domingo, 27 de abril de 2008

REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS

Parceiros: GRUMIN/INBRAPI/CONAMI/EMBAIXADA DA PAZ
CONVOCATÓRIA da Região Leste e Sul

A REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS, o Núcleo de Mulheres Indígenas do INBRAPI( formado no Caucus sobre Propriedade Intelectual, Conhecimentos Tradicionais e Biodiversidade), CONAMI e Embaixada da Paz convocam para:

Mesa de Trabalho Local e Regional( Sul e Leste) rumo ao Fórum Nacional de Mulheres Indígenas
Data: 3 a 4 de maio de 2008.
Local: Região Oceânica/Itaipu/RJRua Maurício Lage nº 604 -Maravista- Itaipu/RJ

1- ANTECEDENTES:

a) A partir da Campanha do GRUMIN "NÃO DESTRUA A VIDA DE UMA MULHER INDÍGENA!" que iniciamos em 16 de novembro de 2006, objetivando constituir ali um Fórum de denúncias sobre a violação dos direitos humanos das mulheres indígenas, estamos formalizando o OBSERVATÓRIO INDÍGENA, encima dos conteúdos que já vimos trabalhando arduamente. A Conselheira do GRUMIN e Promotora Popular Miryan Hess, tem encaminhado inúmeras petições sobre casos de mulheres que sofrem no dia a dia, sendo por qualquer motivo. A sociedade não deu atenção a Essa Campanha, mas continuamos!


b) Participamos décadas( começamos em 1979) na luta pelo exercício dos Direitos Humanos das mulheres Indígenas, culminando recentemente com o Fórum Internacional de Mulheres Indígenas, organizado por Chirapaq, Enlace Continental de Mujeres Indígenas, Foro Internacional de Mujeres Indígenas e a Red de Mujeres Indígenas de Máxico y Centro América.

c) Apresentamos em Lima/Peru, no Fórum Internacional, uma proposta de Constituir o Forum Nacional de Mulheres Indígenas e GRUMIN, CONAMI E EMBAIXADA DA PAZ que estavam presentes, fincaram pé nesta INICIATIVA, convidando APOINME, que estava presente também. Estamos trabalhando para FORMALIZAR breve, uma mesa nacional com outras organizações, pois queremos um DIÁLOGO inter-organizacional, rumo ao Fórum Nacional de Mulheres Indígenas. A companheira Graça Tapajós que é da Coiab não esteve presente em LIMA .

2- Objetivos:

Trabalhar a MESA LOCAL E REGIONAL rumo ao Fórum Nacional de Mulheres Indígenas.


Pauta da Mesa:

1- Apresentação da proposta, antecedentes, objetivos gerais e específicos, etc.
2- Como unir esforços, iniciativas e pessoas para fortalecermos local e regionalmente(Leste e Sul)?
3- Trabalhar o questionário sobre racismo do ENLACE CONTINENTAL DE MUJERES INDÍGENAS.
4- Formalização do Observatório indígena a partir da Campanha do Grumin "NÃO DESTRUA A VIDA DE UMA MULHER INDÍGENA!" .
5- Onde está o dinheiro para o GRUMIN?E para as mulheres indígenas?
6- Fortalecimento e total apoio para Namara Gurupy, ( Conselheira Leste do GRUMIN), grande lutadora pela qualidade de vida da Região Oceânica.
7- Como melhorar a relação com os parceiros do GRUMIN?
8- Formalização e apresentação da Carta de Príncípios do Forum local e Regional.
9- Elaboração dos Estatutos do Fórum local e Regional.
10-Atribuições de tarefas políticas e administrativas para a equipe do GRUMIN.


3- Logística

Hospedagem, alimentação, infra-estrutura e transporte local estarão por conta da Conselheira do Grumin, Namara Gurupy e da Diretora-Exectiva do Grumin, Eliane Potiguara.

A passagem inter-estadual fica por conta do esforço de cada uma.

As pessoas convidadas OFICIALMENTE, devem chegar na rodoviária Novo Rio/Rio de Janeiro, às 6 horas de manhã, impreterivelmente, porque teremos um transporte para Itaipu que fica há 1 hora de viagem. Portante. se chegarem depois do prazo não poderemos conduzi-las até lá, pois o transporte sairá às 6:30 de sábado dia 3 de maio de 2008, impreterivelmente.

As pessoas que forem extra oficialmente não teremos como apoiar, pois nossos recursos são mínimos.
Nossos telefones: 021-2577-5816 ( escritório do Grumin)
021-9335-5551( Grumin) 021-26082452 ( Namara Gurupy)

Local:Rua Maurício Lage nº 604 -Maravista- Itaipu/RJRegião Oceânica/Itaipu/RJ


Observação: Haverá uma mesa de trabalho em Brasília, brevemente, onde outras organizações serão convidadas.

ELIANE POTIGUARA
Fellow da Ashoka
Observatório da Mulher Indígena
INBRAPI/Inst.Indíg.Bras.Propriedade Intelectual
Membra Fundadora del Enlace Continental de Mujeres Indígenas
Associação Mulheres pela Paz
www.grumin.org.br (institucional)
http://www.elianepotiguara.orgbr (site oficial da escritora)http://fotolog.terracom.br/elianepotiguarahttp://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena
E-mail institucional: grumin@grumin.org.br
http://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena ( Participe desta lista de discussão)

Sou Lenda

Sou Lenda,
porque as lendas são envoltas em Mistérios
e Magias.
São uma criação dos caminhos da mente, da
vaga imaginação da liberação dos silêncios
da alma...


Sou Lenda, porque as
lendas correm livres
junto ao vento, buscando as vozes
da memória
para que alcancem,
as histórias perdidas
no tempo...

Sou Lenda
Pelo desejo incontido
que hà em mim, de tornar
possìvel o encontro entre a
Lua e o Sol,
diminuindo a entrave da dor.....



Então, sendo Lenda
posso cavalgar pelos
sonhos, velejar pelos
mares da sua
saudade, passear
solta, pelo seu
pensamento....


Sendo Lenda
posso brincar na sua alegria,
e caminhar,
tranqüila, pela sua ilusão....


Sendo Lenda,
posso escrever
meu nome em sua vida,
e me instalar no aconchego do seu
coração como uma sensação
chegando pelo perfume do ar.....


Sendo Lenda
posso ser parte de você,
sem você perceber...

(Débora Bottcher)

http://www.meu.cantinho.nom.br/poesias/sou_lenda.asp

sábado, 26 de abril de 2008

Ancestralidade - Mãe Beata de Iemanjà

Olurum Disse:

Todos Vocês são Meus Filhos e Todos Serão Irmãos

Ancestralidade é muito importante. Nós temos o princípio e temos o fim. Mas para mim a ancestralidade não é o fim, é o começo de tudo na visão Yorubá. A ancestralidade é que nos leva a nossa Mãe e ao nosso Pai únicos.

É o respeito à ancestralidade que me fez chegar até aqui. Até onde eu já consegui saber chegar. Isso eu devo a minha fé e ao diálogo, pois só assim nós alcançaremos o amor e daremos a nós mesmos a compreensão de nos unirmos com o outro através do diálogo.

É como irmãos, sem olharmos as diferenças de religião, que devemos tentar harmonizar os seres do Aiê, que é o mundo na visão Yorubá. Através da palavra, que não é nada mais do que o diálogo, é que vemos quanto nós somos importantes para a paz universal.

Só nos entendendo e nos juntando com amor e compreensão é que nós chegaremos aonde nós queremos, com o nosso coração e com a palavra de amor, do amor sagrado, que é lindo. E isto eu estou dizendo, pois eu tenho certeza que nós chegaremos lá.


Quando Olorum, que é o Deus onipotente, nos colocou aqui no Aiê, ele não fez separação. Ele disse: todos são meus filhos e todos serão irmãos. Quando nós somos filhos da mesma Mãe e do mesmo Pai, não pode haver diferença. O Deus onipotente, o criador grande, criador do Universo, nos disse isso, que é nada mais, nada menos, que o diálogo que ele fez para a gente, com a sua palavra sábia e sagrada.

Quando eu chego a falar que todos são meus irmãos é porque eu tenho orgulho mesmo de dizer que todos são meus irmãos. Eu não olho o negro, o branco, o rico e o pobre. Eu só sei que nós estamos aqui para a paz, para o amor, para nos entender, para nos unir. Isto é tudo.

A união faz a força. Quando a gente quer, a gente consegue. E nós vamos conseguir. Chegará o dia no Universo que nós vamos ter menos guerra, ou nenhuma guerra, menos fome, menos crianças de rua. E isso só nós é que vamos conseguir. Para isto, o Pai nos deu esta força e este direito, para nós conseguirmos através do diálogo, de reuniões, encontros, de apertos de mão, de trazer para si o outro. Para que nós possamos dialogar e nos confraternizarmos em festas, em reuniões e, em todos os momentos, passar a paz um para o outro.

Convido a todos para ouvirem, não só a mim, mas às outras tradições, aos meus irmãos de outras tradições. Como vocês sabem, as religiões afro no Brasil foram muito massacradas, o negro foi muito massacrado e hoje em dia, graças a Olorum nós estamos sendo reconhecidos.

Nós estamos chegando onde nós queremos, que é o amor, a compreensão, sermos entendidos como seres humanos. Termos a nossa casa e não uma senzala. Não comer no cocho como nós comíamos, mas ter uma mesa digna, ter um prato.

Um grande homem que passou muito isto aqui no Aiê foi o Betinho, através do diálogo, fazendo muita gente ver como é importante existir menos fome no mundo e no Universo. Eu devo muito àquele homem. Como devo também a minha religião, a meu amor, a minha compreensão, a minha sede de harmonia e de paz. Como devo ao grupo a que eu passei a pertencer, o Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro, e do qual já faço parte há dez anos, desde aquele momento no Aterro do Flamengo, na Vigília Inter-religiosa que o ISER organizou no encerramento da ECO-92. Aquilo foi maravilhoso, me pôs como cidadã. Eu, uma negra que ouviu de seus ascendentes também coisas muito tristes: eu ouvi minha avó dizer que meus ascendentes chegaram ao Brasil acorrentados no porão de um navio e que minha tia-avó faleceu dentro de um navio e foi jogada ao mar.

Hoje eu sou uma mulher negra de 72 anos, participo de conferências, viajo para outros países, dialogo com irmãos de outras religiões, de outras tradições, tradições maravilhosas que têm seus problemas, como as religiões afro têm, e que hoje em dia estão mais amenizados. Isso para mim é supergratificante.

Eu quero lembrar a todos vocês, em nome de Olurum, em nome de Odudua, que foi o grande criador do Aiê, em nome de Obatalá, o dono da paz, do amor, da compreensão, que hoje em dia nós vemos os pássaros voarem, vemos as flores brotarem do chão, tudo isso, e que se nós quisermos nós seremos como o grande Obatalá.

Vamos fazer o amor florir, a paz florir, a união florir; as religiões e os homens se compreenderem; os filhos darem mais amor para os seus pais; os pais compreenderem e ouvirem mais os seus filhos. E tudo isto se consegue através do diálogo, que é muito importante para a família. Esta realidade sagrada que é a família.

Eu sou feliz, eu tenho uma família universal, que é o povo, são meus irmãos do Aiê. O encontro das civilizações precisa ser como o encontro das religiões é para mim, que me faz sentir como uma criança, como uma adolescente. Eu estou fazendo tudo para que esse dia chegue logo. O encontro entre as civilizações é a oportunidade de conhecermos pessoas de outras culturas, de outros países, para dialogarmos, para nos entender, para cantar.

Cada civilização mostra para o seu irmão as questões da sua história. Só assim nós seremos felizes, e assim nós estaremos agradando ao Deus onipotente, aquele que nos fez perfeitos. Nós é que tentamos ser imperfeitos. Nós devemos voltar à perfeição, o que se faz através do amor, do diálogo, do querer, de se amar.

O mundo é este. Ele foi feito para a paz e para o amor. Junte um grupo na sua comunidade, da sua tradição, da sua cultura para dialogar, para entenderem melhor o jeito de cada um de vocês. Aprendam uns com os outros. Junte-se a nós nesta missão: levar o respeito, o amor e a paz universal ao coração dos homens e banir de vez o preconceito e a intolerância que tanto nos distanciam de um mundo mais justo e melhor para vivermos! Isso é maravilhoso.


Mãe Beata de Iemanjá

Ialorixá do Candomblé, escritora, é Membro da Organização de Mulheres Negras do Rio de Janeiro-CRIOLA, Membro da Comissão Executiva do Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro, Presidente do Instituto de Desenvolvimento Cultural do Ilê Omi Oju Arô e Membro do ATOIRÊ-Desenvolvimento da Saúde nas Comunidades de Terreiro.

Sufismo - Doutrina da unidade

"O ser de Deus e o ser do Universo são um"

A Essência de Deus e seu ser são Um; seu Ser e o ser do universo são um; o ser do universo e o universo são um. [....] Assim é o ser do universo, em relação com o ser de Deus - ele é um -, pois o universo considerado independentemente não existe. Sua existência exterior é sò aparência, e não realidade. Assim, a imagem no espelho, se bem que possuindo uma forma, não possui uma verdadeira existência.

- Hamzah Fansûri ( Indonésia, XVI Siécle.), Asrâr ul-'Arijûn, Anthologie Du Soufisme, Actes Sud, 1995.


Quando (esses pàssaros) foram totalmente purificados e desnudados de toda coisa, eles encontraram todos uma nova vida na luz do Simorgh. Eles tornaram-se assim novos servidores e foram uma segunda vez mergulhados na estupefacção. Tudo o que eles haviam podido fazer antigamente foi purificado e mesmo apagado do coração deles: o sol da proximidade jogou sobre eles seus raios, e as almas deles foram resplandecentes. Então, no reflexo do rosto deles, esses "trinta pàssaros" - "sî morgh - mundanos contemplaram a face do Simorgh espiritual. Eles se apressaram de olhar esse Simorgh, e eles se asseguraram que ele não era outro a não ser Simorgh. Todos cairam então na estupefacção; eles ignoravam se eles tinham ficado eles mesmos ou se eles tinham se tornado o Simorgh e que o Simorgh eram realmente os "trinta pàssaros" - sî morgh". Quando eles olhavam do lado de Simorgh, eles viam bem que era o Simorgh que estava nesse lugar, e, se eles voltassem seus olhares em direção deles mesmos, eles viam que eles mesmos eram o Simorgh. Enfim, se eles olhassem ao mesmo tempo dos dois lados, eles se asseguravam que eles e o Simorgh sò formavam na realidade um ùnico ser. Esse ùnico ser era Simorgh e Simorgh era esse ser. [...] Como eles não compreendiam nada a esse estado de coisas [...], eles pediram ao Simorgh de lhes revelar o grande segredo [....]. Então, o Simorgh lhes respondeu: " O sol de minha majestade é um espelho; aquele que quer se vê dentro dele; ele vê nele sua alma e seu corpo; ele se vê nele todo inteiro [....]. Se bem que vocês estejam extremamente mudados, vocês se veem vocês mesmos como vocês eram antes....

'Attâr, La Conférence Des Oiseaux, Trad. Garcin de Tassy, Èditions D'Aujourd'hui, 1975.


È o recolhimento, em seguida o silêncio; depois a afasia e o conhecimento; depois a descoberta; depois o desnudamento. E é a argila, depois o fogo; depois a claridade e o frio; depois a sombra; depois o sol. E é o jardim, depois a planìcie; o deserto, e o rio; depois a collheita; depois o ressecamento. E é a embriaguez, depois a ressaca; depois o desejo, e a aproximação; depois a junção; depois a alegria. E é o abraço, depois a descontração; depois o desaparecimento e a separação; depois a união; depois a queimação.

- Hallâj, Diwân, Trad. Louis Massignon, Le Seuil, 1981.



Irmão ! O sàbio faz o bem sem nenhum desejo e evita o mal sem nenhum julgamento. Ele frequenta todo mundo sem nenhum apego, fica separado de todos sem nenhum pensamento de fuga e vê Deus através tudo sem que exista nenhum dualismo. Sua maneira de ser é diferente de todas as outras sem que ele faça a diferença entre elas, ele adota todas as maneiras de ser sem ser tocado por nenhuma. Ele deseja Deus sem nenhuma imploração e ele O esquece as vezes sem distinguir a realidade do esquecimento da realidade da lembrança [....]. O sàbio é ao mesmo tempo Deus e criatura. Ele encontra o Senhor no estado de servidão e acha esse estado idêntico ao estado senhorial. Ele não liga para esses estados pois sua realidade ultrapassa a senhoria e a servidão. Se você pergunta ao sàbio se ele conhece alguma coisa ou se ele acha alguma coisa, ele te responderà que ele não sabe nada e que ele não acha nada. Se você lhe pergunta se alguma coisa lhe é desconhecida ou se ele procura alguma coisa, ele te responderà que nada lhe é desconhecido e que ele não procura nada pois tudo lhe é conhecido e se encontra nele. O sàbio sabe tudo e não sabe nada. Ele vai de contradição em contradição [....] e isso não lhe causa nenhuma preucupação. Ele é a ele mesmo sem ele mesmo. Tudo no mundo acontece pela vontade do sàbio e sem sua vontade: ele não procura nada nem evita nada. O sàbio é aquele que conhece, mas isso é apenas uma expressão: ele é idêntico ao objeto de seu conhecimento. [....] O sàbio està além do espaço e do tempo; esse mundo daqui e o outro lhe são indiferentes, o paraìso e o inferno lhe são indiferentes.

- Khâje Khord (Afghanistan, XVIII S.), Résâle-ye'Âref, Trad. M.A.Amir - Moezzi, In La
Sincérité, L'Insolence Du Coeur, Autrement, 1995


Chaves de leitura

Raiz do esoterismo islâmico, a "doutrina da Unidade" afirma a "unicité" do Ser: Sò existe um ùnico Ser e este Ser é Deus, como resume no texto acima o soufi indonésien Hamzah Fansûri. Sim, apenas Deus é absolutamente real, e tudo o que aparece no mundo procede Dele como o reflexo procede do espelho ou do raio, do sol. Assim é para o soufismo o senso do Tawhid, base doutrinal do Islam: "Lâ ilâha illa'L-lâh" - " não existe deus, a não ser Deus" -, afirmado de vàrias maneiras diferentes no Corão: "Ele é o Primeiro e o Ùltimo, o Exterior e o Interior" (57,3), "Qualquer lado para onde você vire, là é a face de Deus" (2,115), etc. Também, o Absoluto não é uma abstração longìqua mas o real mesmo, sempre presente, là, "à portée de main". Uma proximidade....hélas muito difìcil de "realizar", e que é preciso então conquistar através as mùltiplas provações da - "quête" - procura espiritual.


A alegoria dos trinta pàssaros

Ìcone do genio poético e simbòlico do soufismo, a fabulosa Conferência dos pàssaros do persan 'Attâr (v.1150-v.1220) é inteiramente construìda sobre esse paradoxo.
Cansados de uma existência medìocre e inùtil, os pàssaros voam a procura do rei mìtico deles chamado "Sîmorgh", ou seja "trinta pàssaros" em persan. Mas a maioria deles param no caminho, cansados, decepcionados ou seduzidos pelas surpresas da viajem. Conduzido pela "huppe", um pequeno grupo perseverante atravessa no entanto os desertos e os "sete vales de maravilhas e terror", à savoir as etapas e os obstàculos da Via. Exaustos, as asas queimadas, trinta pàssaros - "sî morgh" - alcançam enfim o Pàssaro Rei, metàfora de Deus. Cem cortinas se abrem, uma luz viva brilha, mas os viajantes sò veem um espelho....Uma voz ressoa de repente, clamando que esse espelho é a ùnica verdade, antes de acrescentar um verso que os ecos ressoarão muito tempo na cultura persane: " Vocês fizeram uma longa viagem para chegar até o viajante." Passagem do fini ao infinito, do eu ao "Soi" divino, o caminho espiritual consiste com efeito em remontar o rio da manifestação universal até a sua Fonte, onde a alma se reconhece e se esvanece. Transcendência e imanência, "Criador" e "criatura", "Aparente" (zâher ou "exoterismo") e "Escondido" (bâtin ou "esoterismo"): todos os aspectos opostos do Real se esposam na grande unidade.


A absorção em Deus

Realização ùltima do soufismo, nòs chamamos Fanâ essa "absorção" ou "aniquilamento" em Deus, tão bem demonstrada na descrição paradoxal do "sàbio" que a alcançou segundo o Afghan Khâje Khord. Experiência onde apenas Deus permanece, "Identidade Suprema" e "Não-Dualidade" que lembra o "Nirvana" - "Extinção" - cume do boudismo, ou a "Liberação", seu equivalente hindu. Mas antes de alcançar esse estado de santidade, o iniciado deve transitar por mùltiplas "estações espirituais", etapas intermediàrias descritas no seio das diferentes filiações esotéricas e que correspondem aos diferentes nìveis hieràrquicos da realidade. Evocados poeticamente por esse texto do ilustre Hallâj (v.858-922), essas estações não são estados de êxtase fugaz, mas os estados sucessivos de uma revelação definitiva. Como disse o Andalou Ibn Arabi (1165 - 1240) - chamado "o maior dos mestres" - todo homem é com efeito chamado a tornar-se "a mais perfeita imagem de Deus". "Homem perfeito", o sàbio que alcançou esse cume torna-se no senso mais pleno uma manifestação da Presença e do Amor divinos. O que explica a frase surpreendente " Glòria a mim ! " de um Bistâmi (morto mais ou menos em 875) e também a frase tão famosa quanto escandalosa " Eu sou a Verdade" - quer dizer....Deus - que custou a vida de Hallâj. " Blasfêmia ! ", dirão os rigoristas; "sublime humildade! ", responderão os soufis. Aquela dos realizados que, esvanecidos deles mesmos, deixam Deus falar através a boca deles.

Réza Moghaddassi et Èric Vinson -

Madame!

Você quis roubar meu amor
Saiba que não roubastes nada
Ele està intacto no meu coração

Você roubou
A parte fìsica dele
Pode ficar e seja muito feliz com ela
Se você puder e for digna

È matéria
Fraca........perecìvel
E sujeita à corrupção
Não me interessa


Pode ficar com ela
Pode ficar !


O que ele me deu e ainda me dà
Você nunca terà
Nem na terra
Nem no céu
Em nenhum lugar !


Quem quer amor
Com interesse e òdio no coração
Sò pode afundar
Afundar !
Bem devagarinho
Bem profundo
Nas profundezas obscuras
Dos mistérios do amar !

Cada homem tem a mulher que ele merece
E cada mulher tem o homem que ela merece


Você não conseguiu me destruir
Estou inteira
Em paz
E feliz !


Sò quem me derruba é Deus !
Sò quem me derruba é Deus !

Adeus Madame

Au revoir
Et à jamais !

Soneto de fidelidade


(Vinícius de Moraes)



De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

AMOR FRATERNO

O rei Salomão foi um rei judeu considerado dos mais sábios. Durante o seu reinado, viveram em Sião dois irmãos que eram agricultores e semeavam trigo.

Quando chegou a época da colheita, cada um foi colher o trigo no seu campo.

Uma noite, o irmão mais velho juntou vários feixes da sua colheita e levou-os para o campo do irmão mais novo, pensando:

“Meu irmão tem sete filhos. São muitas bocas para alimentar. É justo que eu lhe dê uma parte do que consegui."

Contudo, o irmão mais novo também foi para o campo, juntou vários feixes do seu próprio trigo, carregou até ao campo do irmão mais velho, dizendo para si mesmo:

"Meu irmão é sozinho, não tem quem o auxilie na colheita. É bom que eu divida uma parte do meu trigo com ele."


Quando se ergueram ambos, pela manhã, e foram para o campo, ficaram muito admirados de encontrar exactamente a mesma quantidade de trigo do dia anterior.

Chegada a noite seguinte, cada um teve o mesmo gesto de gentileza com o outro.

Novamente, ao acordarem, encontraram os seus stocks intactos.

Foi na terceira noite, no entanto, que eles se encontraram no meio do caminho, cada qual carregando para o campo do outro um feixe de trigo.

Abraçaram-se com força, derramaram muitas lágrimas de alegria pela bondade que os unia.

A lenda conta que o rei Salomão, ao tomar conhecimento daquele amor fraterno, construiu o Templo de Israel naquele lugar da fraternidade. O amor fraterno é um dos exercícios para se alcançar a excelsitude do verdadeiro amor.



Nós, que nascemos na mesma família, como irmãos de sangue, somos, as mais das vezes, Espíritos que já nos conhecemos anteriormente em outras existências.

É isso que explica os laços do afecto que nos une. Embora ocorram casos em que os irmãos se detestem, chegando mesmo ao ponto de se destruírem mutuamente, comove observar como tantos outros se amam e se auxiliam.

Percebe-se, pela sua forma de agir, que nasceram para se ampararem mutuamente e alcançar objectivos altruístas.

É comovente observar como Deus dispõe os seres, a fim de exercitarem o amor.

Lembramos de uma família na qual o segundo filho é portador de enfermidade que o impossibilita, desde os verdes anos da infância, tenha uma vida dentro dos parâmetros considerados normais.

Necessitará de amparo constante, pois, mesmo as suas refeições não conseguirá fazer sozinho.


O outro irmão, extremamente dedicado, sempre pronto para atender, dirá frequentemente: "Eu ajudo"!

Amor fraterno. Felizes os que aproveitam a oportunidade do exercício e estabelecem pontes eternas do seu para o outro coração.

Sabia?...

Que as nossas famílias são planeadas por nós antes de renascermos?

E que nesse planeamento são levados em conta todos os nossos contactos anteriores?

Isto explica, sem sombra de dúvidas, as simpatias e antipatias que, desde o berço, envolvem os que se reúnem na mesma família.

Redacção do Momento Espírita com base em lenda judaica.



Mesmo que eu fale em línguas, a dos homens e a dos anjos, se me falta o amor, sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.

Mesmo que tenha o dom da profecia,

o saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento,

mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta montanhas,

se me falta o amor, nada sou.

Mesmo que distribua todos os meus bens aos famintos,

mesmo que entregue o meu corpo às chamas,

se me falta o amor,

nada lucro com isso.


O amor tem paciência, o amor é serviçal,


não é ciumento , não se pavoneia, não se incha de orgulho,

nada faz de inconveniente, não procura o próprio interesse,

não se irrita, não guarda rancor,

não se regozija com a injustiça,mas encontra a sua alegria na verdade.

Ele tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca desaparece.

As profecias? Serão abolidas.

As línguas? Acabar-se-ão.

O conhecimento? Será abolido.

Pois o nosso conhecimento é limitado e limitada a nossa profecia.

Mas quando vier a perfeição, o que é limitado será abolido.


Quando eu era criança,

falava como criança,

pensava como criança, raciocinava como criança.

Quando me tornei homem, pus cobro ao que era próprio da criança.

Agora, vemos em espelho e de modo confuso

mas então, será face a face.Agora, o meu conhecimento é limitado;

então, conhecerei como sou conhecido.

Agora, portanto, permanecem estas três coisas,

a fé, a esperança e o amor,

mas o amor é o maior.

(1Cor 13)


Oração de São Francisco de Assis

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.


http://www.youtube.com/watch?v=ueS0Jr_4A-A&feature=related

A invocação contìnua

"A visão do coração é o que importa"

A visão do coração é o que importante, não a palavra da lìngua. Você não escaparà jamais a seu eu - nafs - antes de tê-lo matado. Dizer "não existe deus a não ser Deus" não é suficiente. A maioria daqueles que pronunciam verbalmente a profissão de fé são politeistas no coração deles.....Enquanto você não renunciar a seu "eu", você não acreditarà jamais em Deus.

Abû Sa'Îd Ibî' (- Khayr (Iran, 967 - 1048), In Mohamad Monawwar, Les Ètapes Mystiques du Sheikh Abû Sa'Îd, DDB - Unesco, 1974.


Uma noite, eu fui no vendedor de vinho, o coração transtornado e ardente de amor. Eu vi uma brilhante e alegre assembléia presidida pelo mestre - pîr - , o vendedor de vinho. Alguns estavam embriagados, os outros fora deles mesmos. Os corações deles estavam desnudados do òdio, as almas puras, os espìritos plenos de eloquência e os làbios mudos. E todos graças ao favor eterno, com os olhos deles contemplavam Deus, com as orelhas deles escutavam a Verdade. Eu me aproximei com cortesia e disse: "Ô você de quem o coração é o asilo do anjo Sorush (1), eu sou um apaixonado pleno de sofrimento e de nostalgia; veja minha dor, tente me curar ". O pîr começou a rir, e disse brincando: "Ô você, diante quem a inteligência se coloca como uma humilde escrava, o que você tem a fazer conosco enquanto que - de confusão - a filha do vinho como uma beleza permanece perto de você coberta de um véu de cristal ? " Eu respondi: "Minha alma està em fogo, me dê àgua, acalme o ardor desse fogo que me devora. [....]" Sorrindo, ele me disse: "Venha, pegue essa taça." Eu peguei. "Tenha cuidado, ele disse, de não beber muito." Eu bebi um gole, e fui imediatamente libertado do fardo da inteligência e da pena do pensamento. Quando eu voltei a mim, eu sò vi Um; todo o resto parecia simples linhas e manchas coloridas; de repente, das alturas do mundo transcendental, Sorush, na minha orelha, repetiu essas palavras: "Ele é Um, apenas Ele existe; Ele é Ùnico, não existe outro Deus a não ser Ele." [....] Ô Hatef ! Aqueles que possuem o conhecimento e que, as vezes, são chamados embriagados e as vezes, lùcidos; para eles, o vinho, a festa, o échanson e o ménestrel, os magos, o monastério, todas essas coisas sò designam segredos escondidos que se exprimem através esses sìmbolos.
Se você compreende o segredo delas, você saberà qual é a essência desses mistérios: Ele é Um, apenas Ele existe; Ele é Ùnico, não existe outro Deus a não ser Ele. [....] Dia e noite, repita o nome do Amigo, procure o Amigo durante a noite e quando aparecer a aurora. Se Ele te disser cem vezes "Você não me verà", permaneça no entanto sempre na espera da visão, até que você alcance esse lugar que não podem alcançar o pé das imaginações e a escala dos pensamentos.


"- Hâtef Isfahhâni, (Iran, Mort en 1783), Cinq Odes Sur L'Unité Divine, In Anthologie Du Soufisme, Actes Sud, 1995.

Nota: 1. Sorush: figura zoroastrienne simbolisando o Mensageiro divino, como o Hermés grego ou o anjo Gabriel bìblico e coranique.


Quando o homem torna-se familiar com o dhikr, ele se separa de toda outra coisa. Pois, na morte, ele é separado de tudo o que não é Deus. Na sepultura, não fica nem a esposa, nem os bens, nem o filho, nem o amigo. Apenas fica o dhikr. Se esse dhikr lhe é familiar, ele sente prazer e se alegra que os obstàculos que o afastavam dele estejam longe [....] de maneira que ele se descobre como sozinho com seu Bem amado. Assim o homem, apòs a morte, encontra seu prazer nessa intimidade. Depois, sob a proteção de Deus, ele se eleva do pensamento do encontro até o encontro ele mesmo.

- Ghazâli, Lhya' (Revivification des Sciences Religieuses), III, 64, Idem.


Algumas pessoas perguntavam um dia ao grande mestre Junayd porquê os soufis se agitavam em êxtase durante a audição da mùsica. "No momento da Aliança primordial, ele respondeu, quando Deus interrogou os germes nos rins de Adão lhes dizendo " Eu não sou vosso Senhor?", uma doçura se implantou nas almas deles. Quando eles escutam a mùsica, essa lembrança acorda e os agita".

- Tabaqât Al-Kurbrâ, Le Caire, I, 63, In Anthologie Du Soufisme, Actes Sud, 1995.



O dhikr - chaves de leitura

No soufismo, o conhecimento esotérico revela a superioridade da sabedoria espiritual ou "gnose" (ma'rifa) sobre a ciência "exotérica" ('ilm), a prioridade da experiência e da compreensão diretas sobre a teoria conceptuelle e as prescrições exteriores. Como mostram os primeiros textos, a razão se revela com efeito muito redutora para ter acesso à natureza profunda das coisas: a unidade metafìsica de qual testemunha a Profissão de fé (Shahada) fundadora do islam: "não existe outro deus a não ser Deus".


Purificar seu coração

Essa unidade divina se manifesta no que os soufis chamam o "Coração" (qalb), "orgão" da inteligência contemplativa. "O coração não é nada mais do que o mar de luz....O lugar da visão de Deus", dirà assim Rûmi no seu mestre livro Mathnavi (III, 2269), precisando: "Purifica-te dos atributos do eu, afim de poder contemplar tua pròpria essência pura, e contemple em teu pròprio coração todas as ciências dos profetas, sem livros, sem professores, sem mestres" (II, 159). O "conhecimento" ou "visão pelo coração" (ma'rifa) não depende com efeito de uma atitude intelectual ou sentimental da realidade, mas da experiência de sua essência profunda no seu Criador divino. Trata-se para o soufi de purificar seu coração , como nòs polimos um espelho para que ele reflita perfeitamente a Luz divina. O que implica de retirar os "véus" criados pelo eu (nafs): o obstàculo das emoções e dos desejos que associa ao Absoluto outra coisa que Ele mesmo; o obstàculo da razão também, que reduz esse Absoluto a suas pròprias representações.



O vinho mìstico

O soufi é assim chamado a se despir de todas essas idéias - que são finalmente "idolos" - e a "morrer" a ele mesmo ainda vivo, para melhor nascer para sua natureza ùltima. Uma experiência que conduz no final ao silêncio e a embriaguez da pura presença de Deus, a essa liberdade divina que liberta dos limites e das convenções sociais, como mostra o magnìfico sìmbolo do "vinho mìstico" do Persan Hâtef Isfahâni, tão provocador em uma cultura que rejeita o alcool e as vezes mesmo a mùsica e a dança....Mas como encontrar o caminho dessa "taverna espiritual"? Pela ascése pessoal mas também pelos sìmbolos e métodos iniciàticos especìficos, de quais a principal é o dhikr ou "Lembrança de Deus".
"Invoquem vosso Senhor humildemente e secretamente" (VII, 55), "Diga: "Deus", e deixai-os a seus jogos vãos" (VI, 91) jà incitava o Corão.....O eu enganador sendo o esquecimento de Deus, a pràtica central do soufismo é então o dhikr ou a lembrança da atenção sobre Ele através a invocação contìnua de Seus mùltiplos nomes, ligados a Seus atributos: "o Vivo", "o Imutàvel", "Allah" ou simplesmente "Ele". Coletiva no contexto das confrarias ou solitària, verbal ou silenciosa, a invocação repetida é esquecimento de tudo e sobretudo de si mesmo, como escreve no texto acima Ghazâli (1058 - 1111) um dos mais importantes pensadores do islam. Pela concentração, o dhikr deve rasgar a brumosa camada de confusão pròpria ao espìrito ordinàrio para deixar aparecer a Realidade divina, fonte de todas as realidades.
Primeiro a pronunciação a voz alta ou interior do Nome divino ("dhikr da lìngua"), as vezes acompanhadas pelo canto, pela mùsica e pela dança, como fazem os derviches tourneurs discìpulos de Rûmi, o dhikr deve acabar tomando possessão do ser todo inteiro ("dhikr do coração ").
"Invoque Allah no coração, em um segredo que as criaturas não percebem, sem letra e sem voz ! Esse dhikr é a melhor de todas as incantações", diz o sheikh al-Naqshbandi (1317 - 1389). Tudo torna-se então lembrança de Deus: toda forma torna-se uma mensagem do "Amigo", toda mùsica, um louvor ao "Bem amado"....Então, não existe mais a questão da memòria ou do esquecimento. Apenas permanecem o Um e a união extàtica com "Ele".


- Réza Moghaddasi et Èric Vinson -

terça-feira, 22 de abril de 2008

A Tariqa ou a Via.

"Voe para sua morada natal"

Como a alma não poderia ter seu impulso, quando a gloriosa Presença, um apelo afetuoso, doce como o mel, chega até ela e lhe diz: "Eleva-te" ? Como o peixe não poderia saltar imediatamente da terra seca na àgua, quando o barulho das vagas chega a sua orelha do Oceano de ondas fresca? Como o falcão não poderia voar, esquecendo a caça, em direção do pulso do Rei, assim que ele escuta o tamborim, batido pela vara, lhe dar o sinal do retorno ? Como o soufi não poderia começar a dançar, girando em torno dele mesmo como o àtomo, no sol da eternidade, afim que ele o liberte desse mundo perecìvel ? Voe, voe, pàssaro, para tua morada natal, pois você escapou da gaiola e tuas asas se desenvolveram. Afasta-te da àgua amarga, apressa-te para ir na Fonte de vida.....

- Rûmi, Divân-È-Shans-E Tabriz, L'Èloge du Vin, Trad. Èmile Dermenghem, Véga, 1931.



Senhor, Você é a vida. Apenas Você existe e mais ninguém. O que dizer apòs Teu nome ? Você é Um, voilà tudo. Você inspira o temor aos povos da terra. Eu, sò tenho medo das noites de minha alma, pois de Ti sempre sò veio para mim o puro amor. Ô meu Rei bem amado, veja, eu estou no caminho. Você nos disse: "Crianças, Eu não vois deixo, Eu estou perto de vocês, fiquem perto de Mim." [....] O apaixonado não se preucupa de seu destino. Ascéte ou devasso, pouco importa. Ele renuncia a tudo nessa terra. Se teu coração não ama sua vida, jogue fora sua vida e va sem ela. E se advem um dia que Deus te impõe de esquecer sua fé e de renunciar a sua vida, sacrifique corajosamente os dois. Deixe sua fé, deixe sua vida. "Heresia !", dirà o ignorante - Responda para ele: "O amor me governa e nada nesse mundo é mais importante do que ele" [....] Sem dùvida alguns dirão que esse desejo ardente do Amor maior é um orgulho culpado e que é loucura de pensar que nòs podemos chegar vivo onde ninguém jamais foi. Para mim, é melhor oferecer minha vida a esse desejo, mesmo orgulhoso, do que deixar apodrecer meu coração nas preucupações de boutiqueiro. Eu vi tudo, eu ouvi tudo. Nada pôde desviar meu olho desse caminho que eu quero percorrer.

- 'Attâr, La Conférence des Oiseaux, Trad. Marijeh Nouri. Ortega et Henri Gougaud, Le Seuil, 2002.



Se você pergunta, ô meu irmão, quais são os indìcios da Via, eu te responderei claramente e sem ambiguïdade. È que você olhe o verdadeiro e rompa com o falso; que você vire a face em direção do mundo vivo; que você pose os pés sobre as dignidades; que você elimine de seu pensamento toda ambição de glòria e de reputação; que você dobre a cintura a Seu serviço; que você purifique a alma dos males e a reforce pela razão; que você passe da casa daqueles que falam com abundância para a casa daqueles que guardam o silêncio; que você viaje das obras de Deus até seus Atributos e de seus Atributos até Seu conhecimento. Nesse momento, você passarà para o mundo dos mistérios para chegar ao pé da pobreza; e quando você serà o amigo da pobreza, tua alma obscura se tornarà um coração arrependido. Em seguida, Deus retirarà a pobreza de seu coração, e quando a pobreza sair dele, Deus estarà nele.

- Sanâ'l, Hadîqat Al-Haqîqa, Trad. Jabre, In Eva de Vitray-Meyerovitch, Anthologie Du Soufisme, Actes Sud, 1995.


O sheikh Junayd tinha um discìpulo que ele preferia a todos os outro, o que incitou o ciùme deles. Conhecendo os corações, o sheikh percebeu isso. "Ele vos é superior em cortesia e em inteligência, ele disse. Vamos então fazer uma experiência, afim que vocês também o compreendam." Junayd ordenou então para trazer vinte pàssaros e disse a seus discìpulos: "Que cada um de vocês pegue um pàssaro, que ele o leve para um lugar onde ninguém o veja, que ele o mate, e depois que ele o traga." Todos os discìpulos se foram, mataram os pàssaros e os trouxeram - todos, menos esse discìpulo favorito; ele trouxe seu pàssaro vivo. "Porquê você não matou o pàssaro?", perguntou Junayd. " Porque o mestre disse que deveria ser feito em um lugar onde ninguém pudesse nos ver, respondeu o discìpulo. Em todos os lugares onde eu fui, Deus via." "Vocês veem agora o grau de sua compreensão ? disse Junayd. Comparem-o com o grau dos outros." Os discìpulos pediram perdão a Deus.

- 'Attâr, Idem -


A Via

O que nos dizem então esses textos fascinantes de "gigantes" da cultura muçulmana como os Persans Djalâl-ord-din Rûmi ou Farid-ord-din 'Attâr ? Trata-se simplesmente de bela poesia oriental, de emocionante literatura amorosa, de anedotas saborosas....ou de esoterismo ? Com toda evidência, esses autores são antes de tudo "soufis" e a mensagem é primeiro espiritual. Aos olhos deles com efeito, a alma humana, apaixonada por Deus sem o saber, começa correndo o mundo para acalmar seus desejos. Antes de compreender enfim- diante sua insatisfação- qual é o ùnico objeto de seus esforços e de suas dores: reencontrar o ùnico "Rei bem amado", a divina "Fonte de vida" original. Então ressoa "o sinal do retorno" e se abre a "Via" - em àrabe Tariqa- do soufi: a procura iniciàtica da união intima com o "Senhor". Tornando-se "pobre" de tudo, esse "mendigo de Deus" sò aspira a se reunir custe o que custe - com o supremo "Bem amado". "Viajando de Suas obras até Seus atributos e de Seus atributos até Seu conhecimento", como diz Sanâ'i (XI século), um dos fundadores da poesia mìstica iraniana, o soufi, "peregrino do absoluto", sò tem uma ambição: se consumir em Deus.


Da letra ao espìrito

Conhecido no Ocidente com o nome de soufismo, o esoterismo islamique (tasawwuf em àrabe) foi desde sua aparição uma matéria de polêmica com os interpretes mais preucupados do islam. Se o soufi coloca geralmente um ponto de honra para respeitar a Sharia, à savoir os dogmas e os deveres de todo muçulmano, sua evolução espiritual pode conduzi-lo a relativizar, até mesmo contestar, uma posição ou interpretação "fechada" dessa Lei. Mas, no contexto do soufismo ortodoxo, uma tal reconsideração não é jamais uma simples negação da regra islamique mas de preferência sua interiorização pessoal. Uma verdadeira passagem da letra ao espìrito bem descrita pelo primeiro texto de 'Attâr com um tom surpreendentemente moderno....
Pesada, a Sharia mantem com efeito o crente separado de Deus, da mesma maneira que o cìrculo é separado de seu centro, enquanto que a "Via" aparece ao iniciado como o raio que permite de reunir esse Axe: a Haqiqâ, a ùltima realidade divina.



Mestres e discìpulos

Significando literalmente em àrabe "caminho", a Tariqa designa a "Via" escolhida por aquele que foge a ilusão para provar e depois abraçar essa Realidade suprema. Uma procura muito longa e difìcil -haja visto a variedade de obstàculos, dos impasses e das armadilhas- e ela implica a ajuda de um "mestre espiritual". Chamado Sheikh, Murshid ou Pir segundo as lìnguas, ele conhece a Tariqa por tê-la percorrido ele mesmo. Ele é então o ùnico a poder exercer a função de "passeur" entre o fini e o infinito, entre a criatura e o Criador. Ele transmite a "graça" (baraka) veiculada pela "corrente iniciàtica" (Silsila) que o liga com seus predecessores ao Profeta e a Deus. Apenas a abertura do discìpulo (mûrid) a essa "influência espiritual" de origem divina permite com efeito sua progressão e sua maturidade espiritual.
Como ilustra a anedota narrada aqui por 'Attâr, o mestre deve ter um conhecimento preciso do estado interior do discìpulo, afim de melhor adaptar sua formação as necessidades dele. È a razão pela qual o termo de Tariqa designa igualmente, por extensão, as diferentes confrarias espirituais onde se exerce essa "passagem de testemunha". Muito numerosas através o tempo e o espaço, de tamanhos e caracteristicas diversas, essas instituições iniciàticas ( a mais conhecida é a dos derviches tourneurs) continuam atualmente o caminho delas, não somente na terra do islam mas também por algumas terras do Ocidente. Regrupadas em torno do santo fundador delas e de seus herdeiros contemporâneos, elas são o rosto concreto e atual do soufismo

.- Réza Moghaddassi e Èric Vinson.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O Soufisme - Introdução

Compreender

O esoterismo muçulmano encontra sua fonte no pròprio Alcorão, onde a dualidade de Allah, Deus aparente e escondido, autoriza a via mìstica.Desafiando a diversidade das crenças, o soufisme desenvolve uma visão universalista das religiões, fundada no amor.


O Soufisme

A dimensão esotérica é enunciada no pròprio Alcorão. Deus se apresenta como o Exterior e o Interior, ou o Aparente e o Escondido (Cor. 57,3). Nòs sò podemos então realizar Deus, concluiram os soufis, na união dos contràrios." Não são os olhos que são cegos, mas os corações" (Cor. 22,46), "Na terra existem sinais para aqueles que possuem uma visão correta. E em vocês mesmos, vocês não veem?" (Cor. 53,20): esses versìculos incitam o homem à introspecção e fundam o esoterismo muçulmano, o soufisme. Mesmo acento no "argumentos santos"(hadith qudsi), palavras divinas que não fazem parte do Alcorão e nas quais Deus Si dirige à intimidade do homem: "Nem minha terra nem meu céu não me contem; apenas me contem o coração de meu servidor crente." Bem mais, em uma longa passagem coranique, enigmàtica, é afirmado a superioridade da Lei interior, mìstica, sobre a Lei exterior, légaliste. Khadir (ou khidr), o iniciador dos profetas e dos santos, coloca Moïse à prova três vezes, realizando atos que são aparentemente contràrios a Lei: ele afunda um barco, mata um homem jovem....Moïse, que permanece apegado às normas exteriores, se mostra impaciente e revoltado. Khadir, quanto a ele, percebe a realidade profunda, interior das coisas, e explica a Moïse o bom fundamento de seus atos. (Cor. 18,65-82).


Uma sabedoria universal

O soufisme é a encarnação da Sabedoria universal e eterna no corpo religioso do islam. Ele esposa suas formas, sem ser prisioneiro por essa razão dessa dimensão horizontal. È por isso, que em um paìs muçulmano, fala-se as vezes de "soufisme judeu" ou de "soufisme cristão" para designar os mìsticos de uma ou outra religiões. Os soufis visam a desvendar a opacidade desse mundo desenvolvendo a unidade do olhar interior; então aparece a "certeza", que se situa além da fé. Os "sinais divinos", evocados inùmeras vezes no Alcorão, incitam o homem à contemplação. Eles são incessantes pois Deus renova sem cessar suas théophanies. Àqueles que ele desenvolve "nos horizontes" (Cor. 41,53) são o espelho de nossa alma, de nosso estado interior, em virtude da correspondência entre macrocosme e microcosme. Mas a porta é estreita pois a condição para acessar à Unicité, a essa liberação do mundo das aparências, ou da dualidade, é a morte do ego individual, lugar de toda ilusão. "Morram antes de morrer", dizia o profeta Muhammad. O soufi tenta alcançar essa transparência ontologique lutando contra a amnésia que atinge o homem ordinàrio, esquecido do Pacto selado com Deus na pré-éternité. Ele remonta dessa maneira o arco descendente da Manifestação universal, afim de reintegrar sua origem divina: esse é todo o augumento do dhikr, a "lembrança-invocação" de Deus que praticam os soufis. No percurso de suas experiências espirituais, os primeiros soufis, apareceram no Irak entre os séculos IX e X, eles chocaram as vezes o establishment muçulmano; na realidade, exitia uma parte de provocação na atitude deles, que visava a fazer evoluir as sociedades muçulmanas.

Mas eles souberam compreender a lição do processo de Hallâj (v. 858-922): ele falava em pùblico dos "segredos divinos", e toda verdade não é boa para dizer. Eles então se empregaram a colocar em evidência a ortodoxia natural do soufisme, mostrando que essa via é marcada por "estações", como a "sinceridade" ou a "renùncia confiante em Deus", que tem origem no vocabulàrio coranique; que o modelo é o Profeta, de quem todo mestre soufi tira ser "influx" e sua legitimidade através uma filiação iniciàtica; que o soufisme é o islam perfeito, pois ele considera todas as dimensões da mensagem islamique: revelando seu simbolismo escondido, ele dà mais pertinência aos ritos e aos cinco pilares do islam. O soufisme torna-se verdadeiramente o "coração do islam" com o Iraniano Ghazâli, esse ilustre sàbio que, apòs ter vivenciado um vazio espiritual, escolhe a via mìstica e confessa no fim de sua vida que o soufisme é a ùnica disciplina permitindo de alcançar Deus. Ele torna-se então a espiritualidade dominante no seio do Islam sunnite- o chiisme desenvolvendo uma gnose pròxima mais distinta - e influencia de diversas maneiras, além do dominio do pensamento e das artes, os campos social e politicos.



O amor como gnose

Mas muitos doutores da Lei tiveram dificuldades para compreender o soufisme em seu universalismo, portanto oriundo da palavra de Muhammad. Para os soufis, a humanidade constitue com toda evidência uma ùnica comunidade de adoração, que transcende a diversidade das crenças. Cada religião reflete um aspecto da Divindade. Seguindo necessariamente uma religião particular, o iniciado não deve limitar seu horizonte a esse ùnico credo. È a "religião do Amor", evocada pelo Iraniano Rûmi, o inspirador dos derviches tourneurs, pelo Andalou Ibn Arabi e muitos outros.
O Amor como gnose: porque Deus se define antes de tudo como o Misericordioso, conhece-lo, é conhecer o Amor, quasiment materno ou "matriciel", que ele tem pela humanidade. " Eu era um tesouro escondido e Eu amava a ser conhecido", està escrito no hadith qudsi. Ter uma visão diminuida do islam, se fechar nas origens éthicas ou sociais: eis o que reduz as imensas possibilidades da Misericòrdia.
Alguns santos soufis herdam espiritualmente dos profetas anteriores a Muhammad, todos reconhecidos pelo Alcorão. Entre eles, Jesus ocupa um lugar eminente, e alguns soufis são particularmente conhecidos por terem tido um temperamento christique. De acordo com a função importante que ele tem na escatologia muçulmana, Jesus é considerado pelos soufis como o "selo da santidade universal", o que ele realizarà no seu retorno na terra no fim dos tempos. Nenhuma dificuldade para eles em admitir que houve uma fecundação mùtua entre a disciplina deles e os esoterismos como o Vedanta hindu, a mìstica cristã e sobretudo a kabbale judia; santa Thérèse d'Avila e saint Jean de la Croix teriam sido influenciados pelo soufisme maghrébin através dos mìsticos judeus espanhois.


A reforma do islam

No Ocidente contemporâneo, o soufismo seduz particularmente os Maçons espiritualistas, geralmente estudiosos do ensinamento de René Guénon, que fez ele mesmo a escolha do islam. Na realidade, o soufismo permanece incontestavelmente uma via iniciàtica muito viva, na qual a relação de mestre a discìpulo conserva toda a sua eficiência. Algumas pessoas pensam que essa energia que o atravessa deve alimentar o Ocidente "post-moderne", no qual o materialismo sò faz colocar em evidência a necessidade de reencontrar o axe da verticalidade.Mais amplamente do que no passado, ele tem a vocação de ajudar as sociedades muçulmanas a ir em direção do essencial, quer dizer, a espiritualidade que, apenas ela, permite de transmutar as formas jurìdicas e rituais paralizadas, inadaptadas a nossa época. "Filho de seu tempo", como diz o ditado, o soufi reclama a reforma do islam, mas essa reforma deve partir do interior para não ser um simples slogan. Argumento de abertura para o universal, o pensamento soufi funciona como um antìdoto às diversas formas de islamismo - em paìs muçulmano, a maioria dos dirigentes compreenderam isso. Os soufis sempre foram passeurs, entre os sensos graduados da Revelação, entre as religiões, entre as culturas. Fortes pela sua experiência, eles devem atualmente apresentar um islam regenerado pelo Espìrito, e ser uma ponte entre o Oriente e o Ocidente.


Èric Geoffroy, professor de islamologie na universidade Marc-Bloch de Strasbourg. Autor, entre outros, do livro L'Instant soufi (Actes Sud, 2003) e d'Initiation au soufisme - (Fayard, 2003).

Dante, poète ésotériste?



"Meu ver foi mais longe que nosso falar"


49. Bernard sorria e me fazia um sinal para olhar para o alto, mas eu jà estava por mim mesmo da maneira que ele queria: como minha vista, tornando-se lìmpida, entrava cada vez mais no raio da alta luz que por si mesma é verdadeira. 55 A partir desse ponto meu ver foi mais longe que nosso falar, que cede a visão, e a memòria cede a esse excesso. Assim é aquele que vê sonhando, e, quando o sonho acaba, a paixão imprimida permanece, 60 e ele não tem mais lembrança de outra coisa, assim eu estou agora, pois quase tudo cessa minha visão, e dentro de meu coração escorre ainda a doçura que nasceu dela. Assim a neve se destaca do sol; 65 assim ao vento nas folhas leves se perdia a sentença de Sibylle (1): Ô luz soberana que tanto te elevas acima dos pensamentos mortais, dê novamente um pouco a meu espìrito daquilo que você parecia, 70 e torne minha lìngua tão potente que uma centelha de tua glòria possa chegar às pessoas futuras; se ela volta um pouco à minha memòria e ressoa suavemente nos meus versos, 75 nòs conceberemos melhor tua vitòria. Eu creio, pela acuidade que eu senti no momento, do raio vivo, que se meus olhos estivessem se desviado dele, eu teria me perdido. E eu me lembro que eu fui mais ousado 80 por isso mesmo a resistir, até unir meu olhar com o valor infinito. Ô graça muito abundante que me fez presumir de plantar meus olhos no fogo eterno, tanto que eu consumia nele a vista ! 85 Na sua profundeza eu vi que se recolhe, ligado com amor em um volume, o que no universo dissemina-se: acidentes e substâncias e suas modalidades como derretidos juntos, de maneira 90 que o que eu digo é simples clarão.
Eu creio que eu vi a forma universal desse nò, pois dizendo isso eu sinto em mim aumentar o prazer. [...] 97 Assim minha alma, em suspenso, olhava fixamente, imòvel, atentiva, e se inflamava de sem cessar a olhar ainda. 100 Nessa luz nòs nos tornamos de tal maneira que se desviar dela para uma outra visão é impossìvel para nunca consentir pois o bem, que é ùnico objeto de querer, se acolhe todo nela, e fora dela 105 està com defeito o que là é perfeito.
Minha palavra doravante serà mais curta, mesmo com relação com o que eu tenho na memòria, e de uma criança que banha ainda a lìngua no seio. Não mais do que uma ùnica aparência 110 fosse murada na luz que eu via, pois ela é sempre como ela jà foi antes; mais pela vista que ganhava em valor em mim que olhava, uma ùnica aparência, enquanto que eu mudava, para mim se transmutava. 115 Na profunda e clara substância da alta luz três cìrculos me apareceram, de três cores e de tamanho ùnico; e um pelo outro, como iris em iris, parecia refletido, e o terceiro parecia um fogo, 120 que daqui e dali igualmente respira. Ô como o dizer é fraco e que ele corre a meu pensamento ! Tão curto, diante o que eu escrevo, que dizer "pouco" não é suficiente. Ô luz eterna que apenas em você reside, 125 sozinha te pensa, e por você escutada e te escutando, ri a você mesma, e te ama ! Esse cìrculo assim concebido parece em você luz refletida longamente contemplada por meus olhos 130 no interior de si mesmo, de sua mesma cor, me parecia pintado de nossa imagem; tanto que meu olhar estava todo nele. Tal é o geométrico apegado todo inteiro a medir o cìrculo e que não pode encontrar 135 pensando, o princìpio que falta, assim estava eu mesmo nessa vista nova : eu queria ver como se junta a imagem ao cìrculo, como ele se liga; mas para esse vôo minha asa estava muito fraca: 140 senão que então meu espìrito foi surpreendido por um brilho que vinha a seu desejo. Aqui a alta fantasia perdeu sua potência, mas jà ele girava meu desejo e querer assim como roda igualmente empurrada, 145 o amor que move o sol e as outras estrelas.


La Divine Comédie, Le Paradis, Chant XXXIII, 49-145, Trad. Jacqueline Risset, Garnier- Flammarion, 2004.

Nota: 1. Sibylle de Cumes: adivinha da Itàlia do Sul, figura do esoterismo antigo e medieval, imortalizada por Virgile. Ela escrevia suas sentenças sobre folhas que um sopro do vento, penetrando na sua caverna, dispersava.


Chaves de leitura

Considerado como o criador da lìngua italiana, Dante (1265-1321) é um dos maiores genios da literatura. E sua obra prima - La Comédie, dita divine a partir de 1555 - é também a obra prima da Idade Media literària. Mas ele também seria aquele do esoterismo medieval cristão ?Neglicenciada até mesmo atacada pela maioria dos analistas "oficiais" da obra, essa chave de leitura pareceu capital para alguns esoteristas dos séculos XIX e XX, entre eles brilha René Guénon com seu estudo lapidàrio e enigmàtico, O Esoterismo de Dante (1925). Uma interpretação rica em questões difìceis: as do esoterismo cristão em geral, redubladas das que teem relações entre o esoterismo e a literatura. Por sua inevitàvel dialética entre o "dizer" e o "falar", por seu necessàrio uso da alegoria e sua profundeza de vista, toda grande obra poética não poderia com efeito ser qualificada de "esotérica" ? A fortiori no contexto da cultura medieval cristã, atravessada pela temàticas espirituais e simbòlicas por causa da sua pròpria relação com a Escritura santa, com a natureza, com a ciência, etc ?O que nòs chamamos hoje "esoterismo" para designar um campo especìfico da esperiência e da cultura humana, tinha então todo seu lugar na visão do mundo global das elites do tempo. Dizendo de outra maneira, a obra de Dante é intrìnsecamente esotérica e leva a um conhecimento "reservado" - eventualmente transmitido por uma sociedade "secreta" ? Ou então ela tornou-se esotérica através um olhar sobre ela a posteriori ?


Sob o sinal de "três"

Fechando o trinta e três e ùltimo canto do Paradis, esse texto contem indìcios que permitem de se forjar uma opinião. Mas antes de mostrar os detalhes, vamos voltar à estrutura global da La Divine Comédie, ela mesma rica de ensinamentos, particularmente numerològicos. Colocada sob o sinal de três, ela é formada de três partes - O Inferno, O Purgatòrio e O Paraìso - divididas em 33 cantos, aos quais se acrescenta um Prologue, ou seja 100 cantos no total; esse nùmero sendo um sìmbolo da união perfeita entre a unidade e a totalidade, quando "3" leva à Trinidade. Inventado por Dante para o ocasião o rìtmo poético aqui presente é o tercet: um conjunto de 3 versos que possuem cada um 11 sìlabas, ou seja 33 sìlabas por um tercet.... La Divine Comédie possue então claramente uma arquitetura "geométrica"onde o todo e a parte se respondem segundo regras harmoniosas de acordo com o propòsito: descrever a totalidade do universo a partir de princìpios metafìsicos e das leis analogiques que o constituem (verso 85-93).


Uma viagem iniciàtica

Sobretudo a obra inteira é uma viagem iniciàtica - alguns até evocaram um "vol chamanique" - que revela ao poeta os arcanes da Verdade. Descida mortìfera no Inferno depois subida progressiva e purificadora através do Purgatòrio em direção da apothéose do Paraiso, esse caminho espiritual também é uma transmutação, que leva Dante através os diferentes "estados" da realidade, até a visão direta de Deus. Seguindo nessa ascensão o poeta latino Virgile - referência a toda herança antiga - depois Béatrice, a mulher amada, o vidente exalta uma espiritualidade da procura e da união, onde o desejo e o amor ocupam o primeiro lugar. Sinal de uma filiação chevaleresque assim como alguns supõem lembrando as relações de Dante com grupos misteriosos, os "Fidèles d'Amour" e a "Fede Santa " ?Essa passagem capital da La Divine Comédie é colocada sob a autoridade de um guia singular: saint Bernard de Clairvaux (1090-1153), o protetor da ordem des Templiers, reprimida no sangue por Philipe le Bel, entre 1307 e 1314, quando Dante escrevia seu poema....

- E.V. -

Te amar!

Tudo........tudo
Parecia ilusão...
Era uma història
Um raio de luz
Um beijo de sol
Uma canção !


Tudo......tudo
De qualquer maneira
De qualquer lugar


Em versos
Em làgrimas
Uma dàdiva

Um sorriso
Uma prece !

Um desejo ùnico e sublime

Te dar meu coração
Te dar minha alma

Agora e para sempre

Te amar........te amar.....

Simplesmente te amar !

Sem discursos
Sem màscaras
Sem mentiras

Te amar !

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Homem Brasileiro na Era Digital


“Há homens que lutam um dia, e são bons;

Há outros que lutam um ano, e são melhores;

Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;

Porém há os que lutam toda a vida,

Estes são imprescindíveis...” Bertold Brecht



Há uma realidade que se aplica a todos os setores estratégicos do desenvolvimento brasileiro. Nossa Carta Magna data de 1988, tendo sido redigida à luz do embasamento científico e tecnológico de então. De lá para cá registrou-se muito progresso, a começar pela incrível participação da Internet em nossos projetos de vida.

Vejamos o caso das telecomunicações e radiodifusão. O País vive uma intensa dicotomia, pois há regras atualizadas no primeiro dos campos, enquanto no segundo a obediência se faz à Constituição, impedindo uma série de avanços e gerando embaraços para a expansão econômica e social.

A TV Digital foi objeto de ampla discussão no Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, órgão auxiliar do Legislativo, que tem pensado e repensado sobre a matéria.

Não há restrições para a construção de plataformas. Existem algumas de alta tecnologia, instaladas no País. Mas entende-se que os conteúdos envolvem a soberania nacional e o desejo de construção de uma cultura fincada em nossas raízes. Não se pode admitir a livre circulação de conteúdos emanados de centros de poder existentes no exterior, como se fôssemos nos abrir de forma escancarada para um tipo de neocolonialismo cultural indefensável. A existência de 15 milhões de parabólicas, transmitindo a TV aberta, só faz agravar o problema.

A regulação do que se relaciona ao conteúdo nacional é fundamental, compreendendo-se que a sua transmissão deve ser prerrogativa das emissoras. Será a melhor maneira de ampliar as fronteiras do conhecimento, com proteção à nossa língua e à diversidade regional. Isso deve ser respeitado, assim como é preciso considerar que os recursos para a inclusão digital (Fust, Fustel etc.), hoje somando bilhões de reais, não podem ser desviados da sua finalidade original. Eles não estão servindo à educação, como se pretendia, transformados que foram em muletas para outros setores igualmente carentes do Governo.

Clama-se pela criação de linhas de crédito especiais para a implantação da TV Digital (quem sabe, BNDES?), não obstante ser conhecido o valor de US$ 50 bilhões investidos pelo setor de telecomunicações, após as privatizações. É quantia expressiva, que talvez justifique os números, por exemplo, da telefonia móvel.

O que afirmam estudiosos é que as operadoras não deveriam cuidar de conteúdos, tarefa das emissoras. É difícil imaginar que alguém vá sentir conforto ao tentar assistir a um filme pelo celular. Quanto tempo o consumidor agüentará olhar para aquela telinha?

A Inclusão Digital

Todos os projetos desenvolvidos pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, em 2006, estavam ligados ao desenvolvimento econômico, ao mercado de trabalho, representado pelas empresas que se instalaram no Estado. Todo treinamento de professores tinham o condão de respeitar essa proposta. Queríamos que os professores aperfeiçoassem suas performances junto aos alunos e que tivessem os olhos para fora da escola, com foco na atração dos pais e dos empresários.

Em termos de futuro, é preciso estar atento a uma correta preparação para a “era da inclusão digital”. O Rio de Janeiro, com os especialistas que tem e abrigando a sede da Rede Globo, a quarta maior rede de televisão aberta do mundo, está prestes a sofrer um “choque de modernidade”, com a introdução da TV digital nos nossos procedimentos de comunicação. Precisamos estar mais atualizados em relação ao que se passa. Já definimos, através do sistema nipobrasileiro, qual será o hardware, e agora temos de pensar nos conversores e no software pedagógico. Em breve, teremos no conteúdo das televisões uma característica digital de qualidade, de alta definição, e a interatividade. A educação terá à sua disposição as melhores imagens, e será possível fazer perguntas ao vivo aos professores, com respostas em tempo real. É o que prevê o Decreto no 5.820, de 29/6/2006, que garante a existência de quatro novos canais digitais: Poder Executivo, Educação, Cultura e Cidadania (Artigo 13). O sinal da Educação estará, com todas as suas virtualidades, no Canal 64. Viveremos, certamente, outros tempos.

Uma TV Democrática

Ao sermos recebidos na Rede NHK, em Tóquio, no que talvez seja a maior rede do mundo em termos educativos, soubemos que o sistema começou há 82 anos como rádio. Na verdade, é semipública, pois os cidadãos pagam taxas de US$ 14 por mês para assistir à TV terrestre e US$ 25 quando assistem às imagens via satélite. O Governo não precisa ajudar as emissoras, que têm da população um nível de satisfação da ordem de 70%. Isso não impede que 10% tenham desistido de pagar. A razão? Um dos mistérios orientais.

O Japão tem 127 milhões de habitantes. Pois a Rede NHK opera com 11.600 funcionários, para administrar 13 canais domésticos analógicos e digitais. Até 2011 será tudo digital. A imagem é mesmo muito superior (alta definição). Vimos experimentos que demonstram isso (BS – Hivision). Perguntamos se eles ainda distribuem material de apoio impresso. A resposta é negativa. A NHK produz para desenvolver atividades nas escolas. Exemplo: um professor de Ciências descobriu uma forma de ensinar mais adequadamente tudo sobre ofídios. Ele ganha um espaço para mostrar aos demais o caminho aberto. Não há o emprego de educação à distância como a entendemos, ou seja, dando cursos. Isso é papel da escola, todas elas de tempo integral, e com grandes incentivos à tarefa dos professores.

Esses subsídios são úteis para saber como aplicar à realidade brasileira, totalmente diferente.

Aqui no Brasil caminha-se para uma televisão educativa laica, sem atuação político-partidária, explorando temas sobre os quais há controvérsias, como energia nuclear, células-tronco, biodiesel, etanol, defesa do meio ambiente, etc.

A exigência oficial é que seja uma TV democrática, que respeite as religiões e as opções políticas de cada um, com debate permanente sobre as grandes questões nacionais. “A sociedade necessita de uma boa rede pública de televisão.”

Ao juntar as letras, o homem tinha criado as palavras, ao juntar as palavras o homem tinha criado as frases, ao juntar as frases o homem tinha criado a fala e a escrita, ao juntar a fala e a escrita o homem tinha criado a comunicação. E, então, já podia transmitir seus anseios e receios, suas dúvidas, podia contar as novidades, podia, enfim, expor suas necessidades. Na verdade, antes disso, com desenhos nas paredes das cavernas, a busca da comunicação com o próximo aparecia logo entre os primeiros sinais de vida do ser humano mais primitivo. Depois da escrita cuneiforme dos assírios e persas e dos hieroglifos dos egípcios, quando no Oriente Médio foram criados os alfabetos, os fenícios levaram a novidade para a Grécia – onde nasceria a “retórica”, arte de discursar para persuadir – e ali foram acrescentados os sons das vogais ao primeiro conjunto ordenado das letras de uma língua dispostas em ordem convencional. Era o “alfabeto semítico setentrional”, que deu lugar ao abecedário grego. Modificado, formou o cirílico e o romano.

Surgiram, então, os primeiros manuscritos, depois ilustrados com iluminuras de desenhos, até que apareceram as gravuras em madeira. O homem passava a utilizar novos meios para auxiliar e potencializar o processo de produção, de envio e de recepção de suas mensagens e já não se comunicava por meio apenas de tambores, nuvens de fumaça, pombos-correio ou estafetas e nem se servia de arautos lendo mandamentos em voz alta, nas praças públicas. Gutemberg (1398-1468) tinha descoberto a tipografia – composição através de caracteres móveis – e imprimia a famosa Bíblia. Estava criada a imprensa.

No final do século XIX, Charles Darwin sacudia a opinião pública daqueles dias com sua teoria da evolução no livro Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural, quase simultaneamente com Gustave Flaubert, que balançava a moral e os bons costumes daquele tempo com o romance Madame Bovary e Charles Baudelaire açoitava a sociedade da época com os poemas de As flores do mal.

Pouco depois, Alexander Graham Bell inventaria o telefone e Samuel Morse faria nascer o telégrafo elétrico e o alfabeto que leva o seu nome. Surgiram as litogravuras, a fotografia, o cinetoscópio e o cinematógrafo. Até que, nos anos iniciais do século XX, aparecia o sistema de radiocomunicação, com Guglielmo Marconi realizando as primeiras ligações por meio de ondas hertzianas. Com a tecnologia começando a fazer parte do cotidiano através de sua participação na maioria das atividades humanas, realmente, a vida já não era mais como tinha sido até então. E, de repente, chegava mais uma revolução: a televisão, marco na transmissão de imagens, cujos poderes os satélites artificiais ampliariam em níveis incalculáveis, praticamente infinitos. De tal forma que é impossível prever o que podem esperar as novas gerações, nossos netos e bisnetos, nesse setor.

A partir daí, por meio de Marshal McLuhan, Theodor Adorno e Paul Lazarsfeld, entre outros, a comunicação – já então dividida em “verbal”, “não-verbal” e “mediada” – e conceituada como um processo que envolve a troca de informações, utilizando os sistemas simbólicos como suporte para esse fim, passava a ser encarada como teoria a ser desenvolvida, o que provocou o aparecimento de termos como “emissores”, “receptores”, “mensagem”, “canal de propagação”, “meio de comunicação”, “resposta” (ou feedback) e “ambiente”, ou seja, onde o processo comunicativo se realiza. Tinha entrado em cena, para valer, um importante componente de nosso dia-a-dia: a tecnologia. Aí chegaram o computador digital e o telefone celular, foi quando começamos a sentir as outras pessoas quase como se elas estivessem ao nosso lado.

Assim caminhou a humanidade, passo a passo, levada pela irresistível necessidade de uma aproximação com seus semelhantes (e, em alguns casos, subconscientemente, uma aproximação do homem consigo mesmo). A sensação passou a ser de que os dias tinham menos de 24 horas e as pessoas já não pareciam mais as mesmas. O telégrafo tinha aberto caminho para o rádio, os computadores e os telefones celulares libertaram as telecomunicações.

Até que, nos dias atuais, com a redução do tempo de transmissão das informações, é o acesso a essas tecnologias todas que aparece como um dos maiores desafios do homem destes nossos tempos modernos. Hoje é preciso pensar não só nos novos processos de comunicação que nos chegam a toda hora, mas também, e principalmente, nos impactos que todas as muitas mudanças tecnológicas trouxeram à sociedade em geral, ou seja, as conseqüências que elas estão provocando nas relações entre todos nós.


As Rádios Comunitárias

Por exemplo: no nosso caso, especialmente nas regiões periféricas dos maiores centros demográficos brasileiros, ocorre um fenômeno, aliás, do qual certamente Marconi não podia nem imaginar que um dia pudesse acontecer: as rádios comunitárias. Para que se tenha uma idéia, segundo a própria Anatel, até há pouco tempo havia 2.283 rádios comunitárias designadas no canal 200 e mais 2.231 outras em canais que não estão no 200, totalizando 5.541 municípios. (E a tendência é que esse número cresça ainda mais.) Todas – pelo menos oficialmente –, com potência máxima de 25 watts e raio de um quilômetro. Entretanto, embora determinado esse alcance, não raras são extensões para seis quilômetros. Não há milagres tecnológicos que evitem superposições condenáveis desse tipo.

Isso acaba acarretando sérios prejuízos às emissoras comerciais instaladas na área (e, ao invadir competências alheias, as rádios comunitárias estão exercendo uma concorrência predatória que inclusive ofende a legislação da nossa radiodifusão). E mais: elas não colaboram, como deveriam, na execução de programações educacionais, adequadas às populações mais pobres e carentes. E, se temos ainda milhões de analfabetos – e uma grande quantidade de semi-analfabetos –, imagine-se o potencial embutido aí, depois de feitas as devidas correções de rumo.

Além disso, operando dessa maneira, as rádios comunitárias representam um verdadeiro perigo no ar. Acontece que a lei determina que elas devem operar em caráter secundário, mas o que está ocorrendo é uma distorção no uso do chamado canal 200, com interferências às vezes até dramáticas em canais de radionavegação aérea. Isso tudo, resultado do que se pode chamar de ampla pirataria, que hoje engloba cerca de 12 mil emissoras desse tipo, principalmente nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo. Além dessas perigosas interferências, várias rádios comunitárias têm sua finalidade deturpada criminosamente, inclusive dando até resultados do jogo-do-bicho, em uma impressionante babel de apoio a uma notória contravenção.

Esse assunto, aliás, me leva de volta a um passado mais ou menos recente quando, ao adquirir para a Manchete a Rádio Federal (760 khz), da qual fui diretor, não raro éramos alertados pelas autoridades do Ministério das Comunicações de que estávamos inadvertidamente invadindo a onda de socorro da nossa Marinha de Guerra. Fomos convocados a fazer vários ajustes técnicos e os fizemos, todos.

É certo que existe um vácuo jurídico nas relações entre radiodifusão e telecomunicações. Perdida a chance de promover o acerto necessário na Constituição de 1988, o assunto perdura, enquanto nos aproximamos da hora da verdade: mais necessário do que a definição do momento em que a TV digital começará a funcionar em nosso País é saber o destino do seu conteúdo. Porque, com a chegada da Era Digital – que será o começo do fim dos procedimentos analógicos, hoje superados em preço, precisão e tamanho –, a TV aberta precisará de regulamentação. Pelo menos teoricamente estaremos mais perto de uma integração nacional, pois não se pode nem discutir o caráter pouco democrático dos analógicos, com todas as suas limitações.

A Sociedade do Conhecimento

Uma questão que se torna ainda mais delicada quando é sabido que o poder econômico que domina a nova tecnologia está situado fora dos limites brasileiros. Para sermos mais precisos, nas nações pós-industrializadas, beneficiadas por largos investimentos na chamada Sociedade do Conhecimento. Nossas linhas de ação ficam dificultadas por obstáculos objetivos, como a ausência de leis sobre o emprego dos satélites, em que há restrições que recaem sobre a TV a cabo. (Aliás, estranha-se que os limites da TV a cabo não tenham sido estendidos à TV por assinatura.)

Acontece que hoje a transmissão de conteúdo é prerrogativa das emissoras abertas, ficando de fora as empresas de telecomunicações e de informática. E nesse emaranhado legal, há muita gente confundindo conteúdo com plataforma (meios). Entendemos que, na defesa dos nossos valores, deve ser regulamentado o que se define como ‘conteúdo nacional’, que não pode ser sacrificado em nome do avanço científico e tecnológico, que, como sabemos todos, é de incrível rapidez. Tanto que já foi decretada a morte do videocassete, ao mesmo tempo em que o CD sobrevive, bravamente – até quando ninguém sabe –, assistindo ao florescimento do DVD (que dará lugar a outra tecnologia, certamente, amanhã ou depois).

Hoje, cita-se como ‘inclusão social’ que cerca de 25 milhões de brasileiros com mais de 16 anos têm acesso à Internet, entretanto nos esquecemos de atentar para o seguinte detalhe: somos uma população de mais de 183 milhões de habitantes, portanto, ainda é pequeno o índice de privilegiados nesse setor, tornando mais visível a fronteira entre incluídos e excluídos desse processo, no quadro geral de pobreza do País. Resta-nos educar o povo para curtir as suas tradições, mesmo com parcerias, se preciso for, desde que sejam boas e plausíveis. Protegendo a nossa cultura, os nossos usos e costumes, sempre atentos, porém, à questão das diversidades regionais. O que não será jamais defensável é uma programação de características alienígenas ou pasteurizadas, sem levar em conta as incríveis diferenças de todos os tipos que marcam este País.

Devemos, principalmente, estar atentos em relação à nossa língua – inculta e bela, na descrição do poeta –, hoje tão maltratada, a ponto de em recente prova de múltipla escolha questões dissertativas e uma peça processual na seccional paulista da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, entre os 20.237 candidatos (advogados formados, bacharéis) apenas 1.450 terem conseguido aprovação. O que representa uma alarmante porcentagem de 92,8% de portadores de diploma de Direito que não sabiam conjugar alguns verbos ou colocar certas palavras no plural, com direito a perigosas derrapadas nas concordâncias verbal, nominal e pronominal. O que pode nos levar até a admitir a necessidade de uma CPI da Língua Portuguesa, embora possa soar como cruel ironia.


A Linguagem ICQ

Situação agravada com o advento de uma novidade cibernética, a chamada ‘linguagem ICQ(sigla da expressão inglesa “I seek you”, traduzindo, “Eu procuro você”.) Sintetizando, trata-se de um modo de escrever de acordo com o som das palavras e que já está presente até em algumas – felizmente poucas –, legendas de filmes exibidos pela TV paga. Ora, não se pode concordar com a existência de uma separação lingüística, dividindo a fala dos jovens e dos mais velhos, dos pobres e dos menos necessitados. Afinal, temos uma realidade plurilingüística, considerando-se basicamente que a norma culta deve ser respeitada, sobretudo nos códigos escritos. O povo brasileiro, em geral, procura acertar, o que lhe falta é o acesso ao conhecimento, e o rádio e a televisão às vezes dão contribuições negativas, quando atores e até jornalistas falam de forma errada.

Claro que há problemas estruturais no trato do nosso idioma, a começar pela falta de unificação, um velho sonho de filólogos como Antônio Houaiss, que lutou sem sucesso para que existissem regras comuns na comunidade lusófona. (Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde chegaram a um acordo, mas outras nações, sobretudo devido a sangrentas guerras civis, esbarraram em restrições variadas.) Mas, regionalismos à parte, não se pode deixar de considerar como uma agressão quando, por exemplo, temos de engolir um “Eu lhe amo” no meio dos diálogos justamente de um tipo avassalador de divertimento de massa, de alcance nacional: a telenovela.

Enquanto isso, a tecnologia continua confirmando sua presença nos nossos menores gestos. Tanto que o comércio eletrônico brasileiro cresceu 71% no ano passado, em relação ao ano anterior, e já responde por 12,71% – que representam cerca de US$ 27 bilhões – dos negócios feitos entre empresas e os consumidores finais. De acordo com pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas, o atendimento ao cliente continua sendo uma das principais utilizações da estrutura de Internet e das aplicações de comércio eletrônico nos processos de negócio das empresas, com 92% do uso, no que se refere a recebimento de pedidos, suporte à utilização e divulgação de informação. Um setor de comércio específico no qual o cartão de crédito ainda é o sistema de pagamento mais utilizado, mas já acompanhado de outras formas “futuristas” de pagamento que deixariam nossos antepassados boquiabertos: o smart-card e o e-check, além do e-cash, que vem a ser um dinheiro eletrônico passível de ser usado com base em cartão-inteligente e em sites específicos ou equipamentos próprios.


Os Avatares

Daqui a pouco, em 2011 – quatro anos passam cada vez mais depressa –, o mundo deverá ter aproximadamente seis bilhões e meio de habitantes e já se projeta uma estimativa de 60 milhões de “avatares” (atualmente eles são oito milhões, 100 mil dos quais, brasileiros). Mais um filhote da tecnologia, os “avatares” – “transformação” ou “metamorfose”, no dicionário – são “pessoas” virtuais com corpo e rosto personalizados, interagindo com outros “residentes” do Second Life, universo em 3D da Internet, sem limites de tempo e espaço. Personagens reais que representam cada um de nós dentro de um mundo virtual, onde há até uma moeda própria chamada “linden”.

De acordo com alguns especialistas, tudo indica que o futuro da Internet esteja começando justamente agora com o Second Life – sintomaticamente, Segunda Vida –, um sistema de realidade virtual, no qual nada é impossível, onde, sinal dos tempos, o dinheiro compra tudo e o objetivo é vestir uma segunda pele sem nunca ter de revelar a primeira, na real life, ou seja, na “vida real”. Em cenários que mudam o tempo todo, qualquer um pode ser homem, mulher, lobisomem ou robô, dinossauro ou algum ser híbrido, à vontade, na dependência do quadro psicológico (ou psiquiátrico) de cada um, nada impedindo que se tenha, por exemplo, uma aparência diferente a cada dia, havendo inclusive os ‘avatares’ que preferem uma versão reconhecível deles próprios (versões quase sempre irresistivelmente melhoradas, e aí talvez nem Freud conseguisse explicar).

Em vez de navegar pela Internet clicando de página em página, graças a essa nova web o internauta se locomove dentro de um espaço virtual, podendo interagir com tudo o que faz parte dele, inclusive as outras pessoas que estarão “passeando” por ali no mesmo instante. E essa possibilidade, já não tão “futurista” quanto podia parecer até bem pouco tempo, é simplesmente mais um ato de uma revolução na forma atual de funcionamento da Internet. Teletransportando-nos, isso vai mudar, a médio ou longo prazos, inclusive o modo como nós, seres humanos, nos comunicamos. Sem exagero, mais ainda como aconteceu quando apareceu o telefone (e, mais recentemente – parece que foi ontem –, com o e-mail).

A Troca de Eletricidades

E como se já não bastasse isso tudo, a gente fica sabendo de mais uma revolução tecnológica a caminho: pesquisadores do MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusets, conseguiram acender uma lâmpada de 60 watts, enviando a eletricidade a ela sem ajuda de fios. Como conceito, transmitir eletricidade sem fio não é novidade, só que, pelo menos até há pouco tempo, seu uso em larga escala não era vantajoso, porque o pulso eletromagnético gerado se irradiava em todas as direções. Agora, não, já se sabe que é possível, basta transferir energia através de ondas moduladas. Ou seja, é só programar o dispositivo de carga magnética e o objeto a ser alimentado, para vibrarem na mesma freqüência, permitindo assim a troca de eletricidades. Quer dizer, colocando em miúdos, mais ou menos como acontece com aquele velho truque de cantoras quebrando taças de cristal com a voz.

O próximo passo nos levaria mais longe ainda do que a aposentadoria compulsória dos fios e tomadas para acender uma lâmpada, livres enfim do estorvo daquele novelo de fios emaranhados atrás de toda máquina. De qualquer forma, pelo sim, pelo não, dias melhores não muito distantes nos esperam, um tempo com todos os dispositivos eletrônicos e eletrodomésticos funcionando sem a necessidade de plugá-los às tomadas.

Estamos perto dos tempos ideais, abençoados pela chegada das futuras novidades tecnológicas. Tudo sob medida para esse admirável mundo novo, com a onipresença da tecnologia assumindo o papel atribuído ao Estado no livro 1984, detalhe do qual Eric Arthur Blair – nem sob pseudônimo de George Orwell –, sequer desconfiava. Não se deve afastar a idéia (e que ninguém se espante) de logo algum Grande Irmão de repente nos aparecer falando na “novilíngua”, através da “teletela”, televisor bidirecional e bidimensional que Flash Gordon tinha apenas insinuado.

Resta-nos apenas aguardar os próximos capítulos da vida real como ela é agora, bem diferente daquilo que já foi um dia: graças à tecnologia, mais parecendo ficção...


Arnaldo Niskier - Ex-Secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras e professor titular de História e Filosofia da Educação.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

QUANDO A PALAVRA EVAPORA - Helena Sut

O balcão de livros exposto quase na calçada. Uma liquidação de narrativas que não atrai a atenção dos olhares atentos aos horizontes das breves narrativas. Três por vinte e cinco! Livros de Jean-Paul Sartre, Jurek Becker, Friedrich Durrenmatt e Jean Genet são encontrados entre outros que já não são editados.

O livreiro apóia-se ressentido no pilar da antiga construção (Ed. João Ghignone). Um marco arquitetônico da Rua XV de Novembro em Curitiba, o retrato de um tempo que não volta, nem ao menos na literatura. Ele aprendeu o ofício com o pai ainda nos primeiros anos e sempre o exerceu com amor incondicional. Por muitos anos, manteve viva a esperança de uma nova revolução que assegurasse a importância da leitura, mas se entregou à realidade com um reticente lamento: “Nunca mais vendi um exemplar de Eric Fromm”.

Aos poucos a livraria foi minguando. Como um corpo cansado que se curva aos anos, as prateleiras já não suportavam o peso de tantos autores e sucumbiam ao imediato alívio dos que passam rapidamente. Autores que surgem com a mesma facilidade como desaparecem, livros que estabelecem verdades já superadas numa próxima edição.

O primeiro compartimento a ser alienado foi o Café. O local decorado com fotografias dos grandes autores nacionais já não atraía os leitores. Pelas mesas algumas sombras ainda compartilhavam a beleza do sorriso de Cecília Meirelles, um poeta teimava em escrever no guardanapo alguns versos recém-paridos, mas a maioria dos freqüentadores era formada por pessoas refugiadas das obrigações cotidianas nos jornais diários.

Com a fachada fragmentada, a livraria persistiu em grifar sua existência. O balcão de livros, as vivências narradas pelo livreiro... Percepções sobre as tardes de ouro na Livraria José Olympio com a presença de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Clarice Lispector... O setuagenário livreiro compartilhava alguns trechos de sua vida dedicada aos livros, contava casos que presenciou na livraria do pai, passeava por entre as prateleiras com as marcações dos livros que revelavam sua vida.

Com um idealismo admirável, a livraria permaneceu com as portas abertas por alguns meses. O balcão repleto de raridades, as prateleiras esvaziadas de livros meteóricos... Um dia simplesmente não amanheceu. Deixou cerrada sua história ante a multidão, que continuou o ir e vir no calçadão, indiferente ao seu último suspiro. Os exemplares remanescentes foram retirados durante a noite, um resgate silencioso e melancólico.

Ruídos... Duas semanas marcadas por misteriosos barulhos sob as portas fechadas... Inauguração anunciada com pompa. Numa segunda-feira, os grandes portais reabriram com uma iluminação intensa e fria, com prateleiras coloridas de pequenas embalagens e vendedoras uniformizadas. As ofertas atraíram um movimento intenso e novamente o local abrigou um ponto de convergência de um público rejuvenescido.

A livraria deu espaço a uma perfumaria. A palavra evaporou e orvalhou os olhos de poucos num anoitecer outonal. A linguagem tornou-se fragrância... Uma alegoria passageira que envolve a vaidade humana sem o peso de uma consciência fortalecida.

La Kabbale - Introdução

Compreender.

A kabbale começou no século XII em reação contra uma tradição julgada demasiadamente abstrata, ela infundiu uma parte de sonho no judaìsmo. Uma aproximação esotérica que soube falar ao coração dos fiés. Por isso sua grande influência.


Kabbale.

Para compreender o nascimento da kabbale no judaìsmo rabbinique e para apreender corretamente sua difusão, é importante de se interrogar sobre a terminologia e a maneira pela qual os adeptos dessa corrente esotérica se definiam eles mesmos.
O termo kabbale, derivado do hebreu kabbala, significa recepção de uma transmissão, legs espiritual transmitido pela gerações precedentes. Os adeptos dessa corrente que apareceu no curso do século XII, mas que tinha raìzes remontando à Antiguidade, se consideravam investidos pela autêntica tradição do judaìsmo original e se chamavam os meqbbalim, os kabbalistes.
Atràs dessa afirmação identitària, nòs podemos perceber um processo de ilegitimidade contra os partidàrios da filosofia de Maïmonide ( 1135 - 1204 ), que parecia se afastar da pràtica religiosa para se consagrar à contemplação pura. A evacuação sistemàtica de todos os anthropomorphismes bìblicos de qual se dedica Maïmonide no seu livro Guide des égarés fazia recear a emergência de um judaìsmo abstrato e desencarnado. Além de sua essência profunda que continha desde suas origens grandes riquezas, o movimento kabbaliste foi então principalmente uma reação de defesa face a uma formulação intelectualista do judaìsmo.
Se nòs procuramos os traços dessa corrente na literatura judia tradicional, por exemplo o Talmud, nòs descobrimos poucos elementos, o que não quer dizer que eles nunca existiram. Uma mão editorial pode ter censurado elementos muito mìsticos, dificilmente assimilàveis para o judeu crente comum.
Se nòs deixamos de lado a primeira obra da cosmogonia judia, o Sefer yetsira ( " Livro da criação ou da formação", mais ou menos em 946), a principal compilation francamente mytique é o Sefer-ha-Bahir, o " Livre de l'éclat", de qual o tìtulo é uma reminiscência do livro de Job. Esse texto apresenta novas concepções com relação à teologia rabbinique. Nòs podemos ler nele uma referência à teoria das transmigrações das almas, se bem que o termo especìfico, guilgoul, não seja nunca pronunciado....
Seus primeiros folhetos começaram a ser citados mais ou menos em 1170-1180, mas é um século mais tarde que a kabbale ia receber suas " lettres de noblesse" com O Zohar, o " Livre de la splendeur". Ele se tornou a Bìblia da kabbale, ele constitue o indispensàvel " arrière-plan" religioso de todos os movimentos que " prirent leur essor dans son sillage", e particularmente as especulações mìsticas do falso messias Sabbataï Zewi.
O termo Zohar serve de tìtulo a um corpus literàrio composite de qual a redação se estende sobre vàrias décadas. Na realidade, ele sò designava a parte principal, de qual o autor é identificado: Moïse de Léon, que no Zohar recorre ao aramaico afim de fazer acreditar na paternidade literària de um sàbio talmudique do século II, Siméon bar Yohai.



Uma leitura mìstica da Torah.

O que não deixa de surpreender mesmo os sàbios atuais, é a força com a qual o corpus zoharique triunfou com relação a todas as crìticas destruindo suas pretensões à Antiguidade. Mesmo os talmudistes sensatos acabaram se colocando " sob a bannière" de um texto que recebeu a estampilha canônica. Dois eventos històricos militaram objetivamente a seu favor: a propagação no meio judeu das teses do filòsofo muçulmano Averroès ( 1126 - 1198) - que provocaram, ao que parece, uma epidemia de conversões ao cristianismo - e a expulsão dos judeus da Espanha ( 1492).
Desde sua emergência como uma nova tradição mas que se considerava como a transmissão autêntica da religião de Israel, o corpus zoharique se enriqueceu de constribuições positivas literàrias novas, de quais as mais importantes são Le Berger fidèle ( uma anàlise simbòlica dos preceitos bìblicos), os Additifs du Zohar e Le Nouveau Zohar.
Como definir o Zohar ? Trata-se de um comentàrio mìstico da Torah. O Zohar retoma quase sempre as interpretações tradicionais elevando-as com um sabor mìstico. Comparada à exégèse bìblica inspirada por Maïmonide, que inseria no Pentateuque dados da filosofia grega, a interpretação zoharique fala ao coração do judeu crente e povoa seu universo mental de noções e de figuras familiares ( os sefirot ).
No plano doutrinal, nòs podemos evocar todavia duas noções rigorosamente idênticas na teologia rabbinique anterior: a concepção de uma unidade dinâmica da divindade, que se articula em torno de dez sefirot, que é proibido de isolar umas das outras excepto para analisa-las. E a noção do mal apresentada como um domìnio quasi autônomo com relação à vontade divina, e que o autor do Zohar chama estranhamente " o outro lado". Uma tal designação do mal acreditou a idéia de uma "gnose judia" onde dois princìpios se apoiam.....
Quando aconteceu a expulsão dos judeus da Espanha, eles não podiam dar ao decreto funesto que caiu sobre eles uma resposta de mesma natureza, eles a trasporam ao plano mìstico. O drama que se abateu sobre Israel havia tocado à divindade ela mesma pois essa ùltima, por intermédio dos sefirot, compartilhava as alegrias e as tristezas dos judeus. O drama de um ùnico povo tornava-se então um drama còsmico. Assim nasceu no meio do século XVI a "kabbale de Safed", dita lourianique, do nome de seu fundador, Isaac Louria.Ela se articula em torno de três temas: Deus, que ocupava o espaço virtual precedendo a criação, se autocontracte para liberar um espaço no seio do qual o mundo criado se coloca: é a doutrina do tsimt-soum. Para manter esse mundo na vida, Deus lhe insufla um élixir dentro de vasos. Por infelicidade, eles explodem sob o peso do fluxo divino, espalhando a preciosa semente nos quatro cantos do universo. È a doutrina do " bris des vases ", que lembra o modo de acasalamento do masculino e do feminino. Louria passa em seguida desse simbolismo sexual ao simbolismo da luz: trata-se de recolher as divinas parcelas de luz em um universo mergulhado na obscuridade da impureza. È a missão assignada ao orant judeu de quem as preces fazem remontar essas centelhas em direção das regiões superiores originais. È o princìpio do tikkun, a restauração da harmonia còsmica anterior.....Nòs estamos aqui muito longe das prescripções talmudiques de quais todo simbolismo estava ausente.


Mìstica contra filosofia

Essa kabbale lourianique, tão mal compreendida por Sabbatai Zewi, é inseparàvel da heresia do falso messias: com efeito, ele chegou a conclusão que a melhor maneira de realizar a Lei era de viola-la.....
Mas através de uma virtude de autoregeneração de qual a història do judaìsmo tem o segredo, a seita dos hassidim do século XVIII "descontaminou" de uma certa maneira a àrvore sabbaïte. Ela a livrou de um elemento messianico explosivo e que foi substituìdo por uma atitude mais progressiva e individual: a devékut, a adesão a Deus.Como explicar essa estranha carreira da mystique no seio do judaìsmo ?
Quando nòs analisamos os ingredientes da kabbale, nòs constatamos que a corrente esotérica se inspirou do exterior e da corrente filosòfica. O problema é que a kabbale ganhou a batalha do livro das orações onde ela soube inserir suas concepções e suas idéias. Os filòsofos, herdeiros de Maïmonide, se desinteressaram dela. Mas a verdadeira razão da emergência e da predominância da kabbale, ainda hoje, é relativa talvez ao fato que, de uma maneira incompreensìvel, a alma judia escolheu o sonho....


- Maurice-Ruben Hayoun, diretor do Centro de pesquisas e estudos hebraìcos da universidade de Strasbourg, especialista de Maïmonide. Ele publicou La Philosophie Juive ( Armand Colin, 2004 ).