém uma mensagem de profundo alcance. A imagem diz que a Sabedoria não se relaciona com qualquer tipo de fraqueza. Não há conflito entre força, poder e felicidade, boa fortuna, compaixão e bom senso. O signo original, concebido em épocas insuspeitadas da história humana, referia-se à Regeneração Psíquica e à Imortalidade. Hermes considerava a serpente o mais espiritual de todos os seres. "Jesus admitiu a Serpente como sinônimo de Sabedoria, e um de seus ensinamentos, disse: Sede sábios como a serpente." Todos os povos simbolizaram o "Espírito de Deus" sob a forma de uma serpente de fogo que repousa sobre as águas primordiais até o dia do despertar, quando se expande por meio do verbo tomando a forma do leminiscato, a serpente que morde a própria cauda, representação do Universo, da Eternidade, do Infinito e da forma esférica dos corpos celestes. BLAVATSKY, 2001 - p 131

LINKS RELACIONADOS: El Bestiario del Hypogripho Dorado Notícias de Serpentes Marinhas | do Pravda English

BIBLIOGRAFIA

BLAVATSKY, Helena Petrovna. Edéns, serpentes e dragões. In A doutrina secreta - vol. III, Antropogênese. _________________________________ O resplandecente dragão da sabedoria. _________________________________ O cisne, símbolo do raio divino. In A doutrina secreta - vol. I, Cosmogênese. São Paulo: Pensamento, 2001.
BARSA Enciclopédia. São Paulo: Britânica/Melhoramentos, 1961.
DOMÍNIOS FANTÁSTICOS. Misteriosas Américas.
ELFWOOD Ilustrações. Artes Plásticas em Realismo Fantástico.
KAIRELL In Kairell Donagh - Dragon.
OCCULTPEDIA In Dragon.
The chinese dragon. In York - UK.

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

NEWTON'S DARK SECRETS - Isaac Newton by Albert Einstein

Editor's note: This article appeared in the Smithsonian Annual Report for 1927, the second centenary of Newton's death. It's somewhat dense, but then, what do you expect from the "greatest scientist who ever lived" talking about the accomplishments of the other "greatest scientist who ever lived?"

The 200th anniversary of the death of Newton falls at this time. One's thoughts cannot but turn to this shining spirit, who pointed out, as none before or after him did, the path of Western thought and research and practical construction. He was not only an inventor of genius in respect of particular guiding methods; he also showed a unique mastery of the empirical material known in his time, and he was marvelously inventive in special mathematical and physical demonstrations. For all these reasons he deserves our deep veneration. He is, however, a yet more significant figure than his own mastery makes him, since he was placed by fate at a turning point in the world's intellectual development. This is brought home vividly to us when we recall that before Newton there was no comprehensive system of physical causality which could in any way render the deeper characters of the world of concrete experience.

The great materialists of ancient Greek civilization had indeed postulated the reference of all material phenomena to a process of atomic movements controlled by rigid laws, without appealing to the will of living creatures as an independent cause. Descartes, in his own fashion, had revived this ultimate conception. But it remained a bold postulate, the problematic ideal of a school of philosophy. In the way of actual justification of our confidence in the existence of an entirely physical causality, virtually nothing had been achieved before Newton.

Newton's aim

Newton's aim was to find an answer to the question: Does there exist a simple rule by which the motion of the heavenly bodies of our planetary system can be completely calculated, if the state of motion of all these bodies at a single moment is known? Kepler's empirical laws of the motion of the planets, based on Tycho Brahe's observations, were already enunciated, and demanded an interpretation.* These laws gave a complete answer to the question of how the planets moved round the sun (elliptical orbit, equal areas described by the radius vector in equal periods, relation between semi-major axis and period of revolution). But these rules do not satisfy the requirement of causality. The three rules are logically independent of one another, and show no sign of any interconnection. The third law cannot be extended numerically as it stands, from the sun to another central body; there is, for instance, no relation between a planet's period of revolution round the sun and the period of revolution of a moon round its planet.

But the principal thing is that these laws have reference to motion as a whole, and not to the question of how there is developed from one condition of motion of a system that which immediately follows it in time. They are, in our phraseology of today, integral laws and not differential laws.

It was, no doubt, especially impressive to learn that the cause of the movements of the heavenly bodies is identical with the force of gravity so familiar to us from everyday experience.

The differential law is the form which alone entirely satisfies the modern physicist's requirement of causality. The clear conception of the differential law is one of the greatest of Newton's intellectual achievements. What was needed was not only the idea but a formal mathematical method which was, indeed, extant in rudiment but had still to gain a systemic shape. This also Newton found in the differential and integral calculus. It is unnecessary to consider whether Leibniz arrived at these same mathematical methods independently of Newton or not; in any case, their development was a necessity for Newton, as they were required in order to give Newton the means of expressing his thought.

From Galileo to Newton

Galileo had already made a significant first step in the recognition of the law of motion. He discovered the law of inertia and the law of free falling in the Earth's field of gravitation: A mass (or, more accurately, a material point) uninfluenced by other masses moves uniformly in a straight line; the vertical velocity of a free body increases in the field of gravity in proportion to the time. It may seem to us today to be only a small step from Galileo's observations to Newton's laws of motion. But it has to be observed that the two propositions above, in the form in which they are given, relate to motion as a whole, while Newton's law of motion gives an answer to the question: How does the condition of motion of a point-mass change in an infinitely small period under the influence of an external force? Only after proceeding to consider the phenomenon during an infinitely short period (differential law) does Newton arrive at a formula which is applicable to all motions. He takes the conception of force from the already highly developed theory of statics. He is only able to connect force with acceleration by introducing the new conception of mass, which, indeed, is supported curiously enough by an apparent definition. Today we are so accustomed to forming conceptions which correspond to differential quotients that we can hardly realize any longer how great a capacity for abstraction was needed to pass across a double barrier to the general differential laws of motion, with the further need to evolve the conception of mass.

But this was still a long way from the causal comprehension of the phenomena of motion. For the motion was only determined by the equation of motion if the force was given. Newton had the idea, to which he was probably led by the laws of the planetary motions, that the force acting on a mass is determined by the position of all masses at a sufficiently small distance from the mass in question. Not until this connection was realized was a completely causal comprehension of the phenomena of motion obtained. How Newton, proceeding from Kepler's laws of the motion of planets, solved this problem for gravitation and so discovered the identity of the nature of gravity with the motive forces acting on the stars is common knowledge. It is only the combination of—

(Law of motion) + (Law of attraction)

through which is constituted that wonderful thought-structure which enables the earlier and later conditions of a system to be calculated from the conditions ruling at one particular time, insofar as the phenomena occur under the sole influence of the forces of gravitation. The logical completeness of Newton's system of ideas lay in the fact that the sole causes of the acceleration of the masses of a system prove to be the masses themselves.

On the basis sketched Newton succeeded in explaining the motions of the planets, moons, comets, down to fine details as well as the ebb and flow of the tides and the precessional movement of the Earth—this last a deductive achievement of particular brilliance. It was, no doubt, especially impressive to learn that the cause of the movements of the heavenly bodies is identical with the force of gravity so familiar to us from everyday experience.


Significance of Newton's achievement

The significance, however, of Newton's achievement lay not only in its provision of a serviceable and logically satisfactory basis for mechanics proper; up to the end of the 19th century it formed the program of all theoretical research. All physical phenomena were to be referred to as masses subject to Newton's law of motion. Only the law of force had to be amplified and adapted to the type of phenomena which were being considered. Newton himself tried to apply the program in optics, on the hypothesis that light consisted of inert corpuscles. The optics of the undulatory theory also made use of Newton's law of motion, the law being applied to continuously diffused masses. The kinetic theory of heat rested solely on Newton's formulae of motion; and this theory not only prepared people's minds for recognition of the law of the conservation of energy, but also supplied a theory of gases confirmed in its smallest details, and a deepened conception of the nature of the second law of thermodynamics. The theory of electricity and magnetism also developed down to modern times entirely under the guidance of Newton's basic ideas (electric and magnetic substance, forces at a distance). Even Faraday and Maxwell's revolution in electrodynamics and optics, which was the first great advance in the fundamental principles of theoretical physics since Newton, was still achieved entirely under the guidance of Newton's ideas. Maxwell, Boltzmann, and Lord Kelvin never tired of trying again and again to reduce electromagnetic fields and their dynamical reciprocal action to mechanical processes occurring in continuously distributed hypothetical masses. But owing to the barrenness, or at least the unfruitfulness, of these efforts there gradually occurred, after the end of the 19th century, a revulsion in fundamental conceptions; theoretical physics outgrew Newton's framework, which had for nearly two centuries provided fixity and intellectual guidance for science.

Newton’s theory of motion suffered its first shock from Maxwell’s theory of electricity.

Newton on its limitations

Newton's basic principles were so satisfying from a logical standpoint that the impulse to fresh departures could only come from the pressure of the facts of experience. Before I enter into this I must emphasize that Newton himself was better aware of the weak sides of his thought-structure than the succeeding generations of students. This fact has always excited my reverent admiration; I should like, therefore, to dwell a little on it.

  1. Although everyone has remarked how Newton strove to represent his thought-system as necessarily subject to the confirmation of experience, and to introduce the minimum of conceptions not directly referable to matters of experience, he makes use of the conceptions of absolute space and absolute time. In our own day he has often been criticized for this. But it is in this very point that Newton is particularly consistent. He had recognized that the observable geometrical magnitudes (distances of material points from one another) and their change in process of time do not completely determine movements in a physical sense. He shows this in the famous bucket experiment. There is, therefore, in addition to masses and their distances, varying with time, something else, which determines what happens; this "something" he conceives as the relation to "absolute space." He recognizes that space must possess a sort of physical reality if his laws of motion are to have a meaning, a reality of the same sort as the material points and their distances.

    This clear recognition shows both Newton's wisdom and a weak side of his theory. For a logical construction of the theory would certainly be more satisfactory without this shadowy conception; only those objects (point-masses, distances) would then come into the laws whose relation to our perceptions is perfectly clear.

  2. The introduction of direct instantaneously acting forces at a distance into the exposition of the effects of gravitation does not correspond to the character of most of the phenomena which are familiar to us in our daily experience. Newton meets this objection by pointing out that his law of reciprocal gravitation is not to be taken as an ultimate explanation, but as a rule induced from experience.

  3. Newton's theory offered no explanation of the very remarkable fact that the weight and inertia of a body are determined by the same magnitude (the mass). The remarkable nature of this fact struck Newton also.

None of these three points can rank as a logical objection against the theory. They form, as it were, merely unsatisfied needs of the scientific spirit in its effort to penetrate the processes of nature by a complete and unified set of ideas.

The theory of the electromagnetic field

Newton's theory of motion, considered as a program for the whole field of theoretical physics, suffered its first shock from Maxwell's theory of electricity. It was found that the reciprocal action between bodies through electrical and magnetic bodies does not take place through instantaneously acting forces at a distance, but through processes which are transmitted with finite velocity through space. Alongside the point-mass and its movements there arose, in Faraday's conception, a new sort of physically real thing, the "field." It was first sought to conceive this, with the aid of mechanical modes of thought, as a mechanical condition (of movement or strain) of a hypothetical space-filling medium (the ether). When, however, in spite of the most obstinate efforts, this mechanical interpretation refused to work, students slowly accustomed themselves to the conception of the "electromagnetic field" as the ultimate irreducible foundation stone of physical reality. We owe to [Heinrich] Hertz the deliberate liberation of the conception of the field from all the scaffolding of the conceptions of mechanics, and to [Hendrik Antoon] Lorentz the liberation of the conception of the field from a material bearer; according to Lorentz the physical empty space (or ether) alone figured as bearer of the field; in Newton's mechanics, indeed, space had not been devoid of all physical functions. When this development had been completed, no one any longer believed in directly acting instantaneous forces at a distance, even in connection with gravitation, though a field theory for gravitation, for lack of sufficient known facts, was not unmistakably indicated. The development of the theory of the electromagnetic field also led, after Newton's hypothesis of action at a distance had been abandoned, to the attempt to find an electromagnetic explanation for Newton's law of motion, or to replace that law by a more accurate law based on the field theory. These efforts were not crowned with full success, but the mechanical basic conceptions ceased to be regarded as foundation stones of the physical conception of the universe.

The Maxwell-Lorentz theory led inevitably to the special theory of relativity, which, by destroying the conception of absolute simultaneity, negatived the existence of forces at a distance. Under this theory mass is not an unalterable magnitude, but a magnitude dependent on (and, indeed, identical with) the amount of energy. The theory also showed that Newton's law of motion can only be considered as a limiting law valid only for small velocities, and substituted for it a new law of motion, in which the velocity of light in a vacuum appears as the limiting velocity.

The general theory of relativity

The last step in the development of the program of the field theory was the general theory of relativity. Quantitatively it made little modification in Newton's theory, but qualitatively a deep-seated one. Inertia, gravitation, and the metrical behavior of bodies and clocks were reduced to the single quality of a field, and this field in turn was made dependent on the bodies (generalization of Newton's law of gravitation or of the corresponding field law, as formulated by Siméon Denis Poisson). Space and time were so divested, not of their reality, but of their causal absoluteness (absoluteness-influencing, that is, not -influenced), which Newton was compelled to attribute to them in order to be able to give expression to the laws then known. The generalized law of inertia takes over the role of Newton's law of motion. From this short characterization it will be clear how the elements of Newton's theory passed over into the general theory of relativity, the three defects above mentioned being at the same time overcome. It appears that within the framework of the general theory of relativity the law of motion can be deduced from the law of the field, which corresponds to Newton's law of force.

“The whole development of our ideas concerning natural phenomena may be conceived as an organic development of Newton’s thought.”

Newton's mechanics prepared the way for the theory of fields in a yet more formal sense. The application of Newton's mechanics to continuously distributed masses led necessarily to the discovery and application of partial differential equations, which in turn supplied the language in which alone the laws of the theory of fields could be expressed. In this formal connection also Newton's conception of the differential law forms the first decisive step to the subsequent development.

The whole development of our ideas concerning natural phenomena, which has been described above, may be conceived as an organic development of Newton's thought. But while the construction of the theory of fields was still actively in progress, the facts of heat radiation, spectra, radioactivity, and so on revealed a limit to the employment of the whole system of thought, which, in spite of gigantic successes in detail, seems to us today completely insurmountable. Many physicists maintain, not without weighty arguments, that in face of these facts not only the differential law but the law of causality itself—hitherto the ultimate basic postulate of all natural science—fails.

The very possibility of a spatio-temporal construction which can be clearly brought into consonance with physical experience is denied. That a mechanical system should permanently admit only discrete values of energy or discrete states—as experience, so to say, directly shows—seems at first hardly deducible from a theory of fields working with differential equations. The method of [Louis] De Broglie and [Erwin] Schrödinger, which has, in a certain sense, the character of a theory of fields, does deduce, on the basis of differential equations, from a sort of consideration of resonance the existence of purely discrete states and their transition into one another in amazing agreement with the facts of experience; but it has to dispense with a localization of the mass-particles and with strictly causal laws. Who would be so venturesome as to decide today the question whether causal law and differential law, these ultimate premises of Newton's treatment of nature, must definitely be abandoned?


*Everyone knows today what gigantic efforts were needed to discover these laws from the empirically ascertained orbits of the planets. But few reflect on the genius of the method by which Kepler ascertained the true orbits from the apparent ones, i.e., their directions as observed from the Earth.

Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Lilith

Lilith é vulgarmente tratada como um demônio da noite. Ela é também referida na Cabalá como a primeira mulher do bíblico Adão. Pensa-se que o Relevo Burney, um relevo sumeriano, a represente. Muitos acreditam que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa sumeriana da guerra e do prazer sexual.

Inanna era a deusa (dingir) do amor, do erotismo, da fecundidade e da fertilidade, entre os antigos sumérios, sendo associada ao planeta Vênus. Era especialmente cultuada em Ur, mas era alvo de culto em todas as cidades sumerianas. Surge em praticamente todos os mitos, sobretudo pelo seu caráter de deusa do amor (embora seja sempre referida como a virgem Inanna); por exemplo, como se a deusa tivesse se apaixonado pelo jovem Dumuzi, tendo este morrido, a deusa desceu aos infernos para resgatá-lo dos mortos, para que este pudesse dar vida à humanidade, agora transformado em deus da agricultura e da vegetação.


É cognata das deusas semitas da Mesopotâmia (Ishtar) e de Canaã (Asterote e Anat), tanto em termos de mitologia como de significado. O dia 2 de janeiro é tradicionalmente consagrado a Ishtar, a deusa dos acádios, herança dos seus antecessores sumérios, cognata da deusa Asterote dos filisteus, de Ísis dos egípcios. Mais tarde, ela foi assumida também na Mitologia Nórdica como Easter, a deusa da fertilidade e da primavera. Essa deusa era irmã gêmea de Shamash e filha do importante deus lua – Sin. Considerados uma das maravilhas do mundo, os Portões de Ishtar, na Babilônia, foram transportados para um museu na Europa, o Museu de Berlim. Uma réplica se encontra no Iraque.


Astarte e Afrodite Astarte


(em grego Αστάρτη e em hebraico עשתרת) – personagem do panteão fenício e na tradição bíblico hebraica conhecida como deusa dos Sidônios (I Reis 11:2). Era a mais importante deusa dos fenícios. Filha de Baal e irmã de Camos. Deusa da lua, da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada principalmente em Sidom, Tiro e Biblos. A deusa Astarte foi a mais importante das numerosas divindades fenícias e a única que permaneceu inamovível na sua rica mitologia, apesar das profundas e contínuas mudanças no culto que resultaram de diversas influências oriundas de toda a área do Mediterrâneo, recebidas por este povo de navegantes. A deusa era uma representação das forças da fecundidade e, como tal, foi adorada sob diversos aspectos. Todos eles tinham em comum a imagem de uma deusa amorosa, bela, fecunda e maternal. Chamaram-lhe Kubaba-Cibeles na Síria do Norte. Esta e as outras divindades fenícias eram adoradas em santuários, mas o seu culto não carecia de esculturas religiosas, pelo que, muitas vezes, elas faltavam nos templos. A sua sede era uma simples pedra ou pilone no centro do lugar sagrado. A proteção divina na vida doméstica era invocada em estatuetas de material tosco, inacabadas, ou em amuletos de inspiração egípcia, como, por exemplo,


O célebre escaravelho solar das pinturas faraônicas


Tem muitos atributos relacionados com Afrodite, a deusa grega do amor, do sexo, da regeneração e da beleza corporal. De acordo com o mito mais aceito, nasceu quando Urano (pai dos Titãs) foi castrado por seu filho Cronos, que atirou os genitais cortados de Urano no oceano, e este começou a ferver e espumar. De aphros (“espuma do mar”), ergueu-se Afrodite e o mar a carregou para Chipre. Por isso, um de seus epítetos é Kypris. Assim, Afrodite é de uma geração mais antiga que a maioria dos outros deuses olímpicos. Afrodite (em grego, Αφροδίτη) era a deusa grega da beleza e da paixão sexual. O seu culto estendeu-se a Esparta, Corinto e Atenas. Foi identificada como Vênus pelos romanos. Suas festas eram chamadas de afrodisíacas e eram celebradas por toda a Grécia, especialmente em Atenas e Corinto. Suas sacerdotisas eram prostitutas sagradas, que representavam a deusa, e o sexo com elas era considerado um meio de adoração e contato com a deusa. Seus símbolos incluem a murta, o golfinho, o pombo, o cisne, a romã e a limeira. Entre seus protegidos, contam-se os marinheiros e artesãos.

Com o passar do tempo, e com a substituição da religiosidade matrifocal pela patriarcal, Afrodite passou a ser vista como uma deusa frívola e promíscua, como resultado de sua sexualidade liberal. Parte dessa condenação a seu comportamento veio do medo humano frente à natureza incontrolável dos aspectos regidos pela deusa do amor.

Voltando a Lilith...Contam algumas histórias que Lilith é também chamada de “A mulher escarlate”, um demônio que guarda as portas do inferno montada em um enorme cão de três cabeças, Cérbero. Outros aspectos e nomes de Lilith, além dos já citados, são: Aino (finlandesa, Deusa da Beleza); Amaterasu (japonesa, Deusa do Sol, liderança); Axo Mama (peruana, Deusa da Fertilidade); Cibele (asiana menor, Deusa da Fertilidade); Hathor (egípcia, Deusa do Amor); Freya (norueguesa, Deusa do Amor e da Cura); Hécate (grega, Deusa da Magia e da Morte); Itchita (siberiana, A Grande Mãe); Oxum (africana, Deusa da Fertilidade e do Amor); Kaly (hindu, a face escura da Grande Mãe). Na origem de todos os povos do mundo sempre existiu a tradição de um casal fundador da raça humana. A maioria é formada por casais-deuses, exceto nas religiões patriarcais, como a judaico-cristã-islâmica, em que um único Deus masculino formou todas as coisas e seres. Entretanto, ao estudar a espiritualidade hebraica, por meio da Cabala, aprendemos que o grande deus monoteísta não é do sexo masculino, ele é completo em si mesmo; o que existem são divisões de gênero, inclusive é uma insolência lhe dar aspecto humano, pois sua essência é luz pura. E desde quando luz tem sexo? Ao se estudar Carl Jung, descobriremos que dentro de cada homem há uma mulher (anima) e em cada mulher há o princípio masculino (animus). Esse eterno jogo de yin-yang se ajusta e se completa. Portanto, nenhum indivíduo é inteiramente masculino ou inteiramente feminino.

Cada um de nós é composto dos dois elementos e esses dois constituintes estão freqüentemente em conflito. O princípio feminino ou “Eros” é universalmente representado pela Lua e o princípio masculino ou “Logos”, pelo Sol. O mito da criação no Gênesis afirma: Deus criou duas luzes, a luz maior para reger o dia e a luz menor para reger a noite. O Sol como princípio masculino é o soberano do dia, da consciência, do trabalho e da realização, do entendimento e da discriminação conscientes, o Logos.

A Lua, o princípio feminino, é a soberana da noite, do inconsciente. É a deusa do amor, controladora das forças misteriosas que fogem à compreensão humana, atraindo os seres humanos irresistivelmente um para o outro, ou separando-os inexplicavelmente. Ela é o Eros, poderoso, fatídico e totalmente incompreensível. Na natureza, o princípio feminino ou a deusa feminina mostra-se como uma força cega, fecunda, cruel, criativa, acariciadora e destruidora. É a fêmea das espécies mais mortal que o macho, feroz em seu amor como também com seu ódio. Esse é o princípio feminino na forma demoníaca. O medo quase universal que os homens têm de cair sob o domínio ou a fascinação de uma mulher. A atração que esta mesma servidão tem para eles são evidências de que o efeito que uma mulher produz num homem é, em geral, realmente de caráter demoníaco.

Quando Jehová criou a Adão, criou ao mesmo tempo a uma mulher, Lilith, retirada do barro da terra. Foi entregue a Adão como esposa. Porém, Lilith não estava satisfeita, pois esperava outra coisa de Adão. Ela não se submeteu à dominação masculina. A sua forma de reivindicar igualdade foi a de recusar a forma de relação sexual com o homem por cima. Inimizou-se com ele, pronunciou o nome inefável de Jeová e se foi voando pelos ares. Adão queixou-se a Deus de sua esposa, e este enviou à sua procura três anjos: Senoi, Sansenoi e Samanglof, que a encontraram nas margens do Mar Vermelho, onde mais tarde as tropas egípcias seriam engolidas por ordem de Moisés. Lilith se negou a voltar a ocupar seu lugar junto de Adão. Os três anjos, por ordem de Jeohvá, avisaram-na de que a cada dia perderia cem de seus filhos se não regressasse. Lilith então fez um trato, e os anjos tentaram afogá-la no Mar Vermelho; porém Lilith advogou em causa própria e salvou sua vida com a condição de jamais causar dano a uma criança recém-nascida de onde viera seu nome escrito.


A história de Lilith na tradição judaica


Finalmente, Jehová deu a Lilith, Sammael (Satã – O Senhor das forças do mal; adversário), e ela foi a primeira das quatro esposas do “Diabo” e a perseguidora dos recém-nascidos. (Paul Louis Bernard Drach, De l’harmonie de l’Église et de la Synagogue, II, p.319) De acordo com essa narração, Lilith foi entregue a Adão como uma mulher-objeto. Entretanto, ela se rebela e se nega a obedecer Jehová, que é seu pai. Esse não pode desfazer-se dela; uma vez que a criou para Adão, só poderá deixá-la. E foi feito, pois o nome de Lilith não é citado mais que uma vez na Bíblia, reduzida assim a um estado incerto.

Segundo uma velha tradição, Lilith seria uma figura sedutora, de cabelos longos, que voa à noite, como uma coruja, para atacar os homens que dormem sozinhos. As poluções noturnas masculinas podem significar um ato de conúbio com a demônia, capaz de gerar filhos demônios para a mesma. As crianças recém-nascidas são as suas principais vítimas. A crença em Lilith, durante muito tempo, serviu para justificar as mortes inexplicáveis dos recém-nascidos. Uma forma de proteger as crianças contra a fúria da bela demônia é escrever na porta do quarto os nomes dos três anjos enviados pelo Senhor. Outra maneira é a de fixar no berço do recém-nascido, três fitas, cada uma delas com um nome dos três anjos. Segundo Unterman, na véspera do Shabat e da Lua Nova, quando uma criança sorri é porque Lilith está brincando com ela.

Para protegê-la, deve-se bater três vezes de leve no nariz da criança, pronunciando uma fórmula de proteção contra Lilith. O mesmo autor afirma que, na Idade Média, era considerado perigoso beber água nos solstícios e equinócios, períodos estes em que o sangue menstrual de Lilith pinga nos líquidos expostos. Finalmente, uma outra tradição judaica afirma que a lendária rainha de Sabá que teria visitado Salomão nada mais era do que Lilith. O sábio rei, contudo, descobriu o ardil, ao levantar a saia da rainha e constatar que as suas pernas eram peludas. Segundo uma lenda judaica, após a expulsão do paraíso, Adão, para se mortificar, ficou 130 anos afastado de Eva. Uma ocasião que estava dormindo sozinho, Lilith o encontrou, deitou-se ao seu lado e dele concebeu um sem-número de demônios. Os que se defrontavam com eles eram torturados e mortos (Gorion, 54).

A rebelião de Lilith contra Adão e o Criador levou à necessidade da criação de Eva, esta formada a partir de uma costela de Adão (Gênesis 2, 21). É possível, portanto, imaginar que um corte foi realizado entre o capítulo 1, versículo 28, e o capítulo 2, versículo 21. É provável que esse corte tenha ocorrido mesmo, em época bastante remota, como no quarto século antes de Cristo, quando se supõe que o texto escrito tomou uma forma aproximada da atual (Leach, 1983:77).

O próprio teor do capítulo 1, versículo 28, sustenta esta hipótese: “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra ...” Como seria possível abençoar a ambos e recomendar a multiplicação se Eva ainda não estava criada? Roberto Sicuteri (1986: 27) chama a atenção para outro detalhe importante: após a criação de Eva, extraída da costela de Adão, este diz: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gênesis 2, 23). Para Sicuteri, esta agora soa como uma inequívoca referência a uma mulher anterior. (Roque de Barros Laraia).

A palavra lilith, que se pode relacionar com o assírio lílitu, de lilaatuv, “noite”, significa propriamente “noturno”. Também Lilu, na mitologia assíria, são espíritos malignos que sempre surgem na escuridão da noite. A Lílít do texto hebraico se traduz na versão grega de Septuaginta e por Lamia na Vulgata latina de São Jerônimo. As lamias são muito conhecidas nas tradições gregas e latinas, como monstros voadores noturnos, que sempre aparecem sob o aspecto de pássaros. A maioria dos autores afirma que as lamias são monstros femininos que devoram homens e crianças. Portanto, as lamias e Lilith têm muitos pontos em comum e foram convertidas em “vampiras”.

Mas, o papel de Lilith parece não terminar quando se une a Satã; aliás, muito pelo contrário. Segundo o Zohar (Hhadasch, seção Yitro, p.29), depois participa da perdição de Adão, ao qual Jehová concede como segunda esposa a Eva, nascida da sua própria costela, ou seja, à imagem do homem, o reflexo do homem, ou a imagem castrada de Adão. “Depois de que o Tentador (Sammael) houvera desobedecido ao Santíssimo, bendito seja, o Senhor o condenou a morrer”. A Cabala faz eco desta tradição (livro Emek-Ammelehh, XI), que Sammael será castigado: “Nesse dia, Jehová visitará com sua terrível espada a Leviatã, a serpente insinuante, que é Sammael, e a Leviatã, a serpente sinuosa, que é Lilith.

Esse texto nos diz que tão-somente Lilith está incluída no castigo junto com Sammael e não as outras três esposas, e que Lilith também apresenta o aspecto de serpente. O que se conclui é que ela está reprimida no inconsciente e, quando surge, coloca a sociedade paternalista em xeque. Assim, quando Eva convida Adão para comer a maçã, é das mãos de Lilith que a receberá.

Eva, porém, à sua maneira, repetiria o gesto de rebelião de sua antecessora. Deus tinha permitido ao homem comer todas as frutas do jardim, com apenas uma exceção: “Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis, 2,17).

É exatamente essa interdição que é rompida por Eva. A versão canônica diz que a mulher assim procedeu tentada pela serpente, sob a alegação de que o consumo da fruta proibida a tornaria tão poderosa como Deus. Acreditando na pérfida serpente, Eva comeu do fruto proibido e convenceu o seu companheiro a fazer o mesmo. A punição por esse ato de desobediência original foi a perda da imortalidade; a partir de então, os homens tornaram-se mortais.

Existem outras interpretações para esta história. Os teólogos modernos acreditam que a serpente foi a forma tomada pelo Demônio para tentar Eva.

Existe também a crença de que Lilith teria se transformado em serpente para tentar Eva e se vingar de Adão. Uma terceira interpretação é a que faz parte de uma tradição judaica: “A serpente bíblica era um animal astucioso, que caminhava ereto sobre as duas pernas, falava e comia os mesmos alimentos que o homem. Quando viu como os anjos prestigiavam Adão, teve ciúme dele, e a visão do primeiro casal tendo relação sexual despertou na serpente o desejo por Eva. Por instigação de Satã ou Samael, ou, segundo algumas versões, possuída por ele, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido e seduziu-a. Como castigo, suas mãos e pernas foram cortadas e ela teve de se arrastar sobre o seu ventre, todo alimento que comia sabia a pó, e tornou-se eterna inimiga do homem.(...) Quando teve relação sexual com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando estavam no Monte Sinai e receberam a Torá.” (Unterman, 1992: 236).


E também ao comer o fruto da Árvore, eles passaram a ter o dissernimento, o livre-arbítrio.

Segundo o antropólogo Roque de Barros Laraia, o Gênesis é um mito de origem que busca explicar o surgimento do primeiro homem e como tal não difere muito de outros mitos, integrantes das diferentes cosmologias existentes, principalmente em dois pontos fundamentais:

1) O mito não visa à explicação do surgimento de toda a humanidade ¾ como depois foi sugerido pelos exegetas judaicos e cristãos ¾, mas apenas o surgimento de um povo específico, no caso os hebreus. Tal fato está confirmado pelo versículo 16 do capítulo 4: “E saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Nod, da banda do oriente do Éden.” O versículo seguinte afirma que “Caim conheceu a sua mulher e ela concebeu, e pariu Enoch...” Há duas interpretações possíveis para esses dois versículos: a primeira é que o conheceu significa apenas ter relações sexuais e, portanto, Caim teria chegado ao leste do Éden já com uma companheira. Mas a interpretação mais plausível é que de fato tenha encontrado um outro povo. Isto é mais condizente com o estilo dos mitos de origens, marcados fortemente pelo etnocentrismo.

2) O mito narra a história do pecado original. É, portanto, semelhante às narrativas que mostram que o homem perdeu a imortalidade em função de sua própria culpa. Uma escolha mal feita, um ato de desobediência (como no Gênesis) ou uma ofensa a um ser sobrenatural. Os Tupi Guarani seriam imortais se a primeira mulher não tivesse duvidado dos poderes de Mahíra. O texto bíblico relata a dupla desobediência da mulher: Lilith não atende a convocação do Senhor para voltar para Adão; Eva come do fruto proibido e convence Adão a fazer o mesmo.

A Visão dos Mistérios Órficos Dentro dos Mistérios Órficos, Nyx, um negro espírito alado, levantou-se do Vazio do Caos para deitar o ovo cósmico de prata contendo o dourado espírito alado do amor, Eros, também conhecido como Phanes – o Revelador, cuja beleza radiante iluminou a Terra. Nyx, a Mãe Noite primal, dentro de seu reino estrelado também deu à luz as Fates (Destinos), as Hespérides, as Fúrias e Nêmesis (George 1992: 112-117).

Como a mitologia evoluiu, a precedência era classificada como dia e luz; todas as coisas sinônimas à noite escura ficaram exiladas ao chthonic (de khthonios – dentro ou fora da Terra), isto é: fertilidade, parto, abundância, colheitas, destino e morte, reino do submundo, regiões astrais, o mundo dos sonhos e a psique interna.

Com efeito, Hecate desenvolveu-se como a guardiã desses lugares sombrios e solitários, e de seus inerentes Mistérios ocultos. Atos obscuros do mistério sexual, Kundalini, profecia, inspiração e adivinhação, todos vieram de dentro de seu dom. Criaturas da noite – corujas, cachorros e cavalos tornaram-se seus totens, assim como o fizeram todas as criaturas do submundo aquático – cobras, serpentes, aranhas, sapos e rãs. (Ibid) Como Dama da Transe-Formação, sua luz divina de gnose é secretada por seus poderes chthonicos de vida e morte; sua sexualidade voraz leva suas vítimas em um abraço profético de regeneração. Suas sacerdotisas legendárias levavam os agonizantes através de uma morte extática pelas suas convulsões orgásticas (George 1992: 111).

Ultimamente ligada à lua negra, anteriormente Hecate sempre havia sido a deusa da iluminação da alma. Tempo e destino estão dentro de seu domínio; muitos de seus epítetos revelam seus inúmeros papéis e formas – Sábia, Rainha das Sombras, Senhora da Iniciação, Guardiã do Portal, Condutora de Almas, e A Brilhante (www.hecate.org.uk/history.html).

Para os místicos, a Noite Escura é a profundeza do amor (Eros) e luz (Phanes). George (1992: 118) afirma que, dentro filosofia oriental, o preto representa o estado informe da matéria pura e um todo unificado, sem nenhuma separação. Isso é um truísmo refletido dentro da Nyx grega e da Nut egípcia; ambas carregam a mensagem eterna da matrix universal como uma expressão do verdadeiro amor (sabedoria e compreensão/compaixão), da qual a ignorância induz ao medo e vazio.

Waterson (1999:190) recebeu muitas críticas dos acadêmicos por promover a idéia de que Hecate é derivada de Hekt, uma deusa egípcia de cabeça de sapo, deusa do nascimento, da morte e da ressurreição, parteira dos deuses, mas sua teoria é merecedora de uma melhor inspeção. Essa deusa primal criativa parece ter ajudado Osíris a se levantar dos mortos, precedendo o papel adotado por Ísis. Além disso, seu símbolo, o sapo, foi mais adiante adotado pelos cristãos para representar a ressurreição de Cristo. Foram encontrados em numerosas luminárias cerâmicas com a inscrição: “Eu sou a ressurreição”. O eminente egiptólogo Wallis Budge (1971: 63) explica que dentre os ritos fúnebres egípcios, o amuleto de sapo (juntamente com o escaravelho) era colocado sobre a múmia, para mostrar o poder de ressurreição de Hekt sobre o mesmo.

Mais tarde, a mitologia grega revelou que Hecate, assim como Lúcifer/Lux (luz) nasce de Nyx/Nox (escuridão). Bem antes disso, contudo, ela era originalmente uma deidade da Trácia e foi adotada no panteão grego como uma Titã, uma deidade pré-olímpica. Ela era descrita como uma bonita donzela com cabelos adornados por estrelas que iluminavam as trevas. Sua tocha em chamas revelava seu papel como illuminatrix e Condutora (a que guia os mortos) através de seus três reinos – os Céus, Terra e os Mares/Mundo Subterrâneo.

A Tomadora de Almas Como já foi demonstrado, somente mais tarde, quando foi consignada ao Inferno, Lilith assumiu o papel mais sinistro de tomadora de almas. Curiosamente, seu dia de festa é 13 de agosto, como uma deusa de fertilidade, e é um dia em que ela é propícia a evitar desastres que acontecem às colheitas. É notavelmente perto de 15 de agosto, quando acontece a festa da Santa Virgem Maria, a qual mais tarde assumiu essa função! Em cada uma de suas quatro mãos (às vezes seis), Hecate maneja um objeto: uma chave que destranca os mistérios ocultos e a sabedoria da vida após a morte; uma corda/flagelo que representa tanto o cordão umbilical (permitindo nascimento) e o laço (morte); e a adaga, o símbolo da verdadeira vontade, que corta a ilusão e divide a corda (permitindo o nascimento) e o laço (facilitando a libertação da alma). Em sua quarta mão (nesta ou ainda nas três restantes), ela eleva a tocha (ou tochas) de iluminação e iniciação. Assim pode-se ver que ela preenche todos os papéis de Creatrix, Illuminatrix e Initiatrix – a (verdadeira) Deusa Tripla (de tripla face) (George 1992: 142-45).

Tanto Hecate quanto Hermes compartilham o papel de “Condutor de Almas” e “Protetor das Encruzilhadas” e caminhos secretos dos planos mentais e físicos. Hermes freqüentemente se posta de pé ao lado de Hectarea, uma forma tríplice de Hecate, completa com suas três cabeças e seis braços.

Acredita-se que sejam amantes ou companheiros, e eles são curandeiros, protetores da energia lunar e arautos da morte. Fazendo a ponte entre os mundos, eles revelam o passado, o presente e o futuro simultaneamente, conferindo visões proféticas e comunicação ancestral. De seu mundo crepuscular de ilusões, seus dons de encantamento asseguram o arrebatamento e ventura de seus devotos.

Outro epíteto bem menos conhecido é Hekatos, que significa “A Distante” (a Magia transportada pelo ar que atinge seu objetivo), o qual Hecate, como uma forma de Ártemis, divide com Apolo. As lendas também falam dela como um anjo fosforescente, brilhando nas trevas do submundo, onde sua luz hipnótica de transe-formação é revelada dentro dos montes de terra dos sepulcros decadentes dos mortos. Aqui se encontram suas fusões de papel com os de Perséfone e de Deméter, com a qual ela ficou associada dentro de mitos alternativos gregos.

Vale relembrar que os gregos sempre viram Hecate como uma jovem donzela. Ela se tornou uma velha somente para os romanos (que julgaram seus papéis conectados aos assuntos de sangue feminino – nascimento e menstruação – como impuros) quando Ártemis e Se1ene a suplantaram nesta forma (Ibid). Martha Ann e Dorothy Myers-Imel (1993: 157) também nos fazem lembrar, dentro dos Mistérios de Elêusis, o papel de Brimo (a destruidora terrível da vida), que dá à luz a Brimos (o Salvador). Ela é associada com Cybele, Deméter, Perséfone e Hecate e é também a guia de Perséfone quando ela volta para o mundo da superfície, ao chegar do Inferno de Hades. Ainda assim é Phosphorous – aurora e crepúsculo, mãe e guardiã, a que traz a aurora da vida, nascimento e morte. Ela é a Estrela Matutina, a portadora da Gnose, a propylia – aquela que fica diante do portal, e propolos – a guardiã do limite e condutora, a líder do caminho (Robert von Rudolf, Horned Owl Library). Shani – Revista Online The Cauldron Brasil.

Lilith nos lembra eternamente que as forças do “mal” respondem às forças da vida, e que tudo se equilibra – dia e noite, trevas e luz, masculino e feminino. Isso faz com que visualizemos o piso mosaico no centro dos nossos Templos Maçônicos.

As leituras modernas do mito de Lilith, entretanto, destacam o seu aspecto revolucionário e mesmo feminista. Ela representa a revolta contra um sistema hierárquico injusto, que quer impor um domínio inquestionável e repressor do masculino sobre o feminino. Lilith é a representação da mulher indômita, selvagem, livre, vibrante de energia, pronta para viver a sua sexualidade de forma plena e prazerosa, sem medos nem vergonha, é a celebração do princípio feminino.

Nota: Lilith é citada na Epopéia de Gilgamesh (aprox.2000 a.C.), no Antigo Testamento (Isaías 34:14) e em relatos da Torá assírio-babilônica e hebraica, dentre outras fontes históricas. Ela aparece no Zohar, ou Livro do Esplendor, uma obra cabalística do século XIII que constitui o mais influente texto hassídico, e no Talmude, o livro dos hebreus. Seus filhos demônios, os Lilins, são citados inclusive na versão sacerdotal da Bíblia. Outras fontes são o Alfabeto de Ben Sira (séculoVII), em que se inscreve a versão mais ingênua do mito, o Zohar (século XIII), que dá do mesmo a versão mais oculta, e a Cabala (por volta de 1600), onde vemos LIlith unir-se a Samael.

Por: Wagner Veneziani Costa


Fontes de consulta:

CAMPBELL, Joseph, MOYERS, Bill. O Poder do Mito. Palas Atena.

SINGER, Marian. O Livro Completo de Wicca e Bruxaria. Madras Editora – 2004

As Deusas e a Mulher - Jean Shinoda Bolen.

Jardim do Éden Revisitado - Roque de Barros Laraia.

Lilith, a Lua Negra - Roberto Sicuteri.

O Livro de Lilith - Barbara Koltuv.

Os Mistérios da Mulher - M. Esther Harding.

Revista de Antropologia - Roque de Barros Laraia.

Rosane Volpatto - http://www.rosanevolpatto.trd.br/lilith.html

Shani - Revista Online The Cauldron Brasil - http://www.thecauldronbrasil.com.br

A Inquisição


A Inquisição foi um tribunal da Igreja Católica medieval instituido para procurar e processar heréticos. O termo é aplicado para a Instituição em si, a qual era episcopal ou papal, regional ou local. Tremendamente severo em seus procedimentos, a Inquisição foi amparada durante a Idade Média recorrendo às práticas bíblicas e pelas palavras de Santo Agostinho, o qual tinha interpretado “Lucas 14:23” como endossando o uso da força contra os heréticos.

Santo Agostinho de Hipona (354-430), padre e um dos iminentes doutores da Igreja Católica ocidental. Filho de Santa Mônica, nasceu em Tagasta, Numídia, hoje Argélia. Inspirado no tratado filosófico, Hortensius, de Cícero, converteu-se em ardoroso pesquisador da verdade e aderiu ao Maniqueísmo. Em Milão, conheceu Santo Ambrósio que o converteu ao cristianismo. Agostinho voltou ao norte da África, foi ordenado sacerdote e, mais tarde, consagrado bispo de Hipona. Combateu a heresia maniqueista, desenvolvendo nessa época, as doutrinas do pecado original, graça divina, soberania divina e predestinação. Os aspectos institucionais de suas doutrinas foram especialmente proveitosos para a Igreja Católica Apostólica Romana.

Aparecimento da Inquisição

Problemas com seitas semelhantes aos dos Albigenses, conhecida como Heresia Social Cátara, no começo do século XII conduziu à Inquisição Episcopal. No início desse século, ao sul da França, na região conhecida como Langedoc, ocorreu um massacre de imensas proporções, fruto da intolerância religiosa, associado aos interesses políticos e financeiros. Nesse local, favorecido pelo abandono da Igreja Romana, com seu obscurantismo e ignorância, desenvolveram-se estudos dos clássicos gregos com obras em árabe e hebráico. Os pensamentos hislâmico e cristão, juntamente com o esoterismo hebraico da cabalá, conviviam sem problemas. A Igreja, que à época se comportava como qualquer Instituição mundana corrompida, com tráfico de influências, vendas de cargos na hierarquia eclesiástica, não era bem vista pelo povo dessa região.

Os Albigenses, habitantes da cidade de Albi, já haviam sido condenados em 1165 por um conselho eclesiástico por causa de suas doutrinas consideradas heréticas pela Igreja Católica. Na verdade existiam outras seitas, mas todas tinham contudo alguns pontos em comum: rejeitavam a fé pregada pela Igreja Católica a qual remontava aos apóstolos e ao próprio Cristo. Negavam as doutrinas da Trindade e do nascimento virginal, do purgatório e da condenação eterna num inferno de fogo. Esse conjunto de seitas, deu origem ao termo Cátaro, derivado do grego Kátharos, que significa “puro”. Por envolver muitas pessoas, foi denominada de Heresia Social Cátara. O assassinato de um embaixador do Papa Inocêncio III, enviado em 1208 àquela região, por pessoas desconhecidas, desencadeou a ação de represália da Igreja Romana contra a heresia social cátara. Com o apoio do povo do norte, que invejava a riquesa e prosperidade do Langedoc, formou-se um exército de milhares de homens, que invadiu a região. Foi um massacre total. Tudo foi destruído, reduzindo a região à desolação. Conta-se que quando um oficial perguntou ao representante do Papa, frade Arnaud Amalric, como poderiam diferenciar os hereges dos crentes verdadeiros, este teria respondido:”Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus”. E assim foi feito. Todos foram mortos, homens, mulheres e crianças.

Deste modo, o século XIII, no seu início, presenciou a intolerância da Igreja na Cruzada Cátara, e viu também a criação de uma Instituição que veio a tornar-se temível na Alemanha, França, Espanha e Itália a Inquisição. Com o objetivo de eliminar heresias, juntamente com os héreges, tornou-se um instrumento de repressão a minorias e de exacerbação do poder. Aceitava-se a tortura como instrumento adequado para a obtenção da confissão de um suspeito.

A Inquisição papal foi formalmente instituida pelo Papa Gregório IX em 1231. Seguindo uma lei do Sacro Imperador Romano Frederico II, permitida para os Lombardos em 1224 e extendida para todo o imperio em 1232, Gregorio ordenou que heréticos convictos deviam ser presos pelas autoridades seculares e queimados. Como Frederico, Gregório também mandou que heréticos fossem procurados e investigados antes do contato com a corte da Igreja. Para este propósito ele primeiro escolheu inquisidores especiais (como por exemplo, Conrad de Malburg na Alemanha e Robert, o Bugre, na Burgandia) e, posteriormente, incumbiu a tarefa para membros da recém fundadas Ordens de Monges Dominicanos e Franciscanos. A autoridade independente dos inquisidores era causa frequente de atritos com o clero local e bispos. O procedimento típico começava com com a chegada dos inquisidores numa específica localidade. Um período de benevolência era proclamado à penitentes heréticos, após o que denúncias eram aceitas por qualquer um, mesmo criminais e outras heréticas. Dois informantes cujas identidades eram desconhecidas para a vítima eram suficientes para a acusação formal. A corte então intimava o suspeito, que era conduzido a um interrogatório, e tentava-se obter a confissão que era necessária para a condenação Para conseguir isso, frequentemente eram aplicadas torturas físicas. No começo do interrogatório, o qual era registrado sumariamente em latim por um escrivão, suspeitos e testemunhas tinham que jurar que revelariam todas as coisas. A má vontade para fazer o juramento era interpreta como um sinal de aderência à heresia. Se a pessoa confessasse e era submissa, o julgamento prescrevia penas mais leves como surra com a chibata, jejuns, rezas, peregrinações ou coisas semelhantes. Em casos mais severos, o uso da “cruz da infâmia”, na cor amarela, resultando num ostracismo social, ou aprisionamento, podiam ser impostos.

A negativa da acusação sem contraprovas, recusa de confessar e persistência na heresia resultava nas mais severas punições: prisão pérpetua ou execução acompanhada pela total confisco de suas propriedades. Desde que à Igreja não era permitido tirar a vida, o setenciado herético era entregue para as autoridades seculares para a execução, usualmente queimado na estaca. Quando a Inquisição tinha completado suas investigações, a sentença era pronunciada numa cerimônia solene, conhecido como o “sermão geral” ou, em castelhano, o “ato de fé”, pelas altas dignidades locais, clérigos e o povo da cidade. Aqui os penitentes abjuravam seus erros e recebiam suas penitências. Heréticos obstinados eram solenemente amaldiçoados e entregues para serem queimados imediatamente em público.

Muitos manuais dos inquisitores tem sobrevivido, entre eles o de Bernard Gui e Nicolas Eymeric. Outras fontes incluem listas de perguntas padrão e numerosas atas oficiais dos locais das Inquisições. Alguns desses materiais tem sido publicado, mas a maioria existe somente em manuscritos. Os primeiros inquisitores trabalharam na Europa Central (Alemanha, norte da Itália, leste da França).

Mais tarde centros de Inquisição foram estabelecidos nas regiões mediterrâneas, especialmente no sul da França, Itália, Portugal e Espanha. O Tribunal foi usada na Inglaterra para subjugar os Lollards (seguidores do reformador John Wycliffe, do século XIV). A Rainha Mary I da Inglaterra (1553- 1558) usou o Tribunal no esforço de reverter a Reforma Protestante. A longa sobrevivência da Inquisição pode ser atribuida a antecipada inclusão de outras transgressões, além da heresia: bruxaria, alquimia, blasfemia, aberrações sexuais, e infanticídio.

O número de bruxas e feiticeiros queimados após o século XV parece ter sido maior do que o dos heréticos. Em 1555, o Papa Paulo IV empreendeu violenta perseguição contra suspeitos de heresia, incluindo bispos e cardeais. Em 1559, elaborou a primeira listagem de livros que atentavam contra a fé e a moral : o Indice de livros proibidos (index livrorum proibitorum). A Inquisição passou por especial desenvolvimento em Portugal e na Espanha e suas colônias. Em Portugal, os judeus espanhóis, fugindo da perseguição e da morte que os ameaçava na Espanha, atravessaram a fronteira após pagarem, por cabeça, uma soma em dinheiro ao rei D. Manuel I. Mais tarde, estes judeus foram submetidos ao batismo forçado e as crianças separadas de seus pais e levadas para os arquipélagos de Açores e Madeira para, junto a casais católicos, crescerem na fé cristã. Portugal instalou seu Tribunal de Santo Ofício no Rossio, em Lisboa e, repetiu o drama de autos de fé encerrados com seres humanos na fogueira.

Se o acusado, antes do fogo ser aceso, confessasse sua culpa, era garroteado para não ser queimado vivo. Mesmo assim, as chamas cumpriam seu papel de acabar de purgar os pecados e o fogo era aceso para consumir o corpo. Devido a insistência de Fernando II de Aragão e Isabella I de Castela, o Papa Sixtus IV endossou (1483) a criação da Inquisição Espanhola Independente, presidida por um Alto Conselho e Grande Inquisidor. Lenda tem sido feita pelo primeiro Grande Inquisidor, Tomás de Torquemada, um símbolo de extrema crueldade, beatice, intolerância e fanatismo religioso.
Tomás de Torquemada (1420- 1498) estudou em Valladolid, juntou-se aos Dominicanos como sacerdote do Monastério de Santa Cruz, em Segóvia.

Em 1474, tornou-se confessor e conselheiro dos “Reis Católicos”, Isabela e Fernando. Apesar de, provavelmente, ter tido origem judia, Torquemada investiu furiosamente contra os judeus ortodoxos e contra os Marranos (convertidos do judaismo), além de outros. Aproximadamente duas mil pessoas morreram e outras tantas, foram torturadas por sua autorização. Devido sua influência, junto aos reis Fernando e Isabela, milhares de judeus, não convertidos, foram expulsos da Espanha. A verdade é que a Inquisição Espanhola era particularmente severa, austera, e eficiente devido seus poderosos laços com a coroa. Seus maiores alvos foram os Marranos e os Moriscos (convertidos do Islamismo), muitos dos quais foram suspeitos de secretamente aderirem às suas antigas crenças.

A Inquisição foi finalmente extinta na Espanha em 1834 e em Portugal em 1821. Em Roma, no tempo da Reforma, Papa Paulo III criou uma Comissão de Cardeais como Corte Suprema, em matéria de heresia. Esta Inquisição romana foi solidificada (1588) por Sixtus V na Congregação de Roma, como Inquisição Universal, também conhecida como Sagrado Ofício, cuja tarefa era zelar pela doutrina correta da fé e da moral, para a totalidade da Igreja Católica Romana. Reorganizada em 1908 sob o simples título de Congregação do Santo Ofício, foi redefinida pelo Papa Paulo VI em 1965 como a Congregação para a Doutrina da Fé, com a mais positiva tarefa de promover a correta doutrina ao invés de censurar a heresia.

Bibliografia: História Geral da Civilização - Sérgio B. de Holanda
Enciclopédia Encarta
Enciclopédia Microsoft

M.-.M.-.Alfério Di Giaimo Neto A.-.R.-.L.-.S.-.“Jacques de Molay” N. 2778 - GOSP

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

No Umbral do Mistério

Cansado de buscar, em vão, a substância sob o véu das formas que ela assume, e de chocar-se incessantemente contra a muralha das aparências formais, consciente de um enorme além, o menos místico dos pensadores quis, certo dia, sondar os arcanos do mundo extrasensível. Assim, subiu a montanha até o templo do mistério, chegando a seu limiar. Ora, as gerações anteriores a ele assediaram o santuário sem jamais descobrir nele uma única porta. Renunciando a esse sol interior que faz florir, nos vitrais, rosáceas de luz, não conservaram nada além do ofuscamento de sua miragem eterna. Os solicitadores degraus do templo terminam no granito inóspito das muralhas. No frontão, acham-se gravadas duas palavras que provocam o calafrio das coisas desconhecidas: "SCIRE NEFAS".

Um subterrâneo cuja chave está perdida abre-se em algum ponto do vale. Costuma-se dizer que, no decorrer dos séculos, alguns raros audaciosos souberam forçar o segredo do subterrâneo, onde se cortam inúmeras galerias entrelaçadas: lá jaz o inexorável ministro de uma lei incontestável. O antigo guardião dos mistérios, a Esfinge simbólica, ergue-se sobre o umbral e propõe o enigma oculto: "Treme, Filho da Terra, se tuas mãos não são brancas diante do Senhor! Iod-Heve aconselha apenas aos seus. Ele próprio conduz o adepto pela mão até o tabernáculo de sua glória. O temerário profano, porém, afasta-se infalivelmente e encontra a morte nas trevas do bárathro. Que aguardas? Recuar é impossível. Deves escolher teu caminho pelo labirinto. Cabe-te decifrar ou morrer..."


Acautelai-vos, para não verdes nesses símbolos temíveis vãs ameaças. A alta ciência não poderia ser objeto de uma curiosidade frívola. O problema é sagrado, e sobre ele empalideceram muitas frontes privilegiadas. Assim, questionar a Esfinge por capricho é um sacrilégio nunca impune, pois uma tal linguagem traz em si o verbo de sua própria condenação. À vossa pergunta indiscreta, o Desconhecido formula uma resposta inesperada, tão perturbadora, que a obsessão permanece em vós para sempre. O véu do mistério incitava vossa curiosidade? Ai de vós se o levantas! Ele cai imediatamente de vossas mãos trêmulas e o desatino se apodera daquilo que julgaste ver. Não sabe quem deseja distinguir o raio divino do reflexo mil vezes refratado nos densos meios da ilusão terrestre. Esse arcano será elucidado mais tarde. O que quer que ele seja, os fantasmas da alucinação assombram o umbral do mistério, e perguntai ao livro do doutor Brière de Boismont(24) que passo escorregadio separa a alucinação da loucura. Como veremos, trata-se de uma porta que não podemos transpor sem entrarmos em contato com certas forças das quais nos tornamos senhor ou escravo, governante ou joguete. Trata-se de poderes que a Mística Cristã simbolizou com a imagem da serpente que reduz o homem à escravidão, caso este não a submeta primeiro, esmagando sua cabeça com os pés. Os leitores de Zanoni(25) - o belo romance de Bulwer Lytton - talvez já tenham descoberto, no "monstro inominável" que Glyndon evoca de modo tão desastroso, um mito análogo ao da Gênese. A "coisa horrível e velada", o "guardião do umbral", é a alma fluídica da terra, o gênio inconsciente do nascimento e da morte, o agente cego do Eterno Devir: é a dupla corrente de luz mercurial de que logo falaremos. O autor inglês assinala com grande precisão a reversibilidade da luz astral, de que se tornam vítimas aqueles que não a souberam dirigir: Glyndon é livre para fugir, para debater-se contra a obsessão, mas a influência nefasta o acompanha e o fará tropeçar, de fatalidade em fatalidade, até o dia da catástrofe suprema, até o dia em que Zanoni, delirando na embriaguez do sacrifício voluntário, condenar-se-á, salvando-o.

Penetremos o sentido esotérico dessas alegorias, reservando o outro para depois. Uma coisa são os males do coração, que habitualmente sucedem emoções violentas; uma coisa é a morte iminente por congestão cerebral; outra coisa são os perigos de natureza mais estranha, que mencionaremos oportunamente. A prática imprudente do hipnotismo, a fortiori da magia cerimonial, não deixa de inspirar ao experimentador um insuperável desgosto pela vida. O próprio Eliphas(26) - adepto que foi, e de ordem superior - confessa que sentiu, depois do curioso experimento de necromancia que fez em Londres em 1854, uma profunda e melancólica atração pela morte, ainda que sem a tentação ao suicídio. O mesmo não se passa com os ignorantes que se lançam, de corpo e alma, ao magnetismo, campo cujas leis desconhecem; ou ao espiritismo, algo que por si só constitui uma aberração e uma loucura. "Felizes", proclama o célebre Dupotet, "aqueles que morrem de uma morte rápida, de uma morte que a Igreja reprova! Tudo o que há de generoso se mata..."(27)


A história está repleta de exemplos de fatos como esse. Tendo anunciado profeticamente o dia de sua morte, Jérôme Cardan suicidou-se (l576) para não desmentir a Astrologia. Schröppfer de Leipzig, no auge de sua glória como necromante, provocou sua morte com um tiro na cabeça (1774). O espírita Lavater morreu misteriosamente (1801). Quanto ao sarcástico abade de Montfaucon de Villars, que tanto ridicularizou o conde de Gabalis(28), talvez nem se saiba a última palavra de seu trágico fim (1673).
Assim, sobre os entusiastas do maravilhoso e os temerários amadores de revelações de além túmulo, sopra um vento de ruína e de morte. Como seria fácil estender a lista necrológica! Mas pouco importa. Inacessíveis à louca curiosidade, bem como rebeldes às emoções doentias, somente podem afrontar impunemente as operações da ciência aqueles que sabem distinguir um fenômeno de uma prestidigitação e que encouraçam os seus sentidos contra toda e qualquer ilusão. Merece o nome de adepto aquele experimentador que tranqüilamente diz a si mesmo: "Meu coração não há de bater mais depressa: a força invisível que desloca esses móveis com estrépito é uma corrente ódica submissa à minha vontade. A forma humana que se condensa e se avoluma nos vapores desses perfumes nada mais é do que uma coagulação fluídica, reflexo colorido do sonho de meu cérebro, criação azótica do verbo de minha vontade..." Quem fala assim não corre, é claro, nenhum perigo; merece o nome de adepto.
Todavia, bem poucos podem reivindicar esse título. Tais homens, se outrora eram raros, hoje é ainda mais difícil encontrá-los. Pouco inclinados, aliás, a aparições públicas, vivem e morrem ignorados. É para os mais ruidosos que correm os néscios; é aos mais pretenciosos que cabe a fama. Taumaturgos teatrais, doentes excêntricos, é a esses que a celebridade sorri e consagra: era feiticeiro Simão, ao tempo de São Pedro: no século passado, eram Etteilla, o cartomante, e o extático Théot; ontem, eram Home, o médium, e Vintras, o profeta!... Alguns outros - esses verdadeiros sábios - também causam furor, mas graças a certos traços equívocos ou charlatanescos de seu caráter: assim, o conde de Saint-Germain e o divino Cagliostro; Pierre le Clerc, o beneditino fatídico, e o espiritualíssimo quiromante Desbarrolles.


Todas as vezes que um charlatão despontou cingido por uma aura de magicidade, com um cetro grotesco na mão, tudo o que tinha de odioso recaiu sobre verdadeiros adeptos. Na verdade, estes beneficiaram-se do escárnio, enquanto aqueles se beneficiaram do dinheiro. Essa, indubitavelmente, foi a causa maior das calúnias que tanto sofreram - sobretudo na Idade Média - os discípulos de Hermes, de Zoroastro e de Salomão: os magos eram acusados das práticas criminosas, obscenas e blasfematórias que os feiticeiros e feiticeiras realizavam no sabbat. Todos os delitos desses monstros de ambos os sexos - violações, malefícios, envenenamentos, sacrilégios foram imputados a iniciados superiores, sobre cuja vida privada pairavam as mais abomináveis maledicências; e sua doutrina reputada como uma trama de intensa inépcia e de grosseiras injúrias contra o Cristo e a Virgem Maria, tornou-se espantalho das almas piedosas e objeto de escárnio das pessoas de espírito.
Deve-se confessar, aliás, que o simbolismo esotérico dos livros de Hermetismo e de Cabala não deixou de acentuar o desprestígio das altas ciências entre os espíritos superficiais. Para isso contribuía a visão de conjunto: os complicados sinais de planetas, as letras hebraicas dos hierogramas, os caracteres árabes dos grimórios, a alta fantasia aparente dos pantáculos e a bizarria mística das parábolas, coisas extremamente diabólicas no entender dos parvos e ignaros, à primeira vista pueris, no entender dos espíritos lógicos, e, de qualquer forma, excitantes da curiosidade de cada um. Em todos os tempos, os sábios escreveram e falaram a língua dos mitos e das alegorias, mas a obscuridade da forma jamais se fez sentir tão densa e misteriosa como na Idade Média, até o século passado; a intolerância dos inquisidores, a constante ameaça da fogueira e o fanático desatino da população diante da simples menção da palavra feiticeiro justificam suficientemente a precaução dos adeptos. A ciência oculta assemelha-se a esses saborosos frutos protegidos por cascas espessas e duras: agrada-nos retirar laboriosamente a casca; a polpa suculenta do fruto com certeza ressarcirá o nosso sofrimento.


Foi a alquimia vilipendiada muito cruelmente e a transmutação dos metais ridicularizada à vontade? Não se trata, aqui, de fazer apologia ou, mesmo, uma exposição da arte espagírica. Exultamos, porém, ao transcrever, para a confusão dos parvos difamadores, a recente apreciação daquele que é, talvez, o maior químico da França contemporânea, Berthelot, em suas Origens da Alquimia: "Reconheci não somente a filiação das idéias que os (os alquimistas) levaram a almejar a transmutação dos metais, como também a teoria, a filosofia da natureza que lhes servira de fundamento, teoria essa fundada na hipótese da unidade da matéria E, NA REALIDADE, TÃO PLAUSÍVEL QUANTO AS TEORIAS MODERNAS QUE HOJE GOZAM DO MAIOR PRESTÍGIO... Ora, que estranha circunstância! As opiniões a que os sábios tendem a voltar suas atenções, sobre a constituição da matéria, não deixam de ser análogas às profundas visões dos primeiros alquimistas"(29).
Vê-se com isso como nosso ilustre contemporâneo revela as filosofias herméticas. Sua admiração talvez fosse bem maior se, plenamente iniciado no espagirismo esotérico, penetrasse o triplo sentido dessas locuções especiais que seu gênio só pôde adivinhar de modo imperfeito(30).
Mas a alquimia é apenas uma parte mínima da ciência, ensinada nos santuários da antiguidade. Não é revoltante pensar que, ainda hoje, os espíritos lúcidos ainda não aprenderam a distinguir entre as orgias sanguinolentas do sabbat legendário, os monstruosos priapismos da magia negra e os faustos dessa ciência tradicional dos iniciados do Oriente, síntese gigantesca e esplêndida que traduz em imagens grandiosas augustas verdades apenas vislumbradas pelos pensadores de todos os tempos, e luminosas hipóteses, deduzidas por analogia, que hoje a ciência, mais esclarecida e mais racional, tende a confirmar.


Qual Valmiki da Europa cantará as civilizações tirânicas do mundo primitivo, os grandes ciclos intelectuais testemunhados pela Alta Magia? E, para celebrar dignamente esta mãe de todas as filosofias, quem nos dirá a epopéia de sua glória resplandecente sobre as nações antigas, e o recente drama do martírio de seus adeptos, perseguidos pela Igreja e alvejados pelas calúnias do mundo inteiro?... Assim se apresenta para nós a alta Ciência através da humanidade, maldita e desprezada desde a traição dos gnósticos dissidentes; confundida, na imaginação aterrorizada das massas, com a imunda feitiçaria; desacreditada pelos falsos sábios cujos sonhos fúteis ela solapa, desatinando a escolástica em delírio; crivada, enfim, de anátemas de um presunçoso sacerdócio, desprovido de sua iniciação primitiva!... De tal forma se nos apresenta esta ciência ao longo de pelo menos quinze séculos de história, que, mergulhando fundo no passado, hesitamos em reconhecê-la, resplandecente e sagrada nos santuários do mundo antigo e, mais tarde, conferindo um puro esplendor ao cristianismo oculto dos primeiros Papas.
Não é que a antigüidade não tivesse seus feiticeiros - e, sobretudo, feiticeiras. A magia envenenadora conquistou, com as megeras da Tessália e da Cólquida, uma lúgubre celebridade. Visitantes noturnas de tumbas, vestais impuras de lugares desertos, elas misturavam, na seiva narcótico-acre dos meimendros negros e das cicutas, o leite cáustico do titímalo e faziam digerir extratos de acônito licoctone e de mandrágora com inomináveis venenos e humores obscenos. Depois, seus encantamentos saturavam essas misturas com um líquido que se tomava tanto mais mortífero quanto mais dolorosamente o seu ódio, por muito tempo contido, o tivesse elaborado e projetado em uma cólera mais venenosa e tácita. As cozinhas de Canídia (tão horrendas que, à sua vista, a lua se velava, conforme se diz, com uma nuvem sangrenta) tiveram a honra de provocar o desgosto lírico de Horácio, cujos detalhes não é preciso descrever aqui, presentes que estão na memória de todos os aficionados do poeta.


Não menos célebre é a lenda que Homero poetizou, a saber, a dos companheiros de Ulisses, enfeitiçados, que se tornaram porcos submissos à varinha de Circe. Todos beberam da poção e sofreram a metamorfose; isso implica um duplo símbolo: o da derrota a que são predestinadas as naturezas passivas no combate da vida e o da servidão a que nos reduzem as paixões físicas não equilibradas por uma iniciativa sempre desperta (paixão, pois, exprime um estado passivo). Todos beberam, dissemos. Ulisses, porém, recusa molhar os lábios na taça encantada e no tom calmo, próprio da força consciente de si mesma, com o gládio em punho, num gesto de ameaça, ordena à maga que quebra o sortilégio fluídico. O príncipe, aqui, representa o Adepto, o mestre dos fluidos, pois que, hábil em desmontar a armadilha, sabe imprimir às ordens que dá o verbo autoritário de sua vontade. Nele, Circe reconhece o homem mais forte que todos os encantamentos e, com a cabeça baixa, obedece.
Mais sanguinária e mais perversa, Medéia também deve aos poetas o lamentável privilégio de sua ilustração; muitos cantaram sua vida errante. Medéia envenena seus próximos, queima e massacra seus filhos. Refugiada em Atenas, perto do rei Egeu, que a torna mãe, ela dá largas aos seus instintos de depravação feroz e de inveja, confiante na impunidade, até o dia em que seus crimes suscitam a indignação de toda a cidade. Pálida apupada e apedrejada pelo povo, a infeliz vê-se forçada a fugir, com os olhos incendiados por um ódio implacável, apertando no peito o único filho que poupara, qual um fruto duplamente sagrado pelo adultério e pela vingança.


Pouco importa que a história dessas duas irmãs de malefício seja real ou legendária. As individualidades fabulosas são tipos de síntese moral em que se encarna o gênio médio de uma raça ou de uma casta. A estirpe execrável das sagas da Hélade fez desabrochar Medéia em uma suprema expansão de vigor. Sim, as abominações a que se refere o povo com referência a empusas e vampiros foram literalmente realizadas pelas feiticeiras do mundo antigo, criaturas a quem a cólera pública conferiu, aliás, os nomes de estrige e de lâmia.
Entretanto, deixemos esses horrores. Se na Idade Média monstros desse tipo foram confundidos, aqui e acolá, com os verdadeiros iniciados, é que estes - repito - necessariamente suspeitos de heresia, excomungados ipso facto, encurralados como cervos, viam-se obrigados a ocultar nas trevas o mistério de sua dolorosa existência. Desde então, a calúnia vigorou. Mas tal coisa, graças a Deus, não era possível ao tempo em que a teurgia enchia os templos de maravilhas e em que o mago, calmo e benfazejo em seu ilimitado poder, reinava, inviolável como um soberano, venerado como um Deus...
Meditai sobre o livro magistral de Saint-Yves d'Alveydre - A Missão dos Judeus(31). Religioso perscrutador das necrópoles do passado, perquirindo até os mínimos detalhes das raças e das religiões orientais, o eminente ocultista estabeleceu, com base nas provas mais irrefutáveis, uma verdade que Fabre d'Olivet(32) e, posteriormente, Eliphas Levi(33) já haviam entrevisto de forma lapidar, ou seja, o fato de a Gênese ser uma cosmogonia transcendente em que os mais profundos arcanos da santa Cabala são revelados simbólica e hieroglificamente. Mas a Cabala primitiva é filha do Hermetismo egípcio, cujos mitos primordiais foram hauridos pela grande fonte hindu. Saint-Yves não se detém, portanto, em Moisés. Como um navegador, explora o rio dos tempos passados. Desfraldando todas as velas, sobre o curso dos séculos até a origem do ciclo de Ram.


Eis aqui o imenso império arbitral do Carneiro. Seu governo "sinárquico", cuja organização ternária conforma-se às leis da ciência e da harmonia, faz florescer sobre a Terra, durante dois mil anos, a idade de ouro celebrada por Ovídio. Dos três conselhos encarregados da gestão dos negócios, os dois primeiros compõem-se, respectivamente, de hierofantes admitidos na iniciação suprema, e de adeptos laicos. Ram conquistou um terço do mundo apenas com vistas a pacificação. Uma vez atingido esse objetivo, renuncia ao gládio, à coroa e ao estandarte do Carneiro, em uma palavra, renuncia aos poderes executivo e militar, deixando-os nas mãos do primeiro príncipe indiano. Assim, colocando a tiara do Soberano Pontífice universal, arvora a auriflama do Cordeiro - hieróglifo do sacerdócio. Este realizador da mais vasta síntese que a mente humana pôde conceber, este soberano do mais gigantesco império civilizado que César ousou cobiçar em sonho, troca a coroa imperial pelo cetro do mago dos magos e pela divindade terrestre; pode-se dizer, pois, que esses hierofantes exerciam, então, a divindade sobre o microcosmo.
Durante mais de trinta séculos, até o cisma de Irschu, a grande obra de Ram prospera em ordem e em paz. Queremos transcrever, aqui, a enumeração das metrópoles religiosas do Império, de acordo com Saint-Yves.
"Os santuários mais célebres deste antigo culto lâmico foram, entre os indianos, os de Lanka, Ayodhia, Guzah, Methra e Dewarkash; no Irã, os de Vahr, Balk, Bamiyan; no Tibete, os do monte Boutala e de Lassa; na Tatarah, os de Astrakan, Gangawas e Baharein; na Caldéia, os de Ninweh, Han e Houn; na Síria e na Arábia, os de Askala, Balbeck, Mambyce, Salem, Rama, Meca e Sanah; no Egito, os de Tebas, Mênfis e Amon; na Etiópia, os de Rapta e de Meroe; na Trácia, os de Hemus, Balkan e Concayon ou Goy-Hayoun; na Grécia, os de Parnasso e de Delfos; na Etrúria, o de Bolsena; em Osk-tan, antiga Ocitânia, o de Nimes; entre os iberos da Espanha, irmãos dos hebreus e dos iberos do Cáucaso, os de Huesca e Gades; entre os golacks (gauleses), os de Bibracte, Perigueux, Chartres, etc..."
Esse excerto pode dar uma idéia do que foi o império de Ram. Entretanto, não nos propomos a um ensaio de história. Os curiosos que buscarem no livro de Saint-Yves o quadro completo desta "sinarquia arbitral" serão inteiramente informados da sua organização, suas leis e seu destino, desde sua origem até o seu apogeu, de sua decadência até o seu desmembramento: o cisma de Irschu, o positivista, que pretende cindir a idéia de Deus e que, excluindo o princípio ativo e paternal, faz subir seu incenso na direção do princípio produtor passivo; a tirania da Babilônia e de Nínive e a falsa interpretação do dualismo de Zoroastro; as distâncias faraônicas; a China de Fo-hi; a emigração dos hebreus dirigida por Moisés, etc...


Seriam necessários diversos volumes para acompanhar até nossos dias a transmissão do sacerdócio mágico - se o fizéssemos sem interrupção. Sem pretender ao menos esboçar uma visão global, nós nos restringiremos a alguns aspectos característicos.
Na medida em que avançamos na história, vemos deslocar-se a hierarquia universal. Observamos que a unidade primitiva é paulatinamente rompida por uma multiplicidade de cismas, que sobre as ruínas dos grandes colégios de magos - esses centros oficiais, de alta iniciação psíquica e mental, que outrora espargiam luz e calor por sobre o mundo pacificado - surgem adeptos individuais. O ensinamento geral das universidades ocultas é sucedido por escolas particulares de mestres independentes. Constituem exceção, no entanto, alguns santuários célebres, tais como Delfos, Mênfis, Preneste, Elêusis, entre outros. O inevitável desmoronamento destes santuários foi retardado por muito tempo, mas o nível do ensino, materializado, decaiu pouco a pouco.
Dilacerada pela queda do Supremo Pontificado universal, a centralização hierárquica não mais opunha ao transbordamento das paixões a sua barreira tutelar: os sacerdotes tornaram-se homens novamente. A pior das rotinas - a da inteligência - elegeu os templos como domicílio e o espírito passa a ser substituído pela letra. Os pontífices logo perderam até mesmo a chave tradicional dos hieróglifos sagrados, para realizar-se, assim, em todo o mundo conhecido, a profecia de Thoth, o Trismegisto: "Egito, Egito! De tuas religiões restarão apenas vagos relatos em que a posteridade não mais acreditará, palavras gravadas sobre a pedra, relatando tua piedade... O Divino retornará ao céu, a humanidade, abandonada, perecerá por inteiro, e o Egito será deserto e vazio de homens e de deuses!... Ela, que outrora fora a terra santa, amada pelos deuses por sua devoção a eles, será a perversão dos santos, a escola da impiedade, o modelo de todas as violências. E então, cheio de desgosto pela matéria, o homem não mais terá pelo mundo qualquer admiração ou amor(34)"...


Esta será, verdadeiramente, a palavra vibrante do legendário personagem que passa, sob o nome de Hermes Thoth, por tríplice fundador da religião, da filosofia e da ciência egípcias? A crítica moderna inclina-se a contestar a autenticidade do Poimandres (Poemander), de Asclépio e da Koré Kosmu (Minerva mundi), bem como de outros fragmentos herméticos. Com efeito, não há erro quanto à pessoa? Sabe-se que os hierofantes conferiam a si próprios, juntamente com a tiara, o nome de Hermes e o sobrenome de Trismegisto. Posteriormente, tais dogmas, próximos da doutrina cristã, parecem denunciar a autoria de um neoplatônico... Portanto, é preciso ter cuidado! Se o cristianismo é apenas um modo novo da antiga ortodoxia universal, essas semelhanças justificam-se de outra forma que não pelo plágio. Aliás, dificilmente poderíamos ver nos filósofos alexandrinos os autores desta Tábua de Esmeralda, de um conteúdo iniciático magistral. Acreditamos, assim, na antiguidade dos fragmentos de Hermes. [A forma, sem dúvida, pode ter sofrido alteração ou ter sido rejuvenescida pela pena dos tradutores e dos copistas, mas o essencial data de época mais remota e não variou](35). Trata-se, então, de um hierofante da época áurea que, mergulhando nos confins da posteridade, prediz desventuras para a terra dos faraós, como Jeremias para a cidade santa dos Hebreus. Lamentamos ter de mutilar esta grandiosa página. Entretanto, todos poderão lê-la no Asclépios.
Jamais uma predição se realizou de modo tão estranho. Tanto isso é verdade, que, segundo "homens sérios" deste século, os antigos egípcios adoravam a esfinge e outros animais fantásticos cujas figuras podemos encontrar sobre os restos de seus monumentos. Dia virá, sem dúvida, conforme supõe Eliphas, em que algum ocidentalista definirá o objeto de nosso culto: um deus tríplice, composto de um velho, um supliciado e um pombo. Ah! Antes os iconoclastas do que os imbecis! Quebremos todas as imagens simbólicas, se é que se degenerarão em ídolos! De qualquer forma, os pensadores podiam contar com essa materialização do culto: prescrevendo a transmissão dos altos mistérios apenas com bom conhecimento de causa e mediante ensinamento oral, a lei mágica expunha seus adeptos negligentes à possibilidade de perder a inteligência dos mitos sagrados. "É a pura justiça", talvez respondesse, a essa censura, um hierofante dos velhos tempos. "Antes a ciência perecer, um dia, do que cair em mãos indignas!..."


Se é verdade que os santuários ortodoxos desmoronaram após uma agonia de grande duração, algumas sociedades de adeptos laicos perpetuaram-se, ao menos, até os nossos dias. Não vemos aqui, necessariamente, a franco-maçonaria, cuja origem dita adonhiramita e salomônica, não fez senão homens ludibriados conscientes e encantados por assim serem. Trata-se, na realidade, de raros colégios - aquela associação dos Mahatmas, por exemplo, que nos assinala um Louis Dramard em sua brochura intitulada A Ciência e a Doutrina Esotérica(36). Apaixonados por um ascetismo panteísta, talvez errôneo, mas notáveis por sua síntese cósmica e sua ciência espantosa de realização, os Mahatmas sucedem-se, diz ele, desde tempos imemoriais, sobre os altiplanos do Himalaia. É lá que vivem no retiro e mergulhados nos estudos. A Sociedade Teosófica, muito próspera nas Índias Inglesas e em todo o império britânico, estendendo diversas ramificações até Paris, reivindica esses mestres orientais, inspiradores diretos da interessante revista (O Teosofista) que foi fundada em Madras sob os seus auspícios.
Mas retomemos ao mundo antigo. Quando Moisés, sacerdote de Osíris, deixou o Egito levando consigo a multidão bastante miscigenada, que guiou pelo deserto até Canaã, a decadência sacerdotal, que mal se notava em Mizraim, acentuou-se entre os outros povos em que a usurpação cismática dissolvera a autoridade arbitral. A gangrena moral invadiu sobretudo o país de Assur, tiranizado, desde o advento de Ninus (2200 a.C.), por uma seqüência ininterrupta de déspotas conquistadores.


Alguns séculos antes, três homens haviam despontado: entre os indianos, Chrisna (3150); na Pérsia, Zoroastro (3200); na China, Fo-Hi (2950). Cabia-lhes derrubar o sanguinolento nemrodismo e reconstituir parcialmente a antiga teocracia do Carneiro. Não nos interessa aqui descrever a obra de regeneração social levada a efeito no Oriente por esses três benfeitores da humanidade. O leitor sequioso de detalhes poderá recorrer ao livro de Saint-Yves, autor de cuja eminente cronologia fizemos uso e a quem exprimimos nosso reconhecimento. Observamos apenas, do ponto de vista hermético, a aparente reforma que Zoroastro, rei da Pérsia, introduziu na teologia esotérica. Aqueles que se ocupam das religiões orientais conhecem o significado hieroglífico das quatro letras do divino tetragrama. Símbolo não do Ser absoluto que o homem não pode definir, mas, antes, da idéia que tem dele(37), o vocábulo Iod-heve ou Jehovah (U Y U W ), que os cabalistas pronunciam letra por letra: iod, he, vau, he, analisa-se da seguinte maneira:
W Iod: o espírito masculino; princípio criador ativo; Deus em si mesmo; o Bem. Corresponde ao signo do falo, ao cetro do tarô, e à coluna Iakin do templo de Salomão. (Em alquimia é o enxofre ? ).
U He: a substância passiva; princípio produtor feminino; a alma universal plástica; a psíque viva, a potencialidade do Mal; representados pelos cteis, pela taça de libações do tarô, e pela coluna Boaz. (Em alquimia, é o mercúrio ? ).
Y Vaf ou Vau: a união fecunda dos dois princípios; a copulação divina; o eterno devir; representados pelo lingham, pelo caduceu e pela espada do tarô. (Em alquimia, é o Azoto dos Sábios \ ).
U Hé: a fecundidade da natureza no mundo sensível; realizações últimas do pensamento encarnado nas formas; os ouros do tarô. (Em alquimia, é o sal). Esta última letra associa à idéia de Deus a do universo, como finalidade: também o tetragrama Ieve (Iod-heve), aliás tão admirável, é, neste sentido, de uma envergadura menos precisa que o tetragrama } LO} (Agla), cuja quarta letra, exprimindo a síntese absoluta do Ser, afirma vigorosamente a unidade em Deus.


Pois bem, para a compreensão do vulgo, Zoroastro reduziu os termos a dois: o ativo e o passivo, o bem e o mal. Suprimindo, pois, pelo menos aparentemente, o princípio equilibrante, pareceu criar o império do demônio. Os iniciados, sem dúvida, sabiam como proceder. Assim, denominavam Mithras-Mithra o terceiro princípio, que mantém o equilíbrio harmônico entre Ormuzd e Ahriman. Todavia, a partir do momento em que Zoroastro, talvez sem saber, pareceu sancionar a crença no Binário impuro, símbolo de um eterno antagonismo, o reino de Satã foi estabelecido na imaginação do vulgo, e o inferno maniqueísta que aterrorizou toda a Idade Média não tem outra origem senão esta.
Entretanto, longe de querer cindir Deus, reagindo contra Irschu que, no Ser, divinizara a mulher, Zoroastro masculinizou o segundo princípio. Nada de passivo, com efeito pode ser concebido nos atributos do Ser essencialmente ativo e criador. Do mesmo modo, aos olhos dos Padres da Igreja - e pelo mesmo motivo - a segunda pessoa em Deus é o filho, e não a mãe, que a existência do filho supõe como condição. Como se vê, foi inteiramente sem razão que se suspeitou de Zoroastro como preconizador de um dualismo anárquico. Todavia, aos olhos dos profanos, o mal já estava feito, e o ensinamento errôneo do segundo Zoroastro em nada atenuou as suas conseqüências.
Quanto a Fo-Hi, veremos como os seus Trigramas correspondem ao pantáculo macrocósmico de Salomão (a estrela de seis pontas, formada por dois triângulos entrelaçados com base paralela - representativos dos mistérios do equilíbrio universal).
Mas, depois deste longo parênteses, voltemos ao fundador dos Bene-Israel.
Imbuído dos princípios da ortodoxia dórica e confirmado nesta doutrina pelo hierofante árabe Jethro, seu sogro, Moisés modelou o governo de seu povo pelo antigo modelo sinárquico. O conselho de Deus, ou dos sacerdotes de Israel, foi escolhido na tribo, a partir de então sacerdotal, de Levi. E foi da assembléia dos iniciados laicos, ou conselho dos Deuses, que surgiram mais tarde nabis e profetas, para lembrar aos soberanos e pontífices o seu dever esquecido.


Contudo, o epopta-legislador eclipsou, em toda a sua vida, os membros dos conselhos por ele mesmo criados. Notável taumaturgo - até o advento do Cristo, Israel jamais conheceu outro igual - Moisés ilustrou a sua carreira com uma multiplicidade de prodígios, que testemunham seu império absoluto sobre as forças fluídicas e misteriosas. O próprio rei dos magos, Salomão, não realizou obras que se comparem às suas. Porém, é nos livros mosaicos (Gênese, Êxodo, Números, Deuteronômio) que vemos o mais fascinante e imortal de todos os seus milagres. Diante do Pentateuco, tríplice obra-prima de poesia, ciência e sabedoria, os livros de Salomão parecem-nos pálidos. Nada no Antigo Testamento consegue atingir a altura da revelação mosaica, com exceção das páginas de hermetismo épico assinaladas pelo nome de Ezequiel. Monumentos sublimes, sem dúvida, de poesia oriental, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos(38) - passionais em suma, embora de caráter bastante diverso - parecem menos profundos e de inspiração menos luminosa.
Em Israel, como em outros lugares, o sentido esotérico das alegorias primitivas perdeu-se pouco a pouco, e os grandes sacerdotes deixaram de compreender o próprio simbolismo do culto, quando Jesus Cristo veio vivificar, reanimar o eterno dogma - que dormia sob o véu já vetusto da revelação mosaica -, dando-lhe uma roupagem nova, mais coerente com a alma mística do mundo rejuvenescido. Achamos prudente não falar aqui dessa missão divina, pois onde a fé começa talvez seja conveniente que a ciência pare, a fim de evitar tristes mal-entendidos. Assim, evitemos falar nos Evangelhos; no momento, não penetremos o seu simbolismo, e sempre que, no decorrer deste rápido esboço, nos for necessário falar de crenças religiosas, declaremos de uma vez por todas que, nem um pouco competentes em matéria de fé, temos em mira os homens e os fatos apenas do ponto de vista da inteligência e da razão humanas, e sem jamais pretender dogmatizar.
Decorridos cerca de cem anos desde a morte do Cristo, os seus ensinamentos se foram disseminando gradativamente. O sangue de seus mártires - pela paz futura - já havia, então, batizado as três partes do mundo conhecido, quando os gentis, confundidos pelo progresso da fé cristã, decidiram opor Messias a Messias e investir altar contra altar. A caducidade dos velhos cultos necessitava imperiosamente de uma nova revelação. Simão, o taumaturgo, lutara em vão pela deificação de Helena, sua concubina, e de sua própria pessoa. Surgiu apenas um homem que parecia suficientemente grande para ser colocado ao lado de Jesus de Nazaré... Iniciado nos mistérios de todos os templos do mundo, Apolônio de Tiana semeara prodígios por onde passara, e foi de acordo com as memórias de Damis, o Assírio, um de seus fiéis, que Filostrato (193) escreveu, em grego, o evangelho do mago(39). "Spiritus flat ubi vult..." Sobre o engenhoso repositório de sábias alegorias, narradas artisticamente, no melhor estilo, o espírito vivificador não emitiu seu sopro. A multidão, pois, não se dirigia ao mago Apolônio. E, dois séculos mais tarde (363), vítima de uma tentativa análoga de restauração teocrática, pôde o imperador Juliano, em seu último suspiro, erguer ao céu suas mãos debilitadas, cheias de um sangue inutilmente derramado, e, adepto e sábio, clamar, antes com lassidão do que com ressentimento: "Venceste, Galileu!..."


Porém, antes de tratar dos iniciados de nossa era, acossados pelas maldições mais ou menos efetivas do Cristianismo triunfante, consagremos algumas linhas à Grécia antiga. Os limites do presente ensaio não comportam uma análise da imensa epopéia mística cujas poéticas lendas foram celebradas por Homero, Ésquilo, Hesíodo. Assim, nós nos restringiremos a saudar, em um personagem cuja existência tem sido posta em dúvida pelo mundo moderno, o grande iniciador das raças helênicas.
Contemporâneo de Moisés, educado juntamente com ele em um santuário de Tebas, Orfeu retornou ainda jovem à Hélade, onde nascera. Enquanto Moisés e os seus pisavam as areias áridas da Ásia, Orfeu, sacerdote-oráculo do grande Zeus, revia, sob o olhar severo de Iod-Heve, o arquipélago azul e a península natal, verdejante de murtas e oliveiras. À sua cara pátria, assolada pela desordem, trazia ele a Ciência absoluta, haurida nas próprias fontes da Sabedoria - a eterna Ciência do Ser inefável, designado por Osíris, Zeus ou Iod-Heve.
Quando desembarcou, modulando na lira de sete cordas sua alma expansiva e sonora de apóstolo e de rapsodo, a terra predestinada estremeceu toda, atenta aos seus acentos. Orfeu pregou o evangelho do Belo e converteu os povos pelo prestígio da lira santa. Assim, edificou-se uma restauração teocrática. A partir desse dia, o Gênio grego, revelado a si mesmo, concebeu o harmonioso Ideal que o consagra imortal entre todos.


A harmonia é civilizadora. Assim, Virgílio, um iniciado, mostra-nos o aedo em êxtase, fazendo chorar os animais selvagens, dóceis diante do magnetismo de sua voz, fazendo fremir de amor os carvalhos, que se vergam para ouvi-lo: Mulcentem tigres et agentem carmine quercus.
A harmonia é criadora. Assim, a Tebas de Anfião, constituída ao som da lira, é de um simbolismo análogo. Todos esses mitos não são destituídos de profundidade. Marcam esplendorosamente o caráter estético que a magia assumiu na Grécia.
A doutrina de Pitágoras é irmã daquela de Orfeu, assim como as matemáticas pacientes são irmãs da música inspirada; analisam seus acordes e denominam as suas vibrações. No Egito, Pitágoras aprende a Ciência já decadente dos magos. Recebe, na Judéia, das mãos dos nabis Ezequiel e Daniel, uma iniciação parcimoniosamente sincera(40). Cabe ao seu gênio preencher, através da intuição, essas lacunas. De qualquer forma, seu Tetractys e sua Tríade correspondem, rigorosamente, ao Tetragrama e ao Ternário cabalísticos.
Quanto ao esoterismo de Platão, devolvido mais tarde e sutilizado pelos teurgos de Alexandria, fundir-se-á, nas mãos dos Gnósticos, com o cristianismo oculto, imediatamente derivado da doutrina essênia. As obras de São Clemente de Alexandria, de Orígenes, de São Denis, o Areopagita, e do bispo Sinésio testemunham irrefutavelmente este intercâmbio dogmático. Parece que, inconscientemente, os herdeiros do mundo antigo trataram, de potência a potência, com os fundadores do novo mundo para firmar, de comum acordo, um compromisso filosófico. Em São João, reencontramos a tradição secreta, mas, integral, dos velhos mestres de Israel, a tal ponto que o Apocalipse forma, juntamente com o Zohar, o Sepher Ietzirah(41) e algumas páginas de Ezequiel, o mais puro corpo doutrinário e clavicular da Cabala propriamente dita.
Além disso, Porfírio e Jâmblico, por mais pagãos que se proclamem, pregam o Cristianismo sem o saber, ao lançarem os retalhos de um véu místico envelhecido sobre estes mesmos grandes princípios que o simbolismo cristão acaba de revestir, de modo tão magnífico, com novas alegorias, mais de acordo com o gênio da era nascente.


Lastimavelmente, porém, a Igreja não soube reservar para si mesma, por muito tempo, a chave do inestimável tesouro, confiado à guarda de seus altos prelados. Tal chave garantia a unidade hierárquica nas mãos do Soberano Pontífice (daí em diante, indispensável como revelador); penhor de ortodoxia infalível nas mãos dos Príncipes do sacerdócio (mesmo para, a partir daí, controlar tudo, à luz da síntese fundamental), tal chave - que é a do Bem e do Mal - só poderia abrir, para o vulgo, o reino das trevas. A razão transcendente do dogma acha-se muito acima do nível intelectual das massas, sendo que as mais graves heresias são verdades mal compreendidas.
Alguns iniciados na Gnose, invejando a autoridade hierárquica, resolveram fazer com que ela perdesse o tesouro da tradição oculta. A malícia desses homens empenhou-se, subrepticiamente, no sentido de levantar todos os véus. Chegou um dia em que, revelado em suas mais secretas fórmulas, o dogma esotérico foi posto à mercê da estupidez das multidões. A luz ofuscante cegou os olhos fracos. Diante da suprema sabedoria, os ignorantes julgaram-se feridos em sua parvoíce e se escandalizaram. A Igreja, então, teve que anatematizar a inscrição sublime do templo, a razão positiva e a razão real do dogma: esta Gnose santa dos adeptos que, temerariamente traduzida para a linguagem das massas, tornara-se, para a imbecilidade delas, o objeto do maior escândalo - uma mentira!
Ah! tinha toda razão o bispo Sinésio quando escreveu: "O povo sempre escarnecerá das verdades simples. Ele necessita de impostores... Um espírito amigo da sabedoria e contemplador da verdade sem véus é forçado a disfarçá-la para obter a aceitação das massas... A verdade torna-se funesta aos olhos frágeis demais para sustentar o seu esplendor. Se as leis canônicas autorizarem a reserva das apreciações e a alegoria das palavras, aceitarei a dignidade episcopal que me oferecem, mas sob a condição de me ser lícito filosofar em casa e contar, lá fora, parábolas reticentes. O que pode haver em comum, na verdade, entre a multidão vil e a sabedoria sublime? A verdade deve permanecer oculta. Às massas só se deve dar um ensinamento proporcional à sua limitada inteligência(42)..."


Eis o que os anarquistas e tribunos jamais compreenderão.
Embora o esoterismo sacerdotal tenha sido condenado sob o nome de Magia, os papas, segundo se diz, conservaram misteriosamente as suas chaves, até Leão III. Bons espíritos lograram sustentar a autenticidade do Enchiridion, compilação cabalística publicada sob o nome deste pontífice. Quanto ao Grimório de Honório, ocorre algo bem diferente: consta, segundo uma engenhosa pesquisa de Eliphas Levi, que esse ritual blasfematório seria a obra ignominiosamente maquiavélica do antigo Cadalous.
Montan, Manés, Valentin, Marcos, Ario, todos os heresiarcas dos primeiros tempos apresentam-se, em maior ou menor grau, como feiticeiros. Entretanto - com exceção dos teósofos de Alexandria - foi somente Apuleio (114-190), platônico como eles, que fez jus, nessa época, ao título de adepto. Seu Asno de Ouro, em que o burlesco roça o sublime, dissimula, através de engenhosos emblemas, as mais altas verdades da ciência, e a fábula de Psique, contida nessa sua obra, nada deixa dever aos mais belos mitos de Ésquilo ou de Homero. Tudo leva a crer, aliás, que Apulenio se ateve a parafrasear com gosto uma alegoria de origem egípcia. Oriundo de Mandaura, na África, Apulenio é romano apenas por direito de conquista e anexação. Este fato sugere-nos que Roma, tão fértil em abomináveis necromantes, não deu origem a nenhum verdadeiro discípulo de Hermes. Não cabe objetar com o nome de Ovídio, pois suas Metamorfoses, tão graciosas a todos os gostos, testemunham um esoterismo bastante errôneo, para não dizer ingênuo. Virgilio - este, um iniciado - cioso, antes de tudo, de legar à Itália uma obra-prima do gênero épico, só nas entrelinhas, e de modo eventual, evidencia o brilho de sua sabedoria.
No caso da República e do Império de Roma, o caráter perpetuamente anárquico e nemrodiano que acusaram em todas as circunstâncias refuta, por si só, a hipótese de uma iniciação a nível de governo. O único rei genuinamente "mago" de quem se podem orgulhar os filhos da Loba foi Numa Pompílio (714-671), um Nazareno dos tempos da Etrúria(43) que as nações circunvizinhas impuseram à Roma nascente. Mais tarde, Juliano, o filósofo (360-363), figura também como adepto nos faustos do Império. No entanto, nascido em Constantinopla, proclamado César pelos Gauleses de Lutécia (360), ele é também, por seu turno, muito menos romano. Assim, dois são os soberanos iniciados da cidade eterna: em seus primórdios, um rei, Numa Pompílio; já em seu declínio, Juliano, o Sábio, um imperador. Entre os dois, a guerra civil, a extorsão e o arbítrio.


Esses gauleses que Roma chamou de bárbaros são povos verdadeiramente mais livres e civilizados. Seus druidas, herdeiros diretos dos hierofantes ocitâneos da teocracia do Carneiro, perpetuam-lhe a tradição e transmitem uns aos outros, regularmente, o depósito da ciência sagrada. Alguns preceitos de seu ritual são interpretados, com efeito, em um sentido antropomórfico, errôneo, mas a inteligência do dogma, ao que parece, conservou-se integralmente nas mãos dos sacerdotes, distanciados, contudo, dos grandes centros de civilização e ortodoxia. Não obstante, na Gália, como em outros lugares, a feitiçaria recruta suas vestais sacrílegas. A feitiçaria é de todos os tempos, e de todos os países.
Sob os primeiros reis da França, pululam encantadores e bruxas. Só se fala de necromantes que oferecem a hospitalidade de seu corpo ao diabo, de clérigos que exorcizam o diabo, de verdugos que queimam ou enforcam necromantes. É especialmente em honra dos feiticeiros que Carlos Magno institui, sob o nome de Santa Vema (772), essa terrível sociedade secreta que, sancionada novamente pelo rei Roberto (1404), aterrorizará mais de trinta gerações(44). Primeiramente na Vestefália, mais tarde em toda a Europa Central, os tribunais de franco-juízes não tardam a multiplicar-se. Os mandados de prisão se pronunciam em cavernas inacessíveis onde, por caminhos tortuosos, o acusado é conduzido de olhos vendados e com a cabeça desnuda. Não há sentença intermediária entre a morte e a absolvição, com ou sem reprimenda... Tanto camponeses como senhores temem encontrar, alguma manhã, a ordem de comparecimento afixada à sua porta com um golpe de punhal! E ai de quem não obedecer a citação dos franco-juízes! Mesmo sendo cardeal, príncipe de sangue ou imperador da Alemanha, ninguém escaparia ao decreto de morte pronunciado à revelia, e seria apanhado cedo ou tarde. O que se segue mostrará a vingança oculta vinculada aos passos do contumaz - sempre paciente, pois é garantida: "O duque Frederico de Brunswick, que foi imperador por um momento, recusara-se a atender a uma citação dos franco-juízes. Quando saía, armava-se da cabeça aos pés e cercava-se de guardas. Entretanto, certo dia ele se afastou um pouco de seu séquito e precisou desvencilhar-se de uma parte da armadura. Ninguém o viu retornar. Os guardas penetraram no pequeno bosque em que o duque desejara permanecer a sós por um instante. O desventurado, então, expirava, tendo nos rins o punhal da Santa Vema, de onde pendia a sentença. Olharam em todas as direções e viram um homem mascarado que se retirava com andar solene. Ninguém ousou persegui-lo."(45)


Na Idade Média, o Mal teve, assim como o Bem, seus aliados misteriosos e suas assembléias secretas. Eu não teria reservas em descrever aqui - após tantas outras! - as orgias priapescas e sádicas do sabbat criminoso: encontros de envenenadores e de bandidos que, salvaguardados pelo prestígio de um terror supersticioso, empenhavam-se em envolver suas práticas nas mais fantásticas trevas. Lendo-se o processo de Gilles de Laval, senhor de Retz, os cabelos se eriçam e a náusea sobe aos lábios. Entra-se, porém, no mesmo nível neste mundo nefasto da magia negra, em que os ritos dos sortilégios servem para dissimular perversidades mais efetivas, em que o assassino se disfarça como feiticeiro: só sob a fronte do marechal de Bretanha germinaram, floresceram e frutificaram depravações, todas as perversidades habituais aos freqüentadores do sabbat.(46) Estes, por vezes, ao menos descuidavam de temperar com a pimenta satânica o miserável guisado de sua cupidez saciada. Talvez se tenha exagerado o papel do magnetismo e das influências ocultas nas obras do sabbat criminoso. Os verdadeiros adeptos reservam a si mesmos, sem dúvida alguma, o emprego racional deste formidável agente. Quanto aos vendedores de filtros, eram, em sua maioria, envenenadores banais.


Contudo - à parte os cruzados ocultos do Inferno e do Crime e os cavaleiros não menos ocultos da Justiça e do Castigo, além dos necromantes e dos franco-juízes - viam-se campônios pacíficos e cidadãos inofensivos mesclaram-se como atores à grande tragicomédia de então. Comprimida pelo despotismo dos estados e pela intolerância do sacerdócio, a atividade vital, na Idade Média, teve, de fato, que se desenvolver na sombra. Tomava-se o ar de conspirador. Uma doença fustigava todas as classes da sociedade: a monomania do mistério, e, assim, reuniões secretas organizavam-se por toda parte. O maravilhoso (e as pessoas eram tão ávidas dele!) decuplicara o prestígio de um suposto sabbat, em que os pobres diabos confraternizavam de modo estranho com os maiores senhores, fascinados pela curiosidade, mais forte que o orgulho. Em conventículos noturnos, aliás tão inocentes, sob o pretexto de cerimônias estranhas, degustava-se o inefável prazer de andar a passo de lobo, de trocar a senha com uma voz sepulcral e de correr grande risco de ser enforcado.
Todavia, sem nenhum medo de semear o temor ou o estupor, desdenhando quando lhes era possível sem perigo, todo este luxo de encenação, os verdadeiros iniciados reuniam-se, também, e a grande Isis sentava-se no meio deles. Fundaram-se associações herméticas que deviam a rubricas forjadas o privilégio de uma segurança relativa. Citaremos, de memória, a ordem dos Templários (ninguém ignora sua origem e seu fim trágico)(47); as confrarias da Rosa-Cruz e dos Filósofos Desconhecidos, sobre as quais a história, por outro lado, diz pouca coisa, e, finalmente, a Franco-maçonaria oculta, prolongamento mais ou menos direto da Ordem do Templo, iniciada, segundo consta, por Jacques de Molay, antes de subir à fogueira. Mas a moderna franco-maçonaria - sonho de algum Asmohle em delírio, cepo bastardo e mal enxertado no antigo tronco - já não tem consciência dos seus menores mistérios. Os velhos símbolos que ela reverencia e que transmite numa piedosa rotina tornaram-se para ela letra morta: é uma língua da qual ela perdeu o alfabeto. Seus afilhados, assim, nem mais suspeitam de onde vêm e para onde vão(48).
Em suma, se os grandes colégios iniciáticos foram seminários ocultos do mundo antigo, não se pode dizer o mesmo das misteriosas associações da Idade Média, por mais intensamente que se afirmasse sua vitalidade. Ocorre então que na Europa, depois do desmoronamento dos derradeiros santuários, luminosos baluartes da síntese hermética, a ciência universal cinde-se em três ramos, surgindo, assim, os especialistas. A partir desse momento, cada um atém-se ao seu ramo. Os adeptos apaixonaram-se quer pela Cabala, quer pela Astrologia e pelas Ciências Divinatórias, pela Alquimia e pela Medicina Oculta. Alguns gênios excepcionais, cérebros organizados para a síntese, ressuscitam, efetivamente, a doutrina dos magos em sua íntegra: entre eles, Raymond Lulle, Paracelso, Henri Kunrath, Knorr de Rosenroth, Eliphas Levi. A maior parte dos ocultistas, contudo, conforme o seu temperamento especial e as influências preponderantes de seus respectivos ambientes, acantonam-se em alguma das três ciências de Hermes, cada uma delas correspondendo a um dos seus três mundos. Os cabalistas, fascinados pelos grandes problemas metafísicos, aspiram o conhecimento do Mundo Divino. Inclinados de preferência à psicologia, os áugures (e sob este rótulo incluo adivinhadores, astrólogos, quiromantes, fisionomistas, cartomantes, frenólogos) decifram os problemas do Mundo Moral. Quanto aos alquimistas, mais inclinados ao estudo das leis da física material, são os escrutadores do Mundo Natural ou Sensível.


No entanto, a primitiva síntese é a tal ponto una e coesa, que todos esses sábios, por mais diferentes que sejam suas preferências, respaldam-se nos mesmos axiomas, convergem para os mesmos princípios. Além disso, para penetrar os mistérios da ciência particular que elegeram, é preciso que eles, preliminarmente, galguem os degraus da escada analógica das correspondências nos três mundos, para assim reerguerem - pelo menos durante o seu período de aprendizagem - o edifício hermético dos antigos mestres.
Assinalaremos, de forma sucinta, os mais célebres iniciados da Idade Média e dos tempos modernos. Sob o reinado de Pepino, o Breve, desponta o cabalista Zedequias, a cujo poder fascinante os homens dessa época atribuem os fenômenos que os aterrorizam, segundo documentam as crônicas. "O ar está cheio de figuras humanas; o céu reflete palácios, jardins, ondas agitadas, navios com as velas desfraldadas ao vento, exércitos mobilizados em batalha. A atmosfera deixa a impressão de um grande sonho. Julgamos distinguir, no ar, feiticeiros disseminando em profusão os pós malfazejos e os venenos".(49) Quem leu o abade de Villars sabe o que pensar dessa orgia de estranhas visões, fotografadas na luz do sol. Depois de que perturbações fluídicas produzem-se essas miragens, ora deslumbrantes, ora terríveis, semelhantes aos reflexos coloridos de uma imensa lâmpada mágica? Ocorre-nos sempre o axioma de Hermes: "Quod superius, sicut et quod inferius". É natural que o céu de uma época turbulenta reflita a incoerência das coisas terrestres.
No século de São Luís, brilha o rabino Jequiel, notável eletricista e duplamente detestado pelos parvos, por seu gênio e por seu crédito surpreendente junto ao rei da França. Ao anoitecer, quando sua lâmpada misteriosa resplandesce(50) na janela, como uma estrela de primeira grandeza, o mago - caso seus inimigos, impelidos pela curiosidade, assediem tumultuosamente a porta - toca um prego cravado na parede de seu gabinete e faz fulgurar, do seu interior, uma centelha viva, crepitante e azulada. E ai do pobre indiscreto que nesse momento sacudir a aldraba do umbral da porta! Dobrar-se-á sobre o mesmo, gritando aterrado por uma força desconhecida; um raio circula em suas veias; é como se o chão se abrisse de repente e engolisse metade do seu corpo... Uma vez restabelecido, talvez fugisse o mais depressa possível, sem perguntar à terra por que milagre ela o vomitara.


O rei dos mágicos legendários, que resolveu, segundo se diz, o problema do andróide, é contemporâneo de Jequiel. Trata-se do célebre Alberto, o Grande (1193-1280), sob cujo nome circulam ainda, em nossos campos, coleções de inomináveis inépcias(51). Ainda na mesma época, surge um gênio universal, o monge Raymond Lulle, de Palma (1235-1315). Discípulo, no campo da alquimia, de Arnauld de Villeneuve - este, por sua vez, herdeiro da tradição árabe que remonta a Geber, o magister magistrorum (séc.VIII), Lulle desenvolveu esplendorosamente em seus escritos (sobretudo em Testamento e Codicilo) esta bela teoria hermética, cujos princípios, um século mais tarde, seriam inseridos na inextricável farragem simbólica de dois adeptos alemães: o conde Bernard le Trevisan e o monge Basile Valentin (l394)(52). A Arbor Scientiae e a Ars Magna, em que Raymond Lulle condensa todos os conhecimentos de seu tempo colocados à luz dos princípios do Esoterismo, apontam-no, além disso, como grande mestre cabalista, teólogo e filósofo.
O espagirismo de Nicolas Flamel (morto em 1413) deve pagar tributo, sem dúvida, ao sistema luliano, mas remonta diretamente ao ensinamento de Abraão, o Judeu, cuja obra (Asch Mezareph) Eliphas Levi traduziu, publicando-a em anexo à sua Chave dos Grandes Mistérios. juntamente com Lulle. A. Sethon, Filaletes, Lascaris, e alguns outros, Flamel é um dos realizadores absolutos da ciência, a quem não se poderia contestar - sem invalidar todos os critérios da certeza histórica - uma série de transmutações efetivas e a arte real da projeção filosofal.
Retornamos à Magia propriamente dita com o abade Tritheim ou Trithème (1462-1516), o ilustre autor da Esteganografia e do Tratado das causas segundas. Trithème foi mestre e protetor do "arquifeiticeiro" Cornelius Agrippa (1486-1535). Agrippa, esse intrépido aventureiro que escandalizou seu século e que, arrastando atrás de si a fogueira, só escapou desta para passar sob os ferrolhos os dois terços de sua existência! Este sábio irrefletido que jamais atingiu a paz do Conhecimento Total (53) e que renegou, em seu livro de Vanitate Scientiarum (54) a grande confidente que ele não soubera levar a dizer a sua última palavra!
Paracelso (1493-1541) pode ser colocado entre estes oniscientes a quem coube por direito a chave de todos os arcanos que caminham pela estrada da vida escoltados por todas as glórias, numa série ininterrupta de prodígios, Quando tais homens morrem - jovens, como todos aqueles que são amados pelos deuses -, o povo a quem maravilham não crê em sua morte e, assim, põe-se a aguardar seu retorno, espera vê-los surgir a qualquer momento dizendo: aqui estou! Mas as gerações sucedem-se, os eventos precipitam-se e a tradição do semideus extingue-se, apaga-se na mente dos homens que logo esquecem. Três séculos já se passaram, e quem pensa em Paracelso? Só Michelet lhe fez justiça... Quando o Magnetismo, algum dia mais bem conhecido em sua essência, tiver revelado ao mundo a Medicina Simpática, os espíritos familiarizados com a obra do mestre surpreender-se-ão com o descrédito em que caiu a memória de um adepto tão miraculoso. Ao leitor atento, sua Philosophie Occulte desvendará os últimos segredos da Magia científica; o seu Sentier Chymique, do qual Sendivogius fez circular uma cópia clandestinamente(55) apresentar-se-á como a mais pura obra-prima hermética dos tempos modernos. A sua terapêutica, enfim (que é a arte de equilibrar as emissões fluídicas em simpatia com o influxo astral, ou de centuplicar a eficácia curativa do magnetismo humano, regulando o seu uso segundo as leis invariáveis do magnetismo universal), sua terapêutica será compreendida e a auréola de Mesmer empalidecerá à vista de todos. Como foi superestimada a medicina oculta deste vulgarizador - cheia de indecisão e de experimentos -, sem imaginar que J.B. Van Helmont (para só citar um nome) publicava, já em 1621, o seu sábio tratado Magnetica vulnerum curatione! Ora, mas quem deu nome à América, Colombo ou Vespúcio? Não é sempre assim?


Universal como Paracelso, Henri Khunrath (1560-1605) condensou a ciência sintética dos magos em um pequeno in-fólio magnificamente impresso em 1609(56). Não conhecemos nada mais pessoal e mais cativante do que este Amphitheatrum Sapientiae Aeternae(57). Em torno dos mais serenos Pensamentos arrasta-se tortuosamente um estilo áspero, exaltado, quase bárbaro, mas de um relevo lampejante, ao estilo de Tertuliano. Maravilhoso contraste! Parece que o Verbo feito carne toma a idéia de assalto; que as asperezas da forma, no entanto, não nos choque, pois a idéia oculta irradia-se, de súbito, àqueles que sabem surpreendê-la. E sobre o tumulto épico dos vocábulos verte em torrentes de luz o inefável ideal. Parecendo parafrasear os provérbios de Salomão, o texto místico comenta as mais altas doutrinas da Cabala especulativa e nove pantáculos assombrosos simbolizam, segundo o costume dos Mestres, os últimos arcanos. Se Khunrath se dirige, na prática, à chama da teoria, consegue controlar, infatigavelmente, a teoria através da experiência - coisa rara em sua época. Assim, ele reitera, a cada passo: "Theosophice in oratorio, physicochemice in laboratorio, uti philosophum decet, REM tractavi, examinavi, trituravi..." Dois opúsculos póstumos de Khunrath - confessio de Chao Chemicorum e Signatura Magnesiae (Agentoranti, 1649) - constituem manuais imprescindíveis para todos os estudantes alquimistas.
Sem nos determos no astrólogo Jérôme Cardan (1501-1576), conhecido por seu notável tratado De Subtilitate(58); - sem falarmos, lamentavelmente, no douto monge Guillaume Postel (1510-1581), cuja Clavis absconditorum a constitutione mundi(59), sempre condenada para o "profanum vulgus", abre a porta da ortodoxia sintética; sem louvarmos, como conviria, a Basilica Chemica e o Livro de assinaturas(60), em que Oswald Croll (15..-1609) cria uma esplêndida teoria do mundo, da qual Gaffarel, o astrólogo de Richelieu, tomará alguns fragmentos para a sua compilação das Curiosidades Inusitadas - para citar apenas este - cumpre saudar, aqui, o grande iniciado Knorr de Rosenroth (l636-1689), a quem a posteridade deve uma coletânea cabalística dificilmente encontrável em nossos dias, uma obra que se pode qualificar como inestimável e única no gênero. Interpretação do Zohar, antologia das obras mais raras e sublimes da Tradição antiga e luminoso comentário sobre este tesouro doutrinal, a Kabbala Desnudada (Sulzbach, 1677, e Frankfurt 1684, 3 vol., in-4.? ) forma, juntamente com a coleção de Pistorius e certos manuscritos hebreus, o compêndio verdadeiramente clássico da Cabala clavicular.
Em torno dessa época, os adeptos multiplicam-se a tal ponto, que enumerar todos nos faria ultrapassar os limites a que nos propusemos. Não mencionaremos nem alquimistas puros - muitos dos quais, entretanto, como Sendivogius (l566-1646) e Philalèthe (1612-1680), passam por realizadores da pedra filosofal -, nem os místicos ingleses e alemães que abundam sobretudo no século XVIII. Retenhamos, no entanto, a título de memória, os nomes do Presidente Jean d'Espagnet, cujo Enchiridion phisicae restitutae, traduzido para o francês no ano de 1651 resume, de forma bem condensada, a filosofia sintética de Hermes; e do sapateiro de Goerlitz, Jacob Böhme (1575-1625), que foi o mestre póstumo de Louis Claude de Saint-Martin.


Na primeira edição do presente ensaio fomos injustos para com Saint-Martin (1743-1803). Nós o julgamos, então, com base na leitura apressada e muito superficial da obra Dos Erros e da Verdade (1775), livro de estréia, cansativo e enredado, em que páginas excelentes são comprometidas por uma intenção de obscuridade e por ares de mistério, características de que o autor soube, com o decorrer do tempo, desvencilhar-se. O Quadro Natural (1782) e, sobretudo, as últimas produções - O Espírito das Coisas (1800) e o Mistério do Homem-Espírito (1802), em que a influência de Böhme sobrepõe-se decididamente à influência menos pura de um primeiro mestre(61), testemunham a iniciação do marquês de Saint-Martin aos mais altos arcanos tradicionais.
Quase à mesma época, um outro adepto, o ministro genovês Dutoit-Mambrini, publicava, sob o pseudônimo de Keleph ben Nathan, um livro em que, certamente, há muitos erros, mas que, só pelo título e pela data de publicação torna-se merecedor de respeito e atenção por parte dos pesquisadores curiosos por assuntos de ocultismo: A Filosofia divina aplicada às luzes natural, mágica, astral, sobrenatural, celeste e divina; ou às verdades imutáveis que Deus revelou no tríplice espelho analógico do universo, do homem e da revelação escrita (1793, 3 vol. in-8.? ).
Alguns anos antes da grande Revolução, a Europa estivera sulcada de personagens misteriosos, cujo caráter equívoco acentuamos em outra parte(62). Referimo-nos a personagens como Saint-Germain, Mesmer e Cagliostro. Realizador extraordinário, mas de espírito bizarro, extravagante, confuso tanto quanto erudito e original, Joseph Bálsamo, conde de Cagliostro, não merece mais do que os outros dois o título de adepto superior. Nem Lavater, o profeta de Zurique (1741-1801), restaurador da Fisignomonia e correspondente místico da imperatriz Maria da Rússia, nem Swedenborg (1688-1772), iluminado freqüentemente genial, porém fantasioso e temerário, podem apresentar, nesse sentido, pretensões mais altas.


O mesmo diremos do poeta iniciado Jacques Cazotte (1720-1792). O seu Diabo Amoroso, em que a paixão é analisada cabalisticamente, basta para assegurar-lhe a estima e a simpatia, mas não a admiração, dos adeptos. Bem mais do que por suas obras e mesmo por suas profecias célebres. Cazotte pertence à história da magia pelas circunstâncias surpreendentes de seu processo e de sua morte, cujos detalhes apresentamos no n.? 7 da revista A Iniciação(63).
No limiar do Império, surge a figura enigmática de Delormel, cujo livro Grande Período (Paris, 1805, in-8.? ), tão notável no entender de todos, valeu a morte violenta dos perjuros e reveladores.
Conhecido já de longa data por alguns ensaios bastante medíocres no terreno da literatura e da poesia, Fabre d'Olivet (1767-1825) ingressa, em torno da mesma época, na carreira filosófica, que lhe reserva a imortalidade. A iniciação pitagórica, recebida na Alemanha sob o reino do Terror, determinou este novo impulso de pensamento de Fabre d'Olivet. Napoleão, mais instruído do que ninguém quanto aos inúmeros perigos que a difusão das verdades ocultas pode acarretar para o despotismo; Napoleão, inimigo pessoal do teósofo, em vão lhe confere a honra de suas incessantes perseguições: Fabre d'Olivet dissolve o rancor de César e sabe evitar todas as suas armadilhas. Encontra um meio de escapar até mesmo à censura imperial e publica, aos poucos, as suas Noções sobre o Sentido do Ouvido (1811), o seu maravilhoso comentário dos Versos dourados de Pitágoras (1813) e, enfim, em 1815, a sua obra-prima imortal: A Língua Hebraica Reconstituída (2 vol., in-4.? ). Bem provido das pesquisas anteriores de Volney, de Dupuis, de d'Herbelot e, sobretudo, do ilustre Court de Gébelin, Fabre d'Olivet remonta à origem da palavra e reconstrói, com base numa erudição verdadeiramente colossal, o edifício - desmoronado já a mais de três mil anos - do hebreu primitivo e hieróglifo. Posteriormente, aplicando à Cosmogonia de Moisés (vulgarmente, a Gênese), a chave por ele reencontrada nos santuários do Egito, penetra no cerne desta necrópole em que jazem, soterradas pelo pó dos séculos, a sabedoria e a ciência integrais do antigo Oriente. Tradutor de Moisés, Fabre d'Olivet, oferece a cada palavra o respaldo de um comentário científico, histórico e gramatical, a fim de pôr em evidência os três sentidos - literal, figurado e hieroglífico - que correspondem aos três mundos da magia antiga, ou seja, o natural, o psíquico e o divino.
Entretanto, Fabre d'Olivet não limita a estes os seus trabalhos de teosofia e de erudição. Hist6ria Filosófica do Gênero Humano que veio à luz em 1822 (2 vol. in-8.? ), revela ao leitor os arcanos do Pai, do Filho e do Espírito Santo(64) em suas relações com a evolução social e política universal. O Mestre traçou um quadro, um campo de aplicação circunscrito, em que faz agir esses Princípios, deduzindo suas conseqüências. Este quadro é a história da raça branca ou boreal, ou seja, a nossa. Em 700 páginas, o autor condensa e resume os destinos dessa raça, cujo desenvolvimento progressivo e normal através do Tempo e do Espaço ele descreve. As obras do marquês de Saint-Yves d'Alveydre, às quais, aliás, nunca deixaremos de pagar um justo tributo de admiração e de elogios, constituem a magnífica paráfrase e retomada dos trabalhos de Fabre d'Olivet. A morte ceifou o restaurador da língua hebraica, quando este preparava como complemento indispensável, a mais gigantesca de suas produções, Comentários da Cosmogonia de Moisés. Afirma-se que o precioso manuscrito não está perdido. Aliás, as observações críticas apostas por Fabre d'Olivet em apêndice a sua última publicação - uma tradução em versos eumólpicos do Caim de Lorde Byron (Paris, 1823, in-8.? ) - podem suplementar os comentários inéditos, esclarecendo o pensamento íntimo do teósofo em diversos pontos que permaneciam obscuros.


Não foi em vão que Fabre d'Olivet deu ao nosso século o exemplo de um retorno às altas especulações do ocultismo. A Restauração já vira surgir uma pluralidade de escolas místicas, de um esoterismo nitidamente bastardo, é verdade... a metade do século viu melhor. Embora o padre Enfantin lançasse sobre o sansimonismo, já moribundo, um brilho radiante mas efêmero, embora Victor Considérant rejuvenescesse a teoria de Fourier - e seus esforços não são destituídos de interesse -, infatigáveis pesquisadores, por outro lado, escavavam, em todos os sentidos, galerias através das catacumbas desmoronadas da antiga magia. Citemos Hoené Wronski, o apóstolo do Messianismo e restaurador da Filosofia Absoluta; Lacuria, o metafísico genial das Harmonias do Ser; Ragon, o único profundo de todos os mistagogos da Franco-maçonaria. Outros, como Lúis Lucas(65), o mais audacioso cérebro da ciência contemporânea, eram levados pela própria experiência a verificar estas grandes leis que os alquimistas especulativos haviam formulado talvez apenas por indução.
Mas todos esses filósofos, todos esses eruditos, todos esses sábios, responsáveis pela maior parte de uma fascinante florescência de descobertas, vejo-os todos agrupados em torno do grande ceifeiro da luz; vejo-os todos cortejando um adepto que os ultrapassa em muito e que parece ser, dentro dos altos barões do Esoterismo renovado, o Príncipe Encantado, esposo, por direito de conquista, desta Bela Adormecida que é a Verdade tradicional!
Com efeito, em nossos dias despontou um gênio para redificar o templo do rei Salomão, tornando-o ainda mais suntuoso e colossal do que antes. De um pensamento vasto e sintético, de um estilo luminoso rico, de uma imperturbável lógica e de uma ciência segura de si mesma, Eliphas Levi(66) é um mago completo. Os círculos concêntricos de sua obra compreendem a ciência inteira, e cada um dos seus livros reveste-se de significação precisa, cada uma de suas obras possui uma absoluta razão de ser. O seu Dogma ensina; o seu Ritual prescreve; a sua História adapta; a sua Chave dos Grandes Mistérios explica; as suas Fábulas e Símbolos revelam(67); o seu Feiticeiro de Meudon prega de forma exemplar; a sua A Ciência dos Espíritos, enfim, fornece a solução dos mais altos problemas metafísicos. Assim, sob a pena de Eliphas Levi, a magia acha-se exposta quanto a todos os seus pontos de vista: a obra total, de que cada tratado é uma faceta, constitui a mais coesa, fascinante e indiscutível síntese com que um ocultista possa sonhar! E, como se não bastasse, este pensador magnífico ainda se dá o direito de ser um grande artista! Em seu estilo fulgurante, grandioso e eloqüente - preciso até o escrúpulo, audacioso até a licença -, ele encerra ainda o pensamento mais grandioso e mais ousado. As palavras "sugestivas" brotam em profusão: onde vertiginosas exposições sumárias arredam a expressão verbal, onde evasivas nuanças desafiam a língua abstrata, o rigor exato de uma metáfora nova fixa o volátil, determina o incerto, define o imenso, numera o inumerável.


Mas, ao percorrer, em todos os sentidos, os três mundos - metafísico, moral e natural -, Eliphas Levi não se detém. A grande corrente centralizadora o arrebata e muitas questões que levanta fariam jus a um maior desenvolvimento. Referimo-nos, por exemplo, a questões relativas à história das origens asiáticas do ocultismo e da teoria social, que se acham apenas indicadas.
Ora, estes dois pontos capitais, já bastante esclarecidos por Fabre d'Olivet, são trazidos à luz por um mago contemporâneo de uma competência profunda, o marquês de Saint-Yves d'Alveydre; assim, as obras desses três adeptos se completam e se comentam da forma mais feliz. No entanto, a síntese social que Eliphas Levi esboça em algumas páginas de sua obra parece diferir daquela que Saint-Yves sustenta ardorosamente há dez anos e que talvez faça prevalecer. A forma ideal de governo é, segundo este último, a que denomina sinárquica, isto é, em harmonia com os princípios eternos. A administração de cada país seria confiada a três colégios de especialistas: os Doutrinadores, docentes (conselho das Igrejas), os Legisladores, juristas (conselho dos Estados) e os Notáveis, economistas (conselho das comunidades). Isso se aplica à sinarquia nacional. Por outro lado, três conselhos hierarquicamente superiores, mas essencialmente em correspondência com aqueles, seriam encarregados da administração central da sinarquia européia. Cada nação, assim, conservaria a sua autonomia, gerindo os seus próprios assuntos, enquanto a grande assembléia de civilização geral zelaria pela gestão equitativa dos interesses comuns. O Equilíbrio Europeu, esta quimera do passado, converter-se-ia, então, em uma realidade no futuro, e isso significaria o advento do reino messiânico sobre a Terra. Essa é, substancialmente, esta teoria magnificante cabalística; pois, segundo a lei de Hermes, as coisas que estão embaixo devem ser análogas às que estão em cima, o microcosmo, portanto, reproduzindo um macrocosmo em miniatura. Ora, espelho da própria divindade, a humanidade, tríplice e una, seria regida pelo ternário e marcada, pela adição de sua unidade específica, pelo signo do quaternário.
Aparentemente bem diversa, a teoria de Eliphas invoca a lei dos contrários. Sobre a Terra, como no céu, a Misericórdia deve temperar o Rigor; mas também a Justiça opor um limite ao transbordamento do Amor. Tais são os dois pólos do mundo moral; tais são as duas tendências inversas e complementares do Governo dos homens. Rigorosa como a Ciência exata, a justiça encarnar-se-á no supremo depositário do Poder civil. Mas o Amor, misericordioso como os sentimentos inspirados pela Fé verdadeira, encontrará o seu órgão no Soberano Pontífice da Religião. Imaginemos, a partir desses dados, o governo do mundo: Leão III e Carlos Magno, respectivamente, Papa e Imperador; o altar santificando o trono, o trono sustentando o altar. Pólo positivo, pólo negativo... Eis, à primeira vista, a lei do Binário. Mas não para aqueles que crêem na intervenção divina das coisas terrestres. O Binário, sob pena de ser anárquico, deve resolver-se pelo Ternário: no alto, Kether (a Inteligência suprema), refletida em Tiphereth (o Adão Harmonioso e ideal), manterá o equilíbrio entre Geburah (a justiça: O Império) e Hesed (a Misericórdia: o Papado). E se o sistema de Saint-Yves oferece uma bela síntese da humanidade tríplice e una, Eliphas Levi, designando o Ser Inefável, agente supremo do equilíbrio, imagina uma síntese talvez ainda mais grandiosa: une a terra ao céu, e a humanidade forma, com seu Deus, apenas um.
Depois deste esboço que traçamos, seria temerária uma conclusão; as doutrinas dos dois Mestres são essencialmente herméticas, por realizarem, verdadeiramente, o número três, número sagrado que resulta em quatro pela adição da unidade sintética.


De qualquer forma, a obra do marquês de Saint-Yves é corajosa e sua oportunidade bastante digna da clarividência de um Epopta. Urgiria que essas Missões(68) fossem pregadas aos filhos de uma raça que perdeu o senso da Hierarquia, o culto da Tradição e até mesmo o respeito pela Idéia pura. Século decadente, raça decaída. Retardadas pela preocupação exclusiva com fatos brutais acumulados, as próprias Egrégoras, míopes à força de tanta análise, são impotentes para enxergar algo que esteja além do contingente. O Idealismo tem por defensores apenas inábeis ou tímidos - ou seja, medíocres. Quanto ao Ocultismo, em vias de se depravar, vulgarizando-se nas mãos de sonhadores e charlatões, apenas raros escritores mantém-se dentro da lógica de sua ortodoxia(69). Há que assinalar, à frente desses últimos, Joséphin Péladan que, em seus audaciosos estudos(70), que nos oferece Decadência Latina, não hesita em produzir as grandes teorias cabalísticas - e tudo é significativo, até a intriga em que figura, simbolizado de forma nova e dramática, o eterno combate entre Édipo e a Esfinge: o homem em sua contenda com o Mistério. Mérodack (do Vívio Supremo) é um Louis Lambert de ação, e Curiosa faz lembrar Séraphitus-Séraphita. Mas este mistério que Balzac balbuciava intuitivamente, Péladan formula com o arrojo e a autoridade serena de quem sabe, e não com o febril arrebatamento de quem adivinha. Já se pode escrever, através dos modernos emblemas do romance sintético, a doutrina oculta cuja exposição técnica e racional o jovem adepto nos oferecerá em seu Anfiteatro das Ciências Mortas(71). Pertencendo à corrente de iniciação cabalística, Péladan deve ser distinguido, como tal, de magos ingleses ou franceses - muito estimáveis, aliás, e eruditos - que bebem da fonte menos pura do Esoterismo hindu. Já citamos, a propósito, Louis Dramard e devemos uma menção especial à presidente da Sociedade Teosófica do Oriente e do Ocidente(72), Lady Kaithness, duquesa de Pomar, a quem cabe a honra de haver explicado claramente, em artigos substanciais(73), os dogmas fundamentais de uma religião, que a imaginação luxuriante dos herdeiros de Sakya-Mouni havia misturado com mitos por demais complexos.
Desde a primeira edição desta obra, publicada em 1886, acentuou-se nitidamente a corrente que induz os curiosos ao estudo do Ocultismo. Apesar de toda a antigüidade sagrada e dos raros apóstolos contemporâneos cujos nomes mencionamos, a magia era, então, quase ignorada pelo grande público.


Uma verdadeira floresta virgem parecia impedir o acesso aos templos em ruína, incrustrados de hieróglifos de uma ciência perdida. E se algum ousado arqueólogo do mistério se arriscasse a descobri-los, teria que forçar uma passagem através de cipós, e enfrentar, a cada passo, a contumácia dos espinheiros inóspitos...
Atualmente, o aspecto geral modificou-se prodigiosamente, e isso graças aos numerosos desbravadores desses inextricáveis acessos. Que luminosas avenidas hoje se cruzam, lá onde, ainda ontem, havia trevas espessas!
Contudo, quanto à vulgarização, a França permanecera notavelmente atrás dos outros países da Europa e mesmo do Novo Mundo. Na Alemanha, na Inglaterra, nos Estados Unidos, até mesmo na América do Sul, assim como na Índia e em outros recantos do Oriente, a Sociedade Teosófica propalava, já havia vários anos, os ensinamentos do Budismo renovado. Depositária direta das tradições tibetanas, a sra. H.P. Blavatsky, fundadora desta sociedade próspera, dava, em diversos lugares, provas de uma competência real: sua erudição surpreendente, haurida de fontes desconhecidas, gerava ao mesmo tempo o estarrecimento e o escândalo na culta Europa. E a naturalidade com que sua fantasia parecia jogar com as forças ocultas para produzir os mais estranhos fenômenos(74) gerou, em torno dela, mais explosões de calúnias do que de louvores. Diversas lendas, uma mais incrível do que a outra, circulavam então com relação a essa inquietante personalidade. Blavatsky possuía o dom de apaixonar os espíritos: por ela ou contra ela, todos tomavam partido de modo violento, caloroso, além disso, às suspeitas injuriosas dos caluniadores, bem como ao sarcasmo da crítica, ela sempre opôs uma resposta triunfante, própria dos cérebros poderosos: é através das obras que manifesta sua réplica.
Há dez anos, o livro Ísis desvendada, de Blavatsky, trazia ao público inglês as primeiras revelações da alta ciência tibetana; o Budismo esotérico, de seu discípulo Sinnett, fazia a respeito desse belo livro um comentário digno dele. Blavatsky completa, hoje, o seu ensinamento pela apresentação progressiva de uma obra de imponente envergadura: A Doutrina Secreta (5 volumes in-8.? )(75).
É de se lamentar muito o fato de esses livros, tão usufruídos em seu texto inglês, não serem conhecidos por aqueles a quem este idioma não é familiar. Gaboriau, segundo se diz - outrora hábil diretor da revista francesa Lotus - pretende preencher essa lacuna, acrescentando à sua boa tradução, já publicada, de Mundo Oculto, de Sinett, a de Budismo esotérico, do mesmo autor(76). Talvez depois se empenhe em publicar a grande obra de Blavatsky. A gratidão de todos aqueles que se preocupam com essas graves questões já lhe foi tributada em oportunidades diversas, e certamente ele a verá crescer. A sua Lotus, que se tornou, há dois anos, órgão dos melhores expoentes franceses do Hinduísmo, pôs em foco uma constelação de personalidades ocultas eminentes: particularmente importantes os artigos de Soubba Rao, brama pândita, Hartmann e Amaravella, metafísicos de envergadura. Todos ficaram satisfeitos em saber que a colaboração ativa deste último foi cedida à Revue Théosophique, órgão parisiense recentemente fundado por uma ocultista de alto mérito, a sra. Condessa de Adhémar(77).
Enquanto as doutrinas neobudistas assim prosperavam, dois novos Cabalistas surgiam, ambos dignos de apreço por qualidades diversas, ambos eminentes em esferas diferentes.


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