quinta-feira, 26 de julho de 2007

O que é um mito?

"Os mitos são histórias que os homens contam para melhor se conhecerem. Se nossos mitos fundadores no Ocidente vêm sobretudo da Grécia antiga, nós trabalhamos sempre para elaborar outros mitos. O mito da pátria ontem, o mito da identidade nacional hoje."


Mito

"O que é um mito? Se você interrogar um índio americano, disse Claude Levis Strauss, ele responderia provavelmente: uma história do tempo em que os homens e os animais ainda não eram distintos." Se nós fizermos a mesma pergunta a Euripides, o poeta "des Tryennes" e de "Medée", ele mostraria as crianças sentadas perto do aparelho de tecelagem escutando as històrias que todo mundo conhece.
Entre Americanos e Gregos, a invenção da mitologia pode-se ler como uma bela história. Mas é preciso dizer ainda: os mitos e a mitologia falam grego ou, com mais precisão, nos falam em grego. Mito - mytos é uma palavra grega e, no subconsciente europeu, o mito dá arrepios nas grandes narrações fundadoras que atravessam as gerações, nas sociedades arcaicas ou nas nossas.
Certo, nós temos tendência - é um aspecto de nossa tradição - meio greco-romana, meio judaico-cristã - de pensar que os mitos são o problema dos outros. A herança grega foi tão importante que, desde o século VI antes de J.C, um pensamento indìgena sugeriu interpretações, no sentido de abrir um espaço para uma "mitografia" paralela à mitologia conhecida desde o período que vem antes da Iliade de Homère.
A mitologia, como "objeto" provisório de um questionamento sobre o espírito e sua relação ao mundo, se inventa para "nós" em terra e em língua gregas. O que alguns vão chamar mito entre Sumer e Babilônia, e outros declarar não encontrar na China, mas com certeza encontrar na Índia, se passa dessa maneira por analogia a uma tradição de interpretação, que pretender ser "ciência", ou saber refletido, em 1850 de nossa era.


As ilusões do sonho

Desde os primeiros antropólogos britânicos em torno de Edouard Tylor até a antropologia cognitiva contemporânea, a mitologia é um terreno de eleição para compreender o que significa as representações culturais.
Viajantes missionários, etnólogos, historiadores, todos vão imaginar teorias para interpretar as similitudes surpreendentes entre as histórias contadas nos quatro cantos do mundo e as histórias que parecem conter a marca da mitologia exemplar dos Gregos, da Civilização e do Ocidente. Na visão animista de Tylor, foram as ilusões do sonho que despertaram a crença nos espíritos, e os mitos são pensados como o efeito de uma análise confusa da realidade. Os deuses da mitologia só podendo ser as personificações de forças naturais, de altas figuras imaginárias nascidas da primeira linguagem.
Durante todo o século XIX, as seduções do evolucionismo ajudando, não existe nada mais importante do que assistir em família ao nascimento da idéia de "Deus" e a emergência cúmplice da Religião e da Magia.
Primitivo e irracional, o "pensamento dos mitos" nos fazia descobrir um estado de espírito que a passagem (com sucesso) do "Mito" à "Razão" na Grécia, e só na Grécia, permitia de atribuir às sociedades anteriores.
Mas são os etnólogos de terreno que, se esforçando de medir o impacto do simbolismo, na vida cotidiana das sociedades "primitivas", deviam constatar que acreditar nos espíritos da floresta não impede de estar totalmente de acordo com a realidade.
O "africanista" Pierre Smith (1939 - 2001), fez dessa maneira observar que " os mitos têm um relacionamento particular com o pensamento etnólogo". É formulando as questões "mais importantes" (como "qual o significado de tal ritual?") que ele se encontra com as narrações "mitológicas". Os "fonctionnalistes" após Bonislaw Malinowski (1884 - 1942) mostraram que é possível de considerar o discurso dos mitos como o elemento de coesão do grupo, sua "carta pragmática". Contudo, outros etnólogos convencidos que a mitologia forma um sistema rigoroso de crenças diversas, quiseram seguir em todos os detalhes a maneira como as narrações fabulosas explicam as práticas sociais: costumes, ritos, sinais gráficos, objetos, etc. Ao ponto que alguns começaram a falar, senão a pensar, como os membros de uma tribo....


O selvagem e o domesticado

Nos anos 1960, Claude Lévi-Strauss sugeria portanto de ver que em cada indivíduo podia coabitar um "pensamento selvagem" e um "pensamento doméstico". O primeiro, em obra nos mitos e na arte, o que é lógico, pois ele procede com a ajuda de distinções e não pela confusão. O segundo, levado pela consciência reflexiva, se exerce a conduzir rigorosamente as formas de análise que vão beneficiar a medicina, a retórica, a lógica ou a sabedoria dita "filosófica". No centro da pesquisa de Lévi-Strauss, existe a hipótese que os mitos permitem de descobrir, os modos de operação essenciais à atividade do espírito humano em geral.
Nós podemos ainda notar que na Grécia "a mitologia, se escreve". Tornando-se "mito-grafia", as narrações mudam de natureza na medida em que elas escapam de uma certa maneira ao trabalho da memória e da transmissão oral. Mas o reino da escrita não impede que nos atravessem, em nossas sociedades de alta tecnologia, os discursos anônimos sobre a origem do mundo.
Uma antropologia comparativa que retorna no conhecimento de nossas representações culturais convida a liberar certos valores fundamentais que são inscritos no espírito da maior parte dos indivíduos de uma mesma cultura. Desde o século XIX, as nações européias se deram razões de acreditar em alguma coisa "mítica" que é a identidade nacional. Para fazer uma nação, dizia Maurice Barrès, "é preciso cimitérios e um ensino da història". Deixemos os mortos, para considerar a história "mitológica" que a escola pública vai colocar em cena através de pequenas narrações e imagens durante mais de um século em todos os lugares da Europa....
Há uma dezena de anos atrás, uma pequena província da Itália se proclamava "Padanie", afirmava sua origem "celta" e escolhia de criar um ministério de identidade cultural. Hoje aparecem projetos de ministérios da Imigração e de Identidade nacional. Que deve necessariamente ser uma identidade histórica reinvindicando o direito a seu "imaginário nacional". Em 1986, o historiador Fernand Brandel contando a "odyssée" da "identidade da França", podia garantir que esta identidade vinha direto do Paleolìtico. Ele não foi compreendido apenas pela extrema direita.

"Mitodeologias" contemporâneas"

Ninguém pode duvidar da força dessas mitologias contemporâneas no debate político. Nós somos habitados no cotidiano por "mitodeologias": o dever de memória, autóctonia, etc. As ditas "grandes narrações" de outrora são feitas de fragmentos em que as afinidades se constituem de maneira contínua de microfigurações que podem cristalizar a adesão ora de um pequeno grupo, ora do Povo-Massa. Quanto mais o mundo torna-se complexo, mais nós suspiramos para as explicações que englobam a totalidade dos fenômenos. Isto poderia ser o esboço de uma definição do que é o mito, entre hoje e ontem.


- Marcel Detienne, professor em Johns Hopkins University (Estados Unidos) é o autor, entre outros, dos " Grecs et Nous" (Perrin, 2007) e de "Comment être autochtone ?" (Seuil, 2007).



Existe um documentário genial sobre o que é o mito! Procurem em locadoras quem se interessar!
O Poder do Mito - by Joseph Campbell!

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Mensagem

Que a paz.... e a verdade ainda sejam uma realidade e uma luta constante
Que a luz nem que seja pequenina ainda ilumine nossos passos e nossa vida
Que o Brasil desperte enfim..... e se conscientize de seu potencial.... de sua grandeza....
Que os Brasileiros que lutam..... continuem a lutar
Que a coragem e a força sejam nossos companheiros inseparáveis
O Amor nosso guia
A esperança...... Eterna....
Paz profunda !

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Banho de Brasil

Aqui na França se diz quando uma pessoa vai de encontro a multidão....um pouco como se ela mergulhasse nessa multidão....que ela vai tomar um banho de multidão, "bain de foule".
Pensando nessa expressão que é muito utilizada aqui , pensando ao mesmo tempo no Brasil e na eternidade que estou ausente....27 anos e poeiras....acredito sinceramente que eu deveria tomar um banho de Brasil !
Banho de favela
Banho de tiro e de grito
Banho de seca e sem terra
Banho de sede e de fome
Banho de negro, de ìndio, moreno, mulato....branco
Verde....amarelo....azul....anil....
Banho de corrupção...
Banho de cultura brasileira
MPB, Bossa nova, samba, pagode, forrò....
Banho de elite
Banho de praia....sol....lua e estrelas
Enfim....
Banho de Brasil !
Bem Brasileiro e sò
Somente....sol...Brasil !
Talvez assim eu possa entender melhor as desavenças, as crenças, as mazelas....a violência
Talvez assim eu possa entender a minha distância....saudade....
A eternidade sem ti Brasil
Sem mim também....
Eterna, imensa e dolorosa saudade !
Quem me dera um dia, uma hora, um minuto
De Brasil !
Quem me dera um banho de cores e sabores do Brasil
Um longo e demorado banho de floresta....
Amazônia querida....sempre...
Salve ! Salvem a Amazônia !
Salve ! Salvem !
Brasil !

sábado, 21 de julho de 2007

O sonho do Presidente

O presidente da República das bananas, das palmeiras e madrigais, dos pacatos e santos republicanos de um paìs sem igual por sua grandeza, sua beleza, sua pobreza apesar de suas riquezas, e sua corrupção incomparàvel e indomàvel fez um sonho:
Estava ele um dia de chuva e luto nacional a se debater com as pragas do congresso, desesperado ele resolveu dirigir-se a seus eleitores para pedir auxìlio. Sentou-se emocionado e escreveu uma carta aos eleitores.
Carta aos eleitores :
"Caríssimos eleitores, eis-me aqui mais uma vez presidente, estou desesperado, sem socorro, sem auxìlio.... desamparado.... cego.... mudo.... ausente.... Gostaria de uma participação mais ativa de vocês na minha presidência, afinal vocês me escolheram não?
Gostaria de ver passeatas, muitas passeatas contra a pouca vergonha e a corrupção dos polìticos, deputados, senadores, ministros...
Estou desesperado com eles, não consigo controlà-los, fazem o que querem de mim, de vocês.... de nós.... de todos!
Fazem e desfazem mil mazelas estarrecedoras, assustadoras! Sou como um mero fantoche nas mãos deles, não tenho nenhuma autoridade...
Preciso de vocês!
Saiam numerosos nas ruas e gritem bem forte e alto a revolta e a indignação de vocês, de mim... de todos!
Se revoltem!
Não tenham medo, eu sou o presidente do povo e protegerei vocês.... não me deixem sozinho e abandonado nas mãos desses bandidos miseráveis...
Salvem-me! Socorro!
Estou cheio, não aguento mais!
Além disso se vocês não me disserem o que se passa nesse país, como eu vou saber?
O que se passa atualmente?
Eles não me dizem nada, mal vejo os papéis que assino, tudo é feito de maneira traiçoeira e nas minhas costas...
Me falem! Me digam o que acontece aqui.... eu preciso saber da minha vida, da vida do povo, da fome, da miséria, dos problemas.... das tragédias.... teve alguma ultimamente? Eu preciso saber!
Já não sei mais porquê vivo, porquê respiro.... porquê?
Será que sou mesmo Presidente?...
Assim se termina o sonho do presidente
Triste.... muito triste....
Vou começar a informá-lo agora mesmo:
"Sinhô presidente
Està tudo enrolado, embrulhado, ninguém se entende, somos roubados, assassinados, humilhados e maltratados sem parar....."
Vamos! Vamos protestar para o sinhô presidente parar de sonhar....

V. A Razão dos Ateus

"Qual é a razão que faz tantos ateus? É a contemplação de nossas infelicidades e de nossos crimes.
Lucrèce era mais desculpável que nenhuma outra pessoa: ele só viu em torno dele e só experimentou calamidades. Roma, desde Sylla, deve excitar a piedade da terra de qual ela foi o flagelo. Nós nadamos em nosso sangue. Eu julgo por tudo que eu vejo, por tudo que eu escuto, que César será logo assassinado. Vocês pensam a mesma coisa. Mas após ele eu prevejo guerras civis mais horrendas do que as em que eu estive envolvido. César ele mesmo, durante toda a sua vida, o que ele viu, o que ele fez? Infelizes. Ele exterminou os pobres Gaulois que se exterminavam eles mesmos nas suas contínuas facções. Esses bárbaros eram governados por druidas que sacrificavam as filhas dos cidadãos após ter abusado delas. Velhas feiticeiras sanguinárias estavam no comando dos bandos germânicos que destruíam a Gaulle e que, não tendo casa, iam pilhar os que tinham. Arioviste era o chefe desses selvagens, e suas feiticeiras tinham um poder absoluto sobre Arioviste. Elas o proibiram de ir em uma batalha antes da lua nova. Essas fúrias iam sacrificar a seus deuses Procilius e Titius, dois embaixadores enviados por César a esse pérfido Arioviste, quando nós chegamos e que nós liberamos esses dois cidadãos que nós encontramos carregados de correntes. A natureza humana, nessas regiões, era a natureza dos bichos ferozes, e na verdade nós não éramos melhores.
Joguem os olhos sobre todas as outras nações conhecidas: vocês só vêem tiranos e escravos, devastações, conspirações e suplícios.
Os animais são mais ainda miseráveis que nós: sujeitos às mesmas doenças, eles são sem nenhum socorro; todos nascidos sensíveis, eles são devorados uns pelos outros. Não existe nenhuma espécie que não tenha seu carrasco. A terra, de um pólo ao outro, é um campo de massacre, e a natureza sanguinária está sentada entre o nascimento e a morte.
Alguns poetas, para remediar a tantos horrores, imaginaram os Infernos. Estranha consolação, estranha quimera! Os infernos estão em nossas terras. O cachorro de três cabeças, e as Três Parques - (Deusas infernais que teciam, desmanchavam e cortavam o fio da vida dos homens), e as Três Fúrias - (As Èrinyes, deusas da vingança), são ovelhas em comparação aos nossos Sylla e nossos Marius.
Como Deus poderia ter formado esse lugar sujo e estarrecedor de misérias e crimes? Nós supomos um Deus poderoso, sábio, justo e bom; e nós vemos de todos os lados loucura, injustiça e malevolência. Nós preferimos então negar Deus do que blasfemá-lo. Assim nós temos cem epicurianos contra um platônico. Eis as verdadeiras razões do ateísmo; o resto é disputa de escola.

- Voltaire, Últimos escritos sobre Deus, Lettres de Memmius à Cicéron -

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Algo notório ...


"Dirijo minha luta não contra as crenças religiosas dos homens, mas contra os que exploram a crença. Detestemos essas criaturas que devoram o coração de sua mãe e honremos aqueles que lutam contra eles. Acredito na existência de Deus. Em verdade, se Deus não existisse, fora preciso inventá-lo.

Meu Deus não é um Rei exclusivo de uma simples ordem eclesiástica. É a suprema inteligência do mundo, obreiro infinitamente capaz e infinitamente imparcial. Não tem povo predileto, nem país predileto, nem igreja predileta. Pois para o verdadeiro crente há, apenas, uma única fé, justiça igual e igual tolerância para toda a humanidade".


Voltaire (1694-1778)

domingo, 15 de julho de 2007

Crio por que lembro...



Tudo o que vemos é apenas um reflexo de nossa percepção. As imagens e sensações que sentimos do meio em que vivemos são produzidas através da atração e repulsão de partículas subatômicas agregadas nos contexto frequencial do nosso estado físico da realidade que nos é apresentada. Toda sensação é apenas um resultado da primeira impressão da consciência, que recebe as primeiras ondas de freqüência do meio, pois só se fala de uma experiência depois de vivê-la. Assim, ouso dizer que estamos constantemente olhando para nosso passado. Por mais surpreendente que a experiência nos pareça, ela só nos afeta pelo fato de ser concernente á nossa expectativa.
Mas por que temos expectativas? Por que temos medo?
Foi nos ensinado pensar sempre no nosso futuro, de maneira á criar um sistema lógico de auto aceitação de nossa de nossas capacidades e aspirações, mas não o que deixamos como impressão do meio, que nos tornou melhores.
O cérebro armazena e decodifica o que nos é similar e cotidiano, mas não reconhece o termo “Espaço/Tempo”, pois, tais informações apenas são um conjunto comum de armazenamento de “dados”.
Quando nos lembramos de algo que nos fere, o cérebro coloca em ênfase a sensação incômoda da experiência. O mesmo acontece para as boas lembranças. Mas o que nos faz bem? As boas ou más lembranças? Obviamente, a segunda alternativa é mais apropriada, por que nos toca ao que é prazeroso. Mas é: Impressão, Arquivo...
Pensamos mais no futuro que pode nos assaltar, do que no passado que deixamos para trás.
Sou convicto de que: Criamos o Nosso Futuro quando Concebemos o presente como Lembranças.
Se temos lembranças ruins, é necessário criarmos o “mecanismo restaurador”, de nosso cérebro. Como? Um grande amigo Afonso Celso me disse: “Se o que sofremos no passado nos trouxe até aqui e nos deu bom discernimento, então tivemos uma boa experiência”. Outro grande amigo, o Poeta/ Escritor Edgar Macedo Asseverou: “Somos ressonância do que Pensamos”. Assim podemos apreciar com mais perspicácia esse parâmetro de visão de nossa realidade. Toda experiência, por mais insólita que pareça, já esta arquivada na nossa mente e depois apenas nós a vivemos, pois nós a antevemos na consciência.
Se tivemos uma experiência ruim em nossa vida, devemos visualizá-la como um alicerce do que nos tornou melhor. Se a mesma foi boa, temos de lembrá-la como mais um degrau da nossa meta, na qual foi transposta. Ex: Se temos lembranças más, pensemos: Foi uma experiência na qual não vivo mais... Se foi boa... Foi uma das experiências que me tornaram o que sou agora...

...O Cérebro processa tudo como um “eterno arquivo”, pois simplesmente ignora o tempo...
Descartes falou: Penso , logo existo
Eu lhe convido, de agora em diante á Pensar: ...CRIO POR QUE LEMBRO...

Fr. R+C Aluísio Corrêa Martins - Julho/2007

terça-feira, 10 de julho de 2007

Spinoza, Èthique, 1 ("De Dieu")

"Nosso bem soberano depende únicamente do conhecimento de Deus"



Eu expliquei pelo que precede a natureza de Deus e suas propriedades, "á savoir": que ele existe necessariamente; que ele é único: que ele é e age pela única necessidade de sua natureza; que ele é de todas as coisas causa livre, e como ele é causa livre; que todas as coisas estão nele e dependem dele de tal maneira que elas não podem sem ele nem ser nem serem concebidas; e enfim que todas as coisas foram predeterminadas por Deus, não por uma liberdade da vontade, quer dizer por um " bom prazer" absoluto, mas pela natureza absoluta de Deus, quer dizer por um infinito poder.

- Spinoza, Èthique, 1 (" De Dieu "), Appendice, Trad. Originale de Pascal Séverac -


Proposição 3:

As coisas não puderam ser produzidas por Deus de nenhuma maneira nem em nenhuma outra ordem do que da maneira e da ordem em que elas foram produzidas. [...]

Scolie 2: [....] Eu confesso que a opinião que submete tudo a uma certa vontade indiferente de Deus, e afirma que tudo depende de seu "bom prazer", se afasta menos do verdadeiro do que aqueles que afirmam que Deus faz tudo em razão do bem. Pois estes parecem colocar fora de Deus alguma coisa que não depende de Deus, sobre a qual Deus coloca sua atenção nessas operações como em um modelo, ou na qual ele a considera como um certo objetivo. O que não é nada mais que submeter Deus ao destino, e nós não podemos afirmar nada de mais absurdo ao sujeito de Deus, de quem nós mostramos que ele é a primeira e única causa livre tanto da essência que da existência de todas as coisas.É por essa razão que eu não tenho que perder meu tempo a refutar esse absurdo.

- Idem, I, Prop. 33


Traité Théologico - Politique (1670)

Como a melhor parte do nosso ser é o entendimento, se nós queremos verdadeiramente procurar nosso próprio útil, nós devemos certamente, antes de todas as coisas, nos esforçar- mos de aprimorar o entendimento na medida do possível, pois é na sua perfeição que deve consistir nosso bem soberano. Ora, como todo o nosso conhecimento e nossa certeza, aquela que elimina verdadeiramente toda dúvida, dependem unicamente do conhecimento de Deus, de um lado porque sem Deus nada pode nem ser nem ser concebido, de outro lado porque nós podemos duvidar de tudo enquanto nós não tivermos uma idéia clara e distinta de Deus, podemos deduzir que nosso bem soberano e nossa perfeição dependem unicamente do conhecimento de Deus, etc. Em seguida, como, sem Deus, nada pode ser nem ser concebido, é uma certeza que tudo que está na natureza envolve e exprime o conceito de Deus na proporção de sua essência e de sua perfeição; então, quanto mais nós conhecemos as coisas naturais, mais nosso conhecimento de Deus aumenta e torna-se mais perfeito. Ou ainda : porque conhecer um efeito por sua causa, não é nada mais que conhecer alguma propriedade da causa, quanto mais nós conhecemos as coisas naturais, mais perfeitamente nós conhecemos a essência de Deus (que é a causa de todas as coisas).
E por conseguinte, todo o nosso conhecimento, quer dizer nosso bem soberano, não somente depende do conhecimento de Deus, mas consiste inteiramente nele. Disso ainda resulta que o homem aumenta sua perfeição em razão da natureza e da perfeição da coisa que ele ama mais do que todas as outras, e reciprocamente. Então este homem é necessariamente o mais perfeito e participa bem mais da suprema beatitude que ama mais do que tudo o conhecimento intelectual de Deus, o ser mais perfeito, e se regozija nesse conhecimento da maneira mais elevada. Então é nisso, no amor e no conhecimento de Deus, que reside nosso bem soberano e nossa beatitude. [....].
Então como o amor de Deus é a felicidade suprema do homem, sua beatitude e seu último fim e o objetivo de todas as ações humanas, podemos deduzir que só segue a lei divina aquele que se preocupa de amar Deus não pelo temor do suplício, nem pelo amor de outra coisa como os prazeres, a celebridade, etc..., mas pela única razão que ele conhece Deus e que ele sabe que o conhecimento e o amor de Deus são o bem soberano.

- Spinoza, Traité Théologico - Politique (1670), IV, 4 - 5 , Trad. J.Lagré et P. - F. Moreau, PUF, 1999


Deus como Natureza

Se Spinoza utiliza novamente por uma grande parte a terminologia da teologia cristã clássica e do cartesianismo, ele promove todavia, certas noções e abandona outras: assim, ele não utiliza mais, na "Èthique" (1677), o vocabulário da "criação", mas ele utiliza o vocabulário da "produção"; os seres produzidos por Deus, inclusive os homens, Spinoza os chama "modes" (1). esse termo serve a distinguí-los de Deus, ele mesmo, que é a única "substância" (2), que se produz ela mesma; ele permite também de indicar que essas coisas não saberiam existir fora da substância, quer dizer de Deus: elas não podem ser separadas dele (pelo pecado, por exemplo), e não podem existir sem ele.

Nota, 1 e 2


1 - "Mode"

Por “mode”, eu compreendo as “afecções de uma substância, quer dizer o que é em outra coisa, pela qual ele foi concebido", escreve Spinoza na Èthique (I, def. 5). O “mode” constitui então, uma das duas alternativas da ontologia espinozista: uma coisa é em si (e é a substância absoluta e única), ou então ela é em outra coisa (e é o “mode”). Mas o “mode” não é, e a substância também não, uma abstração ou uma ficção da razão: os “modes” são a infinidade das coisas concretas que Deus produz necessariamente, ou seja uma infinidade de seres reais (inclusive os homens) dotados de uma existência e de uma essência singulares.


2 – Substância

Se Aristóteles, no primeiro livro de Física, definia a substância (ousia em grego) como o substrato subjacente a todas as mudanças, matéria informada pela alma como princípio de vida, Spinoza dá a essa palavra um sentido inédito na história da filosofia: a substância, de qual a definição inaugura o sistema da Èthique ("o que é em si e concebido por si", def. 3), é também "o que a essência envolve na existência ".
A substância, então é Deus, um ser único - não pode existir pluralidade de substâncias -, eterno e dotado de uma infinidade de atributos infinitos. È também a Natureza nos seus dois aspectos: Natureza "naturante" (a substância como causa de todas as coisas) e Natureza "naturée" (os "modes" como afecções da substância ).


Deus sive Natura

A filosofia de Spinoza é com efeito uma filosofia da necessidade absoluta: Deus não pôde fazer as coisas de outra maneira que ele as fez; ele produz todas as coisas necessariamente, mas ele não obedece a outra necessidade que a de sua própria natureza (ver o texto acima). Uma tal definição implica que a potência infinita de Deus não se distingue da produção infinita de seus efeitos: ele é imanente a suas produções; ele não produz nada saindo dele mesmo; ele não conserva nenhuma potência em reserva. Sua potência não é "em potência". Ela não é um potencial, mas sua própria atividade, e esta é plenamente atual: dizendo de outra maneira, Deus é a Natureza ("Deus sive Natura") .


Contra Descartes

Dois erros então devem ser evitados. Primeiro, estimar que Deus age em função de uma norma: isso significaria submetê-lo a um outro princípio que ele mesmo, e negar sua infinidade. Esse erro, como explica Spinoza no segundo texto acima, é mais grosseiro que o que consiste a assimilar sua potência produtiva a uma vontade criativa absolutamente livre. Ao menos essa última concepção, que é a de Descartes, deixa a iniciativa da criação unicamente a Deus.
Segundo o filósofo francês com efeito, Deus criou a Natureza com leis precisas, mas ele poderia muito bem tê-la criado com outras leis (ou não tê-la criado) se ele assim o quisesse: tal é a significação da "indiferença de sua vontade", determinada por nenhuma necessidade, nem mesmo interior. Segundo Descartes, Deus não quer uma coisa porque ela é boa, mas uma coisa é boa porque ele quer. A natureza divina é então, para ele, fundamentalmente incompreensível.
Para Spinoza, existe nisso uma contradição que consiste a estipular que Deus poderia não existir : se ele tivesse tido a possibilidade de produzir as coisas de outra maneira, ele seria diferente do que ele é, e então poderia não existir. Deus na verdade "é necessariamente", e por conseguinte produz as coisas em virtude dessa mesma necessidade pela qual ele não pode não existir. Deus é na realidade "causa livre"; todavia, sua liberdade não é arbitrária, mas necessária.


Amor de Deus e beatitude

Ora, essa necessidade implica à inteligibilidade integral do real: como todas as coisas existem nele e por ele, Deus torna-se o princípio de inteligibilidade de tudo o que existe. E essa compreensão do real oferece uma alegria intelectual que deve ser relacionada à Deus como a sua causa: dizendo de outra maneira, do conhecimento de Deus e de todas as coisas singulares nasce um amor intelectual de Deus: amor que, para Spinoza, é a salvação mesma (ver o terceiro texto acima). Essa concepção de Deus será utilizada novamente por certos filósofos materialistas do século XVIII, como La Mettrie ou Maupertuis.

Na Alemanha, a briga do panteísmo será em torno da filosofia de Spinoza, de qual no século XIX, Nietzsche se reclamará. Algumas pessoas aproximarão então seu "amor fati" do "amor Dei" espinozista.

- P.S -


Nietzsche, Friedrich (1844 - 1900).

Escritor e filósofo alemão com um estilo flamejante e iconoclasta (Par - delá le bien et le mal, Le Gai Savoir, Humain trop humain, La Généalogie de la morale, Ecce homo, Ainsi parlait Zarathoustra...), ele desenvolveu uma filosofia da vida fundada sobre "o tornar-se" do homem e a vontade de potência. Para ele, a história do pensamento e da moral mostra como a vida se refugiou no erro e em um estado de servidão (principalmente por causa do cristianismo). Por isso sua vontade de "transvaluer" todos os valores "nocivos". Seu "surhomme" anunciado por Zarathoustra é um indivíduo do futuro, após um período de niilismo, em um mundo enfim libertado de tudo o que prejudica a vontade de potência. Como conseqüência da falsificação de seus textos por sua irmã, nazista determinada, esse conceito do "surhomme" foi utilizado pelos ideólogos do III Reich.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Kepler

Não nos perguntamos qual o propósito dos pássaros cantarem, pois o canto é o seu prazer, uma vez que foram criados para cantar.
Similarmente, não devemos perguntar porque a mente humana se inquieta com a extensão dos segredos dos céus... A diversidade do fenômeno da Natureza é tão vasta e os tesouros escondidos nos céus tão ricos, precisamente para que a mente humana nunca tenha falta de alimento.
Johannes Kepler
(1571-1630)

Bem pessoal, como não sou tão graduado quanto os ilustres colegas, vou estar contribuindo aqui no blog com frases de grandes pensadores.
Imagino que assim possamos refletir em constatações da vida feitas por estes gênios.

Força sempre.

terça-feira, 3 de julho de 2007

124 anos do nascimento de Franz Kafka

Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.
Franz Kafka - ★ 03/07/1883 - ✝ 03/06/1924

Hoje vim quebrar meu jejum de postagens aqui para trazer à memória de vocês a data do aniversário de uns dos maiores gênios da literatura moderna.

Clicando no nome dele, acima, você pode ler uma página no Wikipedia dedicada a ele. Também encontrei esse site (em inglês) que traz frases memoráveis dele.

Gosto muito do estilo dele. Me identifico de uma certa maneira com ele. Vocês podem dizer que isso seja algo parecido com o filme "O Número 23", mas depois de alguns anos descobri que eu nasci no dia do aniversário da sua morte. Apesar de não significar nada, parece que me ajudou a querer saber mais sobre ele.

Quero finalizar com uma de suas belas frases:

"O Mal é tudo aquilo que distrai."

Baruch Spinosa


Spinoza é hoje um dos filósofos mais lidos e mais comentados. O polidor de lentes "néerlandais" refletiu sobre a razão e a ciência, a política e a religião, as paixões e o corpo. Inúmeros assuntos que não perderam nada da atualidade deles.


Atualidade

Baruch Spinoza (1632 - 1677) faz parte da atualidade: desde o ano passado, que uma dezena de livros lhe foram consagrados, que exploram os temas mais diversos - o amor, a linguagem, as matemáticas, o debate religioso.... nós poderíamos pensar que essa "moda" está relacionada ao fato dos escritos de Spinoza estarem em 2006 no programa "de l'agrégation " de filosofia, mas essas obras foram redigidas anteriormente. Nós assistimos também a uma eflorescência de colóquios que insistem bem mais na sua atualidade do que no seu classicismo.
Nós temos a impressão que Spinoza está confrontado a todos os temas intelectuais da atualidade, das ciências sociais as ciências cognitivas. Como explicar esse enorme interesse? ainda mais que esse interesse ultrapassa demasiadamente o círculo dos filósofos profissionais.
Que os sociólogos, os economistas, os psicanalistas se interessem a um filósofo do século XVII não é uma coisa ordinária - sobretudo se é para procurar as idéias ou os métodos para suas problemáticas atuais


Tempos conturbados

Nós nos surpreendemos desse fato somente se nós guardamos do filósofo a imagem de um sábio "invariável", pouco preocupado das circunstâncias e da vida real dos homens. É preciso se lembrar que a filosofia de Spinoza se construiu em confrontação com a atualidade - a de seu tempo, mais que não é tão diferente da nossa. Ele foi confrontado a questões vivas que possuem uma forte intensidade nos tempos atuais, e é talvez isso que explique o grande vigor da leitura de seus livros hoje. Ele escreveu sua obra em um país marcado por violentos conflitos entre o Estado e as religiões; ele foi testemunha do desenvolvimento incrível da revolução científica e das resistências que ela suscitou; ele viu as transformações que atingiram os Estados e tentou explicá-las.
Nós podemos então encontrar o princípio de quatro temas que percorrem sua obra e que permitem de compreender a atualidade dela ; a razão, a política, a religião, o corpo.


A razão rainha

A razão, em primeiro lugar. Spinoza escreve no momento da grande transformação do século XVII. Nós descobrimos então que as leis matemáticas explicam o mundo físico, nós esperamos que elas expliquem também os mecanismos do Ser vivo e os "affects" (1 ). Existem limites a esse poder de explicação através a razão, ou ele deve se inclinar diante uma fronteira traçada pela ignorância, pelo acaso, pela providência? De todas as filosofias da idade clássica, o espinozismo é a que recusa da maneira mais firme de dar limites a racionalidade; mais ainda, ele a coloca no centro mesmo de sua interpretação do mundo. Ser, é ter uma causa; é sobretudo ser causa, e quanto mais um ser é real, mais ele tem efeitos ; pensar, é procurar as causas das coisas, e compreender através de qual potência elas podem produzir uma multiplicidade de conseqüências. O real é dessa maneira totalmente inteligível, e o poder de pensar se confunde com o poder de agir. Seus leitores da idade clássica hesitam: o modelo matemático explicaria tudo? Teríamos o direito de aplicá-lo a alma humana, a política, as paixões ?
Nós encontramos as mesmas hesitações hoje: numerosos são os nossos contemporâneos que vêm nos avanços das ciências, ameaças para a humanidade, para as normas admitidas, para a dignidade humana. Certo, Spinoza não falou de clonagem. Mas ele tentou pensar a relação entre o mundo e a razão. As baforadas de irracionalismo que invadem o espaço público atual - tudo isso lembra o asilo da ignorância onde se refugiavam seus contemporâneos.


Nota (1 ) - Affect – Palavra de origem latina (affectus) que retornou ao francês através do alemão. Em psicologia, l'affect é uma disposição afetiva elementar. Na obra de Spinoza, esse conceito de qual ele consagra a terceira parte da "L"Èthique " ("Des affects"), tem uma significação original: ele é a idéia (a consciência) de uma modificação do corpo (affection). Ele pode ser passivo ou ativo: ele torna-se paixão (passio) quando nós só temos uma idéia confusa da causa dessa modificação, ele torna-se ação (actio) assim que nós temos uma idéia clara dessa modificação.
O empréstimo ao vocabulário de Descartes não deve nos desviar: l'affect e suas variações não procedem de uma comparação das idéias; é a própria idéia "que afirma do corpo alguma coisa que envolve efetivamente mais ou menos de realidade antes da modificação".


Paixões políticas e religiosas

Contudo, é preciso confundir a razão com o discurso oficial da competência? Tanto Spinoza desconfia daqueles que querem limitar o direito de conhecer, quanto ele se esforça de distinguir entre esse direito e o discurso que reclama para o Estado e seus chefes o segredo e a ausência de controle, em nome da suposta competência deles, e da ignorância dos governados. Aqui nós encontramos a política. Spinoza refletiu sobre numerosos aspectos da vida na cidade: a identidade nacional, o segredo em que se envolve o poder, a corrupção que ameaça incessantemente as instituições. Mas sobretudo sobre os elementos com os quais nós construímos a política, o que anima os indivíduos, o que lhes faz adorar, e em seguida queimar os chefes e os ideais, o que os faz matar ou morrer por eles algumas vezes: as paixões - e em primeiro a mais violenta de todas, a paixão religiosa. Nesse caso, impossível de falar do Estado sem falar de sua relação com a religião; Qual dos dois dominará o outro? Qual deles ganhará a adesão dos homens? Toda a sua obra é animada por essas interrogações: porquê o funcionamento cotidiano da vida humana provoca necessariamente a superstição, a fé na finalidade, a esperança e o temor diante os sinais que poderiam anunciar o futuro? Ilusão dos fins e espera de sinais são suficientes, haja visto a variedade infinita da imaginação ao relatar a multiplicidade e a força das crenças, inclusive as mais aberrantes. Então nesse caso ainda, nesses tempos onde nos interrogamos sobre o laicismo, devemos nos lembrar que a separação da Igreja e do Estado tem algo de mítico - nós não podemos impedir que os cidadãos sejam ao mesmo tempo os fiéis de uma ou outra religião, e os fundamentos passionais da religião excluem que ela seja facilmente regulada pelas leis. Enfim a questão das paixões é relativa à questão do corpo. Para Spinoza, o indivíduo se define primeiro por seu corpo, e este pela complexidade de sua estrutura e pelas trocas com o exterior. Paradoxo: o que parece ser a última unidade, não é um corpo isolado , é o conjunto de suas necessidades, de seus recursos e de seus poderes - quer dizer de suas relações com seus semelhantes e com a natureza, e a maneira que a constituição de seu organismo permite ou entrava suas relações. Assim, quando Spinoza pensa a origem do Estado, ele o faz, às vezes, como seus contemporâneos, em termos de "contrato social" mas também em termos das trocas do corpo: um território, uma potência, a divisão do trabalho".


“Corpo entre eles"

Nesses dois séculos da idade clássica e do Iluminismo onde se elabora a noção dos direitos do homem, Spinoza apresenta uma singularidade radical: o que constitui para ele o direito natural não é um direito abstrato, é a potência do corpo, quer dizer o sistema de relações do corpo com o que lhe rodeia. A história desse corpo é também a história de seu "corollaire" - a alma ; e numerosos aspectos do espinozismo constituem como uma teoria dispersada da biografia individual.
O indivíduo não é dado de uma vez por todas: ele só é pensável ao ritmo de sua duração, dos eventos que o transformam, das causas que se imprimem na sua complexidade. A vida humana é assim duplamente definida por suas relações com a extensão e por sua escansão no tempo.
Nós vivemos em uma época que descobre novamente a opacidade do Estado e o poder da paixões religiosas. Que se interroga sobre a ciência e sua potência, sobre o direito de controlar seus efeitos. Que se exaspera da opressão dos corpos e se surpreende da emancipação deles. Que se interessa apaixonadamente pela biografia e pela autobiografia, onde ela acredita descobrir a verdade do indivíduo, sem muitas vezes levar em conta o componente imaginário. Inúmeras razões, de reler novamente, Spinoza .

- Pierre - François Moreau, filósofo, professor na Escola normal superior de Lyon (ENSLSH), autor, entre outros, de "Spinoza et le spinozisme (PUF, colle. 3 Que sais-je?", 2003) e "coauteur" de "Lectures de Spinoza " (Ellipses Marketing, 2006).

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Sapere aude!


"Tenha a coragem de te servir do teu próprio entendimento!"


O Iluminismo é a saída do homem fora do "estado de tutela" do qual ele é ele mesmo responsável. "O estado de tutela" é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a ajuda de outrem. Nós somos nós mesmos responsáveis desse "estado de tutela" quando a causa está relacionada não a uma insuficiência do entendimento mas a uma insuficiência da resolução e da coragem de servir-se de seu próprio entendimento sem a ajuda de outrem. Sapere aude! tenha a coragem de te servir do teu próprio entendimento! Eis a divisa do Iluminismo.
Preguiça e covardia são as causas que fazem que um tão grande número de homens, após a natureza tê-los libertado há muito tempo de uma conduta estrangeira [...], ficam todavia de boa vontade a vida toda deles em um "estado de tutela", e que fazem que seja tão fácil a outras pessoas de colocar-se como seus tutores. É muito cômodo de estar sob "tutela". Se eu tenho um livro que possui o entendimento no meu lugar, um diretor de consciência que tem a consciência no meu lugar, [....] nesse caso então eu não preciso fazer esforços. Não é necessário que eu pense a partir do momento que eu posso pagar para que outros o façam por mim; outras pessoas assumirão no meu lugar essa fastidiosa necessidade. E se a maior parte e de longe, homens (e entre eles, "o belo sexo" na sua totalidade), considera esse passo que liberta da "tutela", dizendo que ele é muito penoso, até mesmo perigoso, é o que os tutores se empregam em sua extrema benevolência a vigiar.
Após ter embrutecido seu gado (o deles) e ter impedido com solicitude essas criaturas tranqüilas de ousar fazer um passo sem a "roda infantil" onde eles os tinha encarcerado, eles lhe mostram em seguida o perigo que os ameaça se eles tentarem andar sozinhos.
[.....] Os preceitos e as fórmulas, esses instrumentos mecânicos de uso razoável ou mais justamente de um mau uso de seus dons naturais, são as entraves de um "estado de tutela" permanente. Quem os rejeitaria não poderia saltar o mais estreito fosso sem desastre porque ele não teria o hábito de mover-se tão livremente. Assim, pouco numerosos são aqueles que conseguiram libertar-se, pelo próprio trabalho do espírito deles, do "estado de tutela" e andar apesar de tudo com um passo seguro. Mas que um público se esclareça dele mesmo é mais provável; isso é mesmo quase inevitável a condição que nós lhe concedamos uma certa liberdade. Pois sempre existirá alguns seres pensando por eles mesmos, mesmo entre os tutores em exercício, seres que rejeitarão eles mesmos o julgo do "estado de tutela" e para propagar em seguida em torno deles o espírito de uma apreciação razoável do próprio valor e da vocação de todo homem a pensar por si mesmo. [....]. Se nós fazermos a questão : estamos vivendo hoje uma época esclarecida? A resposta é : não, mas na realidade estamos vivendo na época do Iluminismo. Seria ainda preciso muita coisa para que os homens de uma maneira geral, no estado atual das coisas, sejam já, ou possam ser capazes de se servir das coisas da religião do entendimento deles com segurança e exatidão sem a direção de uma outra pessoa. Contudo, nós temos indícios evidentes que eles tem o campo livre para trabalhar nessa direção e que os obstáculos á generalização do Iluminismo, ou a saída do "estado de tutela" do qual eles são eles mesmos responsáveis, são cada vez menos numerosos. Justamente nesse ponto de vista, essa época do Iluminismo, ou o século de Frédéric. [....].
Quando a natureza faz sair do duro envelope o germe que ela cuida da maneira mais terna, quer dizer a inclinação e a vocação ao pensamento livre, essa inclinação tem progressivamente repercussões no estado de espírito do povo (o que lhe torna pouco a pouco mais apto a agir livremente) e finalmente mesmo no princípio do governo, que acha proveitoso para ele mesmo de considerar o ser humano, que é doravante "mais do que uma máquina" conforme a sua dignidade.

- Emmanuel Kant - Resposta a questão : O que é o Iluminismo? (1784), Tradução F. Proust, Garnier - Flammarion -



L'Aufklärung

Emmanuel Kant é considerado como o mais eminente representante do Aufklärung, o Iluminismo alemão. Sua obra define o programa intelectual, moral e político de nossa modernidade. O texto acima é um extrato de sua contribuição ao debate lançado em 1787 pelo Sarlinische Monatsschrift sobre a questão "o que é o Iluminismo?". Kant apresenta um ponto de vista já esboçado no prefácio da "Crítica da razão pura" (1781), sua obra mais célebre: "Nosso século é propriamente o século da crítica, através da qual tudo deve se submeter; a religião, porque ela é sagrada, a legislação, por causa de sua majestade, querem ao mesmo tempo se abster desse exame. Mas elas [....] não podem, então fazendo isso pretender a esse respeito [....] que a razão testemunha unicamente ao que pôde se submeter a seu livre e público exame".



Autonomia da razão

Kant caracteriza o Iluminismo como o momento da "saída do homem fora do estado de tutela do qual ele é ele mesmo responsável". A afirmação moderna da autonomia da razão choca-se sempre, nesse fim do século XVIII, ao dogmatismo religioso e ao despotismo político. Aos olhos de Kant, o Iluminismo é apenas o prelúdio de uma "época esclarecida" que ainda virá. A homenagem feita à Frédéric II, da Prússia, amigo dos filósofos, não faz de Kant no entanto um adepto do despotismo esclarecido. Kant é, ao contrário, um adversário declarado do paternalismo político, no qual o chefe do Estado se coloca em garantia não da liberdade, mas da felicidade do povo. Sair do "estado de tutela" significa romper com a tradição, que submete os homens à autoridade do passado e do divino. Um elo estreito une, desse ponto de vista, a superstição, que faz obstáculo ao conhecimento da natureza, e a necessidade de ser guiado por outrem. Após Descartes, Kant sublinha a significação da vontade na construção da verdade; a divisa do Iluminismo, "tenha a coragem de te servir do teu próprio entendimento" faz eco à exigência cartesiana de deixar de lado os preconceitos. Ela constitui um dos elementos do programa da modernidade democrática.
O caminho traçado por Kant em vista de sair desse "estado de minoridade" é o caminho da reforma, que só precisa do "livre uso público do pensamento". A liberdade é então ao mesmo tempo fim e meio: não é preciso um tutor para sair do "estado de tutela". Kant, em Discípulo de Rousseau, define o homem pela "perfectibilité", a existência humana não sendo, como a existência do animal, regulada pelo instinto. Disso a importância da educação: o homem é o único ser que precisa ser educado. Kant espera dos tempos esclarecidos que virão que os Estados invistam na instrução do povo. O motor do progresso do Iluminismo reside todavia na auto-educação do público: é por isso que a liberdade de comunicar seus pensamentos constitui o bem político mais precioso.



Máximas da reforma

Kant apresenta em outras obras - na "Crítica da faculdade de julgar" (1790), depois na "Antropologia de um ponto de vista pragmático" (1798) - as máximas da reforma pessoal: a primeira, "pensar por si mesmo", designa a exigência de emancipação para com os preconceitos e os argumentos da autoridade. A segunda máxima, "pensar em se colocando no lugar de outrem", comanda de pensar em comum com outras pessoas. Ela é a máxima do pensamento extenso que, em oposição ao espírito estreito, se mostra capaz de "refletir sobre seu próprio julgamento do ponto de vista universal". A terceira máxima, enfim, "sempre pensar de acordo com si mesmo", é a máxima do pensamento conseqüente. É através do estabelecimento dessas três máximas que o indivíduo poderá acessar a autonomia e tornar-se autenticamente adulto.

- Eric Deschavanne -



Aufklärung

Em alemão, "esclarecimento", "luz". Esse termo possui um senso mais dinâmico que a palavra francesa "Lumiéres". Definido oficialmente por Kant em 1784 no seu célebre artigo Was ist Aufklärung? (O que é o Iluminismo?), esse movimento filosófico e cultural se desenvolveu desde o começo do século XVIII, se fundando no racionalismo otimista de Leibniz e de Christian Wolf (1679 - 1754). Além de Kant, ele será ilustrado por Moses Mendelssohr (1729 - 1786).
As idéias do Aufklärung se propagaram na burguesia alemã, especialmente através de revistas e de sociedades como os Amigos da Verdade, do Conde Manteuffel, em Berlim.



Cartesianismo/ cartesiano

Corrente de pensamento oriunda da filosofia de Descartes (dualismo da alma e do corpo, transparência e distinção das idéias como critérios do verdadeiro, cogito como princípio de toda filosofia) que inspirou os pensadores jansenistas de Port-Royal (Arnauld e Nicole), mas também - mesmo se eles em seguida se afastaram - Spinoza, Malebranche e Leibniz. De uma maneira geral, as filosofias do sujeito (Alain, a fenomenologia de Husserl, Sartre) se reclamam dela.



Descartes, René (1596 - 1650)

Sábio e filósofo francês, que muito viajou, ele tem a intuição, quando ele participa de uma campanha militar, de um novo método capaz de fundar a filosofia e a ciência, nas quais o princípio primeiro é o cogito ("eu penso, então eu sou"). Ele vai se inspirar das matemáticas para elaborar um sistema fundado sobre uma educação rigorosa das leis fundamentais da natureza. Pela sua análise do homem como sujeito, ele marca também o começo da filosofia moderna. O método cartesiano se apóia na dúvida radical (dita "hiperbólica") relativa a todo conhecimento. Na sua formulação mais extrema, a dúvida cartesiana supõe que um gênio malevolente teria governado nossos pensamentos e nos induzido apesar de tudo ao erro. Descartes afastará finalmente essa hipótese se apoiando nas provas da existência de Deus. Sua teoria das idéias e seu método fortemente ilustrado por Spinoza, que contribuiu na difusão do cartesianismo na Holanda (Princípios da filosofia de René Descartes, 1663 ).



Leibniz, Gottfried Wilhelm (1646 - 1716)

Filósofo e matemático alemão, bibliotecário dos príncipes de Hanovre, ele foi não somente o filósofo do racionalismo positivo e inventor (ao mesmo tempo que Newton do cálculo infinitesimal), mas também um lingüista, um jurista, um historiador, um diplomata e um teólogo. Pacifista, ele sonha de reunir os Estados Europeus, de fazer a unidade dos sábios, de aproximar católicos e protestantes (ele trabalhou com Bossuet sobre a possibilidade de união das Igrejas católica e protestante ). Filósofo - "Novos ensaios sobre o entendimento humano" (1704), "Ensaios de Théodicée " (1710) e A Monadologie (1714) - , ele coloca o princípio da razão suficiente: nada pode acontecer sem razão. Para ele, é a harmonia preexistente em Deus e por Deus que tornou a Criação possível e a melhor possível. Se o mal existe, certo que ele é necessário: Deus não podendo criar um mundo perfeito, introduziu a mais pequena porção de mal possível. Assim o mal é "a sombra do bem, a dissonância que aumenta o prazer da consonância".
Essa corrente de pensamento, que proclama que " tudo é para o melhor no melhor dos mundos possíveis", será refutada por Voltaire - Zadig (1747), Candide (1759). Os últimos anos de Leibniz foram sombrios por causa do impacto provocado pela controvérsia que o confrontou a Newton sobre a anterioridade da invenção do cálculo infinitesimal. O mundo dos matemáticos adotará portanto sua notação simbólica e sua denominação de "cálculo integral". A posteridade estabelecerá que os dois sábios chegaram a conclusões similares, independentemente um do outro.



Rousseau, Jean - Jacques (1712 - 1778)

Escritor e filósofo de origem genevoise, considerado por Emmanuel Kant como o "Newton do mundo moral", esse filósofo do Iluminismo de caráter atormentado e com uma vida aventurosa marcou profundamente o pensamento moderno. Sua obra que exalta o estado de natureza teve uma importância fundamental tanto na filosofia política - "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens" (1755), "Do contrato social" (1762) - quanto na pedagogia (L'Émile, 1762).
A pedagogia segundo ele, não deve, ter como objetivo de manter uma ordem existente mais de inventar novos modelos de vida. Primeiro autor a ousar a se desnudar sem máscaras em suas " Confissões " (posthume, 1782 e 1789) , ele tornou-se a referencia dos primeiros românticos.

domingo, 24 de junho de 2007

Emmanuel Kant, o humanista

A filosofia de Kant é uma resposta ao mundo desencantado que fizeram emergir as descobertas do século XVIII. Cabe ao homem, nos limites de sua "finitude", de dar novamente um senso ao mundo, do ponto de vista do conhecimento, da moral e dos fins políticos.


O senso e o impacto da obra de Emmanuel Kant ( 1724 - 1804 ) são imperceptíveis se nós não procurarmos medir em primeiro ligar o sismo intelectual e moral que representa a passagem do universo da cosmologia grega ao universo da fìsica moderna, à ruptura abissal que separa o "mundo fechado dos Antigos do universo infinito" (1) de Galilée e Newton. Pois é após essa ruptura que Kant pensa, e sua filosofia sò tem um ùnico objetivo: construir um edifìcio novo, o do humanismo moderno, sobre as ruìnas de uma ordem còsmica desaparecida para sempre.

Nota 1 = Expressões emprestadas a Alexandre Koyré (Du monde clos à l'univers infini, Gallimard, 1957).


Do mundo fechado ao infinito

Em menos de um século e meio, com efeito - durante o perìodo que se estende da publicação da obra de Copernic sobre "As revoluções das òrbitas celestes (1543) a obra des "Philosophie naturalis principia mathematica" (1687) de Newton, passando pelos "Princìpios da filosofia " de Descartes (1644) e a publicação das teses de Galilée sobre as revelações da terra e do sol ( 1632 ) - uma revolução cientìfica sem precedente na història da humanidade realizou-se.Não foi apenas o homem "que perdeu seu lugar no mundo", mas o mundo ele mesmo, esse famoso cosmos grego, que volatilizou-se puramente e simplesmente. Para se ter uma idéia do que os Gregos chamavam cosmos, é preciso representar-se o todo do universo como se tratasse de um ser organizado e animado. Para os estòicos, por exemplo, a ordem còsmica não era somente uma organização magnifìca, mas era tambem uma ordem anàloga a de um ser vivo. O mundo material, o universo inteiro era para eles como um gigantesco animal de quem cada elemento - cada orgão - teria sido admiravelmente concebido e agenciado em harmonia com o conjunto universal.
Eis o que a fìsica dos Antigos convidava os homens a reconhecer e que a ética os ordenava imperativamente de imitar.
Mas após a revolução cientìfica, o universo é apenas um caos infinito, desencantado e sem outro valor que aquele que nòs lhe damos, um campo de forças que se organizam, certo, mas no choque, sem nenhuma harmonia nem significação. Então não existe mais nada na natureza que nòs possamos imitar no plano moral, pois nòs não podemos ver como o silêncio desses espaços infinitos que terrorizam o libertino de Pascal poderiam servir seja no que for de modelo ético para seres humanos doravante desemparados.
Eis então a razão das questões inéditas que animam as obras principais de Kant.

Da contemplação a construção

Primeiro na "Crìtica da razão pura" (1781) : se o mundo é apenas um caos, um tecido conflituoso de forças, é doravante "do exterior", pela força de seu espìrito, que o sàbio deverà re-introduzir uma ordem e um senso no real. Isso serà por excelência, a nova tarefa da ciência moderna, que não reside mais na contemplação, no que os Gregos chamam a "theoria", mas em um trabalho, na elaboração ativa, e verdadeiramente na construção de leis que permitem de dar novamente coerência a um universo desencantado. Por exemplo, com o princìpio de causalidade, o sàbio "moderno" vai tentar estabelecer os elos "lògicos" entre certos fenômenos que ele considera como efeitos, certos outros fenômenos nos quais ele consegue, graças ao método experimental, a descobrir causas. Eis a razão pela qual a "Crìtica da razão pura" começa com uma interrogação em aparência puramente "técnica", para não dizer bizantina, mas na verdade de uma profundeza abissal, tocando nossa capacidade a fabricar "sìnteses", "julgamentos sintéticos". A fòrmula designa simplesmente a nova concepção das leis cientìficas que vão receber por missão de estabelecer ligações (etimologicamente, sintetizar quer dizer botar junto) coerentes e esclarecedoras entre fenômenos em que a ordenação não é mais dada, mas construìda. Revolução intelectual sem precedente: a noção grega de contemplação vai fazer um lugar a noção de um trabalho do espìrito, de uma atividade de sìntese, de "conexão" pela qual o sàbio autêntico consegue "fabricar" as leis cientìficas.
Mas nessas condições tambem, dependendo da interpretação da questão moral que aborda a "Crìtica da razão pràtica" (1788) muda, tambem ela, completamente. À interrogação clàssica "o que devo fazer?" nenhum outro critério natural saberia doravante responder. Como, com efeito, considerar por modelo a ordem còsmica se não podemos encontra-la? Não somente a natureza não tem mais nada de bom em si, mas é preciso estar em oposição para com ela e combatê-la sem trégua para alcançar o bem.
E isso é verdade tanto em nòs mesmos quanto fora de nòs mesmos. Vejam, por exemplo, o tremor de terra de Lisboa que, em 1755, fez em algumas horas vàrios milhares de mortos.
Estaria mesmo nessa tragédia o sinal do maravilhoso cosmos que os Antigos acreditavam ver em torno deles ?
Seria essa natureza, hòstil e malevolente, que nòs deveriamos ter por modelo ?
E em nòs mesmos, as coisas se possìvel, são piores ainda : se eu escuto minha natureza, é incessantemente e com força o egoìsmo mais decidido que fala em mim, que me comanda de seguir meus interesses particulares desprezando os interesses dos outros. Como eu poderia um instante me persuadir que eu poderei alcançar o bem comum, o interesse geral, escutando essa natureza cruel?
A verdade, é que com ela, os outros podem sempre esperar.....
Eis a razão crucial da ética no universo moderno que fez seu luto das cosmologias antigas : em qual entidade enraizar uma nova ordem, um outro cosmos se preferirmos, que seja ao mesmo tempo antinatural e irreligioso? Resposta que funda o humanismo moderno tanto no plano moral que polìtico e jurìdico: sobre a ùnica vontade dos homens, a condição que eles aceitem de se auto-limitar compreendendo que a liberdade deles, as vezes, deve cessar onde começa a liberdade de outrem.


O reino dos fins

Essa "segunda natureza" que se trata de instaurar, Kant a designarà sob a expressão do "reino dos fins". Pois seu princìpio supremo, é o respeito de outrem, que nòs não devemos jamais tratar como um simples meio. Pois é nisso, justamente, a coisa mais natural do mundo e que supõe um esforço em si mesmo, uma vontade que se arranca das inclinações egoìstas. Eis a razão pela qual a lei moral se impõe a nòs mesmos sob a forma de um imperativo, de um dever: justamente porque ela não é natural, mais supõe esforços ou, como diz Kant, uma "boa vontade", verdadeiramente uma "vontade boa". Como o conhecimento, que não é mais "theoria", contemplação, mas trabalho de sìntese dos fenômenos entre eles no seio de leis construìdas pelo espìrito humano, esse novo cosmos tambem é um universo moral "artificial", inteiramente a construir e de maneira alguma dado nem garantido com antecedência, um mundo onde o homem, longe de ser o fragmento minùsculo de uma totalidade que lhe engloba de todas as partes, torna-se um "fim em si" - e não mais um meio, um ser que nòs não poderìamos instrumentalizar se o grande Todo o exigisse, mas o alpha e o oméga de todo valor e de toda dignidade moral. Com Kant, nòs deixamos o universo dado todo feito e aprimorado pela natureza para entrar em um mundo de parte em parte forjado pelos e para os seres humanos - em que, é claro, reside o advento da democracia que està em jogo no nascimento desse novo paradigma intelectual e moral. Uma aventura que, para o melhor e para o pior, ainda é nossa atualmente.


- Luc Ferry, filòsofo, antigo ministro, presidente do Conselho de anàlise da sociedade ( CAS ), autor, entre outros, de " L'Homme - Dieu ou le Sens de la vie" ( LGF , 1997), de "Qu'est-ce qu'une vie réussie?" (LGF,2005) e "D'Apprendre à vivre: traité de philosophie à l'usage des jeunes générations " ( Plon, 2006 ).

sábado, 16 de junho de 2007

Doutrinas Políticas Contemporâneas




J. Bernardo Cabral - Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (1981/1983). Relator-Geral da Assembléia Nacional Constituinte (1987/1988). Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados (1989). Ministro de Estado da Justiça (15.03.90 a 09.10.90). Senador. Presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 1997/1998 e 2001/2002)


1. O Socialismo: vertente totalitária e democrática. 2. O Liberalismo: experiências de resistência aos regimes absolutistas. 3. A Doutrina Liberal. 4. Conclusão: sinais de convergência.

1) O Socialismo

Neste momento de crise, quando as perspectivas do País tornam-se incertas, é, sem dúvida, fundamental rememorar, ainda que de forma condensada, a grande polêmica que atravessou o século XX, travada entre as principais doutrinas políticas da modernidade: de um lado, o Socialismo, tanto na sua vertente totalitária, quanto na democrática, esta última mais conhecida como SocialDemocracia; de outro lado, o Liberalismo, surgido a partir das experiências de resistência aos regimes absolutistas, que chega a este novo milênio dotado de renovada legitimidade, conferida pela eficácia demonstrada no trato das grandes questões sociais e econômicas do nosso tempo.

Abordarei em primeiro lugar, alguns pontos da história e da doutrina do Socialismo, na sua vertente comunista, que, no século XX, chegou a gerir os destinos de uma significativa parcela da população mundial.

Em seguida, examinarei o desempenho daqueles que diligenciaram na realização das metas socialistas por meios exclusivamente democráticos, ou seja, a denominada Social-Democracia, corrente que obteve um sucesso significativo na maior parte dos países da Europa Ocidental, associando à sua gestão o desenvolvimento do Estado de Bem-Estar Social.

Finalmente, discutirei a Doutrina Liberal, tentando enfatizar os pontos que, a meu ver, tornaram-na relativamente imune aos efeitos da crise contemporânea, que está eliminando o comunismo e pondo em xeque o Estado de Bem-Estar Social.

O Socialismo foi definido de diversas maneiras, ao longo de sua história. Para alguns, seria caracterizado pela preocupação com as classes desprivilegiadas da sociedade. Outros vêem como seu traço marcante a oposição à propriedade privada. Não há dúvida de que essas e outras características são comuns ao pensamento socialista. Considero, no entanto, mais fecundo definir o Socialismo, não porum traço ou conjunto de traços, e sim, como o fez o grande sociólogo francês Emile Durkheim, por uma tensão entre dois princípios coexistentes: a demanda por racionalidade econômica e a exigência de justiça social.

Demanda por racionalidade, na medida em que o caráter caótico da produção capitalista manifestou-se desde cedo. Períodos de bonança eram interrompidos por crises recorrentes durante as quais o excesso de bens convivia com a incapacidade de compra, e, portanto, com a miséria. A superação desse círculo vicioso consistiria na subordinação da propriedade privada, ou seja, um movimento que iria da autonomia dos capitalistas individuais para um planejamento racional centralizado.

Exigência de justiça social, na medida em que a mesma propriedade privada impunha uma distribuição desigual de bens, serviços e oportunidades de vida.

No pensamento socialista os dois aspectos são inseparáveis; na verdade, a justiça seria uma decorrência necessária da introdução da racionalidade na vida econômica. Foi preciso o transcurso de todo o século XX para demonstrar que justiça e racionalidade nem sempre são coincidentes, podendo, inclusive, ser excludentes.

Discorrer aqui, pormenorizadamente, sobre a história do movimento socialista seria desnecessário e extrapolaria os limites desta reflexão. Limitar-me-ei, portanto, a assinalar alguns pontos de inflexão, aqueles que julgo mais carregados de conseqüências para a história do século passado.
O Socialismo surge como tentativa de superar as mazelas da Revolução Industrial. Data, portanto, do último quartel do século XVIII. Excluí de nossa periodização todas as obras dos pensadores comunistas utópicos, de Platão a Campanella, pois estes estavam preocupados primordialmente com a questão da construção de uma sociedade justa, faltando-lhes a dimensão da racionalidade na produção de riquezas.

Isto posto, é possível delimitar, na história do Socialismo, um primeiro período que se estenderia de suas primeiras manifestações até o ano de 1848. Esse ano é tomado como marco em função da participação dos trabalhadores nos movimentos revolucionários que eclodiram na Europa e também por nele ter-se dado a publicação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, que marcaria a feição posterior do movimento.

O segundo período apresentaria como limites os anos de 1848 e de 1914. No seu curso, o Marxismo consolida-se como tendência dominante do Socialismo, por deslocar a vertente anarquista, no âmbito da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1863. A partir daí, o Marxismo foi-se impondo como a única versão legítima do Socialismo, a única que teria como fundamento as bases sólidas da ciência. É nesse período, ainda, que os diferentes partidos socialistas europeus, já denominados, em geral, social-democratas, convertem-se em partidos eleitoralmente significativos. Houve um incremento exponencial dos votos socialistas a partir da conquista do sufrágio universal. Em 1890, a social-democracia alemã chegou à condição de partido mais votado, no que foi seguida por seus congêneres da Bélgica, Escandinávia e Áustria.

A essa altura, o Socialismo constituía-se em um expressivo movimento de massas animado por uma mesma interpretação da sociedade e da História, desenvolvida por Marx.

Suas idéias centrais são:

1 – O Materialismo: postula a primazia do ser sobre a consciência dos homens, ou seja, a consciência dos homens depende da forma como provêem suas necessidades materiais.

2 – A Dialética: consiste no reconhecimento do caráter contraditório da realidade social manifesta na centralidade da luta de classes.

3 – A Direção da História: a História da Humanidade é vista como um processo evolutivo, uma vez que o desenvolvimento tecnológico define, em última análise, a estrutura de classes de cada sociedade e esse desenvolvimento é cumulativo.

4 – O Fim da História: a própria evolução da sociedade de classes apontaria para o seu fim. A divisão da sociedade em classes teria fim e uma nova era teria início. A simplificação dos conflitos de classe levaria à expropriação do patronato, não em benefício de uma nova classe dominante, mas em benefício de todos.

5 – O Caminho: a consecução dessa meta exigiria, no entanto, um momento de transição durante o qual os trabalhadores utilizariam a coerção contra os interessados na manutenção ou restauração da antiga ordem. Nesse período o Estado assumiria o controle do sistema produtivo e injetaria racionalidade na produção mediante o planejamento centralizado.

A primeira oportunidade de testar empiricamente a validade desse corpo teórico socialista ocorreu nos desdobramentos da Revolução Russa de 1917. Instituiu-se, então, um regime unipartidário comandado por uma fração do antigo Partido Social Democrata Russo, os Bolcheviques. A propriedade privada sobre os meios de produção foi abolida com a sua passagem para as mãos do Estado, processo particularmente violento no caso da coletivização da agricultura efetuada por Stalin, na década de 1930. A política passou a ser monopolizada pelo partido no poder, que não se constrangeu em usar a coerção em doses maciças, primeiro contra os partidários do antigo regime, depois contra os demais partidos oposicionistas e, finalmente, contra os dissidentes do próprio Partido Comunista.

A aplicação da receita socialista em toda a sua integridade teve como resultado a instauração de um regime autoritário, quando não francamente totalitário. Como esse resultado pode ser encarado? Como um desvio em relação ao projeto original, ou fiel ao espírito dos textos de Marx, como uma etapa necessária ao estabelecimento de uma sociedade efetivamente livre?

Parece-me que os acontecimentos da última década não deixam dúvida a respeito. Enquanto o mundo comunista persistia era possível pensar que nos encontrávamos frente a uma etapa necessária da construção de uma sociedade justa e abundante. A ausência de democracia ainda podia ser vista como uma conseqüência da pressão dos países capitalistas sobre o bloco socialista e bastaria um esforço de auto-reforma do sistema para que o rumo correto fosse retomado. Por um momento, essas esperanças pareceram concretizar-se nos processos que os soviéticos chamaram glasnost e Perestroika. No entanto, a reforma controlada do sistema rapidamente cedeu lugar a seu desmantelamento.

Quais as razões profundas desse desfecho? Em linhas gerais, podemos dizer que o bloco comunista foi vítima do desenvolvimento tecnológico recente. Numa confirmação irônica de um dos teoremas marxistas, as relações de produção construídas a partir da extinção da propriedade privada e da substituição do mercado pelo planejamento central não resistiram ao avanço das forças produtivas e foram por ele despedaçadas.

Vale lembrar que nem sempre o sistema econômico soviético foi inoperante. Respondeu por taxas de crescimento industrial das mais elevadas por um longo período de tempo. Transformou a antiga Rússia em uma potência industrial e militar. Conseguiu, além disso, ganhos até então desconhecidos no rumo da equalização das condições de vida de sua população. Os indicadores de saúde e educação, em poucos anos, alcançaram e ultrapassaram aqueles vigentes nos países capitalistas ocidentais. Mesmo a ocorrência do processo de desestalinização aumentou o otimismo daqueles que, dentro e fora da União Soviética, julgavam o totalitarismo um aspecto descartável do sistema. Emblemático desse período de euforia foi o anúncio de Kruschev, na esteira das primeiras vitórias na corrida espacial, da iminente ultrapassagem da economia americana pela soviética.

O que mudou, desde então? Os avanços científicos e tecnológicos potencializaram o processo de globalização e geraram um novo modo de produzir bens e serviços para o qual mercado e democracia, ou seja, iniciativas no âmbito das unidades de produção e transparência revelaram-se indispensáveis. Esses eram justamente os dois fatores de que carecia o bloco soviético.

A partir de então, deixou de ser plausível a possibilidade de regenerar o comunismo, de transformá-lo por dentro, mediante uma intervenção política e ficou claro o que nós, liberais, sempre soubemos: a liberdade não surge da sua ausência. Vemos, hoje, o preço que a Rússia paga pela ausência de uma tradição política democrática e de uma tradição econômica de mercado. Na política, as instituições são frágeis e o risco de retrocesso em direção ao autoritarismo é presente. Na economia, a iniciativa privada foi açambarcada pelo crime organizado, refúgio dos únicos empreendedores remanescentes do velho regime.

O experimento comunista mostra um resultado claro: os meios preconizados historicamente pela tradição socialista não alcançaram os fins desejados. A justiça social foi incrementada ao custo de um grau absurdo de coerção e revelou -se fugaz. Não sobreviveu ao desmantelamento do regime. A racionalidade da economia revelou-se um mito. O planejamento centralizado mostrou sua inoperância em face das novas condições de produção originadas da revolução científico-tecnológica.

Resta-nos examinar o desempenho, neste século, do braço democrático do movimento socialista, a Social-Democracia.

Nas suas origens, o Socialismo manifestava desconfiança profunda quanto à eficácia e pertinência de sua participação no processo eleitoral. A atitude era procedente, na medida em que vigorava o voto censitário, ou seja, julgava-se, então, que o direito de voto deveria estar restrito àqueles que tinham algo a perder com o desgovemo do país: os proprietários e os detentores de rendas elevadas. Era recorrente, entre os primeiros pensadores socialistas, a idéia de que a nova sociedade poderia surgir, fora da esfera política, a partir de comunidades isoladas, funcionando conforme as novas regras. Acreditava-se que, comprovada assim sua eficácia, o socialismo alastrar-se-ia por força de um efeito de demonstração.

O marxismo representou uma ruptura com essa visão. Ao considerar a conquista do Estado como instrumento indispensável à construção da nova sociedade, enfatizou a necessidade de participação dos trabalhadores na política institucional “burguesa”. Era necessário sempre que possível, a organização de partidos políticos legais e a apresentação de candidatos nas disputas eleitorais.

É certo que essa visão era, no início, inteiramente instrumental. As eleições eram vistas como um momento privilegiado de agitação e propaganda das idéias socialistas, mas não se acreditava na eleição de um governo capaz de implementar as mudanças necessárias. Mesmo que eleito, um governo com essas intenções seria em pouco tempo manietado ou derrubado por uma rebelião das classes possuidoras contra sua própria ordem legal. A revolução, ponto de inflexão no rumo da nova sociedade, deveria ocorrer, na opinião majoritária entre os militantes, no bojo de uma greve geral, seguida do assalto ao poder.

A conquista progressiva do sufrágio universal nos principais países europeus, muitas vezes com a participação decisiva dos trabalhadores, foi aos poucos alterando essa visão. Os socialistas acreditavam, firmemente, na inevitabilidade de a população trabalhadora vir a transformar-se na maioria absoluta em todas as nações modernas. Conforme Marx, a tendência à concentração de empresas era inexorável, o número de capitalistas tenderia a diminuir, a pequena-burguesia e o campesinato, classes de transição, desapareceriam e os trabalhadores constituiriam a maioria esmagadora da população num futuro próximo. Nessas circunstâncias, era difícil não considerar a possibilidade de os trabalhadores chegarem ao poder pela via do sufrágio universal.

Os resultados das eleições sustentavam essa perspectiva. Conforme mencionei anteriormente, na altura da passagem do século passado, os diversos partidos socialistas foram-se convertendo nos maiores depositários de votos de seus países. Logo, foram expostos a problemas delicados. Constituindo os partidos mais votados, sem entretanto dispor da maioria absoluta necessária à implementação dos seus programas, os socialistas foram chamados a constituir ou a formar governos de coalizão. Tiveram, assim, de optar entre a manutenção integral de suas propostas, e a conseqüente exclusão do governo, e a prática do compromisso, das concessões mútuas, da obtenção de pequenas conquistas.

A fratura com a vertente comunista, concretizada ao longo da Primeira Grande Guerra e formalizada em 1921, operou nessa linha de clivagem, separando aqueles que viam as eleições como agitação preparatória da insurreição e aqueles que se comprometeram com a preservação das regras democráticas. Esses últimos desenvolveram a lógica da acumulação de conquistas, ou seja, de reforma em reforma chegar-se-ia à transformação completa da sociedade. Nas palavras de um líder socialista da época, a chegada ao socialismo poderia ser tão imperceptível quanto a passagem de um navio pela linha do Equador.

Sabemos, hoje, que essa estratégia não logrou êxito. Era necessáriopara seu sucesso a esperada maioria absoluta dos trabalhadores no conjunto da população. E tal fato não ocorreu. Por outro lado, as reformas deveriam ser cumulativas e não passíveis de reversão, e a experiência histórica demonstrou que, administradas por novas maiorias, ou simplesmente deixadas à própria sorte, as reformas tendiam a desaparecer.

O fato de os trabalhadores persistirem como maioria relativa e não como maioria absoluta foi de particular relevância para a estratégia posterior dos social-democratas. Os partidos europeus viram-se diante da alternativa de concentrar seus esforços na classe operária e renunciar à possibilidade de serem majoritários ou de se abrirem à participação de outros grupos sociais.

O problema, no caso, é que verificou-se um trade off entre ambas as possibilidades. Ao concentrar suas campanhas nos interesses e na identidade operária, perdiam eleitores de outros grupos. Ao tentar a ampliação, deixavam de apelar para a consciência de classe dos operários, liberando-os, em parte, para votos desvinculados de sua identidade de trabalhador. Nessa alternativa, ganhariam votos com uma mão e os perderiam com a outra, sem alcançar a desejada e necessária maioria absoluta.
A hipótese desse trade off, desenvolvida pelo cientista político Adam Przeworski, encontra apoio nos dados disponíveis sobre o desempenho eleitoral dos partidos socialistas. Apenas no começo do século XX os socialistas algumas vezes aproximaram-se dos cinqüenta por cento dos votos. A partir da década de 1920, entretanto, raramente ultrapassaram os trinta por cento, sendo levados a participar de governos de coalizão, seja na condição de protagonista, seja na de coadjuvante.

Não é possível, entretanto, deixar de reconhecer algum sucesso ao experimento social-democrata. Principalmente a partir da década de 1930, quando assumiram políticas de cunho keynesiano, eles tiveram participação destacada na construção do chamado Estado de Bem-Estar Social.

Desde então, e principalmente no segundo pós-guerra, os governos socialistas desenvolveram um grau de intervenção na economia sem precedentes, mediante a nacionalização de setores inteiros da produção. Paralelamente, ampliaram substancialmente os chamados direitos sociais. Além dos direitos civis, as chamadas liberdades individuais, e do direito de votar e ser votado, os cidadãos desses países passaram a ter como direitos o acesso à saúde, à educação, ao emprego, à seguridade social, à moradia, entre outros. Cabe assinalar que o conteúdo de todos esses direitos sociais era até então simples objeto de transação no mercado, acessíveis apenas aos que dispunham de recursos para comprá-los.

A intervenção do Estado no sentido de regular a economia e garantir esse conjunto expressivo de direitos a todos os cidadãos foi mais profunda e continuada em países como a Suécia e a Inglaterra. Na década de 1950, inclusive, teóricos do trabalhismo inglês não apenas acreditavam estar no caminho do socialismo, como também afirmavam ser impossível um eventual retorno daquele país ao capitalismo.

Essa, no entanto, foi a previsão que teve o desmentido mais rápido. A partir da segunda metade da década de 1970, toda uma leva de vitórias eleitorais conservadoras remeteu os partidos socialistas à oposição. As reformas conquistadas sofreram rápida reversão. Empresas estatais foram privatizadas e o Estado tratou de limitar o alcance dos direitos sociais recentemente estatuídos.

Quais as razões da crise do Estado de Bem-Estar Social? São tantas que mencionarei apenas os fatores mais relevantes. Em primeiro lugar, a globalização produziu um ambiente favorável à rápida mobilidade de capitais. Estes podem, face a uma política redistributiva considerada excessiva, migrar com facilidade para outro país, causando desemprego e mais pobreza.

Em segundo lugar, outro resultado da revolução científico-tecnológica foi a criação do desemprego estrutural. Com ele, diminui o número de contribuintes e aumenta o de beneficiários das políticas sociais. O desequilíbrio assim gerado exige recursos cada vez maiores e alimenta a chamada “revolta dos contribuintes”, que começam a direcionar seus votos aos partidos conservadores.

Em terceiro lugar, parece claro, hoje, que, mesmo nos seus melhores dias, o Estado de Bem-Estar Social tinha como premissa uma estrutura familiar tradicional. Encontrava-se equipado para atender ao desemprego masculino, pressupondo o papel de esposa para a maioria da população feminina. Com a freqüência maior de divórcios e o afluxo das mulheres ao mercado de trabalho o Estado revelou-se incapacitado para fazer frente ao aumento dos gastos.

Finalmente, uma linha de crítica, iniciada pelos liberais, mas hoje encampada por correntes socialistas, dirige-se ao complexo paternalismo/passividade que essas políticas estimulam. As populações atendidas vêem o seu destino nas mãos de uma burocracia que escapa à sua influência. Cria-se uma cultura da dependência que, ao invés de integrar os excluídos na ordem social, estimula a permanência destes nos limites dessa ordem, na condição de incapazes de garantir seu próprio sustento, expondo-os às conhecidas conseqüências em termos de preconceito.

Pode-se concluir, em suma, que o projeto social-democrata foi vítima dos mesmos fatores históricos que evidenciaram o fracasso do comunismo: a revolução científico-tecnológica e o processo de globalização dela decorrente. Aqui cabem duas indagações: antes que o peso desses fatores se fizesse sentir em meados dos anos de 1970, era possível afirmar, ao longo das três décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra, que a via social-democrata alcançara êxito? E, ainda, o caminho das reformas sucessivas levara ao socialismo?

Depende. Se por Socialismo entendemos uma sociedade próxima do pleno emprego, com uma elevada renda per capita, na qual os desempregados e os excluídos do mercado de trabalho por incapacidade também fazem jus a um rendimento digno, garantido pelo Estado, então a Suécia foi, de fato, durante alguns anos, uma sociedade socialista.

O Socialismo, no entanto, prometeu mais do que isso. Propôs-se à construção de uma sociedade de liberdade e abundância, na qual todas as necessidades individuais encontrariam satisfação. Acenou com a libertação do homem de todas as amarras e da situação de alienação em que se encontra. Até a formação da identidade individual ver-se-ia livre de toda distorção. Nesse sentido maximalista, o Socialismo não foi substantivamente implantado nem na Suécia, nem em parte alguma.


2) O Liberalismo: experiências de resistência aos regimes absolutistas

Aliás, a trajetória do Liberalismo constitui um interessante contraponto aos percalços do Socialismo, em todas as suas variantes. Surgido como processo de limitação dos poderes do Estado, principalmente na Inglaterra, a partir do século XIII, ganhou densidade intelectual com as contribuições de inúmeros filósofos e pensadores da política, de Locke a John Stuart Mill. Cabe assinalar que sua origem histórica, vinculada às lutas da burguesia ascendente, levou os socialistas a identificá-lo, a priori, como a ideologia dessa classe social e a condená-lo à impossibilidade de cumprir as suas promessas.

Numa sociedade dividida em classes, as liberdades fundamentais permaneceriam apanágio das classes dominantes: os proprietários. A extensão concreta dos direitos abstratamente universais colocaria em risco, de imediato, a ordem social e propiciaria sua subversão pelos excluídos. Podemos avaliar hoje, em concreto, que as promessas do Liberalismo foram cumpridas numa extensão muito maior que as do Socialismo.

Mas, de que estamos falando, quando usamos o termo Liberalismo? A palavra, na verdade, recobre uma gama de significados tão ampla quanto Socialismo. Valho-me da definição proposta pelo pensador italiano contemporâneo Norberto Bobbio, por sua clareza e operacionalidade. Para ele, Liberalismo é uma concepção de Estado, aquela que o encerra em limites bem definidos. O Estado liberal opõe-se, de um lado, ao Estado absoluto, cujo poder é ilimitado. Nesse sentido, Estado liberal confunde-se com Estado de Direito. Por outro lado, o Estado liberal não é limitado apenas em seus poderes, mas também em suas funções. Nesse sentido, o Estado liberal é um Estado mínimo, oposto, por exemplo, ao Estado de Bem-Estar Social.

É importante fazer uma distinção entre o Liberalismo assim definido e a Democracia. Esta é um regime político, na qual o poder encontra-se nas mãos de todos, a antítese, portanto, da Autocracia. A Democracia responde à exigência de distribuir o poder, não de limitá-lo.

A tensão entre Liberalismo e Democracia perpassa toda a história da doutrina. Não são poucos os pensadores liberais que consideraram ambos inconciliáveis. Historicamente, o Liberalismo prosperou inicialmente em regimes políticos oligárquicos, nos quais os direitos políticos eram inseparáveis da propriedade. Na melhor tradição liberal, a propriedade era vista como única garantia de um comportamento político responsável, única salvaguarda contra o voto disruptor da ordem.

Sabemos, hoje, no entanto, que as relações entre Liberalismo e Democracia são bastante complexas. Numa primeira dimensão, pode-se afirmar a compatibilidade entre ambos. É possível existir um Estado simultaneamente liberal e democrático. Há, porém, outras possibilidades históricas, como um Estado liberal, mas não-democrático, exemplificados pelos regimes oligárquicos, ou um Estado democrático, mas não liberal, no qual a vontade da maioria seria ilimitada.
Numa segunda dimensão, comprova-se a permanente tensão, até mesmo o antagonismo entre Liberalismo e Democracia. Nesse caso, a procura da igualdade de condições entre os cidadãos, por meio da ação do Estado, expande essa ação até esferas que deveriam ser deixadas ao arbítrio individual. Se o Estado decide tudo por nós e nos provê de todos os bens necessários, acabam a autonomia e a responsabilidade individuais.

Numa última dimensão, transparece, nas condições políticas modernas, a união necessária entre Liberalismo e Democracia. A história recente fornece razões convincentes para se crer que, de um lado, os direitos individuais dependem da regra do jogo democrático para se manterem; de outro lado, que a proteção dos direitos individuais é indispensável ao funcionamento da democracia.

Daí resulta que, hoje, os liberais trabalham no espaço da compatibilidade entre Liberalismo e Democracia; são conscientes da solidariedade existente entre ambos e procuram limitar a busca da igualdade de condições à igualdade de oportunidades para todos. Os liberais sabem que o máximo que o Estado pode fazer, sem colocar em risco os direitos individuais e a esfera privada, é assegurar o mesmo ponto de partida a todos os cidadãos. Tentar assegurar o mesmo ponto de chegada, como almejam os socialistas, é enveredar pelo caminho da servidão, na expressão feliz de Hayek.


3) A Doutrina Liberal

Cabe aqui recapitular que as linhas mestras da doutrina liberal, decantadas após séculos de especulação e debates teóricos, são:

1 – O Individualismo: Se os liberais buscam limitar o poder do Estado, fazem-no em nome de uma realidade anterior e moralmente mais elevada – o indivíduo. Para eles, os indivíduos precedem o Estado, que só existe para satisfazer as suas, deles, necessidades.

2 – Os Direitos Naturais: Esses indivíduos que preexistem ao coletivo portam direitos invioláveis, como o direito à vida, à liberdade e à propriedade. A tradição liberal fundamenta esses direitos na sua suposta naturalidade. A suposição não é necessária. Basta-nos considerar, em cada sociedade e em cada período histórico, como direitos fundamentais e, portanto, invioláveis, aqueles reconhecidos a todos os seus membros. Os direitos universais são os fundamentais.

3 – A Valorização da Diversidade: Na tradição liberal, toda uniformidade é percebida como imposta por um poder exterior ao indivíduo. Os seres humanos são plurais e um de seus direitos inalienáveis é o da expressão e do desenvolvimento de sua singularidade. Da mesma forma, os conflitos que advêm da expressão das diferenças – de valores, idéias e interesses - são salutares, uma vez que propiciam a emulação, o aperfeiçoamento e a prevalência das alternativas mais eficazes. Na esfera econômica, essa diretriz materializa-se na valorização da concorrência. Sociedades que estimulam a diversidade são ativas e progressistas.

Parece-me claro que, no ambiente globalizado e sujeito a intensas alterações tecnológicas já aqui mencionados, um corpo doutrinário com as características acima descritas encontra-se mais capacitado para conduzir sociedades modernas do que as doutrinas concorrentes originadas do tronco socialista. Os valores articulados pelos liberais aparentam ser hoje os únicos compatíveis com o modo de produção que atualmente se gesta. Transparência e livre circulação da informação, plena liberdade à iniciativa individual, tanto no campo do capital quanto do trabalho, dotação de responsabilidade aos sujeitos dessa iniciativa; todas essas são condições para operar a produção de bens e serviços, na contemporaneidade.

O resultado mais evidente das mudanças recentes é a crescente complexidade da vida e do mundo modernos. Nossos problemas, sejam eles tecnológicos, econômicos ou meramente cotidianos, não dispõem mais de apenas uma solução ótima, mas sim de uma multiplicidade de soluções ao alcance dos atores sociais. Tornou-se plenamente aceitável a crítica dos economistas liberais ao Socialismo: se num estágio mais simples de sociedade, o planejamento central podia aspirar a uma racionalidade superior à do mercado, hoje o mercado é mecanismo muito mais eficiente para captar e transmitir os sinais da esfera produtiva. O planejamento central, na forma como foi postulado pelos socialistas, foi relegado ao campo da irracionalidade econômica.

Devo dizer, contudo, que a hegemonia dos mecanismos de mercado e das instituições democráticas a que assistimos não significa uma vitória absoluta do Liberalismo, em sua feição originária. Décadas de embate com as correntes socialistas tornaram os liberais sensíveis às condições sociais que possibilitam a igualdade de oportunidades.
Poucos expoentes do Liberalismo negariam hoje a necessidade de interferência estatal em áreas como saúde e educação, cruciais para que os indivíduos iniciem o processo de concorrência em igualdade ou ao menos em semelhança de condições. Alguns preferem dar a esse movimento o nome de Social-Liberalismo, uma vez que legitima a intervenção do Estado em esferas antes deixadas exclusivamente ao livre jogo das forças de mercado.

Nota-se, por outro lado, movimento semelhante da parte de tendências historicamente situadas no campo do Socialismo. As debilidades do Estado de Bem-Estar Social, particularmente sua tendência à burocratização, à alienação da população beneficiada, à perpetuação da exclusão social num gueto de dependentes do Poder Público, originaram críticas entre os próprios socialistas. Estes passaram a reconhecer, ao menos parcialmente, as limitações do Estado como instrumento de promoção da igualdade e da justiça e a conseqüente necessidade de estimular a autonomia individual. Outro não é o significado da tentativa autodenominada Terceira Via, teorizada por Anthony Giddens, na Inglaterra, inspiração do atual governo trabalhista daquele país.


4) Conclusão: sinais de convergência

Neste começo de século, é difícil prever o resultado desses processos, tanto no campo do debate Intelectual, quanto no da prática de governo. O que se pode é apenas considerar os sinais de convergência entre as distintas doutrinas aqui sucintamente abordadas como um sintoma auspicioso de que décadas de debate intenso estão produzindo conclusões, expressas como consensos parciais acerca da gestão da sociedade. Ainda bem.


Já não era sem-tempo.