domingo, 27 de maio de 2007

FUNCIONÁRIOS DA FÉ


Nenhuma outra categoria parece tão apinhada de falsas suposições como as que cercam os reverendíssimos padres e pastores, nossos legítimos delegados junto ao Trono da Graça. Começo imediatamente por um exemplo crasso: a suposição de que os clérigos são necessariamente religiosos. Obviamente, esta suposição é vastamente alimentada, até pelos próprios clérigos. O mais irreverente de todos nós, na presença de um funcionário das fé, adota uma atitude grave. Eu próprio sou dado a criticar livremente a Divina Providência, mas, na companhia do superior de minha paróquia, mesmo no Biersche, reduzo minhas reprovações ao nível de um educado resmungo. É porque o conheço muito bem, para acreditar que haja nele um tico de piedade. Na realidade, ele é muito menos pio do que um honesto americano médio, e duvido seriamente que as bruxarias a que ele se entrega como profissional no dia-a-dia lhe despertem qualquer emoção mais sublime do que enfado. Já o ouvi rezar pelo Presidente e pelo Congresso, pelos pagãos e pela chuva, mas nunca ao ouvi rezar por si mesmo. Não obstante, a suposição pública de que ele é altamente devoto, da qual discordo, é que colore nossas relações e o impede de ouvir algumas de minhas mais profundas e inteligentes observações.
Tudo que se precisa para expor o vazio desta velha ilusão é considerar a cadeia de causas que leva um jovem a se ordenar padre ou pastor. Será, por exemplo, apenas um irresistível impulso religioso que o leva e estudar exegese, oratória sacra e aprender grego para ler o Novo Testamento – ou haverá um motivo bem diferente? Acredito nesta segunda hipótese, e que este motivo bem diferente Pode ser descrito rapidamente como um desejo de brilhar no mundo com um mínimo de esforço. O jovem teólogo costumar ser um sujeito ambicioso, mas meio preguiçoso, e, se ele estuda teologia em vez de osteopatia, marketing ou advocacia, é porque a teologia lhe oferece um atalho muito mais conveniente para o respeito público – além de lhe garantir um emprego.
As ciências sacras podem parecer uma penca de nonsenses, mas pelo menos têm a grande virtude de abreviar a escalado rumo à segurança. O médico recém-formado passa os primeiros anos pastando – ou trabalha quase de graça ou tem de contentar-se com os refugos deixados por colegas mais velhos. O jovem advogado, a menos que goze de boas influências ou sofra de completa atrofia da consciência, quase sempre está a um passo da fome. Mas o jovem divino já está a salvo no momento em que é ordenado; sua popularidade entre os impolutos fiéis será talvez até maior naquele momento do que no futuro. Sua sobrevivência é assegurada instantaneamente. De uma tacada só, ele se torna uma pessoa de respeito e importância, eminente me sua comunidade, tratado com deferência até por aqueles que questionam a sua magia, e vaga e agradavelmente temido pelos que acreditam nele.
Esteja certo de que esses fatos não passam ao largo do tipo de jovem ambicioso que descrevi. Alguns desses jovens enxergam longe e possuem até uma cerca capacidade de raciocínio. Eles observam os nove filhos do sargento da polícia local: um deles é um pastor protestante de 25 anos, com uma bela casa para morar, convites para todas as festas de aniversário na região e tempo de sobre para se divertir nas tardes de verão; já seus oito irmãos lutam desesperadamente para sobreviver, como carregadores de mudanças, consertadores de telhados ou motoristas de ônibus. Estes também observam o jovem pastor, desfilando em seu Ford sedan entre as mulheres da cidade enquanto seus maridos administram uma fazenda distante. Além disso, o jovem pastor tem o direito a um colarinho branco engomado, uma sólida galinha assada em seu estômago e seu nome no jornal local todos os dias. Em comparação a ele, só uma louca se casaria com um vendedor de apólices – mas o jovem clérigo, se quiser, terá um harém a sua disposição. Mesmo que seja celibatário, as moças o banharão de sorrisos; na verdade, quanto mais celibatário, mais atenção receberá delas. Não admira que seus privilégios e imunidades propaguem o pecado da inveja. Não admira também que ainda haja candidatos ao santo sudário, apesar do vasto crescimento do ateísmo entre nós.
Os deveres diários de um profissional de Deus não têm nada a ver com religião. São basicamente de natureza social ou comercial. Suponho-se que ele trabalhe, este trabalho será o de um gerente-geral de uma corporação em dificuldades financeiras e dividida por facções entre os acionistas. Seu blábláblá especificamente teológico é de natureza monótona e repetitiva e o desgosta poderosamente, assim como um cirurgião se deprime diante de uma sucessiva extração de furúnculos. O religioso se livra da exaltação espiritual reduzindo-a a uma formalidade oca, assim como o político manda às favas o patriotismo, ou uma mulher se desilude com o amor. Ele se torna, aos poucos, insensível à religião e, por fim, quase hostil a ela. Um bispo que se ajoelhasse espontaneamente e rezasse a Deus provocaria quase tanto escândalo como se subisse ao púlpito vestido de maiô. A piedade dos eclesiásticos, em tais altos níveis, torna-se inteiramente teórica. O servo de Deus foi alçado para tão perto dos santos e tornou-se tão íntimo do funcionamento interno da maquinaria divina que toda a sua capacidade de admiração e espanto já saíram por seus poros. Ele suporta tanto uma autêntica experiência religiosa quanto um veterano maquinista de teatro consegue rir da mesma piada todas as noites. É melhor, talvez, que seja assim. Se os clérigos superiores fossem realmente religiosos, alguns de seus próprios sermões e epístolas pastorais os deixariam mortalmente amedrontados.

1942 – Henry Lois Mencken (1880 - 1935).

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