quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Antony Sutton: Um homem que pagou o preço da verdade

Mídia@Mais - https://www.midiaamais.com.br


Exceto pela consciência moral, consciência dispensa adjetivação. As ditas consciências ecológica, social, política, histórica, crítica, etc., são meras construções verbais de ocasião, e como tantas outras, são úteis apenas dentro dos discursos de seus autores e seguidores, dentro dos sistemas fechados de pensamento, das teologias civis que têm como traços mais ou menos comuns a obrigação de primeiro acreditar, a proibição de questionar e a sobreposição de sentidos outros às palavras, sentidos esses que só fazem sentido dentro dos respectivos sistemas. Não por acaso, essa formulação em circuito fechado é a marca de filósofos e pensadores gnósticos, revolucionários, niilistas, ou, simplesmente, propagandistas de esquerda: Kant, Rousseau, Hegel, Marx, Gobineau, Dilthey, Gadamer, Habermas, Marilenas, Franciscos, Mincs, Bettos e Betinhos.

Essa vigarice, gigantesca e pretensiosa, evidentemente já é ruim por si só, pois tais sistemas não buscam a apreensão e o conhecimento de aspectos da realidade, quer através das ciências particulares ou da filosofia, mas ao contrário, buscam encaixar, com a delicadeza de um Mike Tyson, aspectos específicos da realidade nesses sistemas, com a intenção demiúrgica de, na marra sistemática, transformá-la por inteiro. É a revolta gnóstica: não podendo de fato recriar ou alterar a estrutura da realidade, os revoltosos criam sistemas onde a transformação não somente parece possível, como é a única justificativa de sua formulação. Danem-se as consequências e calem-se os discordantes, [tal] como atualmente atestam os conflitos entre os discípulos e os hereges do ambientalismo enragé”.

Não só reafirmo o que disse acima, como acrescento que o interesse em estudar essa “nova” religião política que pretende salvar o mundo de nós mesmos vem de há pelo menos dez anos e no bojo de estudos mais abrangentes sobre geopolítica e filosofia política (ou ciência política), estudos que ainda mantém a minha esperança de saber mais ou tentar conhecer melhor as formas e origens do poder que comanda grande parte das ações dos adeptos de quase todas as ideologias. Para tanto, recorri às obras de grandes autores e grandes filósofos, a começar por Platão (o fundador da ciência política), Aristóteles (seu maior e mais brilhante aluno), e para encurtar a lista e poupar o leitor, concentrei-me (até onde minha capacidade permitiu) nas obras de Eric Voegelin, que pautam as linhas acima destacadas em itálico. Porém, é um fato conhecido daqueles que tentam estudar um assunto com alguma seriedade ser praticamente impossível evitar outras leituras, menos teóricas, menos filosóficas: é preciso ler também vários documentos históricos e análises, por vezes conflitantes, mas em alguns pontos, inadvertidamente complementares e estarrecedoras, e exatamente porque não se tratam das “teorias da conspiração” que pululam na Internet, mas de fatos comprováveis e testemunhos.
Pois o que o leitor do Mídia@Mais tem logo mais a seguir é a última aparição em público, numa entrevista filmada em1980, de um dos maiores historiadores e pesquisadores do século XX, Antony C. Sutton, na qual ele relembra parte daquilo que pôde constatar ao longo de muitos anos como pesquisador da Hoover Institution, Stanford University (mais precisamente como Research Fellow do Hoover Institute of War, Revolution and Peace) e como autor e pesquisador independente a partir de 1975. A entrevista que hoje o leitor do M@M tem à disposição é relativamente antiga e já está na Internet (em partes ou em formato integral) há uns três anos, salvo engano. A grande novidade é que esta é a primeira vez que um site (ou qualquer outro veículo) brasileiro apresenta uma transcrição traduzida para a língua portuguesa dessa entrevista. Mas se coube a mim a tarefa da transcrição/tradução – e cabe também a mim a responsabilidade pelas suas falhas – o “projeto” Sutton já vinha sendo acalentado pelos editores e pela redação do M@M desde 2009: este é, com efeito, um trabalho de equipe. Como nota de rodapé, acrescento que, internamente, já vínhamos discutindo a tese de que as eleições presidenciais americanas, bem com a escolha de líderes democráticos em outros países, acima de certo patamar, eram e são um jogo de cartas marcadas. Ou em outras palavras: as disputas existem, as correntes políticas de fato se opõem, os eleitores votam naqueles candidatos que mais lhes agradam ou convencem, mas há outro poder, maior e quase invisível que há muito vem determinando quem transitoriamente ocupa os cargos ditos “de poder”. Usando de uma imagem um tanto tosca, é como se aos presidenciáveis americanos, antes ou depois de eleitos, fosse apresentada a dura realidade: “OK. Você venceu, mas você manda e faz até onde não nos atrapalhar, entendido?”. Também é possível que a escolha dos candidatos já passe por esse crivo invisível aos olhos do público. Esse poder consiste numa elite mundial, originalmente anglo-americana ou até anterior, com pretensões dinásticas, que pouco se importa com as ideologias citadas de início: essas seriam meros instrumentos de manipulação segundo a dialética hegeliana. Muitos políticos, intelectuais de segunda linha, “celebridades” e as sociedades em geral não são os verdadeiros agentes, não totalmente. Antony Sutton confirma essa tese, ou por outra, ele já a tinha comprovado, mas foi parcialmente silenciado. Assim, quem de fato age é a estrutura montada por essa elite de banqueiros internacionais que alguns chamam de “governo mundial”, “governança mundial”, “nova ordem mundial”, “comunidade internacional”, etc., etc. Mas que o leitor não tome “banqueiros” como um libelo contra o capitalismo, pois essa elite o considera útil até certo ponto, pois capitalismo implica riscos, competição, confiança e liberdade genuína (não custa lembrar: dar crédito = credere = confiar), e aquilo que é menos desejado por essa elite (que inclui próceres da esquerda) são riscos.
Na verdade, a única ideologia desse grupo antigo e renovável por cooptação e recrutamento é também a criação de um mundo novo, um mundo com cerca de 1,2 bilhão de habitantes (somos hoje mais de 6 bilhões)... E se falamos das eleições americanas com mais ênfase é por dois motivos: 1- É delas que Sutton trata; 2- Os Estados Unidos foram e são o primeiro e maior alvo de todas as grandes experiências de engenharia social desde o início do século XX até hoje. É preciso primeiro controlar e mudar o mais forte.
A entrevista de Antony Sutton revela um pouco das pressões e perseguições que sofreu por conta de suas pesquisas e livros. Sua vida profissional foi praticamente destruída: foi um homem que pagou um alto preço por dizer verdades. Para mais detalhes de sua notável biografia, clique aqui, aqui e aqui.
Finalizando esta introdução, o Mídia@Mais faz uma sugestão e um pedido ao leitor:
  1. Não tome a entrevista transcrita como se esta fosse “A” Pedra da Roseta; na medida do possível, busque mais informações nos livros citados na bibliografia e as compare com a “história” contada alhures;
  2. Há três ou quatro lacunas na transcrição, assinaladas por “(?)”. Se o leitor/ouvinte com ouvido mais apurado conseguir confirmar os nomes (com as devidas referências), agradecemos desde já.
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Entrevista de Antony Sutton a Stanley Monteith, 1980:Wall Street and the Rise of Hitler
Vídeo legendado em português: http://vimeo.com/13790265
Entrevistador: Dr. Stanley Monteith, Radio Liberty.
Transcrição e tradução: Henrique Dmyterko
Legendas: Antony Sutton: AS, Stanley Monteith: SM
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Transcrição:
SM: Dr. Sutton… O senhor escreveu três séries de livros enquanto foi fellow pesquisador na Hoover Institution. O senhor poderia me explicar qual é, basicamente, o tema desses livros?
AS: Sim. A primeira série de livros, enquanto eu estava na Hoover Institution, Stanford University, trata, essencialmente, das transferências de tecnologia ocidental para a URSS. Cada um dos três livros [dessa primeira série] cobre um período de tempo, começando em 1917.
SM: Então o senhor escreveu uma segunda série sobre Wall Street...
AS: Sim, esses eram livros comerciais, no sentido de que não eram estudos acadêmicos, mas destinados ao público em geral e tratam da construção do socialismo bolchevique na Rússia, daquilo que nos EUA poderíamos chamar de socialismo do bem-estar social [welfare state] e também do nacional-socialismo de Hitler na Alemanha. Cada um dos livros examina o financiamento e a contribuição de Wall Street, de banqueiros internacionais, para o desenvolvimento dessas formas específicas de socialismo.
SM: Em suas pesquisas e análises acaba sendo revelado o que acontece em nossa sociedade. O senhor enfrentou obstáculos ou resistências para desencorajá-lo a conseguir desencavar as origens e revelar os bastidores do envolvimento dos Estados Unidos no financiamento do comunismo internacional?
AS: Sim, definitivamente... Por exemplo, quando eu estava na Hoover Institution, em 1972, eu deveria ir a Miami Beach fazer um relato diante do RNC (Comitê Nacional Republicano). Apesar de um Congressista ter entregado em mãos às agências de notícias cópias desse meu relato/testemunho, essas agências se recusaram a transmiti-lo aos jornais. Quando voltei à Califórnia, fui chamado à sala do diretor do Instituto, que me instruiu, em termos muito claros, para não mais proferir discursos tais como aquele, e que tais informações não deveriam ser tornadas públicas.
SM: E a informação era a de que estávamos fornecendo a URSS a tecnologia para desenvolvimento de seu potencial bélico...
AS: Sim... Naquela época estávamos envolvidos no Vietnã e como você sabe, os soviéticos estavam suprindo os norte-vietnamitas...
SM: Isso foi em 1972...
AS: Sim, 1972. Por exemplo, eu sabia que a fábrica de automóveis e caminhões Gorky, que a propósito, foi construída pela Ford Motor Co. ... que a Fábrica Gorky, na Rússia, produz a linha de veículos GAZ [Gorkovsky Avtomobilny Zavod]... e esses veículos foram vistos na trilha Ho-Chi-Minh. Nós estávamos fornecendo equipamentos à Gorky em meio à guerra contra os norte-vietnamitas e esses caminhões estavam sendo usados para carregar munição e suprimentos destinados a matar americanos. Eu achava que aquilo era moralmente errado. Eu disse isso em Miami Beach e na Hoover Institution. E foi esse tipo de informação que foi suprimida.
SM: E o que aconteceu no que diz respeito às suas atividades na Hoover Institution?
AS: Bem... Eu não dei muita atenção às advertências. Publiquei um livro sobre o suicídio nacional, no ano seguinte, [National Suicide: Military Aid to the Soviet Union, 1973] livro que fazia um sumário da assistência militar que fornecíamos a União Soviética. Quando o livro ficou pronto, sofremos pressões para interromper a publicação... pressões feitas aos editores e a mim, pessoalmente. E eu... eu achei que não deveria mais aturar tais pressões e poucos anos depois deixei a Hoover Institution. Desde 1975, sou um autor independente sem mais nenhum tipo de ligação com a Hoover.
SM: Vamos voltar um pouquinho, aos antecedentes do financiamento da máquina de guerra alemã, a mesma contra a qual lutamos no período entre 1941 e 1945... Poderíamos começar, ante de mais nada, com o financiamento original de Hitler, entre 1922 e 1923, quando ele ainda estava fazendo esforços para atingir alguma proeminência na Alemanha?
AS: O financiamento original veio apenas em parte da Alemanha mesmo. Um dos mais importantes a assinalar, na questão desse financiamento em 1922 foi Henry Ford. De fato, mais tarde, Henry Ford recebeu uma medalha,em 1938, por seu apoio financeiro ao Partido Nazista (Nacional Socialista) quanto este ainda estava em sua fase de formação. Então, é claro, depois do fracassado putsch,em 1923, Hitler foi preso, dando início a uma nova era na ascensão de Hitler.
SM: E finalmente chegou ao poder em 1933, via processo eleitoral. E o que há a dizer sobre o financiamento das atividades eleitorais de Hitler em 1933?
AS: Isso eu pude rastrear. Na verdade, pude rastrear com precisão, nos registros de Nuremberg, uma série de recibos de transferências do Delbruck, SchicklerBank, em Berlim, transferências feitas para uma conta controlada por Rudolph Hess. Este foi o fundo usado para financiar o acesso de Hitler ao poder em março de 1933. Entre as grandes corporações que fizeram transferência para esse fundo, eu encontrei não apenas a IG Farben, o que já era bastante conhecido, mas também a filial alemã da General Electric, AEG (Allgemeine Elektrizitats Gesellschaft), na época diretamente controlada pela GE americana... também a OSRAM...
SM: E quais eram as ligações entre a OSRAM e a General Electric?
AS: A General Electric internacional tinha o controle da GE alemã (AEG) e também parte do controle acionário da OSRAM na Alemanha.
SM: Então temos a Ford e a GE ajudando a financiar a ascensão de Hitler ao poder. Havia outras grandes corporações americanas envolvidas?
AS: Sim, definitivamente. A Standard Oil através de sua parceria técnica com a IG Farben... Por exemplo, a Alemanha não poderia ter ido à guerra em 1939 sem o tetra-etil (chumbo tetra-etil). O tetra- etil é necessário para elevar a octanagem do combustível de aviação... A Alemanha não tinha meios para produzi-lo. O tetra-etil foi desenvolvido em laboratórios nos EUA e transferido para os alemães. A Standard Oil apareceu com a idéia de hidrogeinização, que foi essencial para os alemães nos anos 1930 aumentarem a qualidade de sua gasolina de aviação. Essa tecnologia foi transferida para os nazistas. E a ITT, p. ex., (International Telephone and Telegraph), estava intimamente ligada aos nazistas através do Dr. Schröder (Baron Kurt von Schröder ), que era o diretor-chefe das subsidiárias alemãs da ITT. A ITT controlava empresas que fabricavam não somente instrumentos elétricos, mas também a fábrica dos Focke-Wulf, aviões de caça.
SM: Então o que senhor está sugerindo é que corporações americanas ajudaram a financiar a indústria alemã envolvidas no aumento da capacidade bélica?
AS: Corporações americanas, apenas umas poucas delas, não muitas, financiaram Hitler através de suas subsidiárias, transferiram tecnologia, transferiram estoques de material, p.ex., o tetra-etil, antes que os alemães mesmos o produzissem cf. acordo posterior entre Alemanha e os EUA. E também financiaram... P.ex., a Standard Oil, em 1933, financiou o desenvolvimento da fabricação de gasolina na Alemanha, necessária para a II Guerra.
SM: Este é um ponto muito interessante. O senhor poderia dar uma idéia de como a Alemanha obteve petróleo para a II Guerra? Certamente não havia reservas de petróleo em território alemão.
AS: Sim, a Alemanha não tem reservas de petróleo, é um fato. Durante a II Guerra, usou combustível sintético, obtido a partir do carvão e os processos tecnológicos básicos para o desenvolvimento de combustíveis a partir do carvão vieram dos Estados Unidos, essencialmente da Standard Oil, que tinha um acordo de assistência técnica com a IG Farben. E porque a IG contribuiu com cerca de 60% do explosivos usados pela Wehrmacht, entre 40 e 50% da gasolina para a Wehrmacht e para a Luftwaffe, a força aérea alemã.
SM: E como era o entrelaçamento entre a IG Farben e a Standard Oil?
AS: O entrelaçamento era no nível técnico, na troca de patentes, e na assistência tecnológico-financeira. Havia outros laços da IG Farben com os EUA, através de subsidiárias da IG Farben nos Estados Unidos.
SM: E é verdade o que foi afirmado sobre membros do conselho diretor da Standard Oil serem também membros do conselho diretor da subsidiária americana da IG Farben?
AS: Sim... Walter Teagle é um nome que me vem à mente... mas havia vários outros.
SM: Também havia ligações da IG Farben com a Ford Motor Company...
AS: Humm... Não que eu me lembre agora.
SM: Então, basicamente, o que vemos até aqui são companhias americanas fornecendo material, tecnologia e financiamento que tornaram possível a Hitler construir a sua máquina de guerra...
AS: Sim, isto está correto.
SM: Em seu livro “Wall Street and the Rise of Hitler” o senhor fala do padrão de bombardeios aéreos aliados durante a II Guerra e sobre o fato notável e surpreendente de que certas fábricas não foram atingidas, enquanto a maioria das fábricas alemãs foi dizimada. Algumas fábricas ligadas a esses acordos já aludidos, por alguma estranha razão, escaparam aos devastadores bombardeios de saturação dos aliados.
AS: Durante a II Guerra Mundial, o setor industrial alemão de produtos e equipamentos elétricos, era, ou deveria ser um dos alvos primordiais dos bombardeios aliados. Mas na prática, as fábricas da GE alemã não foram bombardeadas. Das dez maiores fábricas, nenhuma foi bombardeada e cerca de meia dúzia de outras tiveram danos mínimos, tais como vidros quebrados, etc. Logo, o que temos aqui é um caso muito interessante: indústrias que deveriam ter sido bombardeadas, não o foram. Por outro lado, temos uma marca de propriedade de tais indústrias, o que levanta algumas suspeitas sobre o porquê de não terem sido bombardeadas.
SM: Mas no que diz respeito a fábricas de material elétrico de propriedade alemã, elas sofreram bombardeios mais pesados?
AS: Eu pesquisei sobre isso. A Siemens, p.ex., foi bombardeada, não há dúvida sobre isso. Mas esse setor industrial, e a Siemens também, não foi tão bombardeado quanto às fábricas de tanques ou de aviões, esse tipo de coisas.
SM: Antes o senhor mencionou uma instalação industrial em Colônia. Esse era um alvo militar prioritário?
AS: A fábrica da Ford em Colônia [Alemanha] deveria ter sido um alvo militar prioritário. P.ex. a RAF (Royal Air Force) bombardeou a fábrica da Ford em Poissy, na França, mas a fábrica da Ford em Colônia, de longe a maior de todas, não foi bombardeada.
SM: Mas os planejadores militares pretendiam bombardear essas fábricas. Ou elas não estavam nos relatórios de alvos?
AS: Bem... Eu vi os relatórios de alvos em Colônia. A existência das fábricas da Ford lá era bem conhecida; eles sabiam que essas fábricas estavam produzindo equipamentos para a Wehrmacht, mas não a bombardearam. Ela estava na lista de alvos designados, mas não foi atingida.
SM: Então, em algum ponto ao longo da linha de comando e planejamento alguém apagou o nome da Ford em Colônia como alvo, enquanto a cidade de Colônia foi totalmente destruída.
AS: Colônia foi destruída, assim como muitas outras cidades na Alemanha foram destruídas. Mas em algum lugar da linha de comando... bem, algo aconteceu. Eu suspeito que isso se deu nos comitês de designação de alvos. E sem dúvida, ordens foram emitidas para não bombardear determinados alvos, ainda que esses fossem alvos militares vitais.
SM: Isso, de alguma maneira, faz lembrar a Guerra da Coreia e Guerra do Vietnã, quando alvos importantes no campo inimigo foram também deixados intocados pelos bombardeios estratégicos.
AS: Eu concordo que isso aconteceu, mas não investiguei o assunto.
SM: Em seu livro “Wall Street and the Rise of Hitler” há uma seção muito interessante a respeito de um fundo especial em nome de Heinrich Himmler. O fluxo de dinheiro para esse fundo, que se estendeu até 1943, 1944, envolvia empresas alemãs fortemente ligadas a empresas americanas e às suas matrizes americanas.O senhor poderia nos falar um pouco a respeito do Fundo Keppler?
AS: O Fundo Keppler, também conhecido como Control S Fund (?), e era o que poderíamos chamar de fundo de reserva pessoal de Heinrich Himmler; ele o usava para seus projetos pessoais... e o que me deixou espantado foi que em 1933 e em 1944, os anos cujos arquivos desse fundo eu pesquisei, mais da metade do dinheiro para esse fundo proveio de corporações americanas. P.ex., em 1933 , a ITT, a Standard Oil, GE e possivelmente a OSRAM, foram contribuintes desse fundo. Até mesmo em 1944, durante a II Guerra Mundial, a ITT estava financiando Heinrich Himmler através de Schröder [Barão Kurt von Schröder ], que era o diretor-chefe das subsidiárias alemãs da ITT. Também descobri que a DAPAG (Deutsche-Amerikanische Petroleum AG), a subsidiária da Standard Oil na Alemanha, também estava financiando Himmler. E isso durante a II Guerra!
SM: Algum desses fatos veio à tona durante as audiências do tribunal de Nuremberg?
AS: Não. Nenhum veio à tona em Nuremberg, ainda que os documentos existam nos arquivos, mas eles não foram publicados.
SM: E o senhor teve acesso direto a esses arquivos?
AS: Sim. Há cerca de quatrocentas toneladas (400 t) disponíveis desses arquivos e muitos deles estão na Hoover Institution, ou cópias de tais documentos, e é por isso que eu os encontrei.
SM: Eu acho que esse é um episódio trágico da história americana, quando o público não percebe as íntimas relações de grandes corporações americanas com o financiamento do nacional-socialismo alemão (nazismo). Agora, eu gostaria de falar um pouco a respeito dos julgamentos de Nuremberg, pois durante esses julgamentos, os nazistas, os generais alemães, os criminosos de guerra alemães foram considerados culpados diante das provas. Algum americano foi indiciado ou condenado em função desse financiamento?
AS: Definitivamente, não! Eu estudei os critérios de definição de “crimes de guerra” segundo o Tribunal de Nuremberg e eu não tenho dúvida de que determinados americanos se encaixavam nos critérios que determinavam o indiciamento por crimes de guerra, mas nenhum deles foi a julgamento.
SM: O senhor acha que houve um esforço consciente para ocultar esses fatos do Tribunal de Nuremberg e do público americano?
AS: Houve tal esforço, uma vez que esses homens de negócios americanos foram muito assertivos ao dizer, em 1946, que não tinham o menor conhecimento sobre o que Hitler estava fazendo. E, no entanto, estavam intimamente ligados ao rearmamento promovido por Hitler. Eu creio que isso não foi publicado pelos jornais da época, mas eu não verifiquei esse detalhe. Mas certamente, nada foi publicado sobre o papel de corporações americanas e de executivos americanos na ajuda a Hitler.
SM: E sobe o financiamento, sobre os empréstimos de grandes bancos americanos e britânicos feitos ao governo de Hitler no período entre 1933 e 1939, quando ele estava se preparando para a guerra?
AS: Bem, é preciso recuar um pouco mais no tempo e dar uma olhada nos chamados empréstimos Young, que eu considero muito importantes, pois do meu ponto de vista, tais empréstimos levaram ao colapso financeiro da Alemanha em 1933.
SM: Esse era o Plano Young (1928)...
AS: Sim, Owen Young, que a propósito, era o presidente do conselho de administração da General Electric. Young atuou como o representante do governo dos EUA nesse plano que levou ao colapso financeiro alemão em 1933, que por sua vez, permitiu a ascensão de Hitler. E subsequentemente, a partir de 1933, há uma série de outros empréstimos. Um bom exemplo é o empréstimo da Standard Oil à Alemanha, no valor de vários milhões de dólares, para construir as instalações alemãs de produção de combustível de aviação. E há outros exemplos.
SM: Bem, eu agora gostaria de entrar no tema do financiamento do bolchevismo, porque eu acho que isso é de importância vital. Poderíamos voltar ao período logo após a 2ª revolução russa, entre outubro e novembro de 1917? O financiamento inicial do movimento de Lênin... como ele estava ligado às corporações americanas?
Houve algum envolvimento americano naquele período entre 1917 e 1918, quando o bolchevismo estava começando se estabelecer firmemente na Rússia?
AS: Sim, houve vários incidentes. O mais importante envolve o “Coronel” William Boyce Thompson, que era o maior acionista do Chase Bank, o atual Chase Manhattan Bank. Num dos meus livros eu publiquei a cópia de um cabograma registrando a transferência de um milhão de dólares, de Nova York a Petrogrado [São Petersburgo], em dezembro de 1917 e mais tarde, o “Coronel” Thompson declarou que esse dinheiro foi dado aos bolcheviques para ajudar a consolidar o seu poder. À época, os bolcheviques controlavam apenas Moscou e São Petersburgo. Esse é um exemplo muito significativo: fundos americanos, um milhão de dólares, transferidos através de um homem de Wall Street aos bolcheviques.
SM: E o senhor publicou esse documento em seu livro “Wall Street and the Rise of Bolshevism”?
AS: Eu publiquei duas declarações. Uma na forma de cópia do referido cabograma e outra, uma cópia do news clip da época, onde Thompson fazia a declaração acerca dessa contribuição
SM: E por que um capitalista americano, um financista americano, ajudaria o bolchevismo?
AS: A única resposta... e isso me intrigou durante anos: “Por quê?”. Pois de acordo com o senso comum, estaríamos em confronto. A única resposta a que eu pude chegar é: mercados cativos. Os Estados Unidos não queriam outro “Estado s Unidos” no mundo. Se você der uma olhada no mapa do mundo, a Rússia é duas, três vezes maior que os Estados Unidos. Imagine tudo isso se transformando num outro “Estados unidos”, num competidor. O que os EUA queriam, ou ainda, o que Wall Street queria era um mercado cativo. E é claro, o socialismo, conforme meus estudos iniciais em Stanford, o sistema socialista é incapaz de inovar; terá de importar inovações e tecnologias do Ocidente. Assim, creio que o objetivo por trás dessa ajuda era encorajar o desenvolvimento do marxismo e de outros tipos de socialismo, por que isso daria as esses banqueiros o controle do mercado mundial, um mercado cativo.
SM: No final da I Guerra Mundial, a Rússia estava devastada pela fome. Os EUA enviaram uma missão de socorro e ajuda; foi a missão Hoover. O senhor conhece os fatos que envolveram a missão Hoover?
AS: Não há dúvida de que em 1922, 1923, a Rússia estava acabada. A produção industrial russa equivalia a oito ou dez por cento da produção em 1913. As pessoas estavam morrendo de fome, centenas de milhares de pessoas. E é claro, a missão Hoover foi organizada para ajudar a Rússia, mas a maior parte dessa ajuda foi para os bolcheviques, que controlavam uma porção muito pequena da Rússia até então. Apenas uma pequena porção da ajuda foi para os “Russos Brancos” (Exército Branco) ou para o extremo oriente.
SM: E então, em 1922-23, Lênin lançou a chamada NEP (Nova Política Econômica), ou série de planos quinquenais. O senhor poderia falar a respeito dos planos quinquenais e do papel desempenhado por grandes corporações americanas e grandes corporações mundiais na construção da União Soviética?
AS: Bem, houve duas fases distintas. A NEP, iniciada em 1923 por Lênin. Eu descobri, e publiquei num trabalho em Stanford, que cada uma das indústrias russas foi reconstruída, reiniciada, por corporações estrangeiras; em sua maioria, alemãs, britânicas, francesas e americanas. Por volta de 1928, a Rússia tinha uma produção industrial quase igual ao dos níveis pré-guerra, ou seja, dos níveis de 1913. Neste ponto, a Rússia passou a pensar em termos daqueles grandiosos planos quinquenais. E em 1928 o GOZ Plan, o comitê de planejamento econômico do governo soviético, apresentou um projeto de desenvolvimento econômico quinquenal inicial, mas esse plano era tão inadequado que recorreram a corporações americanas. Assim, na realidade, os dois primeiros planos quinquenais foram arquitetados nos EUA, por corporações americanas.
SM: E quais eram essas corporações, especificamente?
AS: O projeto do primeiro plano quinquenal foi feito por uma empresa provavelmente muito pouco conhecida do público americano, a firma de arquitetura industrial de Albert Kahn. Albert Kahn era o principal arquiteto industrial nos EUA. Foi a firma dele que estabeleceu os conceitos básicos do primeiro plano quinquenal. E então, nós encontramos, mais uma vez, as mesmas corporações, agora envolvidas na construção de fábricas na União Soviética: a General Electric internacional, Du Pont, Ford Motor Co., Hercules Motor, Cutiss-Wright [motores de aviões] e algumas outras cujos nomes já estão esquecido hoje: Vultee Aircraft e Chance-Vault Aeoronautical. Então, companhias americanas entraram em cena, construíram o primeiro plano quinquenal, mas o mais importante é que os soviéticos então copiaram esses planos e isso dá conta do enorme aumento da produção industrial. Os soviéticos pegaram esses equipamentos iniciais e os copiaram, às centenas.
SM: E quanto à Ford Motor Co.? Qual o seu papel nisso? Foi importante?
AS: Certamente. A Ford construiu a fábrica Gorky. A Gorky produz a série de veículos GAZ [Gorkovsky Avtomobilny Zavod]; são caminhões e automóveis. E logo no início dos anos 1930 você vê que a GAZ tinha potencial militar e a Ford sabia disso quando construiu a fábrica Gorky e nós sabemos disso porque eu encontrei declarações a esse respeito nos arquivos do Departamento de Estado.
SM: Às vezes ouvimos o nome de Averell Harriman. Ele teve um papel na construção da tecnologia soviética?
AS: Certamente. Averell Harriman voltou da União Soviética com lucros. Ele obteve a concessão das minas de manganês na Geórgia no início dos anos 1920. Ele as tornou operacionais novamente para os soviéticos.O manganês se tornou um dos principais produtos de exportação dos soviéticos. Com a exportação do manganês os soviéticos obtiveram divisas que financiaram a industrialização. Em 1929, os soviéticos compraram os direitos de Averell Harriman, pagando um milhão de dólares a mais do que ele tinha investido.
AS: Armand Hammer é um exemplo muito interessante. Hammer recebeu a primeira concessão estrangeira em 1922 sobre asbesto (amianto) nos Montes Urais e ele também conduziu outros empreendimentos para os soviéticos, tais como a fabricação de canetas e lápis. Mas Armand Hammer é interessante por que seu pai, apesar de Armand ser até hoje (ano de 1980) presidente da Occidental Petroleum Corporation... seu pai era Julius Hammer, que em 1919 era o Secretário-Geral do Partido Comunista nos Estados Unidos, o que enfatiza o argumento que permeia meus livros: o de que nos níveis mais altos não há diferença entre os comunistas principais e os capitalistas principais. Eles estão entrelaçados. Você tem Armand Hammer, presidente da Occidental Petroleum, e seu pai, Secretário-Geral do PC americano em 1919.
SM: Então, basicamente, é uma tomada de poder.
AS: É uma tomada de poder [ ] e uma tomada de poder internacional.
SM: Agora... Durante a II Guerra Mundial, quando a Rússia foi praticamente destruída novamente pela forças alemãs, qual foi o papel do programa “Lend Lease” na reconstrução da capacidade industrial russa após a II Guerra?
AS: Bem, o programa “Lend Lease” (empréstimo e arrendamento) expandiu e modernizou a capacidade industrial soviética durante a II Guerra, e houve uma continuação até 1948, talvez 1949. Havia um programa supostamente destinado exclusivamente ao fornecimento de comida e material industrial,mas na verdade, e eu verifiquei os registros dos depósitos em ...?... Maryland, descobri que mesmo depois da II Guerra, e isto era contrário às intenções do Congresso, acredito eu, houve uma maciça transferência de equipamentos industriais de última geração à União Soviética sob a cobertura do chamado programa Lend Lease.
SM: Em 1948 saiu um livro fascinante, de autoria do Major (George) Racey Jordan no qual ele falava da assistência americana aos comunistas no que diz respeito à sua capacidade de construir armas nucleares. O senhor teve a oportunidade de verificar se realmente fornecemos água pesada a eles, se fornecemos os recursos para que construíssem armas atômicas?
AS: Bem, como parte do trabalho que eu estava fazendo em Stanford, investiguei os documentos de embarque do programa Lend Lease. Eu peguei uma amostra desses documentos e os comparei com os dados do Major Jordan e de maneira geral, Jordan estava certo quanto a mais ou menos cinco por cento do conteúdo do embarques. O Major Jordan evidentemente fez a acusação de que tínhamos enviado material aos soviéticos em 1944-45, material que mais tarde foi usado no desenvolvimento do seu programa atômico. Não há dúvida de que ele estava correto ao afirmar que enviamos água pesada, que é essencial. Mas nós enviamos outros itens, que talvez sejam menos óbvios ao leigo. Por exemplo, enviamos tubos de alumínio, essenciais ao desenvolvimento da energia atômica... Enviamos grafite, outro componente essencial. Assim, de maneira geral e até onde pude verificar... E eu verifiquei os documentos governamentais originais do Lend Lease, o Major Jordan estava certo.
SM: À medida que os anos passam, vemos uma crescente ameaça nuclear soviética. Os soviéticos agora têm mísseis MIRV[multiple independently-targeted reentry vehicle = míssil balístico com vários alvos/várias ogivas]. O senhor poderia explicar como a União Soviética, que realmente não tinha a tecnologia necessária para desenvolver esses mísseis MIRV que hoje ameaçam as nossas cidades... Como é que eles foram capazes de desenvolver essa capacidade?
AS: Bem, para começar é preciso voltar e entender como os soviéticos foram capazes de desenvolver um foguete, a tecnologia espacial. O que eles fizeram depois da II Guerra foi... As forças americanas foram retidas por um tempo, enquanto os soviéticos ocupavam o leste da Alemanha. Eles tiraram tudo da Alemanha Oriental, levaram o que havia de mais recente na tecnologia de bombas V2 de Peenemünde e de outros lugares e a V2 se tornaram a base da tecnologia espacial soviética. Bem, se você pular o período intermediário, no início do anos 1970 os russos ainda não tinham a capacidade MIRV em seus mísseis. Em especial, eles careciam da capacidade tecnológica para produzir os rolamentos de micro-esferas de alta precisão, necessários para os sistemas de controle. Havia apenas um única empresa no mundo, a Bryant Chucking Grinder Company, capaz de fabricar as máquinas de usinagem de alta precisão que faziam as pistas para rolamento das esferas. E sem essas pistas de esferas de rolamento, não é possível produzir mísseis MIRV em quantidade. Pode fazer um, mas não em quantidade. A Bryant Chucking Grinder Company teve permissão de vender quarenta e cinco dessas máquinas aos soviéticos, numa época em que só havia trinta e três em uso nos Estados Unidos.
SM: Houve alguma objeção a isso?
AS: Eu fiz objeção naquela reunião em Miami Beach, em 1972. Outras pessoas fizeram objeções, mas esta foram sufocadas, caladas. Os maiores culpados disso foram Henry Kissinger e a administração Nixon (2º mandato). [Em tenho certeza de que isso era conhecido no DOD (Dep. de Defesa)...se eu sabia, certamente o Departamento de Defesa sabia. Mas, as objeções foram silenciadas e as informações, suprimidas.
SM: Então, mais uma vez, vemos a América contribuindo para o crescimento da capacidade militar da ameaça nuclear soviética...
AS: Bem, quando você está falando de mísseis MIRV, você está tratando de um grande salto em sua tecnologia militar. Ora, eu não sou militar, mas para mim, a habilidade de fazer isso é um avanço maciço na capacidade militar, e nós permitimos isso consciente e deliberadamente.
SM: Durante a Guerra do Vietnã, a União Soviética e os países satélites do leste europeu eram os principais fornecedores de suprimentos bélicos aos norte-vietnamitas que estavam matando rapazes americanos no Vietnã do Sul. O senhor poderia comentar sobre a nossa ajuda e comércio com a União Soviética e os países do leste europeu durante aquele período?
AS: Não há dúvida de que os soviéticos eram os principais fornecedores de equipamentos e suprimentos militares aos norte-vietnamitas. Deixe-me dar-lhe um exemplo: Os pilotos americanos, enquanto voavam sobre a Trilha Ho-Chi-Minh, descreveram os caminhões que viam como caminhões americanos. Bem, eles eram americanos, uma vez que vieram da fábrica Gorky e essa fábrica foi construída por Henry Ford. Então, você tem uma situação onde nós estávamos fornecendo para os dois lados na Guerra do Vietnã.
SM:Se os caminhões estavam sendo fabricados na União Soviética, eles receberam algum equipamento americano para fabricá-los?
AS: Sim. Especificamente no início dos anos 1970, tomei conhecimento de embarques de equipamentos para a fábrica Gorky enquanto a guerra transcorria, os quais permitiram que os soviéticos produzissem mais caminhões a serem utilizados pelos norte-vietnamitas.
SM: E quanto a empréstimos? Os Estados Unidos estavam concedendo empréstimos aos soviéticos durante esse período em que eles eram os principais financiadores dos norte-vietnamitas?
AS: Sim. Começando por volta de 1970, houve uma enorme concessão de empréstimos à União Soviética. Em 1976, tais empréstimos totalizavam talvez 40 (quarenta) bilhões de dólares. Um valor extraordinário.Obviamente, tais empréstimos permitiram que a União Soviética adquirisse equipamento industriais dos Estados Unidos. Em parte, esse equipamento industrial foi usado para produzir suprimentos militares usados contra nós no Vietnã.
SM: E quanto à marinha mercante russa no transporte de suprimentos ao Vietnã do Norte?
AS: As remessas pela marinha mercante russa são exemplos muitos interessantes porque a frota russa, umas seis mil embarcações...e eu analisei cada um desses navios: a origem da tecnologia do navio em si, a capacidade de carga e os motores. A maioria era equipada com motores diesel marítimos. Eu descobri que sessenta por cento da marinha mercante soviética, que obviamente tem utilidade militar, foi construída em estaleiros estrangeiros, e quarenta por cento na União Soviética, mas basicamente usando projetos ocidentais .Agora, quando você trata de motores diesel marítimos, você descobre algo realmente fascinante. Você descobre que oitenta por cento dos motores diesel da frota mercante soviética são ocidentais : Bermeister&Wein, de Copenhague, Sulzer, da Suíça, FIAT, da Itália...esse nome já veio à tona anteriormente. Mas os outros vinte por cento dos motores diesel da frota mercante russa foram fabricados de acordo com projetos ocidentais e acordos de assistência técnica com a Sulzer e a Bermeister&Wein. Portanto, para qualquer efeito, não haveria marinha mercante russa sem a assistência do Ocidente.
SM: E quanto à construção da fábrica do Rio Kama (tributário do rio Volga, Rússia)?
AS: A fábrica do Rio Kama foi construída entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970. O projeto básico foi entregue à italiana FIAT. Giovanni (Gianni) Agnelli é o presidente da empresa. Isso é importante, por que Agnelli tem ligações com o Chase Manhattan Bank. Ele está no International Advisory Committee (IAC) do Chase Manhattan (Rockefeller) O que chamou minha atenção foi o fato de que a FIAT não produz equipamentos para a fabricação/montagem de automóveis. Todas as fábricas da FIAT na Itália usam máquinas e equipamentos americanos. O que eu descobri foi que 60-70 por cento dos equipamentos da fábrica do Rio Kama vieram dos Estados Unidos, dos principais fornecedores de máquinas para a indústria automobilística nos Estados Unidos.Eu penso que a fábrica ser conhecida como sendo da FIAT foi talvez um disfarce para desviar a atenção do fato de que, durante a Guerra do Vietnã, estávamos construindo a maior fábrica de caminhões do mundo, cobrindo uma área de 36 milhas quadradas (aprox. 93 km²) .Nós estávamos construindo para os soviéticos, com equipamento americano, a maior fábrica do mundo e esta levava o nome da FIAT. Então eu acho que foi uma fachada.
SM:Então eles estavam fabricando seus caminhões, veículos blindados de transporte de pessoal e outros coisa que poderiam ser usadas na guerra no Vietnã do Sul?
AS: Nós sabíamos que a fábrica em Kama tinha potencial militar e em 1972 eu escrevi “National Suicide [Suicídio Nacional]”. Eu disse basicamente o mesmo em Miami Beach em 1972: essa fábrica tem potencial militar, pode produzir veículos militares. Sabíamos disso. E é claro, hoje [ano 1980], no Afeganistão, os veículos produzidos por essa fábrica construída por companhias americanas e italianas estão lá.
SM: E foi depois que senhor apresentou essas informações que surgiram pressões para a supressão de seu livro “National Suicide” e também de outros estudo seus?
AS: Sim, sim. Porque eu revelava o fato de que a fábrica do Rio Kama tinha potencial militar, que estávamos capacitando os mísseis soviéticos com tecnologia MIRV ao vender-lhes máquinas da Bryant Chucking Grinder Company, e é claro, outros fatos correlacionados.
SM: E que tipo de pressão foi feita sobre o senhor e sobre a editora de seu livro “National Suicide”?
AS: A pressão sobre a editora foi para evitar a publicação. A editora se recusou a fazer isso. A pressão sobre mim, primeiramente, foi no sentido de desistir da publicação. E então, um tipo bastante fraudulento de pressão. Na Hoover Institution que eu havia plagiado o volume 3 da minha série sobre tecnologia ocidental, que estava sendo publicada pela Stanford University. Bem, primeiramente, eu os desafiei a apontar o plágio e ninguém foi capaz de encontrar nem sequer duas frases plagiadas... Então eu ressaltei que eu não poderia plagiar o meu próprio trabalho. Eu sou detentor do copyright de ambos os livros, logo não haveria maneira de plagiar a mim mesmo... É uma impossibilidade lógica. Então, a pressão foi gradualmente crescendo nos ano seguintes no sentido de que minhas pesquisas estavam caminhando num sentido...que talvez, não fosse requerido, ou bem-vindo, na falta de termo melhor e que deveria se restringir a limites mais estreitos . Nesse ponto, em 1975 eu deixei a Hoover Institution e me tornei um pesquisador independente, com liberdade para publicar o que eu quiser.
SM: O senhor soube de outras situações de esforços para suprimir publicações de livros na Hoover Institution?
AS: Eu sei de um exemplo, como qual eu tinha bastante familiaridade, e trata-se do livro de Julius Espstein sobre a “Operation Keelhaul”, um livro muito importante sobre o tratamento dados a prisioneiros de guerra russos na Alemanha logo após a II Guerra. Esse livro ficou em manuscrito por vários anos e sua publicação não foi permitida. Eu soube disso em primeira mão do próprio Julius.
SM: Certo. No final das contas acabou sendo publicado...
AS: Foi, mais tarde foi publicado.Outro exemplo que posso dar é da minha própria série sobre tecnologia ocidental. O terceiro volume foi mantido no prelo por um ano. Ora, custa muito dinheiro manter um livro parado no prelo, pois você quer recuperar o dinheiro investido. Esse livro ficou parado por um ano porque não era politicamente aceitável naquela época, apesar de ser um livro acadêmico.
SM: Então o senhor fez estudos fascinantes sobre a Comissão Trilateral. O senhor poderia nos falar a respeito da Comissão Trilateral?
AS: A Comissão Trilateral é uma organização privada, fundada por David Rockefeller em 1973. Era financiada principalmente por Rockefeller e algumas outras fundações... a [Charles F.] Kettering Foundation, a ... (?) Foundation, a Ford Foundation. A Ford Foundation era uma das maiores contribuidoras. E o objetivo declarado era encorajar a discussão entre o que eles chamavam de regiões trilaterais: eu devo ressaltar que dos trezentos membros da comissão, um terço vinha dos Estados Unidos, um terço do Japão e um terço da Europa. Mas na verdade, eu descobri que as ações da Comissão Trilateral têm muito mais a ver com os interesses da comunidade de banqueiros internacionais em Nova York.
SM: No que diz respeito à influência da Comissão Trilateral sobre o governo americano, tem sido dito que houve excessiva participação de membros da Comissão no gabinete [ministério] de Jimmy Carter e na administração de Jimmy Carter.
AS: Bem, “excessiva participação” é um eufemismo, penso eu... Há cerca de duzentos milhões de habitantes nos EUA [ano de 1980]; da Comissão, setenta e sete membros são americanos, e destes, nada menos que dezoito faziam parte do governo Carter. O próprio Presidente Carter era membro da Comissão Trilateral, além dos Srs. Walter Mondale [vice-presidente], Harold Brown, Cyrus Vance, Michael Blumenthal… Brown era o Secretário da Defesa. Em outras palavras, ocuparam todos os postos-chave do gabinete e também de importantes comitês do governo; os de inteligência e defesa, p.ex., totalmente compostos por “trilaterals”. Então você tem setenta e sete americanos selecionados por um homem, David Rockefeller, então presidente do Chase Manhattan Bank, que se tornam ocupantes dos principais cargos em Washington no governo Carter.
SM: Isso lhe sugere que nós não escolhemos nossos governantes, mas que estes são escolhidos por aqueles trabalham por trás da cena?
AS: Não há outra conclusão a tirar disso. Se você olhar para quem é candidato hoje, você tem Bush (pai), um “trilateral”, Anderson, “trilateral”, Carter...
SM: Há artigos nas revistas Newsweek,TIME, US News &World Report,... muitos na grande mídia nos dizendo que não realmente há nada a se preocupar com a Comissão Trilateral. Há alguma interligação entre a Comissão Trilateral e a grande mídia nos Estados Unidos?
AS: Sim, há uma interligação, particularmente na mídia de notícias, p.ex., no Chicago Sun Times, o editor-executivo James F. Hoge é um “trilateral”. Também Saul Linel (?) editor da revista TIME,..Henry Schut (?), um diretor da CBS. Então, definitivamente sim, há ligação entre a Comissão Trilateral e a mídia.
SM: Então talvez por isso minimizem a influência da Comissão Trilateral no atual governo americano.
AS: Através de um computador cheguei ao número total de artigos publicados sobre a Comissão Trilateral desde 1973, no mundo todo; e o número é de apenas setenta e três artigos.
SM: Qual a relação entre a Comissão Trilateral e o CFR (Council on Foreign Relations)?
AS: Bem, o CFR é uma organização muito mais antiga, fundada em 1920. Eu fiz um estudo sobre os membros da Comissão e do CFR e há uma sobreposição de aproximadamente cinquenta por cento.
CORTE
LEGENDA FINAL: Esta entrevista e outras entrevistas a Stanley Monteith foram filmadas no verão de 1980. Pouco depois disso, o Professor Sutton não mais esteve disponível para aparições públicas.
Transcrição e tradução: Henrique Dmyterko
Bibliografia de Antony Cyril Sutton, com alguns links para versões online:
  • Western Technology and Soviet Economic Development: 1917-1930 (1968)
  • Western Technology and Soviet Economic Development: 1930-1945 (1971)
  • Western Technology and Soviet Economic Development: 1945-1965 (1973)
  • National Suicide: Military Aid to the Soviet Union (1973)
  • What Is Libertarianism? (1973)
  • Wall Street and the Bolshevik Revolution (1974, 1999) (Online version) (Online Russian version)
  • Wall Street and the Rise of Hitler (1976, 1999) (Online version)
  • Wall Street and FDR (1976, 1999) (Online version)
  • The War on Gold: How to Profit from the Gold Crisis (1977)
  • Energy: The Created Crisis (1979)
  • The Diamond Connection: A manual for investors (1979)
  • Trilaterals Over Washington - Volume I (1979; with Patrick M. Wood)
  • Trilaterals Over Washington - Volume II (1980; with Patrick M. Wood)
  • Gold vs Paper: A cartoon history of inflation (1981)
  • Investing in Platinum Metals (1982)
  • Technological Treason: A catalog of U.S. firms with Soviet contracts, 1917-1982 (1982)
  • America's Secret Establishment: An Introduction to the Order of Skull & Bones (1983, 1986, 2002) (Online version)Back up online [1]
  • How the Order Creates War and Revolution (1985) (Online Russian version)
  • How the Order Controls Education (1985)
  • The Best Enemy Money Can Buy (1986) (Online version)
  • The Two Faces of George Bush (1988)
  • The Federal Reserve Conspiracy (1995) (Online Russian version (as Vlast' dollara))
  • Trilaterals Over America (1995) (Online version) (Online Russian version)
  • Cold Fusion: Secret Energy Revolution (1997)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

"Guerras Santas", antecedentes: A luta por espaço e influência vem das Cruzadas

Em meio à luta contra o terror detonada pelo 11 de Setembro, o presidente americano George W. Bush referiu-se à empreitada da coalização ocidental no Oriente Médio e no Afeganistão como uma "cruzada". A declaração tingiu uma batalha legítima contra o radicalismo com cores de anti-islamismo, trazendo à tona lembranças dos mais duros embates entre cristãos e o Oriente Médio, entre Ocidente e o Islã: as Cruzadas da Idade Média. Há um sentido útil nisso, porém: recuar no tempo pode ajudar a compreender a luta por espaço e influência exacerbada a partir do século XI - há 1.000 anos, portanto - quando os primeiro católicos tentaram tomar Jerusalém dos muçulmanos.

Por muito tempo, o Ocidente praticamente não existiu nos pensamentos dos muçulmanos - e não havia mesmo razão para que os orientais se ocupassem dele. Nascido na Península Arábia, o Islã vinha alargando suas fronteiras desde o século VII. Às vezes pelo fio da espada, mas mais freqüentemente pela simples adesão à fé do profeta Maomé. Os muçulmanos estavam estabelecidos no sul da Espanha e na Sicília, de onde os cristãos já começavam a desalojá-los. A leste, haviam englobado uma porção do que antes fora a Cristandade - inclusive Jerusalém, ocupada em 638. Mas as linhas fronteiriças com o mundo cristão eram estáveis. Não havia nelas, no geral, um estado de guerra. Boa parte do crédito cabe ao Islã, que praticava a tolerância religiosa e mantinha Jerusalém aberta "às três fés de Abraão" - o islamismo, o cristianismo e o judaísmo. No século XI, porém, a balança pendeu para o lado do conflito armado. Tribos nômades de turcos seljuk abocanharam toda a Ásia Menor (a moderna Turquia), reduzindo o Império Bizantino quase que só à Grécia e à Constantinopla (hoje Istambul).

O imperador de Bizâncio pediu socorro, e foi ouvido pela Europa. Em 1095, o papa Urbano II atendeu ao apelo do imperador com um chamado para as Cruzadas, estabelecendo as seguintes metas: recuperar os locais sagrados do cristianismo e garantir a passagem de peregrinos para a Terra Santa. Quem tomasse a cruz para socorrer seus irmãos ganharia em troca a salvação. No total, oito Cruzadas se seguiram, entre 1095 e 1291. Elas garantiram a cristão e islâmicos vitórias relativas e derrotas substantivas: estima-se que ao redor de 1 milhão de pessoas morreram de cada lado. Jerusalém passou ao controle provisório dos cristão em períodos desse intervalo, mas, ao final dele, retornou às mãos dos muçulmanos.

No fim do século XIII, o vitorioso foi o Islã, que conseguiu expulsar todos os cruzados de seus domínios. Entretanto, hoje, quase 1.000 anos depois, a sensação que ocidentais e muçulmanos têm é a de que o Islã foi o grande perdedor do movimento deflagrado pelos papas católicos. O enorme poder simbólico das Cruzadas para os árabes do presente foi insuflado com a ajuda decisiva dos próprios colonialistas ocidentais do século XIX, que adoravam usar imagens do período medieval para caracterizar suas conquistas. Ao entrar em Jerusalém pela primeira vez em sete séculos com um exército cristão, em 1917, o general inglês Edmund Allenby teria declarado que "agora, sim, as Cruzadas terminaram". A revista inglesa Punch, então popularíssima, não perdeu tempo em retratá-lo como Ricardo Coração-de-Leão, o maior herói cristão das Cruzadas, numa caricatura célebre - e também das mais ofensivas aos sentimentos árabes. Não é de estranhar, portanto, que os palestinos dos dias de hoje, em guerra pelo território em que cristãos e muçulmanos se enfrentaram há quase 1.000 anos, se vejam como parte desse mesmo conflito.

Hoje, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo são religiões globalizadas, cujos seguidores se mostram capazes de conviver de forma pacífica e proveitosa em vários pontos do planeta. Exatamente como em períodos e regiões do passado. Entre o século VIII e o XV, por exemplo, os mouros criaram na Península Ibérica um exemplo não livre de tensão, mas ainda assim florescente, daquilo que o contato entre as civilizações pode produzir: o reino de al-Andalus, que legou para o presente bem mais do que as maravilhas arquitetônicas de Granada, Sevilha e Córdoba, o sabor do gaspacho ou a música e a dança flamencas. Foi por meio da convivência entre muçulmanos, cristãos e judeus em al-Andalus, também, que fincaram pé no continente tradições das quais ninguém sonharia abrir mão, como a diplomacia, a tolerância religiosa, o livre-comércio e a pesquisa acadêmica e científica. Se o mundo medieval foi capaz de 800 anos de relativa harmonia, não há desculpa para que o mundo moderno não se empenhe em restabelecê-la.


http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/choque_civilizacoes/contexto02.html

terça-feira, 18 de maio de 2010

Que falta faz um Voltaire

Reinaldo Azevedo

"O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: ‘Abaixo o socialismo!’.Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebrodos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário"

Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?" Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.

A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...

Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade".

Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.

O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.

São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.

O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.

De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.

De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.

É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".

Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas.

Leia o blog de Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Encarando a Divisão: Apresentações do Racionalismo e do Oculto por Mágicos de Palco na Virada do Século

http://www.ceticismoaberto.com/

Fred Nadis, Universidade do Texas. Publicado no journal of millennial studies

Cartazes de publicidade para mágicos da virada do século XIX como Harry Kellar, John Nevil Maskelyne e depois, Harry Houdini, freqüentemente os mostravam trabalhando com pequenos demônios sussurrando segredos úteis em seus ouvidos. Um cartaz para o mágico Howard Thurston fazia a pergunta: “Os Espíritos Retornam?”. Apesar das possibilidades exóticas e sobrenaturais que tais cartazes insinuavam, os mágicos deixavam claro que seus efeitos eram o resultado de mecanismos de truque, prática e trabalho de palco. A negação deles do status “oculto” ofereceu vários ganhos. Primeiro, desviou a fascinação do público do Espiritualismo e o oculto para seus próprios atos. Segundo, os artistas não corriam mais o perigo das autoridades trancafiá-los como feiticeiros, como ocorreu ao ilusionista alemão Oehler em princípios do século 19 ao realizar um show no México.1 Finalmente, estabelecendo-se como as contrapartes honestas das fraudes Espiritualistas da época, os mágicos se posicionaram como aliados da ciência, ajudando a livrar o público da superstição.
Historiadores descrevem freqüentemente a virada do século como uma época à procura de ordem. A autoridade última, seja cívica, científica ou religiosa, estava indefinida. Este texto examinará como um mágico, Houdini, se posicionou como um individualista cuja humanidade “natural” o livrou da maioria das formas de autoridade: seja a organização invasiva e a “efeminização” da vida diária; os poderes da polícia e suas prisões; ou os charlatões dos mundos religioso ou oculto. Houdini, como mágicos de palco anteriores e desde então, posou como um seguidor viril de um tipo simples e positivista de ciência, aceitando o veredicto público de que os novos feiticeiros da época eram as pessoas como Thomas Edison, Luther Burbank, Nikola Tesla e Marie Curie.
O Espiritualismo foi lançado em 1848, quando as Irmãs Fox em Nova Iorque começaram a realizar sessões nas quais espíritos “estalavam” respostas a perguntas. Logo outras casas na área estavam sujeitas a “rappings” fantasmagóricos. Sociedades espiritualistas floresceram, e foram realizadas sessões, tanto como uma forma de adoração quanto como um método de fazer dinheiro para médiuns ajudarem suplicantes a se comunicar com os espíritos dos mortos. A invenção do telégrafo no mesmo ano que as Irmãs Fox começaram a receber suas mensagens forneceu uma metáfora fácil para tal interesse renovado em comunicação a longa distância – uma publicação Espiritualista pioneira foi chamada O Telégrafo Espiritual. Dentro de alguns anos, milhares de médiuns começaram seus negócios nos Estados Unidos. O advento da Guerra civil, com suas altas quantidades de vítimas, também ajudou o negócio.
O espiritualismo logo se ramificou no show business. Na década de 1850 e seguintes, “porta-vozes em transe” Espiritualistas, jovens e bonitas como Cora Hatch e Achsa White Sprague tornaram-se o equivalente a rockstars quando falavam em um estado inspirado e supostamente inconsciente sobre os direitos femininos. 2 O Espiritualismo também era natural para o entretenimento, e as Irmãs Fox foram apresentadas no Museu Barnum em Nova Iorque. O Mesmerismo que tinha anteriormente apontado o caminho para o “transe” dos espiritualistas estava freqüentemente envolvido no ato. Antes de uma sessão, assistentes ou manipuladores poderiam fazer passos de mesmerização diante dos médiuns para ajudá-las a alcançar o estado de transe. Mesmeristas e Espiritualistas insistiram que estavam conduzindo experiências científicas e pediam que os observadores tirassem suas próprias conclusões da evidência.
Mesmerismo e Espiritualismo tiveram detratores desde o princípio, mas nem todos os cientistas eram hostis. Muitos cientistas e inventores que tinham esperanças milenárias por sua disciplina se recusaram a traçar uma linha clara entre o sobrenatural e a ciência. O químico William Crookes, o psicólogo William James e os físicos Oliver Lodge e Joseph Thomson formaram a Sociedade para Pesquisa Psíquica, com a intenção de estudar e, se possível, verificar as forças ocultas. 3 O co-criador da teoria de Seleção Natural, Alfred Russell Wallace, era um crente no Espiritualismo, e o inventor Nikola Tesla mergulhou no misticismo. 4 Engenheiros introduziram aparelhos para medir auras, presenças de espírito ou força de vontade, e os nomeram Volômetros, Stenômetros, Uivadores e Motores Fluídicos.5 Quando testemunhas confiáveis começaram a descrever ocorrências maravilhosas em sessões espíritas, os mágicos de palco enxergaram uma abertura. Em seus atos de palco, eles começaram a duplicar os efeitos que os espiritualistas alcançavam em sessões supostamente por poder oculto. Mágicos de palco freqüentemente adotaram também técnicas “mesméricas”.
Quais são alguns exemplos de efeitos mesméricos e Espiritualistas emprestados por mágicos? Por volta do mesmo tempo em que o médico de Nova Iorque, David Reese, em seu livro de 1838 Fraudes de Nova Iorque [Humbugs of New York] estava fulminando sobre mesmeristas e seus assistentes em transe que alegavam habilidades clarividentes, o mágico francês Robert-Houdin acrescentou a atração “Segunda Visão” ao seu ato no qual o filho dele, vendado em palco, identificava itens que os membros da platéia davam para o mágico. No começo dos anos 1850, o mágico John Henry “Professor” Anderson escarneceu as Irmãs Fox, chamando-as de “conjuradoras em disfarce”, e logo acrescentou os rappings de espíritos ao seu próprio ato.6 Nessa época já era um clichê que antes de levitar uma moça usando camisola, um mágico tinha que fazer passos para colocá-la em um transe sonâmbulo, e então mostrar seu poder completo sobre ela ordenando-a a flutuar no ar, excitando a audiência com a dinâmica erótica. Este truque pode ser traçado de volta ao “Professor” Anderson que apresentou “a maravilha do século 19 SUPENSÃO MESMÉRICA” em um ingresso de 1852. Este ato de suspensão é uma reedição do truque “prancha humana” do transe mesmérico profundo – no qual um sujeito hipnotizado fica rijo e pode ser colocado como uma prancha sobre dois cavalos. O truque da prancha era o clímax da maioria dos espetáculos de hipnotismo de palco. Freqüentemente, o hipnotizador ficaria sobre o sujeito, ou colocaria uma pedra grande no tórax dele e a quebraria com uma marreta. Ou em um nível ainda menos sublime, o mágico americano Howard Thurston na virada do século incluiu “hipnotizando um pato” em algumas de suas performances.
Depois das Irmãs Fox, os Irmãos Davenport, também de Nova Iorque, eram talvez os mais famosos de todos espiritualistas que faziam shows. Em seu ato, que eles lançaram nos anos 1850, e executaram diante de sociedades espiritualistas, audiências variadas e a realeza, um “comitê” amarrava suas mãos atrás de suas costas e firmava seus tornozelos e eles foram colocados então dentro de um “gabinete” grande (essencialmente um guarda-roupa grande com assentos) que possuía instrumentos musicais suspensos. Logo após as luzes do palco diminuírem e as portas do gabinete fecharem, as audiências ouviam violões, violinos, sinos, e pandeiros tocando dentro do gabinete. Mas quando as portas do gabinete eram abertas, os Irmãos Davenport estavam sentados calmamente, mãos e pés amarrados no lugar.
Mágicos como o inglês John Nevil Maskelyne e o americano Harry Kellar – que tinha sido um assistente dos Davenports – estavam logo desmist
ificando a rotina da sessão de gabinete com efeitos de sessão de gabinete semelhantes realizados durante seus espetáculos. Com tal imitação, mágicos se tornaram as exibições divertidas da racionalidade, dando a suas audiências emoções iguais àquelas encontradas em sessões, com o sentimento adicional de superioridade inevitável em tal “desmascaramento” – ou desnudando os fenômenos do oculto. Um folheto de 1876 para Harry Kellar inclui a nota, “Kellar e o Gabinete Maravilhoso – introduzindo fenômenos surpreendentes e inexplicáveis realizados por meios invisíveis que, por ignorância e superstição, foram atribuídos a feitiçaria e demonologia”. 7 Uma caricatura de 1893 apresentando Maskelyne mostra ele em um canto estrangulando uma serpente com a palavra ‘fraude’ e a legenda: Ele é duro com os Espiritualistas. Mais abaixo algumas mulheres com aparência matronal cercam o conjurador sobre o subtítulo: As Senhoras das Sociedades Espiritualistas Continuarão a Alegar que Ele é um Delas. Uma das matronas diz, “Por que você não admite que é um médium?” 8
Houdini seguiu seu mentor Kellar em expor o Espiritualismo apenas na segunda fase de sua carreira. Como um performer jovem, ele tinha aparecido em museus baratos como um hipnotizador e administrou sessões enquanto viajava com um circo no Meio Oeste. Depois de tais começos ignóbeis, Houdini forjou suas imagens heróicas como “Rei das Algemas”, e depois como o grande “Investigador Psíquico.” Na primeira fase, ele organizou grandes fugas – livrando-se quando algemado, lacrado em um barril de leite e lançado em um rio; colocado em um recipiente grande; em um tanque grande de cerveja; ou depois de saltar de uma ponte com algemas. Então nos anos vinte, ele se tornou o grande “expositor” de falsos psíquicos e espiritualistas. Embora aparentemente discrepantes, estas duas fases da carreira dele compartilham um terreno comum.
Os Davenports – e outros espiritualistas que teimavam em ter suas mãos e pés amarrados ou que eram colocados em sacos pregados no palco para convencer as audiências de que nenhum truque estava envolvido — inspiraram diretamente o ato de fuga de Houdini.9 Enquanto outros mágicos tinham caçoado dos Espiritualistas, ou discretamente se uniram a eles, Kenneth Silverman, um recente biógrafo, argumenta que o gênio de Houdini foi distanciar completamente seu ato do espiritualismo. “Se Houdini tivesse mantido as fugas dele dentro do cenário do Espiritualismo, ele poderia ter perdido sua identidade na multidão de outros mágicos-médiuns da época”. 10 Enquanto as audiências poderiam ter aceitado de boa vontade que ele – como os Davenports ou alguns dos artistas indianos “yogis” do período – possuía poderes místicos, ao insistir que as fugas dele eram um produto de treinamento físico, habilidade, e uma força de vontade poderosa, Houdini se fixou mais firmemente nas correntes da sua época, e, ironicamente, ainda garantiu que suas escapadas assumiriam a aura de mito. Houdini exibia seu físico, condicionamento, engenhosidade e coragem em suas fugas, suas muitas fotografias de publicidade, e ilustrações de revistas baratas.
As fugas de Houdini de prisões e celas de prisão, atestadas por oficiais de polícia e funcionários de prisão, também apelavam a preocupações do público sobre a corrupção representada na autoridade cívica na virada do século. Exposições sem fim da era revelaram suborno policial, brutalidade e cumplicidade em prostituição e extorsão. Houdini manteve um arquivo de recortes de jornais ingleses e americanos intitulado “Polícia” que em grande parte descreve atos de desvio, má conduta, falsa prisão, e brutalidade policial. Policiais como ladrões eram um tema favorito. Por exemplo seu recorte de 1912 do New York Evening Telegram tem a manchete, “Preso, Acusado de Roubar Garagem Enquanto Policial.” Recortes de 1913 incluem tais artigos como: “Ação Contra um Inspetor de Polícia – Danos; ” e “Dois Policial Acusados de Roubos Noturnos.”
Alguns dos recortes são alegres, por exemplo uma história que descreve como “dois membros da força de polícia da cidade [de Bristol]… [foram] acusados de arrombar uma padaria, e roubar um bolo, com o valor de um centavo.” Mais ominosa é uma caricatura de primeira página de 1912 do New York Evening Journal, mostrando uma linha de policiais enormes, sem cabeça segurando bastões, com a palavra CHANTAGEM em cima de suas cabeças. Um corpo jaz no chão atrás deles, com o sinal “Um Homem Morto não Conta Nenhuma História”, enquanto uma figura pequena da Justiça diante deles é ignorada.11
Em uma era em que jornalistas investigativos e reformadores estavam expondo corrupção policial em dúzias de cidades, o público gostava de ouvir como Houdini, algemado e preso nu em uma cela de prisão, com suas roupas trancafiadas em outra cela, podia logo passear na rua completamente vestido, um homem livre que até mesmo tinha se poupado das taxas de advogados. Identificando-se com arrombadores, fugitivos e outros ladrões, Houdini assumiu a aura do anti-herói apropriada a uma era de exposição de corrupção. E insistindo que ele não atingia seus resultados por ‘magia’ mas por força, habilidade, e artifício, os feitos dele se tornaram símbolos sugestivos. Tais auto-liberações eram liberadoras a audiências em todo o mundo.
Se o culto do século dezenove da vida estrênua era baseado em temores de que a vida moderna era excessivamente arregimentada, efeminizando os homens e fazendo-os escravos da tecnologia e burocracia, Houdini era um dos exemplos do culto. Sua defesa da masculinidade e atração de publicidade trouxe uma confrontação divertida com as feministas de Londres. Em 1908 Houdini respondeu a um desafio público das sufragistas de Londres, que reclamaram que “até agora, só homens tentaram amarrá-lo”. Confiando em ferramentas da esfera doméstica, as seis desafiadoras prometeram prendê-lo “a um colchão com panos e bandagens.” Um biógrafo observou, “Ele considerou esta como uma das suas fugas mais difíceis”. 12
O interesse de Houdini no Espiritualismo, que coincidiu com seu desejo de meia-idade de passar menos tempo em camisas de força pendurado de cabeça para baixo em arranha-céus, também era oportuno para manter o nome dele no domínio público. O resultado da Primeira Guerra mundial conduziu a um ressurgimento de interesse em sessões espíritas e tentativas para contatar os mortos. Como Houdini comentou em um artigo de 1925 do New York American, “Há uma onda regular varrendo o mundo. Deveria haver uma lei passada de que qualquer um fingindo ser capaz de se comunicar com os espíritos deveria provar isto diante de um comitê qualificado”. 13 De fato, Boston, Chicago, e várias outras cidades aprovaram leis contra a previsão de sorte, e os funcionários incluíram freqüentemente sessões espíritas dentro da jurisdição de tais leis. Houdini testemunhou diante de sub-comitês congressionais no começo de 1926 quando uma lei semelhante para Washington estava sob debate.
Houdini se interessou primeiro pelo Espiritualismo depois de se tornar amigo do criador de Sherlock Holmes, o médico e autor, Sir Arthur Conan Doyle, que era defensor ardente do Espiritualismo nos anos vinte. De acordo com a maioria dos relatos, Doyle, conduzido ao Espiritualismo depois da morte de seu filho na Primeira Guerra Mundial, era um crédulo que médiuns fraudulentos enganavam facilmente. Alegando que tinha uma mente aberta no assunto, Houdini assistiu às primeiras sessões dele com ajuda de Doyle. O quarto filme de Houdini, The Man from Beyond [O Homem do Além] (1922), que se seguiu a The Master Mystery (1918), The Grim Game (1919) e Deep Sea Loot (1919), incluiu algumas influências Espiritualistas e uma referência aos livros de seu amigo.
No filme, Houdini interpreta um caçador
de focas, perdido no mar e congelado no gelo Ártico em 1820, que é então achado e ressuscitado em 1920 pelo cientista Dr. Strange [Dr Estranho]. O explorador interrompe o casamento da filha do cientista, desesperado para se casar com ela porque ela se parece precisamente com a noiva dele de um século atrás. O pai enfurecido o prende em um manicômio. Depois de lutar com cientistas loucos e escapar, o filme termina com o herói e o amor jovem dele em paz, enquanto uma imagem sobreposta “fantasmagórica” da noiva do século 19 aparece sobre o corpo de Felice Strange. Enquanto este milagre acontece, a câmera corta para um livro que Felice está lendo, The Vital Message de Doyle, e a citação, “Os grandes professores da terra – de Zoroastro até Moisés e Cristo… ensinaram a imortalidade e progressão da alma”. 14
Uma sessão espírita esteve no cerne da separação eventual de Houdini de Doyle. Houdini e sua esposa se uniram a Doyle e sua família em Atlantic City pelo verão de 1922, e durante uma sessão no quarto de hotel do escritor, a esposa de Doyle contatou a querida mãe falecida de Houdini, Cecília Weiss, e registrou os pronunciamentos dela em um turno de escrita automática. A transcrição de quinze páginas incluiu, “Deus o abençoe também, Sir Arthur, pelo que você está fazendo para nós – para nós, aqui em cima – que precisamos entrar em contato com nossos amados no plano terrestre”. 15 Enquanto Doyle pensou que a sessão havia sido um grande sucesso e sua esposa seguramente não quis fazer mal, Houdini se enfureceu. A elocução de sua “mãe” parecia estranhamente formal a ele; ele também disse que ela deveria ter falado em alemão, e não inglês que ela não falava; igualmente, o conteúdo da mensagem dela não incluiu nenhuma referência pessoal; além disso, Houdini tinha escolhido o aniversário da mãe dele para a sessão, e ele sentia “Se tivesse sido o Espírito de minha querida mãe comunicando uma mensagem, ela, sabendo que seu aniversário era meu feriado mais santo, seguramente teria feito um comentário sobre isto”. 16
Quando Doyle retornou para sua segunda excursão de conferências na América em 1923, Houdini finalmente começou a expor seu ceticismo sobre o Espiritualismo, e sobre a sessão de Atlantic City também. Logo, os dois amigos estavam trocando respostas iradas através da seção de cartas do New York Times, por vezes denunciando e apoiando tanto o Espiritualismo quanto um ao outro. A guerra de jornal continuou ao longo da excursão de conferências de Doyle, ajudando suas necessidades mútuas por publicidade, mas terminando qualquer resquício de uma amizade.
O livro de Houdini A Magician Among the Spirits [Um Mágico Entre os Espíritos], publicado em 1924, continuamente se referia à credulidade de Doyle. A cópia de Doyle do livro de Houdini, na página de título, tem este comentário manuscrito de Doyle, “Um livro malicioso, cheio de todo tipo de má representação”. Nos comentários de margem dele, Doyle usou freqüentemente as palavras “bosh!” e “lixo!”.17 Doyle nota que Houdini nunca explicou o que seria evidência crível. Aqui está Houdini: “se eu estivesse em uma sessão e não fosse capaz de explicar o que aconteceu isto não seria necessariamente um reconhecimento de que eu acreditaria que fosse Espiritualismo genuíno”. 18 A nota de margem exasperada de Doyle, “Isto realmente significa que nada poderia convencê-lo”.
Houdini seguiu em frente. Argumentando que era preciso um ilusionista para identificar outro ilusionista, ele se insinuou no olho público como escritor de artigos denunciando os espiritualistas na Popular Science Monthly, Scientific American e jornais diários. Ele também deu conferências desmascarando os espiritualistas fraudulentos, e serviu em comitês investigando – e rejeitando no final das contas como fraudes – espiritualistas que desejavam reivindicar prêmios para suas habilidades genuínas – freqüentemente médiuns que haviam sido previamente atestados por homens de ciência e negócios mais crédulos. Houdini também incorporou o desmascaramento de médiuns nos seus shows de palco. Como nos esforços do século 19 de Robert-Houdin, Kellar e Maskelyne para reproduzir efeitos ocultos através de meios naturais, Houdini ajudou a restabelecer a crítica positivista do mágico sobre o Espiritualismo. E em um paralelo aos seus atos de fuga anteriores, Houdini estava agora metaforicamente livrando o público da escravidão da superstição.
Os esforços de Houdini e outros mágicos de palco para replicar efeitos espiritualistas ou desmascará-los, realmente tinham um aspecto misógino, ao estar de acordo, talvez, com medos da “efeminização” da vida diária na era progressiva. O cartum mostrando Maskelyne, mencionado anteriormente, enfatizava que membros de sociedades Espiritualistas eram predominantemente mulheres e que eram cômicas. Se os mágicos de palco eram cavalheiros de cartola viris, os espiritualistas eram as mulheres matronais, supersticiosas – ou homens efeminados propensos a “intuições” e visões românticas do mundo.
Independente de suas intenções, Houdini abordou todo seu trabalho – sejam as fugas ou os desmascaramentos – com o fervor de um fetichista. Poderia-se dizer que ele estava tão interessado em ser preso com algemas, correntes, e panos durante seu reinado como o Rei das Algemas quanto ele estava em se libertar. Um testemunho datilografado de 1905 do Chefe de Polícia de Rochester, Nova Iorque, é sugestivo: “Nós, abaixo-assinados, certificamos que vimos Harry Houdini, o portador desta nota, despido nu, revistado, preso em uma das celas… algemado com três pares de algemas; também amarrado com uma mordaça se estendendo das algemas e presa às costas…. “19 Houdini abordou a segunda fase de sua carreira, como um investigador de espíritos, com um zelo fetichístico semelhante. O panfleto de 1924 dele “Houdini Expõe os Truques Usados pela médium de Boston “Margery” para ganhar o prêmio de $2500 oferecido pela Scientific American”, descreve alguns dos rigores que ele passou para revelar as fraudes dela; um dos feitos dela envolvia uma caixa com um sino elétrico que só poderia ser ativado quando o topo era apertado. Outros peritos acreditaram que Margery mantinha os pés dela longe da caixa quando o sino tocava na escuridão debaixo da mesa de sessão. Houdini pensou o contrário e se preparou cuidadosamente:
Antecipando o tipo de trabalho que eu teria que fazer para detectar os movimentos do pé dela eu havia enrolado a perna de minha calça direita bem abaixo de meu joelho. Todo aquele dia eu havia usado uma bandagem de borracha de seda ao redor daquela perna abaixo do joelho. À noite a parte abaixo da bandagem havia ficado inchada e dolorosamente tenra, dando-me assim um sentido muito mais acurado de tato e tornando mais fácil de notar o deslizar mais leve do tornozelo da Sra. Crandon ou uma flexão de seus músculos.20
Ele observou que para a sessão ela “usou meia-calças de seda e durante a sessão teve suas saias puxadas para bem acima de seus joelhos”. E quando ele realmente sentiu o pé dela se movendo na escuridão, o momento de reconhecimento teve um tom concebivelmente erótico. “Eu poderia sentir distintamente o tornozelo dela deslizando lenta e espasmodicamente enquanto ele se pressionava contra o meu.” A emoção de Houdini durante este jogo de pés era no mínimo o do caçador que tinha finalmente capturado sua presa. A dor a que ele tinha se submetido ajudou a garantir este prazer.
O interesse de Houdini no Espiritualismo também se tornou uma parte de seus tours finais. Um bilhete para uma noite de magia de Houdini no Shubert Princess Theatre em Chicago em 1925, incluiu grandes ilusões de palco e fugas nos primeiros dois atos, e um terceiro ato dedicado à exposição dos truques de médiuns fraudulentos. Com o sub-t�
�tulo de “Os Mortos Retornam?”, o programa notava, “Ele não é um cético e respeita os crentes genuínos. Ele não diz que não há nada dessas coisas, mas que nunca conheceu um médium genuíno.” O programa também incluiu o Desafio de Houdini de $10,000, “aberto a qualquer médium no mundo (homem ou mulher). Ele dará a supracitada soma, o dinheiro indo para a caridade, se os espiritualistas apresentarem um médium exibindo qualquer fenômeno físico que ele não possa reproduzir ou explicar através de meios naturais”. 21 Talvez refletindo as frustrações com espectadores insistentes que ele tinha enfrentado durante seus tours, o bilhete incluía a notificação, “… Em nenhum hora, porém, ela irá discutir a Bíblia, ou citações Bíblicas, diante da audiência”.
Enquanto nenhum médium conseguiu os $10,000 do desafio de Houdini, um desafiador de um tipo diferente provou sua abolição. Em 1926, quando Houdini trouxe o espetáculo dele para o Canadá, vários estudantes da McGill University o visitaram nos bastidores em Montreal. Um dos estudantes, Wallace Whitehead, sujeitou Houdini a uma série de questionamentos. Ele primeiro testou a habilidade divulgada de Houdini de poder predizer todo o enredo de um romance de mistério, sabendo apenas um resumo dos eventos das primeiras páginas. Em seguida perguntou a Houdini “sua opinião dos milagres expressos na Bíblia, e pareceu desapontado quando Houdini se recusou comentar em ‘assuntos desta natureza’”. E enquanto Houdini se deitava de lado em um sofá, para lidar com uma perna quebrada, Whitehead perguntou se era verdade que o artista podia resistir a socos fortes no abdômen. Antes que Houdini pudesse se levantar, Whitehead começou a esmurrá-lo viciosamente. O apêndice do mágico foi rompido e ele morreu algumas semanas depois. O próprio mito de invencibilidade física de Houdini, anunciado em dúzias de romances baratos e cartazes de publicidade, finalmente conduziram à sua morte.22
Muitos livros de ensino dirão que o “realismo” reinou na América na virada do século e que noções de progresso baseadas em fatos simples e leis racionais prevaleciam. Porém, ao longo da maior parte do século dezenove, a visão científica de progresso se sobrepôs a uma visão mais mística do progresso da alma. O Espiritualismo, assim como o mesmerismo e outros fenômenos psíquicos, eram levados a sério por muitas pessoas sérias. Até mesmo alguns cientistas e inventores tiveram esperanças milenárias por sua disciplina, e recusaram-se a traçar uma linha clara entre o sobrenatural e o natural.
Contudo a época também era uma de industrialização, de religiões populares crescentemente diluídas e, como sociólogo Max Weber diagnosticou, de um “desencanto” da vida diária. Os mágicos de palco escolheram seu lado adequadamente. Embora mascarados em cartazes e palco como necromancers – os discípulos de swamis, curandeiros chineses – e mestres de conhecimento egípcio oculto, eles também se declaravam publicamente “ilusionistas honestos” que só simulavam maravilhas ocultas por meios naturais. Estranhamente, ao distanciar-se do oculto como uma explicação, Houdini e outros mágicos de palco aumentaram a “emoção” da audiência. Este homens não só podiam duplicar os efeitos espetaculares dos Espiritualistas, mas eles também ofereciam outra forma – possivelmente misógina – de emoção – como o mágico masculino que perseguia, e então despia a aparência de honestidade da médium Espiritualista, expondo-a como uma fraude nua. Eles não estavam exatamente educando suas audiências, mas deixando-as mais “espertas”. Tendo reconhecido o desencantamento do mundo, os mágicos de palco estavam oferecendo uma forma nova de encanto: uma fundada firmemente no mundo natural e na engenhosidade e potencial humano.

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Notas:

1 Milbourne Christopher and Maurine Christopher, The Illustrated History of Magic. (Portsmouth, N.H., 1996), 61. Unless otherwise indicated, most of my information about the history of stage magic comes from this sourcebook.
2 Ann Braude, Radical Spirits: Spiritualism & Women’s Rights in 19th Century America. (Boston, Beacon Press: 1989), 84-98.
3 Marc J. Seifer, Wizard: The Life and Times of Nikola Tesla. (Secaucus, New Jersey: Carol Publishers, 1996), 93.
4 In 1876, Wallace appeared as a witness for the defense at the trial of American psychic Dr. Henry Slade, accused of defrauding seance participants. English magician John Nevil Maskelyne tried to help the prosecution unmask Slade. The psychic was convicted, but that ruling was later overturned. See Richard Milner, “Charles Darwin and Associates, Ghostbusters,” Scientific American, October, 1996, 96-100.
5 Kenneth Silverman, Houdini!!! (New York: Harper Collins, 1996), 259.
6 Christopher, 118-20.
7 Ibid., 209.
8 Christopher., 173.
9 Silverman, 39-41.
10 Ibid., 42.
11 These clippings are from the police file in the Houdini Collection, cabinet 112, at the Harry Ransom Humanities Research Center, University of Texas, Austin.
12 Walter S. Gibson, The Original Houdini Scrapbook. (New York: Sterling Publishing, 1976), 39. One challenge that might elude any attempt at cultural analysis came from the Hogan Envelope Company of Chicago, as follows, “We believe a giant envelope can be made by us which will enclose Houdini and successfully prevent his escape.” Gibson, 32.
13 August 15, 1925. Humanities Research Center, Houdini Collection, Box 11.
14 Silverman, 263-4.
15 Houdini, A Magician Among the Spirits. (New York: Harper and Brothers, 1924), 154.
16 Ibid., 152.
17 The copy of A Magician Among the Spirits in the Sir Arthur Conan Doyle collection at the Humanities Research Center is full of Doyle’s—sometimes lengthy—margin comments.
18 Houdini, Magician, 247.
19 Humanities Research Center, Houdini Collection, Box 11.
20 Harry Houdini, Houdini Exposes the Tricks…(New York, 1924), 6. Humanities Research Center, Box 11.
21 Humanities Research Center, Houdini Collection, Box 11.
22 Silverman, 407-09.

Trabalhos citados:

Braude, Ann. Radical Spirits: Spiritualism & Women’s Rights in 19th Century America. Boston, Beacon Press, 1989.

Christopher, Milbourne and Maurine Christopher. The Illustrated History of Magic. Portsmouth, N.H.: Crowell, 1973.

Gibson, Walter. The Original Houdini Scrapbook. Sterling Publishing, New York, 1976.

Houdini, Harry. A Magician Among the Spirits. Harper and Brothers, New York, 1924.

Houdini, Harry. “Houdini Exposes the tricks Used by Boston Medium “Margery” to win the $2500 prize offered by the Scientific American.” New York, 1924.

Houdini, Harry. “Spiritualists Who Prey on Rich Exposed.” New York American, 15 August, 1925.

Jay, Ricky. Learned Pigs & Fireproof Women. Warner Books, New York, 1986.

Milner, Richard. “Charles Darwin and Associates, Ghostbusters.” Scientific American, October, 1996, 96-100.

Reese, David Meredith. Humbugs of New-York.
1838. Books for Libraries Press, Freeport, N.Y., 1971.

Seifer, Marc J. Wizard: The Life and Times of Nikola Tesla. Carol Publishers, Secaucus N.J., 1996.

Silverman, Kenneth. Houdini!!! New York: Harper Collins, 1996.

Houdini playbills, clippings files, pamphlets, from the Houdini Collection at the Harry Ransom Humanities Research Center, University of Texas at Austin.