segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Brasil ! Ontem e Hoje....Sempre !

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

"Rui Barbosa

O desmemoriamento é o mais constante entre os caracteres psicológicos entre nós. Somos um povo de amnésicos, uma raça de esquecidos. Dir-se-ia que não temos consciência da memória, senão pelas suas lacunas.

Rui Barbosa


A política, a arte de gerir o Estado, é definida por princípios morais. A politicalha é a indústria de explorar, nela, interesses pessoais.

Rui Barbosa

O Brasil não são os comensais do erário.
Não são as ratazanas do Tesouro.
Não são os mercadores do Parlamento.
Não são os falsificadores de eleições.
Não são os compradores de jornais.
Não são os corruptores do sistema republicano.
O Brasil não é essa nacionalidade fria, delinqüescente, cadaverizada, que receba na testa, sem estremecimento, o carimbo de uma camarilha, como a messalina recebe no braço a tatuagem do amante, ou o calceta no dorso, a flor-de-lis do verdugo.

Rui Barbosa

Pauta superiormente o teu comportamento, lembrando-se que a vida só se torna digna quando guiada pelos supremos valores do espírito.

Rui Barbosa


"Viva a independência e a separação do Brasil. Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro promover a liberdade do Brasil. Independência ou morte!"

( D . PEDROl )!!!!!!!


"Devemos ser bons. Não existem esforços inúteis quando empregados em prol da colectividade". Getúlio Vargas"Somos duplamente prisioneiros de nós mesmos e do tempo em que vivemos".
Manuel Bandeira

"Como se sabe, existe uma Velhinha em Taubaté, que é a última pessoa no Brasil que acredita. Até nos ministros da área econômica".

Luis Fernando Verissimo

"Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente, a gente muda o mundo na mudança da mente, e quando a mente muda a gente anda para a frente. [...] Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura, na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro".

Gabriel o Pensador

“O Brasil de hoje é o Montesquieu desmoralizado. O Judiciário executa, o Executivo legisla e o Legislativo julga“.
CARLOS CHAGAS

“Abandonai essa vida de crimes e legislações, ó infiéis!”.

MILLÔR FERNANDES

"Toda filosofia pode ser verdadeira; a ignorância dos homens é que faz, de uma ou de outra, crença da moda".

Machado de Assis.



A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.

Jô Soares


O passado é uma lição para se meditar, não para se reproduzir

(Mario de Andrade)


"Os que se consagram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro

" Rui Barbosa (1849 - 1923 * jurista e político brasileiro)

"Ninguém nos aconselha tão mal como nosso amor-próprio, nem tão bem quanto a nossa consciência"
Mariano da Fonseca, marquês de Maricá (1773 - 1848 * político e intelectual brasileiro)

"Quando o português chegou debaixo duma bruta chuva vestiu o índio! Fosse uma manhã de sol o índio tinha despido o português"

Oswald de Andrade (1890 - 1968 * ensaísta, romancista e poeta brasileiro)


Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Mário Quintana


“O que podemos afirmar, com tranqüila segurança, é que fora da democracia e da Constituição qualquer solução será frágil e transitória. Nosso país, que sofreu tantas vezes sob regimes autoritários de variada inspiração ideológica, tem aprendido, aos poucos, a lição da democracia. No regime democrático, a solução dos problemas será lenta e difícil, mas virá. As soluções fáceis, na maioria das vezes, são os atalhos do autoritarismo e do salvacionismo.”


(Do relatório final da CPI dos Correios, em 29/3/2006)


CARTA DA MAÇONARIA PAULISTA CONTRA A CORRUPÇÃO.


Nós, maçons jurisdicionados ao Grande Oriente de São Paulo, federado ao Grande Oriente do Brasil e da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, reunidos na noite do dia 20 de agosto de 2007 na Capital do Estado, nas dependências da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, em sessão solene comemorativa do Dia do Maçom, debatemos e aprovamos os seguintes princípios desta carta, denominada "Carta da Maçonaria Paulista Contra a Corrupção"
.Tendo em Vista que:

1. Vevemos no Brasil um cenário de exclusão social, onde, a miséria, o preconceito e a corrupção são os principais vilões do País emergente. A miséria leva à marginalidade milhões de pessoas; o preconceito afasta o indivíduo das relações sociais, marginalizando-o; e finalmente, a corrupção mostra a face mais sombria e tenebrosa dessa exclusão social, pois, como decorrência direta da malversação do dinheiro publico, faltam recursos para investimentos em educação, saúde, habitação, segurança e transportes. Assim, as populações mais pobres, que demandam a grande maioria dos serviços públicos, ficam prejudicadas, impedidas até mesmo de exercer o legítimo direito constitucional de ir e vir;
2. Combater a corrupção em todas as suas formas, é um dever maçônico e uma exigência da sociedade, acabando com essa epidemia social que subtrai do povo a possibilidade de uma vida digna e o pleno exercício da cidadania, negando a todos o direito à esperança de um futuro melhor;
E considerando que:
. A história pátria brasileira se confunde com a ação de vanguarda social exercida pela Maçonaria através de árduas lutas e conquistas nacionais, legando ao povo o desfrutar da verdadeira liberdade resposável;
. A permanente e relevante representatividade da Maçonaria na sociedade paulista e brasileira fazem-na uma força viva da sociedade;
. A constante preocupação da Maçonaria com as questões sociais regionais e nacionais, acompanhando a evolução humana e identificando um pensamento social cada vez mais exigente para o acolhimento de soluções sérias e definitivas, caracterizando um real interesse na valorização da família brasileira;
Concluímos que:
É necessário recuperar a moralidade publica e instituir a transparência como fio condutor das ações governamentais; criando através da Maçonaria sistemas de operação mais eficientes e permitindo melhor controle da gestão publica, viabilizando fiscalização efetiva e uma oitiva da vontade popular, icentivando a participação da sociedade nas questões de relevante interesse publico. Portanto, nas Potências Maçônicas que esta subscrevem decidem:
1. A Maçonaria atuará de maneira homogênea, exigindo dos maçons que se acham investidos em funções publicas, um comportamento ainda mais austero e compatível com o rigor da fisiologia maçônica;
2. Estimular todos os maçons para que se transformem em focos permanentes de luta contra a corrupção na sociedade, trabalhando ainda para difundir essa luta junto a todos os cidadãos com que convivem;
3. Acentuar em cada Loja Maçônica a importância da tomada de posição clara e firme que precisa ser tomada por ocasião das eleições municipais, estaduais e federais, orientando os maçons, e, sempre que possível, promovendo debates entre candidatos;
4. Criar no âmbito das jurisdições maçônicas um Fórum permanente destinado à análise e discussão das origens, práticas e disseminação da corrupção, definindo e adotando ao final, medidas práticas e contundentes para extirpar todas as ramificações da corrupção;
5. Desenvolver um cadastro de restrição maçônica onde constem todos os nomes de pessoas envolvidas nas condenáveis práticas de corrupção e improbidade administrativa, mantendo tais indivíduos vigiados e afastados de qualquer contato maçônico, e sempre que possível, mantê-los fora do serviço publico;
6. Promover a construção de uma sociedade revigorada em seus princípios morais e sociais, baseando-nos para tanto na trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade;
7. Para que sejam concretizadas as decisões anteriormente expostas, as Potências Maçônicas signatárias desta comprometem-se a manter uma comunicação comum e homogênea entre todos os maçons jurisdicionados, concientizando-os da gravidade do problema e também da importância da participação individual para viabilizar as soluções propostas, a fim de obter um congraçamento de trabalho produtivo e sempre sob os auspícios do Grande Arquiteto do Universo.
São Paulo, 20 de agosto de 2007
Benedito Marques Ballouk Filho
Eminente Grão-Mestre da Grande Oriente de São Paulo
Pedro Luiz Ricardo Gagliardi
Sereníssimo Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo

Moral de mestre, moral de escravo

"Não existe de maneira alguma fatos morais"

Nòs sabemos o que eu exijo do filòsofo : de se colocar muito além do bem e do mal, de colocar sob ele a ilusão do julgamento moral. Essa exigência é o resultado de um exame que eu foumulei pela primeira vez: eu cheguei a conclusão que "não existe de maneira alguma fatos morais". O julgamento moral tem em comum com o julgamento religioso de acreditar em realidades que não são realidades. A moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, mais uma falsa interpretação.

- Le Crépuscule des Idoles, & 1, Trad. H. Albert ( 1899). Nietzsche.

Qual é exatamente, do ponto de vista etimològico, o sentido das designações da palavra "bom" nas diversas lìnguas ? Foi então que eu descobri que elas derivam todas de uma "mesma transformação de idéias", - que em todo lugar a idéia de "distinção", de "nobreza", no sentido de categoria social, é a idéia mãe de onde nasce e se desenvolve necessariamente a idéia de "bom" no sentido "distintivo quanto à alma", e a de "nobre", no sentido de "tendo uma alma de essência superior", "privilegiado quanto à alma". E esse desenvolvimento é sempre paralelo ao desenvolvimento de "vulgar", "plebeu", "baixo", na noção de "mau".

- Généalogie de la Morale, Première Dissertation, 84, Trad. H.Albert ( 1900) Nietzsche


A revolta dos escravos na moral começa quando o ressentimento ele mesmo torna-se criador e gera valores: o ressentimento desses seres, de quem a verdadeira reação, a da ação, é proibida e que sò encontram compensação em uma vingança imaginària.
Enquanto que toda moral aristocràtica nasce de uma triunfante afirmação dela mesma, a moral do escravo opõe desde o começo um "não" ao que não faz parte dela mesma, ao que é "diferente" dela,ao que é seu "não-eu": e esse não é seu ato criador. Ce renversement du coup d'oeil appréciateur" - inspirado do mundo exterior em vez de se estabelecer sobre ele mesmo - pertence "en propre" ao ressentimento: a moral dos escravos tem sempre e antes de toda necessidade, para nascer, de um mundo oposto e exterior : é preciso para isso, para falar fisiològicamente, de estimulantes exteriores para agir; sua ação é essencialmente uma reação.
O contràrio aparece, quando a apreciação dos valores é a apreciação dos mestres: ela age e cresce espontaneamente, ela sò procura seu antìpodo para se afirmar em si-mesma com mais ainda alegria e reconhecimento [....]

- Généalogie de la Morale, Première Dissertation, & 10, Trad. H.Albert ( 1900)Nietzsche

- Tudo isso està em contradição profunda com "a felicidade" tal como a imaginam os impotentes, os oprimidos, [....] neles a felicidade aparece na forma de entorpecente, entorpecimento, repouso, paz, de "sabba", de relachamento para o espìrito e o corpo, bref sob sua forma "passiva". Enquanto o homem vive cheio de confiança e de franqueza com relação a ele mesmo [....], o homem do ressentimento não é nem franco, nem ingênuo, nem leal com relação a ele mesmo. Sua alma "louche", seu espìrito gosta dos recantos, dos "faux-fuyants" e das portas esquivas, tudo o que se esquiva o fascina, é nisso que ele encontra seu mundo, sua segurança, seu "délassement"; ele se escuta guardando o silêncio, a não esquecer, a esperar, a se rebaixar provisòriamente, a se humilhar. Uma tal raça composta de homens do "ressentimento" acabarà necessariamente sendo mais "prudente" do que qualquer outra raça aristocràtica, dessa maneira ela vai honrar a prudência com uma outra medida: ela farà disso uma condição da existência de primeira ordem. [....]

- Idem -


Não poder levar a sério durante muito tempo seus inimigos, suas infelicidades e até mesmo seus delitos - é o sinal caracterìstico das naturezas fortes, que se encontram na plenitude de seu desenvolvimento e que possuem uma "surabondance" de força plàstica, regenerativa e curativa. [....].
Ao contràrio, se nòs nos representamos o "inimigo" da mesma maneira que o concebe o homem do ressentimento - nòs constatamos que nisso reside sua proeza, sua criação pròpria : ele concebeu " o inimigo malevolente", o "maligno" na qualidade de conceito fundamental e é a esse conceito que ele imagina uma "antithèse" " o bom", que não é outro que - ele mesmo....

.- Idem -



Moral de mestre, moral de escravo


O livro La Généalogie de la morale, publicado em 1887, é um panfleto sobre " a origem de nossos preconceitos morais", seu objetivo final é de julgar o "valor" da moral. A palavra "généalogie" é nova na filosofia e Nietzsche a utiliza para ressaltar que o bem e o mal, não são valores em si, mais produtos de interpretações antigas que nòs herdamos.
Para apoiar seu argumento ele propõe uma etimologia da palavra "bom" segundo qual, de uma lìngua a outra, nòs encontrarìamos uma constante: o "bom", é o nobre, a alma superior, a aristocracia que domina o vulgar, o comum, o "mau", quer dizer o povo. Esse primeiro sinal de referência colocado, uma questão se impõe: porquê nossos "preconceitos morais" dizem mais ou menos o contràrio ? Porquê o "povo" seria o representante do "bem" ? È para responder a essa questão que Nietzsche fala da "revolta dos escravos", que se desenvolve em torno de um eixo preciso : o "ressentimento".
Esse sentimento define a disposição fundamental do escravo com relação a seu mestre. Enquanto a moral dos mestres reside na concepção positiva da superioridade deles e da felicidade que aparece, a moral dos escravos é uma reação de òdio perante o "adversàrio". Na qualidade de reação, essa moral precisa então de seu Outro para se constituir como o bem perante o "inimigo mau". Mas como é o inimigo, o mestre, que desfruta da vida e distingue naturalmente o que "lhe" é bom e mal, o escravo deve compensar: como a realidade não "lhe" traz nada de "bom", ele cria, atravéis o ressentimento, o que "é" mal ( em si) e coloca nos antìpodos o que "é" "bem" ( em si ). A moral se desprende dessa maneira da vida e se revolta mesmo contra ela: o que "nos" parece bom, nosso prazer, é necessariamente mal. A felicidade não é desse mundo, pois ela é o monopòlio dos mestres.

Contra a vida


A moral dos escravos teria nascido no judaìsmo. A lei dos judeus é para Nietzsche voltada contra a vida: ela santifica a obediência, a humildade, o arrependimento; ela luta contra os instintos em nome de valores que não são desse mundo. Graças ao apòstolo Paulo, o cristianismo conseguirà internacionalizar esse fundo judàico em vista de uma revolta de massa: são os doentes, os fracos, os oprimidos, nos diz Jesus, que são "bem aventurados". Foi dessa maneira que o cristianismo venceu Roma, incarnação pura, para o autor, dos valores aristocràticos. O socialismo constitue a ùltima grande figura da revolta dos escravos onde o instinto "grégaire" se engaja em uma nova luta contra os poderosos desse mundo.
A interpretação da moral que propõe A Généalogie, talvez a obra mais importante de Nietzsche, tem uma força de convicção surpreendente. De tal maneira que um Daniel Halévy ( 1872 - 1962 ), autor judeu e socialista que contribuiu muito na difusão do pensamento de Nietzsche na França, reinvindicava essa força de convicção. E si as teses sobre as origens judaïques da moral dos "mestres", puderam ser facilmente recuperadas pelos nazistas ( apesar do "anti-semitismo" visceral de Nietzsche ) , é também do lado dos intelectuais de esquerda que nòs procuramos, durante os anos 1960 e influenciados pela interpretação do pensamento de Nietzsche proposta por Gilles Deleuze, a propor os valores emancipadores que não são oriundos de uma moral simplesmente "ré-active" com relação a classe dominante.

F.G

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

René Descartes (1596 - 1650)


" De la méthode et de ses errements "

" Géomètre, astronome, physicien, moraliste et théologien, René Descartes est le modèle même du penseur classique: un savant doublé d'un philosophe, avec un net penchant pour le raisonnement en chambre".


O método segundo Descartes

Desde o começo do Discurso do método ( 1637), René Descartes pretende ter encontrado um método infalìvel para fazer progredir os conhecimentos.Esse método reposa sobre quatro princìpios:
1 - Rejeitar os conhecimentos " prealables non assurés" e sò aceitar as verdades claras e evidentes;
2- decompor cada problema em problemas mais simples e elementàrios;
3 - remontar passo a passo do simples ao complexo;
4- Apreender o todo em uma visão geral para verificar que nenhuma falta ou esquecimento foi cometido.




Esse método, Descartes nos diz tê-lo aplicado com sucesso nos domìnios da àlgebra e da geometria. Porquê não aplica-lo à natureza, ao homem, à moral, a metafìsica ?
Sua demonstração segue vàrias etapas.
Primeiro reconsiderar todas as opiniões adquiridas: é a famosa " dùvida cartesiana". Mas a dùvida podendo levar ao ceticismo generalizado, é preciso reconstruir.
Nòs podemos duvidar de tudo, escreve Descartes, menos de uma coisa: a dùvida ela mesmo.
Duvidar, é pensar. E si "eu penso", então "eu sou" [ pelo menos na qualidade de - "être pensant"]. Cogito ergo sum. Continuando. Esse ser que pensa que eu sou - espìrito, alma, como quisermos - se afirma como realidade independente do corpo ( dualismo), " et lui préexiste" [ ineìsmo das idéias]. Bref, no homem, a razão é primeira.
A partir disso, Descartes tenta uma demonstração da existência de Deus [ sendo eu mesmo um ser imperfeito, é preciso necessariamente que uma entidade superior tenha posto em mim a idéia da perfeição]. Então, sua metafìsica exposta, Descartes volta à terra firme. O mundo que nos rodeia supõe a existência de um engenheiro que definiu as leis e lhe dà em permanência um certo movimento. Apòs Deus vem o mundo: Descartes apresenta então sua concepção mecanista do mundo.
Alors, enfim, as questões de moral onde Descartes segue as posições conforme as do seu tempo.
Ponto final : tudo então se encadeia. Apòs ter duvidado, Descartes reencontra de repente o bom Deus, a alma, o mundo fìsico ( construìdo como um mecanismo de relògio) e a moral de seu tempo.

- J.-F.D.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vida prática

Por Ralph M. Lewis, F.R.C.
Tradução: Marco Guimarães, F.R.C.


Alguma vez pensou em que constitui o lado prático da vida?
Qualquer coisa que contribui ao que uma pessoa crê, é essencial a sua existência e se considera prático.. Óbvio, então, que um modo de viver prático está relacionado com a concepção individual do bem estar pessoal.

Aquilo que chegamos a valorizar mais em nós mesmos é o que nos causa maior satisfação, e cujos atributos desejamos aperfeiçoar. A esfera de existência de um ser Elemental e primitivo é muito reduzida. Quão simples, por exemplo, são as exigências de um pequeno cão! Se sua fome, sede e outros desejos orgânicos estão satisfeitos e se mostramos o afeto que necessita, sua vida está completa. Sem dúvidas que se o cão pudesse raciocinar suficientemente sobre as satisfações da vida, chegaria conclusão de que o fim prático dela, é ter assegurado o sustento e o carinho de seu dono.

Hoje em dia encontramos milhares de pessoas deslumbradas com sua época, cuja concepção de vida apenas eleva-se apenas um pouco além do ser mais primitivo e a do animal. A finalidade de sua existência, segundo elas, está em comer, beber, ter um leito e satisfazer seus desejos sensuais. Para tais indivíduos, as atividades que provêem essas coisas, usando as mãos ou cérebro, constituem o aspecto prático da vida. Consideram que tudo alem é extravagância ou consideram o bem uma aventura muito abstrata que não vale a pena gastar esforços. Assim, pois, vemos que não estão disponíveis a fazer algum sacrifício para a continuidade de um programa cultural.

A vida nos impõe exigências como seres orgânicos que somos. Devemos existir antes de que possamos exercer as funções da vida. Certo está que há algumas condições de prima importância. Todavia, não porque seja imperativo querer dizer que tudo além deve classificar-se como impraticável. Por exemplo, para poder aproveitar os benefícios que nos aguardam em um nível superior, temos que subir um degrau deu ma escada. Não é por acaso algo prático que também nos preparemos para o que possamos encontrar ali? Por que consideramos mais pratico a subida em si mesma do o que ganharemos ao chegar lá em cima?

Assim também, por que temos de considerar os meios de que nos valemos para viver como o aspecto mais pratico e completo da vida? A propensão estética que se tenha, seja o amor pela música ou em geral pelas belas artes, assim como o imperativo de criar algo, são atributos da função do viver. São mesmo conseqüências de nossa natureza. São partes tão nossas como quaisquer órgãos do corpo, ou como todo o apetite dele. O indivíduo que tem um incessante desejo de conhecimentos, certamente é pratico quando persegue tal finalidade. Essa atividade são essenciais para a plenitude de sua existência pessoal.


Prazeres transcendentais

A pessoa que trata de estudar a filosofia Rosacruz e que somente considera prático aquele aspecto dos ensinamentos que pertencem a determinada parte de sua natureza, não está preparada para adotar um sistema completo de vida. Aquele que satisfaz o desejo da mente e da natureza psíquica do homem é pratico porque lhe serve. Não tem nada que seja impraticável em qualquer estudo, a menos que em nenhum sentido tenha afinidade com sua vida. O homem que afirma que todo empenho intelectual, moral e espiritual não é pratico para ele, admite que seu nível de consciência é muito reduzido. Caminha pelo mundo como homem, porem funciona como um ser ínfimo.

A maior parte de nossos apetites são congênitos. Pelo menos sua plenitude dura somente alguns anos após o nascimento. Porém as inclinações intelectuais e psíquicas requerem o exercício da vontade, devem ser cultivadas. Uma vez que se realizam devem incessantemente lhe satisfazer. São muito mais positivas as satisfações que nos causam do que os prazeres do corpo. Para os que experimentaram esses prazeres transcendentais, isto constitui uma parte tão pratica de sua vida como vem a ser o alimento que nutro o corpo. Então pratique uma prece, uma poesia ou uma meditação profunda, basta se dar conta de qual é sua finalidade.

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sábado, 6 de outubro de 2007

Nietzsche, o Pensamento e o Estilo

Acontece que o pensamento seja a tal ponto imperioso e potente, a tal ponto irresistìvel e decidido, que ele faz explodir todas as formas pelas quais ele se manifesta. Sua "voz", sua intensidade, correndo o risco de não encontrar uma saìda, são as ùnicas coisas que importam. È preciso então modificà-lo em fluxo poético ou então, exprimi-lo em formulações densas, compactas, tão precisas quanto elas podem ser, ao mesmo tempo luminosas e impenetràveis.
Nietzsche se exprimiu dessa maneira no poema ( Assim falava Zarathoustra ) e no aforismo ( Aurora, Além do bem e do mal ou os Fragmentos).
Do fato mesmo da força de seu pensamento, Nietzsche se encontrou mais do que qualquer outra pessoa confrontado ao problema da forma na qual tantas vezes se choca a juventude do pensamento. Este foi, com efeito, o caso da filosofia alemã do começo do século XIX ( Hegel, Schelling ) de quem o entusiasmo se imobilizou muito rapidamente em uma série de tiques verbais e fòrmulas imòveis que não cessarão mais de congestionar a història. A filosofia não cessarà mais de encontrar-se confrontada entre a intuição e o sistema. No livro Fragmentos, Nietzsche fala vàrias vezes da " miseràvel grisaille" da lìngua de Hegel e do alemão de burocrata de Kant. Os filòsofos alemães escrevem uma lìngua embaraçada, pesada, sem forma, e isso piorou nos dias de hoje. Apenas Ludwig Wittgenstein, entre os contemporâneos, escreve uma lìngua digna do alemão.
Como mostra o livro Fragmentos que, de 1883 até 1890, ano do desmoronamento mental, contêm tudo o que escreveu Nietzsche, que dà ao estilo uma importância muito particular.
O pensamento filosòfico de Nietzsche se discerne perfeitamente no seu vocabulàrio simples e cotidiano: nenhum termo que não seja compreensìvel universalmente, ele emprega poucas palavras técnicas, apenas para esvazia-las e reduzi-las ao "senso verdadeiro", tão bem que o leitor participa ao desdobramento do filosòfico totalmente, ele é envolto por "alguma coisa de sùtil, de muito leve e quase etérea que foge quando nòs nos aproximamos" de qual Bergson fala se referindo a Spinoza, que Nietzsche cita por sinal muitas vezes e de quem ele diz, em uma carta a seu amigo Overbeck, que ele é " um predecessor e que predecessor", da mesma maneira que Schopenhauer. Ele falarà disso muitas vezes, por exemplo no livro Humano demasiadamente humano ( I,&475) ou no livro Fragmentos até em 1889.

Fundador irrealizado


Durante toda sua vida ( 1844 - 1900 ), Nietzsche encontrou-se confrontado em dois momentos, no cruzamento do excesso e da precisão. O transbordamento do pensamento é canalizado por uma expressão rigorosa. Jacques Derrida descreve esse cruzamento patético no seio da filosofia que também conheceu a audàcia de Descartes: Nietzsche a renova de maneira radical fazendo aparecer a necessidade desse "outro pensamento" que não cessa de perfilar-se embaixo dos grandes edifìcios filosòficos. Nietzsche com efeito não é o grande destruidor, mas de uma certa maneira o grande gerador de pensamentos que ainda não existiram, das coisas deixadas no nìvel subjetivo.Ele é o fundador do irrealizado. O escritor André Gide não se enganou " Sim, Nietzsche destròi, ele escreve em 1899, ele arruina, mas não é para perder a coragem, é feroz: é com nobreza, gloriosamente, "surhumainement", " como um conquistador novo violenta as coisas velhas", mas Nietzsche não podia imaginar a que ponto " as coisas velhas" iam com Staline e Hitler, submergir e destruir a Europa, essa Europa que era a sua maior preucupação, pois ele é com Heinrich Heine ( 1795 - 1856 ), no século XIX, aquele que sonha muito da Europa.
Contrariamente ao que foi muitas vezes escrito, ele também não é aquele que elogia a "besta loura" ou algum outro culto de força, tudo isso é o resultado das falsificações feitas na sua obra pela irmã, Elisabeth Ferter-Nietzsche ( 1846-1935), um espìrito estreito e fanàtico, grande admiradora de Hitler. Ora não existe nada mais afastado do nazismo do que o pensamento de Nietzsche, que se situa fora de todo programa e de toda ideologia.
A famosa " vontade de potência" que foi apenas o tìtulo de um livro possìvel e de qual tanto se falou, não é nada mais do que " perseverança no ser", resistência às injunções e aos mandamentos de todas formas, perseverança pronta a dar a volta sobre si mesma e que parece transformar-se, Wille zur Macht, ( vontade em direção da potência ) e não exercìcio de algum poder.
Indo do panfleto a forma poética ou retornando a formulação filosòfica, o pensamento de Nietzsche é essencialmente livre, nòs não podemos jamais situà-lo em uma dimensão sem falsificar pela omissão todas as outras.
Também não existe frases neutras na obra de Nietzsche, em permanência interpretada por mal entendidos: o " Surhomme" é dessa maneira a tradução aproximativa do alemão Übermensch: o " Surhumain"; der Mensch, é com efeito o ser humano e esse conceito não implica nenhuma procura de virilidade que o termo "Surhomme" portanto dà a entender. Zarathoustra, no livro Assim falava Zarathoustra (1883) não profetisa nada e ele não tem discìpulos: cada um é responsàvel de si-mesmo.
È da mesma maneira para o livro Além do bem e do mal ( 1886): trata-se na realidade do bem na medida em que ele é bom ( Gut ) e da malevolência ( das Böse ). O mal é um estado, mas das Böse ( a malevolência ), uma intenção. A moral é um risco e não uma certeza.

Interpretações imòveis


Tudo é sem cessar a reconsiderar, nada é definitivo, toda certeza é sempre feita para ser reconsiderada. O pensamento de Nietzsche recusa todo acomodamento, mas não se liga a nada, ele guarda os olhos bem abertos e não reprime nada : nisso ele é predecessor de Freud, que é incompreensìvel sem ele. Tudo o que Nietzsche escreve està presente na obra de Freud.
A filosofia contemporânea é então muito tributària de Nietzsche que fez circular esse ar novo de qual precisava um pensamento imòvel em uma representação constante de conceitos "definitivos".Nietzsche revigora os temas passados mas, justamente, ele não os destròi, ele não denuncia nada e não renuncia a nada.
Se ele critica Kant que ele chama " o grande chinês de Königsberg" ( a cidade que Kant nunca deixou) ou Hegel que ele acusa no seu livro Considerações intempestivas de 1876 de ter divinizado o sucesso, é para melhor ressaltar a importância capital. Se Nietzsche procede de Schopenhauer, o " grande Arthur, meu primeiro e ùnico educador" como ele escreve no livro Humano, demasiadamente humano, é porque ele estabeleceu os primeiros fundamentos de um pensamento que ele explora profundamente. Ele conservou o temperamento mais criticou severamente o pessimismo.
Foi Albert Camus que no livro o Homem revoltado, definiu da melhor maneira Nietzsche como o espìrito mais livre de todos, e contra quem são feitas muitas interpretações imòveis. È porque esse filòsofo, da mesma maneira que Kafka, em uma forma de expressão totalmente diferente, nunca pàra de "desviar" e surpreender: ele recusa as adesões, as submissões de toda ordem ou os fanatismos. Como Spinoza, Kant ou Hegel, justamente, ele sempre "combateu unicamente com a força do pensamento a superstição, a intolerância e o irracional".
Nietzsche de ontem é para amanhã.

- Georges-Arthur Goldschmidt, crìtico, tradutor de Peter Handke e de Nietzsche ( Assim falava Zarathoustra, LGF, 1983). Escritor, ele é o autor de Celui qu'on cherche habite à côté ( Verdier, 2007 ).

Nietzsche

Filòsofo mùltiplo com idéias revolucionàrias, Nietzsche rompeu com a rigidez da tradição racionalista, transformando a maneira de pensar e de exprimir a filosofia.

A Ironia

" A ironia é uma "negatividade infinita": ela nega todas as coisas, mas em virtude de alguma coisa superior, que ela não pode conhecer completamente"

" Uma noção diante de qual nada estava estabelecido com convicção"



Na filosofia de Fichte, a subjetividade se libertou de maneira negativa e infinita. Mas, para se liberar dessa agitação inconsistente onde ela se movimentava em uma infinita abstração, era preciso que ela fosse negada, para que o raciocìnio possa tornar-se real, era preciso que ele torne-se concreto. Eis então colocado o problema da realidade metafìsica; esse princìpio "fichtéen" segundo o qual a subjetividade, o eu, todos dois poderosos e sozinhos, têm um valor constitutivo, conquistou Schlegel e Tieck que o utilizaram para conduzir as investigações deles. Disso resultou uma dubla dificuldade: primeiro o "eu" empìrico e finito foi confundido com o eu eterno; em seguida, a realidade metafìsica foi confundida com a realidade històrica. E assim foi aplicado imediatamente um ponto de vista "metafìsico" incompleto à realidade. Fichte queria construir o mundo; mas, no seu espìrito, era uma construção sistemàtica. Schlegel e Tieck pretendiam produzir um mundo.
[....] Na realidade, essa ironia negava toda realidade històrica para estabelecer uma realidade, filha de suas pròprias obras. Isto não era para ressaltar a subjetividade que jà existia no mundo, mas uma subjetividade exaltada, uma subjetividade em segunda potência.[.....]
A ironia se apresentava então sob a forma de uma noção diante de qual nada estava estabelecido com convicção, que tinha terminado com tudo e , além disso, tinha plenos poderes para fazer tudo.
Ela permitia a alguma coisa de subsistir, ela então sabia que ela tinha o poder de aniquila-la, e ela o sabia no exato momento em que ela a deixava subsistir.
Ela estabelecia alguma coisa ? Ela sabia que ela era autorizada a aboli-la, e ela o sabia no momento exato de estabelece-la. Ela sabia estar em possessão do "poder absoluto de fazer e desfazer".
Ela dominava a idéia e o fenômeno e destruia um pelo outro: o fenômeno sabendo que ele não correspondia a idéia; a idéia sabendo que ela não correspondia ao fenômeno; um e outro com a mesma relação, pois a idéia e o fenômeno sò existiam em função um do outro. E, durante todo esse processo, a ironia guardava salva a sua vida despreucupada, pois o sujeito insistia com força de leva-lo a um objetivo positivo.[....]
Mas a realidade ( a realidade històrica) tem uma dupla relação com o sujeito: de uma lado como dom que não admite o desprezo, de outro lado como tarefa que quer ser realizada. A falsa relação que a ironia tem com a realidade jà é suficientemente indicada pela "orientação irônica, essencialmente crìtica". O filòsofo da ironia (Schlegel), assim que seu poeta (Tieck), é crìtico. Por essa razão, nesse sétimo dia no qual, nòs chegamos enfim a tantas considerações diferentes, nòs nos consagramos à crìtica, em vez de se reposar da obra històrica. Mas a crìtica exclui em geral a simpatia; e existe uma crìtica diante de qual a ordem estabelecida subsiste tão pouco que a inocência diante das desconfianças da policia. Certo, nòs não criticamos os clàssicos da Antiguidade, nem, como Kant, a consciência, mas nòs criticamos a pròpria realidade. Muita coisa sem dùvida era criticàvel e o mal, no sentido "fichtéen", a indolência e a preguiça talvez tenham passado, e também a medida; sem dùvida era preciso corrigir a "vis inertiae" [força de inércia] ou, em outras palavras, suprimir uma grande parte dos fatos justamente porque eles não são a realidade; mas nòs não saberìamos por isso justificar uma crìtica dirigida contra a realidade inteira. Schlegel foi um crìtico; isto é suficiente, eu penso, de lembra-lo; mas Tieck também foi um a partir do momento em que nòs não contestamos que esse ùltimo incluiu sua polêmica contra o mundo nos seus dramas que, para serem compreendidos, supõem a maturidade polêmica; essa qualidade lhes deu uma popularidade relativamente menor do que o que merece o caràter genial deles.

Le Concept d'ironie constamment rapporté à Socrate
KierkegaardTrad. P.-H.Tisseau - Editions de L'Orante, 1975

Ironia

No verão de 1841, Kierkegaard defendia em Copenhague uma tese de doutorado intitulada Le Concept d'ironie constamment rapporté à Socrate.
Essa obra apresentava o primeiro elo de sua filosofia da existência. Ele examinava a ironia que praticava o filòsofo grego Sòcrates que, em Athénes, colocava em dificuldade aqueles que pretendiam saber objetivamente alguma coisa lhes mostrando que eles sabiam menos do que eles acreditavam. Sòcrates, ele, sabia que ele não sabia nada, e esse saber negativo lhe concedia, na discussão, uma superioridade que ele exprimia se apresentando diante seus adversàrios como um ignorante. Essa atitude, chamada dialética, constitue o que nòs chamamos a "ironia socràtica".
Logo no começo do século XIX, os filòsofos do romantismo alemão, em particular Friedrich Schlegel, tinham desenvolvido uma concepção particular da ironia em uma revista chamada Athenäum. Schlegel insistia principalmente no fato que....o finito é uma manifestação do infinito. Se nòs pegamos um ìcone que representa o Cristo, é um objeto finito ( o ìcone ) que manifesta alguma coisa de infinito ( Deus ). Mas, Deus pode se representar de muitas maneiras ( um pàssaro branco, um raio de luz, etc. ). È preciso concluir que é uma das caracterìsticas do infinito de ter uma infinidade de representações, e que nenhuma delas lhe é essencial. A "ironia" romantica realiza essa realidade e quer ser a expressão da atitude intelectual que insiste na inadequação entre o finito e suas manifestações, e que não leva a sério as representações finitas do infinito.

Da ironia a possibilidade


Tanto a ironia socràtica quanto a ironia romantica exprimem no entanto uma mesma coisa: elas criticam a realidade finita, mostrando como, perante ela, a realidade ideal pode ser exigente. O que demonstra então Kierkegaard ? Que a ironia é uma "negatividade infinita" porque ela nega todas as coisas, mas em virtude de alguma coisa superior, o infinito, que ela não pode conhecer completamente. Por essa razão, segundo ele, Sòcrates dizia saber que ele não sabia nada.
Então o que a ironia manifesta, é a possibilidade. Ela coloca o homem diante do talvez: talvez a intenção irônica significa isso, talvez aquilo, talvez mesmo nada. È um dos prazeres da ironia de poder se libertar da realidade deixando abertas todas as portas possìveis. Ela não é contrariada pela realidade como pode ser uma demonstração de lògica de qual a significação é unìvoca. Nesse ponto, a ironia manifesta a subjetividade e a liberdade do indivìduo que a pratica. Para Kierkegaard, este ùltimo descobre atravéis a ironia que sua pròpria vida, como a intenção irônica, é sem cessar colocada diante alternativas que, pela possibilidade mesmo da impossibilidade ( talvez mesmo nada), lhes fazem concretamente viver a " experiência do vazio". Esta, que também é a experiência da indecisão diante as escolhas possìveis, faz de maneira que o problema da escolha, de se reconhecer e de optar por uma possibilidade ùnica, torna-se um verdadeiro problema para o indivìduo, pois o futuro de sua existência depende muitas vezes se ele escolhe uma coisa em vez de outra. A filosofia de Kierkegaard examina concretamente a função terrìvel da possibilidade na vida humana, se outros pensadores examinaram esse problema antes dele, como Pascal e sua aposta por exemplo, nenhum deles fez disso o motor de seu sistema. Ora, em um mundo como o nosso onde a técnica e a rapidez das comunicações deixam pouco lugar para a reflexão profunda, o lugar que ocupa a possibilidade é mais do que nunca importante.

- Charles Le Blanc -

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Kiekegaard, Pensador da Existência

Opondo às quimeras da especulação "hegelienne" o ponto de vista da existência individual, Kierkegaard conduz a reflexão em direção de um domìnio que as ambições demasiadas do saber filosòfico tinham abandonado.


Eis uma figura ùnica na història da filosofia, quase um personagem romantico, chato, difìcil de apreender. Um pensamento indissociavelmente ligado a existência de seu autor, uma obra que não corresponde em nada com as formas habituais da escrita filosòfica, livros com tìtulos intrigantes: Temor e Tremor, La Reprise, A Doença mortal, O Conceito de angùstia ou o famoso Jornal do sedutor ( na realidade uma simples parte de uma obra mais vasta: Ou bien....ou bien....).
È raro que nòs nos interessemos na vida e na personalidade dos filòsofos, ou que nòs não possamos pensar nisso quando se trata de expor o pensamento deles - e talvez seja o sintoma que Kiekegaard não parou de ressaltar: que o filòsofo tornou-se um sujeito abstrato. Ele mesmo, desse ponto de vista, faz figura de exceção, como se sua pessoa fosse ela mesmo um caso filosòfico: uma vida breve, uma història de amor complicada e infeliz, a sombra de uma maldição familiar, um temperamento selvagem, independente e melancòlico, uma pessoa romantica, que desprezava sua época, um espìrito profundamente religioso sob a màscara de um mundano, um cristão sofrido que luta até a exaustão contra a Igreja instituìda. Essas imagens, que explicam a mistura de fascinação e repugnância que ele exerceu nos escritores e nos filòsofos, foram suscitadas por uma obra que não hesitou a "mettre en scène", de maneira indireta, o autor ele mesmo. Alimentando-se de motivos autobiogràficos, criando "dublos" e personagens pseudònimos que criaram a confusão e enriqueceram a figura do autor. E foi primeiro isso, a marca de um "pensamento da existência": uma filosofia na qual o autor fala na primeira pessoa, a marca do subjetivo oposto ao discurso impessoal e "objetivo" da ciência.
Na pequena Danemark dessa primeira metade do século XIX, intelectualmente dominada pela filosofia de Hegel e demasiadamente estruturada pela Igreja do Estado "luthérienne", se eleva então um indivìduo solitàrio, de uma especie agressiva, em guerra contra a filosofia que esqueceu e fez esquecer "o que é existir" e contra a boa consciência de um cristianismo mole, comprometido e covarde. Uma figura original, um escritor brilhante e fino dialético que, atravéis uma obra "protéiforme" e surpreendente, marcou a filosofia do século XX, de Heidegger até Ricoeur, de Wittgenstein até Gadamer, passando por Sartre, Jaspers ou Lévinas. Existe, no começo, uma preucupação religiosa: a constatação que, na "vida cristã estabelecida", o cristianismo é apenas uma simples fachada, uma simples realidade social, uma doutrina de qual nòs esquecemos a exigência radical, com a ajuda nisso dos dirigentes da instituição eclisiàstica que a desnaturaram e a acomodaram aos imperativos do tempo e que tornou-se pouco a pouco os alvos privilegiados (com os filòsofos "profissionais") de Kiekegaard. Pois, o religioso não é um assunto da massa, ele é rigorosamente relativo ao indivìduo singular. A fé é a mais alta provação, que mergulha o indivìduo nele mesmo, que "cava" a interioridade em uma relação irredutivelmente pessoal com Deus. Que nòs tenhamos esquecido isso, também é o sistema da influência da filosofia de Hegel, para qual a subjetividade é apenas um momento passageiro no caminho do Espìrito e que faz da fé uma figura ultrapassada do saber.Para Kiekegaard, não é apenas necessàrio de empenhar-se a desfazer os laços entre a especulação e o cristianismo, é preciso restabelecer filosòficamente o ponto de vista da existência singular, do indivìduo, da subjetividade existente - é preciso pensar, sem desnatura-la, essa subjetividade. A interrogação religiosa nos leva dessa maneira a uma filosofia da existência.
Na pequena Danemark dessa primeira metade do século XIX, intelectualmente dominada pela filosofia de Hegel e demasiadamente estruturada pela Igreja do Estado "luthérienne", se eleva então um indivìduo solitàrio, de uma especie agressiva, em guerra contra a filosofia que esqueceu e fez esquecer "o que é existir" e contra a boa consciência de um cristianismo mole, comprometido e covarde. Uma figura original, um escritor brilhante e fino dialético que, atravéis uma obra "protéiforme" e surpreendente, marcou a filosofia do século XX, de Heidegger até Ricoeur, de Wittgenstein até Gadamer, passando por Sartre, Jaspers ou Lévinas. Existe, no começo, uma preucupação religiosa: a constatação que, na "vida cristã estabelecida", o cristianismo é apenas uma simples fachada, uma simples realidade social, uma doutrina de qual nòs esquecemos a exigência radical, com a ajuda nisso dos dirigentes da instituição eclisiàstica que a desnaturaram e a acomodaram aos imperativos do tempo e que tornou-se pouco a pouco os alvos privilegiados (com os filòsofos "profissionais") de Kiekegaard. Pois, o religioso não é um assunto da massa, ele é rigorosamente relativo ao indivìduo singular. A fé é a mais alta provação, que mergulha o indivìduo nele mesmo, que "cava" a interioridade em uma relação irredutivelmente pessoal com Deus.
Que nòs tenhamos esquecido isso, também é o sistema da influência da filosofia de Hegel, para qual a subjetividade é apenas um momento passageiro no caminho do Espìrito e que faz da fé uma figura ultrapassada do saber.Para Kiekegaard, não é apenas necessàrio de empenhar-se a desfazer os laços entre a especulação e o cristianismo, é preciso restabelecer filosòficamente o ponto de vista da existência singular, do indivìduo, da subjetividade existente - é preciso pensar, sem desnatura-la, essa subjetividade. A interrogação religiosa nos leva dessa maneira a uma filosofia da existência.
Com Marx e Nietzsche, mas por razões diferentes verdadeiramente opostas, o filòsofo dinamarquês torna-se dessa maneira uma pessoa muito importante na contestação da filosofia de Hegel, opondo às reivindicações do indivìduo, da subjetividade concreta e existente às quimeras da especulação, opondo ironicamente o "modesto" ponto de vista da existência individual à uma filosofia que pretende igualar o ponto de vista do absoluto e absorver o singular no universal. Trazendo o problema da fé no terreno existencial, Kiekegaard curva o conjunto da reflexão em direção de um domìnio que a generalidade dos conceitos e as ambições demasiadas do saber filosòfico tinham abandonado.

"Ou bien.....ou bien....."

È dessa maneira o fato de filosofar ele mesmo que é interrogado de maneira radical: se a filosofia não tem por tarefa de pensar a existência, nossa existência, qual é o seu interesse ? Ocupada a tornar-se uma ciência suprema, a filosofia esqueceu a injunção socràtica do "conhece-te a ti mesmo": isto é a sua raiz vital, que é preciso reencontrar. E se ela nos dà respostas impraticàveis às questões fundamentais que minha situação de existir revela, pior: se, atravéis os charmes da abstração, ela me incita a esquecer essa situação, a decolar do real, ela não é apenas inùtil, ela também é perigosa. È fàcil, no pensamento, de se fazer puro espìrito. No pensamento puro, as contradições se resolvem facilmente. Mas na existência, é outra coisa: nòs não ultrapassamos as contradições, nòs as suportamos, nòs sò podemos ultrapassa-las por uma decisão singular, apaixonada, por uma escolha perante um "ou bien....ou bien...." que se impõe e que se isola. È disso que é preciso falar e compreender: o que significa existir.Pois existir é uma tarefa: a de tornar-se si-mesmo, um indivìduo singular. E esse tornar-se é o contràrio do movimento de elevação em direção do saber absoluto que propõe a filosofia de Hegel, onde ilusoriamente nòs serìamos iguais a Deus, onde a finitude, que é nossa condição, seria ultrapassada na identidade do fini e do infinito.
Não, a existência, se nòs não pretendemos em vão fugir dela transformando-se em algo que ninguém é capaz de se transformar, é o lugar da oposição irredutìvel do fini e do infinito, da diferença entre o pensamento e o ser - e isso, é preciso ao mesmo tempo suporta-lo e pensa-lo. Se a filosofia tem um interesse, deve ser aquele de nos colocar no caminho desse "tornar-se": filosofia da existência, ela deve ser filosofia para a existência.

Verdade e pseudònimo

È nas figuras e nas situações que vão revelar-se as estruturas fundamentais da existência, essas "etapas" igualmente (estética, ética, religioso), que são posições da subjetividade. A filosofia empresta para fazer isso os recursos da literatura. O romanesco e a ficção se encontram no tratado filosòfico e no discurso religioso. Para fazer surgir in vivo os conceitos fundamentais ou os problemas filosòficos, é preciso uma multiplicidade de autores que falam a partir de uma situação na existência: a metade da produção de Kierkegaard serà sob pseudònimo. Mas também, reencontrando sua necessidade para o indivìduo, Kiekegaard inventa um meio de falar ao leitor singular, de apreende-lo individualmente e de coloca-lo, pacientemente, no começo de sua pròpria existência. Ele não faz apenas revelar nele o desespero, a angùstia ou a tentação permanente de não ser ele mesmo; as categorias e as estruturas fundamentais que elabora a filosofia da existência não são mais apenas conceitos teòricos; elas dirigem ao leitor uma injunção : agora, decida. A filosofia tornou-se novamente vital.

- Vincent Delecroix, filòsofo, especialista de Kierkegaard de quem ele traduziu Exercice en christianisme e sobre quem ele escreveu um ensaio, Singulière philosophie ( Félin, 2006). Autor de vàrios romances, entre eles Ce qui est perdu ( Gallimard, 2006 ).

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Livro didático e propaganda política

- por Ali Kamel


Ainda os livros didáticos, um problema mais grave do que eu imaginava. Para 2008, o MEC me informa que já comprou mais de um milhão de exemplares do livro de história "Projeto Araribá, História, Ensino Fundamental, 8", a ser distribuído na rede pública a partir de janeiro.

Para ser exato, 1.185.670 exemplares a um custo de R$ 5.631.932,50. É agora o campeão de vendas.

Sem dúvida, o livro tem mais compostura que o "Nova História Crítica", que analisei aqui há 15 dias, mas, em essência, apresenta os mesmos defeitos e um novo, gravíssimo: faz propaganda político- eleitoral do PT. Na unidade 3, "A primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa", o livro diz o seguinte, logo na abertura, sob o título "Um sonho que mudou a história": "Em 1 de janeiro de 2003, o governo federal apresentou o programa Fome Zero. Segundo dados do IBGE, 54 milhões de brasileiros vivem em estado de pobreza. Em nenhum país do planeta existem tantos pobres vivendo entre pessoas tão ricas . No mundo, segundo o relatório do Banco Mundial, 1,2 bilhão de pessoas vivem com uma renda inferior a 1 dólar por dia, cifra que deve chegar a 1,9 bilhão em 2015. Por que, apesar de tantos avanços tecnológicos, pessoas continuam morrendo de fome? É possível mudar essa situação? Os revolucionários russos de 1917 acreditavam que sim. Seguros de que o capitalismo era o responsável pela pobreza, eles fizeram a primeira revolução socialista da história. Depois disso, o mundo nunca mais seria o mesmo. Hoje, passado quase um século, o capitalismo retornou à Rússia, e a União Soviética, que nasceu da Revolução Russa de 1917, não existe mais. Valeu a pena? É difícil responder. Mas como dizia um membro daquela geração de revolucionários, é preciso acreditar nos sonhos."

Entenderam a sutileza? Os alunos são levados a acreditar que não há país no mundo com mais pobres do que o nosso (os autores esqueceram-se da Índia, para citar apenas um?). E que o Fome Zero seria o sonho de 1917 revivido.

O livro prossegue com pequenos tópicos sobre os principais acontecimentos mundiais, a revolução russa e seus antecedentes: grande pobreza no campo, extrema exploração dos operários. Vitoriosos os revolucionários, seus primeiros feitos são assim descritos: "Estradas de ferro e bancos foram nacionalizados, as terras foram divididas e distribuídas entre os camponeses e a produção nas indústrias passou a ser controlada pelos operários. As medidas revolucionárias do novo governo feriram os interesses da burguesia e das grandes empresas que atuavam no país." Segue-se um breve resumo da guerra civil — a burguesia e a aristocracia, apoiados pelos EUA e Grã-Bretanha, contra os revolucionários liderados por Lênin e Trotsky — e um pequeno verbete intitulado "A ditadura de Stálin". Nele, lê-se que a URSS foi governada de 1924 a 1953 por Stálin, como um ditador. "As liberdades individuais foram suprimidas e os adversários do regime , inclusive os líderes da revolução, acabaram presos ou assassinados pelo regime." Parece honesto, mas não é: omitir os detalhes da monstruosa ditadura de Stálin, que levou milhões à morte, é esconder dos alunos o mal que o socialismo real provocou. Especialmente porque os autores não se esqueceram de destacar o "bem" que Stálin proporcionou: "O Estado promoveu o desenvolvimento da indústria de base, como energia elétrica e metalurgia, investiu em educação e na qualificação de mão de obra e formou cooperativas agrícolas (...) para ampliar a produção no campo."

Bonito, não? No fim do capítulo, nas atividades propostas aos alunos, fica estabelecida a distinção entre capitalismo e socialismo: "Os anos 1920, nos EUA, caracterizaram-se por consolidar a sociedade de consumo. Numa cultura de consumo, grande parte do tempo e das energias humanas está voltado (sic) para a aquisição de bens materiais. Sob a orientação do seu professor, debatam os seguintes aspectos: a) dados que comprovam o caráter consumista da sociedade atual; b) os efeitos negativos da cultura do consumo para o indivíduo e a sociedade."

A orientação socialista do livro fica patente em muitas passagens. Veja por exemplo como os autores definem o Welfare State europeu: "Apesar de ter sido elaborado, no contexto da Guerra Fria, para afastar a ameaça representada pelo prestígio que o socialismo despertava no Ocidente, o Welfare State serviu, também, para concretizar antigas reivindicações do movimento sindical (...)." O livro se apressa a dizer que o Welfare State durou pouco, graças à crise do petróleo de 1973 (sic): "Nos anos 1980, os governos de Margareth Thatcher, na Inglaterra (sic), e de Ronald Reagan, nos EUA, adotaram o modelo econômico de livre mercado, tornando nula (sic) a intervenção do Estado na economia (...)." Os alunos devem achar que viver naqueles dois países é um horror.

E Mao? Este parece ser um fetiche dos autores de livros didáticos. O livro conta que Mao derrotou o capitalismo na China e relata dois episódios, sem referência aos milhões de mortos que os dois eventos provocaram. "Em 1958, a fim de aumentar a produção, foram criadas cooperativas rurais e novas indústrias também. Essas iniciativas econômicas foram conhecidas como o 'Grande salto para a frente'. Preocupado com a influência de valores ocidentais na China, Mao iniciou a Revolução Cultural, uma campanha oficial marcada por intensa doutrinação e repressão." E mais não se diz.

Deixando de lado a História Universal, o que mais espanta no livro é a sua novidade: a propaganda político-eleitoral. Depois de relatar o sucesso do Plano Real no Governo Itamar, o livro explica assim a vitória de FH sobre Lula nas eleições de 1994: "Uma habilidosa propaganda política transformou o candidato do governo, Fernando Henrique, no pai do Plano Real." Sobre os resultados do primeiro governo FH, o livro contraria tudo o que os especialistas dizem sobre os efeitos imediatos do Plano Real: "A inflação foi controlada, mas a um preço muito elevado. O desemprego cresceu, principalmente na indústria, elevando a miséria, a concentração de renda e a violência no país." Herança maldita é pouco.

Depois de contar como o governo foi obrigado a desvalorizar o real, o livro diz que o segundo mandato de FH trouxe duas conquistas no campo social, como ampliar as matrículas no ensino fundamental e reduzir a mortalidade infantil. Mas o capítulo termina assim: "O PT chegou ao poder com a responsabilidade de vencer um enorme desafio: manter a inflação sob controle e combater a desigualdade social no Brasil, onde 54 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza." Como os autores disseram no início, o sonho não acabou.

O livro termina com oito páginas sobre a fome no mundo e no Brasil. Há afirmações assim: "Há mais pessoas desnutridas na Nigéria, um país de 120 milhões de habitantes, do que na China, onde vive mais de 1,2 bilhão de pessoas." A China é socialista, certo? As causas da fome, apontadas pelo livro, são as dificuldades de acesso à terra, o aumento do desemprego e a divisão desigual da renda. Depois de repetir que "o nosso país tem fome" o livro "esclarece": "O combate à fome é o principal objetivo do governo Lula, que tomou posse em janeiro de 2003. Para isso, o governo lançou o Programa Fome Zero. A implantação do programa tem como referência o Projeto Fome Zero _ uma proposta de política de segurança alimentar para o Brasil, um documento que reúne propostas elaboradas pelo Partido dos Trabalhadores em 2001. Leia agora parte desse documento."

E as crianças são expostas a 52 linhas do documento de propaganda partidária elaborado em 2001 pelo Instituto da Cidadania, do PT. E a nenhum outro. O Fome Zero, que não conseguiu sair do papel, vira História. Tudo isso distribuído gratuitamente pelo governo federal a mais de um milhão de alunos. Isso é possível? Isso é republicano?

Não acredito que o presidente Lula aceite que propaganda política de um único partido seja distribuída com o uso de dinheiro público como se fosse aula de história. Não acho também que o MEC concorde com isso. Fica aqui o alerta.


Três detalhes.

O livro, deliberadamente, confunde pobreza com fome. A OMS admite até 5% de pessoas magras em qualquer população (os geneticamente magros e não os emagrecidos pela falta de alimento). O Brasil tem 4% de magros e, em pouquíssimas áreas, esse percentual chega a 7%; a Índia tem 50%. A fome no nosso país é, portanto, um fenômeno localizado, na casa das centenas de milhares de pessoas, nunca na casa dos milhões.

O livro, que se bate contra a globalização e o neo-liberalismo, foi impresso na China. Usando uma linguagem que poderia ser a dos autores, "roubando empregos brasileiros.

"E, por último, para que o leitor tenha certeza da péssima qualidade do projeto, sugiro uma visita à página 83 do livro de geografia para oitava série, da mesma coleção ( 1.087.059 exemplares ao custo de R$ 4.859.153,73). Lá, num texto sobre o Islã, está escrito que a corrente sunita é a mais moderada e que "a xiita ou fundamentalismo islâmico é a mais radical". Sim, eles acham que o xiismo e o fundamentalismo são sinônimos. Sim, eles ignoram que a Al-Qaeda, a manisfestação mais brutal do fundamentalismo, é sunita. No mesmo texto, está escrito também que a Arábia Saudita, o berço do sunismo radical, é ... xiita.

Pobres de nossas crianças.



Visite e divulgue o
www.escolasempartido.org

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

"O corpo, milagre por excelência"

O que nòs adquirimos, apòs todas essas pesquisas, é que não nos é suficiente de saber que nòs temos representações, que essas representações são de tal ou tal maneira, e dependem de tal ou tal lei, de qual a expressão geral é sempre o princìpio de razão. Nòs queremos saber a significação dessas representações; nòs perguntamos se o mundo não pode ultrapassa-las, e nesse caso ele deveria se apresentar a nòs como um sonho vão, ou como uma forma vaporosa semelhante a dos fantasmas; ele não seria digno de atrair nossa atenção: Ou então, ao contràrio, serà que existe alguma outra coisa que a representação, alguma coisa a mais; e então o que serà ? È evidente que essa tal coisa deve ser plenamente diferente da representação, por sua essência, e que as formas e a lei da representação devem ser para ela totalmente estrangeiras. Por conseguinte, nòs não podemos partir da representação, para alcança-la, com o fio condutor dessas leis, que são apenas o elo do objeto, da representação, quer dizer das manifestações do princìpio de razão. Nòs vemos então dessa maneira que não é do exterior que nòs devemos partir para chegar na essência das coisas; nòs podemos procurar de todas as maneiras, nòs chegaremos apenas nos fantasmas - ou em fòrmulas; nòs seremos semelhantes a uma pessoa que daria a volta em torno de um castelo, para encontrar a entrada, e que não a encontrando, desenharia a fachada. È portanto o caminho que seguiram todos os filòsofos antes de mim. [.....]


- O Mundo como Vontade e como Representação, Livro II, &17 e &18, Schopenhauer, Trad. A. Burdeau ( 1909 - 1913 ) -


Na realidade, seria impossìvel de encontrar a significação procurada desse mundo, que me parece absolutamente como minha representação, ou então a passagem desse mundo, na qualidade de simples representação do sujeito conhecido no que ele pode ser fora da representação, se o filòsofo ele mesmo não fosse nada mais que o puro sujeito conhecido (uma cabeça de anjo alado, sem corpo). Mas na realidade, ele tem suas raizes no mundo: na qualidade de indivìduo, ele faz parte dele ; sò o seu conhecimento torna possìvel a representação do mundo inteiro; mas esse mesmo conhecimento tem por condição necessària a existência de um corpo. [....] O sujeito do conhecimento, por sua identidade com o corpo, torna-se um indivìduo; logo, esse corpo lhe é dado de duas maneiras totalmente diferentes: de um lado como representação no conhecimento fenomenal, como objeto entre outros objetos e como submetido a lei deles; e de outro lado, ao mesmo tempo, como esse princìpio imediatamente conhecido de cada pessoa, que designa a palavra Vontade. Todo ato real de nossa vontade é ao mesmo tempo e com certeza um movimento de nosso corpo; nòs não podemos querer um ato realmente sem constatar logo em seguida que ele aparece como movimento corporal. O ato voluntàrio e a ação do corpo não são dois fenômenos objetivos diferentes, ligados pela causalidade; eles não são entre eles na relação de causa e de efeito. Eles são um ùnico e mesmo fato; simplesmente esse fato nos é dado de duas maneiras diferentes: de um lado imediatamente, de outro lado como representação sensìvel. [.....]


- Idem -


Essa identidade do corpo e da vontade é o mais imediato de nossos conhecimentos, e se nòs não a apreendemos e não a fixamos como tal, nòs tentaremos em vão de deduzi-la, de uma maneira qualquer, de um conhecimento anterior. È um conhecimento de um gênero especial, de qual a verdade, por esse motivo, não pode ser colocada em nenhuma das rubricas sob as quais eu coloquei toda verdade no meu expositivo do princìpio de razão, - à savoir - : verdade lògica, empìrica, metafìsica e "métadologique"; pois ela não é, como todas essas verdades, a relação de uma representação abstrata com uma outra representação, ou como forma necessària de uma representação intuitiva ou abstrata; ela é a relação de um julgamento com a relação que existe entre uma representação intuitiva e o que, longe de ser uma representação, é absolutamente diferente: a vontade. Por esse motivo, eu poderia distinguir essa verdade de todas as outras, e chama-la a verdade filosòfica por excelência.


- Idem -


O milagre do corpo


Schopenhauer continua, no seu raciocìnio, "tributàrio" da filosofia moderna, que concede a "preeminência" metodològica ao sujeito conhecido. Desse ponto de vista, o mundo sò é conhecido na medida em que ele se manifesta à consciência humana. Mas, o espìrito humano não é um simples "quarto de registro": ele é ele mesmo estruturado por leis e regras. As caracterìsticas que nòs atribuimos ingenuamente ao mundo - o tempo, o espaço, as relações de causa a efeito, os objetos - não são nada mais que as estruturas de nosso pensamento. Nossas representações são nesse ponto, um pouco como uma pintura que deforma as proporções do modelo segundo as leis de perspectiva para adapta-lo à superfìcie plana do quadro. E não somente nossas representações não podem jamais nos mostrar o mundo como ele é, mais elas o dissimulam, se situando entre o mundo e nòs mesmos. Elas constituem dessa maneira um véu que esconde o mundo, o que Schopenhauer chama o " o véu de Maïa", essa deusa hindu que, no "brahmanismo", personifica a ilusão.
Schopenhauer não adota por isso uma atitude cética, que o conduziria a renunciar à verdade aceitando o caràter desconhecido do mundo. Ao contràrio, ele define o projeto filosòfico pela vontade de saber o que està atràs do véu: por essa razão ele reivindica o nome clàssico de metafìsica, concebido como conhecimento das coisas em si.



Uma experiência direta


Todas as anàlises anteriores parecem portanto ter demonstrado a impossibilidade desse conhecimento, mas Schopenhauer precisa no texto acima que essas anàlises demonstraram a impossibilidade de conhecer o real atravéis a representação. È preciso então considerar como uma certeza que o mundo é nele mesmo totalmente diferente da representação, que ele não obedece a suas leis, e sobretudo que para alcança-lo é preciso contornar o obstàculo da representação e entrar em contato direto com ele. Para toda a filosofia clàssica, um tal projeto é absolutamente impossìvel: eu não posso sair de minha consciência para saber o que é o mundo fora de minha consciência. Certo, mas eu não sou apenas uma consciência: eu também sou um corpo. Em outras palavras, eu não conheço simplesmente o mundo: eu sou uma parte do mundo. Atravéis meu corpo, eu tenho então uma experiência direta, imediata, concreta de uma coisa que não é deformada pelas leis da representação. Então eu conheço meu corpo de duas maneiras distintas: de um lado, como todo o resto, como representação, como um objeto localizado no tempo e no espaço e obedecendo às leis da causalidade. Mas de outro lado, eu experimento meu corpo, eu vivo ele, eu o sinto, e nisso eu o conheço como ele é nele mesmo: como coisa em si. O corpo é dessa maneira para Schopenhauer o "milagre por excelência": ele é a porta que nos permite de rasgar o véu das representações e nos abre ao mundo da maneira que ele é em si. O saber que eu tenho de meu corpo é dessa maneira uma verdade incrìvel, que não pode se definir atravéis critérios lògicos e racionais: ele pertence a um outro tipo de verdade, que Schopenhauer chama na conclusão do texto " a verdade filosòfica por excelência". Isto é sem dùvida alguma, sua intuição mais profunda: não somente Nietzsche vai fundar seu pensamento nessa descoberta, mais também toda a fenomenologia, de Husserl até Michel Henry, que se desenvolveu nessas bases.

- J.V -

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Schopenhauer, Remédio para a Ilusão

Radicalmente pessimista, se empenhando a nos desiludir e a nos despir de nossas ilusões, o "sàbio de Francfort" fez um grande favor a filosofia: ele a fez descer na terra.


Fascinação e Repugnância


Esse homem tem tudo para desagradar.
Misantropo, amargo, pessimista, misògino, reacionàrio, avarento, desprezìvel, còlerico, pretencioso, egoista, megalomanìaco, paranòico....jà é muita coisa. Portanto, ainda não é suficiente. Esse solteirão determinado, sarcàstico e còlerico, também é anti-semita e demasiadamente niilista. Bref, nòs temos todas as razões para odia-lo. Não é o caso. Ao contràrio. O horrìvel homem suscita na realidade uma "furiosa ternura", como nòs dizemos com Molière Nòs gostarìamos de detesta-lo. No fundo, ele merece. Mas em vão: esse rabugento suscita a simpatia, verdadeiramente a admiração e quase, de uma certa maneira, a amizade. Porquê então ?
Primeiro porque ele se empenha, com a dureza necessària, a nos despojar de nossas ilusões. Ele repete o que nòs não queremos ouvir : o amor é uma impostura, a felicidade uma quimera, a vida um erro, um transtorno inùtil na pureza do vazio. Nòs sonhamos de grandes sentimentos, de serenidade possìvel, de prazer real. Nòs cantamos a grandeza da vida, sua plenitude, sua profusão, sua potência. Nòs nos repetimos que o mundo tem um sentido. Schopenhauer nos sopra na orelha que todas essas coisas são asneiras ineptas.
Seu primeiro mérito: nos desiludir. " Pela pròpria natureza, a vida não admite de maneira alguma uma felicidade verdadeira, ela é essencialmente um sofrimento com diversos aspectos, um estado de infelicidade radical."
È melhor compreede-lo imediatamente, e não mais se perder : " Hoje é negativo, e cada dia serà mais negativo - até que o pior aconteça." Vamos parar de nos contar històrias, vamos compreeder a situação real onde nos encontramos: " Uma vida feliz é uma contradição nos seus termos. " A afirmação dessa infelicidade radical tem tudo de um tratamento de choque. Eis um terapeuta que não procura dourar a pìlula. Ele nos tira completamente toda esperança, toda consolação, toda possibilidade de esquiva.


Negridão pedagògica


Nòs podemos julgar sua negridão excessiva. Ou quase ridìcula. Ou mesmo francamente risìvel. Ela continua assim mesmo, antes de qualquer coisa, pedagògica. Nietzsche não se enganou: Schopenhauer é essencialmente um educador. Ele começa para quebrar essa massa de falsas esperanças e horizontes ilusòrios que nos separa da rudeza do real. Destruindo nossas ilusões, ele nos dà a possibilidade de existir, de olhar de outra maneira nossa morte pròxima e nossas agitações efêmeras. Nesse mundo doravante absurdo, infinitamente cruel, desprovido da mìnima possibilidade de melhoramento, é necessàrio que nòs possamos continuar serenos, e verdadeiramente agenciar, contra todos os obstàculos e toda verosimilhança, uma certa alegria.
Pois esse desespero talvez não seja tão negro, mas sereno, de uma certa maneira. Se nòs aceitamos de admitir um uso tônico do pessimismo, Schopenhauer é um produto que dopa. Ele sugere na realidade de resistir ao pior sem fazer um drama. Nesse ponto de vista, esse burguês da Europa realiza uma união com a inspiração dos filòsofos da Antiguidade. Muito além da idade clàssica e do Iluminismo, apòs o tempo das ciências e da razão triunfante, ele recomeça a pràtica da vida filosòfica, a velha sabedoria solitària e sem deus, heròica, erguida em uma paisagem devastada, mas sem làgrimas. Um educador, sem dùvida alguma.
Que também ensina que o progresso não existe. A Història é apenas um miragem. Mais exatamente, como dizia Shakespeare, um conto repleto de barulho e de fùria contado por um idiota. " A raça humana està definitivamente e pela pròpria natureza destinada ao sofrimento e a ruìna." Vamos então parar de sonhar com o paraìso, que ele seja técnico, comunista ou globalizado. Que nòs tenhamos consciência, enfim, da maneira pela qual os eventos deformam a superfìcie do mundo sem que nada, no fundo, mude realmente. Certo, essa idéia não é progressista....
Não podemos esperar nada da polìtica. " O Estado é apenas o açaimo que tem por objetivo de tornar inofensiva essa besta carniceira, o homem, e de fazer de uma certa maneira que ele tenha o aspecto de um herbìvoro."
Eis novamente um argumento pessimista. Todavia, se nòs tivessemos verdadeiramente escutado Schopenhauer, em vez de Hegel e Marx, ou Staline, ou Hitler, que todos acreditavam nas grandes mutações da Història e na possibilidade de construir um homem novo, quantos milhões de mortos nòs terìamos a menos ?


Um Heròi especial


Esse pensamento liberado do progresso, da utopia, das revoluções também é radicalmente sem Deus. Ele torna inùtil todas as " asneiras" relativas ao "senso" que as "falsas" doutrinas nos ensinaram. Para começar a ser humano, dito em substância esse perturbador, é preciso ter consciência que o mundo é radicalmente desprovido de senso. O que nos resta como salvação possìvel ? Fugir dessa realidade maldita, ou tranforma-la atravéis a criação artistica. A grande transformação não tem por objetivo a depressão, mas o mìstico e a vida artista. Não é um acaso se nosso filòsofo se interessou mais do que qualquer outra pessoa do seu tempo na India. E também não é sem razão que ele tocava, cada manhã, a flauta e que ele compôs, as suas mais belas anàlises, relativas a mùsica.
Nòs deverìamos então concluir que esse personagem repulsivo é de uma certa maneira um hèròi. Heròi da filosofia, de qual ele consagrou sua vida inteira, e todas as suas forças, até mesmo sua fortuna. Se ele parece avarento, é apenas para assegurar sua independência, para conseguir viver apenas escrevendo livros que não lhe dão nenhum lucro. Se ele se afastou dos amores, foi também para sò poder pensar. Heròi da ternura igualmente. Se ele é tão malvado com a humanidade, é por causa de uma demasiada sensibilidade ferida, imensa compaixão sem eco, imenso altruìsmo sem esperança.


"Misogynie" e anti-semitismo


Ficam duas coisas que nòs temos dificuldade para suportar. Sua "misogynie" demasiada, seu anti-semitismo repulsivo. Muito difìcil de atribui-los inteiramente à sua época. Sem dùvida o que nos choca e nos dà repugnância era percebido de outra maneira no contexto de origem. Existem limites a esse argumento: Serà que na realidade não existia na Alemanha de seu tempo, alguém que fosse feminista e amigo dos judeus ?
Serà em vão que nòs tentaremos desculpa-lo. Nòs poderiamos dizer que com relação às mulheres, ele não perdoa as pròprias insuficiências dele mesmo e sua incapacidade de poder ama-las. Nòs poderìamos ainda dizer que ele condena os judeus, de terem inventado a Història, o otimismo e esse Deus criador que, contemplando sua obra, viu que "ela era boa". Seriam explicações medìocres, esquivas negativas. Nesses dois pontos que são essenciais, ele não é magnìfico, ele é apenas odioso. A não ser que seja preciso reler sua obra inteira no outro sentido, começando por sua "misogynie" e seu òdio pelos judeus para discernir os sinais importantes de seu mal estar relativo à vida e à lei, as razões de sua impossibilidade de ver o mundo de uma maneira positiva. Seria um outra forma de se interessar aos motivos que ele tem para desagradar.

- Roger-Pol Droit, pesquisador no CNRS e cronista do jornal Le Monde, autor entre outros, na editora Odile Jacob, de 101 experiências de filosofia cotidiana (2001), de A Companhia dos filòsofos ( 2002 ) e de Sua vida serà perfeita ( 2005 )

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O que ensinam às nossas crianças

Por Ali Kamel *

Artigo reproduzido do jornal O Globo de 18/9, página 7. Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático “Nova História Crítica, 8ª série” distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.

Sobre o que é hoje o capitalismo: “Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.”

Sobre o ideal marxista: “Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores.”

Sobre Mao Tse-tung: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.”

Sobre Revolução Cultural Chinesa: “Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes ‘politicamente esclerosados’. (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: ‘Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo’. As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.”

Sobre a Revolução Cubana e o paredão: “A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular.”

Sobre as primeiras medidas de Fidel: “O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%.” Essas medidas eram justificadas assim: “Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde.”

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: “Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA.(...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?”

Sobre os motivos da derrocada da URSS: “É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinha inveja da classe média em desenvolvimento dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?”

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas um pesadelo?

Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Senão for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.


* Ali Kamel é jornalista

domingo, 23 de setembro de 2007

O Nascimento da Filosofia Contemporânea

Reconsiderando o otimismo e o racionalismo do Iluminismo, Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche, abriram, cada um a sua maneira, as portas da era da desconfiança e da "desconstrução", estabelecendo dessa maneira os fundamentos da filosofia contemporânea.


Schopenhauer, Kiekegaard e Nietzsche


O primeiro é célebre por seu pessimismo, o segundo por seu cristianianismo, e o terceiro por sua crìtica radical dos dois primeiros ! Qual a relação entre eles ? E qual é a atualidade ? A resposta se impõe: cada um a sua maneira, eles instauram uma ruptura fundamental e irreversìvel com o otimismo e o racionalismo do Iluminismo. E é atravéis essa ruptura que eles abrem o espaço do pensamento contemporâneo, o espaço da "desconstrução" e da "genealogia", no qual nòs ainda nos encontramos. Eis o que é essencial compreender para a introdução de uma leitura desses três gigantes do pensamento.
Vamos começar por Schopenhauer. De seu pensamento, inùmeros escritores da moda se contentam de guardar algumas noções vagas e fàceis que podem se resumir dessa maneira: a vida não tem sentido e nossa ùnica consolação se situa na arte.
È curto, terrivelmente curto: se a mensagem de Schopenhauer se reduzisse a essas fòrmulas, eu vejo mal a razão para continuar a falar dela. Como mostrou Clément Rosset no pequeno ensaio que ele consagrou a Schopenhauer ( Schopenhauer, filòsofo do absurdo, PUF, 1993), sua verdadeira originalidade està em outro lugar: primeiro e antes de tudo no fato que ele mostra de maneira implacàvel que o universo da consciência - da "representação" é apenas um momento ìnfimo do real, a parte emergida do iceberg. Nòs diremos que Freud nos habituou tanto a essa idéia que ela nos parece banal. Sem dùvida. Mas a consequência que tira Schopenhauer disso não é banal: todas as grandes narrações cientìficas, metafìsicas ou religiosas atravéis das quais nòs procuramos dar sentido as nossas vidas, são puras e vães ficções.
O fundo do real, que se identifica a uma sorte de querer anônimo e còsmico, é o absurdo mesmo, o reino sem divisão de pulsões sem causa alguma e de toda finalidade como objetivo.
Contrariamente a famosa sentença de Hegel, não somente o real não é racional, mas ele é, em ùltima instância, o não-racional por excelência. È dessa maneira que todos os ideais do Iluminismo, todos os "ìdolos" de otimismo e de humanismo racionalistas e progressistas se encontram aniquilados

Antiracionalismo


O que ele tem de comum com o cristianismo de Kierkegaard ? Justamente, é esse antiracionalismo argumentado que, além das divergências ulteriores, reùne com profundidade nossos dois autores e os associa em uma aversão comum pelo "hegelianismo". Pois para um como para o outro, o universo das representações racionais, que ele seja cientìfico ou filosòfico, passa totalmente ao lado do real. A existência singular é rebelde a todas as categorias da razão. Ora é ela e apenas ela que importa. Pois nòs somos essa existência singular e é nesse nìvel que se realiza nosso destino, e não no nìvel das leis e dos conceitos abstratos elaborados pela razão. Bref, que seja Kiekegaard ou Schopenhauer, e sejam quais forem as divergências abissais que os separam, é primeiro e antes de tudo por uma verdadeira "desconstrução" da razão que deve começar todo pensamento sério.
Nisso eles abrem o caminho a essa filosofia contemporânea que vai inaugurar verdadeiramente a crìtica "nietzschéenne" do "niilismo".

O além e o mundo terrestre


Aqui, é preciso pararmos um pouco mais demoradamente. Trata-se de quê finalmente ?. Atualmente nòs dizemos de alguém que ele é "niilista", para significar que ele não acredita em nada, que ele é "cìnico", bref que ele não tem ideal. Para Nietzsche, é rigorosamente o contràrio: o niilista é justamente aquele que é cheio de "convicções fortes" e altamente morais. È aquele que possui ideais superiores sejam quais forem: religiosos, metafìsicos ou laicos, humanistas e materialistas. Porquê então empregar esse termo ? Simplesmente porque aos olhos de Nietzsche os ideais, todos os "idolos", como nòs os chamamos, conduzem novamente à estrutura metafìsico-religiosa do além oposta ao mundo terrestre, desse céu de qual nòs nos servimos sempre para aniquilar a terra. Quer dizer que os valores transcendentes e que dão sentido de qual Nietzsche anuncia o crepùsculo são inventados pelos humanos para dar um sentido a vida, para se consolar de sua dureza, então, em muitos aspectos, para recusa-la da maneira que ela é, quer dizer para nega-la. E é nisso que o idealismo, compreendido no sentido pròprio como o fato de ter ideais, é um niilismo, uma atitude que nega o real em nome do ideal como o faz toda tentativa de melhoramento do que é em nome de um futuro melhor, de um senso escondido, de um projeto superior.
Desse ponto de vista, o materialismo ateu herdado do Iluminismo é na maior parte do tempo tão niilista quanto pode ser a religião ou o idealismo clàssico.
No lugar do mundo inteligìvel de Platão ou do paraìso dos cristãos, nòs colocamos o Progresso, os Direitos do homem, a Ciência, a Repùblica, a Liberdade, a Razão, e daqui a pouco tempo o socialismo, o anarquismo, o comunismo.....
Mas essas novas figuras do ideal, por serem em aparência laicas, conservam de certa maneira o elemento fundamental do religioso: a estrutura, justamente, do além oposto ao mundo terrestre. Que o paraìso resida em um jardim de qual são Pedro teria as chaves ou em uma sociedade sem classe de qual o proletariado seria o vector não muda nada afinal no assunto: as religiões de salvação terrestre, por se pretender sem fé, continuam assim mesmo sendo religiões.
O espìrito crìtico então deve recomeçar seu trabalho, e continuar a "desconstruir" o que o Iluminismo ele mesmo deixou subsistir das antigas formas religiosas. Em outras palavras, se "Deus està morto", o Homem do humanismo também està. È então o racionalismo, esse ponto culminante do niilismo, que é, como para Schopenhauer ou Kiekegaard, a besta negra de Nietzsche. È ele que nòs devemos negar agora, de uma certa maneira, porque duas negações valem uma afirmação, alcançar a sabedoria: aquela que consiste a se reconciliar enfim com o real, a lamentar um pouco menos, esperar um pouco menos para ama-lo como ele é - o que Nietzsche chama o "amor fati", o amor de seu destino, do presente como ele nos é dado.

Até a borra.....


Assim, a filosofia teòrica adquire uma forma nova. Doravante, seu trabalho fundamental serà o da "desconstrução" ou, para empregar a palavra de Nietzsche, da "genealogia". Como dirà de uma maneira bonita o livro O Crepùsculo dos ìdolos, "todo julgamento é um sintoma" ou, para falar como Lacan, não existe mais "metalinguagem", nem lugar de onde a verdade cientìfica poderia pretender falar do alto do que ela analisa, pois a palavra do genealogista também é um jogo de linguagem que não possui mais verdade do que o outros. Simplesmente mais vida, mais realismo de uma certa maneira, quando ele consegue se liberar das ilusões do niilismo, quer dizer dos miragens do ideal.
Podemos concluir dessa maneira ? Esta é aos meus olhos toda a questão da filosofia futura, e a minha convicção é que não. Mas é preciso pelo menos fazer essa reflexão, beber o vinho até a borra não deixa nenhuma dùvida. Por isso devemos ler e meditar a mensagem desses três primeiros filòsofos da desconfiança.

- Luc Ferry, filòsofo, antigo ministro, autor entre outros, de, Familias, eu gosto de vocês: Polìtica e vida privada na idade da mundialização ( XO, 2007 )

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Ètica e felicidade

" Uma vida conforme ao espirito serà verdadeiramente divina"

Felicidade e virtude
Da confissão geral, a felicidade é completa, se satisfaz a ela mesma pois ela é o fim de nossa atividade. Mas, talvez, de acordo com o fato que a felicidade é o bem soberano, nòs desejamos ter algumas posições suplementàrias. Nòs chegariamos rapidamente a um resultado tendo consciência do que é a função pròpria do homem. Para o mùsico que toca flauta, para toda espécie de artesão e em uma palavra para todos que praticam um trabalho e exercem uma atividade, o bem e a perfeição residem, de uma certa maneira, na função ela mesma. De toda evidência, é da mesma maneira para o homem, se existe alguma ação que lhe seja pròpria
.È preciso então admitir [....] que a natureza fez do homem um ocioso ? [....]
Se a ação pròpria ao homem é a atividade da alma, de acordo completo ou parcial com a razão [....], nòs supomos que a função do homem é um certo tipo de vida e que esse tipo de vida é a atividade da alma, acompanhada de ações razoàveis [...]; nessas condições, o bem pròprio ao homem é a atividade da alma em conformidade com a virtude; e, se as virtudes são numerosas, segundo aquela que é a melhor e a mais realizada.

- Ètica à Nicomaque, 1, 7, 8-15 y- Aristote - Garnier- Flammarion, Trad. J. Voilquin. -


O justo meio-termo


Em todo objeto homogêneo e divisìvel, nòs podemos distinguir o mais, o menos, o igual, seja no pròprio objeto, seja em relação a nòs mesmos. Ora, o igual é intermediàrio entre o excesso e a falta. [....] Acrescetemos ainda que a virtude, da mesma maneira que a natureza, prevalece na exatidão e na eficacidade sobre toda espécie de arte; em tais condições, o objetivo que se propõe a virtude poderia de alguma maneira ser uma sensatez média. Por exemplo, os sentimentos de terror, de segurança, de desejo, de còlera, de piedade, enfim de prazer ou de dificuldade podem nos afetar ou muito ou muito pouco, e de uma maneira defeituosa nos dois casos. Mas se nòs experitamos esses sentimentos no momento oportuno, [.....] para fins e em condições convenientes, nòs permanecemos em uma excelente média, e é nessa média que se encontra o pròprio da virtude. Da mesma maneira, nòs encontramos nas ações excesso, falta e justo meio-termo. [....]
A virtude é então uma disposição adquirida voluntària, consistindo em relação à nòs mesmos no justo meio-termo, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem prudente. Ela se situa no justo meio-termo entre duas extremidades prejudiciais, uma pelo excesso, a outra pela falta.

- Idem, II, 6, 4-15.


A vida contemplativa


Se é verdade que a felicidade é a atividade conforme a virtude, é de toda evidência que é esta que é conforme a virtude mais perfeita, quer dizer àquela da parte do homem mais alta. Que se trate do espìrito ou de toda outra faculdade de qual parece pertencer por natureza o império, o mandamento, o conhecimento de que o que é o bem é divino; que essa faculdade também seja divina ou o que existe em nòs de mais divino, é a atividade dessa parte de nòs mesmos, atividade conforme a sua pròpria virtude, que constitue a felicidade perfeita. Nòs dissemos que ela é contemplativa.

- Idem, X, 7, 1

Uma tal vida, todavia, poderia estar além da condição humana. O homem então não vive mais na qualidade de homem, mais na medida em que ele possui algum caràter divino; e, tanto esse caràter divino prevalece no que é composto, tanto essa atividade serà excelente com relação àquela que resulta de todas as outras virtudes. Se então o espìrito, com relação ao homem, é um atributo divino, uma vida conforme ao espìrito serà, com relação a vida humana, verdadeiramente divina. Então nòs não devemos escutar as pessoas que nos aconselham, sob o pretexto que nòs somos mortais, de renunciar às coisas imortais. Mas, na medida do possìvel, nòs devemos nos tornar imortais e fazer tudo para viver conforme a parte mais excelente de nòs mesmos.

- Idem, X, 7, 8


Ètica a Nicomaque


Longe de ser um còdigo de moralidade, A Ètica a Nicomaque, de Aristote, se interroga sobre a orientação que a vida humana deve seguir para alcançar a felicidade, designada como um "bem soberano" desejado por ele mesmo. Para Aristote, esta não pode ser alcançada atravéis uma vida de prazeres. Os bens exteriores como os prazeres, as honras, as riquezas são insuficientes. È do ser interior, de certas disposições da alma humana apoiadas por um gênero de vida adequado, que a felicidade deve proceder.


A razão, "pròprio" do homem


A verdadeira felicidade se obtem graças a um modo de vida podendo realizar o que Aristote estima ser a "função" essencial do homem. Essa função, é na alma que ele procura, alma que ele divide em parte racional e parte irracional - àquela da vida e dos desejos orgânicos, suscetìveis todavia de obedecer a razão: é então atravéis ela que se define a pròpria função deles. A felicidade vai consistir dessa maneira em uma vida conduzida conforme a razão. Aristote qualifica de "virtuoso" o homem que segue sua razão. Então é o homem virtuoso que serà feliz.
Na Ètica a Nicomaque, Aristote trata primeiro do controle dos sentimentos pela razão ( livros II até IV ), graças as virtudes morais pròprias a essa parte irracional e adquiridas pelo hàbito. Isso não significa nega-las, mais dar a elas uma justa medida "entre o excesso e a falta": a coragem é dessa maneira o meio-termo entre a temeridade e a covardia, a moderação entre o desregramento e a insensibilidade, a grandeza da alma entre a vaidade e a humildade. Da mesma maneira, o prazer não é negado, pois ele pode se associar a uma atividade honesta ( o pensamento, a pràtica da virtude ) ou a uma profissão. Mais os sentimentos segundo ele excessivos, como o temor da dor ou a procura dos prazeres, devem ser controlados pois eles impedem a vocação humana de se realizar.
A moral de Aristote é então menos uma moral de constrangimento do que um pensamento de realização.Essa realização se faz pela razão (noûs). Atravéis esse argumento, Aristote não compreende a intelectualidade no sentido moderno, mais de uma certa maneira uma parte imortal de nòs mesmos, naturalmente voltada em direção do divino: o espìrito é o centro das virtudes intelectuais: a arte opera a escolha apropriada no bom momento, a ciência demonstrativa,a intuição espiritual dos princìpios ( indução ).
Mais a sua mais alta virtude é a sabedoria, união da intuição e da ciência, de qual a atividade pròpria é a contemplação do divino graças a ciência ( livro X ).


Metafìsica


No livro Metafìsica, Aristote se extasiava diante a felicidade eterna e perfeita de um Deus absorvido em sua pròpria contemplação. È então pela sabedoria que o homem pode participar dessa beatitude, pois sua contemplação se acompanha de um prazer sem mistura. Essa "vida segundo o espìrito" serà então a melhor vida, inclusive porque os deuses saberão recompensar essa escolha radical. È preciso ressaltar que o sàbio de Aristote, ao contràrio do sàbio de Platão, se recusa a toda vida polìtica, sem fugir da vida social: a autarquia divina sendo impossìvel de se alcançar, ele lhe substitui numerosos amigos, ingredientes necessàrios da felicidade.
De uma grande influência na filosofia ulterior, principalmente em Thomas d'Aquin que assimila vida contemplativa e vida monàstica, a ética de Aristote parece ter perdido sua influência hoje em uma sociedade marcada pelo hedonismo. Mais a exigência atual de realização pessoal poderia dar-lhe novamente uma importância.

- O.S -

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Os limites do individualismo

" Essa sorte de servidão, regulada, doce e serena...."

Eu quero imaginar sob quais traços novos o despotismo poderia se produzir no mundo: eu vejo uma multidão imensa de homens semelhantes e iguais que rodam sem descanso sobre eles mesmos para realizar pequenos e vulgares prazeres, de quais eles enchem suas almas. Cada um deles, ficando de lado, é como estrangeiro ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares formam para ele toda a espécie humana; quanto ao resto de seus compatriotas, ele està ao lado deles, mais não os vê; ele os toca sem senti-los; ele sò existe nele mesmo e para ele unicamente, e, se ainda lhe resta uma familia, nòs podemos pelo menos dizer que ele não tem mais uma pàtria.
Acima deles se eleva um poder imenso e tutelar, que se encarrega sozinho de assegurar o prazer deles e de velar sobre seus destinos. Ele é absoluto, detalhado, regular, previdente e doce. Ele se pareceria com o poder paterno se, como ele, ele tivesse por objeto de preparar os homens para a idade viril; mais ele sò procura, ao contràrio, a fixa-los irrevocavelmente na infância; ele gosta que os cidadãos se regozijem, e que eles sò pensem nisso. Ele trabalha de boa vontade para a felicidade deles; mais ele quer ser o ùnico responsàvel e o ùnico àrbitro; ele se ocupa da segurança deles, facilita os prazeres, conduz as suas principais tarefas, regula as sucessões, divide as heranças; sò falta tirar deles a dificuldade de pensar e de viver ?
È dessa maneira que todos os dias ele torna inùtil e raro o emprego do livre arbìtrio, que ele encerra a ação da vontade em um espaço menor, e tira pouco a pouco de cada cidadão até mesmo o uso dele mesmo. A igualdade preparou os homens a todas essas coisas.
Apois ter se encarregado de colocar em suas mãos poderosas cada indivìduo, e tê-lo transformado, o soberano estende seus braços na sociedade inteira; ele cobre toda a sua superfìcie com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, atravéis de quais os espìritos mais originais e as almas mais vigorosas não saberiam despertar para ultrapassar a multidão; ele não quebra as vontades, mais ele as torna moles, as dobra e as dirige; ele força raramente a agir, mais ele se opõe sem cessar à nossa ação; ele não destroi nada, ele impede o nascimento; ele não tiranisa, ele incomoda, comprime, enerva, apaga, torna estùpido, e ele reduz enfim cada nação a ser um rebanho de animais tìmidos e industriosos, de quem o governo é o pastor.
Eu sempre acreditei que essa sorte de servidão, regulada, doce e serena, de qual eu fiz o quadro agora, poderia se combinar melhor do que nòs possamos imaginar com algumas das formas exteriores da liberdade, e que não lhe seria impossìvel de se estabelecer na sombra da soberania do povo.
Nossos contemporâneos são incessantemente trabalhados por duas paixões inimigas: eles sentem a necessidade de ser conduzidos e a vontade de ficar livre. Não podendo destruir nem um nem outro desses instintos contràrios, eles se esforçam de satisfazer os dois ao mesmo tempo. Eles imaginam um poder ùnico, tutelar, todo poderoso, mais eleito pelos cidadãos. Eles combinam a centralização e a soberania do povo. Isso lhes dà um certo descanso. Eles se consolam de estar sob tutela, pensando que foi eles mesmos que escolheram o tutor. [....]
Esse uso tão importante, mais tão curto e tão raro, do livre arbìtrio, não poderà impedir que eles percam pouco a pouco a vontade de pensar, de sentir e de agir por eles mesmos, e que eles caiam gradualmente abaixo do nìvel de humanidade.

- Da Democracia na America, tome 2 ( 1840, quarta parte, cap.VI - Alexis de Tocqueville ( 1805 - 1859 ).


Democracia


Cinco anos apois a publicação do livro Da Democracia na America, Alexis de Tocqueville publica em 1840, com o mesmo tìtulo, um segundo volume que completa o primeiro procurando mostrar qual é a influência da democracia no movimento intelectual, nos sentimentos e nos costumes.
Vasto sujeito, principalmente porque Tocqueville não se contenta mais de estudar a America mais ele constroi um modelo teòrico da democracia que lhe permite de compreender todas as formas, na America e na Europa. A obra também é mais sombria. O liberalismo de Tocqueville é um liberalismo tràgico, que esclarece as "facilidades" que oferece o estado social democràtico no estabelecimento de um novo despotismo.

O "materialismo honesto"



O quadro visionàrio acima descreve em pàginas célebres os traços desse despotismo. A primeira vista, as sociedades democràticas parecem ser sociedades livres. Emancipados do jugo da Igreja e da aristocracia, os indivìduos se ocupam de suas tarefas comerciais ou particulares. Nas democracias, que são sociedades de classe média, cada um segue naturalmente o conselho de François Guizot, grande ministro da monarquia de julho: " Se enriqueçam pelo trabalho e pela poupança".
Tocqueville, aristocrata educado no culto da grandeza, sò tem desprezo por essa busca de "pequenos e vulgares prazeres" do bem estar. Absorvidos nesse "materialismo honesto", o homem democràtico se desinteressa da prosperidade coletiva.
Para descrever esse movimento de retiro, Tocqueville emprega uma palavra inventada nos anos 1820 e com um belo futuro, o individualismo: " um sentimento refletido e sereno que dispõe cada cidadão a se isolar da massa da sociedade com sua familia e seus amigos"
.Mais o pior não é essa degradação moral dos indivìduos indiferentes ao exercicio do livre arbìtrio na sociedade politica. Por uma estranha vira-volta, o indivìduo que se proclamava autônomo começa a alienar sua liberdade. Tocqueville descreve o poder tentacular do Estado, primeiro industrial da nação, primeiro banqueiro, ùnico responsàvel da felicidade pùblica. Essa visão dramàtica do despotismo doce do Estado providência devia pouco à observação de uma administração francesa no campo de ação ainda restrito.
Ela também não anuncia os totalitarismos modernos que não são nem "regulares" nem "tutelares". O gênio de Tocqueville não consiste a explicar as formas do despotismo democràtico, mais o imaginàrio do poder que as tornam todas possìveis, quer dizer o gosto da servidão voluntària.

Inquietude e vigilância


O autor do livro Da Democracia na America mostra dessa maneira que a liberdade de pensar e de agir por si mesmo està em perigo desde o momento em que ela não tem por garantia a responsabilidade cìvica. Mais essa visão negra da democracia é uma sorte de apelo a vontade, que encerra a obra: " As nações dos dias de hoje sò saberiam fazer no seio delas que as condições não sejam iguais; mais sò depende delas que a igualdade lhes conduzam à servidão ou a liberdade, ao esclarecimento ou a barbaridade, à prosperidade ou as misérias".

Uma referência de alta importância


Apois 1945, a experiência do totalitarismo deu ao liberalismo inquieto de Tocqueville uma pertinência renovada, de tal maneira que ele se tornou na Europa e nos Estados Unidos uma referência muito importante para os liberais. Na França, o filòsofo Raymond Aron encontrou na obra de Tocqueville os instrumentos para alimentar sua reflexão sobre o futuro da liberdade nas sociedades igualitàrias.

- F. M -