sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Os limites do bom senso.

"Só o conceito pode produzir a universalidade do saber"


Pensar? Pensar de maneira abstrata? Rette sich, Wer Kann! Salve-se quem puder! Eu penso já gritar dessa maneira algum traidor, comprado pelo inimigo, que vai infamando contra esse ensaio porque ele trata de metafísica. Pois metafísica - da mesma maneira que abstrato, e mesmo pensar - é uma palavra diante da qual cada pessoa, mais ou menos, foge como se ela estivesse diante um pestífero. [....]
De toda maneira, explicar o que é pensar e o que é o abstrato parece aqui perfeitamente supérfluo; pois é precisamente porque a boa sociedade sabe muito bem o que é a abstração que ela foge quando a encontra. [....]
Tudo o que me é preciso, é citar, com o apoio da minha proposição, exemplos que cada um aceitará que eles a contêm. Eis um exemplo: Um assassino é levado ao lugar da execução. Para a pessoa comum, ele não é nada mais do que um assassino. Algumas damas dizem talvez por acaso a observação que o assassino tem um corpo bem feito, que ele é bonito, que ele é interessante. Essa mesma pessoa comum acha a observação atroz. Como? Bonito, um assassino? Como é possível ter o espírito tão deformado ao ponto de achar bonito um assassino? È para acreditar que vocês não são melhores do que ele! Eis a corrupção moral que reina nas pessoas distintas, acrescentará talvez o padre que conhece o fundo das coisas e dos corações. [....]
Eis o que se chama ter o pensamento abstrato: ver apenas no assassino essa qualidade abstrata que ele é um assassino e destruir nele, com a ajuda dessa simples qualidade, todo o resto de sua humanidade.

- Quem pensa abstrato? - Hegel - (1807), Trad. E. De Dampierre, Le Meine de France, 1963.


A fenomenologia do espírito

Para todas as ciências, as artes, os talentos, as técnicas, é evidente a convicção que nós não podemos possui-las sem trabalho e sem fazer o esforço de aprende-las e de praticá-las. Se alguma pessoa tendo os olhos e os dedos, a quem nós fornecemos o couro e um instrumento, não é dessa maneira capaz de fabricar sapatos, nos dias de hoje domina o preconceito segundo o qual cada um sabe imediatamente filosofar e apreciar a filosofia porque ele possui a unidade necessária na sua razão natural - como se cada um não possuísse também dessa maneira no seu pé a medida do seu sapato. [....]
Quanto a filosofia no sentido próprio do termo, nós vemos apenas a revelação imediata do divino e o bom senso, que não se preocuparam de se cultivar com a filosofia ou uma outra forma de saber, se considerando imediatamente como equivalentes perfeitos, excelentes suplentes desse longo caminho de cultura, desse movimento tão rico quanto profundo através do qual o espírito alcança o saber; mais ou menos como nós dizemos que a chicória é um bom substituto do café. [....]
Se nós reclamamos "uma via real" em direção da ciência [a filosofia], nenhuma pode ser mais confortável do que aquela que consiste a se abandonar ao bom senso e, para caminhar pelo menos com seu tempo e a filosofia, ler os relatórios críticos das obras filosóficas, e mesmo os prefácios e os primeiros parágrafos das obras elas mesmas, pois os primeiros parágrafos dão os princípios gerais sobre qual tudo se repousa; e quanto aos relatórios críticos, eles dão ainda uma apreciação que, justamente porque ela é uma apreciação, está acima da matéria apreciada. Nós seguimos esse caminho vestidos modestamente; mas o sentimento do eterno, do sagrado, do infinito, percorre ao contrário com roupas sacerdotais um caminho que é ele mesmo o ser imediato no centro, a genialidade das idéias profundas e originais, e raios luminosos sublimes de pensamento. [.....] [Contudo] os verdadeiros pensamentos e a penetração científica só podem ser adquiridos pelo trabalho do conceito. Só o conceito pode produzir o universalidade do saber. Ela não é a indeterminação ordinária e a indigência mesquinha do senso comum, mas um conhecimento culto e realizado completamente.

- A fenomenologia do Espírito (807) - Hegel, Prefácio, Trad. J. Hyppolite, Aubier - Montaigne, 1941


Os limites do bom senso

Nós reclamamos muitas vezes da filosofia que ela deixa suas alturas para falar uma linguagem ordinária. Nós queremos filósofos pedagogos. Como era Platão nos seus diálogos botando em cena Sócrates, por exemplo. Ou os filósofos do Iluminismo, como Voltaire. Estes eram animados pela vontade de tornar o saber acessível a todos. Para Georg Wilhelm Friedrich Hegel, essa ambição é vã. Pois para ele, o pensamento ordinário e a filosofia não falam a mesma língua. Ou melhor: a filosofia consiste precisamente em um trabalho radical sobre a língua. Hegel gosta das palavras. Ele inventa várias, a "historicidade" (Geschichtlichkeit) por exemplo. Ele diferencia, lá onde o senso comum não vê absolutamente nada, a realidade e o ser, o objeto e a coisa. Uma "idéia" não é para ele um simples "conceito".


Uma nova língua

Como explicar essas diferenças? Eis o problema: é preciso outros conceitos, como o conceito de "determinidade" (Bestimmtheit) - Um outro neologismo! - que complicam mais ainda a língua filosófica. Após Hegel, o vocabulário especifico tornou-se um instrumento necessário. E a filosofia, um assunto de especialistas.
Não se trata apenas de um problema de linguagem. Pois se o pensamento ordinário não tem as palavras do filósofo, ele também não tem seu pensamento. Ele é, como ilustrou Platão no mito da caverna, naturalmente prisioneiro do mundo das sombras. Seus modelos de pensamento o condenam a circular sempre através dos mesmos lugares comuns. Ao menos que a filosofia lhe dê uma escada. O livro A Fenomenologia do Espírito (1807), obra que teve um impacto imenso, tem justamente como objetivo de levar a consciência ordinária até a filosofia.


Uma verdadeira capacidade (savoir-faire)

O caminho é árduo, e muitas pessoas consideram esse livro como um dos textos mais difíceis da história da filosofia. Para seu autor, como indicam os dois textos acima, nenhuma "via real" conduz á filosofia. Dizendo de outra maneira, é preciso se investir completamente e colocar seu saber a prova. Porquê a filosofia seria acessível a todos, ele se interroga, quando na medida em que nós temos um sapato furado, nós o entregamos naturalmente ao sapateiro, artesão reconhecido por sua competência? Existe evidentemente um "savoir-faire" filosófico e é preciso prova-lo. Por essa razão ele se aplica, quando ele mostra, por exemplo, que a oposição entre o sujeito e o objeto é uma ilusão. Nós compreendemos porque a filosofia aparece como "um mundo pelo avesso".


Além dos lugares comuns

Muito abstrata, a filosofia? Ao contrário, é o pensamento ordinário que constantemente abstrai os pensamentos de sua profundeza essencial. Eis o que mostra o texto satírico "Quem pensa abstrato?" Um assassino passa diante uma multidão, que faz seus comentários: "como ele é bem feito!", "ele é um homem bonito!", etc. Idéias abstratas, que esquecem o essencial: é realmente um homem que nós enviamos para a morte. O assunto reconsidera o conjunto de nosso sistema de pensamento. A filosofia se ocupa precisamente disso: do homem, da vida, da morte, e não da aparência do assassino.Com Hegel, a filosofia tornou-se humana. Certo, os ensaios de filosofia popular vendem-se muito bem, mas eles obtêm raramente o respeito dos filósofos. Porquê? Porque eles vulgarizam muito constantemente nas diferenciações conceituais que, desde duzentos anos pelo menos, fazem o essencial do "savoir-faire" filosófico.

- François Gauvin -

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