sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Os limites do bom senso.

"Só o conceito pode produzir a universalidade do saber"


Pensar? Pensar de maneira abstrata? Rette sich, Wer Kann! Salve-se quem puder! Eu penso já gritar dessa maneira algum traidor, comprado pelo inimigo, que vai infamando contra esse ensaio porque ele trata de metafísica. Pois metafísica - da mesma maneira que abstrato, e mesmo pensar - é uma palavra diante da qual cada pessoa, mais ou menos, foge como se ela estivesse diante um pestífero. [....]
De toda maneira, explicar o que é pensar e o que é o abstrato parece aqui perfeitamente supérfluo; pois é precisamente porque a boa sociedade sabe muito bem o que é a abstração que ela foge quando a encontra. [....]
Tudo o que me é preciso, é citar, com o apoio da minha proposição, exemplos que cada um aceitará que eles a contêm. Eis um exemplo: Um assassino é levado ao lugar da execução. Para a pessoa comum, ele não é nada mais do que um assassino. Algumas damas dizem talvez por acaso a observação que o assassino tem um corpo bem feito, que ele é bonito, que ele é interessante. Essa mesma pessoa comum acha a observação atroz. Como? Bonito, um assassino? Como é possível ter o espírito tão deformado ao ponto de achar bonito um assassino? È para acreditar que vocês não são melhores do que ele! Eis a corrupção moral que reina nas pessoas distintas, acrescentará talvez o padre que conhece o fundo das coisas e dos corações. [....]
Eis o que se chama ter o pensamento abstrato: ver apenas no assassino essa qualidade abstrata que ele é um assassino e destruir nele, com a ajuda dessa simples qualidade, todo o resto de sua humanidade.

- Quem pensa abstrato? - Hegel - (1807), Trad. E. De Dampierre, Le Meine de France, 1963.


A fenomenologia do espírito

Para todas as ciências, as artes, os talentos, as técnicas, é evidente a convicção que nós não podemos possui-las sem trabalho e sem fazer o esforço de aprende-las e de praticá-las. Se alguma pessoa tendo os olhos e os dedos, a quem nós fornecemos o couro e um instrumento, não é dessa maneira capaz de fabricar sapatos, nos dias de hoje domina o preconceito segundo o qual cada um sabe imediatamente filosofar e apreciar a filosofia porque ele possui a unidade necessária na sua razão natural - como se cada um não possuísse também dessa maneira no seu pé a medida do seu sapato. [....]
Quanto a filosofia no sentido próprio do termo, nós vemos apenas a revelação imediata do divino e o bom senso, que não se preocuparam de se cultivar com a filosofia ou uma outra forma de saber, se considerando imediatamente como equivalentes perfeitos, excelentes suplentes desse longo caminho de cultura, desse movimento tão rico quanto profundo através do qual o espírito alcança o saber; mais ou menos como nós dizemos que a chicória é um bom substituto do café. [....]
Se nós reclamamos "uma via real" em direção da ciência [a filosofia], nenhuma pode ser mais confortável do que aquela que consiste a se abandonar ao bom senso e, para caminhar pelo menos com seu tempo e a filosofia, ler os relatórios críticos das obras filosóficas, e mesmo os prefácios e os primeiros parágrafos das obras elas mesmas, pois os primeiros parágrafos dão os princípios gerais sobre qual tudo se repousa; e quanto aos relatórios críticos, eles dão ainda uma apreciação que, justamente porque ela é uma apreciação, está acima da matéria apreciada. Nós seguimos esse caminho vestidos modestamente; mas o sentimento do eterno, do sagrado, do infinito, percorre ao contrário com roupas sacerdotais um caminho que é ele mesmo o ser imediato no centro, a genialidade das idéias profundas e originais, e raios luminosos sublimes de pensamento. [.....] [Contudo] os verdadeiros pensamentos e a penetração científica só podem ser adquiridos pelo trabalho do conceito. Só o conceito pode produzir o universalidade do saber. Ela não é a indeterminação ordinária e a indigência mesquinha do senso comum, mas um conhecimento culto e realizado completamente.

- A fenomenologia do Espírito (807) - Hegel, Prefácio, Trad. J. Hyppolite, Aubier - Montaigne, 1941


Os limites do bom senso

Nós reclamamos muitas vezes da filosofia que ela deixa suas alturas para falar uma linguagem ordinária. Nós queremos filósofos pedagogos. Como era Platão nos seus diálogos botando em cena Sócrates, por exemplo. Ou os filósofos do Iluminismo, como Voltaire. Estes eram animados pela vontade de tornar o saber acessível a todos. Para Georg Wilhelm Friedrich Hegel, essa ambição é vã. Pois para ele, o pensamento ordinário e a filosofia não falam a mesma língua. Ou melhor: a filosofia consiste precisamente em um trabalho radical sobre a língua. Hegel gosta das palavras. Ele inventa várias, a "historicidade" (Geschichtlichkeit) por exemplo. Ele diferencia, lá onde o senso comum não vê absolutamente nada, a realidade e o ser, o objeto e a coisa. Uma "idéia" não é para ele um simples "conceito".


Uma nova língua

Como explicar essas diferenças? Eis o problema: é preciso outros conceitos, como o conceito de "determinidade" (Bestimmtheit) - Um outro neologismo! - que complicam mais ainda a língua filosófica. Após Hegel, o vocabulário especifico tornou-se um instrumento necessário. E a filosofia, um assunto de especialistas.
Não se trata apenas de um problema de linguagem. Pois se o pensamento ordinário não tem as palavras do filósofo, ele também não tem seu pensamento. Ele é, como ilustrou Platão no mito da caverna, naturalmente prisioneiro do mundo das sombras. Seus modelos de pensamento o condenam a circular sempre através dos mesmos lugares comuns. Ao menos que a filosofia lhe dê uma escada. O livro A Fenomenologia do Espírito (1807), obra que teve um impacto imenso, tem justamente como objetivo de levar a consciência ordinária até a filosofia.


Uma verdadeira capacidade (savoir-faire)

O caminho é árduo, e muitas pessoas consideram esse livro como um dos textos mais difíceis da história da filosofia. Para seu autor, como indicam os dois textos acima, nenhuma "via real" conduz á filosofia. Dizendo de outra maneira, é preciso se investir completamente e colocar seu saber a prova. Porquê a filosofia seria acessível a todos, ele se interroga, quando na medida em que nós temos um sapato furado, nós o entregamos naturalmente ao sapateiro, artesão reconhecido por sua competência? Existe evidentemente um "savoir-faire" filosófico e é preciso prova-lo. Por essa razão ele se aplica, quando ele mostra, por exemplo, que a oposição entre o sujeito e o objeto é uma ilusão. Nós compreendemos porque a filosofia aparece como "um mundo pelo avesso".


Além dos lugares comuns

Muito abstrata, a filosofia? Ao contrário, é o pensamento ordinário que constantemente abstrai os pensamentos de sua profundeza essencial. Eis o que mostra o texto satírico "Quem pensa abstrato?" Um assassino passa diante uma multidão, que faz seus comentários: "como ele é bem feito!", "ele é um homem bonito!", etc. Idéias abstratas, que esquecem o essencial: é realmente um homem que nós enviamos para a morte. O assunto reconsidera o conjunto de nosso sistema de pensamento. A filosofia se ocupa precisamente disso: do homem, da vida, da morte, e não da aparência do assassino.Com Hegel, a filosofia tornou-se humana. Certo, os ensaios de filosofia popular vendem-se muito bem, mas eles obtêm raramente o respeito dos filósofos. Porquê? Porque eles vulgarizam muito constantemente nas diferenciações conceituais que, desde duzentos anos pelo menos, fazem o essencial do "savoir-faire" filosófico.

- François Gauvin -

domingo, 12 de agosto de 2007

Quem Foi o Verdadeiro Dr. Nikola Tesla?


"Nós pensamos em sua contribuição muito mais freqüentemente que as de Ampère e Ohm. . . o motor de indução e nosso sistema de força são monumentos duradouros a Nikola Tesla." Dr. E.F.W. Alexanderson.

Ao contrário de tantos pioneiros estreitamente especializados na história elétrica, a questão sobre quem Nikola Tesla realmente foi tem muitas respostas, dependendo da perspectiva do questionador. Apesar do fato de muitas de suas publicações técnicas ainda serem acessíveis, de várias biografias estarem disponíveis, e dele ter tido um impacto bastante amplo (não só na profissão de engenharia elétrica, mas também na sociedade como um todo) hoje poucas pessoas têm uma noção realmente equilibrada de quem ele era e o que ele fez. Isto é particularmente verdade de suas contribuições seminais para a tecnologia do rádio. Um número notável de artigos foram compostos para o público geral sobre Tesla - provavelmente tantos quanto sobre qualquer outro cientista na história. (Existem especiais de TV, peças, recitais, poesias e até mesmo canções populares sobre o homem.) Uma bibliografia anotada de Tesla foi publicada vinte e dois anos atrás que continha mais de 3.000 referências (e o número cresceu dramaticamente desde então).2 Várias revistas, jornais, sociedades e até mesmo "web-rings" foram criados como mídia exclusivamente dedicada para a discussão de suas atividades. Enquanto volumes poderiam (e foram) escritos sobre o cavalheiro, os autores presentes verão o trabalho dele de nossas perspectivas como cientistas e engenheiros.

Tesla recebeu sua educação formal no Instituto Politécnico em Graz, Áustria (ele se matriculou com graduações em matemática, engenharia mecânica e engenharia elétrica) e na Universidade de Praga (onde ele executou estudos graduados em Física). Depois de um período de prática profissional em Budapeste (onde, em 1882, ele concebeu a idéia de um campo magnético giratório para mover maquinaria elétrica), Estrasburgo (onde ele construiu que o primeiro motor polifásico), e Paris, ele imigrou para os EUA com a idade de 28 anos em 1884. Com sua descoberta do campo magnético giratório e a publicação de seu celebrado documento de 1888 sobre um novo sistema de motores e transformadores de corrente alternada, sua posição na história da ciência e tecnologia elétrica estava permanentemente estabelecida.3 Depois de palavras de elogio ao inventor diante de uma reunião da Sociedade Real em Londres em 1892, Lorde Rayleigh declarou que Tesla possuía um grande dom para descoberta elétrica. Em 1896, no Franklin Institute na Filadélfia, Lorde Kelvin diria, "Tesla contribuiu mais para a ciência elétrica que qualquer homem até sua época". Suas descobertas e criações fundamentais atravessam a ciência básica, sistemas, tecnologia e componentes. Ele foi um dos primeiros cientistas a assimilar a distinção entre ressonância global e distribuída e, depois de se reunir em 1892 com Heinrich Hertz em Bonn, foi o primeiro a patentear a amplificação de voltagem através de ondas estacionárias em ressonadores distribuídos.4,5 (A técnica seria usada subseqüentemente por David Sloan,6 E.O. Lawrence, e Louis Alvarez no desenvolvimento evolutivo dos aceleradores de partículas modernos.7)

A unidade MKS de indução magnética foi adotada em honra a Tesla em 1956. É conhecimento comum entre engenheiros elétricos que ele foi o inventor do campo magnético giratório, do motor de indução e do sistema de distribuição de energia de corrente alternada polifásica* atualmente usado ao longo do mundo civilizado. † Haraden Pratt, Presidente IRE e posteriormente presidente do Comitê de História do IRE, uma vez escreveu, "Nossa era industrial existente deixaria de funcionar sem as primeiras e maiores contribuições de tesla".8 Porém, a maioria dos engenheiros elétricos não sabe que, tão tarde quanto 1943, com base nas patentes de seu "Apparatus", ele (não Marconi‡) foi reconhecido pelo Tribunal Supremo dos EUA como tendo prioridade na invenção do "Rádio". 9,10,11,12 Ainda menos cientistas da computação sabem que, quando certos fabricantes de computador tentaram patentear portas lógicas digitais depois da Segunda Guerra Mundial, o Escritório de registro de patentes dos EUA afirmou que Tesla (na virada do século) tinha prioridade na implementação elétrica de portas lógicas para comunicações seguras, sistemas de controle e robótica. Como resultado, um monopólio em lógica eletrônica não pôde ser assegurado privadamente nos anos 50.

Escrevendo na volumosa edição de 50º aniversário dos Proceedings of the IRE, R.M. Page identifica o Dr. Tesla como o primeiro que "... sugeriu o uso de ondas eletromagnéticas para determinar a posição, velocidade, e curso relativos de um objeto em movimento",13 e agora parece ser reconhecido amplamente que Tesla, em 1900, foi o primeiro a propor o conceito moderno de radar. 14 Certamente, a entrevista de Tesla com H. Winfield Secor15 aparece nas histórias sobre o radar. 16,17 Ele mantém prioridade legal em controle remoto por rádio, robótica experimental, e comunicação segura por divisão de freqüência multiplexada.18 A técnica de multiplicador de voltagem cascata em multiestágio ("carregando condensadores em paralelo e descarregando-os em série"), depois aperfeiçoada por Greinacher (1920), e Cockcroft e Walton (1932), com uma variante patenteada na Europa por Marx (1923), foi patenteada nos EUA por Tesla em 1897. 19 Durante o centenário de 1984 do IEEE, o Comitê de Atividades Profissionais do IEEE identificou Nikola Tesla entre os "doze apóstolos" da engenharia elétrica. 20 Das primeiras Transações da AIEE nós vemos que Tesla compareceu regularmente a reuniões de AIEE e freqüentemente participou em discussões prolongadas ao fim das apresentações de documentos. Ele foi selecionado para representar a AIEE no Congresso Elétrico realizado em Frankfort em 1892, e foi nessa época que viajou para Bonn para discutir com Heinrich Hertz sobre pesquisa de transmissão sem fios. Tesla serviu a profissão de engenharia elétrica em seus cargos mais altos. No início da década de 1890, ele foi eleito como vice-presidente do que é agora o IEEE. (Na época de sua eleição, Alexander Graham Bell presidiu a AIEE. Tanto Bell quanto Tesla receberiam posteriormente o prêmio de mais alta honra da AIEE.) Tesla serviu dois anos sucessivos como vice-presidente do AIEE. O primeiro livro escrito sobre Tesla era uma coleção de suas conferências públicas, e foi editado e publicado pelo terceiro Presidente do AIEE (Thomas Commerford Martin). 21 Também deveria ser notado que Tesla foi eleito como um Membro Completo do AIEE (agora o IEEE), como também a Associação americana para o Avanço da Ciência, e uma dúzia de outras sociedades profissionais. Ele foi honrado pelo Preussische der Akademie der Wissenschaften em Berlim, e o Presidente do IEE (britânico) disse uma vez, "Tesla foi o maior inventor elétrico que nós alguma vez tivemos em nosso grupo de membros". 22 Ele recebeu mais de 13 títulos honoris causa (Doutorados e assim por diante) de tais instituições diversas como Columbia, Yale, e as Universidades de Paris, Viena, Praga, Sofia, e muitas, muitas mais.

Recentemente, outro fato fascinante sobre Nikola Tesla veio à luz. Depois de todos estes anos, está documentado agora que ele foi nomeado para um Prêmio Nobel não dividido em Física em 1937. 23 (o nomeador de Tesla, Dr. Felix Ehernhaft, de Viena, havia sido um daqueles que nomearam Albert Einstein para o Prêmio Nobel em 1921.)

Tesla possuía um talento notável para encantar e surpreender seus admiradores ao mesmo tempo em que enfurecia seus críticos. (O fenômeno continua até hoje.) É infeliz que, apesar do fato que várias biografias populares estão atualmente disponíveis, ainda não existe nenhuma autoridade formal definitiva (além de suas próprias publicações dispersas) para consultar sobre os assuntos técnicos de sua carreira científica intrigante e colorida. Tesla foi estimado pelos seus pares como um homem de ciência de primeira classe. Aqueles entendendo mal sua estatura profissional deveriam considerar cuidadosamente o respeito e admiração conferido pelos maiores cientistas vivos de sua própria era (Kelvin, Helmholtz, Crookes, Dewer, Rutherford; premiado com Nobel: Rayleigh, Bragg, Bohr, Millikan, Einstein, Compton, Appleton; e muitos outros incluindo reitores universitários, membros da comunidade de defesa, e até mesmo consultores científicos para o Presidente dos Estados Unidos). É impossível abordar adequadamente as credenciais profissionais ou realizações do Dr. Tesla neste espaço limitado. Contudo, pode ser dito com certeza que ninguém desde o Dr. Franklin§ mexeu mais com o mundo científico e de engenharia.

- Tesla Technology Research, Inc., 2527 Treelane Ave., Monrovia, CA 91016-4951 (email:
Wysock@ttr.com)

PV Scientific Instruments, Inc., 309 Second St., Ithaca, NY 14850 (email: pvsci@arcsandsparks.com)

Com relação ao sistema de corrente alternada polifásica, Bernard Behrend, Vice-presidente do AIEE, disse, "Desde o aparecimento das Pesquisas Experimentais de Faraday em Eletricidade nenhuma grande verdade experimental tão grande foi expressa de forma tão simples e clara. . . Ele [Tesla] não deixou nada a ser feito para aqueles que o sucederam". (Minutas da reunião de maio 1917 AIEE.)

† Dr. Charles F. Scott, ex-Presidente do AIEE (agora o IEEE) e Presidente do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Yale, disse, ôA evolução de energia elétrica da descoberta de Faraday em 1831 até a grande instalação inicial do sistema polifásico de Tesla em 1896 [em Niagara Falls] é indubitavelmente o mais tremendo evento em toda história da engenharia.ö [Electrical Engineering, agosto, 1943, pp. 351-355.]

‡ Embora tenha tomado aos tribunais várias décadas para resolver isto, os fatos eram bem compreendidos por homens técnicos imparciais da época. Robert H. Marriott, o primeiro Presidente da IRE (1912), uma vez disse que Marconi havia ô... feito o papel de um demonstrador e engenheiro de vendas. Uma companhia para acúmulo de dinheiro foi formada, a qual tentando obter um monopólio, procurou anunciar a todo o mundo que Marconi era o inventor e que eles possuíam a patente em telegrafia sem fios que lhes garantia um monopólio.ö [Radio Broadcast, Vol. 8, No. 2, dezembro, 1925, pp. 159-162.]

§ Benjamim Franklin e Nikola Tesla ambas partilham honras de Yale, a Sociedade Real (Londres), e a Sociedade Filosófica americana.

sábado, 11 de agosto de 2007

O Computador Quântico Desatador de Nós

Se você possui um computador, esteja certo de que ele é um ‘clássico’. Não que seja velho ou de um modelo venerado pelo estilo, mas porque funciona basicamente de acordo com a chamada física clássica criada pelo inglês Isaac Newton há trezentos anos. Neste sentido, ele não difere muito de um ábaco de mais de 2.500 anos atrás – que era pouco mais que um amontoado de pedrinhas movidas manualmente para efetuar cálculos. A diferença é que ao invés de pedras, os computadores de hoje lidam com elétrons, e em lugar de mãos, possuem chips repletos de componentes minúsculos para movê-los de lá para cá na velocidade da luz.

Além da física clássica contudo, existe a física quântica desenvolvida no começo do século XX. É uma física desconcertante: Niels Bohr, dinamarquês que ajudou a criá-la, já avisava que “qualquer um que possa contemplar a mecânica quântica sem ficar perplexo não a entendeu propriamente”. E se a física quântica é assim, computadores baseados nela não seriam muito diferentes. Capazes de realizar literalmente ‘tudo ao mesmo tempo agora’, computariam inúmeras possibilidades e resultados de uma só vez. Frente a eles, nossos computadores não só são clássicos, como seriam realmente obsoletos.

No entanto os computadores quânticos permanecem até agora pouco mais que uma grande promessa. Construí-los provou ser muito difícil, principalmente porque a mesma propriedade que lhes garante efetuar cálculos simultâneos é fruto de uma frágil condição, a sobreposição de estados. Nela, ao invés de bits digitais (uns e zeros) poderíamos ter qubits – quantum bits, capazes de ser uns e zeros ao mesmo tempo.

O mais longe a que se foi até hoje na área foi alcançado no final de 2001, quando cientistas do centro de pesquisas Almaden da IBM juntaram nada menos que um bilhão de bilhão de moléculas especialmente projetadas para funcionar como um computador de apenas sete qubits. Isolados do mundo externo em sua frágil sobreposição de estados, os sete qubits puderam assumir 128 estados diferentes de uma só vez e o complexo sistema fatorou o número 15, isto é, descobriu que 15 = 3 x 5.

Está bem, pode não parecer muito impressionante, mas outra vez a possibilidade demonstrada, e aqui de forma concreta, é que foi imensa. A fatoração de um número é justamente o tipo de problema para o qual computadores quânticos poderiam exibir sua superioridade sobre os clássicos.


Nós Matemáticos

física seja ela clássica ou quântica pode fornecer modos essencialmente diferentes de realizar na prática um cálculo, mas a matemática também não está atrás em oferecer novas perspectivas. E elas podem surgir de onde menos se espera, como do estudo de nós.

Nós matemáticos são um tanto diferentes daqueles que acabam surgindo para nosso azar nos cabos atrás de computadores ou nas mangueiras de jardim. Eles não têm pontas soltas, e desfeitos são apenas um círculo. De toda a infinidade de nós complexos que podem ser criados, a tarefa que os matemáticos assumiram é tentar descrevê-los de forma a saber quando dois nós aparentemente diferentes são iguais – e vice-versa.

Quem já viu ‘nós mágicos’ pode ter uma idéia da dificuldade do problema. Mágicos podem enroscar uma série de laços em uma corda, mas ao puxá-la, descobre-se que nenhum nó verdadeiro foi formado (ver imagem). Isso não é realmente mágica, é topologia em ação: a área da matemática que lida com estas relações de ligação. Se este fosse um nó matemático, com as pontas ligadas, o nó mágico complexo que você juraria que deveria ficar preso revela ser topologicamente equivalente a um círculo sem nós. Conseguir calcular isto sem precisar puxá-lo é tão difícil que ainda não se conseguiu descobrir uma fórmula geral para tal.

Em 1984 entretanto, chegou-se bem mais perto. Vaughan Jones, da Universidade da Califórnia, desenvolveu um polinômio capaz de descrever uma série de nós a partir dos seus diversos cruzamentos e revelar se dois nós são topologicamente iguais ou não. Isso deu todo um novo fôlego para o estudo matemático de nós, ainda que o polinômio de Jones tenha mostrado ser extremamente difícil de calcular para nós mais complexos. De fato, mostrou-se que calculá-lo é tão difícil quanto fatorar um número enorme.


Nós na Quântica

Até aqui só falamos de dificuldades, mas surpreendentemente, somando a dificuldade de construir computadores quânticos com a de calcular nós matemáticos, surgiu uma luz. A idéia é fazer com que a própria natureza puxe os nós em nível quântico e calcule assim o polinômio de Jones. Ela foi proposta inicialmente por Edward Witten, uma das principais figuras no desenvolvimento de outra teoria de ponta da física, a das supercordas (isso mesmo, de supercordas físicas a nós matemáticos).

Assim como a natureza automaticamente “calcula” o tempo que levará para um martelo cair no seu pé com determinada velocidade antes mesmo que você possa lembrar da fórmula da gravidade de Newton, ela poderia puxar os nós e calcular o polinômio de Jones rapidamente. E então, vem a ligação final: como o polinômio é equivalente a toda uma série de outros problemas difíceis, poder resolvê-lo com facilidade significa poder resolver todos os outros também.

A possibilidade leva ao computador quântico topológico, explorada entre outros pelo matemático Michael Freedman do centro de pesquisas da Microsoft, e o físico Alexei Kitaev, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Eles procuram concretizar tal tipo de computador através de um estranho sistema físico, o fluido quântico de Hall. Nele, surgem “quasi-partículas” que se ‘lembram’ do caminho que percorreram no fluido, e assim podem revelar se se cruzaram ou descruzaram, fazendo o equivalente a puxar um laço para ver que nós tem.

A grande vantagem desta proposta é que, ao contrário dos frágeis qubits, ter a informação codificada e processada em laços e nós é muito mais estável – como um laço de cadarço pode resistir a muitas sacudidas.

Até agora, mesmo o computador quântico topológico é uma promessa: o sistema explorado ainda é muito simples para permitir cálculos suficientemente complexos. Mas se os físicos e matemáticos aprenderem a amarrar o sapato de forma quântica, nossos computadores poderão ser clássicos em todos os sentidos. O que seria ótimo.


Duas fendas e a sobreposição de estados

O célebre físico Richard Feynman, ganhador do prêmio Nobel em 1965 e, casualmente, integrante de uma escola de samba do Rio em 1952 (onde tocou uma frigideira com uma colher), descreveu o experimento de fenda dupla como o “mistério central” da mecânica quântica. Se você o entendesse, entenderia a quântica – mas parafraseando Bohr, Feynman também declarou que “ninguém entende a mecânica quântica”.

O experimento foi realizado em 1801 pelo inglês Thomas Young, e em si não é incompreensível. Basicamente, faz-se com que uma única partícula de cada vez – como uma de luz, um fóton – passe por uma fenda e atinja um detector, que pode ser um filme fotográfico. Revelando o filme, veremos que a imagem formada é uma linha, da forma da fenda, com borrões à volta desvanecendo. Nada muito misterioso. Mas é com apenas uma fenda.

Com duas fendas, espera-se que se formem então simplesmente duas linhas, com mais alguns borrões desvanecendo. O que ocorre no entanto é que o padrão formado é de uma série de listras, um padrão de interferência. Contrariando todo o bom senso, é como se cada partícula passasse pelas duas fendas ao mesmo tempo, em uma sobreposição de estados, e interferisse com ela mesma. É este resultado, confirmado e reproduzido inúmeras vezes, que é incompreensível e misterioso, situando-se no cerne da física quântica. Mas é tão real quanto uma maçã caindo.


Kentaro Mori, revista Newton

As hidrelétricas do Rio Madeira


Antonio Oliveira Santos - Presidente da Confederação Nacional do Comércio

A reunião das Nações Unidas no Rio de Janeiro, em 1992, constituiu um marco histórico ao tratar do relacionamento racional e harmonioso entre o Homem e a Natureza. Da Declaração de Princípios da “ECO-92”, consta o seguinte compromisso: “Os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável e têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza”.
A feliz expressão “desenvolvimento sustentável” diz tudo: adotar todos os procedimentos para alcançar o maior desenvolvimento possível, sem comprometer as possibilidades de desenvolvimento em favor das futuras gerações. Não há, no caso, qualquer antagonismo anacrônico entre o desenvolvimento e a preservação. A questão está em fazer uso da moderna tecnologia, para sustentar o desenvolvimento de forma solidária, responsável, e não predatória.
O Governo brasileiro empreende uma dura luta nessas duas frentes, buscando elevar rapidamente o ritmo de crescimento da economia nacional e a criação de empregos, ao mesmo tempo utilizando racional e prudentemente seus recursos naturais, em especial suas reservas biológicas, tais como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica.
Nesse contexto, ressalta-se que, sem dúvida, um dos mais sérios problemas nacionais é o que se refere ao desemprego da mão-de-obra, sabendo-se que, tristemente, cerca de 50% dos trabalhadores nacionais estão desempregados ou empregados em atividades marginais, na economia informal, sem carteira assinada e, portanto, à margem de todos os benefícios de legislação social.
Impõe-se, pois, perseguir obstinadamente a expansão dos investimentos indispensáveis ao crescimento do PIB nacional e à geração de empregos. É nesse campo que surge a questão crucial de reaparelhar a infra-estrutura social e econômica, onde se destaca a geração de energia, que se situa na base do processo de crescimento. A Natureza deu ao Brasil fantásticos recursos hidrelétricos, entre os quais se destacam as possibilidades de construção no Rio Madeira, das Usinas Santo Antonio e Jirau, com capacidade para produzir nada menos do que 6,5 mil MW de energia limpa e barata.
Mas o crescimento econômico do País, ao mesmo tempo em que representa uma prioridade nacional, encontra sérias resistências, principalmente na área do licenciamento ambiental, onde, visivelmente, se nota a presença de interesses estrangeiros, interpretados por suspeitas ONGs internacionais, aliadas à ingenuidade nacional.
É evidente que os eventuais conflitos que possam ser gerados pela construção dessas duas importantes hidrelétricas têm solução técnica, já demonstradas por competentes especialistas das grandes empresas ligadas aos projetos, entre elas Furnas e Odebrecht. Por isso, é inadmissível que as obras projetadas se atrasem, indefinidamente, pela ação obstinada de alguns setores governamentais. O que mais se condena em relação ao IBAMA, por exemplo, é que oferece uma obstrução sistemática, mas não se preocupa em oferecer soluções técnicas, ainda mais quando se sabe que as alternativas viáveis, termoelétrica ou nuclear, são sabidamente mais poluentes e de custos mais elevados.
Afinal, tudo indica que chegamos ao ponto crucial das decisões, com a atitude decisiva e clarividente do Presidente Lula, de remover esses inexplicáveis obstáculos, que entravam projetos destinados à melhoria de vida de uma população de cerca de 30 milhões de brasileiros, na região amazônica, e condenam o País a um crescimento medíocre, no contexto internacional.


Publicado no Jornal do Brasil de 26/05/2007.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Tommaso Campanella


Tommaso Campanella nasceu em Stilo, no dia 5 de Setembro de 1568. Ainda muito jovem, já se revelava em seu espírito o pendor para a filosofia. Seu pai, contrariando-lhe a vocação, quis fazer dele um jurista, ao que Campanella se opôs tenazmente. Sua primeira obra foi a Philosophia Sensibus Demonstrata (1), que lhe valeu a acusação de heresia. Tendo deixado o convento em que iniciara os estudos, empreendeu uma viagem pela Itália, através da qual ficou conhecendo os homens mais ilustres do seu tempo.
Voltando a Stilo e sempre preocupado em operar uma reforma que servisse para enfraquecer o domínio da autoridade, Campanella iniciou sua atividade política tentando organizar uma conspiração contra o despotismo espanhol. Isso o levou ao cárcere, onde permaneceu vinte e sete anos. Libertado em 1626, seguiu para Roma, onde foi bem recebido pelo papa Urbano VIII. Logo, porém, tornou-se alvo de novos ataques e, perseguido, foi obrigado a fugir para a França. Morreu em Paris, em 1639.
Mártir do livre pensamento, Campanella ocupa, também como filósofo, um lugar importante entre os grandes homens de sua época. Suas obras, quer o Prodromus Philosophiae Instaurandae (2), quer os Dogmata Universalis Philosophiae (3)., quer a Realis Philosophiae Partes Quatuor (4), oferecem aspectos doutrinários que, embora discutíveis, não deixam de ser extremamente interessantes.
A Cidade do Sol é a mais popular das obras de Campanella. Essencialmente idealista, está no mesmo plano da Utopia, de Thomas More (5), e da República, de Platão (6). Sem entrar na apreciação do sistema proposto por Campanella, é forçoso reconhecer em A Cidade do Sol uma das obras-primas da literatura universal.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Diálogo poético......

João – essa fome zero tá zerando mesmo, né compadre?
Zé – eu não sei não… sempre fui péssimo em matemática, só tirava zero, fome zero? meu prato está sempre vazio, vazio = zero…. opa….
João – calma Zé, você está filosofando o zero e misturando os patos com os macacos
Zé – patos com macacos?
João – brincadeira filosòfica Zé….brincadeira….
Zé – agora enrolou tudo no meu tamborim enluarado, pobre do meu ventre esfomeado…
João – opa….agora você está poetando
Zé – poetando?
João – sim….poesia….poeta…
Zé – Ah! eu? poeta?
O que foi que eu disse mesmo?
João – que você està enluarado no teu cérebro esfomeado
Zé – é poético mesmo.
poesia danada!
a inspiração me pega quando eu menos espero
agora entendi o teorema da fome zero
João - ???
Zé - ????
João – tá zerando mesmo a danada!
Zé – como diz o cantor…arte tem que ser simplicidade…pra fosforecer
João – Fosfore o quê?
Zé – fosforecer João, fosforecer!
João – Ah! eu não sei falar direito nem escrever
Zé – o Lula também não
João – o poeta?
Zé – que poeta nada…. o bicho, aquele cheio de braços tentaculares tenebrosos…. o bicho derruba até avion
João – cheio de braços e não sabe escrever…. só sabe zero…. zero na massa…. zero!
Zé – pois é, o bicho só sabe zerar, por isso prato vazio e o céu cada vez mais sombrio…!

Pelo Brasil!

Vamos fazer um minuto de silêncio!

Obstáculos à Liberdade na América Latina



“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é
permitido, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma".
São Paulo
Primeira Epístola aos Coríntios
(1 Cor. 6, 12)

“Nada é mais rico em privilégios do que a arte de ser livre;
mas nada é mais árduo que o aprendizado da liberdade”
Alexis de Tocqueville

A liberdade individual é uma conquista relativamente recente da Humanidade e corre o risco de ser uma experiência efêmera, tantos são os óbices que se acumulam contra sua universalização. Mesmo nas sociedades em que ela existe em maior grau a tentação totalitária está sempre presente, fazendo com que seja permanentemente atual a advertência de Thomas Jefferson “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. É de sua lavra também a frase “Jurei, no altar de Deus, eterna hostilidade contra todas as formas de tirania sobre a mente humana”. Conhecido como o “membro silencioso” do Congresso Continental, Jefferson falou através de sua pena, rascunhando a Declaração de Independência aprovada quase sem emendas em 4 de julho de 1776, onde pela primeira vez declarava-se que “Acreditamos serem verdades evidentes por si mesmas que todos os homens nascem iguais; que são dotados pelo Criador com alguns direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.

Tomava corpo a institucionalização das condições políticas para que o homem pudesse exercer a liberdade interior preconizada por São Paulo na Epístola em epígrafe. A procura de um regime político que permita a grandeza de escolhermos nosso próprio destino, baseados unicamente na nossa consciência, é muito antiga. Começa pela tradição bíblica do livre arbítrio, passa pela busca incessante de Sócrates e seus discípulos e pela pregação cristã e se espraia pela tradição anglo-saxônica. Quando os barões e os prelados ingleses extraíram quase a fórceps, em 15 de junho de 1215, a Magna Carta do Rei João Sem Terra, não imaginavam que, pensando apenas em si mesmos e nos seus interesses imediatos, estavam estabelecendo as bases dos modernos Parlamentos e daquele Congresso Continental quinhentos anos mais tarde em que Jefferson se pronunciaria.

Documento infelizmente pouco conhecido na atualidade a Magna Carta foi a primeira tentativa anglo-saxônica de limitar o poder de um tirano mediante o império da lei. Foi responsável, entre outras coisas, pelo estabelecimento do que hoje se chama devido processo legal (due process of law) ao estatuir na sua cláusula 39 que: “Nenhum homem livre será preso, encarcerado, despojado de seus bens, colocado fora da lei, banido, ou ferido de qualquer maneira – nem o perseguiremos ou faremos perseguir – a não ser pelo julgamento legal de seus pares ou pela lei da terra”. Igualmente estabeleceu pela primeira vez o direito de livre comércio. A cláusula 41 rezava: “Todos os mercadores poderão, de maneira certa e segura, sair ou entrar da Inglaterra e aqui permanecer, ou por aqui passar, tanto por terra como por água, para comprar ou vender sem que lhes sejam cobrados impostos odiosos (evil taxes) (...)”. Na mesma cláusula ainda defende o princípio da reciprocidade diplomática e da simetria em caso de guerra: “(...) deverá ser do nosso conhecimento, ou de nossos magistrados, como nossos mercadores que estiverem em terras em guerra conosco serão tratados. Se os nossos estiverem a salvo lá, os de lá estarão a salvo em nossas terras”. (A moderna guerra assimétrica é justamente o oposto do disposto nesta cláusula).

Também inaugurou o direito inalienável de livre trânsito, hoje negado em várias “democracias”. Na cláusula 42 estabeleceu que: “A partir de hoje qualquer pessoa, salvo por crime de deslealdade, pode sair do nosso reino e a ele retornar, são e salvo, por terra ou água, exceto talvez por breves períodos em tempo de guerra, e os prisioneiros e foras da lei, para o bem comum do reino (...)”.

Outra lição que se pode tirar da história deste documento, fundamental para o individualismo, é que interesses à primeira vista exclusivamente egoístas revelam-se ao longo do tempo benéficos para o assim chamado bem comum. Desde que os indivíduos sejam deixados em paz e fora das garras dos “engenheiros sociais”, os quais pensam que conhecem melhor que os indivíduos livres, o melhor para o “bem comum”, agora chamado “social”. Se os barões e prelados não tivessem lutado em causa própria não gozaríamos hoje os benefícios de suas exigências. Hoje, os barões e prelados são exatamente os “engenheiros sociais” que também atuam exclusivamente em causa própria, para aumentar o seu poder, mas alegam ser os representantes das causas da sociedade como um todo. Não se fazem mais barões e prelados como na Idade Média!

As diferenças cruciais entre as revoluções Francesa e Americana residem nestes dois pontos: a importância da liberdade individual e a delimitação do poder dos governantes. Enquanto na primeira simplesmente se substituiu um tirano coroado pela tirania da maioria, gerando governantes jacobinos ainda mais tirânicos, na segunda o tirano foi substituído pela Carta dos Direitos e pela limitação do poder dos governantes, isto é, pelo Império da Lei e não dos homens. Todo o texto enxuto e claro da Constituição Americana é uma seqüência de limitações do poder dos governantes sobre os governados. Na verdade, a Constituição se refere sempre a estas limitações, obrigando o respeito a elas por parte do governo; os indivíduos e as entidades privadas não estão a elas obrigados. É o reinado do individualismo, da liberdade do homem embora limitada pelos valores cristãos. Ama o próximo como a ti mesmo, é o que coloca os limites do “nem tudo convém”, diferenciando-o do simples egoísmo que não leva os demais em consideração.

Esta liberdade individual inclui as liberdades de querer, optar, pensar, falar, escrever, opinar e publicar. De trabalhar em qualquer ocupação à sua escolha, de ter posses e dispor livremente delas, sem constrangimentos, inclusive testar, de escolher seu cônjuge livremente e assim criar seus filhos educando-os dentro dos seus princípios. Liberdade de consciência e de culto, de estabelecer-se onde melhor lhe pareça, sair ou entrar livremente de seu país. De definir seu próprio conceito de existência, de sentido da vida e do universo. Toda a cooperação do governo deveria ser no sentido de assegurar e defender estas garantias protetoras da vida, das pessoas e da propriedade privada.

Não foi outra coisa que levou o Ocidente, principalmente os Estados Unidos da América e a Inglaterra, ao impressionante surto de descobertas e invenções do final do século XIX e início do XX. Na esteira da Revolução Industrial que datava já de um século houve um incremento monumental do acúmulo de capital que permitiu uma imensa expansão em todos os setores da economia. Certamente o fim da Guerra Civil Americana e a expansão para o Oeste levada a efeito por indivíduos livres, cada vez mais distantes dos centros do poder, tiveram um papel relevante na evolução do próprio conceito de liberdade. Nem mesmo na época dos Grandes Descobrimentos ocorreu esta evolução, pois ou eram projetos estatais ou dependeram enormemente da mão gorda do Estado. Vasco da Gama, Colombo, Cortez e Cabral estavam mais para funcionários da Coroa do que para campeões da liberdade. Muito diferente foi a Conquista do Oeste Americano realizada sob a égide de homens livres que corriam para ganhar suas vidas e de suas famílias e a tudo estavam dispostos para defender o que iam conquistando. Remember the Alamo, Davy Crocket, Sam Houston, Stephen Austin, Lewis & Clark. Por que não “Doc” Holiday e Wyatt Earp e seus irmãos. É o espírito dos cowboys, da liberdade das pradarias - tão desprezados pelos intelectuais de gabinete que não se arriscam nem em ir até a esquina - que constituiu a saga formadora dos Estados Unidos da América.

Armando Ribas coloca a questão em seus devidos termos: “Onde estaríamos se os cowboys não tivessem ganho dos Sioux, Apaches, Comanches e outros? Poderíamos pensar que os caçadores de búfalos que dançam com lobos seriam capazes de destronar o Kaiser, vencer a Hitler, Mussolini e Hiroíto e conter o Império Soviético e a China de Mao? Certamente não, a vitória nesta luta pela liberdade que se iniciara em Filadélfia foi e seguirá sendo a dos cowboys que acreditaram nos direitos individuais e lutaram por eles, e não dos que chegaram ao Terceiro Milênio pela mão da Razão do Estado, sublimada pelo voto universal na Social Democracia” (Entre Cowboys y Jacobinos).

A TRISTE HISTÓRIA DA LIBERDADE DA AMÉRICA LATINA

Os Founding Fathers antes de chegarem ao texto constitucional discutiram longamente as relações entre liberdade, justiça, democracia e o significado da expressão todos os homens nascem iguais. Os Federalist Papers são uma mostra eloqüente desta discussão. Isto nunca ocorreu na Europa e, conseqüentemente, no nosso Continente. Herdamos de forma crua os princípios igualitários da democracia franco-germânica e, inevitavelmente, herdamos também a propensão européia às tiranias. Ironicamente a obra mais conhecida de Hayek não se aplica aqui: não estamos e nunca estivemos no Caminho da Servidão, vivemos nela desde sempre e o que necessitamos é descobrir um Caminho para a Liberdade! A servidão nos foi transferida in natura das metrópoles ibéricas, plenamente exercidas durante o período colonial e nossas independências foram feitas por homens que nada sabiam da verdadeira liberdade por terem sido criados na Espanha ou Portugal onde a tirania era a tônica. A independência dos países não resultou em liberdade para seus povos. Já nascemos como prisioneiros que só conhecem os limites da sua cela e nem podem imaginar como o mundo pode ser fora dela.

Juan Bautista Alberdi (1810-1884), conhecido como o “Pai da Constituição Argentina” de 1853, a única Constituição liberal que a ibero-mérica conheceu em toda sua história, deixa claro que “A liberdade da Pátria é a independência com relação a todo país estrangeiro. A liberdade do homem é a independência do indivíduo com relação ao governo de seu país. A liberdade da Pátria é compatível com a maior tirania e ambas podem co-existir num mesmo país. A liberdade do indivíduo deixa de existir pelo próprio fato da Pátria assumir a onipotência do país” (A Onipotência do Estado é a Negação da Liberdade Individual). “Esta verdade tem sua confirmação cabal no exemplo que nos oferecem os próprios Generais tidos como ‘Libertadores da América’. (...) Não bem concluída a guerra contra a Espanha, Bolívar e San Martin se colocaram à testa de movimentos da política interior com o objetivo de fundar pela espada a liberdade doméstica (...). O fracasso não tardou em mostrar-lhes seu erro (...)” (Peregrinación del Luz del Dia o Viajes y Aventuras de la Verdad en el Nuevo Mundo).

Neste caso o Brasil também está em pior situação que nossos vizinhos. Nossa “independência” não passou de uma pantomima: foi proclamada por um Príncipe português de caráter duvidoso, cujos principais interesses eram os bordéis e reinar em Portugal, a mando d’El Rei, seu pai que o recomendou colocar a coroa na sua cabeça “antes que um aventureiro brasileiro o faça”. A diferença com George Washington é deprimente: logo após o fim da Guerra de Independência o Coronel Lewis Nicola escreveu a Washington, como representante dos oficiais descontentes com o tratamento que lhes dispensava o Congresso, sugerindo que ele se tornasse Rei, pois contaria para isto com o apoio da maioria das “pessoas com vantagens materiais” do país. Sua resposta indignada foi peremptória: “não sei qual conduta de minha parte pode ter encorajado esta sugestão, pois os senhores não podiam ter encontrado alguém para quem tais esquemas sejam mais desagradáveis e repugnantes”. E acrescentou: “Se os senhores têm alguma consideração por si mesmos ou sua posteridade, ou respeito por mim, devem banir estes pensamentos de suas mentes e nunca comunicar, direta ou indiretamente a ninguém, um sentimento desta natureza”. (George Washington: A Brief Biography, Mount Vernon Ladies’ Association of the Union)

É ainda Alberdi quem o diz: “O despotismo e a tirania freqüentes nos países da América, não residem no tirano nem no déspota mas na máquina ou construção mecânica do Estado, pela qual todo o poder de seus indivíduos, refundido e condensado, cede em proveito de seu governo e cai em mãos de sua instituição. O déspota e o tirano são o efeito e o resultado, não a causa, da onipotência dos meios e forças econômicas do país, colocadas na posse do estabelecimento de seu governo e do círculo pessoal que personifica o Estado pela maquinaria do próprio Estado”. “Nos Países Anglo-Saxônicos (Estados Unidos e Inglaterra) liberdade nunca significou independência de uma potência estrangeira, mas independência de cada indivíduo em relação ao Governo da Nação (...) a liberdade da Nação tem como limite sagrado a liberdade individual”. (A Onipotência do...)

A natureza do que é chamado de democracia no nosso Continente não inclui a noção de liberdade individual. A maioria possui uma visão populista da relação entre Estado e Sociedade. As pessoas esperam que o Estado resolva seus problemas básicos: emprego, moradia, comida, saúde, educação e aposentadoria o mais cedo possível. Estes fatores são descritos em nossas Constituições como “direitos dos cidadãos”. A Constituição Brasileira de 1988 – a “Constituição-cidadã” – chega a prever absurdos como a taxa máxima de juros – que, se fosse respeitada impediria todas as transações econômicas do país – e a ridícula cláusula que define saúde como “direito de todos e obrigação do Estado”! Numa sociedade que respeita seriamente sua Constituição, qualquer indivíduo poderia acionar juridicamente o Governo por um reles resfriado!

Mas é aí que está o ponto: enquanto os Anglo-Saxões fazem constituições enxutas para serem obedecidas principalmente pelos governantes – a da Inglaterra nem tem uma redação unificada mas leis esparsas somadas ao direito consuetudinário – nós herdamos o furor de regulamentação das monarquias ibéricas produzindo Constituições intermináveis onde todos os detalhes das vidas dos cidadãos são previstos. Faltou prever alguma coisa? Providencia-se uma lei ou emenda para incluí-la. Nenhuma profissão pode deixar de ser regulamentada, nos moldes das guildas medievais, nos mínimos detalhes. É decepcionante que os próprios cidadãos peçam para ser regulamentados porque acreditam que assim estarão protegidos, e não se dão conta de que, de regulamentação em regulamentação, tornam cada vez mais forte o Estado e mais fracos os indivíduos! Como conseqüência, os movimentos contrários à liberdade e à propriedade privada se aproveitam exatamente do regime democrático para assumir o poder e liquidar o próprio sistema que os elegeu. É de se notar a sutil modificação introduzida no Estado de Direito: ao acrescentar a palavra Democrático, liquida-se com o próprio Estado de Direito e coloca-se em seu lugar a tirania das maiorias e o aniquilamento progressivo das minorias. Jamais passou pela cabeça dos framers da Constituição Americana ou dos legisladores britânicos a expressão democratic rule of law mas tão somente rule of law, sem adjetivos.

HÁ ESPERANÇA?

O meu otimismo me obriga a pensar que sim embora o exame da realidade me leve a crer que não, pois cada vez mais nos enterramos na tirania e a perspectiva é de que passemos da cela às masmorras. A população cada vez mais exige direitos inconquistáveis e os governantes prometem cada vez mais sabendo plenamente que são promessas vãs. Tinha plena razão Alexander Tyler quando dizia que “[a democracia] Só pode existir até que os eleitores descubram que podem votar por mais dinheiro do tesouro público para si mesmos. Deste momento em diante a maioria sempre votará nos candidatos que prometem a distribuição de mais dinheiro do tesouro público, tendo como resultado que uma democracia sempre acaba em razão de políticas fiscais frouxas, liberais e irresponsáveis e são seguidas por uma ditadura”.

Os candidatos sabem que as promessas não poderão ser cumpridas, mas as fazem porque seu objetivo é bem outro: provar que o regime democrático não funciona e que é preciso cada vez mais restringir as liberdades individuais para o “bem social” – na verdade para o bem deles mesmos. Atacam as liberdades mais invejadas e cobiçadas, a da propriedade privada e a da individualidade, pois sabem que contarão com o apoio dos que nada ou pouco possuem e dos que são incapazes de exercer plenamente sua individualidade.

A primeira é “a fonte mais comum e duradoura da formação de partidos (fractions). Aqueles que possuem e aqueles que não possuem propriedades sempre formam distintos interesses na sociedade”. (James Madison, The Federalist n 10). O que os invejosos não desconfiam é que, depois desta, todas as demais liberdades virão de roldão, inclusive as suas.

Já a espontaneidade individual não faz parte “do ideal da maioria dos reformadores sociais e morais mas, pelo contrário, é olhada ciumentamente como um problema e talvez como uma obstrução rebelde à aceitação geral dos que estes reformadores, em seu próprio julgamento, pensam ser o melhor para a humanidade”. (John Stuart Mill, On Liberty)

É claro que a ânsia de liberdade existe nos nossos povos como em quaisquer outros mas para isto seria necessário abandonar esses falsos “privilégios” e aí entram as dificuldades em aprender a ser livre: é, como dizia Tocqueville, um trabalho árduo. Mas que deve ser começado antes que não haja mais tempo. O Seminário que me coube organizar e coordenar, sob a inspiração de Armando Ribas, é uma primeira tentativa: reunir intelectuais para, tal como na Argentina da década de 30 do século XIX, em condições muito semelhantes às atuais, “refletir como deve ser a república (...) a geração de 1837 atuou para dar vida à Constituição, às instituições republicanas e as formas de vida de uma sociedade moderna”, como nos diz na apresentação de seu livro Los Fundadores de la Republica, outro participante do Seminário, Ricardo López Göttig.

Mas esta é a mais assimétrica das batalhas já que os defensores da liberdade são ciosos do que defendem, e lutam como indivíduos, enquanto os inimigos coletivistas da liberdade lutam como um exército de formigas obedecendo a ordens pavlovianas.

A aceitação e apoio entusiásticos do Presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, do Diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal, Marcel Solimeo e do Redator-Chefe do Diário do Comércio, Moisés Rabinovici foi um raio de otimismo que espero que frutifique.


Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2006


HEITOR DE PAOLA - Organizador Técnico e Coordenador do Seminário sobre Democracia Liberal: Liberdade, Democracia e o Império das Leis

segunda-feira, 30 de julho de 2007

DESIGUALDADE SOCIAL E ENVELHECIMENTO: DESAFIO PARA O NOVO MILÊNIO.


INTRODUÇÃO

DESIGUALDADE SOCIAL: FENÔMENO NATURAL

CONDIÇÃO DA MULHER

RAÇAS

CASTAS

ESCRAVIDÃO

ZONA RURAL E FAVELAS

SOCIEDADES ANIMAIS

HIERARQUIA

DESEMPREGO

ENVELHECIMENTO

FENÔMENO SOCIAL

PREOCUPAÇÃO RECENTE

CARACTERÍSTICAS PESSOAIS

DESVANTAGENS DOS IDOSOS

PERSPECTIVAS DEMOGRÁFICAS

PREVIDÊNCIA SOCIAL

DOIS LIVROS E DOIS ARTIGOS

DESAFIO MILENAR

MILENAR OU ETERNO?

CONDIÇÃO HUMANA

PERSPECTIVA OU ASPIRAÇÃO?

QUALIDADE DE VIDA

CONCLUSÃO

DESAFIO AO LADO DE OUTROS

MÍNIMO VITAL SATISFATÓRIO



Introdução


Dada a natural complexidade do nosso tema, parece adequado procurar definir com suficiente precisão seu conteúdo semântico. Ou seja, que se deve entender aqui por desigualdade social? E por envelhecimento? Quanto a desafio e novo milênio naturalmente não há dúvida.
Desigualdade social costuma ser sobretudo o negativo reflexo de condições econômicas acentuadamente diferentes. Salvo engano, é nesse indesejável sentido que devemos enfocá-la, sem prejuízo da atenção devida a fatores também básicos como saúde e educação, além de outros menos relevantes.
Assim, numa sociedade cujos membros desfrutem todos de razoáveis condições econômicas, saúde satisfatória e aceitáveis índices educacionais, dificilmente ocorrerão níveis preocupantes de desigualdade social. Uma organização política racional raramente deixa de contribuir nesse sentido.
A religião costuma ser outro fator significativo, com governos teocráticos acarretando discriminação contra quem pertença a credo diverso, ainda que apenas informalmente.
É considerável também o número de países, em geral subdesenvolvidos, onde a questão étnica conduz a diferenças sociais radicais e não raro desumanas. Conflitos raciais parecem ter ocorrido ao longo de toda a história da humanidade, porém recentemente têm sido mais freqüentes e, sobretudo, mais violentos e trágicos.
Não podemos esquecer que ainda existem países de razoável ritmo de desenvolvimento, como a Índia, onde subsiste o odioso sistema de castas, frontalmente incompatível com a igualdade social e estranho até mesmo em termos de condição humana.
Repetindo, tudo isso tem de ser considerado quando se cogita de desigualdade social, especialmente como um desafio específico para o novo milênio.
No tocante a envelhecimento, a primeira observação é que o termo também está sendo usado aqui no seu significado global, de conjunto da população. O envelhecimento individual não é menos importante, é talvez até mais complexo e, naturalmente, faz parte do todo. Entretanto, não é dele que se trata nesta oportunidade.
A esse respeito vale lembrar a curiosa ponderação de alguns demógrafos: é claro que sempre houve velhos, mas só ultimamente o seu crescente número despertou atenção para o fenômeno social do envelhecimento. Dito de outra maneira, assim como antes a gerontologia cuidava das pessoas idosas, hoje a demografia e a sociologia se ocupam do número cada vez maior delas, da progressiva e preocupante participação da velhice na composição demográfica da população.
Tendo procurado interpretar o real significado terminológico do que considero as duas preliminares do nosso tema, passo ao cerne dele, ou seja, o que elas representam como desafio para o novo milênio.


Desigualdade social: Fenômeno natural

Já temos idéia do significado de desigualdade social para o nosso presente objetivo: em última análise, reflexo ou efeito de condições econômicas muito diversas. Entretanto, ainda a propósito do sentido da expressão, parece conveniente lembrar que a rigor a desigualdade social não deixa de ser um fenômeno natural.
A razão de ser desta ponderação está no fato de que a desigualdade talvez não esteja menos ligada à natureza, à condição humana, animal e portanto natural. Quando os seres humanos passaram a reunir- se em coletividade, simultaneamente nasceu a desigualdade entre eles.
Era cedo para se falar em sociedade, mas decerto foi ainda nas hordas primitivas que nasceu a desigualdade, de início apenas entre indivíduos, porém logo evoluindo para a formação de grupos distintos uns dos outros. Quando o conjunto dos grupos iniciais evoluiu para sociedades formais, embora rudimentares, a desigualdade entre eles passou a caracterizar-se mais formalmente.
A evolução da ordem social progrediu e com ela as diferenças entre grupos cujo somatório passou a constituir o complexo fenômeno da desigualdade social, cada vez mais acentuada e chocante. Daí a necessidade, antes enunciada, de não a interpretarmos como propriamente social apenas.


Condição da mulher

É auspicioso poder começar o desenvolvimento do tema com o que pode ser considerado o fato mais importante de toda a história da evolução da sociedade: a condição social da mulher, cada vez mais coerente com a natureza humana e com a ordem natural das coisas.
Hoje homens e mulheres têm situação praticamente igual na sociedade, porém nem sempre foi assim. Ao contrário, foram necessários milênios, mediante conquistas graduais e avanços sucessivos, para chegar onde estamos, quando falta muito pouco, se é que falta algo, para novas conquistas e avanços.
Metade da humanidade, o sexo feminino, venceu as barreiras que a separavam da outra metade, os homens, em matéria de condição social. As diferenças ainda existentes a rigor são apenas conseqüência das características de cada sexo.
Repetindo, já não existe, do ponto de vista social, distinção entre homem e mulher. Nesse sentido, não ocorre desigualdade social, nem entre idosos nem em qualquer idade, e isso simplifica substancialmente o desafio para o novo milênio ou qualquer outro.
Mais específica porém de menor monta é a situação dos idosos de vários países orientais, principalmente o Japão, onde em geral lhes dispensam atenção especial e tratamento respeitoso. Isso também afasta por completo a idéia de desigualdade social em sentido negativo e até, pelo contrário, envolve tratamento privilegiado. Porém essa desigualdade às avessas já foi mais generalizada e hoje, bastante atenuada, parece estar desaparecendo.


Raças


Por outro lado, uma das mais odiosas causas de desigualdade social, pela sua natureza, seu porte e, conseqüentemente, seus malefícios, parece ser o preconceito racial. Seus perversos efeitos são bem conhecidos, inclusive no nosso País, embora tenhamos a ilusão nem sempre sincera de que o problema nos é estranho.
Sem falar em outros de menor monta, o caso mais flagrante nesse particular são os Estados Unidos, que não conseguem estender a significativa parcela dos seus milhões de habitantes a democracia que tanto propalam, arvorando-se em exemplo para o mundo.
Uma vez que para desenvolvimento do tema deste trabalho devemos entender desigualdade social com relação à humanidade como um todo, o preconceito racial desde logo afasta dessa noção uma parte dos seres humanos com tanto direito a isso como quaisquer outros.


Castas

O sistema de castas, lamentável como todas as demais formas de desigualdade social, é, talvez, o mais estranho pela sua cruel irracionalidade.
Consiste, conforme sabemos, na divisão da população em faixas basicamente estanques e hierarquicamente superiores umas das outras. Quem nasce em uma casta permanece nela até o fim da vida e só em casos muito especiais pode passar para outra. Não pode, digamos, casar com pessoa de outra casta.
Salvo engano, elas existem em alguns países asiáticos, porém é na Índia, o segundo país do mundo em população, que essa insólita divisão de pessoas, de seres humanos, é mais formal e mais rígida. Causa espécie o fato de a Índia, que sob mais de um aspecto hoje se desenvolve rapidamente, não ter conseguido até agora livrar-se de uma estrutura social arcaica, descabida e revoltante.
Trata-se de uma forma explícita de desigualdade social e ao mesmo tempo prova de insanidade do ser humano no que concerne a um dos aspectos mais importantes da sua existência. Não dá para entender que as castas ainda convivam com os inegáveis progressos daquele país, constituindo base de uma odiosa ordem social, como se vê, por exemplo, na excelente reportagem “Índia – Avanço, não de tigre, mas de elefante”, de Carlos Graieb.


Escravidão

A pior forma de desigualdade social talvez seja a escravidão. As castas, por exemplo, dividem em grupos hierarquicamente distintos seres humanos pelo menos teoricamente livres, ao passo que na escravidão umas pessoas pertencem a outras, como se fossem coisas.
A situação já foi mais grave, pois no passado esse estranho vínculo de propriedade era legal e socialmente reconhecido, ao passo que hoje ele ainda existe clandestinamente aqui e ali. No nosso próprio país costumam ser descobertos em propriedades florestais outros sórdidos casos de virtual escravidão. Existe pelo menos uma obra sobre Crime de escravidão, de Wilson Prudente.
O racismo é encontrado sobretudo em países onde já houve escravos, razão pela qual foi apontado por mais de um sociólogo como uma espécie de castigo histórico. Não podemos, entretanto, deixar de lembrar que em muitos casos escravos brasileiros e norte-americanos não eram apresados pelos traficantes deles, porém comprados de bárbaros chefes autocráticos das tribos africanas a que pertenciam. É difícil cogitar desse triste comércio sem evocar as duas belas poesias de Castro Alves O navio negreiro e Vozes d’África.


Zona rural e favelas

Condições insatisfatórias de vida e, mais especificamente, habitação precária, são importantes fatores de desigualdade social. No Brasil e na maioria dos demais países em situação semelhante as choupanas da zona rural a rigor não podem ser consideradas moradias. E pelo menos aqui os acampamentos do chamado “Movimento dos Sem Terra” decerto são piores ainda, embora neste caso haja aspectos especiais a considerar no tocante a desigualdade social.
Na periferia das cidades, onde vive praticamente o grosso da população urbana, as péssimas condições de vida vêm sendo severamente agravadas pela violência. A televisão, cada vez mais generalizada, ameniza um pouco a situação, apesar dos inconvenientes de alguns programas, apontados por sociólogos e educadores.
Em alguns países mais pobres da Ásia e sobretudo da África a rigor não existem condições de vida no sentido dessa expressão para quem não vive aí. Os meios baixíssimos de subsistência são dramaticamente agravados pela crueldade da ditadura que impera na virtual totalidade deles. Nesses países em verdade não existe ordem social, o que torna difícil cogitar de desigualdade social, restringindo o objeto deste estudo ao conjunto das sociedades onde ela existe.
“Desigualdade social divide campo e cidade na China”, segundo Gilberto Scofield Jr., em artigo com a epígrafe “Crescimento acelerado e bem-estar ainda não chegaram nas áreas rurais do país, onde vivem 61% da população”. Scofield informa que, de acordo com a ONU, “nos últimos 25 anos a desigualdade social dobrou ali”.


Sociedades animais

Voltando à natureza da desigualdade social parece lícito recordar que o ser humano não é o único a viver em sociedade e, mais importante, não se tem notícia de sociedades uniformes de animais nas quais não exista deliberada e essencial desigualdade.
O caso clássico é o das formigas, execráveis pelos danos que causam principalmente às plantas, porém admiráveis pelas lições que nos dão no tocante à racionalidade da divisão do trabalho nos seus formigueiros e à rígida hierarquia que separa as dirigentes da massa anônima das trabalhadoras. Outro exemplo não menos clássico são as abelhas, tão úteis quanto as formigas são nocivas, que o belga Maurício Maeterlinck popularizou no conhecido livro A vida das abelhas.
Não é só na modesta área dos insetos que existem exemplos expressivos de ordens internas em que a ocorrência de desigualdade social é indispensável para a sobrevivência. No outro extremo em matéria de dimensões, um bom exemplo, embora aí a desigualdade dentro dos grupos seja antes individual do que social, são algumas espécies de baleias.
Muito conhecido, também, é o caso das galinhas. Lembro-me de ter lido em mais de uma fonte que, reunidas no mesmo galinheiro umas dez delas de diferentes origens, dentro de poucos dias elas se organizam em ordem hierárquica, inclusive para acesso à comida. O que não me lembro de ter lido é sobre o papel do galo no caso.
Um zoólogo nos daria outros exemplos, mas não me parece necessário. O que pretendo aqui é apenas recordar que não é só na espécie humana que existe alguma forma de desigualdade social e que no fundo esta tem muito de natural, ainda quando individual ou coletiva.


Hierarquia

Convém não esquecer que desigualdade social é expressão de sentido amplo e complexo, que abrange modalidades diversas do fenômeno. Já vimos que no fundo ela significa a soma de outras desigualdades, a começar pela econômica. Importante entre elas é a hierarquia, sobretudo em unidades sociais de vulto, como forças armadas, religiões, grandes empresas. Aí e em outras entidades não é raro que posições hierarquicamente mais elevadas, com condições especiais favoráveis, criem situações de virtual desigualdade social com relação a grupos internos mais numerosos. Entretanto, trata-se de modalidade só condenável quando essas discrepâncias passam da conta, fugindo à sua natureza de medidas necessárias e compreensíveis.
Quando se fala em religiões como exemplos de hierarquia, é claro que não se trata das crenças, conceitos e valores de cada credo. O que se tem em mente é sua parte leiga, sua estrutura administrativa, se assim se pode dizer; é a sua igreja. Nesse sentido é bem conhecida a composição hierárquica da igreja católica, desdobrada numa escala que vai basicamente desde os padres até o Papa.
Entretanto, também encontramos hierarquia no lado místico de algumas religiões, fora e acima, portanto, do que constitui mais propriamente sua igreja.
Restringindo-nos de novo à área da igreja católica, que conhecemos melhor, sabe-se que existem nove categorias de anjos, formalmente escalonadas. Vejamos, a título de curiosidade, quais são elas, em ordem decrescente de posição hierárquica: serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e anjos.


Desemprego

Enumerei aqui sucintamente alguns dos principais fatores de desigualdade social, procurando caracterizar a importância de cada um no conjunto deles.
Deliberadamente deixei para o fim o que talvez seja o mais importante de todos e o mais diretamente ligado ao desafio para o novo milênio. Independentemente de sua relação com a desigualdade social, em qualquer idade, ele se apresenta como algo extremamente negativo, para o que ainda não se encontrou solução satisfatória.
Sabemos que a primeira condição de membro ativo da sociedade é a posse de meios para na realidade integrá-la. Também sabemos que o meio básico para isso é um razoável rendimento econômico, que possibilite contribuir para o custeio da existência dela. Quem não dispõe dessa condição essencial não deixa de pertencer por completo à coletividade social respectiva, porém já não é um participante regular, pleno, e sim um membro dependente. Igualmente não desconhecemos que o rendimento da grande maioria das pessoas provém de um emprego. Na falta deste tudo muda para pior e é nesse sentido que a inexistência do emprego acarreta inexorável desigualdade social. Já se disse, entre outras coisas, que o desempregado é um cidadão incompleto. É óbvio que se a pessoa tem outro rendimento o problema não ocorre.
Como se não bastasse sua crucial importância intrínseca, as atuais perspectivas de emprego não poderiam ser mais desalentadoras. Por um perverso paradoxo, as causas do crescente desemprego – avanços das ciências e sobretudo da tecnologia – são altamente auspiciosos e desejáveis, além de incoercíveis.
Alguns sociólogos do trabalho chegam a falar apocalípticamente na morte do emprego, assim entendida a drástica redução das oportunidades de trabalho e a substituição dos cargos remanescentes por relações e condições de emprego completamente diferentes das que conhecemos. Por exemplo, o consultor de empresas Ricardo Neves intitula assim um artigo seu: “O emprego já era!”
Resumindo e repetindo, a desigualdade social está ligada muito de perto a complexos fatores, por sua vez vinculados à natureza humana e à ordem social, ou socioeconômica, o que os torna partes do todo. O desemprego está entre eles, sendo provavelmente o mais crucial de todos.


Envelhecimento: Fenômeno social

Assim como a desigualdade social pode e na realidade deve ser considerada fenômeno natural, o envelhecimento é em última análise um fenômeno social. Tal entendimento se aplica mais precisamente ao envelhecimento individual, porém este constitui por assim dizer a base do outro.
Nesse sentido, quando consideramos envelhecimento o efeito do conjunto de numerosas pessoas idosas, da coletividade formada por elas, só aí temos o que se pode entender como envelhecimento social. É este, salvo engano, o desafio de que trata o nosso tema.
Os que chamam atenção para a natureza social do envelhecimento costumam recordar que na natureza não há velhos; nem sequer no reino vegetal.
Apenas a sociedade mantém vivo o ser humano que já não dispõe de condições para sobreviver por conta própria. Além do que isso significa em termos pessoais e familiares, o envelhecimento, criado pela sociedade, tem várias implicações, a começar pelas que dizem respeito à previdência social, focalizadas mais adiante.


Preocupação recente

Em termos históricos pode-se considerar recente a preocupação com o envelhecimento como fase e aspecto especial da vida humana e, mais precisamente, da ordem social. Costuma-se dizer, com propriedade, que sempre houve velhos, porém que a velhice como tal, com o elevado número deles, só ultimamente passou a ser objeto de atenção e estudo. Essa preocupação recente cresce em ritmo acelerado, podendo-se talvez dizer que o seu crescimento não é menos rápido que o da coorte de idosos. Um terceiro crescimento muito importante no caso é o da duração da vida humana, que faz com que os idosos, além de crescerem mais quantitativamente, sobrevivam por mais tempo.


Características pessoais

Na medida em que, repetindo, o envelhecimento de que se cogita aqui é o da população como um todo, ou seja, é o somatório da crescente idade dos indivíduos que a compõem, é necessário atentar também para os fatores que condicionam esse crescimento, isto é, que concorrem para cada idade individual.
Pelo menos dois deles são óbvios e essenciais: o primeiro, naturalmente, é a saúde, sem a qual em geral não se vive muito tempo. Daí a atenção especial com que a sociedade procura cuidar do estado físico das pessoas, primeiro proporcionando condições de vida que a assegurem em nível satisfatório e depois empenhando-se no combate a todo tipo de doença. Nesse sentido um padrão de vida que não deixe a desejar e os rápidos avanços da medicina são fatores de insuperável impacto.
Cabe lembrar aqui que quando se fala em população inteira, na realidade desde logo está fora dela aquela sua parte, considerável em termos quantitativos, em que a rigor não ocorre desigualdade social, pela lamentável razão de que não existe aí sociedade no sentido exato da palavra.
Mais uma vez em termos de envelhecimento global, parece fora de dúvida, estatisticamente, que pessoas educadas vivem mais. Daí, portanto, a acentuada importância da educação nesse particular. Sem índices satisfatórios dela na população é difícil, quando não impossível, cogitar de envelhecimento, propriamente.
Existem, é claro, outros fatores de interesse no caso, porém estes dois são nitidamente preponderantes. A tal ponto que o reconhecimento da sua primacial importância torna dispensável insistir nela.


Desvantagens dos idosos

Quando se cogita da relação entre desigualdade social e envelhecimento, principalmente como desafio ao novo milênio, uma dura realidade desde logo se impõe: os idosos, isto é, os personagens do envelhecimento, já constituem para esse efeito um grupo à parte.
À parte e desfavorecido, no seio da sociedade e da própria família. Mais até do que isso, desfavorecido em relação a si mesmo, ao adulto, ao ser humano pleno que cada idoso já deixou de ser. Por mais numerosas, variadas, satisfatórias e especiais que sejam as condições individuais das crescentes exceções a essa regra geral, ela permanece de pé. Daí a extrema complexidade da questão.
O descompasso pessoal entre o idoso e o adulto é uma realidade que não podemos desconhecer. Esforços médicos e outros no sentido da desejável uniformidade já reduziram sensivelmente as diferenças, porém estão longe de eliminá-las. Expressivo exemplo nesse particular é o repetido surgimento de medicamentos destinados a manter o apetite sexual em idades avançadas; eles em geral são eficazes, embora, naturalmente, dentro de limites.
É da condição humana, melhor dizendo, da natureza humana, que a vida tenha normalmente uma parte ascendente, por assim dizer, e outra descendente. Sabemos que a primeira vai do nascimento até o fim da fase adulta; e aí começa a segunda fase, considerada velhice, ainda que seus limites sejam bastante precários e o emprego desse termo e de seus cognatos, tendo à frente “velho”, haja deixado de ser de bom tom. E a idéia é que, se não conseguirmos evita-la, devemos empenhar-nos em poupá-la dos seus inconvenientes.
É óbvio que seria prioritário pôr termo às cruéis modalidades de desigualdade social que o novo milênio ainda encontra, algumas das quais recordei antes; e devemos reconhecer que em certa medida isso é possível. Por exemplo, a escravidão já deixou de ser legalmente reconhecida; e o mesmo aconteceu com as castas indianas, embora elas continuem existindo abertamente.
Da mesma maneira, devemos esperar que prossigam e se intensifiquem os esforços para atenuar as inevitáveis diferenças entre as duas fases da vida. Daí a importância de programas voltados especificamente para idosos. A esse respeito nunca será demais evocar esta conhecida e inspiradora verdade: “Mais importante do que acrescentar anos à vida é acrescentar vida aos anos.”


Perspectivas demográficas

No tocante à evolução quantitativa da população, não existe unanimidade entre os demógrafos, mas a grande maioria deles entende que o crescimento continuará por muito tempo ainda, até atingir cifras catastróficas. Para a minoria discordante, o incremento populacional começará a perder força em meados deste século e não chegará a produzir os terríficos efeitos previstos pelo outro lado.
Em qualquer hipótese, acrescentam eles, haverá tempo para encontrar meios de evitar o pior.
Entre os pessimistas, se assim se pode dizer, há quem sustente que em verdade já estamos sentindo de várias formas os efeitos negativos do rápido aumento da população.


Previdência social

Técnicos, especialistas, estudiosos e autoridades da previdência social e programas congêneres vêem aí o setor mais vulnerável a esses efeitos. Muitos afirmam categoricamente que eles já se vêm fazendo sentir, ainda que de maneira indireta. A questão é complexa, porém eles parecem estar com a razão.
Um ponto importante aqui, nem sempre examinado com suficiente atenção, é que para a previdência social, mais do que o aumento da população, e, portanto, dos seus beneficiários, pesa a maior duração da vida destes, com a conseqüente extensão mais prolongada dos benefícios respectivos.
Os trabalhadores antigos morriam pouco depois de aposentados, ao passo que os de hoje permanecem muitos anos nessa situação, sendo freqüentes os casos de pessoas que vivem mais tempo aposentadas do que viveram em atividade, como contribuintes. Sabemos que esses casos são naturalmente auspiciosos sob os aspectos pessoal e familiar, porém seu crescente número é um dos mais prementes problemas que a previdência social tem de resolver, como condição especial de subsistência da eficaz modalidade de proteção que ela constitui; e portanto como fator de atenuação da desigualdade social, em qualquer idade.


Dois livros e dois artigos

O ensaísta alemão Frank Schirrmacher escreveu dois livros de grande interesse para o nosso tema. Na medida em que suas conclusões e previsões procederem, as repercussões das novas realidades sobre o envelhecimento não poderão deixar de ter conseqüências e implicações no tocante à desigualdade social.
O primeiro, do ano passado, já foi traduzido para o português, com o título A revolução dos idosos. O outro, deste ano, ainda não, salvo engano, mas já foi traduzido para o francês, com o curioso título Lê réveil de Mathusalem (O despertar de Matusalém), que corresponde, literalmente, ao título original em alemão e que, mediante a figura bíblica simbolizadora da idade avançada, dá idéia do conteúdo da obra.
O primeiro livro trata basicamente da perspectiva que seu título aponta, com algumas indicações adicionais, e afirma: “Em poucos anos nossa sociedade viverá um choque comparável a uma guerra mundial: seu próprio envelhecimento.” Schirrmacher se apóia aí no demógrafo James Vaupel, também alemão. Seu novo livro despertou especial atenção, por exemplo, da acatada revista suíça L’Hebdo. Seu redator-chefe, Alan Jeannet, dedicou-lhe preocupante editorial, considerando-o “um livro luminoso” e “um brado de alarme”. Lembrando que questões menos importantes são objeto de descabida preocupação, Jeannet encarece especial atenção para a que Schirrmacher suscita e expõe.
Esta monografia já estava a bem dizer concluída quando li, em Seleções do Reader’s Digest, o animador artigo “Jovem para sempre”, de J. Alex Tarquínio, com esta epígrafe: “Sabe quanto tempo viveríamos se tivéssemos dois terços humanos e um terço máquina? Alguns especialistas dizem que para sempre...” Trata-se principalmente de um levantamento das pesquisas e estudos voltados para a extensão da existência humana, a começar pelas causas e características do envelhecimento. Daí seu interesse para o nosso tema, embora se trate de artigo jornalístico.
Outro artigo jornalístico de interesse para o nosso tema aparece por coincidência na mesma publicação: “Quando seus pais dependem de você”, de Viviane Nogueira, com úteis considerações e informações sobre o que seu título indica. A riqueza das citações de trabalhos e especialistas inclui, por exemplo, a acatada demógrafa Ana Amélia Camarano.


DESAFIO MILENAR


Milenar ou eterno?

O novo milênio tem pela frente uma série de desafios, cada qual mais complexo e mais grave que os demais. O que o nosso tema propõe é apenas um deles. Importante e dificílimo, como tudo que se refere ao ser humano. Assim, a primeira consideração a respeito parece ser no sentido não só da realidade e seriedade do desafio mas da sua anterioridade a este novo e terceiro milênio.
Milênios, conforme sabemos, são unidades cronológicas da era cristã, mas decerto havia antes de Cristo pelo menos desigualdade social, embora não envelhecimento tal como conhecemos. Nesse particular talvez fosse cedo, naqueles remotos tempos, para pensar em sociedade nos moldes de hoje.
Seja como for, parece correto entender que o desafio de que se cogita já o era para cada milênio anterior ou para antes deles. Recordo-me de ter lido em algum lugar que é um desafio milenar, não no sentido clássico deste termo, porém com relação a qualquer período histórico realmente longo. Indo um pouco além, não seria impróprio admitir que a desigualdade social, já agora ligada especificamente a envelhecimento, seja eterna e inevitável.


Condição humana

Na medida em que a sociedade encontra dificuldade para eliminar ou sequer amenizar sensivelmente a desigualdade, específica ou genérica, ganha terreno a idéia de que o fenômeno não é de natureza social ou individual, porém se prende mais de perto à natureza humana, como uma de suas complexas características.
Os defensores desse entendimento acreditam também que sua aceitação tornará mais viável combater com êxito a desigualdade social, não no envelhecimento apenas, mas em qualquer idade. No fundo o que temos aí é uma crença na possibilidade de aperfeiçoamento da condição humana e por conseguinte menor dificuldade para fazer frente ao desafio proposto.


Perspectiva ou aspiração?

A crença na viabilidade de bons resultados nessa complexa matéria pode ser considerada uma perspectiva favorável, porém não devemos esquecer que a rigor ela pode ser menos perspectiva do que aspiração.
A história registra pelo menos um exemplo oficial, legal, de conquista nessa área: a abolição da escravatura. Mas esse próprio exemplo é precário, pois de certa maneira e em alguns lugares continua havendo escravos. Em qualquer hipótese precisamos conservar a confiança na possibilidade de melhorias. Ainda que ofereçam pouca esperança, perspectivas valem mais que aspirações.
Além disso, sabemos que em qualquer setor da vida humana tudo acontece hoje mais depressa do que nunca. No milênio anterior ocorreram no mundo mais coisas do que até então, como mostra a conhecida noção de aceleração da história.
Por conseguinte, não é impossível que aperfeiçoamentos desejáveis sobrevenham mais depressa do que se imagina. Na medida em que acreditemos neles a perspectiva poderá ficar mais próxima, ou a aspiração transformar-se na perspectiva de algo viável ou concreto.


Qualidade de vida

A despeito das inevitáveis restrições individuais, familiares e sociais que o envelhecimento acarreta, são indiscutíveis as conquistas já alcançadas pelos idosos, em matéria de saúde, educação, participação na família e na sociedade, qualidade de vida. Não se trata apenas de vida mais longa; porém de vida melhor. Principalmente com menos desigualdade social. Infelizmente esses avanços quase que só se verificam nas sociedades onde existem condições para a sua ocorrência; e até mesmo nos países desenvolvidos encontramos essa inevitável restrição. Ela pode ser menos aguda ali, menos característica, menos evidente, porém dificilmente deixará de existir; e nem sempre guarda relação especial com o envelhecimento.
É óbvio que as conquistas dos idosos, que lhes proporcionam condições de vida mais satisfatórias, têm que ver com o conjunto desigualdade social/envelhecimento, como fatores de padrão e qualidade de vida. Da mesma maneira, modificadas, ampliadas ou reduzidas, elas decerto permanecerão em vigor no novo milênio, nos seguintes e mais adiante ainda. Oxalá.


Conclusão

Desafio ao lado de outros


Todas as fases da história têm seus desafios e suas conquistas, sem falar nas suas derrotas. Umas mais do que outras, naturalmente. Principalmente os desafios e conquistas parecem renovar-se e se ampliar com o passar do tempo, isto é, dos anos, dos séculos e até, em determinados casos, dos milênios. O novo milênio da era cristã em que acabamos de ingressar não poderia fugir à regra geral, à ordem histórica. Vai ter de enfrentar diferentes problemas, a começar pelos que vêm do passado, e devemos esperar que resolva ou amenize alguns deles.
Poucos desafios terão o porte e a complexidade do que constitui o nosso tema; e poucos são tão importantes para o ser humano, sobretudo quando se cogita das ligações entre uma questão genérica, a desigualdade social, e um fenômeno específico, o envelhecimento.
Para enfrentá-lo o novo milênio terá, como o passado histórico teve, de começar por outros que fazem parte dele. Justificando o que afirmo aqui, sem dar novidade, enumerei antes algumas modalidades de desigualdade social, nem sempre coincidentes, em natureza e características, com a desigualdade social do nosso tema. Da mesma maneira, focalizei em síntese alguns aspectos do envelhecimento que em geral dão origem a situações especiais não enquadradas no âmbito geral da desigualdade social.
Repetindo e resumindo, a questão conjunta desigualdade social/envelhecimento constitui sem dúvida crucial desafio para o novo milênio e decerto continuará constituindo para os milênios vindouros e provavelmente por todo o sempre.


Mínimo vital satisfatório

A extrema complexidade da questão torna difícil pensar em sugestões concretas de solução. Entretanto, existem razões para acreditar que no novo milênio, ou depois dele, será viável encontrá-las pelo menos em parte.
Ao que tudo indica, o melhor caminho para isso seria combater caso a caso as causas das diferentes modalidades de desigualdade social. Vimos que isso ocorreu, por exemplo, no tocante à escravidão. Sabemos também que na Índia tem alcançado promissor êxito o empenho de acabar com as castas, já proibidas pela Constituição.
No Brasil a efetivação de direitos dos idosos é promissora, embora ainda mais modesta na prática do que na letra. Nesse particular cabe um registro auspicioso: a implementação do Estatuto do Idoso (Lei no 10.741, 01.10.2003). Também aqui está no Congresso projeto do Estatuto de Igualdade Social, prevendo-se a possibilidade da sua aprovação no próximo ano, em 21 de março, Dia Internacional da Luta contra o Racismo e o Preconceito. Por ocasião da recente Copa do Mundo de futebol, a FIFA promoveu intensa campanha antiracismo, exibindo grandes cartazes antes de cada jogo.
Fora disso, ou melhor, além disso, ocorre-me uma idéia que já li e ouvi mais de uma vez, porém cuja fonte não registrei. Refiro-me ao que a maioria chama de renda mínima ou rendimento mínimo e que tem no Senador Eduardo Suplicy um dos seus mais autorizados e dedicados preconizadores. Ele reuniu suas idéias a respeito de um Fundo Brasil de Cidadania no livro Renda da cidadania: a saída é pela porta; e projeto de lei de sua autoria nesse sentido já foi aprovado pelo Senado, estando em discussão na Câmara dos Deputados. Estas informações são da jornalista Giovana Mollona.
Em síntese, trata-se de a sociedade fazer com que cada um dos seus membros tenha um rendimento que lhe assegure razoável padrão de vida; quem não tiver recursos de outra fonte que atinjam esse mínimo receberá da sociedade, a fundo perdido, um auxílio equivalente a parte ou ao total dele.
Uma vez que a desigualdade social está ligada muito de perto à insuficiência de recursos econômicos, os meios próprios, no valor desse piso, garantirão em princípio um mínimo dela, se é que existe gradação nessa matéria.
De igual modo, na medida em que esse valor básico puder ser elevado até, digamos, a média dos recursos econômicos individuais, pelo menos sob esse aspecto a desigualdade social se reduzirá sensivelmente.
É óbvio que as coisas não se passariam com a tranqüilidade com que estão sendo enunciadas aqui. A desigualdade social não se prende apenas a questões econômicas; porém sem dúvida está muito ligada a elas; e dificilmente se chegará àquela sem passar por estas.
Assegurando-se um padrão básico satisfatório de condições de vida, continuaria, naturalmente, havendo para os idosos, como para todas as idades, diferenças capazes em última análise de acarretar desigualdade social.
O que deixaria de existir, de modo geral, seriam os dramáticos contrastes que conhecemos hoje, como formas agudas de desigualdade social. E parece fora de dúvida que os beneficiários dessa nova situação seriam os idosos, já que se reduziriam os inelutáveis efeitos do envelhecimento.
Dito de outra maneira subsistiriam contrastes de padrões existenciais, com algumas famílias, nelas incluídos os seus idosos, vivendo melhor que outras, até mesmo por motivo de preferências individuais; e essas diferenças são úteis, pois sem elas não haveria progresso.
Talvez se trate, como admiti antes em termos genéricos, mais de uma aspiração do que de uma perspectiva. Entretanto, o problema é tão crucial que qualquer possibilidade de solução, ainda que parcial, merece ser examinada com interesse.
É sobretudo nesse sentido que devemos encarar com otimismo o desafio que o conjunto desigualdade social/envelhecimento representa para o novo milênio.


CELSO BARROSO LEITE – Especialista em Previdência Social

Confederação Nacional do Comércio –
www.portaldocomercio.org.br

domingo, 29 de julho de 2007

A alegoria da caverna

"Eles são desde a infância, prisioneiros dos grilhões"

A caverna e seus prisioneiros

[Sócrates] - Imagine a situação que eu vou te descrever. Imagine uma gruta subterrânea, muito aberta em toda a sua profundidade do lado da luz do dia; e nessa gruta estão homens prisioneiros, desde a infância, em grilhões que lhes submetem tanto as pernas e o pescoço, que eles não podem nem mudar de lugar nem virar a cabeça, e só vêm o que está na frente deles. A luz lhes vêm de um fogo aceso à uma certa distância do alto atrás deles. Entre esse fogo e os cativos se eleva um caminho, ao longo do qual imagine um pequeno muro semelhante a esses tabiques que os mostradores de marionetes colocam entre eles e os espectadores, e por cima dos quais aparecem as maravilhas que eles mostram. [....] Imagine ainda que ao longo desse muro passam homens carregando objetos diversos que parecem ser assim por cima do muro, figuras de homens e de animais de madeira ou de pedra, e com mil formas diferentes ; e naturalmente entre aqueles que passam, alguns se falam entre eles, outros não dizem nada.[....].
Se agora nós arrancarmos o prisioneiro de sua caverna contra sua vontade, e que nós o arrastamos pela senda rude e escarpada, até a claridade do sol, essa violência não excitará seus lamentos e sua cólera? E quando ele terá alcançado o grande dia, sobrecarregado de seu esplendor, poderá ele distinguir qualquer um dos objetos que nós chamamos seres reais? [.....] Somente pouco a pouco seus olhos poderão se acostumar a essa região superior. O que ele vai discernir mais facilmente, será primeiro as sombras, depois as imagens dos homens e dos outros objetos que se desenham na superfície das águas, e em seguida os objetos eles mesmos. Nesse momento ele elevará seus olhares em direção do céu, no qual ele suportará mais facilmente a vista, quando ele contemplará durante a noite a lua e as estrelas, que ele não poderia fazê-lo, durante o momento em que o sol ilumina o horizonte. [....] No fim ele poderá, eu penso, não somente ver o sol nas águas e em tudo onde sua imagem se reflete, mas contempla-lo em si mesmo no seu verdadeiro lugar. [.....] Após isso, começando a raciocinar, ele chegará a conclusão que é o sol que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que ele é de uma certa maneira o princípio de tudo o que nossa gente via lá na caverna.

- Platão, A República, VII, 514A - 516B, Trad. V. Cousis, Ed. Rey et Gravier, 1834


Analogia do Bem e do Sol

[Sócrates] - Eu penso vos dizer, se assim vocês desejam, o que me parece ser o filho do bem e a sua imagem mais semelhante. [.....] É o sol que eu compreendo por filho do bem, que o bem gerou à sua própria semelhança, e que é, no mundo visível, com relação a vista e aos objetos visíveis, o que o bem é no mundo inteligível, com relação a inteligência e aos objetos inteligíveis. [....] O sol dá as coisas visíveis ainda a vida, o crescimento e o alimento, sem ser ele mesmo a vida. [...] Da mesma maneira você pode dizer que os seres inteligíveis não possuem apenas o bem que os torna inteligíveis, mas além disso o ser e a essência deles, se bem que o bem nele mesmo não seja essência, mas alguma coisa muito acima da essência em dignidade e em potência. [....] Conceba então que eles são dois, o bem e o sol: um é o rei do mundo inteligível; o outro é o rei do mundo visível.

- Idem, VI, 506E - 509D.


O Sìmbolo da Linha: Os Graus do Ser
A...Domìnio sensìvel .( o que é percebido pelos sentidos )
B.....Domìnio inteligìvel ( o que é percebido pelo espìrito )
Gênero de objetos
[ Reflexos,ilusões [ sombras, imagens......] (a)
[objetos fabricados[seres vivos ](b)
[objetos e teorias[ matemàticas] (c)
[Idéias ] (d )
Modo de conhecimento
(a) Conjetura
(b) Crença
(c) Pensamento raciocinante
(d) Intelecto ( intuição das idéias )
....................................................................Bem ( Um )
.................................................................."Além da essência"


A alegoria da caverna ou o caminho da sabedoria

A caverna, motivo herdado do pitagorismo, ilustra um lugar tenebroso e ambíguo, que Platão no diálogo" Phédon" já tinha comparado ao fundo lodoso de um charco : nossa estada terrestre! Os homens acreditam ser livres, mas seus hábitos de pensamento ("laços", "correntes") são como os hábitos de um prisioneiro, obnubilados por sombras fugazes que eles acreditam desde a infância ser a única verdadeira realidade. O interior da caverna é então a imagem de nossas sociedades; super ocupadas e repletas de simulacros. Só a educação pode segundo Platão nos permitir de sair da ilusão.


Dos reflexos as idéias

De uma maneira geral, a educação platônica, compreendida como uma "arte de conversão", visa a desviar a alma do material e a lhe fazer colocar o olhar na realidade verdadeira, a realidade das Idéias. Isto se opera através um curso científico (aritmética, geometria, astronomia, harmonia) que purifica os olhos da alma. Para Platão, como também para Pythagore, as ciências, inseparáveis da filosofia, são os instrumentos que permitem a purificação do espírito.
Platão utiliza também, no fim do livro VI, uma outra analogia, uma linha dividida em segmentos correspondendo aos graus de realidade do ser. (Ver acima, aproximativo). A esquerda, o mundo sensível (parte A), dividido em dois, os objetos reais (b) (seres vivos - homens, plantas, animais, etc), produtos da atividade humana - cadeira, navio, estátua, etc), e suas imagens (a) (representações, sombras, quimeras da imaginação, etc). A direita, o domínio dos seres perceptíveis pelo espírito, os inteligíveis (B), ele mesmo dividido em duas partes : os objetos da razão (c) por exemplo, as teorias - e as figuras matemáticas), e as Idéias platônicas (d). Enfim, completamente à direita, além do ser, o que Platão chama o Bem.
O filósofo transpõe essas divisões na alegoria da caverna: ao prisioneiro saindo da gruta subterrânea para contemplar o sol corresponde à alma que, voltada primeiro para o material (b), se interessa em seguida a sua estrutura matemática (c), depois, a partir das matemáticas, se eleva as Idéias (d). No grau inferior da realidade, os seres só são percebidos primeiro através de seus reflexos: assim, a Idéia do círculo é percebida a partir de uma figura circular. Só pode existir, segundo Platão, a dialética que possa diretamente ver as Idéias e o Bem, objetivo da educação.
O tema do Bem é o aspecto mais misterioso da filosofia de Platão. Ele já aparece no livro "O Banquete" como o Belo em si. No livro "A República", ele é mencionado várias vezes, e Platão utiliza uma terceira analogia para nos fazer concebê-lo: a do sol. O sol, "filho do Bem", permite de ver o mundo e proporciona à todos os seres vivos a luz e o calor necessários ao ciclo vital. Da mesma maneira, o Bem, luz eterna, é a origem das Idéias e permite que nós possamos percebê-las. Ele está "além da essência", quer dizer de toda forma de existência, material ou espiritual. Compreender essa visão do mundo é difícil para o pensamento moderno, pois ele acredita espontaneamente que ele tira essas idéias dele mesmo ou do mundo material. Mas alguns científicos, sobretudo matemáticos e físicos - Gödel, Penrose - se reclamam hoje de uma forma de platonismo, segundo a qual as matemáticas não são elaboradas pelo homem, mas apenas descobertas.

- O.S


Gödel, Kurt (1906 - 1978)


Lógico americano de origem austríaca. Ele estabeleceu entre outros em 1930, o "teorema da incompletude", que demonstra o limite das possibilidades de formalização completa das teorias matemáticas.


Penrose, Roger (nascido em 1931 )

Matemático britânico, professor em Oxford e grande vulgarizador das ciências, desenvolveu entre outros a teoria dos "buracos negros" - "trous noirs".


Pythagore (572 – 490 a.c.)

Filósofo e matemático grego, nativo de Samos em Ionie, na costa turca atual. Mas ou menos em 530 a.c, ele funda em Crotone, na Itália, uma comunidade religiosa que exerce uma grande influência política, antes de ser expulso por uma revolta popular. Ele desenvolveu as matemáticas místicas e um sistema filosófico em que os números têm uma função de princípios. Nós lhe devemos igualmente a descoberta dos números irracionais. Nenhum de seus escritos foram conservados.