domingo, 8 de abril de 2007

Reflexões sobre a Revolução francesa

"Posso atualmente felicitar a França de sua liberdade ?

"As circunstâncias (que aos olhos de certos senhores,não tem nenhuma valor ) dão na realidade a todo princìpio polìtico sua cor distintiva e seu efeito discriminante.As circunstâncias são o que tornam todo Sistema Civil e Polìtico Benéfico ou Nocivo para a humanidade.Falando " de maneira abstracional?"- não sei se a palavra existe ? -, o governo,da mesma maneira que a liberdade, é bom;portanto, poderei razoavelmente felicitar a França,dez anos atràs, de possuir um governo (pois ela tinha um governo) sem procurar saber de que natureza era esse governo ou de qual maneira ele se exercia ?
Posso agora felicitar a mesma nação da sua liberdade ? Serà que, pela razão da liberdade "no modo abstrato" pode colocar-se entre as dàdivas da humanidade, eu sou seriamente suposto felicitar um demente que se libertou das estraves protetoras e da obscuridade sadia de sua célula de ter encontrado a fruição da luz e da liberdade ?
Sou suposto felicitar um assassino de grande celebridade por seus crimes de ter fugido da prisão e ter reencontrado seus direitos naturais? Seria pôr em cena novamente os criminosos condenados às galeras e o seu libertador heroìco, o metafìsico cavalheiro com sua triste expressão.
Quando eu vejo o espìrito de liberdade em ação, eu vejo um poderoso princìpio agindo; e é nesse momento, durante um tempo, tudo o que posso conhecer.
[...]Antes de me aventurar publicamente a felicitar os homens de uma benção, eu preciso estar mais ou menos certo que eles receberam realmente uma benção.A lisonja corrompe o que a recebe e seu autor; a adulação não serve nem ao povo nem a seu rei.Eu tenho então que suspender minhas felicitações sobre o sujeito da nova liberdade da França,antes de saber como ela se conjugou com o governo; com qual força pùblica; com a disciplina e a obediência das forças armadas; com a utilização dos impostos de maneira eficaz e bem distribuìdos; com a moralidade e a religião; com a estabilidade da propriedade; com a Paz e a Ordem; com os costumes pùblicos e sociais.
Todas essas coisas são (com suas maneiras) coisas boas; e, na ausência delas, a liberdade não é uma benção enquanto ela dura e não tem a mìnima chance de continuar muito tempo.O efeito da liberdade, para os indivìduos, é que eles podem fazer o que querem e os agrada;È preciso saber o que lhes serà agradàvel de fazer, antes de arriscar felicitações que poderiam logo se transformar em queixas.È o que ditaria a prudência no caso de indivìduos privados separados e isolados;mas a liberdade, quando os homens agem como se formassem um corpo ùnico, é uma Potência,e particularmente de uma coisa tão redutàvel que uma Potência Nova nas mãos de Novas Pessoas, cujos princìpios, o temperamento e as disposições não lhes são conhecidos ou pouco conhecidos, e nas situações ou aqueles que parecem mais agitados na cena poderiam muito bem não ser aqueles que dominam a situação.
[...]Todas essas considerações unidas, a Revolução francesa é a mais espantosa que apareceu até agora nesse mundo.As coisas mais maravilhosas são causadas, em vàrias situações, por razões bem absurdas e ridìculas, da maneira mais "risìvel", e a meu ver, com os instrumentos mais "desprezìveis" ( de desprezo ).
Tudo parece estrangeiro à natureza nesse estranho caos de leveza e de ferocidade e todas as formas de crimes são misturados a todas as formas de loucuras.Quando consideramos essa cena tràgico-cômica monstruosa, as paixões mais opostas se sucedem necessariamente e, as vezes, se misturam no espìrito; o desprezo alterna-se com a indignação, o sorriso com as làgrimas, o desdenho com o horror.

- Reflexões sobre a Revolução francesa ( 1790 ), Trad.Original F.Lessay - Edmund Burke


Edmund Burke : liberalismo e contra-revolução

O pensamento liberal percorreu, no curso de sua història, bifurcações que o afastou de suas primìcias.Foi o que aconteceu quando, no fim do século XIX, ele deu nascimento na Inglaterra ao socialismo democràtico da Sociedade fabienne, antepassado do partido trabalhista. Um século antes, foi sua declive conservadora que se manifestou na pluma de Edmund Burke ( 1729 - 1797 ).
A preucupação predominante das liberdades não se apagou no entanto.

Um "franc-tireur"

Anglo-Irlandês, Edmund Burke nascido em Dublin em 1729.Estabelecido na Inglaterra apois seus estudos, ele planeia primeiro uma carreira jurìdica, frequenta os meios literàrios, depois entra na polìtica ao lado do partido "whig".
Ele é eleito deputado pela primeira vez em 1774.
Ele atira a atenção no Parlamento atravéis suas intervenções em favor de uma flexibilidade da legislação anti-catòlica, das concessões aos Americanos revoltados, de uma redução da influência da coroa na "Chambre des Communes".
Contrariamente a maioria de seus amigos polìticos, ele denuncia com força a Revolução francesa.
Ele morre em 1797.
È em 1790 que é publicada sua principal obra polìtica, "Reflexões sobre a Revolução francesa", extrato acima.Esse livro tem um forte caràter polêmico.O primeiro objetivo é a vontade de demonstrar que, contrariamente às pessoas que acreditam muito em "whigs", a Revolução francesa, evento monstruoso a seu ver,não tem nada em comum com as relações que a Inglaterra conheceu no século XVII.Essas sò tinham como objetivo de defender as liberdades dos Ingleses - as das pessoas como as do Parlamento - contra as tentativas de instauração de um regime de monarquia absoluta.Elas visavam a salvaguarda de uma herança constitucional forjada pela història.

Despotismo revolucionàrio

Os revolucionàrios franceses, ao contràrio, se esforçam de fazer "table rase du passé" - apagar o passado - e, em nome de direitos abstratos,construir instituições radicalmente novas fundadas na ficção de um cidadão universal.
Essa violência feita à realidade històrica é uma loucura aos olhos de Burke, e se bem que a Revolução ainda não se transformou em uma polìtica de terror, ela conduzirà ao despotismo, ùnica saìda para o caos que surgirà inevitavelmente.


As liberdades como Tradição

Nesse ataque racional pode-se perceber a hostilidade contra ao "hyperracionalismo" do Iluminismo que, segundo Burke, tem sua origem em 1789.Nòs não teriamos razão, no entanto,de sò estudar na sua obra, o que ele, analisa como uma filosofia contra-revolucionària de inspiração romantica.O ensaio polêmico de Burke oferece um condensado de um discurso tipicamente "whig" que privilegia " une approche" que nòs poderiamos dizer "historicista" da polìtica, sem recusar de maneira alguma as leções da razão.Para ser o produto de uma evolução secular, as liberdades são como podemos ver, autênticas.Privilégio do povo inglês, elas procedem de uma inclinação natural de Todos os Homens à Justiça, ao Respeito do Direito, ao livre percurso do bem-estar. O respeito devido a antiguidade das Leis e dos costumes reposa na convicção que os homens que os formaram foram razoàveis e capazes de Progresso da mesma maneira que a atual geração.A Confiança Indestrutìvel na Capacidade da sociedade para Produzir ela-mesmo uma Ordem Justa é um dos aspectos do liberalismo.
Logo não é surpreendente que o crìtico da Revolução francesa tenha sido admirado por alguns pensadores liberais do século XX, como Friedrich Von Hayek

F.L - France

Um comentário:

OMERTA disse...

Aprioristicamemte, a crítica de Burke repousa num objeto evidente: a degradação política.
Tal objeto - síntese da subversão e da corrupção num dado sistema de idéias - decorre da maior vulnerabilidade, mais aos elementos internos do que das ameaças externas propriamente consideradas.
Por tal razão é tarefa árdua a construção de amuradas que efetivamente preservem a coerência, a essência e o matiz do plano de idéias que inauguram um sistema social-político, sem que alguns princípios inerentes não sejam sacrificados pela via do utilitarismo, qual em derradeira análise, representa verdadeira armadilha que acabaria por conduzir ao veneno quem busca pelo antídoto.

Marcelo Alves Stefenoni
Vitória/ES

pretoriusmaximus@hotmail.com