terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O totalitarismo no poder - 1 -3. Dominação total.

[.....] Se a propaganda da verdade fracassa tentando convencer o indivìduo médio porque ela é demasiadamente horrìvel, ela é positivamente perigosa para aqueles que sabem segundo seus pròprios fantasmas o que eles são capazes de fazer, e que estão então perfeitamente prontos para acreditar na realidade do que eles viram.
De repente, torna-se evidente que o que a imaginação humana havia desde os milhares de anos rejeitado em um reino fora do poder humano pode se forjar aqui na terra agora: O Inferno e o Purgatòrio, e mesmo a sombra de sua duração eterna, podem ser criadas graças aos métodos mais modernos de destruição e de terapia. A essas pessoas ( e elas são mais numerosas em qualquer grande cidade que nòs não estamos prontos para admitir) o inferno totalitàrio sò prova uma coisa: que o poder do homem é maior do que eles não puderam jamais osar imagina-lo; que o homem pode realisar visões do inferno sem que o céu caia ou que a terra se abra.
Essas analogias repetidas em numerosas narrações dos agonizantes - (Que a vida em um campo de concentração sò teria sido um processo de morte sem fim, é o que ressaltou David Rousset, Les jours de notre mort, 1947, passim) parecem exprimir mais do que uma tentativa desesperada de dizer o que é estrangeiro no domìnio do discurso humano. Nada talvez não distingue mais radicalmente as massas modernas daquelas dos séculos passados do que a perda da fé em um Julgamento ùltimo: os piores perderam o medo, os melhores perderam a esperança. Tão incapazes do que antes de viver sem medo e sem esperança, essas massas são atiradas por todo empreendimento que parece prometer a fabricação pelo homem do Paraìso que elas haviam desejado e do Inferno que elas haviam temido. Da mesma maneira que nos seus aspectos mais populares, a sociedade sem classes de Marx apresenta uma estranha semelhança com a idade messianica, da mesma maneira a realidade dos campos de concentração não parece com nada a não ser com as representações medievais do Inferno.
A ùnica coisa que não pode ser reproduzida, é o que tornou toleràvel para o homem as concepções tradicionais do Inferno: o Julgamento ùltimo, a idéia de um critério absoluto da justiça combinada com a possibilidade infinita da graça. Pois, para os homens, não existe crime nem pecado que tenham uma medida comum com os tormentos eternos do Inferno. Por isso o fracasso moral do senso comum, que procura se informar: qual foi o crime que essas pessoas podem ter cometido para sofrer de maneira tão desumana ? Por isso igualmente a inocência absoluta das vìtimas: nenhum homem jamais mereceu isso. Por isso também o grosseiro acaso que presidia a escolha das vìtimas dos campos de concentração no estado de terror realizado: um tal "castigo" pode ser dado a qualquer pessoa com uma igual justiça e injustiça. [.....]

[.....] Os campos e o assassinato dos adversàrios polìticos fazem apenas parte do esquecimento organizado que não somente envolve o veìculo da opinião pùblica que é a palavra dita e escrita, mas se estende mesmo às familias e aos amigos das vìtimas. Màgoa e LEMBRANCA são proibidos. Na União soviética, uma mulher deverà divorciar imediatamente apòs a prisão de seu marido afim de proteger a vida de seus filhos; se seu marido tem a sorte de voltar, ela lhe recusarà com indignação a porta do lar - ( Ver a narração de Sergei Malakhov em David.J.Dalbin e Boris Nicolaevsky, Forced Labor in Russia, pg. 20 et suiv.) - O mudo ocidental até agora, mesmo nos seus perìodos mais negros, concedem ao inimigo assassinado o direito à LEMBRANCA: era reconhecer como evidente o fato que nòs todos somos homens ( e apenas homens). È apenas porque Achille foi aos funerais de Hector, porque os governos mais despòticos honram o inimigo assassinado, porque os Romanos permitiram aos cristãos de escrever seus martyrologes, porque a Igreja conservava seus heréticos vivos na memòria dos homens, que tudo não foi perdido e não pode jamais ser. Os campos de concentração tornando a pròpria morte anônima ( fazendo que seja impossìvel de saber se um prisioneiro està morto ou vivo) despojando a morte de sua significação: o termo de uma vida realizada. De uma certa maneira eles despojaram o indivìduo de sua pròpria morte, provando que doravante nada lhe pertencia e que ele não pertencia a ninguém. Sua morte sò fazia validar o fato que ele não tinha jamais verdadeiramente existido. [....]

[.....] O terror totalitàrio conheceu seu supremo e estarrecedor triunfo quando ele conseguiu separar a pessoa moral da salvação individualista e tornar absolutamente problemàtica e aquìvoca todas as decisões da Consciência. Quando o homem é confrontado à alternativa de trair e então de matar seus amigos ou de enviar sua mulher e seus filhos, de quem ele é em todos os sentidos responsàvel, à morte; mesmo se o suicìdio significasse o assassinato imediato de sua pròpria familia - o que ele pode decidir ? A alternativa não é mais entre o bem e o mal, mas entre o assassinato e o assassinato. Quem poderia resolver o dilema moral dessa mãe grega, que os nazistas deixaram livre de escolher entre seus três filhos qual deles deveria ser assassinado ? ( Ver Albert Camus, " The Human Crisis", Twice a year, 1947 [ " A Crise do Homem"], NRF, 1996]. - Graças à criação de condições em que a CONSCIÊNCIA não é mais de nenhum socorro, onde fazer o bem torna-se RADICALMENTE IMPOSSÌVEL, a CUMPLICIDADE Conscientemente Organizada de todos os homens nos Crimes de Regimes Totalitàrios se Estende às vìtimas e toma dessa maneira um caràter Verdadeiramente Total. [....]
[....] Uma vez que a pessoa moral foi assassinada, sò subsiste um obstàculo à metamorfose dos homens em CADÀVERES VIVOS: a diferenciação dos indivìduos, a identidade ùnica de cada um. Sob uma forma estéril essa individualidade pode ser Preservada graças a um Estoicismo Firme e é uma Certeza que muitos homens sob a DOMINACÃO TOTALITÀRIA encontraram e encontram ainda cotidianamente Refùgio nesse absoluto Isolamento de uma Personalidade sem Direitos ou Sem CONSCIÊNCIA.
Não existe nenhuma dùvida que esse aspecto da Personalidade Humana, na medida em que precisamente ele é Relativo à NATUREZA e a FORCAS ESCAPANDO ao CONTROLE da VONTADE, é o mais difìcil a DESTRUIR ( DESTRUÌDO, ele é também aquele que se RECONSTITUI mais Facilmente (1)


Nota 1

Bruno Bettelheim ("On Dachau and Buchenwald") mostra como a "preocupação principal dos novos prisioneiros era de conservar intacta a personalidade deles", enquanto que o problema dos velhos prisioneiros era: "Como viver o melhor possìvel no interior do campo ?"

- Hannah Arendt - Le systéme totalitaire - Nouvelle Èdition - Les Origines Du Totalitarisme - Essai - Points.

A Crise da cultura - Hannah Arendt - 1

"O homem se coloca em uma brecha, no intervalo entre o passado terminado e o futuro infiguràvel. Ele sò pode manter-se nesse intervalo na medida em que ele Pensa, quebrando assim, através sua Resistência às forças do passado infinito e do futuro, o fluxo do tempo indiferente.
Cada geração nova, cada homem novo deve redescobrir laboriosamente a atividade do Pensamento. Durante muito tempo, para fazer isso, nòs pudemos recorrer à tradição. Ora nòs vivemos, na idade moderna, o gasto da tradição, a Crise da Cultura.
Não se trata de restabelecer o fio rompido da tradição, nem de inventar um suplente ultra-moderno, mas de saber se Exercer a Pensar para se Mover na brecha.
Hannah Arendt, através ensaios de interpretação crìtica - particularmente da tradição e dos conceitos modernos da Història, da Autoridade e da LIBERDADE, das relações entre Verdade e Polìtica, da Crise da Educação - , Quer nos Ajudar a Saber como Pensar em nosso século".

- Folio essais -


Oito exercìcios de Pensamento Polìtico

Prefàcio.

A Brecha Entre o Passado e O Futuro

"Nossa herança não é precedida de nenhum testamento".
Voilà talvez o mais estranho dos aforismos estranhamente rìgido nos quais o poeta René Char condena a essência do que quatro anos na Resistência vieram a significar por toda uma geração de escritores e homens de letras europeus. O Desmoronamento da França, evento para eles totalmente inesperado, tinha esvaziado de um dia para o outro, da cena polìtica do paìs deles, abandonanando-a à um guignol de coquins ou de Imbecis, e eles que, justamente, não haviam jamais participado dos affaires oficiais da III Repùblica foram aspirados pela polìtica como pela força do vazio. Assim, sem pressentimento e provavelmente de encontro às suas inclinações conscientes, eles foram levados a constituir bon gré mal gré um domìnio pùblico onde - sem o aparelho oficial, e ocultos aos olhares amigos e hostis - todo o trabalho que importava os affaires do paìs era efetuado em Ato e em Palavras.


Isso não durou muito tempo. Apòs alguns curtos anos eles foram liberados do que eles tinham pensado à l'origine ser um "fardo" e rejeitados no que eles sabiam agora ser a Idiotie sem peso de seus affaires pessoais, mais uma vez separados do "mundo da realidade" por uma espessura triste, a "espessura triste" de uma vida privada orientada sobre nada senão sobre ela mesmo. E eles se recusavam " de [se] reconduzir até o princìpio [do seu ] - dele - comportamento mais indigente", eles sò podiam retornar ao velho afrontamento vazio das ideologias antagonistas que, apòs a derrota do inimigo comum, ocupavam um vez a arena polìtica e dividiam os antigos companheiros de armas em inùmeras cliques que nem eram facções e os engajavam nas polêmicas e nas intrigas sem fim de uma guerra no papel. O que Char tinha previsto, claramente antecipado, enquanto que o combate real ainda durava - " Se eu escapar, eu sei que eu deverei romper com o aroma desses anos essenciais, rejeitar ( não reprimir) silenciosamente longe de mim meu tesouro" - aconteceu. Eles haviam perdido o Tesouro deles.


Que tesouro era esse ?

Tal como eles mesmos o compreendiam, parece que ele consistiu, de uma certa maneira, em duas partes intimamente ligadas: eles perceberam que àquele que "casou com a Resistência, descobriu sua verdade", que ele parava de se procurar "sem jamais acessar à proeza, em uma insatisfação nua", que ele não se desconfiava mais ele mesmo de "falsidade", de ser "um ator de sua vida crìtico e desconfiado", que ele podia se permitir de "ir nu". Nessa nudez, despojados de todas as màscaras - daquelas que a sociedade faz seus membros usar e também daquelas que o indivìduo fabrica para ele mesmo nas suas reações psicològicas contra a sociedade - eles haviam sido visitados pela primeira vez na vida deles por uma aparição da LIBERDADE, não, certe, porque eles agiam contra a tirania e contra coisas piores que a tirania - isso era verdade para cada soldado das Forças Armadas aliadas - mas porque eles se tornaram "challengers", que eles tiveram adotado a iniciativa e por conseguinte, sem sabe-lo nem mesmo nota-lo, haviam começado a criar esse espaço pùblico entre eles onde a LIBERDADE podia aparecer. " Em todas as refeições em comum, nòs Convidamos a LIBERDADE para se sentar. O lugar permanece vazio mas o couvert permanece colocado".


Os homens da Resistência europeia não foram nem os primeiros nem os ùltimos a perder o tesouro deles. A història das revoluções - do verão 1776 na Philadelphie e do verão 1789 em Paris até o outono 1956 em Budapeste - , o que significa Politicamente a Història mais Intima da Idade Moderna, poderia ser contada sob a forma de uma paràbola como a lenda de um tesoro sem idade, nas circuntâncias mais diversas, aparece bruscamente, de improvisto, e desaparece novamente em outras condições misteriosas, como se ele fosse uma fada Morgane. Existe então, sem dùvida, muitas boas razões para acreditar que o tesouro nunca foi uma realidade mas uma miragem, que nòs não estamos diante de nada sòlido mais diante uma aparição, e a melhor dessas razões é que o tesouro permaneceu até agora sem nome. Existe alguma coisa, não na exterioridade espacial mas no mundo dos affaires dos homens na terra, que não tem nome ? Licornes e rainhas dos contos de fadas parecem possuir mais realidade do que o tesouro perdido das revoluções. E todavia, se nòs viramos os olhos em direção dos começos dessa era, e especialmente em direção das décadas que a precedem, nòs podemos descobrir para nossa surpresa que o século XVIII dos dois lados do Atlântico possuia um nome para esse tesouro, um nome esquecido hà muito tempo e perdido - nòs somos tentados dizer - antes mesmo que o tesouro ele mesmo tenha desaparecido. O nome na América era "felicidade pùblica", e esse nome, com suas harmônicas de "virtude" e de "glòria" não nos é mais inteligìvel do que seu equivalente francês "liberdade pùblica"; a dificuldade para nòs é que nos dois casos o acento està em "pùblico".

Seja o que for, é à ausência do nome do tesouro perdido que o poeta faz alusão quando ele diz que nossa herança não està precedida de nenhum testamento. O testamento, que diz ao herdeiro o que serà legìtimamente seu, atribuir um passado ao futuro. Sem testamento ou, para elucidar a metàfora, sem tradição - quem escolhe e dà um nome, quem transmite e conserva, quem indica onde os tesouros se encontram e qual é o valor deles - Parece que nenhuma continuidade no tempo seja atribuìda e que nele não tem, por conseguinte, humanamente falando, nem passado nem futuro, mas apenas o devir eterno do mundo e nele o ciclo biològico dos seres vivos. Assim o tesouro não foi perdido por causa das circunstâncias històricas e da falta de sorte mas porque nenhuma tradição tinha previsto sua vinda ou sua realidade, porque nenhum testamento tinha sido legado ao futuro. A perda, em todo caso, talvez inevitàvel em termos de realidade polìtica, foi consumida pelo esquecimento, por um defeito de memòria que alcançou não somente os herdeiros, mas, de uma certa maneira, os atores, as testemunhas, aqueles que, um momento fugitivo, haviam tido o tesouro nas suas mãos, em suma, aqueles que o haviam vivenciado. Pois a lembrança, que é apenas uma das modalidades do Pensamento, se bem que uma das mais importantes, é sem recursos fora de um contexto de referência préetabli, e o espìrito humano sò é em muitas raras ocasìões capaz de gravar alguma coisa que não està ligada a nada. Assim os primeiros a esquecer o que era o tesouro foram precisamente àqueles que o haviam possuìdo e o haviam achado tão estranho que eles nem haviam sabido que nome lhe dar.



No momento, eles não foram atormentados; se eles não conheciam o tesouro deles, eles sabiam muito bem o sentido do que eles faziam - que ele estava além da vitòria e da derrota. " A ação que tem um sentido para os vivos sò tem Valor para os Mortos, sò tem realização nas Consciências que a herdam e a questionam." A Tragédia não começou quando a Liberação do paìs inteiro DESTRUÌDO, quase automaticament, os îlots escondidos da LIBERDADE que estavam condenados de qualquer maneira, mas quando foi Averiguado que não haviam nenhuma Consciência para Herdar e Questionar, Meditar e se LEMBRAR. O ponto central é que a "realização" que certamente todo evento realizado deve ter nas CONSCIÊNCIAS daqueles que tem a Responsabilidade de relatar a HISTÒRIA e de TRANSMITIR seu SENSO, escapou-lhes; e sem essa Realização do PENSAMENTO apòs o ATO, sem Articulação realizada pela Lembrança, não Permaneceu simplesmente Nenhuma HISTÒRIA que Pudesse SER CONTADA.

- Hannah Arendt - A Crise da cultura - Oito exercìcios de pensamento polìtico - Trad. do inglês sob a direção de Patrick Lévy - Prefàcio - pàgina 11 - 15. Gallimard - Folio essais.



Hannah Arendt ( 1906 - 1975 )

Foi aluna de Jaspers e passou seu doutorado em Heidelberg. Ela deixou a Alemanha apòs a chegada dos nazistas e ensinou a filosofia e as ciências polìticas nas universidades mais prestigiosas dos Estados - Unidos. Ela é um das pessoas mais importantes do pensamento polìtico contemporâneo, particularmente graças a sua obra fundamental As Origens do totalitarismo. Ela é igualmente a autora do Ensaio sobre a Revolução, Eichmam à Jérusalem, Condition de l'homme moderne e La Vie de l'esprit.

Opus Dei - fatos e motivos para reflexão



De acordo com os Landmarks, “a Maçonaria impõe a todos os seus membros o respeito das opiniões e crenças de cada um. Ela proíbe-lhes no seu seio toda a discussão ou controvérsia, política ou religiosa…”.
Em minha opinião, importa clarificar se deve existir uma leitura literalista destas disposições ou se elas devem ser entendidas no contexto adequado das nossas sociedades actuais.
Existem substanciais diferenças entre discutir questões políticas gerais ou questões de índole político-partidária, bem como entre discutir questões relativas às legítimas opções religiosas de cada um ou os instrumentos perversos de dominação obscurantista das consciências humanas.
Aspectos fundamentais do progresso social e humano dos últimos 2 séculos tiveram, em diversos países, a intervenção decisiva de maçons e das próprias Ordens maçônicas.
Ora, esta intervenção teve, inevitavelmente, um conteúdo político em torno de grandes princípios e valores do progresso civilizacional, que uniram vontades e energias de muitos maçons com diferentes posicionamentos partidários e religiosos no mundo profano.

Basta lembrar as seguintes lutas:

- Contra os extremismos políticos e absolutismo religioso;
- Contra as guerras;
- Pela liberdade e igualdade dos cidadãos perante a lei;
- Pela autodeterminação dos povos;
- Pelos governos representativos e democráticos;
- Pela justiça social e de igualdade de oportunidades para todos os cidadãos;
- Pela separação entre o Estado e a Igreja;
- O ensino ao alcance de todos;
- Pela supressão da miséria e da alienação humanas;
- Criação do registo civil;
- Criação de protecção social nas doenças profissionais.

Esta enumeração sintética permite verificar que a adopção de uma rígida posição de mera actividade especulativa, não complementada com a intervenção no mundo profano e na estrutura geral da sociedade, não possibilita à nossa Ordem ter um adequado papel no aperfeiçoamento moral dessa mesma sociedade, nem contrariar as forças que buscam a instauração de um qualquer sistema obscurantista de intolerância e fanatismo.
Aliás, acontecimentos ocorridos em vários países, inclusive no nosso, permitiram a instauração de regimes totalitários e opressores que custaram a vida de muitos cidadãos livres, a começar pelos maçons, e determinaram a proibição e perseguição das Ordens maçônicas.
Ainda recentemente, a realização de um violento atentado a um restaurante em Istambul onde se encontravam maçons, matando e ferindo diversos irmãos, revela um preocupante recrudescimento das actividades de grupos fanáticos religiosos.
Os termos em que o atentado foi reivindicado pela organização terrorista Al Qaeda, torna indiscutível que se tratou de uma acção premeditada e bem dirigida a um objectivo definido com a ameaça de que outras se seguirão.
O facto de estarmos a assistir a uma acentuada degradação moral e de valores da nossa sociedade e uma crise de credibilidade dos principais instrumentos do regime democrático, os partidos políticos, coloca sérias preocupações, conferindo, em minha opinião, uma importância acrescida à nossa Ordem.
Os maçons, ao estarem unidos fraternalmente em tolerante harmonia, têm a possibilidade de manterem um amplo “denominador comum” de valores e princípios que se sobrepõem a outras opções no mundo profano, numa transversalidade indispensável às grandes mudanças da sociedade.
Estas considerações prévias têm como objectivo salvaguardar, em toda a sua plenitude, que o conteúdo desta prancha não possui qualquer questionamento de índole religioso, mas antes proceder a uma caracterização genérica de uma organização que, a coberto de uma exarcebada exaltação católica, tem meras finalidades políticas, ideológicas e econômicas.


As origens da OPUS DEI

O fundador da “Obra de Deus” foi José Maria Escrivá, que nasceu em 1902 na pequena cidade espanhola de Barbastro. Foi ordenado padre em 1925.
Na justificação apresentada para a sua “santificação”, é afirmado que após 3 anos de sacerdócio teve uma visão de Deus que lhe incumbiu a tarefa de iniciar esta “obra”.
Escrivá redigiu a primeira carta pastoral com a data de 24 de Março de 1930, que iniciou o programa básico da O.D., tornando-se conhecida por “Singuli Dies”. Com os primeiros recrutamentos de membros, Escrivá passou a exigir que o tratassem por “pai”.
Nos anos 30, o celibato permaneceu como um requisito preliminar para ser aceite como membro e os membros não solteiros, os chamados supranumerários, só seriam admitidos nos anos 50.
Com o posterior crescimento numérico foram criadas 4 categorias de membros: os numerários (que praticam o celibato), os supranumerários (casados), os agregados (que trabalham em exclusivo para a organização) e os cooperadores (contactos permanentes como simpatizantes).
Em 1933, a “Obra” lançou a sua primeira iniciativa através do aluguer de um apartamento no centro de Madrid que serviu para a instalação de um instituto privado que oferecia cursos complementares a estudantes universitários com o nome “DYA”. Para o exterior, estas letras significavam “Derecho y Arquitectura”, mas a alguns estudantes, considerados como recrutas certos, foi-lhes comunicado que o seu verdadeiro significado era “Deus y Audácia”.
Meses depois, este instituto foi transformado numa residência de estudantes, uma vez que foi considerado que isto iria criar uma atmosfera mais atractiva para o recrutamento de novos membros. Escrivá ficou aí com um escritório que era conhecido como o “quarto do pai”. Com a eclosão da guerra civil em 1936, Escrivá disfarça-se e passa a utilizar a aliança de casamento da mãe.
A enorme violência dos confrontos armados e a extrema radicalização de ambos os lados do conflito tinham determinado uma crescente barbaridade de métodos de actuação, com o recurso indiscriminado a torturas e fuzilamentos.
Do lado das forças republicanas, verificava-se em diversos sectores um marcado anticlericalismo que levou à perseguição e fuzilamento de um considerável número de padres em toda a Espanha. Afirmando aos seus discípulos que tinha sido encarregue de uma missão divina e que deveria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para continuar vivo, decidiu fugir para uma clínica psiquiátrica nos arredores de Madrid, onde aprendeu a simular o comportamento dos doentes mentais.
Alguns meses depois fugiu para a representação diplomática das Honduras, juntamente com outros elementos da “Obra”. Após 5 meses, fugiu para Valência e, posteriormente, para Barcelona. Desta cidade foram para Andorra.
A 21 de Março de 1939, Escrivá regressa a Madrid com as primeiras colunas militares franquistas. A partir desta data, esta organização deixou o seu estado embrionário e passou a um activo desenvolvimento.
A “limpeza” que se seguiu à instauração do regime fascista de Franco, através da impiedosa perseguição a todos os suspeitos de terem colaborado com a Frente Popular Republicana, acrescentou, nos anos seguintes, mais 200.000 mortes às 500.000 verificadas durante a guerra civil.
No final de 1939, Escrivá publicou o livro “O Caminho” contendo 999 máximas religiosas. Tratava-se de um manual de clericalismo autoritário que levou, por exemplo, que o professor de teologia na Universidade de Granada, José Maria Castillo, tenha afirmado que não havia no seu conteúdo lugar a qualquer discernimento e que “discernimento é a expressão do verdadeiro culto dos cristãos; põe em prática o nosso viver como filhos das luz, em vez de filhos das trevas… pode-se dizer que, bem lá no fundo, o livro não é cristão”.
Este artigo provocou a ira da “Opus Dei” e pouco tempo depois a licença deste professor para ensinar teologia foi anulada. “O Caminho” não tolera nem a dúvida nem a crítica e afirma que os verdadeiros cristãos devem ser disciplinados e obedientes a um director espiritual.
Mas o padre Castillo referiu no citado artigo que “O Caminho” conduz inevitavelmente à alienação do indivíduo e a uma cumplicidade concebida de forma doentia com o mundo, a qual Jesus rejeitava e pela qual foi rejeitado para morrer”.
O primeiro objectivo estratégico traçado por Escrivá foi controlar o ensino superior. Em Novembro de 1939, Ibañez Martin, ministro da educação de Franco, criou o Conselho Superior de Investigação Científicas (CSIC), que se tornou a principal cobertura para o assalto da Opus Dei ao ensino superior, e também ajudou a financiar a sua expansão no estrangeiro. Como vice-presidente desta estrutura foi nomeado o padre López Ortiz, que era um dos principais elementos da Opus Dei.
O Conselho Superior de Investigação Científicas determinava quem obtinha bolsas de estudo para pós-graduações e doutoramentos no estrangeiro, bem como subsídios de estudo.
Em 1940, José Maria Escrivá enviou um pedido ao Ministério da Justiça, que foi aceite, para mudar o nome de família para Escrivá de Balaguer, “de modo a distinguir-nos de outros Escrivás”.
Em 1943 é aplicada uma lei que estabelecia a exigência dos estudantes pertencerem a uma residência universitária para poderem ingressar no ensino superior. Estando preparada para esta exigência legal, e procurando atrair uma elite jovem, a Opus Dei desencadeou uma vasta operação com o objectivo de proceder à abertura do maior número possível de residências universitárias. No final da 2ª Guerra Mundial, a Opus Dei abriu a sua primeira residência de estudantes fora de Espanha, na cidade de Coimbra.
Fruto de múltiplas acções de envolvimento junto da Cúria Romana, o Papa Pio XII emitiu um decreto de reconhecimento da Opus Dei em Fevereiro de 1947. Estas acções de Escrivá e de Álvaro del Portillo, mais tarde seu sucessor, foram mediadas pelo cardeal Montini, mais tarde Papa Paulo VI. A rápida promoção de Escrivá na hierarquia clerical foi organizada por Montini, que o apresentou a um político italiano então em ascensão, Giulio Andreotti.


Desenvolvimento e diversificação da actividade

Com o claro objectivo de estar mais perto dos centros de decisão da Cúria Romana, a sede da Opus Dei é transferida, nessa altura, para Roma, em Villa Tevere. Com a ampla protecção política de Franco e com a progressiva conquista “silenciosa” de importantes lugares a nível das instituições mais relevantes, a Opus Dei começou a rivalizar com a Falange, único partido político autorizado.
A partir de 1949, é desenvolvida uma impressionante rede da Opus Dei no México que se transforma na 3ª potência, a seguir à Espanha e Itália. Logo a seguir vieram os Estados Unidos, contando com o papel de vulto de Sargent Shriver Jr. e de sua mulher, Eunice Kennedy. Eram os 2 membros da Opus Dei. Eunice Kennedy era familiar de John Kennedy e a Opus Dei teve um importante papel na respectiva candidatura presidencial.
Em 1950, foram abertos diversos centros no Chile e Argentina. Em Espanha, neste ano, já cerca de 1/3 de todos os departamentos universitários eram chefiados por membros da Opus Dei.
A partir do Verão de 1951, Escrivá passou a exigir que antes das refeições a comida passasse a ser previamente provada na sua presença, prática que manteve até ao fim da vida. Neste ano, em Espanha, emergiu um novo homem forte junto de Franco, o Almirante Carrero Blanco, também membro da Opus Dei. Outro numerário da Opus Dei, Lopez Rodó, foi nomeado para a importante tarefa de conduzir as negociações da Concordata com o Vaticano e Ibañez Martin, também da Opus Dei, foi nomeado embaixador em Portugal.
É ainda no início da década de 50 que, a nível da Opus Dei, se estabelecem 2 facções em torno do futuro político da Espanha pós-Franco: uma defendia o restabelecimento da monarquia com D. Juan, filho de Afonso XIII, que vivia exilado em Portugal, e outra que favorecia esta solução com Juan Carlos, o filho mais velho de D. Juan.
Escrivá de Balaguer decidiu fundar uma Universidade própria para a Opus Dei: o Estudo Geral de Navarra (Pamplona) ligado à Universidade de Saragoça. No final de 1953, este estudo geral foi transformado em universidade pontifícia.
Em Julho de 1957, devido à contínua degradação social, política e económica da Espanha, foi nomeado um novo governo em que as posições chave foram ocupadas por membros da Opus Dei, reduzindo a posição da Falange a 3 ministérios. Pouco depois de ter sido anunciado o novo governo, a cúpula da Opus Dei emitiu uma declaração negando o seu envolvimento na política.
Também nesse ano, o Papa entregou uma recém-criada “prelatura nullius” no Perú, a prelatura de Yanyos, à Opus Dei, e com o apoio financeiro da Fundação Adeveniat criaram uma rádio (Estrela do Sul) para difundir programas religiosos. Mais tarde, em 1964, criaram uma 2ª estação (Escolas Radiofónicas Populares Andinas) para emitir programas para mais de 300 escolas distritais.


O escândalo Matesa

Em Julho de 1956, o empresário Juan Vilá Reyes fundou uma companhia de apoio técnico para a indústria têxtil com o nome de “Maquinaria Têxtil del Norte de España, Sociedade Anónima”, que abreviou para Matesa. Tratou-se do primeiro grande escândalo no âmbito financeiro com o directo envolvimento da Opus Dei. Na sequência desta gigantesca fraude desapareceu, sem qualquer rasto, uma avultada soma de dinheiro e 2 banqueiros apareceram mortos.
Vilá Reyes, em 1958, inscreveu-se no curso de gestão do Instituto de Estudos Superiores de la Empresa (IESE), que pertencia à Opus Dei. O IESE estava incorporado na Universidade de Navarra e mais tarde associou-se com a Harvard Business School.
Após a licenciatura, os jovens eram acompanhados nas suas carreiras para que, directa ou indirectamente, ficassem ligados à Opus Dei. Um dos primeiros licenciados foi Juan António Samaranch, futuro presidente do Comité Olímpico Internacional.
A ampla e obscura rede tentacular desenvolvida em torno dos negócios da Matesa envolveram os então ministro do comércio, o numerário da Opus Dei Alberto Ullastres, o ministro das finanças Juan José Espinosa San Martin, da Opus Dei, Mariano Navarro Rubio, governador do Banco de Espanha, da Opus Dei, Giscard d’Estaing ministro francês das Finanças, e o Príncipe Jean de Broglie, um dos fundadores do partido de Giscard d’Estaing (Partido Republicano Independente).
A Matesa criou, entretanto, várias sociedades tipo “holding” no Luxemburgo, nomeadamente a Sodetex que envolvia o referido príncipe e Robert Leclerc, principal accionista do Banco de l’Harpe de Genéve, mais tarde Banco Leclerc. O escândalo torna-se público no Verão de 1969, em função da acção do ministro da informação, Fraga Iribarne, um dos poucos ministros falangistas e opositor assumido da Opus Dei.
Segundo diversas referências bibliográficas, Franco terá ficado enfurecido com os ministros falangistas e pendeu para a Opus Dei neste processo, possibilitando um autêntico golpe de Estado palaciano com a nomeação de um novo governo, em Outubro de 1969, chefiado por Carrero Blanco e constituído hegemonicamente por membros da Opus Dei: dos 19 ministros, 10 eram numerários e os restantes colaboradores muito próximos.
Apesar das tentativas desesperadas da ocultação dos factos, o escândalo teve grande impacto na opinião pública e acabou por determinar a nomeação de uma comissão de inquérito que teve de reconhecer a existência de financiamentos à Universidade de Navarra, ao IESE e até à campanha de reeleição do Presidente Nixon.
Um dos bancos que desempenhou uma importante função na fuga de capitais foi o “Credit Andorra”, que foi adquirido em 1955 com a intervenção do Banco Popular e por uma companhia auxiliar da Opus Dei, a Esfina, presidida por um numerário, Pablo Bofill Quadras. O “Credit Andorra” era o veículo privilegiado da transferência regular de elevadas somas de dólares para a conta da Opus Dei no IOR (Banco do Vaticano).
Só em Maio de 1975, Vilá Reyes foi condenado a 3 anos de prisão. Mas, seis meses mais tarde, quando Franco morreu, um dos primeiros actos do Rei Juan Carlos foi perdoar-lhe a pena. Entretanto, o Príncipe de Broglie foi morto, no final de 1975, numa rua de Paris por um atirador profissional.
Em Maio de 1977, foi declarada a falência do Banco Leclerc e dias depois o seu administrador geral, Charles Bouchard, apareceu afogado no Lago de Genéve. Curiosamente, era conhecido como um excelente nadador.


A tomada do Poder

A solução da restauração da monarquia em Espanha e a escolha do Príncipe Juan Carlos para sucessor de Franco na chefia do Estado foram delineadas pela Opus Dei, em consonância com o ditador, e tiveram em Lopez Rodó o seu principal estratega.
Em 22 de Julho de 1969, Franco anunciou a sua decisão de designar o Príncipe Juan Carlos para lhe suceder. Escrivá de Balaguer foi informado com grande antecedência da solução em desenvolvimento através do seu “filho” no governo, Lopez Rodó. Segundo algumas referências, esta solução teria sido estabelecida no final de 1966.
Assim, Escrivá de Balaguer encontrou-se no ano seguinte com D. Juan de Borbón, pai de Juan Carlos, que vivia exilado no Estoril, em Portugal. E ainda no decurso desse ano, solicitou ao Ministério da Justiça a reabilitação ao título de marquês de Peralta, argumentando que um hipotético familiar seu o tinha adquirido em 1718.
Um supranumerário da Opus Dei, sub-secretário do ministério, assinou favoravelmente o pedido, tendo Escrivá de Balaguer requerido também o baronato de San Filipe. Esta apetência desmedida por títulos da nobreza, desmentia a apregoada extrema humildade que a propaganda apresentava como uma das suas principais características pessoais.
Segundo uma teoria que circulou nos meios políticos, Escrivá de Balaguer pretendia ser nomeado regente no período transitório entre a designação do sucessor de Franco e a respectiva coroação, tendo em conta a conhecida doença que já afectava o ditador.
A nível do Vaticano, e apesar de estreitos contactos anteriores, o Papa Paulo VI acabou por não ceder em aspectos fundamentais das pretensões de Escrivá de Balaguer, tendo em conta a enorme influência que sobre ele exercia o Arcebispo Giovanni Benelli, o maior opositor da Opus Dei na Cúria Romana.
Com a morte de Paulo VI a 6 de Agosto de 1978 é eleito o Papa Albino Luciani que adopta o nome de João Paulo I. A sua eleição verificou-se num período em que se encontravam em desenvolvimento diversos processos financeiros de corrupção e as contas do Vaticano apresentavam notórios sinais de degradação.
João Paulo I, ao pretender desencadear um vasto conjunto de medidas que implicavam o afastamento de figuras envolvidas nesses processos, suscitou a ira dos sectores da Opus Dei na Cúria. Após 39 dias de papado apareceu morto na sua cama, tendo sido feito o diagnóstico de ataque cardíaco. O facto de se preparar para nomear Benelli seu secretário de estado, tinha constituído um dos factores essenciais dessa ira. Benelli iria a substituir o Cardeal Villot, um dos homens centrais da Opus Dei.
Além de Villot, o Papa tinha decidido também demitir Paul Marcinkus, presidente do IOR, Sebastiano Gaggio e Ugo Polleti, todos eles elementos chave da Opus Dei na Cúria para conseguir a canonização de Escrivá, a criação de uma prelatura pessoal e o próprio controlo das finanças do Vaticano.
Após uma disputada eleição com o Arcebispo Benelli, o cardeal polaco Wojtyla conseguiu atingir o lugar de Papa com o nome de João Paulo II. O cardeal Wojtyla já era conhecido como um incondicional elemento da Opus Dei, com visitas anteriores à sua sede em Villa Tevere.
Com a sua eleição todos os grandes objectivos da Opus Dei foram sendo concretizados, tendo procedido, gradualmente, à colocação de numerários em importantes cargos. Joaquín Navarro Valls foi nomeado seu porta-voz, Eduardo Martínez Somolo substituiu Paul Marcinkus como presidente da IOR e Rafaello Cortesini como responsável da “Congregação para a Causa dos Santos”.


Escândalo do Banco Ambrosiano

Este enorme escândalo culminou, em meados da década de 80, com o assassinato do principal responsável do Banco Ambrosiano, Roberto Calvi, que apareceu enforcado num andaime sobre o Tamisa, em Londres. Este processo envolveu inúmeras fraudes, utilização de diversas entidades bancárias e financeiras, algumas das quais fictícias, conhecidos políticos de vários países, entre os quais sobressai o nome de Andreotti, o IOR e, sobretudo, o aparelho da Opus Dei.
Importa referir que, em pleno desenvolvimento deste processo, o arcebispo Benelli, o opositor mais implacável da Opus Dei no Colégio dos Cardeais, morreu de ataque cardíaco, aos 62 anos.


Escândalo Rumasa

Em Fevereiro de 1983 surgiu também o escândalo da Rumasa. O dono da Rumasa, Ruiz Mateos, era um católico fanático, supranumerário da Opus Dei, que tinha em cima da sua secretária uma cópia encadernada de “O Caminho”.
Neste processo ficaram provados múltiplos financiamentos a diversas estruturas ligadas à Opus Dei e o facto da Rumasa ter servido de instrumento para que a Opus Dei controlasse uma rede internacional de bancos e instituições financeiras.
Ruiz Mateos fugiu para a Grã-Bretanha e mais tarde foi para a Alemanha, acabando por ser extraditado para Espanha em Novembro de 1985. Nas suas declarações aos magistrados revelou todo o tipo de fugas de dinheiro praticadas e os seus montantes. O destinatário destas enormes somas de dinheiro foi a Opus Dei, conforme os documentos apresentados.
Em 1989, foi operado de urgência a uma trombose mesentérica. Posteriormente, foi para a Clínica Mayo (EUA), tendo o relatório médico considerado como causa provável um envenenamento.
Em vários países, a Opus Dei foi adquirindo, por métodos indirectos, vários bancos, designadamente em Espanha, Suíça, França e EUA, destacando-se como exemplos o Banco Popular Español, o Banco Bilbao-Vizcaya, o Banque des Intérêts Français, o Nondfinanz Bank, o Banco Ocidental e o Continental Illinois Bank.
Já em 1963, Gregório Ortega, administrador regional em Portugal, tinha adquirido para a Opus Dei o controlo do Banco da Agricultura, uma importante participação no Banco de Angola e fundou a Lusofin, uma companhia financeira que gozou de apoio da ditadura portuguesa. Em 1965, este numerário foi preso em Caracas com malas cheias de dólares e jóias, e extraditado para Espanha. Neste país, quando chegou foi internado numa clínica psiquiátrica dirigida por um médico da Opus Dei.
Noutros campos, a Opus Dei foi também adquirindo empresas editoras, revistas e hotéis, neste caso através do Banco Ocidental, e criando fundações ou entidades de “caridade” que se tornaram instrumentos de penetração política e de movimentação de capitais. Já em 1979, a Opus Dei controlava, em todo o mundo, 52 rádios, 12 produtoras de cinema, 694 publicações diversas e 38 agências de informação.


A sua acção política

No seu desenvolvimento e ascensão, a Opus Dei contou com todos os apoios políticos, institucionais e financeiros da ditadura fascista de Franco, tendo Escrivá de Balaguer sido um dos seus mais directos conselheiros. Rapidamente ultrapassou as fronteiras espanholas para se assumir como uma força política defensora de soluções de extrema-direita.
Em 1949, dois supranumerários, Alfredo Sanchez Bella e o arquiduque Otto Von Habsburg, criaram o Centro Europeu de Documentação e Informação (CEDI), com o objectivo de constituir em torno dos Borbóns espanhóis uma federação de estados europeus unidos pelo cristianismo e anticomunismo. Embora sediado em Munique, efectuava as suas reuniões anuais no Mosteiro do Escorial, perto de Madrid.
O Prof. Luc de Hensch, da Universidade Livre de Bruxelas, afirmou, em 1993, que a rainha belga Fabíola, supranumerária da Opus Dei, tinha sido o veículo de inserção da Opus Dei na aristocracia católica da Europa.
As ligações do CEDI chegaram, mais tarde, a vários políticos americanos como o director da CIA, William Colby, o banqueiro David Rockefeller e Crosby Kelly. Também o conhecido político alemão de extrema-direita Franz Josef Strauss participava regularmente nas reuniões.
Durante a presidência de Reagan, nos EUA, Carl Anderson, um dos seus principais conselheiros e detentor de grande influência em todo o aparelho da Casa Branca, era supranumerário, e vários cardeais como Terence Cooke, de Nova Iorque, eram conhecidos como membros da Opus Dei.
Posteriormente, o então presidente Bill Clinton nomeou, em 1993, como director do FBI um conhecido supranumerário, Louis Feech. A sua mulher também detinha esse estatuto e os respectivos 2 filhos frequentavam a escola da Opus Dei em Washington, “The Heights”.
Na Irlanda, um dos principais numerários da Opus Dei era Seamus Timoney, um professor de engenharia mecânica na University College, em Dublin. Dedicava-se a projectar avançados sistemas de armas e em 1957 juntou-se à “Industrial Engineering Designers Limited”, que se tornou uma das sociedades auxiliares da Opus Dei, em que 5 dos 6 fundadores eram numerários. Os armamentos produzidos foram vendidos a exércitos de vários países, com particular destaque para a ditadura de Pinochet, no Chile.
Michael Adams, outro dos principais numerários irlandeses, era conhecido por apoiar o lançamento de bombas pelo IRA. Aliás, existem diversas referências a eventuais financiamentos do Vaticano aos católicos do I.R.A., em paralelo com o que foi efectuado, e amplamente reconhecido, no início da década de 80, a nível do Solidariedade polaco, em que através da rede do Banco Ambrosiano foram fornecidas importantes somas de dinheiro.
Em Itália, G. Andreotti e Flaminio Picolli foram os políticos que desempenharam um papel de extrema importância para a concretização dos objectivos da Opus Dei. Andreotti era conhecido por manter uma cópia de “O Caminho” na sua mesa de cabeceira e de se vangloriar de ter sido a primeira pessoa a pedir ao Papa Paulo VI a santificação de Escrivá de Balaguer após a sua morte. Desde há largos anos que o papel desempenhado por estes 2 políticos tem sido assegurado por Silvio Berlusconi.
Em Espanha, o papel político hegemónico da Opus Dei sofreu um grave golpe com o assassinato de Carrero Blanco e com o escândalo da Rumasa. No entanto, com a eleição de Aznar para primeiro-ministro houve uma clara recuperação de posições. Aznar e a sua mulher encontram-se intimamente ligados à Opus Dei como supranumerários e o candidato designado por ele para disputar, pelo PP, as recentes eleições parlamentares espanholas, Mariano Rajoy, também é conhecido como supranumerário.
Vários membros do governo de Aznar eram membros da Opus Dei, sendo os mais conhecidos Angel Acebes, ministro do interior, José Maria Michavila, ministro da justiça, e Abel Matutes, ministro dos negócios estrangeiros. O comissário europeu espanhol, Marcelino Oreja-Aguirre é também membro da O.D., bem como o anterior presidente do Congresso de Deputados de Espanha, Federico Trillo.
Em Itália, a presidente do Congresso dos Deputados, Irena Pivetti, que é da extrema confiança de Silvio Berlusconi e indicada por ele, é da Opus Dei. Também em Portugal, o presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, é conhecido como numerário.
A Agência Efe, que é a agência pública espanhola de notícias, constituiu, no início deste ano, um polémico assunto de discussão política e parlamentar, onde as acusações da sua instrumentalização pela O.D. foram claramente formuladas por um deputado galego, baseadas nos factos dos seus principais cargos estarem ocupados por supranumerários e do seu ostensivo comportamento noticioso de manipulação político-partidária. A própria TVE, empresa pública de televisão, tem sido acusada de comportamento idêntico, sendo presidida por Alfredo Urdaci, outro supranumerário.
Em Fevereiro deste ano, um dirigente político catalão, Joan Puigcercós, denunciou publicamente o facto do governo espanhol estar a desviar fundos públicos destinados a ajuda humanitária para entidades ligadas ao P.P. e à Opus Dei.
Logo após a 2ª Guerra Mundial, a Opus Dei utilizou 2 colaboradores directos do General de Gaulle, seus membros activos, para proceder à reciclagem de importantes católicos fascistas franceses, colaboradores dos nazis durante a ocupação e do governo do general Pétain, e colocá-los em cargos destacados. Estes colaboradores de De Gaulle eram Maurice Schumann e a condessa Teresa, mulher do Marechal Leclerc de Hautecloque.
A nível das próprias instâncias da União Europeia a penetração crescente de membros da Opus Dei suscita, em amplos sectores, grandes preocupações. Esta influência determinou que, em 19 de Junho de 2000, Javier Solana tenha decido impedir, por pressões da Opus Dei, a realização de uma reunião mensal da associação de funcionários da União Europeia, que tinha convidado Thierry Meyssan, presidente do “Reseau Voltaire”, precisamente para discutir a ameaça da Opus Dei sobre a vida democrática das instituições europeias.
Importa também referir que o último presidente do Banco Central alemão, Hans Tiettmeyer, é membro da Opus Dei.
Um artigo da revista “Kale Gorria” revelou que Raymond Barre, ex-primeiro-ministro francês, Christine Boutin, ex-secretária de estado, o príncipe Michel Poniatowski, ex-ministro do interior, Louis Schweitzer, patrão da Renault, Bernardette Cordón de Courecel, mulher de Jacques Chirac, Ettore Bernabei, ex-presidente da RAI, Jeanne Kirpatrick, ex-embaixadora dos EUA na ONU, e Jacques Santer, ex-presidente da União Europeia, são todos membros da Opus Dei. Referiu ainda, que os patrões das companhias seguradoras AXA e AGF são também membros da Opus Dei.
A nível da América Latina existe um conjunto de factos que importa referir no âmbito de vários países. Na Argentina, em Junho de 1966, o general Juan Carlos Organía, membro da Opus Dei, fez um golpe de Estado fascista, na sequência de um “retiro” religioso num centro desta organização. Procedeu à destruição das várias conquistas sociais em vigor, com particular destaque para a escola pública laica.
Durante as ditaduras posteriores, verificou-se uma íntima ligação da O.D. com o Poder ditatorial, em particular com o general Jorge Videla que mereceu o seu apoio total e empenhado, existindo múltiplos membros nas mais destacadas posições institucionais do regime fascista. Durante o governo de Carlos Menem, a Opus Dei conseguiu um poder substancialmente acrescido devido às íntimas ligações existentes entre eles e ao facto de vários ministros serem assumidamente supranumerários.
Ao longo das últimas décadas, os diversos escândalos financeiros envolveram diversos empresários membros da Opus Dei e até membros do clero com o mesmo estatuto. No início da década de 80, o empresário José Rafael Trozzo levou à falência fraudulenta o Banco de Intercâmbio Regional com o desaparecimento de uma soma superior a 1.000 milhões de dólares. Refugiou-se no México.
A família Trusso, no final da década de 90, esteve envolvida no escândalo de falência fraudulenta do Banco de Crédito Provincial, com o desaparecimento de 200 milhões de dólares, tendo este processo dado origem a várias prisões, incluindo o monsenhor Renato Toledo, também membro da Opus Dei. A família Trusso é conhecida por possuir ligações directas ao Vaticano.
Outros escândalos envolveram negócios de droga e cheques fraudulentos, em que as dependências do Banco Ambrosiano assumiram um papel decisivo nas respectivas operações bancárias. Há que referir também o escândalo da mútua militar “Sociedade Militar Seguros de Vida” que procedeu a empréstimos de 10 milhões de dólares ao próprio arcebispado.
Em 2002, a Universidade Austral, pertencente à Opus Dei e ligada a diversos escândalos financeiros, apresentou a candidatura para a realização de cursos de formação de dirigentes para o desenvolvimento de comunidades locais, abrangendo 700 pessoas, e cujo objectivo é formar quadros político-administrativos para serem inseridos a nível dos governos municipais e regionais.
Com a eleição do actual presidente Néstor Kirchner e a posterior constituição do governo, existe pelo menos um ministro da Opus Dei, Gustavo Béliz, na pasta da justiça. Tinha sido ministro do interior de Carlos Menem e conhecido como um dos mais importantes operacionais desta organização.
Na Nicarágua, os últimos presidentes têm mantido estreitas relações com a Opus Dei, com particular destaque para o actual presidente Enrique Bolaños. O presidente do Conselho Superior Eleitoral, Roberto Rivas, é amplamente conhecido como membro da Opus Dei e tem estado envolvido em casos de corrupção e de cheques desaparecidos desta instituição. Também o canal estatal da televisão tem estado envolvido em escândalos com protagonistas referenciados à Opus Dei.
No Peru, a influência da Opus Dei atingiu o auge com o governo totalitário de Fujimori, a quem manteve um apoio total. O cardeal de Lima, Juan Luis Cipriani, conhecido como um activo e importante membro da Opus Dei, foi um infatigável defensor das atrocidades do regime de Fujimori e chegou a declarar que “as mortes, os desaparecimentos e os abusos fazem parte da confrontação vivida pela sociedade peruana durante duas décadas”.
Estas palavras recordam as declarações do próprio Escrivá na sua visita ao Chile, em 1974, considerando que o sangue derramado por dezenas de milhares de patriotas assassinados “era necessário”. O próprio escritor conservador Vargas Llosa declarou, em Janeiro de 2001, na Universidade Peruana de Ciências Aplicadas, que a Opus Dei “é um sector muito minoritário, mas poderoso, totalmente integrado na ditadura e que vai ser um obstáculo para a democratização”. Fujimori, de quem se dizia ser supranumerário, foi apoiado politicamente pelo movimento “Renovação”, cujo presidente, Rafael Rey, é numerário.
Em El Salvador, o arcebispo deste país, Fernando Saenz Lacalle, destacado numerário da Opus Dei, tem sido um dos principais sustentáculos de sucessivos governos ditatoriais e é conhecido pelas suas ligações aos sectores militares extremistas e aos grupos paramilitares responsáveis por milhares de assassinatos, incluindo personalidades da Igreja como foi o caso do Arcebispo Óscar Romero.
No Uruguai, na sequência da crise financeira de Julho e Agosto de 2002 foram presos diversos membros da família Peirano, todos membros da Opus Dei, por fraudes financeiras. Esta família da Opus Dei está ligada ao Banco de Montevideo, Banco Velox e outras instituições financeiras no Paraguai e Brasil. Só no Banco de Montevideo a fraude ascendeu a 390 milhões de dólares. Por seu intermédio, a Opus Dei controla vários jornais e revistas.
No início da década de 80, a Opus Dei estabeleceu uma aliança com a seita Moon para sustentar o governo fascista do general Gregório Alvarez. O actual governo do presidente civil Luis Alberto Lacalle conta com diversos ministros da Opus Dei. O ministro da saúde, Carlos Delpiazzo, suspendeu as campanhas de luta contra a SIDA e outro ministro, Mariano Brito, proibiu as fecundações in vitro. O director do Banco Central, Ramon Diaz, é membro da Opus Dei.
Nas Honduras, em 1992, o então presidente, Rafael Leonardo Callejas, emitiu um decreto que concedeu o “título de filho predilecto das Honduras” a Escrivá de Balaguer.
No Haiti, a Opus Dei conseguiu o apoio directo do Vaticano para desencadear múltiplas acções políticas contra o presidente democraticamente eleito, o padre Bertrand Aristid.
Na Venezuela, os acontecimentos políticos dos últimos 3 anos têm sido planeados e desenvolvidos por membros da Opus Dei, na contestação activa ao governo de Hugo Chavez e em estreita articulação com a actual cúpula do Poder nos EUA. Charles Shapiro, embaixador americano em Caracas, e Otto Reich, assessor do presidente americano para os assuntos latino-americanos, são membros destacados da Opus Dei.
O falhado golpe de Estado de Abril de 2002 teve em destacados membros da Opus Dei os seus organizadores principais. A proclamação política do golpe foi redigida por membros da Opus Dei e o empresário Pedro Carmona, que se autoproclamou presidente, também é membro da Opus Dei. José Rodriguez Iturbe, deputado, membro destacado da Opus Dei, tem sido um dos organizadores mais activos da conspiração política em desenvolvimento neste país. O cardeal Baltazar Porras, grande animador do plano golpista, é dado como um elemento da extrema confiança da Opus Dei. A PDVSA, a empresa petrolífera estatal, era completamente dominada por gestores da Opus Dei e desempenhou um papel central na sabotagem económica.
O Chile constitui, talvez, o caso mais paradigmático da sinistra intervenção política da Opus Dei. Durante a década de 60, a Opus Dei enviou o jovem padre espanhol José Miguel Ibañez Langlois, que se tornou rapidamente no seu principal ideólogo na América Latina. Dois dos seus primeiros recrutas foram os activistas de direita Jaime Guzman e Alvaro Puga, que se tornaram editores do jornal “El Mercúrio”.
Este jornal, em que o próprio Ibañez Langlois desempenhava as curiosas funções de crítico literário, desempenhou um papel fundamental na preparação do golpe fascista de Pinochet, de que resultou a morte do grande patriota e maçon Salvador Allende, presidente da República do Chile eleito democraticamente.
Os 3 principais membros da junta militar que tomou o Poder, general Augusto Pinochet, o general Jaime Estrada Leigh e o almirante José Merino, eram membros supranumerários ou cooperadores da Opus Dei. Algumas semanas após o golpe, Escrivá de Balaguer deslocou-se a Santiago do Chile para celebrar uma acção de graças em honra do que chamou o seu “filho espiritual”, Augusto Pinochet.
A operação ordenada pela CIA com vista à execução do golpe, foi planeada dentro do “Instituto de Estudos Gerais” pertencente à Opus Dei. Este instituto teve como fundadores Álvaro Puga, Herman Cubillos, Pablo Barahona e Jaime Guzmán… todos membros da Opus Dei.
Após o golpe, Álvaro Puga foi o porta voz de Pinochet, Herman Cubillos ministro dos negócios estrangeiros, Pablo Baraona ministro da economia e Jaime Guzman foi o redactor da nova constituição. Pablo Baraona foi o responsável pelo desencadeamento das medidas económicas que conduziram ao empobrecimento da grande maioria dos chilenos, fazendo parte da Escola de Chicago, de Milton Friedman.
Mais tarde, Pinochet foi nomeado como um dos mais altos dignitários da Ordem de Malta e divulgada a sua condição de supranumerário. Há alguns anos atrás, quando Pinochet foi objecto de prisão domiciliária em Londres na sequência de um processo internacional desencadeado por um juiz espanhol, foi o Vaticano e a Opus Dei que moveram todas as suas influências para conseguir a sua libertação e o regresso ao Chile.
Em 1993, João Paulo II, a propósito dos 50 anos de casamento do ditador, enviou-lhe felicitações e a sua benção, e em 1994, a propósito de mais um aniversário, enviou-lhe a benção através de vídeoconferência e chamou-lhe “defensor da fé”. Ainda hoje, a Opus Dei continua a dominar grande parte das Forças Armadas e a grande maioria das universidades chilenas.


Considerações Finais

A Opus Dei constitui uma poderosa máquina política e ecómica, caracterizada por concepções profundamente totalitárias, um funcionamento paramilitar de obediência cega, métodos sofisticados de manipulação de consciências e de eliminação física, bem como de hegemonização das finanças e do poder de decisão do Vaticano.
Simultaneamente, tem sido a portadora de uma visão fundamentalista e intolerante da religião católica, defensora da “guerra santa”, e sempre aliada de ferozes ditaduras de extrema-direita e o seu principal sustentáculo político-ideológico.
O jurista nicaraguense Gustavo Adolfo Vargas, afirmou que o livro “O Caminho” é a expressão de um catolicismo de cruzada, de luta e extermínio, da exaltação da vontade com fins belicistas e a divisão simplista dos homens em bons e maus”.
O seu desenvolvimento durante a ditadura de Franco, acabou por traduzir-se num sustentáculo decisivo para o prolongamento deste regime. E no que se refere às divergências que surgiram em diversos momentos com o partido falangista, importa ter em conta que elas não derivaram de questões políticas, mas pelo facto da Opus Dei se considerar, pela sua composição, uma estrutura de élite a quem caberia assumir a definição das opções estratégicas.
A criação da Opus Dei por Escrivá de Balaguer inspira-se nos conceitos de intolerância persecutória da Inquisição e em experiências fundamentalistas católicas como a Sapiniére de Umberto Benigni que contribuiu para a ascensão de Mussolini ao poder italiano na década de 20. A inspiração na Sapiniére foi, aliás, confirmada pelo então reitor da Universidade de Salamanca, António Tovar.
A influência decisiva junto de Franco foi conseguida, em grande medida, através da agitação do perigo de uma permanente conspiração judaico-maçónica-comunista. Franco era conhecido nos meios políticos como possuindo uma obsessão, quase patológica, contra a maçonaria.
A liberdade de pensamento foi sempre ferozmente combatida por Escrivá de Balaguer. Auto-intitulou-se “pai”, elaborou “indexes” de livros proibidos para os seus “filhos” e proclamava o princípio de “humilha-te perante o teu superior”.
Escrivá de Balguer, como não reconhecia ninguém superior à sua autoridade, adoptou práticas violentas de auto-flagelação desde o início da sua liderança da Opus Dei, chicoteando-se até sangrar e usando cintos metálicos com bicos. Muitas vezes, a casa de banho do seu quarto foi encontrada com sangue abundante nas paredes e no chão.
Seria uma forma de se humilhar a si próprio?
O jornalista Héctor Ruiz Núñez, no seu livro “A Cara Oculta da Igreja”, referiu que a Opus Dei foi criada por um intelectual medíocre, ainda que dinâmico propagandista, que por detrás da sua fachada religiosa e espiritual é uma empresa privada de gestão.
Um dos principais teólogos de Espanha, Juan Martín Velasco, declarou que “Não podemos apresentar como modelo de vida cristã alguém que serviu o poder do Estado (referindo-se ao fascismo espanhol) e que usou este poder para catapultar o seu movimento. Um movimento que Escrivá dirigiu com critérios obscuros - como se comandasse uma Mafia de colarinho branco - sem aceitar a orientação dos papas que não coincidissem com a sua maneira de pensar”.
Em diversos meios, a Opus Dei tem sido designada por “Santa Mafia”.
Na América Latina, um dos principais objectivos foi o impiedoso combate político à crescente importância adquirida pela Teologia da Libertação junto do clero e dos crentes. Nesse sentido, e apesar dos casos já relatados de mortes “estranhas”, é indispensável relatar os casos de monsenhor Arturo Rivera Damas e do padre Giuliano Ferrari, que se inseriam nesta corrente católica.
O monsenhor Arturo Rivera Damas substituiu o monsenhor Óscar Romero como arcebispo de S. Salvador. Este último, era um padre humanista, adversário intrasigente da ditadura salvadorenha e conhecido como “um defensor dos pobres”. Enquanto celebrava missa foi assassinado, em 24 de Março de 1980, por esquadrões da morte que, como vimos, tinham ligações a políticos da Opus Dei.
Arturo Rivera Damas foi um continuador do seu antecessor, tendo despertado rápidas animosidades dos mesmos sectores, o que determinou que tivesse sido chamado ao Vaticano em Novembro de 1994.
Ao fim de alguns dias, teve um violento ataque cardíaco e morreu instantaneamente. Na véspera tinha dado uma entrevista em que à pergunta do jornalista sobre se a Teologia da Libertação estava morta, respondeu que “a salvação trazida por Nosso Senhor inclui o conceito de libertação de toda a opressão. Esta visão fundamental de salvação tem que estar sempre em mente. É por isso que eu acredito que esta forma de teologia não está acabada mas ainda tem bastante a dizer”.
Foram palavras fatais!!!
Giuliano Ferrari, nomeado pelo Papa para dirigir a “Sociedade de Deus para a Humanidade na América Latina” foi para a Guatemala no final de 1969, depois de passar pelo Equador e El Salvador onde teve graves problemas de perseguições com membros dos respectivos cleros. Na Guatemala, a hierarquia católica estava integralmente dominada pela Opus Dei, que desencadeou idênticas perseguições a este padre.
Após 8 anos de trabalho missionário nas favelas e nas comunidades rurais mais pobres, Ferrari foi retirado dos seus aposentos por 2 padres da Opus Dei e levado ao aeroporto com um bilhete para a Europa.
Alguns meses depois foi encontrado morto num comboio entre Genéve e Paris. Com 48 anos de idade, morreu com um violento ataque cardíaco. Não foi feita autópsia e não existe qualquer certidão de óbito.
A hegemonização do poder político e econômico do Vaticano com a intervenção activa de João Paulo II, permitiu que em 28 de Novembro de 1982 a Opus Dei fosse transformada na única prelatura pessoal. Uma igreja dentro da Igreja, em que o principal prelado da Opus Dei responde directa e exclusivamente ao Papa.
Em Outubro de 2002, concretizou-se a canonização de Escrivá de Balaguer pelo Vaticano, a mais rápida de toda a história da religião católica.
Segundo a descrição contida no livro “Os Espanhóis e Portugal”, na cerimônia realizada na Praça de S. Pedro, em Roma, esteve uma delegação portuguesa constituída por Mota Amaral, Ramalho Eanes e Manuela Eanes, Maria Barroso, Paulo Portas, Arlindo Cunha, Rui Machete e Messias Bento (juiz do Tribunal Constitucional). Neste livro, também é referido que um dos actuais vice-presidentes da Assembléia da República, Narana Coissoró, é cooperador da Opus Dei.
No nosso país, a nível do governo, outro ministro, o do trabalho, é conhecido pela sua clara inserção na Opus Dei.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma das entidades que mais dinheiro movimenta no nosso país, é dirigida por uma equipa ligada à Opus Dei, o mesmo acontecendo com a administração recentemente nomeada para a chamada “entidade reguladora da saúde”.
Em minha opinião, torna-se indispensável acompanhar atentamente, no nosso país, esta acção organizada, e dotada de vultuosos meios financeiros de infiltração das instituições. Os abundantes exemplos de outros países, mostram quais são os resultados dramáticos desta infiltração que não olha a meios para atingir os seus fins implacáveis.
Não é por acaso, que o Parlamento belga, há cerca de 3 anos, incluiu a Opus Dei na lista das 10 seitas mais perigosas do mundo e que nos EUA foi constituída a associação “Opus Dei Awareness Network Inc.” para defender os cidadãos das actividades da “Obra”.
Para que possam continuar a existir liberdade de pensamento, liberdades cívicas, democracia política, direitos sociais e progresso civilizacional, não pode ser adoptada, em minha opinião, uma atitude indiferente ao desenvolvimento de uma estratégia deste tipo.
Há que fortalecer, e muito, a Luz para que o regime das trevas não se torne ameaçador.

José Martí

Fídias


FÍDIAS (490-430 AC), escultor ateniense, foi o diretor artístico da construção do Partenon. Criou a sua estatuária mais importante e projectou e supervisionou provavelmente a sua decoração total. Disse-se que Fídias teve uma revelação das figuras divinas que incorporou no seu trabalho de forma a revelá-las aos homens. Certo é que com as suas estátuas fixou para sempre as figuras de Zeus e de sua filha Atena.

Pouco se conhece sobre a vida de Fídias. Quando Péricles chegou ao poder em 449 e inicia um programa de reconstrução em Atenas, Fídias foi encarregado da produção de toda a estatuária. Assim, entre os trabalhos por que Fídias ficou famosos estão três monumentos a Atena (a Atena Promachos, a estátua de Atena, dita lemniana e a Atena Parthenos, figura colossal para o Partenon). O colossal Zeus sentado para o templo de Zeus em Olímpia foi a sua mais importante obra fora de Atenas; nenhuma delas sobrevive no original.

Há referências à intervenção de Fídias na construção do templo grande das iniciações em Elêusis. Assinale-se com importante este facto pois isso pode significar a intimidade de Fídias com os Mistérios de Elêusis. Os sacerdotes de Elêusis transmitiam aí, em cerimônias iniciáticas de pelo menos dois graus, a grande doutrina esotérica que lhes vinha do Egipto.

O ritual dos Mistérios de Elêusis encontrava expressão na lenda de Deméter, irmã de Zeus, (ou mãe universal, versão grega de Ísis, a egípcia), e sua filha Perséfone, raptada por Hades, rei do Mundo Inferior, quando colhia flores no vale de Nisa. Deméter, ao tomar conhecimento do rapto, ficou tão amargurada que deixou de cuidar das plantações dos homens aos quais havia ensinado a agricultura. Os homens morriam de fome, até que Zeus, que havia permitido a seu irmão Hades raptar Perséfone, encontrou uma forma de reparar o mal cometido: Perséfone deveria voltar à Terra durante seis meses para visitar sua mãe e outros seis meses passaria com Hades. É a imagem do ciclo da vida universal, que se encerra no simbólico grão de trigo de Elêusis, que deve morrer e ser sepultado nas entranhas da terra, para que possa renascer como planta, à luz do dia, depois de abrir caminho através da escuridão em que germina.

O primeiro de monumentos de Fídias a Atena, a Atena de bronze Promachos, foi um de seus trabalhos mais conhecidos. Foi colocado na Acrópole, em Atenas, cerca de 456. De acordo com uma inscrição preservada mediu aproximadamente 9 m de altura. Então, era a estátua de maior altura erigida em Atenas. Foi levada para Constantinopla no séc. V e destruída por tumultos em 1203.

A Atena, dita lemniana, foi uma oferenda dos colonos atenienses que se instalaram na ilha de Lemnos entre 451 e 448 e colocada na Acrópole. Admite-se que uma cabeça de Atena em Bolonha e duas estátuas de Atena em Dresda podem ser cópias, em mármore, do trabalho original de Fídias em bronze.

A estátua colossal da Atena que Fídias fez para o colocar no interior do Partenon, foi terminada e dedicada em 438. O trabalho original foi feito de ouro e de marfim e tinha cerca de 12 metros de altura. A deusa apresentava-se de pé, com uma túnica e capacete, com uma lança e escudo do seu lado esquerdo e com a pequena estátua de Vitória na mão direita. (foi com a lança que, ao bater no chão, Atena fez nascer a oliveira, vencendo dessa forma o confronto com Poseidon, deus dos mares, para a suzerania da cidade). A deusa virgem, que nunca casou mas que foi considerada a mãe dos homens apresentava-se assim emanando os símbolos do Triunfo e da Paz. A cidade adorava a deusa nas suas manifestações guerreiras (o capacete, a lança, o escudo) mas também como dadora de paz (a oliveira e o azeite), de autoridade e protecção e de sabedoria (apresentava-se muitas vezes na companhia de uma coruja).

Foram identificadas diversas cópias desta obra; entre elas estão uma cópia agora no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, e uma cópia helenística, de aproximadamente 160 AC, feita para o salão principal da biblioteca real em Pérgamo (agora no Staatliche Museen Preussischer Kulturbesitz, em Berlim).

Os escritores antigos consideraram o Zeus de Fídias, terminado aproximadamente em 430 AC, para o templo de Zeus em Olímpia como a sua obra-prima; esta estátua colossal foi uma das sete maravilhas do mundo antigo, infelizmente destruída ainda durante o séc. V. Zeus apresentava-se sentado num trono, com Vitória na sua mão direita e um globo com uma águia na sua mão esquerda. A sua carne era de marfim e ébano, o seu vestuário de ouro. As costas do trono subiam e cobriam a sua cabeça. O conjunto media 13 metros e preenchia toda a altura do templo.

Zeus era o supremo deus olímpico e tinha não só os poderes de deus mas também muitas das características do Homem, era um mestre do disfarce, que utilizava para descer ao mundo e as suas metamorfoses mais célebres são como cisne, para conquistar Leda, e como touro, para raptar Europa. Foi o filho mais novo dos deuses primordiais Cronos e Reia e considerado o senhor do Clima, da Justiça, da Lei e das Liberdades Políticas: Os jogos olímpicos realizavam-se em sua honra e todos os gregos observavam rigorosas tréguas durante a sua realização.

Os últimos anos de Fídias permanecem um mistério. Os inimigos de Péricles acusaram Fídias de roubar o ouro da estátua de Atena Parthenos em 432, mas Fídias, que havia feito a obra em peças, desmontou-as e pode provar a sua natureza de metal áureo. Acusaram-no então de sacrilégio (por incluir os retratos de Péricles e de si próprio no escudo de Atena Parthenos), e foi por isso preso. Durante muito pensou-se que Fídias havia morrido na prisão logo depois disso; agora acredita-se que esteve exilado em Elis, quando do seu trabalhou na estátua de Zeus de Olímpia. Crê-se que uma oficina de estatuária encontrada em Olímpia pode ter sido sua; aí se encontraram alguns moldes de terracota que se afiguram moldes para o vestuário de Zeus.

Fídias e seus assistentes foram também responsáveis pelas esculturas de mármore que adornaram o Partenon. A maioria dos frisos que aí se incluem não foram destruídos e podem ser vistos no Partenon, no Museu Britânico e no Louvre. Diversas dessas esculturas foram atribuídas directamente a Fídias, mas sem certeza absoluta.

Destes trabalhos pode fazer-se uma ideia do estilo de Fídias. Existe uma enorme qualidade em toda a obra, quer na que representa figuras estáticas quer na que apresenta movimento; o corpo humano é compreendido perfeitamente, a sua figuração é rica e harmoniosa. Fídias, além de ser considerado o maior escultor da Antiguidade, pode ser chamado o iniciador do estilo clássico que caracteriza a arte grega daí em diante. A sua quota parte na configuração da época de ouro da democracia ateniense assim como na divulgação dos símbolos principais da estrutura mítico-religiosa do mundo grego não pode ser escamoteada e se é lamentável não podermos ver a sua obra material em toda a sua pujança resta-nos a mensagem que nos transmitiu de amor à arte e à beleza, de honestidade, perseverança no trabalho e sabedoria para ver além dos símbolos e da pedra e do metal, quer em bruto antes de sair da pedreira ou entrar na forja quer nas obras apresentadas aos seus contemporâneos.

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Madre Teresa de Calcutá


Ganxhe Bojaxhiu nasceu em 26 de agosto de 1910, na cidede Skopie, capital da Macedônia, em uma família católica, sua mãe, Drana, era uma pessoa de intensa religiosidade. Aos 12 anos Ganxhe despertou para sua vocação religiosa.

A cidade se Skopie, vivia em constate conflito com a dominação turca, em 1912 a cidade foi libertada e consegui sua independência. Mas pouco tempo deposi soferu novas invasões.

Seu pai lutava contra os contra os conflitos étnicos, e sua paixão política o levou a própria morte no ano de 1919. Após a sua morte muitos problema ocorreram com a família de Ganxhe, problemas com sócio da família, fez com que a mãe de Ganxhe assumisse os gastos da família.

A família vivia próxima a paróquia do Sagrado Coração e logo a mãe de Ganxhe percebeu seu gosto pelos ofícios religiosos, logo o pároco Frnajo Jambrekovic, incentivou Ganxhe a leitura de histórias missionárias.

"Não Tinha completado ainda 12 anos, quando senti o desejo de ser missionária", contou mais tarde Madre Teresa.

Ainda criança, Ganxhe entrou para a congregação Mariana das Filhas de Maria, e ajuda os pobres em sua própria casa.

"Aos pés da Virgem de Letnice, escutei um dia o chamado Divino que me convencia de servir a Deus", disse muitos anos depois a Madre Teresa que confessou descobrir a intensidade do chamado graças "a uma grande alegria interior". Em 25 de dezembro de 1938, aos 18 anos se mudou para Rathfarnham, na Irlanda, onde se ficava o Instituto da Beata Virgem.

Em 1929, após 37 dias de viagem pelo mar, Ganxhe chega em Begala, depopis viajou a Calcutè e finalmente chegou em Dajeerling, onde no seminário da Ordem estudou e em 24 de maio de 1931, escolheu o nome de Teresa, inspirada pela Santa Teresa D´Avila.

"Querida mamãe, gostaria muito de estar contigo, Age e Lázaro, mas devo dizer que tua pequena Ganxhe é feliz...Esta é uma vida nova. Sou professora e gosto do trabalho. Todos aqui nos amamos muito", escreveu a sua mãe Drana, a quem nunca mais voltou a ver desde que se mudou de Skope, em 1928.

Entre os 18 de 38 anos, Teresa era religiosa das damas Irlandesas na Índia e professora de história e geografia no colégio Santa Maria, único para meninas católicas em Calcutá. Logo começou a ensina no colégio de Entally,onde iam as pobres.

Na Índia, colônia Britânica, havia muitas aspirações pela independência e Mahatma Gandhi pregava a não violência. Em 1937 no dia 24 de maio, Teresa professou de forma perpetua suam vocação religiosa.

Começou a se dedicar a um grupo de irmãs indianas de Bengala, que seguima as regras jesuíticas, eram as Filhas de Santa Ana, elas inspiraram Teresa em seu projeto de vida missionária,

O momento crucial para a sua vida que a convertia em Madre Teresa de Calcutá, deu-se de improviso. Ela mesma nos conta: "Ocorreu em 10 de setembro de 1946, durante a viagem de trem que me levava ao convento de Darjeeling para fazer os exercícios espirituais. Enquanto rezava em silêncio a nosso Senhor, adverti um chamado dentro do chamado. A mensagem era muito clara: devia deixar o convento de Loreto (em Calcutá) e entregar-me ao serviço dos pobres, vivendo entre eles". Logo iniciou sua vida como: Madre Teresa de Calcutá.

Recebeu a permissão da Santa Sede para levar os moribundos das ruas para um lar onde eles pudessem morrer em paz e dignidade, também abriu um orfanato. Em 1950 fundou uma congregação religiosa, e as irmãs de caridade são mais de 4.000, espaplhadas por 95 países, e todas as nações permitiram seus trabalhos.

Gradualmente, outras mulheres se uniram a ela de modo que, em 1950 recebeu a aprovação oficial do Papa Pio XII para fundar uma congregação de religiosas, as Missionárias da Caridade, que se dedicariam a servir aos mais pobres entre os pobres.

O Papa João Paulo II confiou às religiosas de Madre Teresa a casa "Dom de Maria" aberta no Vaticano, ao lado do Palácio do Santo Ofício, para assistir aos mais pobres e aos moribundos da Itália. Em 1979 Madre Teresa recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho. A Madre Teresa de Calcutá faleceu na Sexta-feira 5 de setembro de 1997 vítima de uma parada cardíaca. Milhares de pessoas de todo o mundo se congregaram formando várias filas na Igreja de Santo Tomás para despedir-se da Madre Teresa.

Nelson Mandela


Presidente da África do Sul. Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em 18 de julho 1918, próximo a Umtata, capital da reserva de Transkei. Pertencia à família real da tribo themba, chefiada por seu pai, Henry Gadla Mandela. Sua mãe chamava-se Nosekeni. Quando Nelson Mandela tinha doze anos, ficou órfão de pai, do qual era filho único, sendo deixado aos cuidados do chefe da sua tribo. Estudou numa escola metodista e depois em Fort Hare College, em Alice, cidade ao leste do Cabo da Boa Esperança. Lá Nelson Mandela conheceu o futuro revolucionário Oliver Tambo. Foi suspenso de suas aulas por participar de um protesto contra medidas governamentais que limitavam o poder de decisão da representação estudantil em sua escola.

Retornando à sua tribo, foi censurado pelo chefe, que esperava fazê-lo seu sucessor e já estava preparando seu casamento com uma noiva selecionada para ele. Tendo outros projetos para sua vida, Nelson, então com vinte e três anos de idade, decidiu fugir para Johannesburgo. Apesar de sua formação, o máximo que conseguiu foi um cargo de vigia noturno numa mina de ouro.

O sistema de controle econômico com controle racial era sustentado pela exploração dos recursos minerais da África do Sul, entre eles ouro e diamantes que supriam fábricas de jóias dos grandes centros da Europa e dos EUA. Estes interesses econômicos e racistas estavam entre os principais motivos para o prolongado apoio de países europeus, dos EUA, e de aliados, ao regime racista sul-africano, e também a razão de suas contidas manifestações de condenação, e nenhuma intervenção militar, até o período final do regime de apartheid.

O sistema de controle sobre a exploração e sobre o comércio das riquezas sul-africanas tinha como uma de suas diretrizes a exclusão dos não brancos. Nesta época, Mandela fez amizade com Walter Sisulo, dono de uma pequena imobiliária, que prestou a ele ajuda financeira e conseguiu-lhe um emprego a fim de que voltasse a estudar Direito.

Casou-se com Evelyn Ntoko Mase, uma enfermeira, indo morar com ela em Soweto. Em 1943, por convite de Walter Sisulo, uniu-se ao Congresso Nacional Africano (CNA), uma organização negra que tinha como principal objetivo por um fim no apartheid. Indo contra o discurso moderado do presidente da organização, A. B. Xuma, Mandela formou com Oliver Tambo, Walter Sisulo e Anton Lambede, a Liga da Juventude do CNA, que defendia uma postura mais agressiva da entidade contra o governo racista sul-africano.

A democracia sul-africana, com direito de voto limitado aos brancos, levou ao poder em 1948, o Partido Nacional, que tinham entre suas promessas de campanha reforçar a segregação racial do país, através do apartheid, "desenvolvimento separado". O principal argumento dos racistas referia-se a uma espécie de "valorização da diversidade": afirmava que os negros e brancos estavam em estágios diversos de desenvolvimento e que os próprios negros agrupavam-se em diferentes nações e tribos, com diferentes identidades, e que o isolamento desses vários grupos evitaria atritos entre eles. Dividiram os negros em dez bantustãs (lares bantus), baseados nas antigas reservas nativas.

Incentivando o nacionalismo tribal entre os negros, o governo racista os mantinha divididos e também afastados da educação ocidental, fragilizando-os intelectualmente e garantindo mão-de-obra barata para as indústrias dos racistas. A repressão às militâncias negras também foi aumentada.

Em 1958, casou-se com Winnie Mandela. Após o massacre de Sharpeville, em 1960, Mandela organizou um grupo paramilitar para lutar contra o governo racista sul-africano, que tinha apoio de países como os EUA, Inglaterra e Estado de Israel. Preso sob a acusação de traição, em 1961, recebeu em 1964 sentença de prisão perpétua por alegados atos de sabotagem. Neste período sua mulher Winnie Mandela serviu-lhe de porta-voz.

Foi libertado em 1990, quando o governo de minoria branca já não podia mais suportar as freqüentes revoltas da população negra somadas à pressão mundial contra o regime de apartheid em vigor na África do Sul. Mandela, então, liderou o Congresso Nacional Africano em suas negociações com o Presidente F. W. de Klerk. Foi posto um fim no regime de apartheid e estabeleceu-se um governo multirracial. Em 1992, Nelson Mandela divorciou-se de Winnie. Em 1993, recebeu junto com de Klerk, o Prêmio Nobel da Paz.

Ensinamentos: Oito Versos que Transformam a Mente



Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.

1. Com a determinação de alcançar O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes, Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos, Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."

2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas, E, com todo respeito, considerá-las supremas, Do fundo do meu coração.

"Com todo respeito considerá-las supremas" significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.

3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente E, sempre que surgir uma emoção negativa, Pondo em risco a mim mesmo e aos outros, Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.

4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos, Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso, Muito difícil de achar.

Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.

5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa, Ou a insultarem e caluniarem, Vou aprender a aceitar a derrota, E a eles oferecer a vitória.

Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.

6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo, Vou aprender a ver essa outra pessoa Como um excelente guia espiritual.

Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: "Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial."

7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção, Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos, E a tomar sobre mim, em sigilo, Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

O verso diz: "Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes," — essa é a prática da generosidade — e ainda: "Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras." Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.

Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: "Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim", pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: "Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante." Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.

8. Vou aprender a manter estas práticas Isentas das máculas das oito preocupações mundanas, E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios, Serei libertado da escravidão do apego.

Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. "Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego."

Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.

(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness)

Julgamento polìtico - Thomas Pavel

Carta para Vincent Descombes


Princeton, 16 de dezembro 1994.

[.....] Na falta de poder ter uma função plenamente fondationnaire, o realismo se deixa voluntariamente tentar pelo légitimismo, a dialética pelo voluntarisme, o relativismo pela Ausência do Espìrito Cìvico, e a fenomenologia existencial pelos regimes duros. È evidente que, para que o pensador se deixe influenciar por essas tentações, as opções polìticas que elas representam devem gozar de uma realidade històrica massiva. [.....]


[.....] " Em uma situação do tipo A, meus contemporâneos se dedicam a atividade do tipo B, enquanto que os melhores entre os Anciãos escolhem a atividade do tipo C; Eu Quero Agir da Melhor Maneira Possìvel; Eu vivo Hoje e eu Admiro os Anciãos; È conveniente por conseguinte que, colocado na situação A, minha ação participe ao mesmo tempo do tipo B e do tipo C." È aliàs a ausência de um tal "astrolabe" que torna toda conversação com um Nazista Racional Inùtil. Para se auto-compreender e se auto-justificar este sò dispõe de um ùnico horizonte doutrinàrio e de uma ùnica pràtica, os seus. [.....]


[.....] Veyne, que você cita, vê em Foucault o autor de uma moral guerreira que pode se dispensar da universalidade e da verdade na medida em que o guerreiro, " o homem da segunda função " (tripartie indo-européenne), sò conhece um partido, o seu e o partido de seu adversàrio, e [...] tem a energia suficiente para lutar sem dever se dar razões para se assegurar" (p.15). Essa descrição, por outro lado, vale de preferência para os mercenàrios de quais Voltaire zomba em Candide, ou ainda para o moderno Rebelde sem fé nem lei, imortalizado no seu blusão preto por James Dean, que para os guerreiros das sociedades tradicionais, que, eles, sabem muito bem a razão pela qual eles lutam: ou eles se defendem contra o Inimigo da Pàtria, ou eles procuram a glòria da cidade deles, ou enfim a guerra era aos olhos deles a atividade mais nobre. [....]



[.....] Esse contexto compreende as normas explìcitas da instituição, suas tradições tàcitas, a competência dos que Decidem, os Deveres dos Executantes. Para que um guerreiro seja seguido por seus homens quando no campo de batalha ele ergue sua espada gritando " À l'attaque ! ", é preciso que a ordem corresponda pelo menos aproximativamente às normas e às tradições em vigor nas Forças Armadas em questão e que esse guerreiro tenha o grau e a função necessàrios para Exercer o Comandamento na situação que se apresenta. Tão espontânea e leve que ela pareça no fogo da Ação, toda Decisão tem nela o inexpressìvel peso da autoridade, das obrigações, das normas e dos hàbitos que a tornam eficaz. [....]

[....] Pois no momento mesmo que as normas, as tradições, as Competências e os Deveres seriam Escrupulosamente Respeitados, mesmo quando essas Obrigações seriam Interiorizadas de maneira tão Perfeita por Todos os atores que o grito " À l'attaque ! " pareceria sò encarar nada mais que a pura energia irracional do comandante que o grita, é preciso saber que o ataque lançado em virtude dessa decisão corre o risco de ser DERROTADO na brecha por um Inimigo Vigilante e Bem ARMADO. Tomar uma decisão não é suficiente; é preciso também que ela seja Boa.
Curiosamente, a dificuldade notàvel de tomar a boa decisão, ao invés de inspirar uma humildade nas pessoas como Foucault ou Veyne, lhes conduz a exaltar o lado arbitràrio da decisão. Verdadeiro, o mestre das estratégias, Clausewitz, fala da fricção que afeta a execução da ação dos Planos Militares, senão mesmo da neblina da batalha.Mas evidentemente Clausewitz não quer dizer que na medida em que elas são confrontadas ao desconhecido todas as decisões são vàlidas, mas que o melhor plano de ação e as melhores decisões que os colocam em pràtica vão sempre de encontro a um real imprevisìvel, gerador de resistência e de efeitos perversos.

È por isso que uma sociedade de vida, como você ressalta com muita justeza, não é uma sociedade de pensamento. A perda de uma batalha não equivale à perda de um debate. E é sem dùvida a causa do imenso interesse das batalhas que, na profissão guerreira, a verdade - geral e particular - é mais necessària do que todas as outras. O guerreiro deve conhecer as leis da estratégia, as leis da tàtica, a natureza do terreno, a quantidade e a moral de suas forças, e na medida do possìvel a força e as intenções do adversàrio. Ele deve imaginar um plano de ação eficaz, adapta-lo a cada circunstância nova, e modifica-lo Totalmente se o Imprevisìvel, a Resistência e os Efeitos perversos o Tornam Inaplicàvel.

Como na Guerra, a Ação Polìtica tem como Cibla os Homens. Por essa razão, a Polìtica, como a Guerra, agem na Neblina, se enrolam na fricção, encontram Obstàculos Imprevisìveis e gera Efeitos Perversos. O Càlculo Polìtico precisa então de verdades a um Nìvel que é simplesmente Impensàvel no Nìvel dos Debates Intelectuais. Nòs diremos que os grandes Gênios da Ação dominam as situações impondo-lhes sua Vontade ? Toda vontade do mundo é Impotente se ela não se apoia em uma Anàlise EXATA da Situação, ANÀLISE que deve Compreender, "en sus" de informações ditas Objetivas, a Avaliação Correta dos Comportamentos humanos provàveis. A marca do gênio é a Rapidez e a Correção dessa Anàlise, e não a ùnica força de vontade. para se convencer disso, basta comparar a conduta de Napoleão em Austerlitz com a de Staline no momento da Coletivisação da Agricultura soviética. È melhor dizer que a PRUDÊNCIA, a Phronésis Aristotélicienne, é a maior consumidora de verdades do mundo.



Os homens são seres duros para comandar, ao mesmo tempo passivos e rebeldes, sinceros e malandros, previsìveis e decepcionante. A Ação Polìtica, que se propõe de regular o Movimento deles, corre o Risco de Provocar as Piores Decepções, e os Piores Danos, se ela não INCLUIR ANTECIPADAMENTE nos seus CÀLCULOS, tanto no nìvel dos Projetos que no nìvel da Aplicação, a Força das Coisas, que é apenas a Força de Inadequação da Coisa Humana. [.....]


[.....] O Dominio da Polìtica Moderna, em outras palavras, é o COMPORTAMENTO e não a Virtude. [....]
Bien amicalement.

Thomas Pavel.


- Philophie du jugement politique - Débats avec Vincent Descombes - Thomas Pavel - Lettre à Vincent Descombes - pàgina 49

- Essais - Points.


Vincent Descombes


Diretor de estudos na Escola de altos estudos em ciências sociais. Ele publicou Philosophie par gros temps ( Minuit, 1989), Les Institutions du sens ( Minuit, 1996), Le Complément du sujet ( Gallimard, 2004) e Le Raisonnement de l'ours et autres essais de philosophie pratique ( Seuil, 2007).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Corrupção da elite - 1 -

Não é a primeira vez, é pelo menos a terceira vez que a oligarquia se reforma em nosso paìs e se organiza. Sempre os poderes se reconstituem, pela pròpria função deles. Um rico banqueiro tem mais importância na vida pùblica do que um homem pobre que trabalha com suas pròprias mãos; nenhuma constituição pode lutar contra isso. Da mesma maneira vocês não impedirão que o alto comandamento das Forças Armadas se recrute ele mesmo, e elimine aqueles que permaneceram plebeus. Enfim nos escritòrios nòs vemos que as mesmas forças agissem. Procurem entre os poderosos diretores, vocês não encontrarão nenhum que não sejam parentes ou Aliados do alto banco, ou da Aristocracia Militar, e vocês não encontrarão sem dùvida nenhum que não tenha dado garantias à oligarquia. Enfim, se nòs queremos participar ao Poder, é preciso, de qualquer maneira, venerar os poderes, quer dizer fazer favores, entrar no grande jogo, dar garantias.
Eu conheço um sub-diretor que ficarà sem dùvida no segundo plano. Homem de Ciência Profunda e Trabalho Obstinado; mas nòs adivinharemos nele essa espécie de Entusiasmo que nòs chamamos a LIBERDADE de JULGAMENTO; e Isso Custa CARO. E assim se forma uma Corte, mesmo sem rei. È muito natural que aqueles que sacrificaram para a Ambição o Amor da Liberdade por Eles mesmos não se Preucupe de maneira alguma da Liberdade dos Outros. Eles não Pensam Jamais Nisso; eles sò pensam no POder. E esse Poder, que eles esperam de um lado, eles Nunca o acham Suficientemente Forte. Um "chambellan" não julgarà jamais que o Poder do Rei é muito Absoluto, pois ele o Considera Absoluto; então ele não tem nada a Perder, e ele Tem Tudo a Ganhar, se o ARBITRÀRIO se ESTENDE e se O CONTROLE se RELAXA.
Nòs dizemos que os Cargos são distribuìdos em função do MÈRITO, e Isso Não é Inteiramente Falso. Simplesmente, para esse TRABALHO fàcil, e apenas longo de COMPREENDER, que é o TRABALHO Administrativo, nòs temos Homens de MÈRITO Bem Mais do que é preciso e Equivalentes.
Qual é a Diferença que vocês encontrarão para as Finanças, entre o primeiro e o que està no "vingtième" lugar da escola Polytechnique, se todos dois se aplicam na vida Profissional ? O que permitirà a Escolha ? Um casamento rico, Poderosas Alianças, Amigos Influentes, a Arte da Intriga, a Arte da Lisonja, a Arte da Habilidade. Por isso, para falar a linguagem popular, que é sem nuanças, na maioria dos casos o Mais Reacionàrio dos dois serà Preferido. Em todos os lugares o jacobin , homem de princìpios, e inflexivel, é temìvel, mesmo o jacobin que tornou-se ministro; pois qualquer pessoa que é Chefe precisa de instrumentos Dòceis, Sobretudo que parecem Dòceis. Assim o Ambicioso e o Intrigante sem Escrùpulos Avançam em Todos os Ventos; o Homem de Princìpios Permanece nos Cargos Subalternos. Assim é Exercido em torno do Poder uma espécie de grupamentos moleculares e finalmente uma cristalização quase impossìvel a dissolver. O mal aumenta com os anos, e segundo uma marcha acelerada, pois a oligarquia escolhe cada vez melhor na medida em que ela é mais forte. O ELEITOR QUE PERDE SUA CORAGEM e SUAS ESPERANCAS é UM HOMEM QUE NÃO MEDIU CORRETAMENTE ESSAS FORCAS.

- 3 juin 1914 -
- Alain - Propos sur les pouvoirs -

A Bìblia Hébraïque - Os dez mandamentos

" Você não matarà "

E foi durante o terceiro dia, quando era de manhã, teve trovoadas e relâmpagos, e uma nuvem espessa na montanha, e um som de trompa muito intenso. O povo inteiro se estarreceu no campo, Moïse fez sair o povo do campo para encontrar Deus, e eles pararam embaixo da montanha. E a montanha de Sinaï estava inteiramente envolta de fumaça, porque o Senhor desceu no meio do fogo; sua fumaça subia como a fumaça de um forno, e a montanha inteira tremia violentamente. O som da trompa tornava-se sempre mais potente. Moïse falava e o Eterno lhe respondia pela voz. E o Senhor desceu no mont Sinaï, no cume da montanha. E Deus chamou Moïse. Moïse subiu, e o Senhor disse a Moïse: "Desça, avise o povo por medo que eles se precipitem em direção do Senhor para ver, e muitos deles morreriam. E também, que os pontìficios que se aproximam do Senhor se santifiquem, por medo que o Senhor faça uma brecha. "Moïse disse ao Senhor. "O povo não poderà subir no mont Sinaï, porque você nos avisou dizendo: "Delimite a montanha e declare-a santa ! " O Senhor lhe disse: "Va, desça, depois você subirà, você e Aaron com você, e os padres; quanto ao povo, que ele não se precipite para subir em direção do Senhor, por medo que ele faça uma brecha. "Moïse desceu novamente em direção do povo, e disse para eles:"E Deus pronunciou todas essas palavras, dizendo:
[1] Eu sou o Eterno, teu Deus, que te fez sair do paìs do Egito, de uma casa de escravos.
[2] Você não terà outros deuses diante minha face. Você não farà fetiches ou imagens que sejam nos céus acima, que sejam na terra embaixo. Você não se prosternarà diante delas, você não as servirà, pois eu, eu sou o Senhor teu Deus, Deus exclusivo prosseguindo a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração, para aqueles que me odeiam. E quem exerce a compaixão até a milliéme, para aqueles que me amam e conservam meus mandamentos.
[3] Você não invocarà de maneira alguma o nome do Senhor teu Deus em vão, pois Deus não absolve aquele que invoca seu nome em vão
[4] Lembre-se do dia do Chabbat para santifica-lo. Durante seis dias você trabalharà, e você farà toda a sua obra. E no sétimo dia, Chabbat para o Senhor teu Deus: você não farà nenhum trabalho, você, seu filho e sua filha, teu servidor e tua servidora seu animal, e o estrangeiro que està nas suas portas. Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo que se encontra neles, e ele se repousou no sétimo dia; por isso o Senhor abençoa o dia do Chabbat e o santifica.
[5] Honre seu pai e sua mãe, afim que teus dias se prolonguem na terra que o Senhor teu Deus te deu a você.
[6] Você não cometerà o homicìdio
[7] Você não cometerà o adultério
[8] Você não roubarà
[9] Você não farà de maneira alguma um depoimento falso contra teu pròximo.[
10] Não cobiçe a casa de teu pròximo; não cobiçe a mulher de teu pròximo, seu servidor e sua servidora, seu boi e seu burro, e tudo o que é a seu pròximo

- Exode (XIX, 16-25, XX, 14 ).

Traduction Originale.


Os dez mandamentos

Moïse recebendo de Deus as tables da Lei: se tem uma passagem da Bìblia que todo mundo conhece, nenhuma dùvida que é essa, o dom das dez Palavras, muitas vezes traduzidas por "mandamentos". Ela coloca em cena essa experiência incrìvel onde Deus se dirige diretamente a um povo inteiro apenas saìdo da difìcil libertação de uma primeira escravidão.
A importância da liberação do Egito é significada de maneira forte pois ela é evocada desde a primeira "palavra", a do Deus libertador, e que essa palavra, se ela não tem aparentemente nada de um mandamento, ela é a que dà um sentido aos outros.
È a esse tìtulo que esse texto, situado no capìtulo XX do livro do Exode, o segundo da Bìblia hébraïque, é fundador par excellence, portador dos Valores Universais, aqueles mesmos que Abraham jà havia unificado no nìvel da familia - Nòs ressaltaremos que é no deserto e não no territòrio que Deus vai dar essa Lei, a Torah, destinada a tornar-se a constituição do povo judeu.


Liberdade messianique

A excepcional singularidade desse dom, todavia, é que ele não pode se trocar nem se cansar, mas é permitido a cada um de compreedê-lo na medida de sua capacidade de escuta. È por isso, que se dirigindo a uma coletividade, Deus fala no singular, para cada pessoa presente e futura. Do que ele fala ? Primeiro dessa dinâmica de liberdade messianique no seu princìpio, a partir da qual o indivìduo pode ele mesmo considerar todos os casos de figuras de liberação do homem, que ela seja coletiva ou individual. È preciso então se proibir os "deuses outros", quer dizer os falsos absolutos que negam o que o primeiro declara - a LIBERDADE - e que sò mostram fetiches ou imagens.O quarto mandamento é sobre o Chabbat, termo que significa "a parada de todo trabalho". O sétimo dia é colocado em relação com a Criação ( Genése ) e lembra que Deus parou de organizar o mundo no sétimo dia. Para acentuar a necessidade de quebrar a Força Alienante dos Hàbitos, o Chabbat obriga a Tornar essa Liberdade Justa, Universalizando sua Reconstituição no Diàlogo e o Respeito dos parentes permite o elo entre as gerações, por isso a injunção de "honrar" traduz mal o hebreu cavod, que significa "pesado". Honra-los, é dar suficientemente de peso a història deles para não ter que repeti-la, colocando-os como responsàveis do que eles fazem.

Justiça social

È interessante de notar o tempo utilizado para os cinco ùltimos mandamentos: o Futuro, pois o interesse é Outrem, aquele de quem "eu" respondo e aquele perante o qual "eu" respondo. Assim, "cada rosto é um Sinaï que proìbe o ASSASSINATO". Mas os mandamentos devem também se compreender no sentido mais Amplo. Em "Você Não Matarà", nòs podemos entender: "Justiça Social", como escreveu o filòsofo Emmanuel Levinas nas suas Leçons talmudiques. Da mesma maneira, o adultério não reconsidera apenas a relação entre os esposos mas a Aliança do Sinaï, a revelação de Deus a todo seu povo, considerada como um casamento.
Se o Falso Depoimento faz o objeto de um mandamento, é porque ele Corrompe o Direito na sua Fonte pois ele Provoca sempre o Perigo de Condenar um Inocente. Para concluir, as trangressões mais banais são também relativas às ùltimas proibições: a de ROUBAR e de Cobiçar os BENS ou as PESSOAS. Esse texto, Essencial, mostra também que religião é inseparàvel da MORAL: a Primeira Palavra dos dez mandamentos: "Eu", conduz à ùltima Palavra : "Seu Pròximo ".

- J.C. -