sábado, 19 de janeiro de 2008

Democracia, razão pública e dever de civilidade

"Existem formas numerosas de razão pública"

A idéia de razão pùblica especifica no nìvel fundamental os valores morais e polìticos essenciais que devem determinar a relação de um governo democràtico constitucional com seus cidadãos assim como as relações mùtuas destes cidadãos. Em poucas palavras, ela é relativa à maneira pela qual a relação polìtica deve ser concebida. Aqueles que rejeitam a democracia constitucional e seu critério de reciprocidade recusarão evidentemente a idéia mesmo de razão pùblica. Para eles, a relação polìtica pode ser aquela do amigo ou do inimigo dos membros de uma comunidade religiosa ou secular. [....] Ela pode também ser uma luta impiedosa para convertir o mundo à verdade completa.
O liberalismo polìtico não é relativo à opinião dos que pensam dessa maneira. O ardor para realizar a verdade completa em polìtica é imcompatìvel com uma idéia da razão pùblica que depende da cidadania democràtica.
[.....]
Quais são os ideais e princìpios que devem guiar o exercìcio do poder polìtico ùltimo igualmente dividido entre os cidadãos para que cada um possa razoavelmente justificar suas decisões polìticas a cada um dos membros ?
Nossa resposta é a seguinte: os cidadãos são razoàveis quando, considerando-se mutualmente como livres e iguais no seio de um sistema de coperação social atravéis as gerações. Eles estão prontos a oferecer mutualmente os termos equitàveis de coperação em função do que eles consideram como a concepção mais razoàvel da justiça polìtica, e quando eles estão de acordo para respeitar esses termos nos atos deles, mesmo ao preço de seus interesses pròprios em certas situações, na medida em que os outros cidadãos aceitam igualmente esses termos.
O critério de reciprocidade exige que, quando esses termos são propostos como os mais razoàveis de uma coperação equitàvel, aqueles que os propõem devem também considerar que é pelo menos razoàvel para os outros de aceita-los na qualidade de cidadãos livres e iguais, e não como agentes manipulados ou dominados, ou obrigados sob o efeito de uma posição polìtica ou social de inferioridade.Os cidadãos serão, de maneira clara, divididos sobre a questão de saber qual é a concepção da justiça polìtica mais razoàvel, mas eles estarão de acordo sobre o fato que todas essas concepções são razoàveis, mesmo se algumas o são de maneira quase incompleta.
Assim, quando, sobre [....] uma questão de justiça fundamental, todos os responsàveis governamentais competentes adotam a idéia de razão pùblica e agem segundo ela, e quando todos os cidadãos razoàveis se concebem de maneira ideal como legisladores adotando a razão pùblica, então o ato legal que exprime a opinião da maioria constitue um ato de direito legìtimo. È possìvel que um cidadão não considere esse ato como o mais apropriado, mas ele é politicamente (moralmente) engajado com relação a ele na qualidade de cidadão, e deve aceita-lo por essa razão. Cada um cosidera que todos os outros se exprimiram e votaram pelo menos razoavelmente, e que todos eles então adotaram a razão pùblica e honraram o dever deles de civilidade. [....]O conteùdo da razão pùblica é dado dessa maneira por uma familia de concepções polìticas da justiça, e não por uma ùnica concepção. Existem numerosos liberalismos, e então numerosas formas de razão pùblica. [....] A concepção da justiça como eqüidade, seja quais forem seus méritos, é apenas uma delas. O limite dessas formas é constituìdo pelos critérios de reciprocidade, aplicado entre os cidadãos livres e iguais considerados como razoàveis e racionais.
Três aspectos caracterizam essas concepções: primeiro, uma lista de direitos, liberdades e possibilidades (como aqueles que são familiares nos regimes constitucionais ); em segundo, a atribuição de uma prioridade particular a esses direitos, liberdades e possibilidades, em particular com relação às reivindicações de bem comum e dos valores perfeccionistas; e em terceiro, medidas que garantam a todos os cidadãos meios "polyvalents " (diversos) para fazer uma utilização efetiva dessas liberdades.

- John Rawls - Paix et Démocratie, Trad. B. Guillarme, La Découverte, 2006


Comentário

A teoria da justiça de John Rawls tem por consequencia uma visão ideal da polìtica, de qual os princìpios são os princìpios da razão pùblica, aquela que deve guiar a argumentação e a ação dos cidadãos. Como mostra o texto acima, extrato de Paix et Démocratie, Rawls parte do princìpio liberal da legitimidade polìtica, jà afirmado por John Locke e Emmanuel Kant, segundo o qual nòs podemos ser autônomos com relação ao poder polìtico se nòs podemos aceitar atravéis nosso julgamento razoàvel os ideais e os princìpios que guiam a ação desse poder. Mas como, em uma democracia, o poder polìtico é o atributo dos cidadãos livres e iguais constituìdos em corpo coletivo, cada um é o autor ( como o destinatàrio ) da justificação do exercìcio da coerção pùblica. Cada cidadão tem então um dever de civilidade: ele deve poder explicar como os princìpios e as polìticas que ele procura realizar podem ser justificados por ideais aceitàveis pelos outros.
Quais são então os valores que um cidadão razoàvel pode julgar aceitàveis por todos os outros ? A dificuldade consiste a levar em conta o fato do pluralismo razoàvel, das doutrinas morais, razoàveis no sentido em que aqueles que os afirmam recusam de realiza-los pela força.


O pluralismo razoável

Rawls, distingue o que ele chama as doutrinas gerais e "englobantes" das concepções polìticas. Uma doutrina, diz Rawls, é geral quando ela se aplica a uma ampla variedade de sujeitos e "englobante" quando ela ensina concepções do que faz o valor da vida humana, dos ideais da virtude pessoal. Este é o caso das religiões. No contràrio, uma concepção polìtica é formulada por um objeto especìfico: a estrutura de base da sociedade; ela não depende de uma doutrina englobante particular, e isso é possìvel pois ela é elaborada na base de idéias implìcitas na cultura pùblica de uma sociedade democràtica. Ser razoàvel consiste aqui a considerar a cultura pùblica como o capital comum de princìpios fundamentais reconhecidos por todos, e a aceitar de não utilizar sua pròpria doutrina englobante para justificar suas posições.


Religião e polìtica

Um cidadão que honra seu dever de civilidade com relação aos outros é capaz de justificar todas as suas proposições e seus votos sobre as questões fundamentais, não sobre a base de sua doutrina moral englobante, mas sobre a base de uma concepção rigorosamente polìtica da justiça, aceitàvel por todos.Essa idéia permite de dar uma interpretação do princìpio de neutralidade dos cidadãos e do Estado democràticos, continuamente citado nas controvérsias contemporâneas sobre as reivindicações derivadas das comunidades morais e religiosas.
O Estado democràtico e sua ação não podem ser fundados sobre uma doutrina englobante especìfica, mesmo se ele forma a maioria. Isso por causa do respeito do statut de cada cidadão que deve poder fazer sua justificação da ação do Estado sobre as questões fundamentais. Ao contràrio, não é necessàrio que as ações tenham como resultado de ajudar todas as concepções do bem a um grau igual. Uma doutrina religiosa que sò pode sobreviver com a condição de ser institucionalizada no Estado cessarà de existir em uma sociedade polìtica democràtica bem ordenada, da mesma maneira que as concepções razoàveis não poderão prosperar em uma democracia liberal se elas não encontram adeptos suficientes para pratica-las.

- Bertrand Guillarme, autor de John Rawls: La Justice comme équité ( La Découverte, 2003 )


Rawls, John (1921 - 2002)

Esse universitàrio americano oriundo de uma rica familia do Maryland, formado em Princeton, ensina em Oxford, Cornell e no Massachusetts Institute of Technology (MIT) antes de se fixar durante quarenta anos em Harvard. Là, ele vai revolucionar a teoria do direito e do Estado publicando em 1971 a Théorie de la justice, onde ele define de uma nova maneira as noções de eqüidade a partir da idéia de contrato social, dessa vez aplicada à justiça ela mesma ( os homens antes de toda relação social se entendem de maneira contratual sobre uma certa idéia da justiça). Esse livro, que convida assim a um verdadeiro pluralismo democràtico, coloca seu autor na esquerda da vida polìtica americana. Vìtima de vàrias crises cardìacas, ele tem dificuldades para terminar The Law of People, onde ele expõe sua visão da justiça internacional.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

John Rawls: a justiça como eqüidade.

"Os princípios da justiça são o resultado de um acordo equitável"

Meu objetivo é de apresentar uma concepção da justiça que generaliza e coloca a um nível mais elevado de abstração a teoria bem conhecida do contrato social como nós a encontramos, entre outros, em Locke, Rousseau e Kant. Para isso, nós não devemos pensar que o contrato original seja concebido para nos engajar a entrar em uma sociedade particular de governo. A idéia que nos guiará é de preferência que os princípios da justiça válidos para a estrutura de base da sociedade são o objeto do acordo original. São os princípios mesmos que as pessoas livres e racionais, desejosas de favorizar seus próprios interesses, e colocadas na posição inicial de igualdade, aceitariam e que, segundo elas, definiriam os termos fundamentais da associação delas.
Esses princípios devem servir de regra para todos os acordos ulteriores; eles especificam as formas da cooperação social nas quais nós podemos nos engajar e as formas de governo que podem ser estabelecidas. Essa maneira de considerar os princípios da justiça que eu chamarei a teoria da justiça como eqüidade. Por conseguinte, nós devemos imaginar que aqueles que se engajam na cooperação social escolhem juntos, por um único ato coletivo, os princípios que devem fixar os direitos e os deveres de base e determinar a repartição das vantagens sociais. Os homens devem decidir antecipadamente segundo quais serão as regras que eles vão arbitrar suas reivindicações mútuas e qual deve ser a "charte" fundadora da sociedade. Da mesma maneira que cada pessoa deve decidir por uma reflexão racional o que constitui seu bem, quer dizer o sistema de fins que é racional para ela procurar, da mesma maneira um grupo de pessoas deve decidir, de uma vez por todas o que, em seu seio, deve ser considerado como justo e injusto. A escolha que os seres racionais fariam, nessa situação hipotética de liberdade igual, determina os princípios da justiça - supondo no momento que o problema colocado pela escolha da mesma tenha uma solução.
Na teoria da justiça como eqüidade, a posição original de igualdade corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do contrato social. Essa posição original não é concebida, é claro, como sendo uma situação histórica real, e menos ainda como uma forma primitiva da cultura. È preciso compreendê-la como sendo uma situação puramente hipotética, definida de maneira a conduzir a uma certa concepção da justiça. Entre os aspectos essenciais dessa situação, existe o fato que ninguém conhece seu lugar na sociedade, sua posição de classe ou seu status social, da mesma maneira que ninguém conhece o destino que lhe está reservado na repartição das capacidades e dos dons naturais, por exemplo, a inteligência, a força, etc. Eu irei mesmo até a dizer que os parceiros ignoram suas próprias concepções do bem ou suas tendências psicológicas particulares. Os princípios de justiça são escolhidos atrás de um véu de ignorância. Isso garante que ninguém é privilegiado ou desprivilegiado na escolha dos princípios pelo acaso natural ou pela contingência das circunstâncias sociais. Como todos têm uma situação comparável e que ninguém pode formular princípios favorizando sua situação particular, os princípios de justiça são o resultado de um acordo ou de uma negociação equitáveis.
Pois, considerando as circunstâncias da posição original, quer dizer a simetria das relações entre os parceiros, essa situação inicial é equitável com relação aos sujeitos morais, quer dizer seres racionais tendo seus próprios sistemas de fins e capazes, segundo a minha opinião, de um senso da justiça. A posição original é, nós poderíamos dizer, o statu quo inicial adequado, e por essa razão os acordos pelos quais nós chegamos a essa situação inicial são equitáveis. Tudo isso nos explica a exatidão da expressão "justiça como eqüidade": ela transmite a idéia que os princípios da justiça são oriundos de um acordo concluído em uma situação ela mesma equitável.

- John Rawls - Théorie de la Justice ( 1971 ), Trad. C.Andard, Le Seuil, 1987 -

A justiça como eqüidade

Para o pensador americano John Rawls (1921 - 2002), o liberalismo só é legítimo como garantia das liberdades civis e políticas com a condição de estabelecer uma visão mais ampla da democracia. Na sua obra principal, a Teoria da justiça, publicada nos Estados Unidos em 1971, ele ambiciona dessa maneira de pensar a questão da justiça, considerando, a partir do mesmo ponto de vista democrático, a distribuição dos direitos-liberdades e dos direitos sobre os bens materiais.

Ideal democrático

Ele empreende assim de responder ao paradoxo da consciência democrática ordinária que concebe as exigências de liberdade e de igualdade como antagonistas. Ele elabora para isso um ponto de vista filosófico que possa constituir "a base moral que convém da melhor maneira a uma sociedade democrática" para pensar todas as questões de justiça. Como mostra o extrato acima, sua idéia é de figurar um ideal democrático de relações sociais, quer dizer o reconhecimento para cada indivíduo que o outro é dotado de um statut de cidadão igual ao seu.Esse ideal é figurado em um modelo, que Rawls chama a "posição original de igualdade", onde pessoas fictivas, racionais e egoístas, colocadas atrás de um véu de ignorância que as impede de conhecer suas características particulares, escolhem os princípios de justiça da sociedade delas.
Segundo Rawls, essa formulação em termos de escolha racional e não moral torna a seleção mais precisa e mais fácil.
È na capacidade deles a desenvolver uma concepção do bem que os cidadãos se reconhecem como iguais. As pessoas da posição original procuram distribuir os instrumentos que permitem a cada um de realizar uma concepção do bem: esses meios são variados e incluem o rendimento, a riqueza, as liberdades...

Liberalismo igualitário

A partir disso, o sistema de Rawls repousa sobre dois princípios. "Primeiro princípio: cada pessoa tem direito a um conjunto perfeitamente adequado de liberdades de base iguais compatível com o mesmo conjunto de liberdade para os outros. Segundo princípio, as desigualdades econômicas e sociais satisfazem duas condições: primeiro, elas se relacionam a cargos ou funções abertas a todos com as condições de igualdade equitável das chances; em seguida, elas devem existir para o maior benefício dos membros menos privilegiados da sociedade. "Os dois princípios são ordenados de maneira rigorosa: o primeiro possui uma prioridade absoluta sobre o segundo, e a primeira parte do segundo princípio (igualdade equitável das chances) tem a prioridade sobre a segunda"

A esquerda americana

Para Rawls, a combinação desses dois princípios forma um liberalismo igualitário. A dimensão liberal vem da garantia das liberdades civis e políticas. A dimensão igualitária resulta da limitação das desigualdades: as desigualdades materiais não devem ser de tal maneira que elas prejudiquem a igualdade das chances; elas não devem ter como resultado efeitos de dominação (cláusula sobre as liberdades políticas que garantem a utilização delas equitável); elas não devem permitir a algumas pessoas de tratar os outros como inferiores (inclusão das "bases sociais do respeito de si mesmo" nos bens distribuídos pelo princípio de diferença).Liberalismo igualitário de Rawls o coloca claramente na esquerda da movimentação política liberal, pois seus princípios de justiça, além de sua radicalidade redistribuidora, são compatíveis com um regime de propriedade privada mas também de propriedade coletiva dos meios de produção - o que Rawls chama o socialismo democrático.

- Bertrand Guillarme, autor de John Rawls: La justice comme équité (La Découverte - 2003)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ceticismo - Sextus Empiricus

"A todo argumento se opõe um argumento igual"

1. Quando nòs fazemos uma pesquisa sobre um sujeito determinado, o resultado aparente é que ou nòs fazemos uma descoberta, ou nòs negamos ter feito uma descoberta e nòs reconhecemos que a coisa é inaplicàvel, ou nòs continuamos a pesquisa. È sem dùvida por essa razão que no que é relativo aos objetos de pesquisa filosòfica eles também, algumas pessoas declararam que elas haviam descoberto o verdadeiro, outras negaram que isso pudesse ser possìvel, outras ainda procuram.
Assim pensam tê-lo encontrado aqueles que nòs chamamos dogmàticos, no sentido pròprio, por exemplo os adeptos de Aristoteles e de Epicuro, os estòicos e alguns outros; Os adeptos de Clitomaque e de Carnéade e os outros acadêmicos afirmaram que ele é relativo às coisas imperceptìveis; os céticos continuam a procurar. A partir disso nòs consideramos razoavelmente que as filosofias dominantes são três: dogmàtica, acadêmica, cética. Para as duas primeiras, é melhor que outras pessoas as comentem; no que é relativo a via cética, nòs trataremos sob a forma de esboço na obra presente, tendo primeiro dito o seguinte: de nada do que serà dito nòs asseguramos que o que foi dito é completamente como nòs dizemos, mas para cada coisa nòs fazemos como historiadores um relatòrio conforme ao que nos aparece no momento presente.

4. O ceticismo é a faculdade de colocar face a face as coisas que aparecem da mesma maneira que as que são pensadas, seja da maneira que for, capacidade através de qual, do fato da força igual que existe nos objetos e nos raciocìnios opostos, nòs chegamos primeiro à suspensão do consentimento, e apòs isso à tranquilidade. [...] Nòs não consideramos " raciocìnios " em todos os casos no sentido da afirmação e da negação, mas simplesmente no sentido de raciocìnios em conflito. Nòs chamamos " força igual" a igualdade segundo a convicção e a não-convicção, de maneira que nenhum dos raciocìnios em conflito tenha superioridade sobre outro pela razão que ele seria mais convincente. A suspensão do consentimento é a parada do pensamento do fato que nòs não rejeitamos nem colocamos uma coisa. A tranquilidade é a ausência contìnua de tormento e a calma da alma. Como a tranquilidade é provocada pela suspensão do consentimento, nòs o sugerimos no capìtulo sobre o fim do ceticismo.

12. Um fim é o que é esperado de tudo o que é feito ou pensado, mas que não espera nada ele mesmo; também é o objeto final dos desejos. Nòs dizemos até agora que o fim do cético, é a tranquilidade em matéria de opiniões e a moderação das emoções nas coisas que se impõem a nòs mesmos. Pois tendo começado a filosofar em vista de decidir entre as impressões e de apreender quais dentre elas são verdadeiras e quais são falsas de maneira a alcançar a tranquilidade, ele encontrou-se em desacordo com partidos de forças iguais; estando incapaz de decidir, ele suspendeu seu consentimento. E para aquele que tinha suspendido seu consentimento, a tranquilidade em matéria de opinião produziu-se fortuitamente. [....]

- Sextus Empiricus, Esquisses Pyrrhoniennes, I, 1,4,6 et 12, Trad. P.Pellegin, Le Seuil, 1997.


Sextus Empiricus

Sextus Empiricus é a referência em matéria de ceticismo antigo. Particularmente porque, sem ele, nòs mal conhecerìamos as posições do fundador desse movimento, Pyrrhon d'Èlis, de quem o ensinamento foi perdido. O cético duvida de todo conhecimento e considera que nenhum argumento é irrefutàvel. Nesse sentido, para Sextus, ele é a terceira via da filosofia, em oposição aos "dogmàticos", que, como Aristoteles, Epicuro e os estòicos, consideram que suas pesquisas alcançaram resultados definitivos, mas também contra aqueles que, como os membros da Nova Academia, pensavam que a impossibilidade de descobrir o verdadeiro constitue o termo da pesquisa. Ao contràrio, o cético quer que ela continue sem fim, não para descobrir verdades, mas para lutar contra os preconceitos e as crenças que aparecem de todos os lados.


A arma da controvérsia

Para o ceticismo então, todo argumento tem seu contràrio, e nenhum dos dois é superior ao outro. A "pesquisa" cética consiste a propor, para todo raciocìnio em aparência inabalàvel, os antilexis das proposições contraditòrias. Essa atitude visa a estabelecer entre um argumento e seu contràrio uma "força igual'. Diante esta, a ùnica posição sustentàvel consiste em suspender seu julgamento. Essa "suspensão" (epokke) constitue um dos princìpios fundamentais do ceticismo. Ela engaja a não desenvolver nenhum sistema filosòfico.
Quais são os resultados que nos propõe então o ceticismo? Nòs tocamos aqui o coração do pensamento de Sextus Empiricus. Seu livro Esquisses não tem por vocação de ser completado por uma obra exaustiva. Ao contràrio, os " resultados " das investigações céticas são apenas rastros das pesquisas em estudo e dos avanços em direção da igualdade de forças. Mas esse trabalho não é vão. È ele, nos assegura Sextus, que permite ao homem de alcançar o objetivo do exercìcio filosòfico, a saber atingir a tranquilidade da alma ( ataraxie ). Procurando a suspensão do julgamento, o cético promete a ausência dos tormentos ao espìrito que, sem isso, ficaria perturbado pela "irregularidade das coisas".
O ceticismo antigo atraiu muitas crìticas, e primeiro a de se contradizer. Ele não admite involuntariamente verdades, o fato, por exemplo, que para todo argumento existe um argumento contràrio de força igual ? Sua ambição filosòfica provoca também interrogações. Se a filosofia, no sentido etimològico do termo, significa " amor da sabedoria ", a sabedoria se confundiria com a tranquilidade da alma ?
A essa questão, o pensamento cético parece responder sem distinção pela afirmativa....
Essas objeções explicam talvez a razão pela qual Sextus Empiricus foi considerado durante muito tempo como um autor de pouca importância. No século XVI todavia, a tradução do seu livro Esquisses pyrrhoniennes desperta novamente o interesse pelo ceticismo.Montaigne, entre outros, cita Sextus para definir seu pròprio ceticismo. A dùvida cartesiana foi igualmente associada ao ceticismo.


Suspensão do julgamento

No começo do século, Husserl retoma por sua conta, em um sentido bem preciso, a idéia d'epokkê; a " fenomenologia ", para descrever os fenômenos da maneira que eles se manifestam na consciência, deve " botar entre parenteses" ou suspender todo julgamento préalable sobre a realidade ou a existência "objetiva" dos fenômenos observados.
No fim dos anos 1960, o declìnio do que està estabelecido de chamar as " grandes narrações" - as concepções religiosas, polìticas e filosòficas do senso da història - e a reconsideração dos dogmas popularizam essa atitude filosòfica, mesmo se o pensamento moderno não reinvidica mais rigorosamente o ceticismo antigo.

- F.G.-

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Ser ou não ser ?

O meu jeito de ser
È não ser
Porque se eu for
Ninguém me segura
E também se todos fossem
Seria uma transformação geral
Sendo de qualquer maneira
È melhor do que fazer carnaval
Quando todo mundo muda o tempo todo
E o resultado finalmente
È que as coisas não mudam
E tudo é sempre igual !


Então eu sou como eu sou
Não sendo nada especial
Tentando ser como os outros
Estrangeiros a minha verdadeira maneira de ser
Que para eles seria anormal !


E se todo mundo tivesse mais coragem
Para ser, sentir
Amar....
Talvez eu também teria coragem
Para ser, sentir
Amar!

Mas quase ninguém é
Ou não pode ser
E se eu for
Vão me amarrar e me jogar no asilo
Com os loucos
Pelo menos eles são
Com tanta naturalidade
Que a loucura finalmente
È uma coisa muito natural !


Tão natural
Que ninguém mais sabe
O que é normal
Dificil de ser
Sem loucura
Rainha do mundo
Que me faz muito mal !

domingo, 13 de janeiro de 2008

Estoicismo - Marc Aurèle


"Você sempre pode encontrar um asilo em você mesmo"

O tempo que dura a vida do homem é apenas um ponto; sua alma está em um perpétuo movimento; suas sensações só são trevas. Seu corpo composto de tantos elementos é uma presa fácil para a corrupção; sua alma é um furacão; seu destino é um enigma obscuro; sua glória, um non-senso. Em uma palavra, tudo o que é relativo ao corpo é um rio que escorre; tudo o que é relativo a alma é apenas sonho e vaidade; a vida é um combate, e o viajante, um estrangeiro; e a única fama que nos espera após nós mesmos, é o esquecimento. Quem pode então nos dirigir no meio de tanto escolha? Existe apenas um único guia, apenas um, é a filosofia. E a filosofia, é de uma certa maneira fazer com que o gênio que está em nós mesmos fique puro de toda mancha e de todo dano, mais forte que os prazeres ou os sofrimentos, nunca agir de maneira leviana seja no que for, nem com falsidade ou dissimulação, sem nenhuma necessidade de saber o que uma outra pessoa faz ou não faz, aceitando os acontecimentos de toda natureza e a sorte que lhes é destinada, como uma emanação da fonte de onde ele vem ele mesmo, e acima de tudo, esperando, com um humor doce e sereno, a morte, que ele considera como a simples dissolução dos elementos de quais todo ser é composto. Ora se, para os próprios elementos, não é de maneira alguma um mal de mudar perpetuamente uns nos outros, porquê olhar de maneira negativa a mudança e a dissolução de todas as coisas? Essa mudança é conforme as leis da natureza: e no que a natureza faz, não existe jamais nada de mal.


Livro IV, & 3

Nós vamos procurar longínquos retiros nos campos, na beira-mar, nas montanhas, e você mesmo gostaria de satisfazer esses mesmos desejos. Mas como todo esse cuidado é singular, pois você pode sempre, quando você quer, na sua hora, encontrar um asilo em você mesmo! Em nenhum lugar, com efeito, o homem pode experimentar o prazer de um retiro mais sereno nem menos perturbado do que aquele que ele tem dentro da alma dele, sobretudo quando nós encontramos em nós mesmos esses recursos sobre os quais basta se apoiar um instante, para que logo a gente se sinta na perfeita quietude. E por "Quietude", eu não entendo outra coisa do que uma inteira submissão a regra e a lei. Então cuide de te assegurar esse refúgio constante, e renova-te nele você mesmo perpetuamente. Conserva em teu coração as breves e inelutáveis máximas que você só terá que meditar durante um momento, para que no mesmo instante sua alma inteira reencontre sua serenidade, e para que você volte desse momento, isento de toda amargura, retomando o comércio de todas essas coisas de quais você se ocupa. A quem, eu te pergunto, eu poderia acusar? Seria a perversidade dos humanos? Mas se você lembra à sua memória esse axioma que todos os seres dotados de razão são feitos uns para os outros, que se suportar reciprocamente é uma parte da justiça, e que tantas pessoas que se detestaram, desconfiaram, odiaram, brigaram, estão estendidas na poeira e são apenas cinzas, você talvez se sentirá em paz facilmente.

[.....]

Ou então, lembre-se, todas essas máximas que te foram ensinadas e que você aceitou na dor e no sofrimento. Seria por acaso a vã opinião dos homens que te agita e te dilacera? Então olhe um pouco o rápido esquecimento de todas as coisas, o abismo do tempo perdido entre os dois sentidos, a inanidade desse barulho e desse eco, a mobilidade e a incompetência dos juízes, que parecem te aplaudir, e a exigüidade do lugar onde a fama se encerra. A terra inteira é apenas um ponto, e a parte onde nós habitamos é apenas o ponto mais estreito. Nele mesmo, aqueles que aclamarão teus louvores, quantos eles são e quantos deles ainda existem?

- Marc Aurèle, Pensées Pour Moi-Même, Livre II, & 17, et Livre IV, &3, Trad.J.Barthélemy Saint-Hilare, Èd. Germer- Baillière, 1876.


Marc Aurèle


Marc Aurèle parece encarnar o ideal antigo do filósofo rei. Chefe de um Império ameaçado por todos os lados, através de expedições punitivas e viagens iniciáticas, ele escreve suas reflexões em uma antologia que tem por título original À soi-même (A si mesmo) o que é relativo à pratica dos exercícios espirituais recomendados pelos estóicos. Como eles, Marc Aurèle está convencido que o objetivo da existência consiste no acordo da razão com as leis do universo. Suas reflexões se inspiram de maneira evidente do Manuel d'Èpictète, que ele segue na exploração dos três princípios da moral estóica: a crítica de nossas representações sob a égide da razão, a ação justa e conforme a razão social e a aceitação serena dos acontecimentos.
Para o imperador filósofo, o comportamento público depende da necessidade: inútil, então, de partir longe para se escapar dele, a prática da filosofia é suficiente. Ela é impermeável aos fracassos e as gratificações, que não nos preocupam durante muito tempo, considerando que o corpo e a alma estão destinados a se dissolver. Os louvores e as condenações pronunciados pela posteridade são dirigidos apenas a uma idéia oca, aos átomos espalhados, a uma coisa sem nenhuma substância.
Os Pensamentos de Marc Aurèle foram as vezes considerados como uma obra pessimista. È verdade que Marc Aurèle insiste na futilidade da existência, na inconstância das sensações e das idéias.
Portanto, ele afirma com a mesma força sua fé na razão que dirige a alma e a natureza, e que une os homens. Ele não os encoraja a encarar as coisas com "um coração enérgico"? Esse apelo vigoroso dirigido a si mesmo e jogado por escrito o distingue dos outros estóicos e jà anuncia, pelo seu gênero, Les Confessions, d'Augustin, les Essais, de Montaigne, ou ainda Les Confessions, de Rousseau.


O pessimismo de Marc Aurèle

O "pessimismo" suposto dos Pensamentos de Marc Aurèle responde na realidade a uma exigência de escritura. Nós não devemos esquecer que são exercícios espirituais, os meletai no sentido estóico, destinados a experimentar a alma, a força-la a enfrentar seus últimos recursos. O princípio mesmo do livro supõe que nós não devemos esperar dele elogios sobre a beleza da existência e seus prazeres.
Trata-se ao contrario de mostrar que a vida, quando ela se afasta da razão, se expõe a tudo menos a felicidade. O imperador filósofo não tem piedade das infelicidades da existência. Ele presta contas delas a ele mesmo para melhor afirmar sua liberdade interior.
Segundo a opinião geral dos historiadores antigos, sua honestidade moral e seu senso do dever foram exemplares. Atualmente, portanto os historiadores se mostram céticos: sob seu reino, o Império romano começava a se enfraquecer sob o efeito de uma sucessão de calamidades: tentativas de invasões em todas as zonas de combate, um golpe de Estado, uma epidemia devastadora em Roma. Marc Aurèle ele mesmo tinha uma saúde frágil. A prática da filosofia não representa finalmente apenas uma fuga diante uma realidade demasiadamente cruel?
E portanto! O Livro Os Pensamentos formam um verdadeiro monumento do pensamento ocidental, tanto pela sua qualidade de estilo quanto pela universalidade de seus temas. Ele lembra que a filosofia não é um abismo conceitual. Ela oferece um refúgio interior diante as tribulações da vida.
Dito isso, jamais Marc Aurèle encoraja a fugir da realidade, por mais que ela seja cruel, e de suas obrigações. Muito pelo contrario. Como Sêneca ou Lucrèce, ele critica a tentação de se abster do corpo social e de seus tormentos contínuos para se refugiar no campo ou a beira-mar.
A analise não deixa de ser atual. Nesse momento em que a política decepciona, a tentação de fugir é grande. Por esta razão, as viagens e o tourismo ganham sempre novos adeptos. Mas se retirar para escrever a si mesmo e sobre si mesmo, eis a verdadeira viagem que nos convida a fazer o imperador filósofo.

- A.-S.J. -

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Para refletir...



“Posso haver-me enganado na minha concepção da verdade pura, mas não estava errado ao crer que ela existe e merece ser obedecida. Talvez tenha imaginado o caminho para um mundo livre e feliz mais curto do que é na realidade, no entanto, não estava errado em pensar que esse mundo pode existir e que a vida vale a pena ser vivida, se se deseja penetrar nela um dia. Passei a vida em busca de uma visão, ao mesmo tempo pessoal e social. Pessoal, ao procurar o que é belo, elevado e nobre, agindo de modo a que os momentos de intuição enriquecessem com sua mensagem as horas menos significativas. Minha visão social permitiu-me imaginar uma sociedade onde os seres vivem livremente e onde o ódio, a inveja e a cobiça se extinguirão, por não serem estimulados. Tudo isso é o que penso. E o mundo, com todos os seus horrores, não conseguiu abalar minhas convicções.”

Bertrand Russel

Estoicismo - Èpictète

"O que não depende de nós mesmos é inconsistente, escravo."


1. Das coisas que existem algumas dependem de nós mesmos, outras não dependem de nós mesmos. O que depende de nós mesmos, são nossos julgamentos, nossas tendências, nossos desejos, nossas aversões, em uma palavra tudo o que é operação de nossa alma; o que não depende de nós mesmos, é o corpo, a fortuna, os depoimentos de consideração, as obrigações pùblicas, em uma palavra tudo o que não é operação de nossa alma.
2. O que depende de nòs mesmos é, por sua natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade; o que não depende de nòs mesmos é inconsistente, escravo, sujeito a impedimento, estrangeiro.
3. Então lembre-se que se você olha como livre o que por sua natureza é escravo, e como sendo seu o que pertence a outrem, você serà contrariado, você estarà de luto, você serà perturbado; você vai brigar com os deuses e com os homens; mas se você sò olha como sendo seu o que pertence a você e se você olha como sendo de outrem o que, com efeito, é de outrem, ninguém vai te contrariar nunca, ninguém te impedirà, você não vai brigar com ninguém, você não acusarà ninguém, você não farà absolutamente nada contra sua vontade, ninguém te incomodarà; você não terà inimigos, pois você não sofrerà nada de nocivo.
4. Aspirando a esses bens tão grandiosos, pense que você não deve procura-los sem fazer esforços, que é preciso renunciar inteiramente a certas coisas e adiar outras no tempo presente. Mas se além desses bens você ainda quer o poder e a riqueza, talvez você não obtenha nem mesmo essas avantagens porque você aspira ao mesmo tempo aos outros bens, e, em todo caso, o que é uma certeza, é que você não terà os ùnicos bens que podem nos procurar a liberdade e a felicidade.
5. Dessa maneira, para toda idéia rude, se exerça a dizer imediatamente: " Você é uma idéia, e você não é exatamente o que você representa". Depois examine-a, aplique as regras que você sabe, e primeiro e antes de todas as outras regras aquela que faz reconhecer se alguma coisa depende ou não depende de nòs mesmos, e se a idéia é relativa a alguma coisa que não depende de nòs mesmos, esteja pronto para dizer: "Isso não me interessa."

V

O que perturba os homens, não são as coisas, são os julgamentos que eles têm sobre as coisas. Assim a morte nada tem de temìvel, senão ela teria parecido assim a Sòcrates; mas o julgamento que a morte é temìvel, eis o que é temìvel. Então dessa maneira quando nòs somos contrariados, perturbados ou aflitos, nòs não devemos jamais acusar os outros e sim a nòs mesmos, quer dizer nossos pròprios julgamentos. È um ignorante que briga com os outros por causa de suas infelicidades; é um homem que começa a se instruir que briga consigo mesmo; é um homem completamente instruìdo que não briga nem com os outros nem consigo mesmo.

VI

Não te sinta orgulhoso de nenhuma avantagem que pertença a outrem. Se um cavalo dissesse com orgulho: " Eu sou bonito ", seria suportàvel; mas você, quando você diz com orgulho: " Eu tenho um cavalo bonito", aprenda que você tem orgulho de uma avantagem que pertence ao cavalo. Então o que é que pertence a você ? A utilização de suas idéias. Quando você as utiliza conforme a natureza, então tenha orgulho; pois você se orgulharà de uma avantagem que pertence a você.

VII

Não peça que o que acontece aconteça como você o deseja; mas deseje que as coisas aconteçam como elas acontecem, e você serà feliz.

IX

A doença é uma contrariedade para o corpo, mas não para a vontade, se ela não o quiser. Ser aleijado é uma contrariedade para a perna, mas não para a vontade. Diga a você mesmo a mesma coisa a cada incidente; você acharà que é uma contrariedade para outra coisa, mas não para você.


X

A cada ocasião que se apresente, volte-se para você mesmo e procure qual é a faculdade que você tem em você mesmo para te conduzir: se você vê uma mulher bonita, você encontrarà em você mesmo a faculdade da continência; se apresenta-se uma fadiga a suportar; você encontrarà a capacidade de resistência; uma injùria, você encontrarà a paciência. Se você adquire esse hàbito, suas idéias não te vencerão.

- Èpictète, Manuel, 1 1-5, V-VI, VIII - X, Trad. F.Thurot, Hachette, 1889.


Èpictète


O Manual d'Èpictète é um conjunto de pensamentos recolhidos por um de seus alunos, Arrien, futuro historiador e alto funcionàrio do Império romano no governo de Hadrien ( 76-138). Como Sòcrates com efeito, Èpictète não escrevia e, sem a intervenção de seu discìpulo, seu ensinamento teria sem dùvida caìdo no esquecimento.


Exercícios espirituais

O Manual consiste essencialmente em exercìcios espirituais (meletai); os filòsofos estòicos tinham exercido essa pràtica desde o fim do século iv av.J.-C. Os exercìcios eram praticados apois o aprendizado de princìpios mais " metafìsicos" (lògica, gnoséologie, etc.) e preparavam o espìrito para a ascese, terceira e ùltima parte do ensinamento estòico. Os meletai compreendiam métodos para facilitar a reflexão moral e as regras de conduta.O princìpio do pensamento moral de Èpictète é enunciado desde o começo do Manual: entre as coisas, algumas dependem de nòs mesmos, outras não. A fortuna, a glòria, o poder, as riquezas não dependem de nòs mesmos - essas possessões "inconsistentes" podem desaparecer no caso de uma penùria, de um incêndio ou de um golpe de Estado. Nosso corpo também não depende de nòs mesmos. Um acidente ou uma doença podem nos privar do uso de nossos membros. O corpo pertence então ao conjunto desses "bens" que nos possuem bem mais do que nòs os possuìmos. Nòs nos acreditamos ser os mestres deles, mas nòs somos seus escravos.



Desejar o necessàrio

Os meletai visam a libertar os discìpulos dessa escravidão. A liberdade, assimilada a felicidade (eudémonia), consiste a desejar "o que acontece" ou mais precisamente, o que deve acontecer conforme a ordem natural. Nisso reside para ele a ataraxie que procuram igualmente os epicurianos e os céticos. Isto supõe que o homem, fazendo ato de vontade, possa afirmar sua liberdade diante as circunstâncias da vida mais igualmente diante seus pròprios julgamentos, desejos e aversões. Para aqueles que duvidam que o homem possa alcançar com tanto sucesso o domìnio de si mesmo, Èpictète respondia pelo exemplo, o que demonstra a seguinte anedota:
Antes de ser libertado e de fundar sua escola estòica, Èpictète era o escravo de Èpaphrodite, um mestre algumas vezes cruel. Existe a anedota que narra que um dia, para castigar seu escravo, ele deu a ordem para torcerem sua perna. Èpictète teria então lhe dito: " Se você continuar, ela vai quebrar." A perna quebrou. Então o sàbio teria acrescentado: " Bem que eu te disse que ela iria quebrar". Voilà o exemplo bem demonstrado de uma "contrariedade" para o corpo de quem a alma, pela força da vontade, deve se despegar e dessa maneira ficar livre.Èpictète é consciente que nossos desejos e nossas aversões podem muito bem, como gênios maléficos, se introduzir em nossos pensamentos. Mas é necessàrio que a alma resista para afirmar sua liberdade.
Como? Graças a reflexão e aos diferentes métodos dos exercìcios espirituais. Essa disciplina não é sempre fàcil de aplicar. O filòsofo fala de "idéias duras", idéias que se misturam a alma e a conduzem além do que depende dela. Para lutar contra elas, é preciso encara-las como elas são: simples idéias. Os fantasmas e os temores não são a realidade que eles representam.
Cabe a nòs mesmos, então, de domina-los, pois disso depende a nossa liberdade.


O Manual d'Èpictète é uma referência absoluta da filosofia moral. Ele exerceu uma influência em Marc Aurèle, outro grande estòico. Mas os néoplatoniciens como Simplicius de Sicile também foram influenciados por esse ensinamento. Vàrios elementos de sua moral influenciaram igualmente a moral cristã. O jesuìta Ricci ( 1552-1610) não utilizou o Manuel para demonstrar aos letrados chineses que o cristianismo e o confucionismo compartilhavam pontos de vistas similares ?-

S.-J.A-

Quando o silêncio é a melhor opção

"O maior prazer de um homem inteligente é bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente". Confúcio

Uma vez li no Jornal da Bahia um artigo que me chamou muito a atenção: "O medo causado pela inteligência", de José Alberto Gueiros, o qual transcrevo alguns trechos:
"Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:
" Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta". E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil.
A maior parte das pessoas encasteladas em suas posições é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui no Brasil!

Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa: "Há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência".
Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder... Somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida.
É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender.
É um paradoxo angustiante. Infelizmente, temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues: "Finge-te de idiota e terás o céu e a terra. O problema é que os inteligentes gostam de brilhar, então, que Deus os proteja".

O ser humano tem necessidade de mostrar que é competente, que sabe o que faz, o que diz, que tem poder e inteligência, e na maioria das vezes isso lhe custa muito caro. Como é difícil ficar nos bastidores de uma situação? Não consegue silenciar e deixar que o outro se enrole sozinho.

A necessidade de mostrar a competência é domínio dos incautos.
É na serenidade interior onde vibra o silêncio, que o poder da mente se torna maior e mais criativo, e essa característica, que aparece naquele que é verdadeiramente sábio, é a sua vibração de pura sabedoria.

O silêncio é importante tanto no nosso interior como no exterior. Ele é produtivo em nossos pensamentos e na nossa alma.
Albert Schweiser, diz que "o verdadeiro valor de um homem não pode ser encontrado nele mesmo, mas nas cores e texturas que faz surgir nos outros". E o verdadeiro sábio consegue transformar sua realidade e a do outro.

Entender que não sabe tudo, não é o dono da verdade, e admitir a coerência de fundamentos e idéias que não as suas, é a maior dificuldade de um ser humano.
Os pensamentos que criam barulho interno vêm de fora, da gritaria daqueles que se acham muito poderosos e inteligentes fazem, achando que dessa forma irão impor suas vontades e que todos terão que se curvar a elas. Criam comparações desnecessárias e conseqüentemente competição.
"Não se defender é tudo que se exige para que a verdade nasça verdadeiramente em nossas mentes".

Aquele que fala a verdade, que age corretamente e respeita o outro, não precisa se impor, não tem necessidade de aparecer pois, focaliza-se somente na luz interna do seu ser.
Sabedoria não existe sozinha, está sempre acompanhada do Amor e gera compreensão. Sem a Sabedoria, o emocional torna-se envolvido e tumultuado.

O homem sábio quer estar em contato com seus semelhantes pois é nas relações humanas que ele testa sua sabedoria e esta nasce diretamente da fonte de sua experiência.
Dessa forma, o ser humano voltado para dentro de si mesmo, entra em estado de observação, de serenidade, de desapego, e não desperdiça energia à toa, querendo ser melhor que ninguém, saber mais ou ter mais razão.
Entra em conexão com suas próprias qualidades.
O resgate do silêncio interior é a base do caminho espiritual.
Muito barulho interior, menos capacidade.
"No silêncio vos chamarei.
No silêncio conhecereis
Minha Face.
No silêncio sereis tocados pelo verdadeiro amor." (Tua Alma)

VERA GODOY

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Sêneca - Da Brevidade da vida

"Mortais, vocês vivem como se vocês devessem sempre viver"

(2) Eu me dirigirei aqui com prazer a algum homem da multidão dos velhos "você chegou, eu vejo, ao termo mais recuado da vida humana; você tem cem anos ou mais sobre a cabeça; então, calcule o emprego de seu tempo; diga-nos quanto tempo um credor tirou de você, uma amante, um acusado, um cliente; quanto tempo você perdeu nas brigas com sua mulher, na correção dos escravos, nos seus trabalhos oficiais na cidade. Acrescente a esta perda de tempo as doenças causadas por nossos excessos; acrescente o tempo perdido na inação, e você verà que você tem muitos anos a menos do que você pensa.

(3) Lembre-se quantas vezes você persistiu em um projeto; quantos dias tiveram o emprego que você destinava a eles; quais foram as avantagens que você teve de você mesmo; quando seu rosto esteve calmo e seu coração intrépido; quais foram os trabalhos ùteis que preencheram uma sequência tão longa de anos; quantos homens saquearam sua vida, sem que você sentisse o preço do que você perdia; quanto tempo te roubaram as màgoas sem objetos, as alegrias insensatas, a àspera ganância, os charmes da conversação: veja então o pouco tempo que ficou do tempo que te pertencia, e você reconhecerà que sua morte é prematura.

(4) Qual é então a causa? Mortais, vocês vivem como se vocês devessem sempre viver. Vocês nunca se lembram da fragilidade de vossa existência; vocês não observam a quantidade de tempo que jà passou; e vocês o perdem como se ele jorrasse de uma fonte inesgotàvel, enquanto que este dia, que vocês dão a terceiros ou a alguma ocupação, talvez seja o ùltimo de vossos dias. Vossos temores são de mortais; e vendo vossos desejos nòs dirìamos que vocês são imortais.

(5) A maioria dos homens dizem: aos cinquenta anos, eu irei me aposentar; aos sessenta anos, eu renunciarei aos empregos. E quem vos garantiu uma vida mais longa? Quem vai permitir que tudo aconteça como vocês planejam? Vocês não têm vergonha de sò reservar para vocês os restos de vossa vida, e de destinar à cultura de vosso espìrito o ùnico tempo que não serve mais para nada? Não seria tarde demais começar a viver quando é preciso sair da vida? Que louco esquecimento de nossa condição mortal, de colocar a cinquenta ou sessenta anos os sàbios empreendimentos, e de querer começar a vida em uma época onde poucas pessoas podem conseguir fazer isso.



IV

(1) Escutem as palavras que dizem os homens mais poderosos, os mais elevados nas dignidades; eles desejam o repouso, eles exaltam sua suavidade, eles o colocam acima de todos os bens que eles possuem eles sò aspiram a descer do cume das grandezas, com a condição que eles possam faze-lo sem perigo; pois mesmo se nada exterior ataca ou abala a fortuna, ela està sujeita a desabar sobre ela mesma.

(2) O divino Augusto, a quem os deuses concederam mais bens do que a nenhum outro mortal, não parou de reclamar para si mesmo o repouso e de desejar ficar livre das obrigações do governo . Em todos os seus discursos ele sempre dizia desejar o repouso. No meio de seus trabalhos ele encontrava para alivia-los uma consolação ilusòria, mais todavia suave, dizendo a ele mesmo: algum dia eu viverei para mim.

(3) Em uma de suas cartas dirigida ao Senado, em que ele assegurava que seu repouso seria digno, e não desmentiria sua glòria, eu observei essas palavras: "Mas esses tais projetos são mais bonitos a realizar do que a especular. Todavia minha impaciência de ver chegar um momento tão apaixonadamente desejado, me traz pelo menos essa avantagem, que como esse momento ainda demora, eu provo desde jà a sua suavidade atravéis o ùnico prazer de falar dele".

(4) Como foi preciso que o repouso tenha parecido para ele precioso, pois este não sendo uma realidade, ele queria sentir o prazer deste na sua imaginação ! Aquele que via tudo submetido unicamente a sua vontade, que tinha nas suas mãos os destinos dos homens e das nações, sonhava com alegria o dia onde ele poderia se despojar de toda sua grandeza.

- Sénèque, De la Briéveté de la Vie, III & 2-5 et IV, & 1-4, Trad. M. Charpentier, Garnier, 1860




Sêneca - Estoicismo


Sêneca, um dos autores mais influentes da Roma imperial, é um filòsofo de inspiração estòica. Fundado por Zénon de Citium e por Cléanthe, consolidado por Chrysippe, o estoicismo afirma que o mundo forma um todo ordenado pela razão. Ele possui uma alma, Deus, que reina no mundo lhe impondo uma fatalidade absoluta. Esse fatalismo todavia não impede a alma humana, reflexo da alma divina, de ser livre.


Necessidade e liberdade

O homem é livre da atitude que ele adota diante a vida. Ele pode viver em harmonia ou não com a razão. Se ele se abandona à procura do poder, da riqueza e dos prazeres, ele torna-se o escravo de seus pròprios desejos.
A verdadeira liberdade reside na capacidade do homem a se refugiar nele mesmo, por essa razão Sêneca concede uma atenção especial ao requerimento enviado ao Senado pelo imperador Augusto ( 63-14 apr.J-C.) que queria se retirar da vida pùblica. Para Sêneca, esse exemplo ilustra de maneira brilhante a verdadeira liberdade; o homem que possuia o mundo sò desejava finalmente uma coisa: poder se encontrar sò consigo mesmo.
Em uma Roma ardente abandonada a todos os excessos, Sêneca se atribue, nos seus ensaios como nas suas Lettres, a função de "diretor espiritual". Contrariamente aos fundadores do estoicismo, ele não escreve tratados sutilmente argumentados. Sêneca quer ao contràrio convencer seu pùblico que o bem e o mal existem e que nòs não podemos confundi-los. O bem soberano reside segundo ele na virtude, que ele define como o livre exercìcio da razão, conforme a ordem da natureza.


Conhece a ti mesmo

Sêneca està convencido disso: o homem virtuoso que regula sua razão na razão da natureza não teme a morte e toma sabiamente consciência da duração da vida. Ao invés de se ocupar com as tarefas comuns, ele se concede tempo para encontrar-se nele mesmo. Tal é o assunto do livro Da Brevidade da vida, verdadeira obra prima do pensamento moral estòico.
Sêneca ataca o problema do tempo do ponto de vista ético. As obrigações cotidianas nos obrigam a deixar para a aposentadoria, verdadeiramente além dela, o momento em que nòs poderemos enfim nos dedicar ao essencial, o conhecimento de si mesmo. Isto é um paradoxo, ressalta Sêneca, esperar o fim da vida para enfim começar a viver ! Essas reflexões parecem antecipar os pensamentos de Pascal sobre a tentação que tem o homem de se divertir para evitar de afrontar sua finitude.
Muitas pessoas acusaram Sêneca de ter vivido em total contradição com seus princìpios. Ele conseguiu construir uma fortuna colossal, foi preceptor do jovem imperador Néron, e acumulou a um ritmo desenfreado as aventuras amorosas. Caindo na desgraça, invejado por seus bens, ele acabarà cortando as veias por ordem de Néron.
Difìcil de acreditar, nesse filòsofo muito engajado na vida pùblica? Sua influência é em todo caso consideràvel. Sêneca se manifestou na maioria das correntes filosòficas. Sua obra representa uma fonte de informação inestimàvel sobre a filosofia das épocas helenìstica e romana. Sua influência na història do pensamento é tão imensa quanto conhecida. Sua vida e seu ensinamento são o assunto predileto da correspondência entre Descartes e Elisabeth, princesa Palatina.
Mais pròximo de nossa época, Foucault se interessou particularmente a Sêneca para mostrar como nòs nos interpretamos consigo mesmo no diàlogo com os outros e como a ascese constitue uma relação a si mesmo privilegiada.


- S.J.A. -

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Arte sacra em Toledo


“A Idade Média não foi tão ruim assim, nela se desenvolveram extraordinariamente as artes sacras”, dizia-me certa vez uma colega de magistério, deixando transparecer no olhar uma certa nostalgia daqueles dias cinzentos. Lembrei-me muito dela, em um destes ensolarados domingos de maio, quando fui revisitar Toledo. Realmente, as artes se desenvolveram extraordinariamente naqueles dias. Particularmente uma que, que por hedionda que pareça, não deixa de ser arte.

Foi instalado em Toledo, em 1896, um museu particularíssimo, diante do qual muitos visitantes preferem desviar o olhar e tratar de ver outras coisas. Afinal, Toledo tem uma soberba catedral, duas sinagogas, a casa de El Greco, O Enterro do Conde de Orgaz, sem falar nos cochinillos y lechales, pelo menos isto é o que alegam os guias turísticos, padres ou piedosas senhoras, quando perguntamos: “Mas onde é mesmo que o Museu de Instrumentos de Tortura da Inquisição?”

O problema, leitor, é saber se o cochinillo ou o lechal devem ser degustados antes ou depois da visita ao museu. Se visitamos antes, perdemos o apetite. Se o visitamos depois, para estômagos mais sensíveis, a vontade é de vomitar. Pois ali estão os instrumentos que permitiram à igreja manter-se no poder e erguer, ali ao lado, a majestosa catedral da antiga capital espanhola.

Por onde começar a visita a este circo de horrores? Comecemos logo pela entrada, onde reina, soberana, a Donzela de Ferro. Para quem já viu antigos filmes de terror, nada de novo. A donzela é uma espécie de sarcófago com duas portas, no interior das quais estão fixados pregos que penetram o corpo da vítima quando o aparelho é fechado. Foi muito utilizada a partir do século XVI e tem seus requintes: os pregos estão fixados em posições que não atinjam órgãos vitais, que isso de a vítima morrer mal se fecha o sarcófago, decididamente não tem graça. Diz a crônica da época, a respeito de um falsificador de moeda submetido ao amplexo da donzela: “as pontas afiadíssimas lhe penetravam os braços, as pernas, em vários lugares, e a barriga e o peito, e a bexiga e a raiz do membro, e os olhos e os ombros e as nádegas, mas não a ponto de matá-lo; e assim permaneceu fazendo grande gritaria e lamentações durante dois dias, depois dos quais morreu”. Nos filmes de terror de nossa adolescência, o herói sempre dava um jeito de escapar do abraço da donzela. O mesmo não acontecia na Idade Média.

Ainda na mesma sala, estão o machado e a espada de decapitar, instrumentos que animaram grandes festas públicas na Europa central e nórdica há uns 150 anos, e ainda hoje a televisão ou os jornais nos mostram algumas práticas da antiga arte nos países orientais. Se o verdugo era hábil, sorte da vítima. Caso contrário, teria de sofrer na carne as várias tentativas do aprendiz de carrasco.

Adelante! Ainda na entrada do museu, solene, sinistra, está a guilhotina, que durante a Revolução Francesa foi considerada um instrumento de humanização da pena de morte, tanto que mereceu o apodo de l’amie du peuple. Luis XVI e Maria Antonieta, no 21 de janeiro de 1793, mereceram sua homenagem, após o que a máquina passou a chamar-se de la Louisiette. Seu inventor, o médico francês Joseph-Ignace Guillotin, teria sido mais tarde submetido a seu próprio invento, o que não é historicamente verdadeiro, pois morreu pacificamente em 1821. O que é verdadeiro, isto sim, é que a guilhotina só foi abolida na França há dez anos, durante o governo Mitterrand.

Villiers de L’Isle-Adam, um dos desconhecidos precursores do modernismo em literatura, há cerca de duzentos anos preocupava-se com o novo instrumento de execução. Em um de seus Contos cruéis, um médico, imbuído do espírito de investigação do Iluminismo, tenta convencer, um condenado à morte a prestar uma última colaboração à pesquisa neurológica: no momento da execução, ele, o médico, estaria do outro lado da guilhotina, junto ao cesto que recolhe a cabeça do condenado. Não poderia este, em nome da ciência, é claro, responder com um ligeiro piscar de olhos, após a descida da lâmina, para confirmar a continuidade da consciência após a separação da cabeça do corpo? O condenado aceita a proposição, mas seu gesto é tão vago que não permite ao pesquisador conclusão alguma. Hoje se sabe que uma cabeça cortada por machado ou guilhotina continua consciente enquanto roda ou cai no cesto. O que deve ser uma percepção no mínimo desagradável.

Logo após vem a roda. Todos teremos visto, em pinturas ou xilogravuras medievais, ou mesmo em filmes alusivos à época, intermináveis seqüências de corpos agonizantes, atados a uma espécie de roda de aranha erguida sobre um alto poste. Muitas vezes em minha vida vi a reprodução de tais cenas e sempre imaginei que lá estariam os cadáveres dos condenados, para exemplo e edificação da plebe. Pois não é nada disso, feliz do condenado se assim fosse. A roda para despedaçar – que assim era chamada – constituiu o instrumento de execução mais comum depois da forca na Europa germânica, desde a baixa Idade Média até o século XVIII. E seu emprego é um pouco mais sofisticado do que eu imaginava.

A vítima, nua, era espichada, com a boca para cima, no chão ou no patíbulo, com os membros distendidos e atados a estacas ou argolas de ferro. Sob os punhos, cotovelos, joelhos e quadris eram colocados, atravessados, pedaços de madeira. O verdugo, assestando violentos golpes com a roda, ia quebrando osso após osso, articulação após articulação, incluindo os ombros e quadris, sempre procurando não assestar golpes fatais. Segundo uma crônica anônima do século XVII, a vítima transformava-se então em “uma espécie de grande títere gemente retorcendo-se, como um polvo gigante de quatro tentáculos, entre rios de sangue, carne crua, viscosa e amorfa misturada com lascas de ossos quebrados”.

Mas tudo seria muito simples se a tortura terminasse neste ponto. Após o despedaçamento, a vítima era desatada e introduzida entre os raios da grande roda horizontal, no extremo de um poste que era então erguido. Logo entravam os corvos em ação, arrancando tiras de carne e vazando os olhos até a chegada da morte, constituindo talvez o suplício da roda a mais longa e atroz agonia que o poder era capaz de infligir.

Junto à fogueira e o esquartejamento – diz o catálogo de horrores que apanhei no museu – este era um dos espetáculos mais populares entre os muitos outros semelhantes que tinham lugar diariamente nas praças européias. Multidões de nobres e plebeus deleitavam-se com um bom despedaçamento, de preferência quando a ele eram submetidas várias mulheres em fila.

Há também a gaiola, este bem mais simples. Pendura-se a vítima a uma gaiola de madeira ou de ferro, até que morra de frio, fome ou de pelos corvos. Uma versão mais simples e prática desta modalidade é simplesmente pendurar o condenado pelos pés em uma vara horizontal, na qual também são pendurados, um cada lado, dois lobos famintos.

Depois vem a serra, muito usada no século XVIII, criação espanhola. A não ser pelos dentes mais espaçados, em nada difere de uma prosaica serra de madeira. Pela xilogravura que explica a utilização do instrumento, pareceu-me que naquele século faltou imaginação ao verdugo: pendurava-se a vítima pelos pés em uma vara, e dois homens passavam a serrá-la, a partir do cóccix. Tortura idiota, pensei, o homem deve morrer já no início do suplício. Santa ingenuidade minha! Devido à posição invertida do corpo, que garante suficiente oxigenação ao cérebro e impede a perda geral de sangue, a vítima só perdia a consciência quando a serra alcançava o umbigo e, às vezes, o peito.

Embora se associe este suplício à Espanha, sua origem vem de época em que nem se pensava em Espanha. Os leitores atentos da Bíblia devem lembrar que o sábio rei Davi (II Samuel 12:31) exterminou os habitantes de Rabbah e de todas as outras cidades amonitas submetendo homens, mulheres e crianças ao suplício da serra e sofisticações outras da época. Era aplicada preferentemente a homossexuais de ambos sexos. Na Espanha foi utilizada como método de execução militar, a Alemanha luterana era destinada aos líderes camponeses rebeldes e, na França, fazia justiça às mulheres emprenhadas por Satanás.

Mais adiante encontramos a “cunha de Judas”, uma pirâmide pontiaguda de madeira sustentada por um tripé. Sua finalidade não exige maiores esforços de imaginação. A vítima, nua, é içada por cordas, de forma que todo seu peso repouse sobre o ponto situado no ânus ou na vagina. O carrasco, conforme determinação dos interrogadores, pode variar a pressão do peso do corpo e inclusive sacudi-lo repetidamente sobre a cunha.

Em meio a estes instrumentos mais brutais, o museu exibe outros aparentemente anódinos, mas que não deixam de ter sua eficácia. Por exemplo, os látegos com correntes. Na ponta, uma bola de ferro com pontas agudas. Sua utilização não requer maior prática ou habilidade. Mas há um outro látego, de aparência bem mais inocente, porém de atroz eficácia, é o látego para esfolar. É um chicote de couro, com dezenas de cordas, aparentemente inofensivas. Na extremidade de cada cordel há uma ponta de ferro afiadíssima. Os cordéis eram empapados em uma solução de sal e enxofre dissolvidos em água, de forma que a vítima, ao ser fustigada, tinha sua carne reduzida a uma polpa e ao final do suplício ficava com pulmões, rins, fígado e intestinos expostos. Durante este procedimento, a zona afetada ia sendo umedecida com a solução quase em estado de ebulição.

Ou algo ainda mais prosaico, que imaginação para fazer seu próximo sofrer é o que não falta ao ser humano: um funil e alguns baldes de água. A vítima é inclinada com os pés para baixo e obrigada a engolir quantidades imensas de água através do funil, enquanto o nariz é tapado, o que a força a tragar todo o conteúdo do funil antes de poder respirar um hausto de ar. Sem falar no terror da asfixia, a todo instante repetido, quando o estômago se distende e incha de maneira grotesca, inclina-se o supliciado de cabeça para baixo. A pressão contra o diafragma e o coração ocasiona sofrimentos inimagináveis, que o verdugo intensifica golpeando o abdômen. Esta prática é bastante utilizada ainda nos dias atuais, por ser fácil de administrar e não deixar marcas delatoras.

Que mais? Pois afinal mal entramos no museu. Continuando, há as aranhas espanholas, também chamadas de aranhas de bruxas. O instrumento é de uma estrutura elementar: garras metálicas com quatro pontas em forma de tenazes, usadas tanto frias como em brasa, para içar a vítima pelas nádegas, pelos seios ou pelo ventre, ou ainda pela cabeça, em geral com duas pontas nos olhos e as outras duas nos ouvidos. Efetivamente, na Idade Média as artes tiveram um desenvolvimento extraordinário!

Mas este passeio – que me desculpe o leitor – está ainda longe de seu fim, e isso que estou resumindo. Há por exemplo a cegonha, também chamada de “a filha do lixeiro”. É constituída por quatro hastes metálicas que prendem, ao mesmo tempo, o pescoço, as mãos e as pernas do supliciado. À primeira vista, é apenas um método a mais de imobilização, mas em poucos minutos a vítima é acometida de fortes cãibras que afetam primeiro os músculos abdominais e retais e, depois, os peitorais, cervicais e as extremidades. Com o passar das horas, a cegonha produz uma agonia contínua e atroz, que pode ser intensificada, ao prazer do verdugo, com chutes, golpes e mutilações.

As maneias de ferro, para pulsos e tornozelos, as deixo de lado. Paremos alguns segundos ante um instrumentozinho de concepção elementar, mas efeitos abomináveis. É o esmaga-cabeças, patente italiana, contribuição veneziana às artes do medievo, consta que muito em uso nos dias atuais. É uma espécie de torno munido de um capacete, que comprime a cabeça do condenado contra uma barra metálica. Comentários supérfluos: primeiro são destroçados os alvéolos dentários, depois as mandíbulas, até que o cérebro escorra pelas cavidades dos olhos e por entre os fragmentos do crânio.

Com a mesma finalidade, há outras versões mais simples do mesmo instrumento, tipo um arco metálico que se cerrando em torno à cabeça, com pregos internos que vão perfurando a calota craniana.

Mas ilimitado é o engenho humano, quando se trata de supliciar outrem. O museu, em verdade, não é nem um Louvre ou Prado, mas cada objeto nos rouba mais minutos do que a contemplação de um Velázquez ou Goya. Há técnicas que parecem ter sido concebidas por um deficiente mental, de elementares que são. A tartaruga, por exemplo: põe-se a vítima estendida no solo e, sobre ela, uma superfície quadrada de madeira, sobre a qual vai-se empilhando vários quintais de peso. Para aumentar o sofrimento, pode-se acrescentar, sob o dorso do supliciado, um calço transversal de forma triangular chamado de báscula.

Ou a forquilha do herege, este um verdadeiro achado, prático, baratinho e eficacíssimo. Imagine o leitor uma espécie de garfo, com duas pontas em cada extremidade. Duas destas pontas são cravadas profundamente sob o queixo, enquanto que as pontas da outra extremidade são apoiadas sobre o externo. Uma pulseira de couro fixa a forquilha contra o pescoço. A forquilha, ao ir penetrando nas carnes, impedia qualquer movimento de cabeça, mas permitia que o acusado de heresia, com voz apagada, pudesse dizer abiuro, palavra que estava gravada em um dos lados do instrumento.

Ou a mordaça, também chamada de babeiro de ferro, uma espécie de colar de ferro, com um tipo de funil achatado na parte interna do aro, que era enfiado na boca do torturado, enquanto o colar era preso na nuca. Tinha por função evitar que os berros da vítima atrapalhassem a conversa dos torturadores. Um pequeno buraco permitia a passagem de ar, o que também permitia que o carrasco sufocasse sua presa, com o simples gesto de obstruir o buraco com um dedo. Giordano Bruno, uma das inteligências mais brilhantes de sua época – e nisto constituía seu crime – foi queimado pela Inquisição em 1600 e submetido a uma destas mordaças provistas de duas longas puas, uma das quais perfurava a língua e saía pela parte inferior do queixo enquanto a outra perfurava o palato.

Em outra sala do museu, tão solene quanto a donzela de ferro, está a cadeira de interrogatórios, uma espécie de poltrona metálica, toda forrada de pregos agudíssimos, desde o espaldar até o assento e inclusive na parte inferior, que fica junto à barriga da perna e sob os pés. O suplício podia ser aumentado mediante pancadas nos membros ou com um fogareiro aceso sob o assento. Versões modernas deste instrumento são muito apreciadas pelas polícias de todos os países e no Brasil – todos devem ainda estar lembrados – tivemos recentemente a cadeira do dragão.

A fogueira, todos conhecemos, que mais não seja das festas juninas. Só que na saudosa Idade Média não era utilizada exatamente para assar pinhões, inclusive a Igreja deu-se ao luxo de fazer churrasco de uma santa. Aliás, quem quiser maiores detalhes sobre o assunto, pode ler romance recentemente publicado no Brasil, de Michel Tournier, Gilles & Jeanne. A edição é da Bertrand Brasil, São Paulo, e a tradução é deste que vos narra estes horrores. Mas a fogueira em si pouca ou nenhuma arte exige naquela época em que, como sabemos, as artes se desenvolveram extraordinariamente. Verdugos mais criativos bolaram uma versão bastante engenhosa: a vítima era atada a uma escada, que por sua vez era inclinada sobre as chamas, no melhor estilo de um autêntico churrasco gaúcho. Em algumas execuções, atava-se um saco cheio de pólvora junto ao peito.

Havia também o touro, método este já bem mais sofisticado. Era simplesmente um touro de metal, dentro do qual se metia o condenado. Depois, acendia-se uma fogueira embaixo. O touro logo começava a mugir, para deleite do público. Consta que em versões orientais deste instrumento, um complexo sistema de tubos transformava em uma espécie de música os berros do coitado.

Já o potro é de origem italiana, e todos já o teremos visto até mesmo em revistas em quadrinhos, pois se tornou um dos instrumentos mais simbólicos dos porões da Inquisição. É uma mesa onde o condenado é atado de pés e mãos e um cabrestante passa a espichar os seus membros. Antigos testemunhos narram casos em que se obteve até trinta centímetros a mais em um ser humano, pelo deslocamento das articulações de braços e pernas, pelo descolamento da coluna vertebral e rompimento dos músculos de extremidades, tórax e abdômen, isso evidentemente antes que o homem morresse.

As mulheres, por sua vez, mereciam atenções e instrumentos específicos, todos mutilando as partes sexuais. Tenazes incandescentes para esmagar mamilos, garras para rasgar seios ou nádegas, etc. Um achado digno de menção é a pêra, um objeto de madeira em forma da dita fruta, que é introduzido na vagina das pecadoras ou no ânus dos homossexuais. Depois, por meio de um parafuso, a pêra abria-se em quatro partes, até sua distensão máxima.

Sei que este desfile de horrores já vai longe, não os compilei todos e creio que nem os próprios organizadores do museu de Toledo conseguirão um dia catalogar todos os métodos que o homem criou para fazer seu próximo sofrer. Mas antes de concluir, permito-me arrolar esta maravilha para comprovar-se se uma mulher era ou não bruxa: atava-se a acusada pelas mãos e pés e se a jogava em um rio. A comprovação era imediata e de clareza meridiana. Sendo a água um elemento puro e inocente, no caso da acusada ser bruxa, a água a recusaria e a faria flutuar, com o que a mulher seria conduzida à fogueira e queimada. Se, ao contrário, a água a aceitava e a mulher se afogava, sua inocência estava comprovada. Tudo isto em nome de Deus, é claro. E duvido que qualquer inquisidor perdesse o sono em função de suas piedosas tentativas de salvar uma alma pecadora.

Não falta quem afirme que tudo isto são águas passadas – o que, aliás, não é verdade! – e que tal tipo de museu só serve para excitar sádicos e masoquistas. Que tais práticas devem ficar esquecidas no fundo dos tempos. Pois pessoalmente não penso assim. A luta do homem pela preservação da memória, escrevia Milan Kundera, é a eterna luta do homem contra o poder e a tirania.

A inquisição é coisa da Idade Média, objetam alguns. Tampouco é verdade. No século passado, sob Fernando VII, foi restabelecida a inquisição na Espanha. Que mais não seja, Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot são nossos contemporâneos. Aliás, se quero evocar atrocidades contemporâneas, não preciso afastar-me do continente latino-americano, muito menos de meu país.

Agora, que na Idade Média desenvolveram-se extraordinariamente as artes sacras, disso não tenho dúvida alguma.


A indústria têxtil – Janer Cristaldo

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz Ano Novo ! Bonne Année ! Bonne Santé !

"Sanctus Januarius"

Para o ano novo - Eu vivo ainda, eu penso ainda: é preciso ainda que eu viva, pois é preciso ainda que eu pense. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum. È o dia em que cada um se permite de exprimir seu desejo e seu pensamento mais caro: e, eu também, eu vou dizer o que hoje eu desejo de mim mesmo e qual é o pensamento que, esse ano, eu desejei profundamente em primeiro - qual é o pensamento que deverà ser doravante para mim a razão, a garantia e a suavidade de viver ! Eu quero aprender sempre cada vez mais a considerar como bonito o que existe de necessàrio nas coisas: - assim eu farei parte daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: que este seja doravante meu amor. Eu não quero entrar em guerra contra a fealdade. Eu não quero acusar, eu nem quero acusar os acusadores. Desviar meu olhar, que isto seja a minha ùnica negação ! E, finalmente, para ver grande: eu quero ser um dia apenas afirmativo !"

- Nietzsche - Le Gai Savoir - Livre Quatrième - 276 -


Feliz 2008
http://www.youtube.com/watch?v=aYtZxuGVpn4&eurl=http://www.orkut.com/FavoriteVideos.aspx?uid=14999486358341356065


Bonne Année ! Cultivem as flores do bem, da paz e do amor !
http://www.youtube.com/watch?v=DwtGLQ79j-A&feature=related




Feliz Ano Novo Brasil !

Que a paz.... e a verdade ainda sejam uma realidade e uma luta constanteQue a luz nem que seja pequenina ainda ilumine nossos passos e nossa vidaQue o Brasil desperte enfim..... e se conscientize de seu potencial.... de sua grandeza....Que os Brasileiros que lutam..... continuem a lutarQue a coragem e a força sejam nossos companheiros inseparáveisO Amor nosso guiaA esperança...... Eterna....
Feliz Ano Novo !
Cultivem as flores do bem, da coragem, da paz e do amor !

domingo, 30 de dezembro de 2007

Liberalismo e pluralismo

"O pluralismo, um dos valores democràticos par excellence"



O sufràgio universal, as instituições representativas encarnam a liberdade polìtica ? Analiticamente, trata-se de uma liberdade, entre outras, liberdade de exercer com seu voto uma influência na escolha dos governantes, liberdade de participação na substituição regular dos governantes uns pelos outros. Alguns, por razões filosòficas ou afetivas, confundem essa forma de liberdade com a liberdade; outros confundem a independência nacional com a liberdade. Segundo outros ainda, a liberdade polìtica tem um valor eminente não nessa qualidade mas por sua eficacidade. Ela ocuparia uma tal posição estratégica que ela comandaria o destino de todas as liberdades. Eu me reservarei de subscrever a uma ou outra dessas diferentes ilustrações da liberdade politica.
Eu me limitarei ao método utilizado até agora; as liberdades polìticas, como as liberdades pessoais, limitam o poder dos governantes e garantem alguns direitos dos governados. Nesse ponto, bem longe de permanecer formais, elas demonstram uma eficacidade, nem que seja pelas consequências de suas supressões.


- " Liberté, Libérale ou Libertaire ?", In Keba M'Baye (Dir), La Liberté et L'Ordre Social, Genéve, La Baconnière, 1969, Reproduit dans Ètudes Politiques, Gallimard, 1972 - Raymond Aron.




Nos regimes de tipo ocidental, as diferentes categorias dirigentes não se unem em um ùnico partido: segundo alguns paìses, as relações entre os gerentes de meios de produção e os condutores das massas são mais ou menos conflituosas. Da mesma maneira, segundo alguns paìses, as relações entre os gerentes dos meios de produção e a classe polìtica são mais ou menos intimas. [....] A competição legalmente organizada para o exercìcio do poder constitue efetivamente a realidade da democracia moderna.
Esta não exige apenas que partidos mùltiplos existam, é preciso também que o partido vencedor tolere com antecedência sua derrota eventual na pròxima consultação popular. È preciso ainda que o partido, mestre provisòrio do poder, exerça esse poder conforme a lei constitucional e as leis ordinàrias. Foi por essa razão que eu chamei por um termo talvez bàrbaro os regimes de tipo ocidental " constitucionais-pluralistas", em oposição aos regimes de um partido ùnico, dos quais o regime soviético representa a forma perfeita, o partido ùnico apoderando-se da autoridade suprema, secular e espiritual ou ideològica. [....] O pluralismo partidàrio simboliza um dos valores democràticos par excellence, o diàlogo. [.....]
A pluralidade dos partidos legais torna legìtima a diversidade das linguagens e o diàlogo permanente dos cidadãos entre eles e com os detentores do poder. [....] O princìpio do regime constitucional-pluralista se define por dois sentimentos, ou princìpios no sentido que dava a eles Montesquieu : O respeito da lei e o senso do compromisso. Os regimes que nòs chamamos democràticos inclinam então ao compromisso, nem que seja sob a obrigação de encontrar uma maioria - majorité -


- Raymond Aron - Mémoires, Julliard, 1983



Os regimes constitucionais - pluralistas comportam, em termos sociològicos, dois aspectos essenciais: a existência legìtima de grupos mùltiplos de quais a rivalidade comanda a designação dos governantes, o respeito das regras legais, constitucionais no apogeu, de acordo com as quais são designados os detentores das funções, executivas ou legislativas, e essas funções elas mesmas exercidas.

- Essai sur les libertés, Calmann-Lévy, 1965 - Raymond Aron -




Os filòsofos gregos, mais sàbios, percebiam em qualquer regime os germes da corrupção. Um regime constitucional-pluralista funda-se, também, em um compromisso instàvel pois ele exige o respeito de regras que o governo e a oposição, muitas vezes, têm interesse a violar. O que não impede que esses regimes durem: mas, enquanto a Història, quer dizer enquanto as transformações sociais e os conflitos de interesse se prosseguirão, eles não serão jamais, em nenhum lugar, definitivamente estabilizados. Eles dependerão em ùltima anàlise, do respeito que inspiram as regras e a vontade que animarà os eleitores e os eleitos de assegurar a salvaguarda.

- Idem -




Liberalismo e pluralismo


A supremacia da liberdade, resultado da confrontação do homem ante a història no seu percurso, constitue o fil diretor da obra de Raymond Aron. Para ele, a liberdade polìtica determina o tipo de regime, como ele explica no extrato acima, publicado no livro l'Essai sur les libertés (1965). Por essa razão ele procede comparando os diferentes regimes polìticos que conheceu as sociedades industriais.


A liberdade através da història


No livro Democracia e totalitarismo (1965), que retoma um curso ensinado na Sorbonne, Raymond Aron afirma a supremacia do polìtico e o princìpio que, segundo ele, constitue a base de todas as filosofias polìticas: "não existe vida social sem uma autoridade organizada, o estilo da autoridade é caracterìstico da humanidade das relações sociais". Na fileira da filosofia crìtica da història, ele se opõe ao determinismo, e particularmente à causalidade econômica: " a indùstria" não determina um tipo particular de regime polìtico. È a organização dos poderes pùblicos que diferencia as sociedades industriais modernas. Mas essa diferenciação, ele precisa, não constitue por essa razão uma determinação unilateral.

As elites na luta


No segundo texto, extrato de suas Mémoires ( 1985), Aron insiste na supremacia do polìtico e no caràter decisivo da liberdade polìtica em matéria de regime e de instituições. Sintetizando as tabelas de anàlise de Karl Marx relativas às classes sociais e também as da sociologia das elites de Vilfredo Pareto e de Gaetano Mosca, ele constata a competição que reina entre as diferentes categorias dominantes na luta para o exercìcio do poder. È a polìtica, em ocorrência o modo de competição polìtica, que ele considera como critério de discriminação. Aron ressalta que a organização constitucional da concurrência pacìfica tem uma influência no exercìcio legal do poder. Para ele, " as sociedades liberais são aquelas que dão uma forma legal a essa luta e, na medida do possìvel, a colocam no debate: diàlogo contra violência". A partir disso, a liberdade polìtica se caracteriza pelo reino do direito e do pluralismo.
Nas sociedades industriais, o liberalismo polìtico se encarna para Aron nos regimes que ele chama "constitucionais-pluralistas", como ele explica no seu livro Essai sur les libertés. Ele fixa as caracteristicas (extrato acima) e ressalta a fragilidade delas, suspensas como elas são ao "fil de seda da legalidade". "Espectador engajado", Aron tomou partido contra as tentações totalitàrias, em particular no seu livro L'Homme contre les tyrans ( 1944) ou L'Opium des intellectuels (1955). Mas sua oposição ao regime do partido ùnico, seu realismo polìtico não o conduzem a justificar a ordem estabelecida: inspirado pela sociologia de Max Weber, de quem ele contribuiu a fazer a descoberta da obra na França, seu liberalismo é crìtico e desencantado. È um liberalismo lùcido e voluntàrio, que ele exprime em particular nos editoriais que ele escreveu para o jornal Le Figaro de 1947 até 1977.


Diàlogo democràtico


Esse liberalismo realista leva em conta os conflitos de valores ( por exemplo sobre o conteùdo da "ordem justa", como ressaltava Weber) e o caràter complexo das reivindicações das sociedades democràticas contemporâneas." Os regimes democràticos não se definem por uma definição da liberdade mas atravéis um diàlogo permanente no qual os interlocutores consideram de uma outra maneira as definições da liberdade ou das liberdades.

- C.B -

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Visão de uma estrela !

Um profeta encontrou um anjo que vadiava entre as àrvores nuas de uma floresta perdida nas mãos de obscuros construtores
O profeta parecia louco
O anjo parecia endiabrado
O profeta sò via pesadelos e catàstrofes, o mundo para ele era a còpia fiel do inferno
Ele dizia :
" Os homens querem que as coisas mudem, reclamam, rezam, fazem promessas de vento.....e no vento tudo se perde....sò escolhem bandidos para defender os interesses deles, dando a eles o fruto de um duro labor
Bandidos traiçoeiros, vivem das mentiras, da ganância e do crime
Apàtridas ! Traidores !
Roubam o povo e a nação que eles representam sem escrùpulo e sem vergonha
E o que esse povo faz ?
Nada ! Nada ! Nada !
Até acham normal serem roubados, fazem piada, sò falta adorarem os corruptos....e pagam, pagam
Pagam com suor, com dor, muito sofrimento e eterno rancor
Pagam sem revolta e com violência
Pagam com o sangue dos inocentes
Povo débil ! Idiota ! Decadente !
Os bandidos roubam
Roubam ! Roubam !
E são felizes, riem do povo, se enriquecem
E a pàtria que se dane !
E o povo que se dane !"
O anjo balança a cabeça e começa a gritar:
Povo débil ! Idiota ! Decadente !
Eles rezam
Agradecem a felicidade deles, o pão de cada dia
Cada dia mais raro e mais caro
Agradecem contemplando as crianças nuas, esqueléticas, estendidas no lixo, rodeadas de pàssaros famintos e homens sem alma
Eles agradecem
Eles as contemplam
Povo débil ! Blasfemador ! Traidor !
Assim iam eles
O profeta e o anjo
Na floresta deserta
Gritando e chorando :
Povo débil ! Blasfemador ! Decadente !


Visão de uma estrela lunàtica de passagem na republica secular das laranjas altaneiras do vazio sideral

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Boas Festas e Feliz Ano Novo!!!!

Em nome de todos os colaboradores do blog "expressaototal.blogspot.com", venho deixar meus sinceros votos de boas festas e um feliz ano novo, repleto de paz, amor, luz e muita energia pura positiva!
Que nossa luta por um mundo melhor seja maior no ano vindouro. Boas festas à todos e feliz ano novo!

Isso é uma Vergonha! ! !

Antes de tudo quero deixar bem claro que Acredito em Deus, que tenho um lado espiritual independente de qualquer religião e que sou Apolìtica.
Também respeito profundamente as pessoas verdadeiramente religiosas, seja qual for a religião delas, da mesma maneira que respeito os ateus e os agnòsticos.
Existem vìdeos atualmente mostrando imagens Terrìveis das crianças africanas morrendo de fome, com uma mensagem a cunho religioso.
O ùltimo que eu vi é de origem americana, e é a esse em particular que eu me refiro. O autor do vìdeo pede para agradecermos a Deus por nosso alimento e nossa àgua e para sermos mais sensìveis ao sofrimento alheio.
Porquê isso me Choca ?
Simplesmente porque é o governo deles que é Responsàvel desse Crime Medonho contra a Humanidade e o Criador !
Miseràvel ! Ladrão ! Patife !
Assassino ! ! !
Inimigo do Criador, da Natureza e da Dignidade e Liberdade Humana !
Em vez de fazer esses vìdeos mostrando sem vergonha o crime do govervo deles, e de pedir "orações,"eles deveriam exigir que esse governo pàre a sua polìtica Assassina para manter o Poder e o Conforto Material deles ! ! !
Me perdoem !
Mas não posso conter a minha revolta e a minha Profunda Indignação !
Considero isso como uma Impostura Religiosa e um Insulto ao Criador e a Dignidade dessas Crianças !
Que o Criador proteja e abençoe essas crianças, de quem me sinto profundamente e sinceramente Solidària
!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Sò pra meu amor.....e nada mais !

Ah! O amor de um homem....
È muito difìcil falar de amor
São tantas as diferentes formas de amor e de amar
O amor de pai e mãe
Sacrifìcio sublime e tantas vezes incompreensìvel
O amor pela natureza
Respeito e humildade
As vezes temor diante tanta grandeza, beleza e esplendor !
O amor fraternal
Amizade e solidariedade
Humanismo criador de tantas belas idéias, de tantas lutas pelos direitos do homem, pela justiça, pela liberdade .
Ah ! o amor da liberdade
Palavra maldita e ao mesmo tempo sagrada
Luta incessante
Utopia ou realidade?
O amor de Deus
Esse é certamente o mais complicado de todos, porque ele exige de nòs mesmos grandes sacrifìcios, grandes provações, desespero e humilhações....
A fé move montanhas !
A dificuldade é justamente essa
Acreditar !
Os caminhos que levam a Deus são demasiadamente complexos, são caminhos de dùvidas e incertezas a combater sem cessar
São caminhos de dor intensa a superar
Caminhos de solidão e trevas.....
Eis para mim, onde se encontra a verdadeira fé
Questão de ponto de vista e de qualquer maneira uma experiência muito pessoal, detesto fazer proselitismo, detesto mais ainda os falsos profetas, as crenças e doutrinas assassinas e manipuladoras.
Eu escolhi a dùvida e a solidão para tentar encontrar Deus
A dificuldade e a dor para tentar falar com ele
Liberdade !
Cansei de ver cristãos, muçulmanos e outros sei là o quê, matando e roubando, destruindo tudo, a natureza, os valores, com uma arma em uma mão e na outra um "livro sagrado"
Miseràveis ! Patifes ! Traidores !
Benditos aqueles que não possuem essa "fé" maldita, mas são humanos, justos e solidàrios
A fé deles é o amor !
Ah ! O amor.....
São tantas as formas de amar....mas
O amor de um homem
Me faz verdadeiramente sonhar
Faz minha alma e todo o meu ser vibrar
Sò de pensar tudo pàra, tudo se transforma
São tantas as emoções a invadir meu coração, doce e violenta invasão
Sinto-me dona do universo e ao mesmo tempo imensamente miseràvel....
Aporia efêmera e abismal do amor
Ah ! o amor de um homem
Estou descobrindo sò agora, 47 anos e poeiras....
Estou descobrindo a vida
Que milagre !
Estou amando de verdade
Serà ? ! ? !
Ai meu Deus !
Que revolução é essa na minha alma
No meu coração ?
Ah !
O amor de um homem.....

sábado, 1 de dezembro de 2007

COMO VOCE TRATA AS PESSOAS MAIS "HUMIILDES PROFISSIONALMENTE"

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível" (PUBLICAÇÃO DIÁRIO DE SÃO PAULO)
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "invisibilidade pública". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome". Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador. O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz. Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
Diário - Como é que você teve essa idéia?
Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.
Diario - Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?
Diario - Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.
Diario - Dê um exemplo?
Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão".
Diario - Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.
Diario - Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.
Diario - Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
Diario - O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
Diario - E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa. José TrevisanPsicólogo clínico