quarta-feira, 14 de maio de 2008

O genial Galileu Galilei

Nasceu em Pisa em 15 de Fevereiro de 1564 e morreu em Florença a 8 de Janeiro de 1642 com cerca de 78 anos.

Quando os amigos e seguidores de Galileu quiseram erigir um monumento sobre o seu túmulo, Urbano VII disse ao embaixador da Toscana que seria um mau exemplo para o mundo, uma vez que o morto “tinha dado origem ao maior escândalo de toda a cristandade”.

O heliocentrismo

Os autores medievais defendiam que a Terra era redonda, aliás a ideia era muito antiga e Magalhães partira de Sanlúcar de Barrameda em 20 de Setembro de 1519 para a viagem de circumnavegação do globo com cinco navios, tendo uma das naus completado o trajecto, chegando a Sevilha em 6 de Setembro de 1522 fornecendo a prova final se alguma prova faltava.

Dizia Magalhães: “A Igreja diz que a Terra é achatada, mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra na Lua, e tenho mais fé numa sombra do que na igreja”.

Cláudio Ptolomeu de Alexandria, no século II da era cristã, formulou no “Almagesto” sua teoria de que: a Terra se apresentava imóvel e rodeada de esferas transparentes de cristal que giravam a sua volta e a que se subordinavam o Sol e os planetas.

Ptolomeu relacionou as estrelas, registrou seus brilhos, estabeleceu normas de previsão de eclipses, tentou descrever o movimento dos planetas contra o fundo praticamente imóvel das constelações, acreditou que a Terra fosse o centro do universo e que todos os corpos celestes a rodeavam.

Esta teoria foi adoptada por S. Tomás de Aquino no século XIII, e esta concepção do cosmos foi seguida até ao século XVI.

A Igreja, aceitava o geocentrismo como fora estruturado por Aristóteles e Ptolomeu. Esse sistema cosmológico ensinava que a Terra estava parada no centro do universo e os outros corpos orbitavam em círculos concêntricos ao seu redor.

A Igreja Católica aceitava o modelo porque se adequava com a observação directa do firmamento e com os textos das escrituras.

Essa visão geocêntrica tradicional foi abalada por Nicolau Copérnico, que em 1514 começou a divulgar um modelo matemático em que a Terra e os outros corpos celestes giravam ao redor do Sol, tese que ficou conhecida como heliocentrismo.

Ptolomeu já havia considerado a possibilidade de um modelo heliocêntrico, porém o rejeitou devido às teorias de Aristóteles, segundo as quais a Terra não poderia ter uma rotação violenta.

Aliás Aristóteles afirmava que se a terra se movesse um objecto lançado do cimo de um mastro nunca podia cair no seu sopé.

A teoria era de facto muito revolucionária, tanto que Copérnico deixou escrito: “quando dediquei algum tempo à ideia, o meu receio de ser desprezado pela sua novidade e o aparente contra-senso, quase me fez largar a obra feita”.

Refere Martinho Lutero a propósito das ideias de Copérnico: fala-se para aí de uma novo astrónomo que quer provar que a terra se move e anda à volta em vez do céu, o sol e a lua, como se alguém que se movesse numa carruagem ou navio pretendesse que estava imóvel, enquanto a terra e as árvores se moviam. Mas é assim que tudo vai nos nossos dias: quando um homem quer parecer inteligente é preciso que invente qualquer coisa de especial, e o modo como o consegue deve parecer o melhor! O louco quer virar toda a arte da astronomia da cabeça para os pés. E no entanto como nos dizem as sagradas escrituras foi Josué quem mandou parar o sol e não a terra.

O percurso de Galileu

Se existe uma figura da ciência bem disposta, mulherenga e que adorava os prazeres de uma mesa bem regada, essa figura era por certo Galileu Galilei.

Acresce que aliava uma impressionante inteligência e originalidade a um discurso brilhante, possuía uma personalidade muito irreverente e tinha alcunha do “brigão”. Não obstante, no decurso da vida granjeou muitas simpatias e apoios, tanto de religiosos, incluindo o Cardeal Maffeo Barberini futuro papa Urbano VIII como do meio académico: Só um impacto inevitavelmente destrutivo com a ciência oficial, num mundo institucional em rotura e conflito com as tendências protestantes inverteria a situação, e empurraram o génio para um julgamento que acabou por ser o maior foguetório publicitário de uma tese que a igreja pretendia sufocar.

Galileu saiu da universidade com 21 anos sem diploma, porém passados 4 anos mercê da sua fama foi convidado para orientar a cadeira de matemática da Universidade de Pisa.

Pisa

Em 1589, com o apoio de Guidobaldo del Monte, matemático e admirador da sua obra, Galileu é admitido para leccionar matemática na Universidade de Pisa. Inicia aí o estudo do movimento do pêndulo tendo determinado que o seu período não depende da massa, mas apenas do comprimento do fio. Foi o primeiro a pensar que este fenómeno permitiria fazer relógios muito mais precisos. Também em Pisa realizou as suas famosas experiências de queda de corpos em planos inclinados. Nestas demonstra que a velocidade de caída não depende do peso. Em 1590 publica o pequeno tratado “De motu”, sobre o movimento dos corpos materiais.

Pádua

Em 1592, ainda devido à influência de Guidobaldo del Monte, consegue a cátedra de matemática na Universidade de Pádua, onde passaria os 18 anos seguintes. Nesta universidade ensinou geometria, mecânica e astronomia. Por volta do ano 1597 dedica-se ao estudo de instrumentos de medida, inventa o chamado termómetro de Galileu e aperfeiçoa um compasso para uso militar.

Neste período Galileu fez descobertas importantes, das quais se destacam as melhorias significativas do telescópio refractor e a sua utilização em astronomia.

Tendo conhecimento da construção do primeiro telescópio, na Holanda a partir de um esboço construiu os seus próprios modelos que foi melhorando até conseguir os melhores telescópios do seu tempo. Ele utiliza o telescópio sobretudo para fazer observações astronómicas e descobre assim que a Via Láctea é composta de incontáveis estrelas, descobre ainda os satélites de Júpiter, as montanhas e crateras da Lua. Todas essas descobertas foram publicadas no livro “Mensageiro das estrelas” em 1610 com apenas 32 anos.

Foi a observação dos satélites de Júpiter, que o levaram definitivamente a defender o sistema heliocêntrico de Copérnico.

O impacto das descobertas astronómicas de Galileu foi imediato, devido à publicação do “Mensageiro das Estrelas”, com o nome latino de Sidereus Nuncius.

Foi nomeado matemático e filósofo do Grão-Duque. Nas suas observações estuda as fases de Vénus, que utiliza como uma prova mais do sistema heliocêntrico.

Em 1611 foi convocado a Roma onde apresentou as suas descobertas ao Colégio Romano dos Jesuítas, onde se encontrava o futuro Papa Urbano VIII e o cardeal Roberto Bellarmino, que reconhece as suas descobertas. No mesmo ano acede à Academia dei Lincei um grupo de investigação heterodoxo e vanguardista.

Abandona então Pádua e vai viver para Florença. Em 1614 estuda métodos para determinar o peso do ar, descobrindo que pesa pouco, mas não zero como se pensava até então.

Entre 1613 e 1615 escreve as famosas cartas copérnicas dirigidas a Benedetto Castelli, Pietro Dini e Cristina di Lorena. Nestas cartas Galileu descreve as suas ideias inovadoras, que geram muito escândalo nos meios conservadores, em que circulam apesar de nunca ter sido publicadas. As passagens mais polémicas são aquelas em que transcreve alguns passos das Escrituras que deviam ser interpretados à luz do sistema heliocêntrico, para o qual Galileu não tinha ainda provas científicas totalmente conclusivas.

Inquirido pela inquisição diz o padre Cassini sobre Galileu: que ouviu que este afirmava que Deus não é substância mas contingência, seja, que ri e que chora como qualquer humano, e que os milagres dos Santos não são verdadeiros milagres, e por fim, que sustentava a estabilidade do sol e o movimento da terra, por querer interpretar as Sagradas Escrituras contra o senso comum dos santos padres.

Galileu teve em 1616 oportunidade de defender as suas ideias perante o Tribunal do Santo Ofício dirigido por Roberto Bellarmino, que decidiu não haver provas suficientes para concluir que a Terra se movia e que por isso admoestou Galileu a abandonar a teoria heliocêntrica excepto como ferramenta matemática conveniente para descrever o movimento dos corpos celestes.

Como Galileu persistisse nas suas ideias foi então proibido de as divulgar. O Tribunal do Santo Ofício pronunciou-se então pela primeira vez sobre a Teoria Heliocêntrica, publicando o celebre decreto de 1616, declarando que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do Universo era herética e que a de que a terra se move estava “teologicamente” errada.

O livro de Copérnico e outros sobre o mesmo tema, foi incluído no índice de livros proibidos.

Foi proibido falar do heliocentrismo como realidade física, mas era permitido referir-se a este como hipótese matemática, considerando a necessidade de explicar fenómenos que não se encaixavam nos esquemas de Arquimedes e Ptolomeu.

Apesar das admoestações, encorajado pela entrada em funções em 1623 do novo Papa Urbano VIII, seu amigo pessoal e um espírito mais progressivo e interessado nas ciências do que o seu predecessor, publicou nesse mesmo ano o “O Analisador” que lhe foi dedicado.

O novo livro destinava-se à física aristotélica e a estabelecer a matemática como fundamento das ciências exactas. Nele coloca em causa muitas ideias de Aristóteles sobre movimento, entre elas a de que os corpos pesados caem mais rápido que os leves.

O livro também dava resposta ao modelo defendido pelo jesuíta Orazio Grassi segundo o qual a Terra estava fixa no centro do Universo, mas os planetas e outros astros giravam em torno do Sol, que por sua vez girava em torno da Terra.

A acção de Urbano VIII

Urbano VIII que tinha sido testemunha de defesa de Galileu no processo de 1616 contra o modelo Heliocêntrico sentiu o peso esmagador da cúria, não teve coragem de recuar e manteve o decreto condenatório.

Para evitar um confronto com Galileu que ganhava um crescente prestigio no mundo académico, recebeu o cientista no Vaticano em seis audiências, oferecendo-lhe honrarias, dinheiro e recomendações.

Para contornar a situação, encoraja Galileu a continuar os seus estudos sobre o tema heliocêntrico, mas sempre como de uma hipótese matemática útil, porque simplificava os cálculos das órbitas dos astros.

Em 1618 tinha iniciado a guerra dos 30 anos, a guerra da contra-reforma entre Católicos e Luteranos, uma guerra que mergulhou toda a Europa num esforço para se contarem lanças onde o rigor ideológico tinha um papel fundamental.

É neste contexto confuso e socialmente pervertido que Galileu escreve o “Diálogo sobre os dois grandes sistemas do universo” completado em 1630 e publicado em 1632, onde voltou a defender o sistema heliocêntrico e a utilizar como prova, a sua teoria das marés, embora incorrecta.

É um diálogo entre três personagens, Salviati, que defende o heliocentrismo, Simplício, que defende o geocentrismo e é um pouco tonto e Sagredo um personagem neutro, mas que termina por concordar com Salviati.

Esta obra foi fulcral no processo da Inquisição contra Galileu. O Papa tinha sugerido a Galileu que escrevesse um livro em que os dois pontos de vista, o heliocentrimo e o geocentrismo fossem defendidos em igualdade de condições e onde desenvolveria as suas opiniões pessoais, aceitando por principio imprimi-lo.

Em 1630 terminada a obra, Galileu viaja a Roma para apresentá-la pessoalmente ao Papa. Este estava muito ocupado com a reforma protestante, o clima internacional era muito bravio e contrário à unidade da igreja, fez uma leitura breve e entrega o livro aos censores do Vaticano para avaliarem se não violava o decreto de 1616.

Os censores eram criaturas ignorantes sobre o tema, bisonhas e enfeudadas a catecismos, incapazes de produzir qualquer opinião crítica pelo que foram adiando a apreciação.

Galileu aproveitando a confusão e ignorância do colégio censório, conseguiu a “concessão do Imprimitur”, e publicou a obra em 1632, com pequenas alterações do texto, onde acentuava ser a teoria coperniana uma hipótese matemática.

O Processo final

Quando Urbano VIII fez uma leitura cuidada concluiu que a teoria coperniana não era apresentada como uma hipótese, mas pelo contrário toda a obra tratava de demonstrar a sua efectiva realidade. Para cúmulo, Galileu punha na boca do tolo Simplício palavras do próprio Papa, apresentando-as como a opinião de uma “pessoa erudita e eminentíssima”. O Papa logo suspeitou que a personagem do pacóvio era uma caricatura dele próprio, e sentiu-se traído.

Galileu perdeu assim o mais poderoso dos seus aliados. Galileu era um cristão fervoroso, mas e como já se referiu tinha um temperamento conflituoso e viveu numa época atribulada na qual a Igreja Católica endurecia a sua doutrina para fazer frente à reforma protestante.

O Papa sentiu que a aceitação do modelo Heliocêntrico como mera ferramenta tinha sido ultrapassada e convocou Galileu com quase 70 anos a Roma, para ser julgado, apesar de este se encontrar bastante doente.

Disseram ao papa que Galileu se encontrava em grandes dificuldades físicas ao que este respondeu “que viesse de liteira com toda a comodidade”.

Mudaram-se os tempos e o Grão-Duque de Florença protector de Galileu nada pode fazer para impedir a sua presença em Roma.

Galileu consegue ainda autorização do inquisidor de Florença para várias prorrogações mediante a apresentação de inúmeros atestados médicos, mas a pressão do papado é muito forte e é obrigado a partir para Roma a 20 de Janeiro de 1633.

Galileu chegou a Roma a 13 de Fevereiro de 1633 após uma atribulada viagem devido à peste que grassava na região.

Conseguiu subtrair-se às celas da inquisição e fica instalado na casa do embaixador de Florença, o que demonstra o temor que a própria Igreja tinha do processo considerando o seu enorme prestígio académico em todo o mundo dito civilizado.

Quando em 12 de Abril de 1633 se apresenta ao tribunal do santo ofício fica alojado nos aposentos do Ministério Público, na altura designado por fiscal.

Em julgamento Galileu é confrontado com o decreto proibicionista de 1616 que lhe foi notificado e determinava que as opiniões de Copérnico não se podiam sustentar ou defender.

O julgamento foi longo e atribulado, Galileu defendeu-se de forma sagaz argumentando que a teoria de Copérnico servia apenas para explicar o inexplicável na teoria geocêntrica, funcionando como mera hipótese matemática, mas a cáfila dominicana e jesuítica exigiu uma condenação, um exemplo.

Os historiadores afirmam contudo que a igreja receosa negociou com o Grão-Ducado da Toscânia a sentença, uma sentença branda e a sequência dos acontecimentos parecem dar razão a esta tese.

No dia 22 de Junho de 1633 um homem de 70 anos, um cientista genial e universalmente conhecido, é conduzido para a leitura da sentença, em cima da mula da inquisição com as vestes brancas de penitente, até ao grupo de carcomidos cardeais, que na grande sala do convento dominicano de Santa Maria no centro de Roma, formam o tribunal do Santo Ofício.

No abstruso julgamento, é ditada a sentença. Sendo que tu Galileu, filho de Vincenzo Galilei, florentino, da idade de 70 anos, foste denunciado neste Santo Ofício, por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, de que o sol é o centro do mundo e está imóvel, e que a terra se move. Tens disciplos aos quais ensinavas a mesma doutrina, tiveste correspondência com matemáticos da Germânia e destes à estampa algumas cartas intituladas “as manchas solares” nas quais apresentavas a mesma doutrina como verdadeira; às objecções que então te foram feitas, tiradas das Sagradas Escrituras respondeste glosando à tua maneira.

Por fim, no ano findo, lançaste um livro “diálogo dos sistemas Ptolemaico e Coperniano” e com a impressão de tal livro mais se espalhou a falsa opinião “do movimento da Terra e da estabilidade do Sol.

Galileu envergando a humilhante camisa branca dos penitentes teve de escutar imóvel, ajoelhado, a longa sentença. Considerando que Galileu não foi completamente sincero ao abjurar das falsas doutrinas, o tribunal invocando o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua glorissima Mãe sempre Virgem Maria, sentenciou-o: a cárcere formal no Santo Ofício, a arbítrio da congregação, e como sentença salutar, dizer durante três anos uma vez por semana os sete Salmos da penitência.

Por édito público foi ordenado a proibição do livro dos “diálogos”. Em 22 de Junho de 1633 o Sacro Tribunal da Inquisição havia portanto decidido que a terra estava imóvel, que era o centro do universo, a igreja de Roma o centro da terra e o Vaticano o centro da igreja. Estava assim decidido e firmado por sentença teológica a verdade astronómica e sociológica.

A prisão de Galileu tornou-se o grande exemplo da “luta entre fé e ciência”. Os livros de Galileu foram incluídos no Índex, censurados e proibidos, mas foram publicados nos Países Baixos, onde o protestantismo tinha já substituído o catolicismo.

Reza a lenda que, ao sair do tribunal após sua condenação, disse uma frase célebre: “Eppur si muove!”, ou seja, “contudo, ela se move”, referindo-se à Terra.

Antecipando as consequências o Papa comuta-lhe dois dias depois a pena de prisão passando ao confinamento, primeiro no Palácio do Embaixador do Grão-duque da Toscana em Roma, depois na casa do arcebispo Piccolomini em Sena e mais tarde na sua própria casa de campo em Arcetri.

Em 1638 quando já estava completamente cego publicou na Holanda “Discorsi e Dimostrazioni Matematiche Intorno a Due Nuove Scienze em Leiden”, a sua obra mais importante. Nela discute as leis do movimento e a estrutura da matéria.

Galileo Galilei morre em Arcetri rodeado pela sua filha Maria Celeste e os seus descipulos. É enterrado na Basílica de Santa Croce em Florença, onde também se encontram Machiavelli e Michelangelo.

No decorrer dos séculos a Igreja vai rever as suas posições no confronto com Galileu. Em 1846 são removidas todas as obras que apoiam o sistema coperniano da versão revista do Índex. Em 1992, mais de três séculos passados da sua condenação, é iniciada a revisão do seu processo que decide pela sua absolvição em 1999.

Mas a questão não está completamente digerida, em 1990 O actual Papa, o Cardeal Ratzinger citou Feyerabend para dizer que “a igreja foi muito mais fiel à razão que o próprio Galileu”, e também considerou as consequências negativas éticas e sociais da doutrina de Galileu.

Acrescentou que o veredicto da Inquisição contra Galileu foi racional e justo. Cientificamente, Galileu devia ter esperado por mais evidências antes de defender com tanto afinco o modelo de Copérnico. Cientificamente, isso justificava que o revisor do seu primeiro trabalho lhe pedisse que apresentasse mais dados.

Diga-se porém, que não há nada de racional, científico ou sequer minimamente aceitável em torturar julgar e enclausurar Galileu pelas suas ideias.

É isto que Ratzinger e os Católicos que o defendem não referem, mas importa sublinhar, a Igreja Católica tinha o direito de discordar de Galileu mas não tinha o direito de o prender e maltratar.

Como já foi mencionado, Galileu viveu uma época atribulada. Durante a Idade Média, muitos teólogos já haviam reinterpretado as escrituras de forma relativamente livre sem que ocorresse nenhum incidente, mas depois do Concílio de Trento, o concílio da contra-reforma, iniciado por Paulo III em 1545 e que durou até 1563 a Igreja passou a considerar esse tipo de comportamento inaceitável. A tese heliocêntrica exigia, portanto, que a Igreja reinterpretasse certas passagens da bíblia exactamente no momento em que ela estava menos disposta a fazê-lo. Galileu acabou condenado e a doutrina da Igreja permaneceu por muito tempo fiel ao geocentrismo.

A importância de Galileu

Foi a persistente e corajosa cruzada de Galileu que desacreditou o sistema Aristotélico e Ptolemaico e precipitou o divórcio entre a ciência e a fé.

Seja qual for a leitura do processo, foi de facto a obsessiva e ruidosa opção de Galileu ao defender a teoria de Copérnico que fragilizou os alicerces da ciência do regime, submetido a uma exegese extremada e iniciou os alicerces da moderna ciência firmada na observação, medição e experimentação.

O grande responsável por esta “genial e corajosa rotura epistemológica” foi Galileu, inscrevendo uma linguagem eminentemente matemática em um universo que, a partir dessa época, passa a perder seus atributos míticos, mágicos, naturalistas ou teológicos.

Galileu foi o pai da ciência moderna, assim como seu grande inspirador, magistralmente uniu o raciocínio matemático à experiência.

O conhecimento antigo era elaborado através de uma abstracção teórica sobre como devia ser o mundo. As leis eram retiradas do modelo sintonizado com as elevadas exegeses teológicas, admitindo-se poderem ser discordantes das realidades observadas, considerando que o mundo é imperfeito.

Com Galileu o conhecimento começou a ser construído ao contrário, com base na observação e na experimentação.

O método científico moderno nasceu basicamente com Galileu e ajustou-se com as contribuições de Bacon e Descartes, e não esquecendo um vasto corpo de pensadores manteve-se até finais do século XIX. Einstein declarou Galileu como o pai da física moderna.

Galileu estabelece o diálogo experimental como o diálogo da razão com a realidade, do homem com a natureza e tomou como pressuposto que os fenómenos da natureza se comportavam segundo princípios que estabeleciam relações quantitativas entre eles. Os movimentos dos corpos eram determinados por relações quantitativas numericamente determinadas.

Galileu foi assim um marco não só pelas suas descobertas mas pelo processo para a construção do conhecimento científico. Se quisermos adoptar um novo conceito diria que instituiu um novo paradigma.

Notas sobre modernas concepções: Só nos finais do século XIX se começou a esboçar novas e mais arrojadas explicações da evolução da ciência negando as continuidades do processo de conhecimento, aliás o entendimento destas modernas concepções iluminam o que foi a difícil e corajosa acção dos pensadores que entraram em rotura com os conhecimentos oficiais.

No século XX, com o advento da mecânica quântica, da teoria da relatividade de Einstein e outras descobertas importantes da física, a característica mecanicista e determinista começa a ceder a uma visão mais livre e criativa.

Einstein, contrariando a objectividade pura, empregou sensibilidade e imaginação para construir as suas teorias:

Mais que uma simples descrição, a ciência deve ser a proposta de interpretação da realidade.
O método científico não deve ser dogmático, mas compreendido como a descrição e a discussão dos critérios básicos utilizados no processo de investigação científica.

Com base nessas premissas, é proposto o método hipotético-dedutivo. Enquanto o método indutivista identificava factos a serem investigados, o novo procedimento busca problemas de investigação que surgem da dúvida; uma questão que não encontra resposta no conhecimento disponível. As soluções elaboradas representam um modelo hipotético ideal, e jamais um espelho fiel da realidade.

Embora não haja lógica para o contexto de descoberta, deve haver para a validação. Popper (1975) colocou a importância de submeter as hipóteses a condições de falseabilidade através do método crítico. É imprescindível, dessa forma, à pesquisa possuir um conteúdo directamente empírico que possibilite a observação e a testagem. E, ainda, dentro da comunidade científica, a hipótese deve ser submetida a uma discussão intersubjectiva.

Na concepção contemporânea, em suma, o dogmatismo e o cientifismo da ciência moderna foram substituídos pela tentativa de se construir uma representação consciente e não-arbitrária da realidade. A produção de conhecimento passa obrigatoriamente pela investigação constante.

A única verdade absoluta oferecida pela ciência é a de que os seus produtos são passíveis de alteração.

Gaston Bachelard, que viveu entre 1884 e 1962, foi um pensador original, foi funcionário dos correios e professor de física antes de obter uma cátedra na universidade e exerceu uma enorme influência sobre os pensadores contemporâneos através do ensino na Faculdade de Letras de Dijon, de 1930 a 1940 e depois na Sorbonne.

A revolução que se produziu nas ciências fundamentais no fim do século XIX e princípios do século XX conduziu segundo Bachelard, a repensar as relações entre a razão e a experiência.

A experiência já não pode ser considerada como uma simples verificação da hipótese observada como queria o empirismo. O caminho da ciência moderna vai do racional ao real. Começa pela construção teórica abstracta e produz racionalmente uns processos experimentais.

Tal reflexão esclarece também o passado da ciência. A ciência sempre tem procedido por descontinuidades. Cada progresso é um «corte» em relação a um saber anterior que se pode revelar inteiramente ultrapassado.

Mas a herança científica é um importante legado da inovação, porque e como Gaston Bachelard preconiza, a verdadeira estratégia do corte epistemológico é a filosofia do não. O investigador é o que trabalha na rectificação do saber.

Thomas Samuel Kuhn foi um físico americano nascido em Ohio no ano de 1922 falecendo em 1996.

O seu primeiro livro foi A Revolução Coperniana, publicado em 1957. Mas foi em 1962, com a publicação do livro “Estrutura das Revoluções Científicas” que Kuhn tornou-se conhecido não mais como um intelectual voltado para a história e a filosofia da ciência.

O discurso de Kuhn é inovador, na medida em que, desvalorizando os aspectos lógico-positivistas, lógico-empiricistas, lógico-formais e racionais, que claramente encontramos no discurso popperiano, e que permitem que a ciência se explique exaustivamente pela sua lógica interna, traz para o debate, uma base sociológica até então desvalorizada e esquecida, que poderá explicar, “por que razão se comportam os cientistas muitas vezes como se estivessem mais interessados em impedir o progresso científico do que em promovê-lo; porque é que certas teorias não são aceites ao tempo da sua descoberta e só o são muito mais tarde, dando-se como que a sua redescoberta; porque razão são aceites teorias cuja obediência aos padrões estabelecidos está longe de ser evidente; porque são negadas ou rejeitadas teorias assentes em experimentação que satisfaz plenamente esses padrões”

A noção de paradigma resulta fundamental neste enfoque historicista e não é mais que uma macro teoria, um marco ou perspectiva que se aceita de forma geral por toda a comunidade científica (conjunto de cientistas que compartilham um mesmo paradigma e realizam a mesma actividade científica) e a partir do qual se realiza a actividade científica, cujo objectivo é esclarecer as possíveis falhas do paradigma ou extrair todas as suas consequências.

A ciência normal é o período durante o qual se desenvolve uma actividade científica baseada num paradigma. Esta fase ocupa a maior parte da comunidade científica, consistindo em trabalhar para mostrar ou pôr a prova a solidez do paradigma no qual se baseia.

Porém, em determinadas ocasiões, o paradigma não é capaz de resolver todos os problemas, que podem persistir ao longo de anos ou séculos inclusive, e neste caso o paradigma gradualmente é posto em cheque, e começa-se a considerar se é o marco mais adequado para a resolução de problemas ou se deve ser abandonado. Então é quando se estabelece uma crise, que ademais supõe a proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado.

Finalmente se produz um revolução científica quando um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal.

Fonte: http://loja.ocidente.eu/?p=80#more-80



sábado, 10 de maio de 2008

ALGEME-SE A LEI, SOLTEM-SE OS PRESOS!

Antes que alguém o diga, digo-o eu: só a pena não resolve o problema da criminalidade e da violência. Certo? Quanto a isso estamos de acordo e, portanto, quem pretendesse invocar o contraponto, fica dispensado dele. Arrume-se outro porque desse já cansamos. É evidente que a criminalidade e a violência têm muitas causas e precisam ser enfrentadas com um amplo conjunto de ações. Este artigo não tratará de todas nem de algumas. Abordará somente a questão da pena porque ela tem sido objeto de insistentes contestações.


É verdade, meu caro leitor. Tem gente querendo algemar, imobilizar, enjaular o Código Penal. No entanto, a punição, junto com o amor, é elemento fundamental da pedagogia necessária à formação das consciências. Seria total irresponsabilidade paterna, por exemplo, adotar um processo de educação dos filhos que exclua o aconselhamento, a supervisão de suas ações, a informação de que determinada atitude será punida de determinada forma, e a aplicação da punição, caso ocorra o comportamento vedado. Muitos dos problemas que hoje se observam nas escolas, nas ruas e nos estádios de futebol decorrem, em parte, dessa renúncia ao dever familiar de educar para o bem, para a verdade e para a harmonia social. A consciência bem formada convive de modo saudável com o erro (errar é humano), com o sentimento de culpa (natural a todo ser dotado de consciência), com o arrependimento (idem), com a expiação e com o perdão. Considerar tudo isso muito penoso e não sancionar a ultrapassagem dos limites é preparar gravíssimos acidentes de percurso. Com quase absoluta certeza: os beneficiários dessa tolerância farão vítimas entre pessoas que nada tem a ver com ela.



Não é diferente, aliás, o que a sociedade busca promover, mediante suas estruturas policiais e judiciais, em relação a todos os cidadãos. O guarda da rua, a sinaleira da esquina, o pardal da estrada, o delegado, o promotor e o juiz, são peças de um aparato instituído por todos como instrumento para prover justiça e segurança para todos.



É possível que o leitor esteja se indagando sobre qual a vertente filosófica de onde provêm as mencionadas idéias sobre a inutilidade das penas. Em bom português: qual a origem dessas tolices? Elas nascem de uma visão idílica a propósito da natureza humana. Segundo tal visão, o homem é um ser bom e generoso que se decompõe através da civilização e de institutos tão devassos quanto o direito de propriedade. A alegoria rousseauniana do &quotbon sauvage" levou Marx a muitos de seus delírios. Com esse ponto de partida, resulta lógico deduzir que o delinqüente e o criminoso são meros subprodutos da sociedade, destituídos de consciência e isentos de culpa. E caberia indagar: não deveríamos, nesse caso, soltar os presos e prender a sociedade? Não, porque tampouco a sociedade tem consciência, de vez que ela mesma também é vítima da enrascada em que a meteram desde que fomos arrancados do &quotestado de natureza&quot... Prenda-se a lei, então, porque, sem lei, voltamos à vida primitiva e nos tornaremos bons selvagens. Arre!



É muito engraçado saber que a primeira coisa que os defensores destas idéias fizeram, sempre que tomaram o poder, foi enviar multidões para o outro mundo e para a cadeia. Mas aí pode.



Dr. Percival Puggina - www.puggina.org


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dimensões da Espiritualidade


Irmãos e irmãs, gostaria de falar sobre valores espirituais definindo dois níveis de espiritualidade. Como seres humanos, nosso objetivo básico é ter uma vida feliz; todos queremos ser felizes. É natural, para nós, buscar a felicidade. Esse é nosso objetivo de vida. A razão é completamente clara: quando perdemos a esperança, o resultado é que nos tornamos deprimidos e talvez até suicidas. Portanto, nossa existência é fortemente enraizada na esperança. Embora não haja garantia de que o futuro chegará, é porque temos esperança que somos capazes de continuar vivendo. Podemos dizer que o propósito de nossa vida, nosso objetivo de vida, é a felicidade.

Seres humanos não são produzidos por máquinas. Somos mais do que apenas matéria; temos sentimento e experiência. Por essa razão, somente conforto material não é suficiente. Necessitamos algo mais profundo, o que usualmente chamo de afeição humana, ou compaixão. Com afeição humana, ou compaixão, todas as vantagens materiais que temos à nossa disposição podem ser muito construtivas e produzir bons resultados. Contudo, sem afeição humana, somente vantagens materiais não nos proporcionarão satisfação, nem produzirão qualquer medida de paz mental ou felicidade. De fato, vantagens materiais sem afeição humana podem até mesmo criar problemas adicionais. Portanto, afeição humana, ou compaixão, é a chave para a felicidade humana.

O primeiro nível da espiritualidade, para os seres humanos de todos os lugares, é a fé em uma das muitas religiões do mundo. Penso que há um importante papel para cada uma das principais religiões mundiais, mas para que elas façam uma contribuição efetiva em benefício da humanidade do lado religioso, há dois fatores importantes a serem considerados. O primeiro é que praticantes individuais das várias religiões — isto é, nós mesmos — devem praticar sinceramente. Ensinamentos religiosos devem ser uma parte integral de nossas vidas; eles não deveriam estar separados de nossas vidas. Algumas vezes, vamos a uma igreja ou um templo e rezamos uma prece, ou geramos algum tipo de sentimento espiritual e, quando saímos, nada daquele sentimento religioso permanece. Essa não é a forma adequada de praticar. A mensagem religiosa deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos da nossa religião devem estar presentes em nossas vidas de forma que, quando realmente precisamos ou pedimos bençãos ou força interior, mesmo nessas horas esses ensinamentos estarão lá; eles estarão lá quando passarmos por dificuldades porque estão constantemente presentes. Somente quando a religião torna-se uma parte integral de nossas vidas é que ela pode ser realmente efetiva.

Também precisamos experienciar mais profundamente os significados e valores espirituais de nossa própria tradição religiosa — precisamos conhecer esses ensinamentos não só a nível intelectual, mas também, de forma cada vez mais profunda, através de nossa própria experiência. Algumas vezes entendemos diferentes idéias religiosas num nível muito superficial ou intelectual. Sem um sentimento profundo, a eficácia da religião torna-se limitada. Portanto, devemos praticar sinceramente, e a religião deve tornar-se parte de nossas vidas.

O segundo fator refere-se mais à interação entre as várias religiões mundiais. Hoje, por causa da crescente mudança tecnológica e a natureza da economia mundial, estamos muito mais dependentes uns dos outros do que antes. Diferentes países e continentes tornaram-se mais intimamente associados uns com os outros. Na realidade, a sobrevivência de uma região do mundo depende da de outras. Portanto, o mundo tornou-se mais próximo, muito mais interdependente. Como conseqüência, há mais interação humana. Sob tais circunstâncias, a idéia de pluralismo entre as religiões mundiais é muito importante. Em tempos passados, quando as comunidades viviam separadas uma das outras e as religiões surgiam num relativo isolamento, a idéia que havia só uma religião era muito útil. Mas agora a situação mudou, e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Agora é crucial aceitar o fato de que existem diferentes religiões, e a fim de desenvolver verdadeiro respeito mútuo entre elas é essencial aproximar o contato entre as várias religiões. Esse é o segundo fator que possibilitará as religiões mundiais serem mais eficazes em beneficiar a humanidade.

Quando estava no Tibete, eu não tinha contato com pessoas de diferentes crenças religiosas. Assim, minha atitude em relação às outras religiões não era muito positiva. Mas, quando tive a oportunidade de encontrar pessoas de diferentes crenças e aprender com essa experiência e o contato pessoal, minha atitude para com as outras religiões mudou. Compreendi como são úteis para a humanidade e o potencial contributivo de cada uma para um mundo melhor. Há séculos, as religiões vêm dando contribuições maravilhosas para o aprimoramento dos seres humanos, e ainda hoje há um grande número de seguidores do cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo e assim por diante. Milhões de pessoas estão se beneficiando de todas essas religiões.

Para dar um exemplo do valor do encontro de diferentes crenças, meus encontros com o falecido Thomas Merton fizeram-me perceber que bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra ocasião, encontrei-me com um monge católico que viveu vários anos como eremita numa montanha bem atrás do mosteiro de Montserrat, na Espanha. Quando visitei o mosteiro, ele desceu de sua ermida especialmente para falar comigo. O fato de o inglês dele estar pior do que o meu me deu mais coragem de falar com ele! Ficamos cara a cara e perguntei, "Nesses poucos anos, o que você estava fazendo naquela montanha?" Ele olhou-me e respondeu, "Meditação na compaixão, no amor". Quando ele disse estas poucas palavras, entendi a mensagem através dos seus olhos. Realmente desenvolvi verdadeira admiração por ele e por outros como ele. Tais experiências ajudaram a confirmar na minha mente que todas as religiões do mundo têm o potencial para produzir boas pessoas, a despeito das suas diferenças de filosofia e doutrina. Cada tradição religiosa tem sua própria maravilhosa mensagem a transmitir.

Do ponto de vista do budismo, por exemplo, o conceito de um criador é ilógico. É difícil para os budistas entenderem esse conceito por causa do modo que eles analisam a causalidade. Contudo, este não é o lugar para discutir questões filosóficas. O ponto importante aqui é que para as pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais a crença básica está num criador, esta abordagem é eficaz. De acordo com essas tradições, o ser humano individual é criado por Deus. Além disso, como recentemente aprendi de um dos meus amigos cristãos, eles não aceitam a teoria do renascimento, e assim, não aceitam vidas passadas ou futuras. Acreditam somente nesta vida. Contudo, eles mantêm que esta vida é criada por Deus, pelo criador, e esta idéia desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. Seu ensinamento mais importante é que, como estamos aqui por desejo de Deus, nosso futuro depende do criador, e porque o criador é considerado supremo e sagrado, devemos amar a Deus, o criador.

O que segue-se a isso é o ensinamento que deveríamos amar nossos semelhantes — esta é a mensagem principal aqui. O raciocínio é que se amamos a Deus, devemos amar nossos semelhantes porque eles, como nós, foram criados por Deus. O futuro deles, como o nosso, depende do criador, portanto, sua situação é igual a nossa. Logo, a crença das pessoas que dizem "Ame a Deus" mas não mostram amor verdadeiro para seus semelhantes é questionável. A pessoa que acredita em Deus e no amor a Deus, deve demonstrar a sinceridade de seu amor a Deus através do amor dirigido aos semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não é?

Assim, se examinarmos cada religião por vários ângulos e da mesma maneira — não apenas da nossa posição filosófica mas de vários pontos de vista — não pode haver dúvida de que todas as grandes religiões têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isto é óbvio. Através de um contato próximo com pessoas de outras fés, é possível desenvolver uma atitude aberta e de respeito mútuo em relação a outras religiões. Proximidade com diferentes religiões ajuda-me a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos ou técnicas que posso incorporar à minha própria prática. Da mesma forma, alguns de meus irmãos e irmãs cristãos adotaram certos métodos budistas, como a prática da mente unifocada e as técnicas de desenvolvimento da tolerância, da compaixão e do amor. O benefício é enorme quando praticantes de diferentes religiões se unem para esse tipo de intercâmbio. Além de desenvolverem a harmonia entre si, ganham outras benesses.

Políticos e líderes de nações falam com freqüência em "coexistência" e "ação conjunta". Por que não nós, religiosos, também? Acho que é chegada a hora. Em Assis, em 1987, por exemplo, líderes e representantes de várias religiões mundiais se encontraram para orar juntos, embora eu não saiba ao certo se orar é a palavra exata para descrever com acuidade a prática de todas aquelas religiões. Em todo caso, o que importa é que os representantes de várias religiões se reuniram e, conforme suas próprias crenças, rezaram. Isso já está acontecendo e é, creio eu, muito positivo. No entanto, ainda precisamos fazer mais esforços para aumentar a harmonia e a proximidade entre as religiões mundiais, pois sem um tal esforço continuaremos a vivenciar todos esses problemas que dividem a humanidade. Se a religião fosse o único remédio para reduzir o conflito humano, mas se este mesmo remédio se tornasse outra forma de conflito, seria um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem conflitos em nome da religião por causa de diferenças religiosas, e acho isso muito triste. Mas, como disse antes, se pensarmos aberta e profundamente compreenderemos que a situação atual é inteiramente diferente do passado. Não estamos mais isolados, mas somos interdependentes. Hoje, portanto, é muito importante entender que um relacionamento íntimo entre as várias religiões é essencial, para que diferentes grupos religiosos possam trabalhar juntos e realizar um esforço comum para o benefício da humanidade. Assim, sinceridade e fé na prática religiosa por um lado, e tolerância e cooperação religiosa por outro, formam este primeiro nível do valor da prática espiritual para a humanidade.

O segundo nível da espiritualidade — a compaixão como religião universal — é mais importante que o primeiro porque, não importa quão maravilhosa uma religião possa ser, ainda assim ela é aceita somente por um número limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não pratica religião alguma. De acordo com o seu ambiente familiar, eles poderiam se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso — "eu sou hindu", "eu sou budista", "eu sou cristão" —, mas realmente a maioria desses indivíduos não é necessariamente praticante de nenhuma crença religiosa. Isto está correto: seguir uma religião ou não é um direito da pessoa como indivíduo. Todos os grandes mestres, como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam em tornar toda a população humana voltada para a espiritualidade. O fato é que ninguém pode fazer iss Se esses não-crentes são chamados de ateus não importa. De fato, para alguns estudiosos ocidentais os budistas também são ateístas, pois não aceitam um criador. Por isso, às vezes, ao descrever estes não-crentes, adiciono a palavra "extremo" e os chamo de não-crentes extremos. Eles não apenas são não-crentes mas também são extremos, presos ao ponto-de-vista de que a espiritualidade não tem valor. Contudo, devemos lembrar que essas pessoas também são uma parte da humanidade e também têm, como todos os seres humanos, o desejo de viver uma vida pacífica e feliz. Este é o ponto importante.

Acredito que não há problemas em permanecer não-crente, mas enquanto você fizer parte da humanidade, enquanto você for um ser humano, você precisa de afeição humana, compaixão humana. Este é realmente o ensinamento essencial de todas as tradições religiosas: o ponto crucial é a compaixão ou afeição humana. Sem afeição humana, mesmo crenças religiosas podem tornar-se destrutivas. Assim, a essência, mesmo na religião, é um bom coração. Considero que a afeição humana, ou compaixão, é a religião universal. Crente ou não-crente, todos necessitam de afeição humana e compaixão, porque compaixão nos dá força interior, esperança e paz mental. Assim, ela é indispensável para todos.

Examinemos, por exemplo, a utilidade de um bom coração na vida cotidiana. Se estamos de bom humor quando nos levantamos de manhã, com um sentimento caloroso no coração, automaticamente está aberta a nossa porta interior para aquele dia. Mesmo se uma pessoa pouco amistosa aparece, não nos perturbamos, e podemos até dizer a ela alguma coisa simpática. Mas num dia de humor menos positivo, quando nos sentimos irritados, nossa porta interior se fecha automaticamente. O resultado é que, mesmo se encontramos nosso melhor amigo, ficamos pouco à vontade e tensos. Tais situações mostram a diferença que nossa atitude interior faz nas experiências do dia-a-dia. Precisamos, pois, a fim de criar uma atmosfera agradável em nós mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades, compreender que a fonte desse bem-estar está dentro do indivíduo, dentro de cada um de nós — um bom coração, compaixão humana, amor.

Uma vez criada uma atmosfera positiva e amistosa, o medo e a insegurança automaticamente diminuem. Assim, podemos facilmente fazer mais amigos e criar mais sorrisos. Afinal de contas, somos animais sociais. Sem amizade humana, sem o sorriso humano, nossa vida torna-se miserável. O sentimento de solidão fica insuportável. É a lei natural, isto é, pela lei natural dependemos dos outros para viver. Se, sob certas circunstâncias, por algo estar errado dentro de nós, nossa atitude para com nossos semelhantes, de quem dependemos, se tornar hostil, como poderemos esperar paz de espírito e uma vida feliz? De acordo com a natureza humana básica, ou lei natural, a afeição — compaixão — é a chave da felicidade. Segundo a medicina contemporânea, um estado mental positivo, ou paz mental, também é benéfico para a saúde física. Logo, mesmo do ponto de vista de nossa saúde, paz e calma mental são cada vez mais importantes. Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia e responde à afeição humana, à humana paz de espírito.

Se olharmos para a natureza humana básica, veremos que nossa natureza é mais dócil do que agressiva. Se examinarmos vários animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica têm uma estrutura corporal correspondente, enquanto os predadores têm uma estrutura corporal desenvolvida de acordo com a natureza deles. Compare um tigre com um veado. Há uma grande diferença de estrutura física entre eles. Quando comparamos o nosso próprio corpo com os deles, vemos que somos mais parecidos com os veados e coelhos do que com os tigres. Até os nossos dentes são mais parecidos com os deles, não são? Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas são outro bom exemplo — eu não sou capaz de pegar nem um rato, só com as minhas unhas humanas. Claro, a inteligência humana nos habilita a criar ferramentas e métodos sem os quais seria difícil fazer muito do que fazemos. Como vêem, devido ao nosso estado físico, pertencemos à categoria dos animais dóceis. Acho que é nossa natureza humana fundamental que se mostra em nossa estrutura física básica.

Diante da situação global atual, a cooperação é essencial, especialmente em campos como economia e educação. O conceito de que diferenças são importantes está agora mais ou menos ultrapassado, como demonstra o movimento por uma Europa Ocidental unificada. Acho que esse movimento é verdadeiramente maravilhoso e chega em boa hora. Ainda assim, esse trabalho entre as nações não aconteceu por causa de compaixão ou fé religiosa, mas por necessidade. Há uma tendência crescente em direção da conscientização global. Nas atuais circunstâncias, um relacionamento mais íntimo com os outros tornou-se um elemento da nossa própria sobrevivência. Portanto, o conceito de responsabilidade universal baseado na compaixão e num senso de irmandade é essencial. O mundo está cheio de conflitos — por causa de ideologia, de religião ou até entre famílias — baseados em alguém querendo uma coisa e outra pessoa querendo outra coisa. Assim, se examinarmos as fontes de todos esses conflitos, descobriremos muitas fontes, muitas causas, até dentro de nós mesmos.

Nesse meio tempo, todavia, temos o potencial e a capacidade de unirmo-nos harmoniosamente. Tudo mais é relativo. Embora haja várias causas de conflito, existem ao mesmo tempo muitas causas para união e harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase na união. Também aqui, há que haver afeição humana. Por exemplo, você pode ter uma opinião ideológica ou religiosa diferente da de outra pessoa. Se você respeitar o direito da outra pessoa e mostrar sinceramente uma atitude compassiva para com ela, então não importa se a idéia dela lhe serve, isso é secundário. Enquanto a outra pessoa acreditar, enquanto puder se beneficiar de tal ponto de vista, ela estará em seu absoluto direito. Então, precisamos respeitar e aceitar o fato de que existem diferentes pontos de vista. No campo da economia dá-se o mesmo: nossos competidores devem obter algum lucro, pois eles também precisam sobreviver. Quando temos uma visão mais ampla baseada na compaixão, creio que tudo se torna mais fácil. Compaixão, mais uma vez, é o fator-chave.

Os conflitos mundiais estão hoje consideravelmente menos tensos. Felizmente, agora podemos pensar e falar seriamente sobre desmilitarização. Cinco anos atrás isso seria difícil, mas hoje a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética acabou. Aos meus amigos americanos eu sempre digo: A força de vocês não vem das armas nucleares, mas dos nobres ideais de democracia e liberdade dos seus antepassados. Quando estive nos Estados Unidos em 1991, pude encontrar o ex-presidente George Bush. Na ocasião, falávamos sobre a nova ordem mundial e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial com compaixão é ótimo. Sem compaixão, não tenho certeza.

Creio que é um bom momento para pensarmos e falarmos sobre desmilitarização. Já há sinais de redução armamentícia e, pela primeira vez, de desnuclearização. Passo a passo, vamos vendo uma diminuição de armas. Penso que nossa meta deveria ser a de livrar o mundo — nosso pequeno planeta s das armas. Isso não quer dizer, porém, que devamos abolir todo tipo de armas. Talvez seja preciso guardar algumas, pois há sempre algumas pessoas e grupos criando confusão entre nós. Por precaução, e para nos resguardarmos desses focos, poderíamos criar um sistema internacional de forças policiais monitoradas regionalmente, que não pertençam a nenhum país mas sejam controladas coletivamente e supervisionadas por uma organização internacional, como as Nações Unidas. Sem armas disponíveis, não haveria perigo de conflito militar entre as nações, nem haveria guerras civis.

A guerra continua sendo, para nossa tristeza, parte da história humana, mas acho que chegou a hora de mudar os conceitos que levam à guerra. Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que através dela podem se tornar heróis. Essa atitude comum em relação à guerra é muito errada. Um entrevistador me disse, um desses dias, que os ocidentais têm muito medo da morte, mas que os orientais a temem pouco. Eu lhe respondi, em tom de brincadeira, que para a mentalidade ocidental, a guerra e a instituição militar parecem extremamente importantes. Guerra significa morte — provocada, e não por causas naturais. Assim, são vocês, ocidentais, que não temem a morte, porque gostam tanto da guerra. Nós, orientais, principalmente nós, tibetanos, não podemos nem pensar em guerra; lutar, para nós, está fora de cogitação porque o resultado inevitável da guerra é o desastre: morte, ferimentos e miséria. Portanto, o conceito de guerra para nós é extremamente negativo. Isso quer dizer que, na realidade, temos mais medo da morte do que vocês, você não acha?

Infelizmente, alguns fatores fazem que nossas idéias sobre a guerra sejam muito incorretas. É hora, portanto, de pensar seriamente sobre desmilitarização. Eu senti isso profundamente, durante e depois da crise do Golfo Pérsico. Claro, todos culparam Sadam Hussein, e não há dúvida de que Sadam Hussein é negativo — ele errou de muitas maneiras. Afinal, ele é um ditador, e ditadores são obviamente negativos. No entanto, sem sua organização militar, sem suas armas, Hussein não seria aquele tipo de ditador. Quem lhe forneceu as armas? Os fornecedores também têm responsabilidade. Alguns países ocidentais lhe forneceram armas sem medir as conseqüências.

Pensar apenas em dinheiro, em lucrar vendendo armas, é realmente horrível. Certa vez, encontrei uma francesa que passara muitos anos em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com grande tristeza, que durante a crise em Beirute havia gente de um lado da cidade ganhando dinheiro com a venda de armas, enquanto do outro lado, no mesmo dia, havia gente inocente sendo morta pelas mesmas armas. Da mesma forma, de um lado do planeta há pessoas vivendo suntuosamente com o lucro auferido da venda de armas, enquanto pessoas inocentes morrem do outro lado do planeta, vítimas daquelas balas sofisticadas. O primeiro passo, portanto, é parar a venda de armas. às vezes eu brinco com meus amigos suecos: Vocês são mesmo maravilhosos. Mantiveram a neutralidade durante o último conflito e sempre consideram a importância dos direitos humanos e da paz mundial. ótimo. Mas, nesse meio tempo, estão vendendo muitas armas. Há uma pequena contradição aí, não há?

Assim, desde a crise do Golfo Pérsico, prometi a mim mesmo que pelo resto da minha vida contribuirei para avançar a idéia da desmilitarização. No que diz respeito ao meu país, já resolvi que, futuramente, o Tibete deverá ser uma zona totalmente desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a desmilitarização uma realidade, o fator chave é a compaixão.

Gostaria de concluir explicando melhor o significado de compaixão, que freqüentemente é mal entendido. Compaixão verdadeira não está baseada em nossas próprias projeções e expectativas, mas sim nos direitos do outro: independentemente da outra pessoa ser um amigo íntimo ou um inimigo, contanto que ela deseje paz e felicidade e deseje superar o sofrimento, então, baseado nisso, desenvolvemos respeito verdadeiro para com seus problemas. Isso é compaixão verdadeira.

Em geral, chamamos qualquer preocupação com um amigo próximo de compaixão. Isso não é compaixão, é apego. Nem casamentos duram por apego, embora o apego geralmente esteja presente. Eles duram porque também há compaixão. Se os casamentos duram pouco, é por perda de compaixão; só há apego emocional baseado em projeção e expectativa. Quando o único vínculo entre amigos íntimos é o apego, mesmo uma questão menor pode causar uma mudança nas projeções. Assim que nossa projeção muda, o apego desaparece — porque o apego estava baseado unicamente na projeção e expectativa.

É possível ter compaixão sem apego — e similarmente, ter cólera sem ódio. Portanto, precisamos esclarecer as diferenças entre compaixão e apego, e entre cólera e ódio. Tal clareza é útil em nossa vida diária e em nossos esforços para a paz mundial. Considero esses valores espirituais como básicos para a felicidade de todos os seres humanos, tanto do crente quanto do não crente.

Ensinamento dado em Melbourne, Austrália, no National Tennis Centre, em 4 de maio de 1992 e publicado em Dimensions of Spirituality, Wisdom Publicaions, 1995. Tradução de Bruno D'Avanzo do Centro de Estudos Budistas Paramitta (Curitiba - PR), em sua visita ao CEBB em julho 1996, e de José Fonseca do CEB-Bodisatva (Porto Alegre - RS)

Um Meio Ambiente Limpo é um Direito Humano

O Tibet não deve ser usado para produção de armas nucleares e despejo de lixo nuclear. Os tibetanos têm um grande respeito por todas as formas de vida. Este sentimento inerente é reforçado pela nossa fé budista, que proíbe fazer mal a qualquer ser senciente, seja humano ou animal. Antes da invasão chinesa, o Tibet era um santuário selvagem, belo, fresco e impoluto, em um meio ambiente natural único.

Infelizmente, durante as últimas poucas décadas, a vida selvagem do Tibet tem sido quase que totalmente destruída e, em muitos lugares, suas florestas sofreram danos irreparáveis. O efeito global sobre o delicado meio ambiente tibetano tem sido devastador — particularmente porque a altitude e aridez do país significam que o processo de restauração da vegetação demorará muito mais do que em regiões mais baixas e úmidas. Por este motivo, o pouco que restou deve ser protegido e esforços estão sendo feitos para reverter os efeitos da destruição perversa e temerária do meio ambiente tibetano pela China.

Ao fazer isto, a primeira prioridade será parar a produção de armamento nuclear e, ainda mais importante, evitar o despejo de lixo nuclear. Aparentemente, a China planeja não só despejar o seu próprio lixo nuclear, mas também importar lixo de outros países em troca de dinheiro. O perigo que isto representa é óbvio. Não só as gerações atuais, mas também as gerações futuras estão ameaçadas. Além disso, os problemas inevitáveis que isto traria para a região poderiam facilmente se transformar em uma catástrofe de proporções globais. Dar lixo para a China, que pode ter acesso a grandes áreas de terra pouco populosas, mas que só tem tecnologia bruta, poderia mostrar ser apenas uma solução de curto prazo para o problema.

Se eu fosse realmente votar em uma eleição, seria por um dos partidos ligados ao meio ambiente. Um dos desenvolvimentos mais positivos do mundo recentemente tem sido a crescente conscientização da importância da natureza. Não há nada de santo ou sagrado nisso. Cuidar de nosso planeta é como cuidar de nossas casas. Como nós, seres humanos, viemos da Natureza, não faz sentido irmos contra a Natureza, que é o motivo pelo qual digo que o meio ambiente não é uma questão de religião, ética, ou moralidade. Estes são luxos, já que podemos sobreviver sem eles. Mas não sobreviveremos se continuarmos agindo contra a natureza.

Precisamos aceitar isto. Se causarmos um desequilíbrio na Natureza, a humanidade sofrerá. Além disso, como pessoas vivas atualmente, precisamos levar em consideração as gerações futuras: um meio ambiente limpo é um direito humano como qualquer outro. É, portanto, parte de nossa responsabilidade para com os outros assegurar que o mundo que deixarmos para os outros seja tão saudável, se não mais saudável, quanto o que encontramos. Esta não é uma proposta tão difícil quanto parece. Pois, embora haja um limite ao que nós, como indivíduos, podemos fazer, não há limite para o que uma resposta universal possa alcançar. Depende de nós, como indivíduos, fazermos o que pudermos, por menor que seja. Só porque desligar a luz quando sairmos da sala pareça inconseqüente, isto não significa que não devemos fazê-lo.

É aqui que, como um monge budista, eu sinto que a crença no conceito do karma é bastante útil para a condução da vida cotidiana. Uma vez que você acredita na conexão entre a motivação e seus efeitos, você ficará mais alerta aos efeitos que as suas próprias ações têm sobre si mesmo e sobre os outros.

Assim, apesar da continuidade da tragédia do Tibet, eu vejo muito bem acontecendo no mundo. Fico especialmente encorajado de que a crença no consumismo como um fim em si parece estar cedendo a um reconhecimento de que nós humanos devemos conservar os recursos da terra. Isto é muito necessário. Os seres humanos são, em certo sentido, as crianças da terra. E, enquanto até agora a nossa Mãe em comum tolerou o comportamento de seus filhos, atualmente ela está nos mostrando que ela atingiu seu limite de tolerância.

Rezo para que um dia eu conseguirei carregar esta mensagem de preocupação pelo meio ambiente e por outros para o povo da China. Já que o budismo não é estranho aos chineses, acredito que conseguirei servi-los de forma prática. O predecessor do último Panchen Lama certa vez realizou uma cerimônia de iniciação de Kalachakra em Pequim. Se eu fosse fazer o mesmo, seria sem precedentes. Pois, como um monge budista, as minhas preocupações se estendem a todos os membros da família humana e, de fato, a todos os sofridos seres sencientes.

Acredito que este sofrimento seja causado pela ignorância, e que as pessoas infligem dor aos outros em busca de suas próprias felicidades ou satisfações. Mas, a verdadeira felicidade vem de um senso de paz interior e contentamento, que por sua vez devem ser alcançados cultivando-se o altruísmo, amor, compaixão, e pela eliminação da raiva, egoísmo e ganância.

Para algumas pessoas isto pode parecer ingenuidade, mas eu os lembraria que, 'não importa de qual parte do mundo viemos, fundamentalmente somos todos os seres humanos iguais. Todos nós buscamos a felicidade e tentamos evitar o sofrimento. Temos as mesmas necessidades e preocupações básicas. Além disso, todos nós seres humanos queremos a liberdade e o direito de determinar o nosso próprio destino como indivíduos. Esta é a natureza humana. As grandes mudanças acontecendo em todas as partes do mundo, desde a Europa Oriental até à África, é uma clara indicação disto.

Ao mesmo tempo, os problemas que atualmente enfrentamos — conflitos violentos, destruição da natureza, pobreza, fome, e assim por diante — são principalmente problemas criados pelos humanos. Eles podem ser solucionados — mas unicamente através do esforço humano, compreensão, e o desenvolvimento de um senso de irmandade. Para isto, precisamos cultivar uma responsabilidade universal uns pelos outros e pelo planeta que compartilhamos, baseados em um bom coração e conscientização.

Agora, embora a minha própria religião budista tenha sido útil em gerar amor e compaixão, estou convencido que estas qualidades podem ser desenvolvidas por qualquer um, com ou sem religião. Acredito, ainda, que todas as religiões buscam as mesmas metas: as de cultivar a bondade e trazer felicidade a todos os seres humanos. Embora os meios possam parecer diferentes, os fins são os mesmos.

Com o sempre crescente impacto da ciência sobre nossas vidas, a religião e a espiritualidade têm um papel maior a desempenhar em nos lembrar da humanidade. Não há contradição entre as duas. Cada uma nos dá valorosos insights sobre a outra. Tanto a ciência quanto os ensinamentos do Buda nos falam da unidade fundamental de todas as coisas.

Finalmente, gostaria de compartilhar com meus leitores uma pequena prece, que me dá grande inspiração e determinação:

Enquanto o espaço existir,
E enquanto os seres viventes perdurarem,
Possa eu também permanecer
Para afastar as misérias do mundo.

(Adaptado de um capítulo de Responsabilidade Universal e o Bom Coração do livro Liberdade no Exílio: A Autobiografia de Sua Santidade o Dalai Lama do Tibet; Hodder and Stoughton. Reino Unido, 1990. Pág. 280-299. Traduzido por Marly Ferreira.)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Ensinamentos: "Magia e Mistério" no Tibet

Freqüentemente sou perguntado sobre os aspectos assim chamados "mágicos" do budismo tibetano. Muitas pessoas no Ocidente querem saber se os livros sobre o Tibet, escritos por pessoas como Lobsang Rampa e alguns outros, onde se fala em práticas ocultas, são verdadeiros. Também me perguntam se Shambhala (um país legendário referido em certas escrituras e supostamente oculto nas regiões desérticas do norte do Tibet) realmente existe. Há também a carta que eu recebi de um eminente cientista, no início dos anos 60, dizendo que ele havia ouvido que certos lamas são capazes de realizar certos fenômenos sobrenaturais, e perguntando se ele mesmo poderia realizar experimentos para determinar a veracidade disso.

Em reposta à primeira destas questões, usualmente digo que a maioria desses livros são frutos da imaginação e que Shambhala existe sim, mas não em um sentido convencional. Ao mesmo tempo, seria errado negar que algumas práticas tântricas dão origem a fenômenos misteriosos. Por essa razão, escrevendo ao cientista, por um lado disse que o que ele havia ouvido estava correto, mas, por outro lado, tinha que lastimar o fato de que tal pessoa, sobre a qual os experimentos poderiam ser realizados, ainda não havia nascido! De fato, na época, várias razões práticas tornavam impossível colaborar em pesquisas desse tipo.

Desde então, no entanto, vim a concordar com a realização de várias investigações científicas sobre a natureza de certas práticas específicas. O primeiro desses trabalhos foi realizado pelo Dr. Herbert Benson, que é atualmente o chefe do Departamento de Medicina Comportamental de Faculdade de Medicina de Universidade de Harvard, EUA. Quando nos encontramos durante a minha visita de 1979, ele me disse que estava trabalhando na análise do que ele chama de relaxation response, um fenômeno fisiológico encontrado quando uma pessoa entra em um estado meditativo. Ele acreditava que poderia ir adiante em seu estudo se pudesse fazer experimentos com praticantes muito avançados de meditação.

Como alguém que crê fortemente no valor da ciência moderna, decidi deixá-lo ir adiante com a idéia, não sem alguma hesitação. Eu sabia que muitos tibetano não gostavam muito dessa idéia, eles sentiam que o acesso a essas práticas deveria ser mantido restrito, uma vez que elas vêm de doutrinas secretas. Por outro lado, argumentei sobre a possibilidade de que os resultados de tal estudo poderiam beneficiar não apenas a ciência, mas também os praticantes de religião, e poderiam, portanto, ser de benefício geral para a humanidade.

No evento, Dr. Benson ficou satisfeito por ter encontrado algo extraordinário. (Suas pesquisas foram publicadas em muitos livros e jornais científicos, entre os quais Nature.) Ele veio à Índia acompanhado de dois assistentes e trazendo sofisticado equipamento científico, tendo conduzido os experimentos com alguns monges em mosteiros próximos de Dharamsala, e ao norte, no Ladakh e Sikkim.

Tais monges eram praticantes de Tum-mo Yoga, excelente para demostrar a eficiência de certas disciplinas tântricas particulares. Meditando com a atenção nos chakras (centros de energia) e nos nadis (canais de energia), o praticante é capaz de controlar e suspender temporariamente a operação dos níveis mais grosseiros da consciência, podendo experienciar níveis mais sutis de consciência. Os mais grosseiros pertencem à percepção ordinária — tato, visão, olfato, e assim por diante — enquanto que os mais sutis são os experienciados no momento da morte. Um dos objetos do Tantra é capacitar o praticante a "experienciar" a morte, pois é aí, então, que surgem as experiências espirituais mais poderosas.

Quando são suprimidos os níveis mais ordinários de consciência, podem ser observados fenômenos fisiológicos colaterais. Nos experimentos do Dr. Benson, esses efeitos incluíram a acentuada elevação da temperatura do corpo (medida internamente por uma termômetro retal e externamente por um termômetro na pele). Esses acréscimos levaram os monges a secarem lençóis mergulhados em água fria e enrolados em vota deles, mesmo em temperaturas externas abaixo de zero. O Dr. Benzon também testemunhou e mediu, de forma semelhante, monges sentados nus sobre a neve. (...)

Sejam quais forem os mecanismos aqui envolvidos, o que mais interessa é a clara visão de que existem coisas que a ciência moderna pode aprender da cultura tibetana. E mais, eu acredito que muitas outras áreas de nossa experiência poderiam ser investigadas proveitosamente. Por exemplo, eu gostaria de organizar algum dia uma experiência sobre os oráculos, que permanecem uma parte importante da vida tibetana.

Antes de falar disso em detalhe, gostaria de enfatizar que o propósito dos oráculos não é, como poderíamos supor, simplesmente antever o futuro. Isto é apenas parte do que eles fazem. Além disso, eles podem ser chamados como protetores ou, em alguns casos, como agentes de cura. Sua principal função, no entanto, é auxiliar os pessoas em sua prática do Darma. Outro ponto a lembrar é que a palavra "oráculo", ela própria, conduz a enganos, uma vez que traz implícito que existem pessoas que possuem poderes de ser um oráculo. Isto é errado. Na tradição tibetana existem apenas certos homens e mulheres que atuam como médium entre os mundos natural e espiritual e que são chamados de kuten, o que significa, literalmente, "base física". Também é importante enfatizar que, embora seja de uso corrente falar do oráculo como uma pessoa, isso é feito apenas por conveniência. De modo mais acurado, eles podem ser descritos como "espíritos" que estão associados a coisas particulares (por exemplo, uma estátua), pessoas e lugares. Isso não deve, no entanto, implicar na crença da existência de entidade externas independentes.

Em tempos antigos havia muitas centenas de oráculos por todo o Tibet. Poucos se mantiveram, mas os mais importantes — os usados pelo governo tibetano — ainda existem. Desses, o principal é conhecido como oráculo de Nechung. Através dele se manifesta Dorje Drakden, uma das divindades protetoras do Dalai Lama.

Nechung veio originalmente para o Tibet com um descendente do sábio indiano Dharmapala, estabelecendo-se em um lugar da Ásia Central chamado Bata Hor. Durante o reinado do rei Trisong Dretsen, no oitavo século a.C., ele foi designado pelo mestre tântrico indiano Padmasambhava, supremo guardião espiritual do Tibet, como protetor do mosteiro de Samye. Subseqüentemente, o segundo Dalai Lama desenvolveu uma relação muito próxima com Nechung, que nessa época havia estabelecida uma relação muito próxima com o monastério de Drepung, e após, Dorje Drakden designado com protetor pessoal dos Dalai Lamas que se sucederam.

Por centenas de anos até os dias presentes, tornou-se tradicional, para o Dalai Lama e para o governo tibetano, consultar Nechung durante os festivais de ano novo. Mas além dessas oportunidades, ele poderia ser chamado outras vezes para responder perguntas específicas. Eu mesmo o encontro muitas vezes por ano. Isso pode parecer estranho para os leitores ocidentais do século XX. Mesmo alguns tibetanos, que se consideram "progressistas", não apreciam o meu uso continuado desse método antigo de buscar a compreensão das coisas. Faço isso pela razão simples de que quando olho para trás e relembro as muitas ocasiões em que formulei perguntas ao oráculo, em cada uma delas o tempo mostrou que sua reposta estava correta. Não que eu me baseie apenas nas respostas do oráculo. Não é assim. Busco sua opinião da mesma forma que busco a opinião do meu Gabinete (o Kashag), e da mesma forma que busco a opinião de minha própria consciência. Considero os deuses como minha "casa de cima". O Kashag constitui minha "casa de baixo". Á semelhança de outro líderes, consulto a ambos quando devo tomar uma decisão em assuntos de estado. Além disso, adicionalmente ao conselho de Nechung, também procuro levar em consideração certas profecias. Apesar de nossas funções serem similares, minha relação com Nechung é a do comandante com o ajudante: nunca me inclino a ele, ele é que se inclina ao Dalai Lama. Ainda assim somos muito próximos, quase amigos.

Ainda que possa parecer surpreendente, as respostas do oráculo raramente são vagas. Como no caso de minha fuga de Lhasa, ele é freqüentemente muito específico. Ainda assim, creio que seria difícil que algum tipo de investigação científica pudesse provar conclusivamente a validade de seus pronunciamentos. O mesmo se dá com outras áreas da experiência tibetana, por exemplo, a questão dos tulkus. Ainda assim, espero que, algum dia, possa ser realizado algum tipo de experimento com respeito a esses dois fenômenos.

Na realidade, a tarefa de identificar os tulkus é mais lógica do que pode parecer á primeira vista. Dada a crença budista no renascimento, e considerando que todo o propósito da reencarnação é possibilitar ao ser continuar seus esforços em benefício de todos os seres vivos, é uma conclusão clara que deveria ser possível identificar casos individuais. Isso habilita-os a serem educados e colocados no mundo de tal forma que continuem seu trabalho o mais rápido possível.

Certamente podem ocorrer eventuais erros nesse processo de identificação, mas as vidas da grande maioria dos tulkus (atualmente existem algumas centenas deles reconhecido, sendo que antes da invasão chinesa eram provavelmente milhares os tulkus reconhecidos) são um testemunho de sua eficácia.

Como disse, todo o propósito de reencarnação é facilitar a continuidade do trabalho de um ser. Esse fato tem grandes implicações quando se busca pelo sucessor de uma pessoa em particular. Por exemplo, ainda que meus esforços sejam geralmente dirigidos a auxiliar todos os seres, em particular eles se dirigem a auxiliar os tibetanos. Portanto, se eu morrer antes dos tibetanos readquirirem sua liberdade, seria lógico admitir que eu renasceria fora do Tibet. Naturalmente, poderia ocorrer que meu povo, nessa ocasião, não visse mais utilidade para um Dalai Lama, e nesse caso não se ocuparia de procurar-me. Assim, eu poderia renascer como um inseto, ou como um animal, de tal forma que pudesse ser de maior utilidade ao maior número de seres secientes.

O modo pelo qual o processo de identificação é procedido é também menos misterioso do que se pode parecer. Começa com um simples processo de eliminação. Digamos, por exemplo, que estamos buscando a reencarnação de um certo monge. Primeiro, devemos estabelecer quando e onde o monge morreu. Então, considerando que a nova reencarnação será concebida usualmente em torno de um ano após a morte de seu predecessor — esta duração sabemos por experiência —, fica já estabelecido um referencial temporal. Então, se um lama X morre no ano Y, sua nova encarnação provavelmente nascerá dezoito meses a dois anos após. No ano Y mais cinco, a criança deverá estar com uma idade entre três e quatro anos: o campo de busca já se estreitou consideravelmente.

A seguir, tenta-se estabelecer o lugar da reencarnação. Usualmente isso é muito fácil. Primeiro, ocorrerá dentro do Tibet? Se fora, há um número muito limitado de lugares onde seria provável: as comunidades tibetanas da Índia, Nepal, Suíça, por exemplo. Após, precisaria se decidido em que cidade a criança seria mais provavelmente encontrada. Geralmente isso é feito buscando-se referências na vida prévia.

Tendo reduzido as opções e estabelecido os parâmetros do modo descrito, o próximo passo, usualmente, é organizar o grupo de busca. Isso não significa necessariamente que um grupo de pessoas deverá ser enviado como se estivessem buscando um tesouro. De modo geral, basta perguntar a várias pessoas da comunidade para procurar pelas crianças entre três e quatro anos que poderiam ser candidatos. De modo geral, existem algumas indicações que auxiliam, como fenômenos incomuns ocorridos quando do nascimento, ou a criança pode exibir características peculiares.

Algumas vezes, duas, três ou mais possibilidades emergirão neste estágio. Ocasionalmente tal grupo será inteiramente desnecessário, porque a encarnação anterior deixou informação detalhada, inclusive com o nome de seu sucessor e de seus pais. Mas isso é rara. Outras vezes, os que buscam o monge reencarnado podem ter sonhos claros ou visões sobre onde encontrar seu sucessor. De outro lado, um elevado lama recentemente deu ordens de que sua reencarnação não deveria ser procurada. Ele disse que melhor seria instalar como seu sucessor a quem quer que pareça capaz de servir ao Darma do Buda e a sua comunidade, em lugar de preocupar-se com uma identificação precisa. Não existem regras duras, rígidas.

Se ocorre que muitas crianças surgem como candidatos, é usual que alguém muito próximo à encarnação anterior venha a fazer o exame final. Freqüentemente essa pessoa será reconhecida por uma das crianças, o que é uma forte evidência de prova; outras vezes marcas especiais no corpo são também levadas em consideração.

Algumas vezes o processo de identificação envolve a consulta a oráculos ou a alguém que tenha o poder de ngon shé (clarividência). Um dos métodos que essas pessoas usam é o Ta, através do qual o praticante fixa o olhar em um espelho, no qual ele ou ela podem ver a própria criança, ou uma construção, ou uma palavra escrita. Eu chamo isso de "televisão antiga". Isto corresponde às visões que as pessoas tiveram no lago Lhamoi Lhatso, onde Reting Rinpoche viu as letras Ah, Ka, e Ma e teve a visão de um mosteiro e de uma casa onde começou a buscar por mim.

Algumas vezes eu mesmo sou chamado para dirigir a busca por uma reencarnação. Nessas circunstâncias, é de minha responsabilidade tomar a decisão final sobre o candidato que deve ser corretamente escolhido. É importante que diga que eu não tenho poderes de clarividência. Não tive nem tempo nem oportunidade de desenvolvê-los, apesar de ter elementos para acreditar que o Décimo Terceiro Dalai Lama tenha tido alguma habilidade nessa esfera.

Como um exemplo de como faço isso, vou relatar a história de Ling Rinpoche, meu antigo tutor. Eu sempre tive o maior respeito por Ling Rinpoche; mesmo quando eu era uma criança, bastava apenas ver seu ajudante para ficar com medo, e tão pronto ouvia seus passos, meu coração paralisava. Com o tempo, vim a valorizá-lo como um de meus maiores e mais próximos amigos. Quando ele morreu, não faz muito tempo, senti que a vida sem ele ao meu lado seria muito difícil. Ele havia se tornado uma rocha sobre a qual eu podia me apoiar.

Estava na Suíça, no verão de 1983, quando pela primeira vez ouvi sobre sua doença: ele havia sofrido um derrame cerebral e ficara paralisado. Essas notícias me perturbaram muito, ainda que, como budista, soubesse que de nada adiantaria a preocupação. Tão pronto pude, retornei a Dharamsala, onde encontrei-o ainda com vida, mas em más condições físicas. Ainda assim, sua mente continuava aguda como sempre, graças a uma vida de constante treinamento mental. Sua condição permaneceu estável por muitos meses antes de subitamente deteriorar. Ele entrou em coma, de onde nunca saiu e morreu em 25 de dezembro de 1983. Mas, como se alguma evidência de ter sido uma pessoa extraordinária ainda fosse necessária, seu corpo não começou a se decompor antes de trinta dias após ter sido declarado morto, apesar do clima quente. Era como se ele ainda habitasse seu corpo, mesmo que clinicamente estivesse sem vida.

Quando olho para trás e vejo o modo pelo qual as coisas ocorreram, fico certo de que a doença de Ling Rinpoche, com sua duração prolongada, foi inteiramente deliberada, para ajudar a que me acostumasse com sua ausência. Isso, no entanto, é apenas a metade da história. Como estamos falando de tibetanos, tudo continua de forma feliz. A reencarnação de Ling Rinpoche já foi encontrada, e ele é atualmente um garoto muito vivo e espontâneo de três anos de idade. Sua descoberta foi um exemplo de quando a criança reconhece claramente um membro do grupo de busca. Apesar de estar com apenas 18 meses de idade, ele chamou pelo nome e se dirigiu sorrindo para esta pessoa. Subseqüentemente ele identificou corretamente muitos dos pertences de seu antecessor.

Quando encontrei o menino pela primeiro vez, não tive dúvida sobre sua identidade. Ele comportou-se de um modo que ficou óbvio que havia me reconhecido. Nessa ocasião eu dei ao pequeno Ling Rinpoche uma grande barra de chocolate. Ele permaneceu impassível segurando-a, braço estendido e cabeça inclinada durante todo o tempo em que esteve na minha presença. Não consigo lembrar de qualquer criança que tenha ficado com algo doce guardado sem abrir e provar, e tenha ficado parado, em pé, tão formalmente. Então, quando recebi o menino em minha residência e ele foi trazido até a porta, comportou-se exatamente como seu predecessor. Era evidente que ele lembrava do caminho. Após, quando entrou na minha sala de trabalho, imediatamente mostrou familiaridade com um dos meus auxiliares que, nessa época, se recuperava de uma perna quebrada. Em primeiro lugar, essa pequenina figura solenemente presenteou-o com um kata, e então, cheio de risadas e brincadeiras de criança, apanhou uma das muletas de Lobsang Gawa e correu em volta, sem parar, como se aquilo fosse um pau de bandeira.

Outra história muito impressionante sobre o menino refere-se ao tempo em que ele foi levado, na idade de dois anos, a Bodh Gaya, onde eu deveria dar ensinamentos. Sem que ninguém indicasse a ele e tendo subido uma escada com suas mãos e joelhos, encontrou minha cama e colocou um kata sobre ela. Hoje Ling Rinpoche já está recitando as escrituras, ainda que esteja para ser visto se ele, após aprender a ler, será como alguns dos jovens Tulkus que memorizam textos com uma velocidade estonteante, como se estivessem apenas pegando novamente o que haviam deixado. Eu conheço muitas crianças que podem declamar, com facilidade, várias páginas de texto.

Há, certamente, um elemento de mistério nesse processo de identificação dos reencarnados. Mas é suficiente dizer que, como budista, não acredito que pessoas como Mao ou Churchill apenas "acontecem".

Uma outra área da experiência tibetana que eu gostaria muito que fosse examinada cientificamente é o sistema de medicina tibetana. Além de datar de mais de dois mil anos, derivou de várias diferentes fontes, incluindo a antiga Pérsia; hoje os princípios são inteiramente budistas. Ela tem uma abordagem inteiramente diferente da medicina ocidental. Por exemplo, ela afirma que as causas-raiz da doença são a ignorância, o desejo ou o rancor.

De acordo com a medicina tibetana, o corpo é dominado pelos três principais nopa, literalmente "venenos", mas freqüentemente traduzidos como "humores". Considera-se que esses nopa estão sempre presentes no organismo. Isto significa que nunca se pode estar completamente livre das doenças, pelo menos de seu potencial, mas contanto que esteja em equilíbrio, o corpo mantém-se saudável. Entretanto, um desbalanço causado por uma das três causas-raiz se manifestará como doença, o que é diagnosticado pelo pulso do paciente ou pelo exame de sua urina. Também existem doze principais lugares nas mãos e punhos onde o pulso é examinado. A urina é similarmente examinada de diferentes maneiras (como cor, cheiro, etc.). Com respeito ao tratamento, o primeiro aspecto é a dieta; os remédios formam a segunda linha; a acupuntura e moxabustão, a terceira; a cirurgia, a quarta. Os próprios medicamentos são feitos de materiais orgânicos, algumas vezes combinados com óxidos de metais e certos minerais (incluindo, por exemplo, diamantes moídos)

Até agora tem havido pouca pesquisa clínica com respeito ao valor do sistema médico tibetano, ainda que o meu médico pessoal anterior, Dr. Yeshe Dhonden, tenha participado de uma série de experimentos de laboratório na Universidade de Virgínea, EUA. Ele teve resultados surpreendentemente bons em curar o câncer em ratos brancos, mas muito mais trabalho será necessário até que se possa chegar a conclusões definitivas. Com respeito a minha experiência própria, vejo os medicamentos tibetanos como muito eficientes. Tomo-os regularmente, não apenas para curar, mas para prevenir-me de adoecer. Percebi que esses remédios promovem um reforço da constituição física do corpo e têm efeitos colaterais desprezíveis. O resultado é que, apesar de meus longos dias e períodos intensivos de meditação, eu quase nunca experimento a sensação de cansaço.

Ainda, uma outra área onde acredito que há uma região de diálogo entre a ciência moderna e a cultura tibetana concerne ao conhecimento teórico e não experiencial. Alguma das mais recentes descobertas da física de partículas parecem apontar para a não-dualidade entre mente e matéria. Por exemplo, foi encontrado que se um vácuo (o que significa o espaço vazio) é comprimido, aparecem partículas onde nada havia antes, o que seria matéria, de alguma maneira, aparentemente inerente. Essas descobertas parecem oferecer uma área de convergência entre a ciência e a teoria budista Madhyamika do vazio. Essencialmente, essa teoria afirma que a mente e a matéria existem separadamente, mas de forma interdependente.

Estou bem consciente, no entanto, do perigo de ligar as crenças espirituais a qualquer sistema científico. Pois, enquanto o budismo continua sendo relevante dois e meio milênios após seu início, os fundamentos absolutos da ciência têm uma vida relativamente muito mais curta. Isto não é para poder afirmar que eu considero que coisas como os oráculos ou a capacidade dos monges de ficarem ao relento durante noites, em condições de congelamento, seja uma evidência de poderes mágicos. Ainda assim não posso concordar com nossos irmãos e irmãs chineses, que sustentam que a aceitação desses fenômenos é uma evidência de nosso atraso e barbárie. Mesmo do mais rigorosos ponto de vista científico, esta não é uma atitude objetiva.

Ao mesmo tempo, mesmo que um princípio seja aceito, isso não significa que tudo que esteja conectado com ele seja válido. Por analogia, seria burlesco seguir escravizadamente e sem qualquer discriminação todas as afirmações de Marx e Lênin, mesmo em face da evidência clara de que o comunismo é um sistema imperfeito. É preciso manter grande vigilância em áreas onde não temos grande experiência. Isso, naturalmente, é onde a ciência pode auxiliar. Enfim, só vemos as coisas como misteriosas quando não as entendemos.

Até agora os resultados das pesquisas que descrevi têm sido benéficos para todas as partes. Compreendo, no entanto, que esses resultados são tão acurados quanto os experimentos que conduziram a eles. Além do mais, estou consciente que se algo não é encontrado isso não significa sua inexistência, isso apenas prova que o experimento foi incapaz de encontrá-lo. Esta é a razão pela qual precisamos ser cuidadosos em nossas pesquisas, especialmente quando lidando em uma área onde a pesquisa científica é pequena. É também importante manter em mente as limitações impostas pela própria natureza. Por exemplo, enquanto a investigação cientifica não pode apreender meus pensamentos, isso não significa que eles sejam inexistentes, nem que algum outro método de pesquisa não possa descobrir algo a respeito deles, e aí é que entra a experiência tibelana. Através do treinamento mental, desenvolvemos técnicas que a ciência atual não pode ainda explicar adequadamente. Isto, então, é a base da suposto "magia e mistério" do budismo tibetano.

(Tradução e resumo da revista Bodisatva a partir do livro Freedom in Exile, editado em português pela Editora Siciliano.)

Ensinamentos: Uma mente tendenciosa não percebe a realidade

Estou muito satisfeito em participar deste seminário inter-religioso sobre a Harmonia Religiosa, Co-existência e Paz Universal organizado pela Associação Internacional pela Liberdade Religiosa, Grupo de Ladakh. Muito obrigado pela explicação detalhada da história da associação, suas atividades, objetivos e sua relevância no século atual. Não tenho nada a adicionar ao que os oradores disseram. Porém, gostaria de dizer algumas palavras.

Nós estamos agora no século vinte e um. A qualidade da pesquisa sobre o mundo interno, assim como o físico, atingiu níveis bem elevados, graças ao tremendo passo dado em direção ao avanço tecnológico e inteligência humana. Entretanto, como alguns palestrantes já mencionaram anteriormente, o mundo também enfrenta vários problemas novos, a maioria deles criados pelo homem. A causa-raiz desses problemas criados pelo homem é a incapacidade dos seres humanos de controlar suas mentes agitadas. Várias religiões ensinam como controlar tal estado da mente.

Sou um praticante religioso, que segue o budismo. Mais de mil anos se passaram desde que as grandes religiões do mundo floresceram, inclusive o budismo. Durante esses anos, o mundo presenciou muitos conflitos nos quais os seguidores de religiões diferentes também estavam envolvidos. Como um praticante religioso, reconheço o fato de que diferentes religiões do mundo apresentaram muitas soluções para controlar uma mente agitada. Apesar disto, sinto ainda que não fomos capazes de realizar o nosso potencial.

Sempre digo que todas as pessoas neste mundo têm a liberdade para praticar, ou não, uma religião. Pode-se também se fazer ambas. Porém, uma vez que você aceita uma religião, é extremamente importante poder focar a nossa mente nisso e praticar sinceramente os ensinamentos na nossa vida cotidiana. Todos nós podemos ver que temos a tendência de nos comprazermos com favoritismo religioso dizendo: "Pertenço a esta ou aquela religião", em lugar de fazer um esforço para controlar nossas mentes agitadas. Este mau uso da religião, por causa de nossas mentes transtornadas, também cria problemas às vezes.

Conheço um físico do Chile que me falou que não é apropriado para um cientista ser tendencioso em relação à ciência por causa de seu amor e paixão por ela. Sou um praticante budista e tenho muita fé e respeito pelos ensinamentos do Buda. Porém, se misturo meu amor e apego pelo budismo, então minha mente será influenciada por isto. Uma mente tendenciosa, que nunca vê o quadro completo, não pode perceber a realidade. E qualquer ação que resulte de tal um estado de mente, não estará sintonizada com a realidade. Assim, causa muitos problemas.

De acordo com a filosofia budista, a felicidade é o resultado de uma mente iluminada enquanto o sofrimento é causado por uma mente distorcida. Isto é muito importante. Uma mente distorcida, em contraste com uma mente iluminada, é aquela que não está sintonizada com a realidade.

Qualquer assunto, incluindo atividades políticas, econômicas e religiosas, que os seres humanos exercem neste mundo, deveria ser entendido completamente antes de fazermos um julgamento. De qualquer maneira, as coisas mundanas são os resultados de tantas causas e condições. Portanto, é muito importante conhecê-las. Isto nos permitirá entender a história completa. Os ensinamentos oferecidos no budismo são baseados em racionalidade, e acredito serem muito produtivos.

Hoje, muitas pessoas de diferentes tradições religiosas estão aqui presentes. Todos vocês podem estar com um ponto de interrogação em suas mentes: qualquer coisa que possa ser sentida e seja possível, deveria ser uma questão de podermos perceber isto por nossa mente, ou não. Não é fácil responder a esta pergunta. Em cada religião, há coisas transcendentes que estão além do entendimento de nossa mente e fala. Por exemplo, o conceito de Deus no cristianismo e no islamismo em que o corpo da verdade de sabedoria no Budismo é metafísico, que não é possível para uma pessoa comum como nós perceber. É ensinado em todas as religiões, inclusive no cristianismo, budismo, hinduísmo e islamismo, que a verdade última é guiada pela fé.

Quero enfatizar que é extremamente importante para os praticantes acreditar sinceramente em suas respectivas religiões. Normalmente, eu digo que é muito importante distinguir entre "acreditar em uma religião" e "acreditar em muitas religiões". O primeiro contradiz diretamente o último. Portanto, devemos resolver solucionar estas contradições. Isto só é possível quando se pensa em termos contextuais. Uma contradição em um contexto pode não ser a mesma em outro. No contexto de uma pessoa, uma única verdade está muito associada com uma única fonte de refúgio. Isto é de extrema necessidade. Entretanto, no contexto da sociedade ou mais de uma pessoa, é necessário ter diferentes fontes de refúgio, religiões e verdades.

No passado não era um grande problema porque as nações permaneciam alheias umas às outras com suas próprias religiões. Entretanto, no mundo de hoje que é próximo e interconectado, há tantas diferenças entre as várias religiões. Devemos obviamente resolver estes problemas. Por exemplo, houve muitas religiões na Índia nos últimos milênios. Algumas foram importadas de fora, enquanto outras cresceram na própria Índia. Apesar disso, o fato é que estas religiões puderam coexistir, e o princípio de Ahimsa realmente floresceu nesse país. Mesmo hoje, esse princípio tem um papel muito importante em cada religião. Isto é muito precioso e a Índia deveria se orgulhar disso.

O Ladakh é uma área predominantemente budista há tantos séculos. Mas outras religiões como o islamismo, cristianismo, hinduísmo e sikhismo têm também florescido aqui. Embora seja natural para as pessoas de Ladakh se apegarem e amarem suas religiões, este local tem um ambiente muito pacífico, sem maiores problemas de intolerância religiosa. Durante minha visita inicial a Ladakh, ouvi muçulmanos mais velhos usando a seguinte frase: "comunidade de sangha" em suas falas. Apesar dessas frases não serem encontradas no islamismo, contudo uma referência deste tipo invoca muita confiança entre os budistas. Assim, as pessoas de diferentes religiões em Ladakh estão muito próximas umas das outras e vivem em harmonia.

É apropriado para os muçulmanos terem total devoção a Alá quando rezam nas mesquitas. O mesmo acontece com os budistas, totalmente devotos a Buda quando rezam nos templos budistas. Uma sociedade, com muitas religiões, deve ter muitos profetas e fontes de refúgio. Nessa sociedade é importante se ter harmonia e respeito entre as diferentes religiões e seus praticantes. Crença se refere à fé total, que você deve ter na sua própria religião. Ao mesmo tempo deve-se respeitar todas as outras religiões. Esta tradição de acreditar em sua própria religião e respeitas as outras tradições existe em Ladakh, deste o tempo dos seus ancestrais. Portanto, você não precisa inventá-la. Gostaria de agradecer a todos por trabalharem muito para isso e peço que continuem fazendo o mesmo no futuro.

Se uma relação harmoniosa se estabelece entre as sociedades e crenças religiosas no mundo atual, multi-étnico, multi-religioso e multi-cultural, então, será um bom exemplo para as outras. Entretanto, se todos os lados se descuidarem, então há o perigo de problemas iminentes. Numa sociedade multi-étnica, o maior problema é o que existe entre a maioria e a minoria. Por exemplo, na capital Leh, os budistas constituem a maioria da população, enquanto os muçulmanos pertencem a uma comunidade minoritária. A maioria deve considerar a minoria como sendo seus convidados. A minoria, por outro lado, deve ser capaz de sensibilizar-se com a maioria. Em outras palavras, os dois lados devem viver em harmonia. Para poder sustentar esta harmonia, ambos os lados não devem deixar de prestar atenção nas questões sensíveis que existem entre eles. Realmente, a maioria deveria prestar atenção e apreciar a visão e opinião da minoria. Ambos os lados devem discutir e expressar claramente o que pensam em relação à visão e a opinião do outro. A minoria, por outro lado, deveria ter cuidado e ver onde estão as questões sensíveis da maioria e expressar quaisquer dúvidas que possam ter. Se os problemas forem resolvidos de forma bastante amigável, então ambos os lados sairão ganhando. Suspeitar um do outro só prejudica ambas as comunidades. Portanto, é muito importante viver em harmonia e analisar a opinião do outro. A melhor maneira de fazer isso é se envolver em diálogo, diálogo e diálogo.

(Excertos da palestra de Sua Santidade o Dalai Lama no seminário inter-religioso organizado pela Associação Internacional pela Liberdade Religiosa, Grupo de Ladakh, em Leh, no dia 25 de agosto de 2003. Traduzido por Helena Soares Hungria.)

KARIRI XOCÓ - A LUTA DAS MULHERES INDÍGENAS

A índia e a inclusão nos movimentos sociais organizados nessa era revolucionaria a mulher indigena vem aos poucos se incluindo em movimentos sociais devido as grandes necessidades sofridas pelo povo gerada até por decisão de lideres que por muitas vezes prejudica a comunidade; também ela vem se incluindo na busca ao direito sobre educação, saúde e trabalho. E dentro de sua disponibilidade e habilidade nós trabalhamos realizadas como artesanatos, músicas, danças e cura. cada vez mais está aparecendo hoje a mulher índia que luta para ser qualificar é sustentar a sua familia.

Ydayany Kariri-Xocó

http://webradiobrasilindigena.wordpress.com/mulheres-indigenas-forca-de-nossas-aldeias/

Pataxó Hã-hã-hãe

Mulheres Indígenas, força de nossas aldeias

Com o passar do tempo a vida de nós mulheres indígenas vem mudando muito, pois antigamente nós tínhamos nossos afazeres limitados a cuidar dos filhos e da manutenção das roças e das casas. Atualmente nós mulheres entramos na política e temos voz ativa nas decisões da aldeia. Voz que antes era restrita aos homens. Hoje temos mulheres ocupando cargo de cacique que antes era cargo limitado aos homens, por terem que viajar muito e tomar decisões mais serias para a vida do nosso povo. Na minha aldeia Pataxó Hã Hã Hãe, nós mulheres temos um espaço muito grande na política indígena, já tivemos mulher candidata a vereadora e temos mulheres ocupando cargo de lideres até de cacica. Vemos isso como um grande avanço para nossa sociedade. Isso também é prova que os homens indígenas não são tão machistas quanto se pensa, pois para nós mulheres conseguirmos esse tipo de cargo precisamos do apoio dos homens também e eles reconhecem que temos capacidade de assumir os cargos que conquistamos.
Queremos continuar crescendo nosso espaço político na aldeia e fora dela, pois somos capazes e isso é importante para acabar com o preconceito de que mulher indígena só serve pra cuidar dos filhos e da casa. Todo dia é dia da mulher indígena, pois trabalhamos muito duro pelo nosso povo, porém é importante termos uma data para comemorar nosso dia e é por isso que temos o dia 30 de outubro como o nosso dia.

Olinda Muniz Pataxó Hã-hã-hãe

TUXÁ - HERÓINAS

Pensei que fosse fácil ter algo a dizer sobre nós: Mulheres Indígenas !Mas, percebo que é um denso e complexo tema, uma vez que, falar sobre Mulher de um modo geral, é estar se voltando a essência da vida, olhando a progenitora da criação.

Contudo, somente há pouco tempo conseguimos sair deste lugar, de apenas, “mulher da criação” e sermos vistas pelo nosso potencial, pela nossa garra, altivez, sensatez… Afinal, de manhã quando abrimos os nossos olhos, já estamos prontas para mais um dia de labuta, de alegrias, conflitos e descobertas…
Nosso sorriso esta disposto a ser ofertado à tudo aquilo que é belo e criado por Tupã; as nossas mãos estão ágeis a produção: do artesanato, do cozido, da limpeza, de um carinho, de um balanço no maracá e para ninar a nossa “cria”;
Nosso corpo em si, encontra-se apto, em movimentos: indo, vindo, fazendo, somando, dançando, vibrando e Sendo.E enquanto aos nossos olhos?
Hum…estes nossos olhos puxados e vividos muitas vezes choram, e como choram por ver tanto descaso, preconceito, desfeitas, intrigas, falsas promessas…
Mas aí, uma voz sábia fala aos nossos ouvidos:
- Você tem identidade, tem cultura, tem força…Lute!
E de repente, essa voz faz com que o nosso choro se converta em uma expressão facial de quem se prepara para guerrear . Nos tornamos assim, Grandes Mulheres Indígenas -Guerreiras!
Aproveito para fazer uso da analogia do parente Anápuaká - Pataxó hã-hã-hãe, a respeito da “água da fonte”).
Pois é parente, nós mulheres indígenas ao despertar dessa “voz”, lá estamos: lindas e fortes bebendo a água da fonte das nossas raízes culturais. Tentando matar a nossa sede e a sede dos ‘Nossos” por: justiça, respeito, solidariedade, igualdade , amparo;
E principalmente lá estamos, porque bebemos da água da criação, pois é, volto ao inicio do texto, porque somos e temos a honra de ter força suficiente para “parir”, ou seja, perpetuamos a nossa raça, damos luz/ vida a novos olhares, novos sorrisos, damos vida a novos guerreiros e guerreiras.
Enfim, como Mulher Tuxá que sou, digo que nós, não somos apenas Mulheres Indígenas, mais sim: HERÓINAS!

Nita Tuxá

Índias! Nossas vidas, nosso caminho

Para nós mulheres indígenas os desafios surgem muito cedo, pois com o casamento a comunidade espera que nós sejamos boas esposas, cuidando da casa e dos filhos. Porem, se uma mulher quer seguir um rumo diferente na sua vida, tem que enfrentar alguns preconceitos, pois a comunidade questiona porque uma mulher casada procura um modo diferente pra sua vida. Atualmente essa perspectiva vem mudando, mas a comunidade ainda tem aquele pensamento de que os homens devem sustentar a família.

Assim o papel da mulher fica basicamente voltado para a família, dando apoio emocional, afetivo e moral. Porém, a cada dia que passa, nós mulheres estamos conquistando nosso espaço dentro da aldeia e devido a nossas novas posições precisamos ter formação acadêmica, melhorando cada vez mais nossas capacidades.

Hoje na minha aldeia o numero de mulheres que estão buscando uma educação escolar melhor é maior que o dos homens, mulher tem e sempre teve uma influencia muito grande nas decisões internas nas aldeias, só que isso não transparece muito para toda a comunidade. Como acontece, parece que só os homens são importantes nas decisões e ações que são fundamentais para a comunidade, mas a mulher com certeza sempre influencia ou toma a decisão diretamente. Hoje nesse nosso dia eu quero dar parabéns a todas nós mulheres principalmente nós mulheres indígenas, pois estamos buscando o que queremos para melhorar nossas vidas. Sei como é difícil para nós seguirmos caminhos que muitas vezes nos afastam um pouco dos nossos filhos, de nossa família, mas isso faz parte de assumir mais responsabilidades, e lembremos que quando conquistamos mais espaço passamos a ser mais vitoriosas por conseguirmos conquistas que melhoram a vida de nossa família e de toda a nossa comunidade.

Olinda Muniz (Clairê Pataxó Hã-hã-hãe)